57. AS VOZES DO TEMPO


A nave estelar Magalhães ainda se encontrava a apenas algumas horas-luz de distância quando Kumar Lorenson nasceu, mas seu pai ainda dormia, e só iria receber a notícia trezentos anos depois. Ele chorou ao pensar que seu sono sem sonhos tinha abrangido toda a vida de seu primeiro filho. Quando conseguia enfrentar o suplício, ele observava os registros que aguardavam por ele nos bancos de memória. Poderia então ver seu filho crescer até se tornar adulto, e ouvir sua voz enviando saudações através dos séculos. Saudações que jamais poderia responder. E veria também (não havia meio de evitar) o lento envelhecer da mulher há muito morta, que ele tivera em seus braços há apenas uma semana atrás. Seu último adeus lhe chegava de lábios há muito transformados em pó. A tristeza, embora profunda, logo passaria. A luz de um novo sol enchia o céu adiante, logo haveria outro nascimento, num mundo que já arrastava a nave estelar Magalhães para sua órbita final. Um dia toda a dor cessaria, mas nunca a lembrança.

FIM


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