As Valkírias

Estava dirigindo há quase seis horas. Pela centésima vez, ele perguntou à mulher ao seu lado se aquele era o caminho certo.

Pela centésima vez, ela consultou o mapa. Sim, era o caminho certo. Embora tudo ao redor fosse verde, com um belo rio correndo, e árvores ao lado da estrada.

– É melhor pararmos num posto de gasolina e perguntar – disse ela. Continuaram sem conversar, escutando músicas antigas numa estação de rádio. Chris sabia que não era preciso parar no posto, porque estavam no rumo – mesmo que o cenário à volta deles mostrasse uma paisagem completamente diferente. Mas conhecia bem o marido – Paulo estava tenso, desconfiado, achando que ela estava lendo o mapa de maneira errada. Ficaria mais tranqüilo se perguntasse a alguém.

– Por que viemos para cá?

– Para que eu possa cumprir minha tarefa – respondeu ele.

– Estranha tarefa – disse ela.

Realmente muito estranha, pensou ele.

Conversar com seu anjo da guarda.

– Você vai conversar com seu anjo – disse ela, depois de algum tempo. – Mas, enquanto isso, que tal conversar um pouco comigo?

Ele continuou calado, concentrado na estrada, possivelmente achando que ela errara o caminho. “Não adianta insistir”, pensou ela. Ficou torcendo para que um posto de gasolina aparecesse logo; haviam saído direto do aeroporto de Los Angeles para a estrada – ela tinha medo de que Paulo estivesse cansado demais, e cochilasse na direção.

E a droga do lugar não chegava nunca.

“Devia ter casado com um engenheiro”, disse para si mesma.

Nunca se acostumaria com aquilo – largar tudo de repente, ir atrás de caminhos sagrados, espadas, conversas com anjos, fazer todo o possível para seguir adiante no caminho da magia. “Ele sempre teve a mania de largar tudo, mesmo antes de encontrar J.”

Ficou lembrando do dia em que saíram juntos pela primeira vez. Tinham ido logo para a cama, e em uma semana ela já havia levado sua prancheta de trabalho para o apartamento dele. Os amigos comuns diziam que Paulo era um bruxo, e certa noite Chris telefonou para o pastor da igreja protestante que freqüentava pedindo que rezasse por ela.

Mas, no primeiro ano, ele não falara em magia uma única vez. Trabalhava numa gravadora, e isto era tudo.

No ano seguinte, a vida continuou igual. Ele pediu demissão, e foi trabalhar em outra gravadora.

No terceiro ano, ele tornou a pedir demissão (mania de largar tudo!), e resolveu escrever programas para a TV. Ela achava aquilo estranho, mudar de emprego todo ano – mas ele escrevia, ganhava dinheiro, e viviam bem.

Até que, no final do terceiro ano, resolveu – mais uma vez – sair do emprego. Não explicou nada, disse apenas que estava farto do que fazia, que não adiantava ficar pedindo demissão, mudando de um emprego para outro. Precisava descobrir o que queria. Tinham juntado algum dinheiro, e resolveram sair pelo mundo.

“Num carro, exatamente como agora”, pensou Chris.

E haviam encontrado com J. em Amsterdam, enquanto tomavam um café no Brower Hotel e olhavam o canal Singel. Paulo ficou branco quando o viu, ansioso, e finalmente tomou coragem e foi até a mesa daquele senhor alto, de cabelos brancos e terno. Naquela noite, quando ficaram sozinhos de novo, ele bebeu uma garrafa inteira de vinho – era fraco na bebida, ficou logo bêbado – e só então falou que, durante sete anos, havia se dedicado a aprender magia (embora ela já soubesse isto, os amigos haviam contado). Entretanto, por alguma razão – que ele não explicou, embora ela perguntasse várias vezes – havia abandonado tudo.

“Mas tive a visão deste homem, dois meses atrás, no campo de concentração de Dachau”, disse ele, referindo-se a J.

Ela lembrava-se daquele dia. Paulo chorara muito, dizendo que estava escutando um chamado, mas não sabia como atender.

“Devo voltar à magia?”, perguntou ele.

“Deve”, ela respondera, sem ter certeza do que dizia.

Desde o encontro com J., tudo havia mudado. Eram rituais, exercícios, práticas. Eram longas viagens com J., sempre sem data certa para voltar. Eram encontros demorados com homens estranhos e mulheres bonitas, todos com uma aura de sensualidade enorme vibrando em torno. Eram desafios e provas, longas noites sem dormir, e longos finais de semana sem sair de casa. Mas Paulo estava muito mais contente –

não vivia mais pedindo demissão. Criaram juntos uma pequena editora, e ele conseguiu realizar um sonho antigo – escrever livros.

Um posto apareceu, afinal. Uma menina jovem, de traços índios, veio atendê-los. Os dois saltaram para caminhar um pouco enquanto a menina enchia o tanque do carro. Paulo pegou o mapa e conferiu o roteiro. Estavam no caminho certo.

“Agora, ele relaxou. Vai conversar comigo”, pensou ela.

– J. mandou você encontrar com o anjo aqui? – perguntou com todo cuidado.

– Não – disse ele.

“Que bom, me respondeu”, pensou ela enquanto olhava a vegetação brilhante. O sol começava a descer. Se não tivesse olhado várias vezes o mapa, também duvidaria que estivessem no caminho. Devia faltar menos de dez quilômetros para chegarem, e aquele cenário parecia dizer que ainda estavam longe, muito longe.

– J. não disse para vir para cá – continuou Paulo. – Qualquer lugar servia. Mas aqui eu tenho um contato, entende?

Claro que ela entendia. Paulo sempre tinha contatos. Ele se referia a estas pessoas como membros da Tradição; mas ela, quando escrevia seu diário, chamava de “Conspiração”. Havia muito mais bruxos e feiticeiros do que as pessoas sonhavam.

– Alguém que conversa com anjos?

– Não tenho certeza. J. certa vez se referiu – muito de leve – a um mestre da Tradição que vive aqui, e que sabia como conversar com anjos. Mas pode ser apenas um boato. Talvez estivesse falando sério. Mas Chris sabia que ele podia ter sorteado um lugar, um dos muitos lugares onde ele tinha “contatos”. Um lugar onde se ficasse distante da vida diária, e pudesse se concentrar mais no Extraordinário.

– E como você vai conversar com seu anjo?

– Não sei.

“Que maneira estranha de viver”, pensou. Acompanhou com os olhos o marido, enquanto ele se dirigia até a menina índia para pagar a conta. Sabia apenas que precisava conversar com anjos, e isto era tudo! Largar o que estava fazendo, pegar um avião, viajar doze horas até Los Angeles, dirigir seis horas até aquele posto, armar-se de suficiente paciência para ficar quarenta dias por ali, tudo isto para conversar –

ou melhor, tentar conversar – com o anjo da guarda!

Ele riu para ela, e ela sorriu de volta. Afinal de contas, não era tão mau assim. Tinham seus aborrecimentos diários, tinham que pagar contas, descontar cheques, visitar gente por pura cortesia, engolir coisas difíceis.

Mas ainda acreditavam em anjos.

– Vamos conseguir – disse ela.

– Obrigado pelo “vamos” – ele respondeu. – Mas o mago aqui sou eu.

A menina do posto disse que estavam certos. Dirigiram mais dez minutos, desta vez com o rádio desligado. Havia uma pequena elevação, mas só quando chegaram no topo – e viram a paisagem lá

embaixo – foi que perceberam como estavam alto. Passaram todas aquelas seis horas subindo devagar, sem sentir.

Mas tinham chegado.

Ele colocou o carro no acostamento e desligou o motor. Ela ainda olhou para trás, para ver se era verdade mesmo: sim, ela podia ver árvores verdes, plantas, vegetação. E na sua frente, por todo o horizonte, estendia-se o Mojave. O enorme deserto que se espalhava por cinco estados americanos, que entrava pelo México, o deserto que ela vira tantas vezes nos filmes de cowboy quando era criança, o deserto que tinha lugares com nomes estranhos como Floresta do Arco-Íris ou Vale da Morte.

“É cor-de-rosa”, pensou Chris. Mas não disse nada. Ele estava olhando fixo para aquela imensidão, quem sabe tentando descobrir onde moravam os anjos.


Quem ficar no meio da praça principal, pode ver onde Borrego Springs começa e onde termina. Entretanto, a cidadezinha possuía três hotéis. No inverno os turistas vinham ali lembrar o sol. Deixaram a bagagem no quarto e foram jantar num restaurante de comida mexicana. O

rapaz que atendeu ficou longo tempo por perto tentando entender que língua estavam falando e, como não conseguiu, terminou por perguntar. Ao saber que vinham do Brasil, disse que jamais conhecera um brasileiro.

– Agora conheço dois – riu.

Provavelmente, no dia seguinte, a cidade inteira saberia. Não havia muita novidade em Borrego Springs.

Acabaram de comer e foram passear, de mãos dadas, pelos arredores da cidade. Ele queria pisar no deserto, sentir o deserto, respirar o ar do Mojave. Terminaram se embrenhando no solo cheio de pedras e rochas; depois de meia hora de caminhada, podiam olhar para o leste e ver as poucas luzes distantes de Borrego Springs.

Ali podiam contemplar melhor o céu. Deitaram-se no chão e ficaram fazendo pedidos para as estrelas cadentes. Não havia lua, e as constelações brilhavam.

– Você já teve a sensação de que, em determinados momentos de sua vida, alguém a observa fazer as coisas? – Paulo perguntou.

– Como é que você sabe disso?

– Porque sei. São momentos em que, sem ter consciência, notamos a presença dos anjos. Chris lembrou-se da adolescência. Naquela época, esta sensação era muito mais forte.

– Nesse momento – continuou ele –, começamos a criar uma espécie de filme, onde somos personagens principais e agimos na certeza de que alguém nos vigia.

“Mas aí, à medida que crescemos, começamos a achar isso ridículo. Parece que é sonho de criança que quer ser ator ou atriz de cinema. Esquecemos que, naqueles momentos em que representávamos para uma platéia invisível, a sensação de sermos vistos era muito forte.”

Ficou em silêncio um momento.

– Quando olho o céu, muitas vezes esta sensação volta, acompanhada da mesma pergunta: quem está nos vigiando?

– Quem nos vigia? – perguntou ela.

– Anjos. Os mensageiros de Deus.

Ela mantinha os olhos fixos no céu. Queria acreditar naquilo.

– Todas as religiões, e todas as pessoas que já viram o Extraordinário, falam em anjos –

continuou Paulo. – O Universo está povoado de anjos. São eles que nos trazem a esperança, como o que anunciou aos pastores que um messias havia nascido. Trazem a morte, como o anjo exterminador que caminhou pelo Egito e destruiu os que não tinham um sinal na porta. São eles que podem nos impedir de entrar no Paraíso com uma espada de fogo na mão. Ou podem nos convidar para ele, como um anjo fez com Maria.

“Os anjos abrem os selos dos livros proibidos, tocam as trombetas do Juízo Final. Trazem a luz, como Miguel, ou as trevas, como Lúcifer.”

Chris tomou coragem e fez a pergunta:

– Eles têm asas?

– Ainda não vi um anjo – ele respondeu. – Mas também quis saber isto. E perguntei a J.

“Que bom”, pensou ela. Não era a única a querer saber coisas simples a respeito de anjos.

– J. me disse que eles tomam a forma que a gente imaginar. Porque são o pensamento vivo de Deus, e precisam se adaptar à nossa sabedoria e ao nosso entendimento. Sabem que, se não agirem desta maneira, não conseguimos vê-los.

Paulo fechou os olhos.

– Imagine seu anjo, e sentirá sua presença neste momento – concluiu. Ficaram em silêncio, deitados no deserto. Não podiam ouvir qualquer ruído, e Chris começou a sentir-se de novo no mesmo filme de sua adolescência, onde representava para platéias invisíveis. Quanto mais se concentrava, mais tinha certeza de que, à sua volta, existia uma presença forte, amiga e generosa. Começou a imaginar seu anjo, vestiu-o exatamente como via nas gravuras da infância: roupa azul, cabelos dourados e imensas asas brancas.

Paulo também imaginava seu anjo. Já mergulhara muitas vezes no mundo invisível que o cercava, e aquilo não era novidade para ele. Mas agora, desde que J. lhe dera a tarefa, sentia que seu anjo estava muito mais presente – como se os anjos se fizessem notar apenas para aqueles que acreditavam na sua existência. Embora, a despeito do que o homem acreditasse ou não, eles sempre estivessem ali – mensageiros da vida, da morte, do inferno e do paraíso.

Vestiu um longo manto bordado de ouro no seu anjo, e também colocou asas.


O guarda que estava tomando o café da manhã na mesa ao lado virou-se para eles.

– Não tornem a ir para o deserto de noite – disse.

“Realmente esta é uma cidade muito pequena”, pensou Chris. “Sabem de tudo.”

– A noite é a hora mais perigosa – continuou o guarda. – Saem os coiotes, as cobras. Eles não suportam o calor do dia, e vão caçar quando o sol se põe.

– Estávamos vendo nossos anjos – respondeu Paulo.

O guarda achou que aquele homem não falava inglês direito. Sua frase não fazia sentido:

“anjos”! Talvez tentasse dizer outra coisa.

Os dois tomaram o café às pressas. O “contato” havia marcado o encontro para bem cedinho.

Chris ficou surpresa quando viu Took pela primeira vez – era um garoto, não devia ter mais de vinte anos. Morava num trailer estacionado em pleno deserto, a alguns quilômetros de Borrego Springs.

– Um mestre da “Conspiração”? – ela disse baixo para Paulo depois que o rapaz entrou para trazer um chá gelado.

Mas o rapaz voltou antes que ele pudesse responder. Sentaram-se debaixo de uma lona estendida na lateral do veículo, que servia de “varanda”.

Falaram dos rituais templários, da reencarnação, da magia sufi, dos caminhos da Igreja Católica na América Latina. O menino parecia ter uma vasta cultura, e era engraçado ver a conversa dos dois

– pareciam aficionados conversando sobre algum esporte muito popular, defendendo certas táticas e atacando outras.

Falaram de tudo – menos de anjos.

O sol começou a esquentar, tomaram mais chá enquanto Took, sempre risonho, contava maravilhas sobre a vida no deserto – embora, advertiu, os principiantes jamais devessem sair durante a noite (o guarda tinha razão). Deviam, também, evitar as horas mais quentes do dia.

– Um deserto é feito de manhãs e tardes – contou. – O resto é arriscado. Chris acompanhou a conversa durante longo tempo. Mas acordara muito cedo, a claridade do sol ficava cada vez mais forte, e ela resolveu fechar um pouco os olhos e tirar um cochilo.

Quando acordou, o som das vozes não vinha mais do mesmo lugar. Os dois homens estavam na parte de trás do trailer.

– Por que você trouxe a mulher? – escutou Took dizer baixinho.

– Porque vinha para o deserto – respondeu Paulo, também baixinho. Took riu.

– Está perdendo o melhor do deserto. A solidão.

(“Que garoto metido”, pensou Chris.)

– Fale-me delas – disse Paulo.

– Elas o ajudarão a ver seu anjo – continuou o americano.

(Outras mulheres. Sempre assim, outras mulheres!)

– Foram elas que me ensinaram. Mas as Valkírias são ciumentas e duras. Tentam seguir as leis dos anjos – e, você sabe, no reino dos anjos não existe nem o Bem e nem o Mal.

– Não da maneira como entendemos.

Era a voz de Paulo. Chris não sabia o que “Valkírias” significava. Lembrava-se vagamente de ter escutado este nome como título de uma música.

– Foi difícil para você ver o anjo?

– A palavra certa é “sofrido”. Aconteceu de repente, na época em que as Valkírias passaram por aqui. Resolvi aprender o processo apenas para me distrair, porque, naquela altura, ainda não entendia a língua do deserto, e achava tudo muito chato.

“Meu anjo apareceu naquela terceira montanha. Eu estava lá distraído, ouvindo música num walkman. Naquela época eu dominava por completo a segunda mente. Agora ando mais distraído.”

(Que diabos seria “segunda mente”?)

– Seu pai lhe ensinara algo?

– Não. E, quando perguntei a ele por que não me falara de anjos, ele respondeu que certas coisas são tão importantes que a gente tem que descobrir sozinho. Ficaram um instante em silêncio.

– Se você encontrá-las, existe algo que vai facilitar seu contato – disse o rapaz.

– O quê?

Took deu uma boa gargalhada.

– Você saberá. Mas seria muito melhor se tivesse vindo sem sua mulher.

– Seu anjo tinha asas? – perguntou Paulo.

Antes que Took pudesse responder, Chris já havia se levantado da cadeira de alumínio, dando a volta no trailer, e se colocado na frente dos dois.

– Por que ele insiste nesta história de que você estaria melhor sozinho? – disse, em português. – Quer que eu vá embora?

Took continuou a conversar com Paulo, sem prestar a menor atenção ao que Chris dizia. Ela esperou para ver se Paulo respondia – mas parecia ter ficado invisível.

– Me dá a chave do carro – disse, quando sua paciência esgotou.

– O que sua mulher deseja? – Took perguntou finalmente.

– Está querendo saber o que é “segunda mente”.

(Danado! Nove anos juntos, e o outro já passa a saber até o momento em que acordamos!) O rapaz levantou-se.

– Meu nome é Took (recebido, em inglês) – disse, olhando para ela. – Não é Gave (dado). Mas você é uma mulher bonita.

O elogio teve efeito imediato. O menino parecia saber tratar as mulheres, apesar de sua pouca idade.

– Sente-se, feche os olhos, e lhe mostro – disse.

– Não vim para o deserto aprender magia, ou conversar com anjos – disse Chris. – Vim acompanhar meu marido.

– Sente-se – insistiu Took, rindo.

Ela olhou uma fração de segundo para Paulo. Não conseguiu descobrir o que ele achava da proposta de Took.

“Respeito o mundo deles, mas não é o meu”, pensou. Embora todos os amigos acreditassem que ela mergulhara no estilo de vida do marido, o fato é que conversavam muito pouco a respeito. Costumava acompanhá-lo a determinados lugares, carregara certa vez a sua espada em uma cerimônia, conhecia o Caminho de Santiago,* e tinha – por força das circunstâncias – aprendido um bocado sobre magia sexual!

Mas isto era tudo.

J. jamais fizera tal proposta: ensinar algo.

– Que faço? – perguntou para Paulo.

– O que você decidir – ele respondeu.

“Eu o amo”, pensou. Aprender algo sobre seu mundo, com certeza, a aproximaria mais dele. Dirigiu-se à cadeira de alumínio, sentou-se e fechou os olhos.

– Em que está pensando? – perguntou Took.

– No que vocês falavam. Em Paulo viajando sozinho. Em segunda mente. Se o seu anjo tinha asas. E por que isto está me interessando tanto. Afinal de contas, acho que nunca conversei sobre anjos.

– Não, não. Quero saber se existe outra coisa acontecendo em seu pensamento. Algo que você não controla.

Ela sentiu as mãos dele tocando os lados de sua cabeça.

– Relaxe, relaxe – o tom de sua voz estava mais suave. – Em que você está pensando?

Havia sons. E vozes. Só agora ela se dava conta do que estava pensando, embora estivesse com aquilo na cabeça quase um dia inteiro.

– Uma música – respondeu. – Estou cantando sem parar essa música desde que escutei ontem no rádio, quando estávamos vindo para cá.

Sim, ela estava cantando esta música sem cessar, começava e acabava, acabava e começava de novo. Não conseguia tirá-la da cabeça.

Took pediu que ela tornasse a abrir os olhos.

– Esta é a segunda mente – disse. – A que está cantando a música. Podia ser uma preocupação qualquer. Ou, se você estivesse apaixonado, podia ter aí dentro a pessoa com quem gostaria de estar, ou que desejaria esquecer. Mas a segunda mente não é fácil: ela trabalha independente de sua vontade. Ele virou-se para Paulo e riu.

– Uma música! Igual à gente, que também vive cheia de músicas na segunda mente! As mulheres deviam estar sempre apaixonadas, e não com músicas na cabeça! Você nunca teve amores aprisionados na “segunda mente”?

Os dois gargalhavam.

– São os piores amores, amores terríveis! – continuou Took, sem conseguir conter o riso. –

Você viaja, tenta esquecer, mas a segunda mente fica o tempo todo dizendo: “ele ia adorar isto!” “Puxa, que bom se ele estivesse aqui!”

Os dois se dobraram de rir. Chris não deu importância à brincadeira. Estava surpresa –

nunca havia parado para pensar nisto.

Tinha duas mentes. Que funcionavam ao mesmo tempo.

Took parara de rir e agora estava ao seu lado.

– Torne a fechar os olhos – disse. – E relembre o horizonte que você estava vendo. Ela tentou imaginar. Mas deu-se conta de que não olhava o horizonte.

– Não consigo – disse de olhos fechados. – Não reparei direito. Sei o que está à minha volta, mas não lembro do horizonte.

– Abra os olhos. E olhe. – Chris olhou. Eram montanhas, rochas, pedras, uma vegetação rasteira e esparsa. E um sol que brilhava cada vez mais forte parecia atravessar seus óculos escuros e queimar seus olhos. – Você está aqui – disse Took com a voz muito séria. – Procure entender que você está aqui, e as coisas que a cercam transformam você – da mesma maneira que você as transforma. Chris fitava o deserto.

– Para penetrar no mundo invisível, desenvolver seus poderes, você tem que viver no presente, aqui e agora. Para viver no presente, tem que controlar a segunda mente. E olhar o horizonte. O rapaz pediu-lhe que se concentrasse na música que, sem querer, estava cantando (era When I fall in love. Não sabia toda a letra, e ficava inventando palavras ou fazendo tum-lara-tum-tum). Chris se concentrou. Em pouco tempo a música desapareceu. Ela agora estava completamente alerta, atenta às palavras de Took.

Mas Took parecia não ter mais nada para dizer.

– Preciso ficar um pouco sozinho agora – disse. – Voltem daqui a dois dias.


Trancaram-se no ar condicionado do quarto do motel, sem ânimo para enfrentar os cinqüenta graus do meio-dia. Nenhum livro, nada interessante. Fazendo hora, tentando dormir e não conseguindo.

– Vamos conhecer o deserto – disse Paulo.

– Está muito quente. Took disse que era perigoso. Vamos deixar para amanhã. Paulo não respondeu. Ela estava certa de que ele tentava transformar o fato de ficar trancado no quarto do motel numa espécie de aprendizado. Tentava dar sentido a tudo que acontecia em sua vida, e falava apenas para descarregar as tensões.

Mas era impossível; tentar dar sentido a tudo era manter-se alerta e tenso o tempo inteiro. Paulo nunca relaxava, e ela perguntou-se quando ficaria cansado daquilo tudo.

– Quem é Took?

– Seu pai é um poderoso mago, e quer manter a tradição na família – assim como os pais engenheiros querem que o filho siga a sua carreira.

– É jovem, e quer se comportar como velho. Está perdendo os melhores anos de sua vida no deserto.

– Tudo tem um preço. Se Took passar por tudo isto – e não desistir da Tradição – vai ser o primeiro de uma série de mestres mais jovens, integrados num mundo que os velhos, embora compreendam, não sabem mais como explicar.

Paulo deitou-se e começou a ler a única coisa disponível: Guia de Alojamentos do Deserto de Mojave. Não queria contar para sua mulher que, além de tudo o que dissera, havia mais uma razão para Took estar ali: era um paranormal poderoso, preparado pela Tradição para agir enquanto as portas do Paraíso estivessem abertas.

Chris queria conversar. Sentia-se angustiada presa num quarto de motel, decidida a não dar

“um sentido a tudo”, como fazia seu marido. Era um ser humano, não estava ali aspirando a um lugar na comunidade dos eleitos.

– Não entendi o que Took me ensinou – insistiu com Paulo. – A solidão e o deserto podem fazer com que a gente tenha um imenso contato com o mundo invisível. Mas acho que nos faz perder o contato com os outros.

– Ele deve ter suas namoradas por aqui – disse Paulo, lembrando-se do “magia e mulheres”

de seu mestre e querendo encerrar a conversa.

“Se tiver que passar mais 39 dias trancada com ele, eu me suicido”, Chris prometeu a si mesma.

À tarde, foram a uma lanchonete que ficava do outro lado da rua. Paulo escolheu uma mesa na janela.

– Quero que você preste bastante atenção nas pessoas que passarem – disse. Pediram sorvetes imensos. Ela ficara várias horas prestando atenção na sua segunda mente, e conseguia controlá-la muito melhor. Seu apetite, porém, sempre fugia a qualquer controle. Fez o que Paulo pediu. Em quase meia hora, apenas cinco pessoas passaram diante da janela.

– O que você viu?

Ela descreveu as pessoas em detalhes – roupas, idade aproximada, o que carregavam. Mas, aparentemente, não era isto que ele desejava saber. Insistiu bastante, tentou arrancar uma resposta melhor, mas não conseguiu.

– Está bem – disse ele no final, dando-se por vencido. – Vou dizer o que queria que reparasse.

“Todas as pessoas que passaram pela rua estavam olhando ligeiramente para baixo.”

Ficaram algum tempo esperando mais uma pessoa passar. Paulo tinha razão.

– Took pediu para você olhar o horizonte. Faça isto.

– O que isso quer dizer?

– Todos nós, homens e animais, criamos uma espécie de “espaço mágico” ao nosso redor. Geralmente é um círculo de cinco metros de raio – e prestamos atenção a tudo que entra ali. Não importa se são pessoas, mesas, telefones ou vitrines: tentando manter o controle deste pequeno mundo que nós mesmos criamos.

“Os magos, porém, olham sempre para longe. Eles ampliam este ‘espaço mágico’, e tentam controlar muito mais coisas. Chamam isto de olhar o horizonte.”

– E por que devo fazer isto?

– Porque você está aqui. Faça e verá como as coisas mudam.

Quando saíram da lanchonete, ela manteve sua atenção nas coisas distantes. Notou as montanhas, as raras nuvens que apareciam apenas quando o sol se punha, e – estranha sensação – parecia estar vendo o ar à sua volta.

– Tudo o que Took falar é importante – disse ele. – Já viu e conversou com seu anjo, e vai usar você para me ensinar. Entretanto, conhece o poder das palavras; sabe que os conselhos que não são ouvidos voltam para quem os deu, e perdem sua energia. Ele precisa ter certeza de que você está interessada no que ele lhe diz.

– Por que não mostra diretamente para você?

– Porque existe uma regra não escrita na Tradição: um mestre jamais ensina ao discípulo de outro mestre. Eu sou discípulo de J.

“Mas ele quer me ajudar. Então está escolhendo você para isto.”

– Foi para isso que você me trouxe?

– Não. Foi porque eu tinha medo de ficar sozinho num deserto.

“Ele podia ter respondido que foi por amor”, pensou ela enquanto passeavam a pé pela cidade. Esta seria a resposta verdadeira.

Pararam o carro na margem da pequena estrada de terra batida. Took dissera para olhar sempre o horizonte. Os dois dias haviam passado, se encontrariam com ele aquela noite – e ela estava animada com isso.

Mas ainda era de manhã. E os dias do deserto eram longos.

Olhou, mais uma vez, o horizonte: montanhas que surgiram de repente, alguns milhões de anos atrás, e que cruzavam o deserto numa larga cordilheira. Embora aqueles terremotos já tivessem acontecido há muito tempo, até hoje se podia ver como o chão havia sido rasgado – o solo ainda subia, liso, por boa parte das montanhas, até que, a determinada altura, uma espécie de ferida se abria e lá de dentro surgiam rochas que se projetavam para o céu.

Entre as montanhas e o carro havia o vale pedregoso com a vegetação rasteira, os espinhos, as iúcas, os cactos, a vida que insistia em aparecer num ambiente que não a desejava. E uma imensa mancha branca, do tamanho de cinco estádios de futebol, destacava-se no meio daquilo tudo. Brilhava com o sol da manhã como se fosse um campo de neve.

– Sal. Um lago de sal.

Sim. Aquele deserto, um dia, também devia ter sido um mar. Uma vez por ano, as gaivotas do oceano Pacífico viajavam centenas de quilômetros terra adentro para chegar no deserto e comer uma espécie de camarão que surgia quando as chuvas chegavam. O homem esquece suas origens; a natureza, nunca.

– Deve estar a uns cinco quilômetros – disse Chris.

Paulo consultou o relógio. Ainda era cedo. Olhavam o horizonte, e o horizonte mostrava um lago de sal. Uma hora de caminhada para ir, outra para voltar, sem o risco de sol muito forte. Cada um colocou na cintura seu cantil com água. Paulo colocou cigarros e uma Bíblia na pequena bolsa. Quando chegassem lá, ia sugerir que lessem, ao acaso, algum trecho.

Começaram a andar. Chris estava conseguindo manter, sempre que possível, os olhos fixos no horizonte. Embora aquilo fosse tão simples, alguma coisa estranha estava acontecendo; sentia-se maior, mais livre, como se sua energia interior tivesse aumentado. Pela primeira vez em muitos anos, arrependeu-se por não conviver mais intensamente com a “Conspiração” de Paulo – imaginara sempre rituais muito mais difíceis, que apenas pessoas preparadas e com muita disciplina conseguiam executar.

Caminharam sem pressa, durante meia hora. O lago parecia ter mudado de lugar; estava sempre à mesma distância.

Caminharam mais uma hora. Deviam já ter coberto quase sete quilômetros, e o lago estava apenas “um pouquinho” mais perto.

Já não era de manhã bem cedo. O sol começava a esquentar muito. Paulo olhou para trás. Podiam ver o carro, um ponto minúsculo, vermelho – mas ainda visível, impossível se perder. E quando olhou o carro se deu conta de algo muito importante.

– Vamos parar aqui – disse.

Desviaram um pouco do caminho, e chegaram perto de uma rocha. Ficaram bem encostados nela: não havia quase sombra. No deserto inteiro, as sombras só apareciam de manhã cedo ou à tarde junto das rochas.

– Erramos o cálculo – disse.

Chris já havia percebido isto. Achara estranho, porque Paulo estava acostumado a calcular distâncias e confiara nos cinco quilômetros que ela previra.

– Sei por que erramos – continuou ele. – Porque nada, no deserto, nos permite fazer comparações. Estamos acostumados a calcular a distância pelo tamanho das coisas. Sabemos o tamanho aproximado de uma árvore. Ou de um poste. Ou de uma casa. Isto nos ajuda a saber se as coisas estão longe ou perto.

Ali não tinham ponto de referência. Eram pedras que nunca tinham visto, montanhas que não sabiam o tamanho, e a vegetação rasteira. Paulo se dera conta disso ao ver o carro. Ele sabia o tamanho de um carro. E sabia que já tinham caminhado mais de sete quilômetros.

– Vamos descansar um pouco e voltar.

“Tanto faz”, pensou ela. Estava fascinada com a idéia de ficar olhando o horizonte. Era uma experiência completamente nova em sua vida.

– Esta história de olhar, Paulo…

Ele esperou que Chris continuasse. Sabia que ela estava com medo de dizer bobagem, ficar inventando significados esotéricos, como muitas pessoas ligadas ao ocultismo faziam.

– Parece… não sei explicar… que minha alma cresceu.

Sim, pensou Paulo. Estava no caminho certo. – Antes, eu olhava para longe, e aquilo estava realmente “longe”, entende? Parecia não fazer parte do meu mundo. Porque eu sempre estava olhando para perto, para as coisas à minha volta.

“Até que, dois dias atrás, me acostumei a olhar a distância. E percebi que, além de mesas, cadeiras, objetos, meu mundo incluía montanhas, nuvens, céu. E minha alma – minha alma parece usar os olhos para tocar nestas coisas!”

“Puxa! Conseguiu explicar muito bem!”, pensou ele.

– Minha alma parece ter crescido – insistiu Chris.

Ele abriu a bolsa, tirou o maço de cigarros, e acendeu um.

– Qualquer um pode ver isso. Mas estamos sempre olhando para perto, para baixo e para dentro. Então, usando o seu próprio termo, nosso poder diminui, e nossa alma encolhe.

“Porque ela não inclui nada além de nós mesmos. Não inclui mares, montanhas, outras pessoas, não inclui nem mesmo paredes dos lugares onde vivemos.”

Paulo gostou da expressão “minha alma cresceu”. Se estivesse conversando com um ocultista ortodoxo, na certa teria ouvido explicações muito mais complicadas, como “minha consciência expandiu”. Mas o termo que sua mulher utilizara era muito mais exato. O cigarro acabou. Já não valia mais a pena insistir na ida até o lago; breve a temperatura estaria de novo em torno dos cinqüenta graus à sombra. O carro estava longe, mas visível, e, em uma hora e meia de caminhada, estariam de novo lá.

Começaram a voltar. Estavam cercados pelo deserto, pelo imenso horizonte, e a sensação de liberdade crescia na alma dos dois.

– Vamos tirar a roupa – disse Paulo.

– Pode ter alguém nos olhando – Chris falou automaticamente.

Paulo riu. Podiam ver tudo ao redor. No dia anterior, quando passearam pela manhã e à

tarde, apenas dois carros passaram – e, mesmo assim, escutaram o ruído muitíssimo antes de os veículos aparecerem. O deserto era sol, vento, e silêncio.

– Apenas nossos anjos estão olhando – respondeu. – E já nos viram nus muitas vezes. Tirou a bermuda, a camiseta, o cantil, e colocou tudo na bolsa que levava. Chris controlou-se para não rir. Fez a mesma coisa, e em pouco tempo caminhavam pelo deserto do Mojave duas pessoas de tênis, bonés e óculos escuros – uma delas carregando uma bolsa pesada. Se alguém estivesse vendo, acharia muito engraçado.

Andaram meia hora. O carro era um ponto no horizonte mas, ao contrário do lago, crescia à

medida que se aproximavam dele. Em pouco tempo chegariam lá.

Só que, de repente, ela estava com uma imensa preguiça.

– Vamos descansar um pouco – pediu.

Paulo parou quase que imediatamente.

– Não agüento carregar isto – reclamou. – Estou cansado.

Como é que ele não agüentava? Tudo aquilo, incluindo os dois cantis de água, não devia pesar mais de três quilos.

– Tem que levar. A água está aí dentro.

Sim, era preciso levar.

– Então vamos embora logo – disse, mal-humorado.

“Tudo estava tão romântico há alguns minutos”, pensou ela. E agora ele estava de mau humor. Não ia ligar para isso – estava com preguiça.

Andaram mais um pouco, e a preguiça foi aumentando. Mas, se dependesse dela, não comentaria nada – não queria irritá-lo mais.

“Que bobo”, tornou a pensar. Ficar de mau humor no meio daquela beleza toda, e logo depois de conversarem assuntos tão interessantes como…

Ela não consegui lembrar, mas não tinha importância. Estava também com preguiça de pensar agora.

Paulo parou e colocou a bolsa no chão.

– Vamos descansar – disse.

Não parecia mais irritado. Devia estar com preguiça também. Igual a ela. Não havia sombra. Mas ela também precisava descansar.

Sentaram-se no chão quente. O fato de estarem nus, o fato de a areia queimar a pele, não fez muita diferença. Precisavam parar. Um pouco.

Ela conseguiu lembrar-se sobre o que estavam conversando: horizontes. Reparou que agora, mesmo que não quisesse, tinha a sensação de alma crescida. E, além do mais, a segunda mente parara de funcionar por completo. Não pensava em músicas, ou em coisas repetitivas, não pensava nem mesmo se alguém os olhava caminhando nus pelo deserto.

Tudo estava perdendo a importância; sentia-se relaxada, despreocupada, livre. Ficaram alguns minutos em silêncio. Estava quente, mas o sol também não incomodava. Se incomodasse muito, tinham bastante água no cantil.

Ele levantou-se primeiro.

– Acho melhor andar. Falta pouco para o carro. A gente descansa lá, no ar condicionado. Ela estava com sono. Queria dormir só um pouquinho. Mesmo assim, levantou-se. Andaram um pouco mais. O carro agora estava bastante perto. Não mais que dez minutos de caminhada.

– Já que estamos tão perto, por que não dormimos? Cinco minutos. Dormir cinco minutos? Por que ele dizia isto? Será que adivinhara seu pensamento? E

também estava com sono?

Não havia qualquer mal em cochilar cinco minutos. Ficariam bronzeados, ela pensou. Como se estivessem na praia.

Sentaram-se de novo. Já estavam andando há mais de uma hora, excluindo-se as paradas. Que mal havia em cochilar cinco minutos?

Escutaram o ruído de um carro. Meia hora atrás ela teria dado um salto e vestido rapidamente a roupa.

Mas agora, bem, aquilo não tinha a menor importância. Só olha quem quer. Não precisava dar satisfações a ninguém.

Queria dormir, só isto.

Os dois viram uma caminhonete aparecer na estrada, passar pelo carro deles, e parar mais adiante. Um homem desceu, e se aproximou do veículo. Olhou para dentro, e começou a andar em torno do carro, examinando tudo.

“Pode ser um ladrão”, pensou Paulo. Imaginou o sujeito roubando o carro, e deixando os dois naquela imensidão, sem ter como voltar. A chave estava na ignição – ele não havia carregado consigo, com medo de perdê-la.

Mas estava no interior dos Estados Unidos. Em Nova York, talvez, mas ali – ali não roubavam carros.

Chris olhava o deserto – como estava dourado! Uma sensação agradável, de descanso, começava a tomar conta de todo seu corpo. O sol não incomodava – as pessoas não sabiam como o deserto podia ser belo durante o dia!

Dourado! Diferente do deserto cor-de-rosa dos finais de tarde!

O sujeito parou de olhar o carro, e colocou a mão sobre os olhos, como uma viseira. Estava procurando os dois.

Ela estava nua… e ele acabaria vendo. Mas que importância tinha isso? Paulo parecia não estar muito preocupado, tampouco.

O homem agora andava em direção a eles. A sensação de leveza e euforia aumentava cada vez mais, embora a preguiça fizesse com que não se movessem do lugar. O deserto era dourado, e lindo. E

tudo estava tranqüilo, em paz – os anjos, sim, os anjos se mostrariam daqui a pouco! Era para isso que tinham vindo ao deserto – para conversar com anjos!

Estava nua, e não tinha vergonha. Era uma mulher livre.

O homem parou em pé, na frente dos dois. Falava uma língua diferente. Eles não entendiam o que ele estava dizendo.

Mas Paulo fez um esforço; e viu que o homem falava inglês. Afinal de contas, estavam nos Estados Unidos.

– Venham comigo – ele disse.

– Vamos descansar – respondeu Paulo. – Cinco minutos.

O homem pegou a bolsa no chão, e abriu.

– Vista isto – disse para Chris, estendendo a roupa.

Ela levantou-se com muito esforço, e obedeceu. Estava com preguiça de discutir. Ele mandou que Paulo se vestisse. Paulo também estava com preguiça de discutir. O homem olhou os cantis cheios de água, abriu um deles, encheu a pequena tampa, e mandou que bebessem. Não tinham sede. Mas fizeram o que o homem mandava. Estavam muito calmos, em completa paz com o mundo – e sem qualquer desejo de discutir.

Fariam qualquer coisa, obedeceriam qualquer ordem, desde que ele os deixasse em paz.

– Vamos andar – disse o homem.

Já não conseguiam pensar muito – apenas olhar o deserto. Fariam qualquer coisa, desde que aquele estranho os deixasse dormir logo.

O homem seguiu com eles até o carro, pediu que entrassem, e ligou o motor. “Onde estará

nos levando?”, pensou Paulo. Mas não conseguia ficar preocupado – o mundo estava em paz, e tudo o que queria fazer era dormir um pouco.


Acordou com o estômago dando voltas, e uma imensa vontade de vomitar.

– Fica quieto mais um pouco.

Alguém estava falando com ele, mas sua cabeça era uma imensa confusão. Lembrava-se ainda do paraíso dourado, onde tudo era paz e tranqüilidade.

Tentou mover-se, e sentiu como se milhares de agulhas se cravassem em sua cabeça.

“Vou dormir de novo”, pensou. Mas não conseguia – as agulhas não se descravavam. O

estômago continuava dando voltas.

– Quero vomitar – disse.

Quando abriu os olhos, viu que estava sentado numa espécie de minimercado; várias geladeiras, com refrigerantes dentro, e prateleiras com comida. Olhou aquilo e sentiu mais enjôo. Então reparou, à sua frente, num homem que nunca vira antes.

Ele ajudou-o a levantar-se. Paulo percebeu que, além das agulhas imaginárias na cabeça, tinha também uma outra no braço. Só que esta era de verdade.

O homem pegou o soro preso na agulha e os dois caminharam até o banheiro. Ele vomitou um pouco de água, nada mais.

– O que está acontecendo? O que significa esta agulha?

Era a voz de Chris, falando em português. Voltou para o pequeno mercado, e viu que ela também estava sentada, com o soro injetado nas veias.

Paulo agora sentia-se um pouco melhor. Não precisava mais da ajuda do homem. Ajudou Chris a levantar-se, ir ao banheiro, e vomitar também.

– Vou levar seu carro, e pegar o meu – disse o estranho. – Deixo no mesmo lugar, com a chave na ignição. Peça uma carona para ir até lá.

Ele estava começando a se lembrar do que acontecera, mas o enjôo retornara e teve que vomitar de novo.

Quando voltou, o homem já havia saído. Eles então repararam que outra pessoa estava ali –

um rapaz, com seus vinte e poucos anos.

– Mais uma hora – disse o rapaz. – O soro acaba, e vocês podem ir embora.

– Que horas são?

O rapaz respondeu. Paulo fez um esforço para se levantar – tinha um encontro, e não queria falar de jeito algum.

– Preciso ver Took – falou para Chris.

– Sente-se – disse o rapaz. – Só quando o soro acabar.

O comentário era desnecessário. Ele não tinha força ou disposição para caminhar até a porta.

“Foi-se o encontro”, pensou. Mas, a esta altura, nada tinha muita importância. Quanto menos pensasse, melhor.


– Quinze minutos – disse Took. – Depois disso, vem a morte, e você nem percebe. Estavam de novo no velho trailer. Era a tarde do dia seguinte, e tudo em volta estava cor-derosa. Nada parecido com o deserto do dia anterior – dourado, de imensa paz, e vômitos, e enjôo. Há 24 horas não conseguiam dormir ou comer – vomitavam tudo que colocavam para dentro. Mas agora a sensação estranha estava passando.

– Ainda bem que o horizonte de vocês estava expandido – continuou o rapaz. – E que estavam pensando em anjos. Um anjo apareceu.

Era melhor dizer “a alma havia crescido”, pensou Paulo. Além disso, o sujeito que apareceu não era um anjo – tinha uma caminhonete velha, e falava inglês. Aquele garoto já estava começando a ver coisas.

– Vamos logo – disse Took, pedindo que Paulo ligasse o carro.

Sentou-se no banco dianteiro, sem a menor cerimônia. E Chris, blasfemando em português, foi para o banco de trás.

Took começou a dar instruções – pegue este caminho aqui, siga para lá, ande rápido para que o carro refrigere bem, desligue o ar condicionado para não esquentar o motor. Várias vezes saíram das precárias estradas de terra e adentraram o deserto. Mas Took sabia tudo, não cometia erros como eles.

– O que houve ontem? – insistiu Chris pela centésima vez. Sabia que Took alimentava a expectativa; embora já tivesse visto seu anjo da guarda, agia como qualquer rapaz de sua idade.

– Insolação – respondeu ele finalmente. – Será que vocês nunca viram filme de deserto?

Claro que já. Homens sedentos, se arrastando pela areia em busca de um pouco de água.

– Nós não estávamos com sede. Os dois cantis estavam cheios de água.

– Não falo disso – cortou o americano. – Refiro-me às roupas.

As roupas! Os árabes com aquelas roupas longas, vários mantos – um por cima do outro. Sim, como fomos tão burros? Paulo já tinha escutado tanto sobre isso, já estivera em três outros desertos… e nunca sentira vontade de tirar a roupa. Mas ali, naquela manhã, depois da frustração do lago que não chegava nunca… “Como pude ter uma idéia tão imbecil?”, pensou.

– Quando vocês tiraram a roupa, a água do corpo começou a evaporar imediatamente. Não dá nem para suar por causa do clima completamente seco. Em quinze minutos, vocês já

estavam desidratados. Não existe sede nem nada – apenas um leve senso de desorientação.

– E o cansaço?

– O cansaço é a morte chegando.

“Não deu para notar que era a morte”, Chris disse para si mesma. Se algum dia precisasse escolher uma maneira suave de deixar este mundo, voltaria a andar nua pelo deserto.

– A grande maioria das pessoas que morrem no deserto, morrem com água no cantil. A desidratação é tão rápida que nos sentimos como quem bebeu uma garrafa inteira de uísque ou tomou um enorme comprimido de calmante.

Took pediu que, a partir de agora, bebessem água o tempo inteiro – mesmo sem sede, porque a água precisava estar dentro do corpo.

– Mas apareceu um anjo – concluiu ele.

Antes que Paulo pudesse dizer o que pensava a respeito, Took mandou que parassem perto de um morro.

– Vamos descer aqui, e fazer o resto do caminho a pé.

Começaram a andar por uma pequena trilha, que levava até o alto. Logo nos primeiros minutos, Took lembrou-se que esquecera a lanterna no carro. Voltou, pegou-a, e ficou sentado algum tempo no capô, olhando o vazio.

“Chris tem razão; a solidão faz mal às pessoas. Ele está se comportando de uma maneira estranha”, pensou Paulo enquanto olhava o rapaz sentado lá embaixo. Mas, segundos depois, ele já havia subido de novo o pequeno trecho que tinham caminhado, e passou a acompanhar os dois.

Em quarenta minutos, sem maiores dificuldades, estavam no topo do monte. Havia uma vegetação rala, e Took pediu que sentassem de frente para o norte. Sua atitude, muito expansiva, havia mudado – agora parecia mais concentrado e distante.

– Vocês vieram em busca de anjos – disse, sentando-se também ao lado deles.

– Eu vim – disse Paulo. – E sei que você conversou com um.

– Esqueça meu anjo. Muita gente, neste deserto, já conversou ou viu seu anjo. E também muita gente nas cidades, e nos mares, e nas montanhas.

Havia um certo tom de impaciência na voz dele.

– Pense no seu anjo da guarda – continuou. – Porque meu anjo está aqui, e eu posso vê-lo. Este é meu lugar sagrado.

Tanto Paulo quando Chris lembraram a primeira noite no deserto. E imaginaram de novo os seus anjos, com as roupas, e as asas.

– Tenham sempre um lugar sagrado. O meu já foi dentro de um pequeno apartamento, já foi uma praça em Los Angeles, e agora é aqui. Um canto sagrado abre uma porta para o céu, e o céu penetra.

Os dois ficaram olhando o lugar sagrado de Took: rochas, o solo duro, a vegetação rasteira. Talvez algumas cobras e coiotes passeassem de noite por ali.

Took parecia estar em transe.

– Foi aqui que consegui ver o meu anjo, embora soubesse que ele está em todos os lugares, que sua face é a face do deserto onde vivo, ou da cidade onde morei dezoito anos.

“Conversei com meu anjo porque tinha fé na existência dele. Porque tinha esperança no seu encontro. E porque o amava.”

Nenhum dos dois ousou perguntar qual havia sido a conversa. Took continuou:

– Todo mundo pode contatar quatro tipos de entidades no mundo invisível: os elementais, os espíritos desencarnados, os santos, e os anjos.

“Os elementais são as vibrações das coisas da natureza – do fogo, da terra, da água e do ar –

e nós os contatamos por meio do ritual. São forças puras – como os terremotos, os raios ou os vulcões. Porque precisamos entendê-los como ‘seres’, aparecem sob a forma de duendes, de fadas, de salamandras; mas tudo que o homem pode fazer é usar o poder dos elementais – jamais aprenderá qualquer coisa com eles”.

“Por que ele está dizendo isto?”, pensou Paulo. “Será que não se lembra que também sou um Mestre em magia?”

Took seguia sua explicação:

– Os espíritos desencarnados são aqueles que estão vagando entre uma vida e outra, e nós os contatamos por meio da mediunidade. Alguns são grandes mestres – mas tudo que eles ensinam nós podemos aprender na Terra, porque eles também aprenderam aqui. Melhor, então, deixá-los caminhar em direção ao próximo passo, olharmos mais nosso horizonte e procurar tirar daqui a sabedoria que eles tiraram.

“Paulo deve saber isso”, pensou Chris. “Ele está falando para mim.”

Sim, Took falava para aquela mulher – por causa dela estava ali. Nada tinha a ensinar a Paulo, vinte anos mais velho que ele, mais experiente, e que, se pensasse duas vezes, descobriria a forma de conversar com o anjo. Paulo era discípulo de J. – e como Took ouvia falar de J.! No primeiro encontro, tentou diversas maneiras de fazer o brasileiro falar, mas a mulher atrapalhara tudo. Não conseguiu saber as técnicas, os processos, os rituais que J. usava.

Aquele primeiro encontro o desapontara profundamente. Pensou que o brasileiro talvez estivesse usando o nome de J. sem que o Mestre soubesse. Ou, quem sabe, J. errara pela primeira vez na escolha do discípulo – e se fosse isso, em breve toda a Tradição iria descobrir. Mas, naquela noite do encontro, sonhou com seu anjo da guarda.

E seu anjo pediu que ele iniciasse a mulher no caminho da magia. Apenas iniciar: o marido faria o resto.

No sonho, ele argumentou que já havia ensinado o que era segunda mente e havia pedido que ela olhasse o horizonte. O anjo disse que prestasse atenção ao homem, mas que cuidasse da mulher. E

desapareceu.

Era treinado para ter disciplina. Estava, agora, fazendo o que o seu anjo pedira – e esperava que isto fosse visto lá em cima.

– Depois dos espíritos desencarnados – continuou ele –, aparecem os santos. Estes são os verdadeiros Mestres. Viveram conosco algum dia, e estão agora próximos da luz. O grande ensinamento dos santos são suas vidas aqui na Terra. Ali está tudo que precisamos saber, basta imitá-los.

– E como invocamos os santos? – perguntou Chris.

– Pela oração – respondeu Paulo, cortando a palavra de Took. Não estava com ciúmes –

embora fosse claro para ele que o americano queria brilhar para Chris.

“Ele respeita a Tradição. Vai usar minha mulher para me ensinar. Mas por que está sendo tão primário, repetindo coisas que já sei?”, pensou.

– Invocamos o santos pela oração constante – Paulo continuou a falar. – E quando eles estão perto, tudo se transforma. Os milagres acontecem.

Took notou o tom agressivo do brasileiro. Mas não falaria sobre o sonho com o anjo, não devia satisfações a ninguém.

– Finalmente – Took pegou de novo a palavra –, existem os anjos. Talvez o brasileiro não soubesse mesmo esta parte, embora parecesse conhecer um bocado de outros assuntos. Took fez uma longa pausa. Ficou em silêncio, rezou baixinho, lembrou-se do seu anjo, torceu para que ele estivesse escutando cada palavra. E pediu para ser claro porque – ah, Deus! – era muito, muito difícil explicar.

– Os anjos são amor em movimento. Que não pára nunca, que luta para crescer, que está

além do bem e do mal. O amor que tudo devora, que tudo destrói, que tudo perdoa. Os anjos são feitos desse amor, e, ao mesmo tempo, são seus mensageiros.

“O amor do anjo exterminador, que carrega um dia nossa alma, e do anjo da guarda, que a traz de volta. O amor em movimento.”

– O amor em guerra – disse ela.

– Não existe amor em paz. Quem for por aí, está perdido.

“O que um garoto desses entende de amor? Vive só, no deserto, e jamais se apaixonou”, pensou Chris. E, no entanto, por mais que se esforçasse, não conseguia lembrar de um só momento em que o amor lhe trouxera paz. Sempre viera acompanhado de agonias, êxtases, alegrias intensas e tristezas profundas. Took virou-se para eles:

– Vamos ficar quietos um pouco, para que nossos anjos escutem o barulho que existe atrás de nosso silêncio.

Chris ainda pensava no amor. Sim, o rapaz parecia ter razão, embora ela pudesse jurar que ele conhecia tudo aquilo apenas em teoria.

“O amor só descansa quando está perto de morrer, que estranho.” Como era estranho tudo o que estava experimentando, principalmente a sensação de “alma crescida”. Nunca havia pedido a Paulo para ensinar-lhe nada – ela acreditava em Deus, e isto era suficiente. Respeitava a busca do marido, mas – talvez porque fosse tão próximo, ou porque soubesse que ele tinha defeitos como todos os outros homens – jamais havia se interessado. Mas não conhecia Took. Ele dissera: “Procure olhar o horizonte. Preste atenção à sua segunda mente.” E ela obedeceu. Agora, com a alma crescida, estava descobrindo como era bom e quanto tempo havia perdido.

– Por que precisamos conversar com o anjo? – disse Chris, interrompendo o silêncio.

– Descubra com ele.

Took não se irritou com seu comentário. Se ela tivesse perguntado a Paulo, teria levado uma bronca.

Rezaram um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Então o americano disse que podiam descer.

– Só isso? – Paulo estava desapontado.

– Quis trazê-los aqui para que meu anjo visse que fiz o que ele mandou – respondeu Took. –

Não tenho nada mais a lhe ensinar; se quiser saber de algo, pergunte às Valkírias.

A volta foi feita num silêncio constrangedor – interrompido apenas nos momentos em que Took dava as indicações do caminho. Mas ninguém queria conversar com ninguém – Paulo, porque achava que Took o enganara; Chris, porque Paulo podia ficar aborrecido com seus comentários, achar que ela estava estragando tudo; e Took, porque sabia que o brasileiro estava decepcionado, e, por causa disso, não falaria sobre J. e suas técnicas.

– Você está errado em uma coisa – disse Paulo quando chegaram diante do trailer. – Não foi um anjo que encontramos ontem. Foi um sujeito numa caminhonete. Por uma fração de segundo, Chris achou que a frase ficaria sem resposta – a agressividade entre os dois era cada vez maior. O americano chegou a andar em direção à sua “casa”, mas de repente voltou-se.

– Vou lhe contar uma história que meu pai me contou – disse. – Um mestre e seu discípulo caminhavam pelo deserto, e o mestre ensinava que podiam confiar sempre em Deus, pois Ele tomava conta de tudo.

“Chegou a noite, e resolveram acampar. O mestre montou a tenda, e o discípulo ficou encarregado de amarrar os cavalos numa pedra. Mas, ao chegar à pedra, pensou consigo mesmo:

“‘O mestre está me testando. Disse que Deus toma conta de tudo, e me pediu para amarrar os cavalos. Quer ver se confio ou não em Deus.’

“Em vez de prender os animais, fez uma longa oração e entregou a guarda a Deus.

“No dia seguinte, quando acordaram, os cavalos haviam desaparecidos. Decepcionado, o discípulo foi se queixar ao mestre e disse que não confiava mais nele, pois Deus não cuidava de tudo, esquecera de vigiar os cavalos.

“‘–Você está errado’ – respondeu o mestre. ‘–Deus queria cuidar dos cavalos. Mas, naquele momento, precisava usar suas mãos para amarrá-los à pedra.’”

O rapaz acendeu um pequeno lampião a gás que estava pendurado do lado de fora do trailer. A luz ofuscou um pouco o brilho das estrelas.

– Quando começamos a pensar no anjo, ele começa a se manifestar. Sua presença se torna cada vez mais próxima, mais viva. Só que, num primeiro momento, eles se mostram como vêm fazendo ao longo de toda a vida: através dos outros.

“O seu anjo usou aquele homem. Deve ter retirado ele de casa cedo, mudado alguma coisa em sua rotina, ajeitado tudo para que ele pudesse estar ali justamente no momento em que vocês precisavam. Isto é um milagre. Não tente transformar num acontecimento comum.”

Paulo ouvia em silêncio.

– Quando íamos subir a montanha, esqueci a lanterna – continuou Took. – Você deve ter reparado que fiquei algum tempo no carro. Sempre que esqueço alguma coisa na hora de sair de casa, sinto que meu anjo da guarda está agindo. Está me fazendo atrasar uns poucos segundos – e esse pouco tempo pode significar coisas muito importantes. Pode me livrar de um acidente, ou fazer com que eu encontre alguém que necessitava.

“Por isso, depois que pego o que esqueci, sempre me sento e conto até vinte. Assim, o anjo tem tempo de agir. Um anjo usa muitos instrumentos.”

O americano pediu a Paulo que esperasse um pouco. Entrou no trailer, e voltou com um mapa.

– A vez mais recente em que vi as Valkírias foi aqui.

Apontou um lugar no mapa. A agressividade entre os dois parecia ter diminuído muito.

– Cuide dela – disse Took. – Foi bom ela ter vindo.

– Acho que sim – respondeu Paulo. – Obrigado por tudo.

E se despediram.

– Como tenho sido burro! – disse Paulo, dando um soco no volante, assim que se afastaram um pouco.

– Burro? Achei que você estava com ciúmes!

Mas Paulo estava rindo, de ótimo humor.

– Quatro processos! E ele só falou três! É com o quarto processo que se conversa com o anjo!

Ele virou-se para Chris. Seus olhos brilhavam de alegria.

– O quarto processo: a canalização!


Quase dez dias no deserto. Pararam num lugar onde o chão se abria numa série de feridas, como se rios pré-históricos tivessem corrido por ali, dezenas deles, deixando aquelas rachaduras compridas, fundas, que o sol se encarregava de tornar cada vez maiores.

Ali não existiam nem os escorpiões, nem as cobras, nem os coiotes, nem a sempre presente erva rasteira. O deserto estava cheio destes lugares chamados badlands, as terras malditas. Os dois entraram em uma daquelas imensas feridas. As paredes de terra eram altas, e tudo que podiam ver era um caminho tortuoso, sem começo ou fim.

Já não eram mais os dois aventureiros irresponsáveis, achando que nada de mau podia acontecer. O deserto tinha suas leis, e matava quem não as respeitasse. Haviam aprendido estas leis – os rastros de cobra, as horas de sair, as precauções com a segurança. Antes de entrar nas badlands, deixaram um bilhete no carro dizendo para onde se dirigiam. Mesmo que fosse por apenas meia hora, e aquilo parecesse desnecessário, ridículo, se acontecesse alguma coisa, um carro podia parar, e alguém veria o bilhete e saberia a direção que os dois tinham tomado. Precisavam facilitar a tarefa dos instrumentos do anjo da guarda.

Buscavam as Valkírias. Não ali, naquele final de mundo – porque nenhuma vida resiste por muito tempo nas badlands. Ali – bem, ali era apenas um treino. Para Chris. Mas as Valkírias estavam por perto, e alguma coisa parecia dizer isto. Deixavam rastros. Viviam pelo deserto, não paravam em nenhum lugar – mas deixavam rastros. Os dois tinham conseguido algumas pistas. No começo, haviam visitado uma cidadezinha após outra, perguntando pelas Valkírias, e ninguém ouvira falar delas. A indicação de Took não havia servido para nada – provavelmente tinham passado já há muito tempo pelo lugar que ele apontara no mapa. Mas um dia, num bar, encontraram um rapaz que se lembrava de ter lido algo a respeito delas. Então ele descreveu a roupa que usavam – e os rastros que deixavam.

Os dois passaram a perguntar por mulheres com aquele tipo de vestimenta. As pessoas faziam ar de desaprovação, e contavam que tinham partido há um mês, há uma semana, há três dias. Finalmente, estavam agora a um dia de viagem do lugar onde elas poderiam estar.

O sol já estava perto do horizonte – ou não arriscariam caminhar pelo deserto. As paredes de terra projetavam sombra. O lugar era perfeito.

Chris não agüentava mais repetir tudo aquilo. Mas precisava – ainda não havia conseguido resultados importantes.

– Sente-se aqui. De costas para o sul.

Ela fez o que Paulo estava mandando. E depois, automaticamente, começou a relaxar. Estava com as pernas cruzadas, os olhos fechados – mas podia sentir o deserto inteiro à sua volta. Sua alma crescera durante todos esses dias, sabia que o mundo era mais vasto, muito mais vasto do que duas semanas atrás.

– Concentre-se na segunda mente – disse ele.

Chris percebia o tom de inibição na sua voz. Não podia se comportar com ela da mesma maneira que se comportava com outros discípulos – afinal, ela conhecia suas falhas e fraquezas. Mas Paulo fazia um supremo esforço para agir como um mestre, e ela o respeitava por isso. Concentrou-se na segunda mente. Deixou que todos os pensamentos lhe viessem à cabeça –

e, como sempre, eram pensamentos absurdos para quem estava no meio de um deserto. De três dias para cá, sempre que começava o exercício, dava-se conta de que seu pensamento automático estava muito preocupado com quem ela devia convidar para a festa de seu aniversário – daqui a três meses. Mas Paulo havia pedido que não ligasse para isto. Que deixasse suas preocupações fluírem livremente.

– Vamos repetir tudo de novo – ele disse.

– Estou pensando na minha festa.

– Não lute contra os seus pensamentos, eles são mais fortes que você – disse Paulo pela milésima vez. – Se quiser livrar-se deles, aceite-os. Pense no que eles querem que você pense, até que se cansem.

Ela fazia a lista dos convidados. Tirou alguns. E colocou outros. Este era o primeiro passo: dar atenção à segunda mente até que esta se cansasse.

Agora a festa de aniversário já desaparecia com mais rapidez. Mesmo assim, ainda fazia a lista. Era inacreditável como um assunto desses pudesse preocupá-la tantos dias, ocupar tantas horas em que podia estar pensando em coisas mais interessantes.

– Pense até cansar. Então, quando cansar, abra o canal.

Paulo afastou-se da mulher e encostou-se no barranco. O garoto era esperto, embora levasse muito a sério aquela história de não se poder ensinar nada ao discípulo de um outro mestre. Mas, através de Chris, havia lhe dado todas as pistas de que precisava.

A quarta maneira de se comunicar com o mundo invisível era a canalização. Canalização! Quantas vezes ele vira pessoas dentro de carros nos engarrafamentos, conversando sozinhas, sem perceber que executavam um dos mais sofisticados processos de magia! Diferente da mediunidade, que exigia uma certa perda de consciência durante o contato com os espíritos, a canalização era o processo mais natural que o ser humano usava para mergulhar no desconhecido. Era o contato com o Espírito Santo, com a Alma do Mundo, com os Mestres Iluminados que habitavam lugares remotos do Universo. Não era preciso ritual, nem incorporação, nem nada. Todo ser humano sabia, inconscientemente, que existia uma ponte para o invisível ao alcance de suas mãos, pela qual ele podia trafegar sem medo. E todos os homens tentavam, mesmo que não se dessem conta. Todos se surpreendiam dizendo coisas que nunca pensaram, dando conselhos do tipo “não sei por que estou dizendo isto”, fazendo certas coisas que não combinavam muito.

E todos gostavam de ficar olhando os milagres da natureza – uma tempestade, ou um pôrdo-sol, prontos para entrar em contato com a Sabedoria Universal, pensar em coisas realmente importantes, exceto…

… exceto que, nestes momentos, o muro invisível aparecia.

A segunda mente.

A segunda mente estava ali, barrando a entrada, com suas coisas repetitivas, seus assuntos sem importância, suas músicas, seus problemas financeiros, suas paixões mal-resolvidas.

Levantou-se e voltou para perto de Chris.

– Tenha paciência e escute tudo o que a segunda mente tem a dizer. Não responda. Não argumente. Ela se cansa.

Chris refez, mais uma vez, a lista de convidados, embora já tivesse perdido o interesse naquilo. Quando acabou, colocou um ponto-final.

E abriu o solhos.

Estava ali, naquela ferida da terra. Sentiu o ar abafado à sua volta.

– Abra o canal. Comece a falar.

Falar!

Sempre tivera medo de falar, de parecer ridícula, burra. Medo de saber o que os outros pensavam do que dizia, porque eles sempre pareciam mais preparados, mais inteligentes, sempre com respostas para tudo.

Mas agora era assim, precisava ter coragem, mesmo que estivesse dizendo coisas absurdas, frases sem sentido. Paulo havia explicado que isto era uma das maneiras da canalização: falar. Vencer a segunda mente, e depois deixar que o Universo tomasse conta dela, e a usasse como queria. Começou a mexer a cabeça, simplesmente porque estava com vontade de fazer aquilo, e de repente teve vontade de realizar ruídos estranhos com a boca. Fez os ruídos. Nada era ridículo. Ela estava livre para agir como bem entendesse.

Não sabia de onde vinham essas coisas – e entretanto vinham de dentro, do fundo de sua alma, e se manifestavam. De vez em quando a segunda mente voltava com suas preocupações, e Chris tentava organizar tudo aquilo, mas era necessário que fosse assim – sem lógica, sem censura, com a alegria de um guerreiro que está entrando num mundo desconhecido. Ele precisava falar a linguagem pura do coração. Paulo escutava em silêncio, e Chris sentia sua presença. Estava absolutamente consciente, mas livre. Não podia se preocupar com o que ele estava pensando – tinha que continuar falando, fazendo os gestos que dava vontade, cantando as músicas estranhas. Sim, tudo devia ter um sentido, porque jamais havia escutado esses ruídos, essas músicas, essas palavras e movimentos. Era difícil, havia sempre o medo de estar fantasiando as coisas, querendo parecer mais em contato com o Invisível do que realmente estava, mas venceu o medo do ridículo e foi em frente.

Hoje estava acontecendo algo diferente. Já não fazia aquilo por obrigação, como nos primeiros dias. Estava gostando. E começava a se sentir segura. Uma onda de segurança ia e voltava, e Chris tentou desesperadamente agarrar-se a ela.

Para manter a onda perto, precisava falar. Qualquer coisa que lhe viesse à mente.

– Vejo essa terra – sua voz era pausada, calma, embora a segunda mente aparecesse de vez em quando, dizendo que Paulo devia estar achando tudo aquilo ridículo. – Estamos num lugar seguro, podemos ficar aqui de noite, olhar as estrelas deitados no chão, e conversar sobre anjos. Não existem escorpiões, cobras, ou coiotes.

(Será que ele acha que estou inventando? Que quero impressioná-lo? Mas tenho vontade de dizer isso!)

– O planeta reservou certos lugares só para ele. Pede para irmos embora. Nestes lugares, sem os milhões de formas de vida que caminham por sua superfície, a Terra consegue ficar sozinha. Também ela precisa de solidão, pois procura entender a si mesma.

(Por que digo isso? Ele vai achar que quero me exibir. Estou consciente!) Paulo olhou em volta. O leito seco do rio parecia gentil, suave. Mas inspirava terror, o terror da solidão total, da completa ausência de vida.

– Tem uma oração – continuou Chris. A segunda mente agora já não conseguia mais fazer com que ela se sentisse ridícula.

Mas, de repente, teve medo. Medo de não saber que oração, não saber como continuar. E quando teve medo, a segunda mente voltou, e voltou o ridículo, a vergonha, a preocupação com Paulo. Afinal de contas, ele era o bruxo – sabia mais que ela, devia estar achando tudo aquilo falso.

Respirou fundo. Concentrou-se no presente, na terra onde nada crescia, no sol que já estava se escondendo. Aos poucos, a onda de segurança foi voltando – como um milagre.

– Tem uma oração – repetiu.

E irá ecoar

claramente

no céu

quando eu vier

fazendo barulho

Ficou algum tempo em silêncio, sentindo que dera o máximo de si, que a canalização acabara. Depois virou-se para ele.

– Fui longe demais hoje. Nunca tinha acontecido assim.

Paulo passou a mão em sua cabeça, e deu-lhe um beijo. Ela não sabia se ele estava fazendo aquilo por pena, ou por orgulho.

– Vamos embora – disse. – Respeitemos o desejo da terra.

“Talvez esteja dizendo isto para me dar um estímulo, para que continue a tentar a canalização”, pensou. Entretanto, tinha certeza – alguma coisa havia acontecido. Não inventara tudo aquilo.

– A oração – perguntou ela, ainda com medo da resposta.

– É um velho canto indígena. Dos feiticeiros Ojibuei.

Ficava sempre orgulhosa com a cultura do marido, embora ele dissesse que não servia para nada.

– Como podem acontecer estas coisas?

Paulo lembrou-se de J. falando sobre os segredos de alquimia no seu livro: “As nuvens são rios que já conhecem o mar.” Mas teve preguiça de explicar. Andava tenso, irritado, sem saber exatamente por que continuava no deserto; afinal de contas, já sabia como conversar com o anjo da guarda.


– Você viu o filme Psicose? – perguntou para Chris, quando chegaram ao carro. Ela confirmou com a cabeça.

– No filme, a atriz principal morre no banheiro, logo nos primeiros dez minutos. No deserto, eu descobri como se conversa com os anjos no terceiro dia. E no entanto, prometi a mim mesmo que ficaria quarenta dias aqui e agora não posso mudar de idéia.

– Mas tem as Valkírias.

– As Valkírias! Posso viver sem elas, entende?

(“Ele está com medo de não encontrá-las”, pensou Chris.)

– Já sei conversar com os anjos, isto é que é importante! – o tom de voz de Paulo era agressivo.

– Estava pensando nisso – respondeu Chris. – Você já sabe, e, entretanto, não quer tentar.

“Este é o meu problema”, Paulo disse para si mesmo, enquanto ligava o carro. “Preciso de emoções fortes. Preciso de desafios.”

Olhou para Chris. Ela lia, distraída, o Manual de Sobrevivência no Deserto que tinham comprado numa das cidadezinhas por onde passaram.

Deu a partida no carro. Começaram a andar por mais uma daquelas imensas retas que pareciam não acabar nunca.

“Não é só um problema da busca espiritual”, continuou pensando, enquanto alternava seu olhar entre Chris e a estrada. Estava farto do casamento, mesmo sabendo que amava a mulher. Precisava de emoções fortes no amor, no trabalho, em quase tudo que fazia em sua vida. Assim, contrariava uma das mais importantes leis da Natureza: todo movimento precisa de repouso. Sabia que, se continuasse dessa forma, nada em sua vida duraria muito. Começava a entender o que J. queria dizer com “a gente destrói aquilo que mais ama”.

Dois dias depois chegaram a Gringo Pass, um lugar que tinha apenas um motel, um minimercado, e o prédio da alfândega. A fronteira com o México ficava a apenas alguns metros, e os dois tiraram uma série de fotografias de pernas abertas, com um pé em cada país. Foram até o minimercado. Perguntaram sobre as Valkírias, e a dona da lanchonete disse que tinha visto “aquelas lésbicas” na parte da manhã, mas não estavam mais ali.

– Seguiram para o México? – quis saber Paulo.

– Não, não. Pegaram a estrada em direção a Tucson.

Andaram de volta até o motel, e sentaram-se na varanda. O carro estava estacionado bem na frente deles.

– Veja como este automóvel está cheio de poeira – disse Paulo, depois de alguns minutos. –

Quero lavá-lo.

– O dono do motel não vai gostar de saber que a gente está usando água para isso. Estamos no deserto, lembra?

Paulo não disse nada. Levantou-se, tirou a caixa de lenços de papel do porta-luvas, e começou a limpar o carro. Ela continuou na varanda.

“Ele está agitado. Não consegue ficar quieto”, pensou Chris.

– Quero lhe falar algo sério – disse.

– Você tem feito bem seu trabalho, não se preocupe – respondeu ele, enquanto gastava um lenço de papel atrás do outro.

– É justamente sobre isto que quero lhe falar – insistiu Chris. – Não vim aqui para fazer um trabalho. Vim porque achei que nosso casamento estava acabando.

“Ela também está sentindo isso”, pensou ele. Mas continuou concentrado em sua tarefa.

– Sempre respeitei sua busca espiritual, mas tenho a minha – disse Chris. – E vou continuar tendo, quero deixar isso bem claro. Vou continuar indo à igreja.

– Também vou à igreja.

– Mas isso aqui é diferente, você sabe. Você escolheu esta maneira de comunicar-se com Deus, e eu escolhi outra.

– Sei disso. Não quero mudar.

– Entretanto – ela respirou fundo, porque não sabia qual seria a resposta dele – alguma coisa está acontecendo comigo. Eu também quero conversar com meu anjo. Levantou-se, e foi até onde ele estava. Começou a catar os lenços de papel espalhados pelo chão.

– Me faz um favor? – disse, olhando no fundo dos olhos do marido. – Não me abandone no meio do caminho.

O posto de gasolina tinha uma pequena lanchonete na parte dos fundos. Sentaram-se perto da janela de vidro. Tinham acabado de acordar, e o mundo ainda estava quieto. Do lado de fora, a planície, a imensa reta asfaltada e o silêncio. Chris sentiu saudades de Borrego Springs, de Gringo Pass, e de Indio. Naqueles lugares o deserto tinha rosto, montanhas, vales, histórias de pioneiros e conquistadores. Aqui, porém, tudo que podia ver era a imensidão vazia. E o sol. O sol que daqui a pouco ia colorir tudo de amarelo, elevar a temperatura até 550C à sombra (embora não houvesse sombra), e tornar a vida insuportável para homens e animais.

O rapaz veio atendê-los. Era chinês, e ainda falava com sotaque – não devia estar ali há

muito tempo. Chris imaginou quantas voltas o mundo precisou dar para trazer aquele chinês até uma lanchonete no meio do deserto.

Pediram café, ovos, bacon e torradas. E continuaram em silêncio. Chris reparou os olhos do rapaz – pareciam fitar o horizonte, pareciam olhos de quem tem a alma crescida.

Mas não, ele não fazia um exercício sagrado, ou tentava desenvolver-se espiritualmente. Aquilo era um olhar de tédio. O rapaz não estava vendo nada – nem o deserto, nem a estrada, nem os dois fregueses que apareceram de manhã bem cedo. Limitava-se a repetir os movimentos que lhe haviam ensinado

– colocar o café na máquina, fritar os ovos, dizer “posso ajudá-los?”, ou “obrigado” como se fosse um animal amestrado, sem sentimentos ou reflexos. O sentido de sua vida parecia ter ficado na China, ou desaparecido na imensidão da planície sem árvores ou rochedos.

O café chegou. Começaram a tomar sem pressa. Não tinham onde ir. Paulo olhou o carro lá fora. De nada havia adiantado limpá-lo dois dias atrás. Estava de novo coberto de poeira.

Escutaram um pequeno ruído ao longe. Daqui a pouco ia passar o primeiro caminhão do dia. O rapaz deixaria de lado seu torpor, os ovos e o bacon e iria olhar para fora tentando identificar alguma coisa, querendo sentir-se parte de um mundo que se movia, que passava na frente da lanchonete. Era tudo o que ele podia fazer: olhar de longe e ver o mundo passar. Provavelmente já não sonhava mais em largar a lanchonete um dia e pedir carona em um daqueles caminhões. Estava viciado em Silêncio e Vazio. O ruído começou a aumentar, e não se parecia com o motor de um caminhão. Por um instante, o coração de Paulo encheu-se de esperança. Mas era apenas esperança, nada mais. Procurou não pensar nisso.

Aos poucos, o ruído foi crescendo. Chris virou-se para ver o que acontecia lá fora. Paulo manteve os olhos fixos no café. Tinha medo de que ela percebesse sua ansiedade. Os vidros do restaurante tremeram levemente com o barulho. O rapaz parecia não dar muita importância – conhecia aquele ruído, e não gostava dele.

Mas Chris olhava fascinada. O horizonte enchera-se de brilho, o sol refletia nos metais, e –

na sua imaginação – o barulho parecia sacudir as ervas, o asfalto, o teto, o restaurante, as vidraças. Com um estrondo, elas entraram no posto de gasolina, e a estrada reta, o deserto plano, a erva rasteira, o rapaz chinês, os dois brasileiros que procuravam um anjo, tudo foi afetado por aquela presença.


Os belos cavalos deram voltas e mais voltas no posto, perigosamente próximos um do outro, os chicotes estalando no ar, as mãos enluvadas brincando com a habilidade e o perigo. Elas gritavam como os cowboys tocando seu gado, queriam acordar o deserto, dizer que estavam vivas e alegres por causa da manhã. Paulo tinha levantado os olhos, e olhava fascinado, mas o medo continuava no seu coração. Podia ser que não parassem ali, que estivessem fazendo tudo aquilo apenas para despertar o rapaz chinês, explicar para ele que ainda existia vida, alegria, e habilidade.

De repente, obedecendo a um sinal invisível, os animais pararam. As Valkírias desceram. As roupas de couro, os lenços coloridos tapando parte do rosto, deixando só os olhos de fora, para não respirarem a poeira.

Tiraram os lenços, e esfregaram nas roupas negras, sacudindo o deserto de seus corpos. Depois colocaram-nos no pescoço, e entraram na lanchonete.

Eram oito mulheres.

Não pediram nada. O rapaz chinês parecia saber o que queriam – já estava colocando ovos, bacon, torradas na chapa aquecida. Mesmo com toda aquela gente, ele continuava parecendo uma máquina obediente.

– Por que o rádio está desligado? – perguntou uma delas.

A obediente máquina chinesa foi lá e ligou o rádio.

– Aumente – disse outra.

O robô chinês colocou no volume máximo. A sensação era que, de repente, o esquecido posto de gasolina havia se transformado numa discoteca de Nova York. Algumas das mulheres acompanhavam o ritmo com palmas, enquanto outras tentavam conversar aos gritos, no meio daquela barulheira toda.

Mas uma delas não se movia, não se interessava pela conversa, nem pelas palmas, nem pelo café da manhã.

Fixava o olhar em Paulo. E Paulo, apoiando o queixo com a mão esquerda, sustentava o olhar da mulher.

Chris também olhou para ela. Parecia ser a mais velha, com os cabelos ruivos, encaracolados, compridos.

Sentiu uma pontada no coração. Alguma coisa estranha, muito estranha, estava acontecendo

– embora não soubesse explicar. Talvez o fato de ter olhado o horizonte todos aqueles dias – ou treinado sem parar a canalização – estivesse mudando a maneira de ver as coisas à sua volta. Os pressentimentos estavam presentes, e se manifestavam.

Fingiu não notar que os dois se olhavam. Mas seu coração dava sinais estranhos – e não sabia se eram bons ou ruins.

“Took estava certo”, pensava Paulo. “Disse que seria muito fácil estabelecer contato com elas.”

Aos poucos, as outras Valkírias foram percebendo o que se passava. Primeiro, observaram a mais velha, e, acompanhando seu olhar, viram a mesa em que Paulo e Chris estavam sentados. Já não conversavam mais, e não acompanhavam com o corpo o ritmo da música.

– Desligue o rádio – disse a mais velha para o chinês.

Como sempre, ele obedeceu. Agora, o único ruído que se podia ouvir era dos ovos e do bacon fritando na chapa.

A mais velha levantou-se e dirigiu-se até a mesa. Ficou em pé, ao lado dos dois. As outras acompanhavam a cena.

– Onde arranjou este anel? – perguntou.

– Na mesma loja em que você comprou seu broche – respondeu ele. Foi então que Chris notou um broche de metal preso na jaqueta de couro. Tinha o mesmo desenho do anel que Paulo usava no dedo anular da mão esquerda.

“Por isso ele estava com a mão no queixo.”

Ela já vira muitos anéis da Tradição da Lua – de todas as cores, metais e formatos – sempre na forma de uma serpente, o símbolo da sabedoria. Nunca, entretanto, vira um semelhante ao de seu marido. Uma das primeiras providências de J. tinha sido entregar aquele anel, dizendo que assim ele completava “a Tradição da Lua, um ciclo interrompido pelo medo”. Era o ano de 1982, e ela estava com Paulo e J. na Noruega.

E agora, no meio do deserto – uma mulher com o broche. O mesmo desenho.

“As mulheres sempre reparam em jóias.”

– O que você quer? – tornou a perguntar a ruiva.

Paulo também ficou de pé. Os dois se olharam, frente a frente. O coração de Chris apertou mais ainda – tinha absoluta certeza de que não era ciúme.

– O que você quer? – repetiu ela.

– Conversar com meu anjo. E mais uma coisa.

Ela pegou a mão de Paulo. Passou seus dedos no anel, e, pela primeira vez, havia um toque feminino naquela mulher.

– Se você comprou este anel na mesma loja que eu, deve saber como se faz – disse, com os olhos fixos nas serpentes. – Se não comprou, venda para mim. É uma bela jóia. Não era uma jóia. Era apenas um anel de prata, com duas serpentes. Cada serpente tinha duas cabeças, e o desenho era muito simples.

Paulo não respondeu nada.

– Você não sabe conversar com anjos, e este anel não é seu – disse a Valkíria depois de algum tempo.

– Sei, sim. Canalização.

– Exato – respondeu a mulher. – Nada além disso.

– Eu disse que queria mais uma coisa.

– O quê?

– Took viu o seu anjo. Quero ver o meu. Conversar com ele, frente a frente.

– Took?

Os olhos da mulher ruiva percorreram o passado, tentando recordar quem era Took, onde vivia.

– Sim, agora me lembro – disse. – Ele vive no deserto. Justamente porque viu seu anjo.

– Não. Ele aprende a ser Mestre.

– Este negócio de ver anjo é pura lenda. Basta conversar com ele. Paulo deu um passo em direção à Valkíria.

Chris conhecia o truque que seu marido estava usando: ele chamava de “desestabilização”. Normalmente duas pessoas sempre conversam mantendo um braço de distância entre elas. Quando uma se aproxima demais, o raciocínio da outra fica desorientado, sem que perceba o que está acontecendo.

– Quero ver meu anjo. – Ele estava bem próximo da mulher, e mantinha os olhos fixos nela.

– Para quê? – a Valkíria parecia intimidada. O truque estava dando resultado.

– Porque estou desesperado, e precisando de ajuda. Conquistei coisas importantes para mim, e vou destruí-las porque digo a mim mesmo que elas perderam o sentido. Sei que é mentira, que elas continuam importantes e, se as destruir, estarei destruindo a mim também. Ele mantinha o mesmo tom de voz, sem demonstrar qualquer emoção pelo que dizia.

– Quando descobri que para conversar com o anjo bastava a canalização, perdi o interesse. Não era mais um desafio, era algo que já conhecia bem. Então notei que meu caminho na magia estava prestes a acabar; o Desconhecido estava ficando familiar demais para mim. Chris estava surpresa com a confissão, feita num lugar público, diante de pessoas que nunca tinha visto.

– Para continuar neste caminho, preciso de algo maior – concluiu ele. – Preciso de montanhas cada vez mais altas.

A Valkíria ficou um momento sem dizer nada. Também ela estava surpresa com a conversa do estrangeiro.

– Se eu lhe ensinar como ver um anjo, o desejo de buscar montanhas cada vez mais altas pode desaparecer – disse, afinal. E isto nem sempre é bom.

– Não, nunca vai desaparecer. O que vai sumir é essa idéia de que as montanhas conquistadas são baixas demais. Vou manter aceso meu amor por aquilo que consegui. Era o que o meu mestre estava tentando me dizer.

“Talvez ele esteja também falando de casamento”, pensou Chris.

A Valkíria estendeu a mão para Paulo.

– Meu nome é M. – disse ela.

– Meu nome é S. – respondeu Paulo.

Chris levou um susto. Paulo havia dado seu nome mágico! Poucas, pouquíssimas pessoas conheciam este segredo, já que a única maneira de se causar certo mal a um mago é usando seu nome mágico. Por isso, só quem fosse de absoluta confiança poderia saber.

Paulo acabara de encontrar aquela mulher. Não podia confiar tanto nela.

– Entretanto, pode me chamar de Vahalla – disse a ruiva.

“Lembra o nome do paraíso viking”, pensou Paulo, enquanto lhe dava também o nome de batismo.

A ruiva pareceu relaxar um pouco. Pela primeira vez olhou para Chris, sentada na mesa.

– Para ver um anjo são necessárias três coisas – continuou a ruiva, voltando a olhar Paulo, como se Chris não existisse. – E, além dessas três coisas, é preciso ter coragem.

“Coragem de mulher, a verdadeira coragem. Não a coragem de homem.”

Paulo fingiu não dar importância.

– Estaremos perto de Tucson amanhã – disse Vahalla. – Venha nos encontrar ao meio-dia, se o seu anel for verdadeiro.

Paulo foi até o carro, trouxe o mapa, e Vahalla mostrou o lugar exato do encontro. O chinês colocou os ovos e o bacon na mesa, e uma das Valkírias avisou a ruiva que seu café da manhã estava esfriando. Ela voltou para seu lugar no balcão, pedindo ao chinês para ligar de novo o rádio.

– Quais são as três condições para se conversar com o anjo? – perguntou ele, quando ela ia saindo.

– Romper um acordo. Aceitar um perdão. E fazer uma aposta – respondeu Vahalla.


Olhou a cidade lá embaixo. Pela primeira vez em quase três semanas, estavam num hotel de verdade – com serviço de quarto, bar, e café da manhã na cama.

Eram seis horas da tarde – e costumava praticar o exercício de canalização a esta hora. Mas Paulo dormia profundamente.

Chris sabia que o encontro daquela manhã no posto de gasolina havia mudado tudo; se quisesse conversar com seu anjo, teria que agir por si mesma.

Tinham conversado pouco na viagem até Tucson. Ela limitou-se a perguntar por que ele havia dito seu nome mágico. Paulo respondeu que Vahalla dissera o seu, numa demonstração de coragem e confiança – e ele não podia ficar para trás.

Podia ser que estivesse falando a verdade. Mas Chris acreditava que, ainda esta noite, Paulo iria chamá-la para uma conversa.

Era mulher, enxergava coisas que os homens não viam.

Desceu, foi até a portaria, perguntou onde ficava a livraria mais próxima. Não havia. Era preciso ir de carro até um centro comercial.

Ela ficou alguns minutos em dúvida. Terminou por subir de novo, e pegou a chave. Estavam numa cidade grande; se Paulo acordasse, pensaria o que todo homem pensa a respeito de mulheres: que tinha saído para olhar as lojas.

Perdeu-se no trânsito algumas vezes, mas terminou descobrindo um gigantesco centro comercial (ou mall, como chamavam ali). Uma das lojas tinha um chaveiro na porta – e ela mandou fazer cópia da chave do carro.

Queria ter uma. Apenas por segurança.

Depois procurou a livraria. Folheou um livro, e encontrou o que estava buscando.

WALKYRIAS: ninfas do palácio de Votan.

Não tinha idéia de quem fosse Votan. Mas não era importante.

Mensageiras dos deuses, conduziam os heróis à morte – e depois, ao Paraíso. Mensageiras. Como os anjos. Morte e Paraíso. Também como os anjos.

Excitam os combatentes pelo amor que seu charme inspira em seus corações, e pelo exemplo de bravura à frente das batalhas, montadas em corcéis rápidos como as nuvens, e ensurdecedores como a tempestade.

Não podiam ter escolhido um nome melhor, pensou.

Simbolizam ao mesmo tempo a embriaguez da coragem e o descanso do guerreiro, a aventura do amor em luta, o encontro e a perda.

Sim, com toda certeza, Paulo iria querer conversar com ela.

Desceram para jantar no restaurante do próximo hotel – embora Paulo insistisse muito para saírem um pouco, conhecer uma cidade grande encravada em pleno deserto. Mas Chris disse que estava cansada, queria dormir cedo, aproveitar o conforto.

Passaram o jantar inteiro conversando trivialidades. Paulo estava exageradamente gentil –

ela conhecia o marido, sabia que procurava o momento certo. Então fingiu que prestava atenção em tudo, e demonstrou muita animação quando ele disse que em Tucson havia o mais completo museu sobre o deserto de que se tem notícia.

Ele ficou contente com seu interesse. Entusiasmado, disse que ali se podiam ver coiotes, cobras, escorpiões, tudo em total segurança, e com informações sérias a respeito. Podia passar o dia inteiro lá. Ela disse que gostaria muito de visitar o museu.

– Vá visitá-lo amanhã – sugeriu Paulo.

– Mas Vahalla marcou ao meio-dia.

– Não é necessário que você vá.

– Estranha hora – ela respondeu. – Ninguém fica andando muito tempo pelo deserto ao meio-dia. Nós aprendemos isso – da pior maneira possível.

Paulo também tinha achado estranho. Mas não queria perder a oportunidade; tinha medo de que Vahalla mudasse de idéia, apesar do anel e de tudo.

Ele trocou de assunto, e Chris ficou saboreando a ansiedade do marido. Voltaram a falar de coisas triviais por mais algum tempo. Beberam uma garrafa de vinho inteira, e o sono veio rápido. Paulo sugeriu que subissem logo para o apartamento.

– Não sei se você deve ir amanhã – disse ele, enfiando a frase no meio de outra conversa. Já saboreara tudo que queria – a comida, o lugar, a ansiedade de Paulo. Gostava de confirmar para si mesma que conhecia bem o homem a seu lado. Mas agora estava ficando realmente tarde, era hora de ser definitiva a respeito.

– Vou com você. De qualquer jeito.

Ele ficou irritado. Disse que ela estava com ciúmes e estragando seu processo.

– Ciúmes de quem?

– Das Valkírias. De Vahalla.

– Que bobagem.

– Mas esta é a minha busca. Vim com você porque queria estar ao seu lado, mas existem certas coisas que preciso fazer sozinho.

– Quero ir com você – disse ela.

– A magia nunca foi importante em sua vida. Por que agora?

– Porque comecei. E pedi para não ser abandonada no meio do caminho – respondeu, colocando um ponto-final na conversa.


O silêncio era total.

Chris estava sustentando há bastante tempo o olhar da mulher.

Todos – inclusive Paulo – estavam de óculos escuros.

Todos – menos ela e Vahalla. Tirara os óculos para que a Valkíria soubesse que estava olhando em seus olhos.

Os minutos corriam – e ninguém dizia nada. A única palavra pronunciada em todo aquele tempo tinha sido o “olá!” de Paulo, quando chegaram ao lugar marcado. O cumprimento ficara sem resposta. Vahalla aproximou-se e parou diante de Chris.

E, desde aquele momento, nada mais havia acontecido.

“Vinte minutos”, pensou consigo mesma. Mas não sabia exatamente quanto tempo se passara. O brilho do sol, o calor e o silêncio confundiam as coisas em sua cabeça. Tentou distrair-se um pouco. Estavam na base de uma montanha – que bom, o deserto voltara a ter montanhas! Atrás de Vahalla havia uma porta cravada na rocha. Começou a imaginar aonde levaria esta porta, e notou que já não conseguia pensar direito. Igual ao dia em que voltavam do lago de sal.

As outras Valkírias estavam num semicírculo, montadas em cavalos silenciosos; tinham os lenços na cabeça, à maneira dos ciganos e dos piratas. Vahalla era a única com a cabeça descoberta – seu lenço estava no pescoço. Parecia não dar importância ao sol.

Não havia suor – a secura do ar era tão grande que todo líquido evaporava-se imediatamente, como dissera Took. Chris sabia que estavam desidratando com rapidez. Embora tivesse bebido toda a água que podia, embora tivesse se preparado para o deserto ao meio-dia. Embora não estivesse nua.

“Mas ela está me despindo com seus olhos”, pensou. Não à maneira dos homens na rua, mas do jeito – do terrível jeito – que as mulheres fazem, quando…”

Havia um limite. Ela não sabia qual era, nem como, nem quando, mas daqui a pouco o sol começaria a causar danos. Entretanto, todos continuavam imóveis – e tudo aquilo acontecia por causa dela, porque ela insistira em ficar perto – mensageiras dos deuses, conduziam os heróis à morte e ao Paraíso. Tinha feito uma besteira, mas agora era tarde. Viera porque seu anjo havia mandado; ele dissera que Paulo ia precisar dela naquela tarde.

“Não, não foi besteira. Ele insistiu que eu viesse”, pensou.

Seu anjo – estava conversando com ele! Ninguém sabia – nem Paulo. Começou a sentir-se tonta, e teve certeza de que ia desmaiar daí a pouco. Mas iria até o fim

– agora já não era mais uma questão de estar ao lado do marido, obedecer ao anjo, ter ciúmes. Agora era o orgulho de uma mulher – diante de outra.

– Coloque os óculos – disse Vahalla. – Esta luz pode cegar.

– Você está sem óculos – respondeu. – E não está com medo.

Vahalla fez um sinal. E, de repente, o sol parecia ter se multiplicado em dezenas deles. As Valkírias estavam fazendo com que o sol refletisse no metal dos arreios, e dirigiam todos os raios para seu rosto. Ela viu um semicírculo brilhante, apertou um pouco as pálpebras, e manteve seu olhar fixo na Valkíria.

Entretanto, agora não podia enxergá-la direito. Ela parecia crescer, crescer, e a confusão em sua mente aumentou. Sentiu que ia cair, e, neste momento, braços cobertos de couro a ampararam. Paulo assistiu Vahalla pegar sua mulher nos braços. Podia ter evitado tudo aquilo. Podia ter insistido em que ficasse no hotel – não importava o que estivesse pensando. Desde o momento em que viu o broche, soube a que Tradição as Valkírias pertenciam.

Elas também tinham visto seu anel, e sabiam que ele já fora testado em muitas coisas, e seria difícil assustá-lo. Mas fariam de tudo para provar a fibra de qualquer estranho que se aproximasse do grupo. Como sua mulher, por exemplo.

Entretanto não podiam impedir Chris, nem ninguém – mas ninguém mesmo –, de conhecer o que conheciam. Tinham feito um juramento: tudo que estava oculto, precisava ser revelado. Chris estava agora sendo testada na primeira grande virtude de quem busca o caminho espiritual: coragem.

– Ajude-me – disse a Valkíria.

Paulo aproximou-se e ajudou-a a segurar a mulher. Foram até o carro e a deitaram no banco de trás.

– Não se preocupe. Vai voltar a si em instantes. Com uma grande dor de cabeça. Ele não estava preocupado. Estava orgulhoso.

Vahalla foi até seu cavalo e trouxe um cantil. Paulo reparou que ela já havia colocado os óculos escuros – também devia ter chegado ao seu limite.

Passou água na testa de Chris, em seus pulsos e atrás das orelhas. Ela abriu os olhos, piscou um pouco, e sentou-se.

– Romper um acordo – disse, olhando para a Valkíria.

– Você é uma mulher interessante – respondeu Vahalla, passando a mão em seu rosto. –

Coloque os óculos.

Vahalla acariciava os cabelos de Chris. E, mesmo que agora as duas estivessem usando óculos, Paulo sabia que continuavam se olhando.

Andaram até a estranha porta da montanha. Ali, Vahalla virou-se para as outras Valkírias.

– Pelo amor. Pela vitória. E pela glória de Deus.

As palavras dos que conheciam anjos. A mesma frase de J.

Os animais, até então silenciosos e imóveis, começaram a se mexer. Uma nuvem de poeira cobriu o lugar, as Valkírias fizeram as mesmas brincadeiras do posto de gasolina – passando perto uma da outra – e, minutos depois, desapareciam num dos lados da montanha. Vahalla então se virou para eles:

– Vamos entrar – disse.

Não havia uma porta, mas uma grade. Na frente, uma tabuleta:

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