descontentamento na classe de sargentos, pelos vistos mais conscientes
que o restante pessoal da importância dos valores de honra militar e de
serviço à pátria. No entanto, se o movimento capilar desse desgosto
pôde ascender até aos alferes, se depois perdeu um tanto do seu ímpeto
à altura dos tenentes, o certo é que tornou a ganhar força, e muita,
quando alcançou o nível dos capitães. Claro que nenhum deles se
atreveria a pronunciar em voz alta a perigosa palavra máphia, mas,
quando debatiam uns com os outros, não podiam evitar a lembrança de
como nos dias anteriores à desmobilização tinham sido interceptadas
numerosas furgonetas que transportavam enfermos terminais, as quais
levavam ao lado do condutor um vigilante oficialmente credenciado
que, antes mesmo que lho pedissem, exibia, com todos os necessários
timbres, assinaturas e carimbos apostos, um papel em que, por motivo
de interesse nacional, expressamente se autorizava a deslocação do
padecente fulano de tal a destino não especificado, mais se determi-
nando que as forças militares deveriam considerar-se obrigadas a
prestar toda a colaboração que lhes fosse solicitada, com vista a garantir
aos ocupantes de cada furgoneta a perfeita efectividade da operação de
54
traslado. Nada disto poderia suscitar dúvidas no espírito dos dignos
sargentos se, pelo menos em sete casos, não se tivesse dado a estranha
casualidade de o vigilante haver piscado um olho ao soldado no preciso
momento em que lhe passava o documento para verificação. Conside-
rando a dispersão geográfica dos lugares em que estes episódios da
vida de campanha tinham ocorrido, foi imediatamente posta de parte a
hipótese de se tratar de um gesto, digamo-lo assim, equívoco, algo que
tivesse que ver com os manejos da mais primária sedução entre pessoas
do mesmo sexo ou de sexos diferentes, para o caso tanto fazia. o
nervosismo de que os vigilantes deram então claras mostras, uns mais
do que outros, é certo. mas todos de tal maneira que mais pareciam
estar a deitar uma garrafa ao mar com um papel lá dentro a pedir
socorro, foi o que levou a perspicaz corporação dos sargentos a pensar
que nas furgonetas iria escondido aquele sobre todos famoso gato que
sempre arranja modo de deixar a ponta do rabo de fora quando quer
que o descubram. Viera depois a inexplicável ordem de regresso aos
quartéis, logo uns zunzuns aqui e além, nascidos não se sabe como nem
onde, mas que alguns alvissareiros, em confidência, insinuavam poder
ser o próprio ministério do interior. os jornais da oposição fizeram-se
eco do mau ambiente que estaria a respirar-se nos quartéis, os jornais
afectos ao governo negaram veementemente que tais miasmas estives-
sem a envenenar o espírito de corpo das forças armadas, mas o certo é
que os rumores de que um golpe militar estaria em preparação, embora
ninguém soubesse explicar porquê e para quê, cresceram por toda a
parte e fizeram com que, de momento, tivesse passado a um segundo
plano de interesse público o problema dos enfermos que não morriam.
Não que ele estivesse esquecido, como o provava uma frase então posta
a circular e muito repetida pelos frequentadores dos cafés, Ao menos,
55
dizia-se, mesmo que venha a haver um golpe militar, de uma cousa
poderemos estar certos, por mais tiros que derem uns nos outros não
conseguirão matar ninguém. Esperava-se a todo o momento um dramá-
tico apelo do rei à concórdia nacional, uma comunicação do governo
anunciando um pacote de medidas urgentes, uma declaração dos altos
comandos do exército e da aviação, porque, não havendo mar, marinha
também não havia, protestando fidelidade absoluta aos poderes legiti-
mamente constituídos, um manifesto dos escritores, uma tomada de
posição dos artistas, um concerto solidário, uma exposição de cartazes
revolucionários, uma greve geral promovida em conjunto pelas duas
centrais sindicais, uma pastoral dos bispos chamando à oração e ao
jejum, uma procissão de penitentes, uma distribuição maciça de
panfletos amarelos, azuis, verdes, vermelhos, brancos, chegou mesmo a
falar-se em convocar uma gigantesca manifestação na qual
participassem os milhares de pessoas de todas as idades e condições
que se encontravam em estado de morte suspensa, desfilando pelas
principais avenidas da capital em macas, carrinhos de mão, ambu-
lâncias ou às costas dos filhos mais robustos, com uma faixa enorme à
frente do cortejo, que diria, sacrificando nada menos que quatro
vírgulas à eficácia do dístico, Nós que tristes aqui vamos, a vós todos
felizes esperamos. Afinal, nada disto veio a ser necessário. É verdade
que as suspeitas de um envolvimento directo da máphia no transporte
de doentes não se dissiparam, é verdade que viriam mesmo a reforçar-
se à luz de alguns dos sucessos subsequentes, mas uma só hora iria
bastar para que a súbita ameaça do inimigo externo sossegasse as
disposições fratricidas e reunisse os três estados, clero, nobreza e povo,
ainda vigentes no país apesar do progresso das ideias, à volta do seu rei
56
e, se bem que com certas justificadas reticências, do seu governo. o caso,
como quase sempre, conta-se em breves palavras.
Irritados pela contínua invasão dos seus territórios por comandos de
enterradores, maphiosos ou espontâneos, vindos daquela terra aberran-
te em que ninguém morria, e depois de não poucos protestos
diplomáticos que de nada serviram, os governos dos três países
limítrofes resolveram, numa acção concertada, fazer avançar as suas
tropas e guarnecer as fronteiras, com ordem taxativa de dispararem ao
terceiro aviso. Vem a propósito referir que a morte de uns quantos
maphiosos abatidos praticamente à queima-roupa depois deterem
atravessado a linha de separação, sendo o que costumamos chamar os
ossos do ofício, foi imediato pretexto para que a organização subisse os
preços da sua tabela de prestação de serviços na rubrica de segurança
pessoal e riscos operativos.
Mencionado este elucidativo pormenor sobre o funcionamento da
administração maphiosa, passemos ao que importa. uma vez mais,
rodeando numa manobra táctica impecável as hesitações do governo e
as dúvidas dos altos comandos das forças armadas, os sargentos
retomaram a iniciativa e foram, à vista de toda a gente, os promotores. e
em consequência também os heróis, do movimento popular de protesto
que saiu de casa para exigir, em massa nas praças, nas avenidas e nas
ruas, o regresso imediato das tropas à frente de batalha. Indiferentes,
impassíveis perante os gravíssimos problemas com que a pátria de
aquém se debatia, a braços com a sua quádrupla crise, demográfica,
social, política e económica, os países de além tinham finalmente
deixado cair a máscara e mostravam-se à luz do dia como seu
verdadeiro rosto, o de duros conquistadores e implacáveis imperia-
57
listas. o que eles têm é inveja de nós, dizia-se nas lojas e nos lares,
ouvia-se na rádio e na televisão, lia-se nos jornais, o que eles têm é
inveja de que na nossa pátria não se morra, por isso nos querem invadir
e ocupar o temtório para não morrerem também. Em dois dias, a
marchas forçadas e de bandeiras ao vento, cantando canções patrióticas
como a marselhesa, o ça ira, a maria da fonte, o hino da carta, o não verás
país nenhum, a banniera rossa, a portuguesa, o god save the king, a
internacional, o deutschland über alles, o chant du marais, as stars and
stripes, os soldados voltaram aos postos de onde tinham vindo, e aí,
armados até aos dentes, aguardaram a pé firme o ataque e a glória. Não
houve. Nem a glória, nem o ataque. Pouco de conquistas e ainda menos
de impérios, o que os ditos países limítrofes pretendiam era tão-
somente que não lhes fossem lá enterrar sem autorização esta nova
espécie de imigrantes forçados, e, ainda se lá fossem só para enterrar, vá
que não vá, mas iam igualmente para matar, assassinar, eliminar,
apagar, porquanto era naquele exacto e fatídico momento em que, de
pés para a frente para que a cabeça pudesse dar-se conta do que estava
a passar-se com o resto do corpo, atravessavam a fronteira, que os
infelizes se finavam, soltavam o último suspiro. Postos estão frente a
frente os dois valerosos campos, mas também desta vez o sangue não
irá chegar ao rio. E olhem que não foi por vontade dos soldados do lado
de cá, porque esses tinham a certeza de que não morreriam mesmo que
uma rajada de metralhadora os cortasse ao meio. Ainda que por mais
do que legítima curiosidade científica devamos perguntar-nos como
poderiam sobreviver as duas partes separadas naqueles casos em que o
estômago ficasse para um lado e os intestinos para outro. seja como for,
só a um perfeito louco varrido lhe ocorreria a ideia de dar o primeiro
tiro. E esse, a deus graças, não chegou a ser disparado. Nem sequer a
58
circunstância de alguns soldados do outro lado terem decidido desertar
para o eldorado em que não se morre teve outra consequência que
serem devolvidos imediatamente à origem, onde já um conselho de
guerra estava à sua espera. o facto que acabámos de referir é de todo
irrelevante para o decurso da trabalhosa história que vimos narrando e
dele não voltaremos a falar, mas, ainda assim, não quisemos deixá-lo
entregue à escuridão do tinteiro. o mais provável é que o conselho de
guerra resolva a priori não tomar em conta nas suas deliberações o
ingénuo anseio de vida eterna que desde sempre habita no coração
humano, Aonde é que isto iria parar se todos passássemos a viver
eternamente, sim, aonde é que isto iria parar, perguntará a acusação
usando de um golpe da mais baixa retórica, e a defesa, escusado será o
aditamento, não teve espírito para encontrar uma resposta à altura da
ocasião, ela também não tinha nenhuma ideia de aonde iria parar.
Espera-se que, ao menos, não venham a fuzilar os pobres diabos. Então
seria caso para dizer que haviam ido por lã e de lá vieram prontos para
a tosquia.
Mudemos de assunto. Falando das desconfianças dos sargentos e dos
seus aliados alferes e capitães sobre uma responsabilidade directa da
máphia no transporte dos padecentes para a fronteira, havíamos
adiantado que essas desconfianças se viram reforçadas por uns quantos
subsequentes sucessos. É o momento de revelar quais eles foram e como
se desenrolaram. A exemplo do que havia feito a família de pequenos
agricultores iniciadora do processo, o que a máphia tem feito é simples-
mente atravessar a fronteira e enterrar os mortos, cobrando por isto um
dinheirame. Com outra diferença, a de que o faz sem atender à beleza
dos sítios e sem se preocupar em apontar no canhenho da operação as
59
referências topográficas e orográficas que no futuro pudessem auxiliar
os familiares chorosos e arrependidos da sua malfetria a encontrar a
sepultura e pedir perdão ao morto. ora, não será preciso ser-se dotado
de uma cabeça especialmente estratégica para compreender que os
exércitos alinhados no outro lado das três fronteiras tinham passado a
constituir um sério obstáculo a uma prática sepulcrária que decorrera
até aí na mais perfeita das seguranças.
Não seria a máphia o que é, se não tivesse encontrado a solução do
problema. É realmente uma lástima, permita-se-nos o comentário à
margem, que tão brilhantes inteligências como as que dirigem estas
organizações criminosas se tenham afastado dos rectos caminhos do
acatamento à lei e desobedecido ao sábio preceito bíblico que mandava
que ganhássemos o pão com o suor do nosso rosto, mas os factos são os
factos, e ainda que repetindo a palavra magoada do adamastor, oh, que
não sei de nojo como o conte, deixaremos aqui a compungida notícia do
ardil de que a máphia se serviu para obviar a uma dificuldade para a
qual, segundo todas as aparências, não se via nenhuma saída. Antes de
prosseguirmos convirá esclarecer que o termo nojo, posto pelo épico na
boca do infeliz gigante, significava então, e só, tristeza profunda, pena,
desgosto, mas, de há tempos a esta pane, o vulgar da gente considerou,
e muito bem, que se estava a perder ali uma estupenda palavra para
expressar sentimentos como sejam a repulsa, a repugnância, o asco, os
quais, como qualquer pessoa reconhecerá, nada têm que ver com os
enunciados acima. Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de
opinião como as pessoas. Claro que o do ardil não foi encher, atar e pôr
ao fumeiro, o assunto teve de dar as suas voltas, meteu emissários com
bigodes postiços e chapéus de aba derrubada, telegramas cifrados,
diálogos através de linhas secretas, por telefone vermelho, encontros em
60
encruzilhadas à meia-noite, bilhetes debaixo da pedra, tudo o de que
mais ou de menos já nos havíamos apercebido nas outras negociações,
aquelas em que, por assim dizer, se jogaram os vigilantes aos dados. E
também não se pode pensar que se tratou, como no outro caso, de
transacções simplesmente bilaterais. Além da máphia deste país em que
não se morre, participaram igualmente nas conversações as máphias
dos países limítrofes, pois essa era a única maneira de resguardar a
independência de cada organização criminosa no quadro nacional em
que operava e do seu respectivo governo. Não teria qualquer aceitação,
seria mesmo absolutamente repreensível, que a máphia de um desses
países se pusesse a negociar em directo com a administração de outro
país. Apesar de tudo, as cousas ainda não chegaram a esse ponto, tem-
no impedido até agora, como um último pudor, o sacrossanto princípio
da soberania nacional, tão importante para as máphias como para os
governos, o que, sendo mais ou menos óbvio no que a estes respeita,
seria bastante duvidoso em relação àquelas associações criminosas se
não tivéssemos presente com que ciumenta brutalidade costumam elas
defender os seus territórios das ambições hegemónicas dos seus colegas
de ofício. Coordenar tudo isto, conciliar o geral com o particular, equi-
librar os interesses de uns com os interesses dos outros, não foi tarefa
fácil, o que explica que durante duas longas e aborrecidas semanas de
espera os soldados tivessem passado o tempo a insultar-se pelos
altifalantes, tendo em todo o caso o cuidado de não ultrapassar certos
limites, de não exagerar no tom, não fosse a ofensa subir à cabeça de
algum tenente-coronel susceptível e arder tróia. o que mais contribuiu
para complicar e demorar as negociações foi o facto de nenhuma das
máphias dos outros países dispor de vigilantes para fazer com eles o
que entendesse, faltando-lhes, consequentemente, o irresistível meio de
61
pressão que tão bons resultados havia dado aqui. Embora este lado
obscuro das negociações não tenha chegado a transpirar, a não ser pelos
zunzuns de sempre, existem fortes presunções de que os comandos
intermédios dos exércitos dos países limítrofes, com o indulgente
beneplácito do ramo superior da hierarquia, se tenham deixado
convencer, só deus sabe a que preço, pela argumentação dos porta-
vozes das máphias locais, no sentido de fechar os olhos às
indispensáveis manobras de ir e vir, de avançar e recuar, em que a
solução do problema afinal consistia. Qualquer criança teria sido capaz
da ideia, mas, para a tornar efectiva, era necessário que, chegada à
idade a que chamamos da razão, tivesse ido bater à porta da secção de
recrutamento da máphia para dizer, Trouxe-me a vocação, cumpra-se
em mim a vossa vontade.
os amantes da concisão, do modo lacónico, da economia de
linguagem, decerto se estarão perguntando porquê, sendo a ideia assim
tão simples, foi preciso todo este arrazoado para chegarmos enfim ao
ponto crítico. A resposta também é simples, e vamos dá-la utilizando
um termo actual, moderníssimo, com o qual gostaríamos de ver
compensados os arcaísmos com que, na provável opinião de alguns,
temos salpicado de mofo este relato, Por mor do background. Dizendo
background, toda a gente sabe do que se trata, mas não nos faltariam
dúvidas se, em vez de background, tivéssemos chochamente dito plano
de fundo, esse aborrecível arcaísmo, ainda por cima pouco fiel à
verdade, dado que o background não é apenas o plano de fundo, é toda
a inumerável quantidade de planos que obviamente existem entre o
sujeito observado e a linha do horizonte. Melhor será então que lhe
chamemos enquadramento da questão. Exactamente, enquadramento
da questão, e agora que finalmente a temos bem enquadrada, agora sim,
62
chegou a altura de revelar em que consistiu o ardil da máphia para
obviar qualquer hipótese de um conflito bélico que só iria servir para
prejudicar os seus interesses. uma criança, já o havíamos dito antes,
poderia ter tido a ideia. A qual não era senão isto, passar para o outro
lado da fronteira o padecente e, uma vez falecido ele, voltar para trás e
enterrá-lo no materno seio da sua terra de origem. um xeque-mate
perfeito no mais rigoroso, exacto e preciso sentido da expressão. Como
se acaba de ver, o problema ficava resolvido sem desdouro para
qualquer das partes implicadas, os quatro exércitos, já sem motivo para
se manterem em pé de guerra na fronteira, podiam retirar-se à boa paz,
uma vez que o que a máphia se propunha fazer era simplesmente entrar
e sair, lembremos uma vez mais que os padecentes perdiam a vida no
mesmo instante em que os transportavam ao outro lado, a partir de
agora não precisarão de lá ficar nem um minuto, é só aquele tempo de
morrer, e esse, se sempre foi de todos o mais breve, um suspiro, e já
está, pode-se imaginar bem o que passou a ser neste caso, uma vela que
de repente se apaga sem ser preciso soprar-lhe. Nunca a mais suave das
eutanásias poderá vir a ser tão fácil e tão doce. O mais interessante da
nova situação criada é que a justiça do país em que não se morre se
encontra desprovida de fundamentos para actuar judicialmente contra
os enterradores, supondo que o quisesse de facto, e não só por se
encontrar condicionada pelo acordo de cavalheiros que o governo teve
de armar com a máphia. Não os pode acusar de homicídio porque,
tecnicamente falando, homicídio não há em realidade, e porque o
censurável acto, classifique-o melhor quem disso for capaz, se comete
em países estrangeiros, nem tão-pouco os pode incriminar por haver
enterrado mortos, uma vez que o destino deles é esse mesmo, e já é para
agradecer que alguém tenha decidido encarregar-se de um trabalho a
63
todos os títulos penoso, tanto do ponto de vista físico como do ponto de
vista anímico. Quando muito, poderia alegar que nenhum médico
esteve presente para certificar o óbito, que o enterramento não cumpriu
as formas prescritas para uma correcta inumação e que, como se tal caso
fosse inédito, a sepultura não só não está identificada como com toda a
certeza se lhe perderá o sítio quando cair a primeira bátega forte e as
plantas romperem tenras e alegres do húmus criador. Consideradas as
dificuldades e receando tombar no tremedal de recursos em que,
curtidos na tramóia, os astutos advogados da máphia a afundariam sem
dó nem piedade, a lei resolveu esperar com paciência a ver em que
parariam as modas.
Era, sem sombra de dúvida, a atitude mais prudente. o país
encontra-se agitado como nunca, o poder confuso, a autoridade diluída,
os valores em acelerado processo de inversão, a perda do sentido de
respeito cívico alastra a todos os sectores da sociedade, provavelmente
nem deus saberá aonde nos leva. Corre o rumor de que a máphia está a
negociar um outro acordo de cavalheiros com a indústria funerária com
vista a uma racionalização de esforços e a uma distribuição de tarefas, o
que significa, em linguagem de trazer por casa, que ela se encarrega de
fornecer os mortos, contribuindo as agências funerárias com os meios e
a técnica para enterrá-los. Também se diz que a proposta da máphia foi
acolhida de braços abertos pelas agências, já cansadas de malgastar o
seu saber de milénios, a sua experiência, o seu know how, os seus coros
de carpideiras, a fazer funerais a cães, gatos e canários, alguma vez uma
catatua, uma tartaruga catatónica, um esquilo domesticado, um lagarto
de estimação que o dono tinha o costume de levar ao ombro. Nunca
caímos tão baixo, diziam. Agora o futuro apresentava-se forte e risonho,
as esperanças floresciam como canteiros de jardim, podendo até dizer-
64
se, arriscando o óbvio paradoxo, que para a indústria dos enterros havia
despontado finalmente uma nova vida. E tudo isto graças aos bons
préstimos e à inesgotável caixa-forte da máphia. Ela subsidiou as
agências da capital e de outras cidades do país para que instalassem
filiais, a troco de compensações, claro está, nas localidades mais
próximas das fronteiras, ela tomou providências para que houvesse
sempre um médico à espera do falecido quando ele reentrasse no
território e precisasse de alguém para dizer que estava morto, ela
estabeleceu convénios com as administrações municipais para que os
enterros a seu cargo tivessem prioridade absoluta, fosse qual fosse a
hora do dia ou da noite em que lhe conviesse fazê-los. Tudo isto custava
muito dinheiro, naturalmente, mas o negócio continuava a valer a pena,
agora que os adicionais e os serviços extras tinham passado a constituir
o grosso da factura. De repente, sem avisar, fechou-se a torneira donde
havia estado brotando, constante, o generoso manancial de padecentes
terminais. Parecia que as famílias, por um rebate de consciência, tinham
passado palavra umas às outras, que se acabou isso de mandar os entes
queridos a morrer longe, se, em sentido figurado, lhes tínhamos comido
a carne, também agora os ossos lhes haveremos de comer, que não
estávamos aqui só para as horas boas, quando ele ou ela tinham a força
e a saúde intactas, estamos igualmente para as horas más e para as
horas péssimas, quando ela ou ele não são mais que um trapo fedorento
que é inútil lavar. As agências funerárias transitaram da euforia ao
desespero, outra vez a ruína, outra vez a humilhação de enterrar
canários e gatos, cães e a restante bicharada, a tartaruga, a catatua, o
esquilo, o lagarto não, porque não existia outro que se deixasse levar ao
ombro do dono. Tranquila, sem perder os nervos, a máphia foi ver o
que se passava. Era simples. Disseram-lhe as familias, quase sempre em
65
meias palavras, dando só a entender, que uma cousa tinha sido o tempo
da clandestinidade, quando os entes queridos eram levados a ocultas,
pela calada da noite, e os vizinhos não tinham precisão nenhuma de
saber se permaneciam no seu leito de dor, ou se se tinham evaporado.
Era fácil mentir, dizer compungidamente, Coitadinho, lá está, quando a
vizinha perguntasse no patamar da escada, E então como vai o
avôzinho. Agora tudo seria diferente, haveria uma certidão de óbito,
haveria chapas com nomes e apelidos nos cemitérios, em poucas horas a
invejosa e maledicente vizinhança saberia que o avôzinho tinha morrido
da única maneira que se podia morrer, e que isso significava,
simplesmente, que a própria cruel e ingrata família o havia despachado
para a fronteira. Dá-nos muita vergonha, confessaram. A máphia ouviu,
ouviu, e disse que ia pensar. Não tardou vinte e quatro horas. seguindo
o exemplo do ancião da página quarenta e três, os mortos tinham
querido morrer, portanto seriam registados como suicidas na certidão
de óbito. A torneira tornou a abrir-se.
Nem tudo foi tão sórdido neste país em que não se morre como o
que acabou de ser relatado, nem em todas as parcelas de uma sociedade
dividida entre a esperança de viver sempre e o temor de não morrer
nunca conseguiu a voraz máphia cravar as suas garras aduncas,
corrompendo almas, submetendo corpos, emporcalhando o pouco que
ainda restava dos bons princípios de antanho, quando um sobrescrito
que trouxesse dentro algo que cheirasse a suborno era no mesmo
instante devolvido à procedência, levando uma resposta firme e clara,
algo assim como, Compre brinquedos para os seus filhos com esse
dinheiro, ou, Deve ter-se equivocado no destinatário. A dignidade era
então uma forma de altivez ao alcance de todas as classes. Apesar de
66
tudo, apesar dos falsos suicidas e dos sujos negócios da fronteira, o
espírito de aqui continuava a pairar sobre as águas, não as do mar
oceano, que esse banhava outras terras longe, mas sobre os lagos e os
rios, sobre as ribeiras e os regatos, nos charcos que a chuva deixava ao
passar, no luminoso fundo dos poços, que é onde melhor se percebe a
altura a que está o céu, e, por mais extraordinário que pareça, também
sobre a superfície tranquila dos aquários. Precisamente, foi quando,
distraído, olhava o peixinho vermelho que viera boquejar à tona de
água e quando se perguntava, já menos distraído, desde há quanto
tempo é que não a renovava, bem sabia o que queria dizer o peixe
quando uma vez e outra subia a romper a delgadíssima película em que
a água se confunde com o ar, foi precisamente nesse momento reve-
lador que ao aprendiz de filósofo se lhe apresentou, nítida e nua, a
questão que iria dar origem à mais apaixonante e acesa polémica que se
conhece de toda a história deste país em que não se morre. Eis o que o
espírito que pairava sobre a água do aquário perguntou ao aprendiz de
filósofo, Já pensaste se a morte será a mesma para todos os seres vivos,
sejam eles animais, incluindo o ser humano, ou vegetais, incluindo a
erva rasteira que se pisa e a sequoia dendron giganteum com os seus
cem metros de altura, será a mesma a morte que mata um homem que
sabe que vai morrer, e um cavalo que nunca o saberá. E tornou a
perguntar, Em que momento morreu o bicho-da-seda depois de se ter
fechado no casulo e posto a tranca à porta, como foi possível ter nascido
a vida de uma da morte da outra, a vida da borboleta da morte da
lagarta, e serem o mesmo diferentemente, ou não morreu o bicho-da-
seda porque está vivo na borboleta. o aprendiz de filósofo respondeu, o
bicho-da-seda não morreu, a borboleta é que morrerá, depois de deso-
var, Já o sabia eu antes que tu tivesses nascido, disse o espírito que paira
67
sobre as águas do aquário, o bicho-da-seda não morreu, dentro do
casulo não ficou nenhum cadáver depois de a borboleta ter saído, tu o
disseste, um nasceu da morte do outro, Chama-se metamorfose, toda a
gente sabe de que se trata, disse condescendente o aprendiz de filósofo,
Aí está uma palavra que soa bem, cheia de promessas e certezas, dizes
metamorfose e segues adiante, parece que não vês que as palavras são
rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberás como
são as cousas, nem sequer que nomes são na realidade os seus, porque
os nomes que lhes deste não são mais do que isso, os nomes que lhes
deste, Qual de nós dois é o filósofo, Nem eu nem tu, tu não passas de
um aprendiz de filosofia, e eu apenas sou o espírito que paira sobre a
água do aquário, Falávamos da morte, Não da morte, das mortes,
perguntei por que razão não estão morrendo os seres humanos, e os
outros animais, sim, por que razão a não-morte de uns não é a não-
morte de outros, quando a este peixinho vermelho se lhe acabar a vida,
e tenho que avisar-te que não tardará muito se não lhe mudares a água,
serás tu capaz de reconhecer na morte dele aquela outra morte de que
agora pareces estar a salvo, ignorando porquê, Antes, no tempo em que
se morria, nas poucas vezes que me encontrei diante de pessoas que
haviam falecido, nunca imaginei que a morte delas fosse a mesma de
que eu um dia viria a morrer, Porque cada um de vós tem a sua própria
morte, transporta-a consigo num lugar secreto desde que nasceu, ela
pertence-te, tu pertences-lhe, E os animais, e os vegetais, suponho que
com eles se passará o mesmo, Cada qual com a sua morte, Assim é,
Então as mortes são muitas, tantas como os seres vivos que existiram,
existem e existirão, De certo modo, sim, Estás a contradizer-te,
exclamou o aprendiz de filósofo, As mortes de cada um são mortes por
assim dizer de vida limitada, subalternas, morrem com aquele a quem
68
mataram, mas acima delas haverá outra morte maior, aquela que se
ocupa do conjunto dos seres humanos desde o alvorecer da espécie, Há
portanto uma hierarquia, suponho que sim, E para os animais, desde o
mais elementar protozoário à baleia azul, Também, E para os vegetais,
desde o bacteriófito à sequóia gigante, esta citada antes em latim por
causa do tamanho, Tanto quanto creio saber, o mesmo se passa com
todos eles, Isto é, cada um com a sua morte própria, pessoal e intrans-
missível, sim, E depois mais duas mortes gerais, uma para cada reino da
natureza, Exacto, E acaba-se aí a distribuição hierárquica das compe-
tências delegadas por tânatos, perguntou o aprendiz de filósofo, Até
onde a minha imaginação consegue chegar, ainda vejo uma outra
morte, a última, a suprema, Qual, Aquela que haverá de destruir o
universo, essa que realmente merece o nome de morte, embora quando
isso suceder já não se encontre ninguém aí para pronunciá-lo, o resto de
que temos estado a falar não passa de pormenores ínfimos, de insigni-
ficâncias, Portanto, a morte não é única, Concluiu desnecessariamente o
aprendiz de filósofo, É o que já estou cansado de te explicar, Quer dizer,
uma morte, aquela que era nossa, suspendeu a actividade, as outras, as
dos animais e dos vegetais, continuam a operar, são independentes,
cada uma trabalhando no seu sector, Já estás convencido, sim, Vai então
e anuncia-o a toda a gente, disse o espírito que pairava sobre a água do
aquário. E foi assim que a polémica começou.
o primeiro argumento contra a ousada tese do espírito que pairava
sobre a água do aquário foi que o seu porta-voz não era filósofo
encartado, mas um mero aprendiz que nunca havia ido além de alguns
escassos rudimentos de manual, quase tão elementares como o
protozoário, e, como se isso ainda fosse pouco, apanhados aqui e além,
69
aos retalhos, soltos, sem agulha e linha que os unisse entre si ainda que
as cores e as formas contendessem umas com as outras, enfim, uma
filosofia do que poderia chamar-se a escola arlequinesca, ou ecléctica. A
questão, porém, não estava tanto aí. É certo que o essencial da tese
havia sido obra do espírito que pairava sobre a água do aquário, porém,
bastará tomar a ler o diálogo desenvolvido nas duas páginas anteriores
para reconhecer que a contribuição do aprendiz de filosofias também
teve a sua influência na gestação da interessante ideia, pelo menos na
qualidade de ouvinte, factor dialéctico indispensável desde sócrates,
como é por de mais sabido. Algo, pelo menos, não podia ser negado,
que os seres humanos não morriam, mas os outros animais sim.
Quanto aos vegetais, qualquer pessoa, mesmo sem saber nada de
botânica, reconheceria sem dificuldade que, tal como antes, nasciam,
verdeavam, mais adiante murchavam, logo secavam, e se a essa fase
final, com podridão ou sem ela, não se lhe deveria chamar morrer,
então que viesse alguém que o explicasse melhor. Que as pessoas daqui
não estejam a morrer, mas todos os outros seres vivos sim, diziam
alguns objectores, só há que vê-lo como demonstração de que o normal
ainda não se retirou de todo do mundo, e o normal, escusado seria dizê-
lo, é, pura e simplesmente, morrer quando nos chegou a hora. Morrer e
não pôr-se a discutir se a morte já era nossa de nascença, ou se apenas ia
a passar por ali e lhe deu para reparar em nós. Nos restantes países
continua a morrer-se e não parece que os seus habitantes sejam mais
infelizes por isso. Ao princípio, como é natural, houve invejas, houve
conspirações, deu-se um ou outro caso de tentativa de espionagem
científica para descobrir como o havíamos conseguido, mas, à vista dos
problemas que desde então nos caíram em cima, cremos que o senti-
70
mento da generalidade da população desses países se poderá traduzir
por estas palavras, Do que nós nos livrámos.
A igreja, como não podia deixar de ser, saiu à arena do debate
montada no cavalo-de-batalha do costume, isto é, os desígnios de deus
são o que sempre foram, inescrutáveis, o que, em termos correntes e
algo manchados de impiedade verbal, significa que não nos é permitido
espreitar pela frincha da porta do céu para ver o que se passa lá dentro.
Dizia também a igreja que a suspensão temporal e mais ou menos
duradoura de causas e efeitos naturais não era propriamente uma
novidade, bastaria recordar os infinitos milagres que deus havia
permitido se fizessem nos últimos vinte séculos, a única diferença do
que se passa agora está na amplitude do prodígio, pois que o que antes
tocava de preferência o indivíduo, pela graça da sua fé pessoal, foi
substituído por uma atenção global, não personalizada, um país inteiro
por assim dizer possuidor do elixir da imortalidade, e não somente os
crentes, que como é lógico esperam ser em especial distinguidos, mas
também os ateus, os agnósticos, os heréticos, os relapsos, os incréus de
toda a espécie, os afeiçoados a outras religiões, os bons, os maus e os
piores, os virtuosos e os maphiosos, os verdugos e as vítimas, os
polícias e os ladrões, os assassinos e os dadores de sangue, os loucos e
os sãos de juízo, todos, todos sem excepção, eram ao mesmo tempo as
testemunhas e os beneficiários do mais alto prodígio alguma vez obser-
vado na história dos milagres, a vida eterna de um corpo eternamente
unida à eterna vida da alma. A hierarquia católica, de bispo para cima,
não achou nenhuma graça a estes chistes místicos de alguns dos seus
quadros médios sedentos de maravilhas, e fê-lo saber por meio de uma
muito firme mensagem aos fiéis, na qual, além da inevitável referência
71
aos impenetráveis desígnios de deus, insistia na ideia que já havia sido
expressa de improviso pelo cardeal logo às primeiras horas da crise na
conversação telefónica que tivera com o primeiro-ministro, quando,
imaginando-se papa e rogando a deus que lhe perdoasse a estulta
presunção, tinha proposto a imediata promoção de uma nova tese, a da
morte adiada, fiando-se na tantas vezes louvada sabedoria do tempo,
aquela que nos diz que sempre haverá um amanhã qualquer para
resolver os problemas que hoje pareciam não ter solução. Em carta ao
director do seu jornal preferido, um leitor declarava-se disposto a
aceitar a ideia de que a morte havia decidido adiar-se a si mesma, mas
solicitava, com todo o respeito, que lhe dissessem como o tinha sabido a
igreja, e, se realmente estava tão bem informada, então também deveria
saber quanto tempo iria durar o adiamento. Em nota da redacção, o
jornal recordou ao leitor que se tratava somente de uma proposta de
acção, aliás não levada à prática até agora, o que quererá dizer, assim
concluía, que a igreja sabe tanto do assunto como nós, isto é, nada.
Nesta altura alguém escreveu um artigo a reclamar que o debate
regressasse à questão que lhe havia dado origem, ou seja, se sim ou não
a morte era uma ou várias, se era singular, morte, ou plural, mortes, e,
aproveitando que estou com a mão na pluma, denunciar que a igreja,
com essas suas posições ambíguas, o que pretende é ganhar tempo sem
se comprometer, por isso se pôs, como é seu costume, a encanar a perna
à rã, a dar uma no cravo e outra na ferradura. A primeira destas
expressões populares causou perplexidade entre os jornalistas, que
nunca tal tinham lido ou ouvido em toda a sua vida. No entanto,
perante o enigma, espevitados por um saudável afã de competição
profissional, deitaram das estantes abaixo os dicionários com que
algumas vezes se ajudavam à hora de escrever os seus artigos e notícias
72
e lançaram-se à descoberta do que estaria ali a fazer aquele batráquio.
Nada encontraram, ou melhor, sim, encontraram a rã, encontraram a
perna, encontraram o verbo encanar, mas o que não conseguiram foi
tocar o sentido profundo que as três palavras juntas por força haveriam
de ter. Até que alguém se lembrou de chamar um velho porteiro que
viera da província há muitos anos e de quem todos se riam porque,
depois de tanto tempo a viver na cidade, ainda falava como se estivesse
à lareira a contar histórias aos netos. Perguntaram-lhe se conhecia a
frase e ele respondeu que sim senhor conhecia, perguntaram-lhe se
sabia o que significava e ele respondeu que sim senhor sabia. Então
explique lá, disse o chefe da redacção, Encanar, meus senhores, é pôr
talas em ossos partidos, Até aí sabemos nós, o que queremos é que nos
diga que tem isso que ver com a rã, Tem tudo, ninguém consegue pôr
talas numa rã, Porquê, Porque ela nunca está quieta com a perna, É isso
que quer dizer, Que é inútil tentar, ela não deixa, Mas não deve ser isso
o que está na frase do leitor, Também se usa quando levamos dema-
siado tempo a terminar um trabalho, e, se o fazemos de propósito, então
estamos a empatar, então estamos a encanar a perna à rã, Logo, a igreja
está a empatar, a encanar a perna à rã, sim senhor, Logo, o leitor que
escreveu tem toda a razão, Acho que sim, eu só estou a guardar a
entrada da porta, Ajudou-nos muito, Não querem que lhes explique a
outra frase, Qual, A do cravo e da ferradura, Não, essa conhecemo-la
nós, praticamo-la todos os dias.
A polémica sobre a morte e as mortes, tão bem iniciada pelo espírito
que paira sobre a água do aquário e pelo aprendiz de filósofo, acabaria
em comédia ou em farsa se não tivesse aparecido o artigo do econo-
mista. Embora o cálculo actuarial, como ele próprio reconhecia, não
73
fosse sua especialidade profissional, considerava-se suficientemente
conhecedor da matéria para vir a público perguntar com que dinheiro o
país, dentro de uns vinte anos, mais ponto, menos vírgula, pensava
poder pagar as pensões aos milhões de pessoas que se encontrariam em
situação de reformados por invalidez permanente e que assim iriam
continuar por todos os séculos dos séculos e às quais outros milhões se
viriam reunir implacavelmente, tanto fazendo que a progressão seja
aritmética ou geométrica, de qualquer maneira sempre teremos
garantida a catástrofe, será a confusão, a balbúrdia, a bancarrota do
estado, o salve-se quem puder, e ninguém se salvará. Perante este
quadro aterrador não tiveram outro remédio os metafísicos que meter a
viola no saco, não teve outro recurso a igreja que regressar à cansada
missanga dos seus rosários e continuar à espera da consumação dos
tempos, essa que, segundo as suas escatológicas visões, resolverá tudo
isto de uma vez. Efectivamente, voltando às inquietantes razões do
economista, os cálculos eram muito fáceis de fazer, senão vejamos, se
temos um tanto de população activa que desconta para a segurança
social, se temos um tanto de população não activa que se encontra na
situação de reforma, seja por velhice, seja por invalidez, e portanto
cobra da outra as suas pensões, estando a activa em constante
diminuição em relação à inactiva e esta em crescimento contínuo
absoluto, não se compreende que ninguém se tenha logo apercebido de
que o desaparecimento da morte, parecendo o auge, o acme, a suprema
felicidade, não era, afinal, uma boa cousa. Foi preciso que os filósofos e
outros abstractos andassem já meio perdidos na floresta das suas
próprias elucubrações sobre o quase e o zero, que é a maneira plebeia
de dizer o ser e o nada, para que o senso comum se apresentasse prosai-
camente, de papel e lápis em punho, a demonstrar por a + b + e que
74
havia questões muito mais urgentes em que pensar. Como seria de
prever, conhecendo-se os lados escuros da natureza humana, a partir do
dia em que saiu a público o alarmante artigo do economista, a atitude
da população saudável para com os padecentes terminais começou a
modificar-se para pior. Até aí, ainda que toda a gente estivesse de
acordo em que eram consideráveis os transtornos e incomodidades de
toda a espécie que eles causavam, pensava-se que o respeito pelos
velhos e pelos enfermos em geral representava um dos deveres essen-
ciais de qualquer sociedade civilizada, e, por conseguinte, embora não
raro fazendo das tripas coração, não se lhes negavam os cuidados
necessários, e mesmo, em alguns assinalados casos, chegavam a adoçá-
los com uma colherzinha de compaixão e amor antes de apagar a luz. É
certo que também existem, como demasiado bem sabemos, aquelas
desalmadas famílias que, deixando-se levar pela sua incurável desuma-
nidade, chegaram ao extremo de contratar os serviços da máphia para
se desfazerem dos míseros despojos humanos que agonizavam intermi-
navelmente entre dois lençóis empapados de suor e manchados pelas
excreções naturais, mas essas merecem a nossa repreensão, tanto como
a que figurava na fábula tradicional mil vezes narrada da tigela de
madeira, ainda que, felizmente, se tenha salvado da execração no
último momento, graças, como se verá, ao bondoso coração de uma
criança de oito anos. Em poucas palavras se conta, e aqui a vamos
deixar para ilustração das novas gerações que a desconhecem, com a
esperança de que não trocem dela por ingénua e sentimental. Atenção,
pois, à lição de moral.
Era uma vez, no antigo país das fábulas, uma família em que havia
um pai, uma mãe, um avô que era o pai do pai e aquela já mencionada
criança de oito anos, um rapazinho. ora sucedia que o avô já tinha muita
75
idade, por isso tremiam-lhe as mãos e deixava cair a comida da boca
quando estavam à mesa, o que causava grande irritação ao filho e à
nora, sempre a dizerem-lhe que tivesse cuidado com o que fazia, mas o
pobre velho, por mais que quisesse, não conseguia conter as tremuras.
pior ainda se lhe ralhavam, e o resultado era estar sempre a sujar a
toalha ou a deixar cair comida ao chão, para já não falar do guardanapo
que lhe atavam ao pescoço e que era preciso mudar-lhe três vezes ao
dia, ao almoço, ao jantar e à ceia. Estavam as cousas neste pé e sem
nenhuma expectativa de melhora quando o filho resolveu acabar com a
desagradável situação. Apareceu em casa com uma tigela de madeira e
disse ao pai, A partir de hoje passará a comer daqui, senta-se na soleira
da porta porque é mais fácil de limpar e assim já a sua nora não terá de
preocupar-se com tantas toalhas e tantos guardanapos sujos. E assim
foi. Almoço, jantar e ceia, o velho sentado sozinho na soleira da porta,
levando a comida à boca conforme lhe era possível, metade perdia-se
no caminho, uma parte da outra metade escorria-lhe pelo queixo
abaixo, não era muito o que lhe descia finalmente pelo que o vulgo
chama o canal da sopa. Ao neto parecia não lhe importar o feio
tratamento que estavam a dar ao avô, olhava-o, depois olhava o pai e a
mãe, e continuava a comer como se não tivesse nada que ver com ocaso.
Até que uma tarde, ao regressar do trabalho, o pai viu o filho a
trabalhar com uma navalha um pedaço de madeira e julgou que, como
era normal e corrente nessas épocas remotas, estivesse a construir um
brinquedo por suas próprias mãos. No dia seguinte, porém, deu-se
conta de que não se tratava de um carrinho, pelo menos não se via sítio
onde se lhe pudessem encaixar umas rodas, e então perguntou, Que
estás afazer. o rapaz fingiu que não tinha ouvido e continuou a escavar
na madeira com a ponta da navalha, isto passou-se no tempo em que os
76
pais eram menos assustadiços e não corriam a tirar das mãos dos filhos
um instrumento de tanta utilidade para a fabricação de brinquedos.
Não ouviste, que estás a fazer com esse pau, tornou o pai a perguntar, e
o filho, sem levantar a vista da operação, respondeu, Estou a fazer uma
tigela para quando o pai for velho e lhe tremerem as mãos, para quando
o mandarem comer na soleira da porta, como fizeram ao avô. Foram
palavras santas. Caíram as escamas dos olhos do pai, viu a verdade e a
sua luz, e no mesmo instante foi pedir perdão ao progenitor e quando
chegou a hora da ceia por suas próprias mãos o ajudou a sentar-se na
cadeira, por suas próprias mãos lhe levou a colher à boca, por suas
próprias mãos lhe limpou suavemente o queixo, porque ainda o podia
fazer e o seu querido pai já não. Do que veio a passar-se depois não há
sinal na história, mas de ciência mui certa sabemos que se é verdade
que o trabalho do rapazinho ficou em meio, também é verdade que o
pedaço de madeira continua a andar por ali. Ninguém o quis queimar
ou deitar fora, quer fosse para que a lição do exemplo não viesse a cair
no esquecimento, quer fosse para ocaso de que a alguém lhe ocorresse
um dia a ideia de terminar a obra, eventualidade não de todo
impossível de produzir-se se tivermos em conta a enorme capacidade
de sobrevivência dos ditos lados escuros da natureza humana. Como já
alguém disse, tudo o que possa suceder, sucederá, é uma mera questão
de tempo, e, se não chegámos a vê-lo enquanto por cá andávamos, terá
sido só porque não tínhamos vivido o suficiente. Pelos modos, e para
que não se nos acuse de pintarmos tudo com as tintas da parte esquerda
da paleta. há quem admita a hipótese de que uma adaptação do
amavioso conto à televisão, após tê-lo recolhido um jornal, sacudidas as
teias de aranha, nas poeirentas prateleiras da memória colectiva, possa
contribuir para fazer regressar às quebrantadas consciências das
77
famílias o culto ou o cultivo dos incorpóreos valores de espiritualidade
de que a sociedade se nutria no passado, quando o baixo materialismo
que hoje impera ainda não se tinha assenhoreado de vontades que
imaginávamos fortes e afinal eram a própria e insanável imagem de
uma confrangedora debilidade moral. Conservemos no entanto a
esperança. No momento em que aquela criança aparecer no ecrã,
estejamos certos de que metade da população do país correrá a buscar
um lenço para enxugar as lágrimas e de que a outra metade, talvez de
temperamento estóico, as irá deixar correr pela cara abaixo, em silêncio,
para que melhor possa observar-se como o remorso pelo mal feito ou
consentido não é sempre uma palavra vã. oxalá ainda estejamos a
tempo de salvar os avós.
Inesperadamente, com uma deplorável falta de sentido de oportu-
nidade, os republicanos decidiram aproveitar a delicada ocasião para
fazerem ouvir a sua voz. Não eram muitos, nem sequer tinham
representação no parlamento apesar de se encontrarem organizados em
partido político e concorrerem regularmente aos actos eleitorais.
Vangloriavam-se no entanto de certa influência social, sobretudo nos
meios artísticos e literários, por onde de vez em quando faziam circular
manifestos no geral bem redigidos, mas invariavelmente inócuos.
Desde que a morte havia desaparecido que não davam sinal de vida,
nem ao menos, como se esperaria de uma oposição que se diz frontal,
para reclamarem o esclarecimento da rumorejada participação da
máphia no ignóbil tráfico de padecentes terminais. Agora, apro-
veitando-se da perturbação em que o país malvivia, dividido como
estava entre a vaidade de saber-se único em todo o planeta e o
desassossego de não ser como toda a gente, vinham pôr sobre a mesa
nada mais nada menos que a questão do regime. obviamente adver-
78
sários da monarquia, inimigos do trono por definição, pensavam ter
descoberto um novo argumento a favor da necessária e urgente
implantação da república. Diziam que ia contra a lógica mais comum
haver no país um rei que nunca morreria e que, ainda que amanhã
resolvesse abdicar por motivo de idade ou amolecimento das facul-
dades mentais, rei continuaria a ser, o primeiro de uma sucessão infinita
de entronizações e abdicações, uma infinita sequência de reis deitados
nas suas camas à espera de uma morte que nunca chegaria, uma
correnteza de reis meio vivos meio mortos que, a não ser que os
arrumassem nos corredores do palácio, acabariam por encher e por fim
não caber no panteão onde haviam sido recolhidos os seus antecessores
mortais, que já não seriam mais que ossos desprendidos dos engonços
ou restos mumificados e bafientos. Quão mais lógico não seria ter um
presidente da república com vencimento a prazo fixo, um mandato,
quando muito dois, e depois que se desenrasque como puder, que vá à
sua vida, dê conferências, escreva livros, participe em congressos, coló-
quios e simpósios, arengue em mesas redondas, dê a volta ao planeta
em oitenta recepções, opine sobre o comprimento das saias quando elas
voltarem a usar-se e sobre a redução do ozono na atmosfera se ainda
houver atmosfera, enfim, que se amanhe. Tudo menos ter de encontrar
todos os dias nos jornais e ouvir na televisão e na rádio aparte médica
sempre igual, não atam nem desatam, sobre a situação dos internados
nas enfermarias reais, as quais, vem a propósito informar, depois de
terem sido aumentadas duas vezes, já estariam à bica de uma terceira
ampliação. o plural de enfermaria está ali para indicar que, como
sempre sucede em instituições hospitalares ou afins, os homens se
encontram separados das mulheres, portanto, reis e príncipes para um
lado, rainhas e princesas para outro. os republicanos vinham agora
79
desafiar o povo a assumir as responsabilidades que lhe competiam,
tomando o destino nas suas mãos para dar começo a uma vida nova e
abrindo um novo e florido caminho em direcção às alvoradas do porvir.
Desta vez o efeito do manifesto não se limitou a tocar os artistas e os
escritores, outras camadas sociais se mostraram receptivas à feliz
imagem do caminho florido e às invocações das alvoradas do porvir, o
que teve como resultado uma concorrência absolutamente fora do
comum de adesões de novos militantes dispostos a empreender uma
jornada que, tal como a pescada, que ainda na água lhe chamam assim,
já era histórica antes de se saber se realmente o viria a ser. Infelizmente
as manifestações verbais de cívico entusiasmo dos novos aderentes a
este republicanismo prospectivo e profético, nos dias que se seguiram,
nem sempre foram tão respeitadoras como a boa educação e uma sã
convivência democrática o exigem.
Algumas delas chegaram mesmo a ultrapassar as fronteiras do mais
ofensivo grosseirismo, como dizerem, por exemplo, falando das reale-
zas, que não estavam dispostos a sustentar bestas à argola nem burros a
pão-de-ló. Todas as pessoas de bom gosto estiveram de acordo em
considerar tais palavras, não só inadmissíveis, como também imper-
doáveis. Bastaria dizer-se que as arcas do estado não podiam continuar
a suportar mais o contínuo crescimento das despesas da casa real e seus
a latere, e toda a gente o compreenderia. Era verdade e não ofendia.
O violento ataque dos republicanos, mas principalmente os
inquietantes vaticínios veiculados no artigo sobre a inevitabilidade, em
prazo muito breve, de que as ditas arcas do estado não poderiam
satisfazer o pagamento de pensões de velhice e invalidez sem um fim à
vista, levaram o rei a fazer saber ao primeiro-ministro que precisavam
80
de ter uma conversação franca, a sós, sem gravadores nem testemunhas
de qualquer espécie. Chegou o primeiro-ministro, interessou-se pelas
reais saúdes, em particular pela da rainha-mãe, aquela que na última
passagem do ano estava prestes a morrer, e afinal, como tantas e tantas
outras pessoas, ainda respira treze vezes por minuto, embora poucos
mais sinais de vida se deixem perceber no seu corpo prostrado, sob o
baldaquino do leito. sua majestade agradeceu, disse que a rainha-mãe
sofria o seu calvário com a dignidade própria do sangue que ainda lhe
corria nas veias, e logo passou aos assuntos da agenda, o primeiro dos
quais era a declaração de guerra dos republicanos. Não percebo o que é
que deu na cabeça dessa gente, disse, o país afundado na mais terrível
crise da sua história e eles a falar de mudança do regime, Eu não me
preocuparia, senhor, o que estão a fazer é aproveitar-se da situação para
difundir aquilo a que chamam as suas propostas de governo, no fundo
não passam de uns pobres pescadores de águas turvas, Com uma
lamentável falta de patriotismo, acrescente-se, Assim é, senhor, os
republicanos têm lá umas ideias sobre a pátria que só eles são capazes
de entender, se é que as entendem realmente, As ideias que tenham não
me interessam, o que quero ouvir de si é se existe alguma possibilidade
de que consigam forçar uma mudança de regime, Nem sequer têm
representação no parlamento, senhor, Refiro-me a um golpe de estado,
a uma revolução. Nenhuma possibilidade, senhor, o povo está com o
seu rei, as forças armadas são leais ao poder legítimo, Então posso ficar
descansado, Absolutamente descansado, senhor. o rei fez uma cruz na
agenda, ao lado da palavra republicanos, disse, Já está, e logo
perguntou, E que história vem a ser essa das pensões que não se pagam,
Estamos a pagá-las, senhor, o futuro é que se apresenta bastante negro,
Então devo ter lido mal, pensei que tinha havido, digamos, uma
81
suspensão de pagamentos, Não, senhor, é o amanhã que se nos
apresenta altamente preocupante, Preocupante em que ponto, Em
todos, senhor, o estado pode vir a derrubar-se, simplesmente, como um
castelo de cartas, somos o único país que se encontra nessa situação,
perguntou o rei, Não, senhor, a longo prazo o problema atingirá a
todos, mas o que conta é a diferença entre morrer e não morrer, é uma
diferença fundamental, com perdão da banalidade, Não estou a
perceber, Nos outros países morre-se com normalidade, os falecimentos
continuam a controlar o caudal dos nascimentos, mas aqui, senhor, no
nosso país, senhor, ninguém morre, veja-se o caso da rainha-mãe,
parecia que se finava, e afinal aí a temos, felizmente, quero dizer, creia
que não exagero, estamos com a corda na garganta, Apesar disso
chegaram-me rumores de que algumas pessoas vão morrendo, Assim é,
senhor, mas trata-se de uma gota de água no oceano, nem todas as
famílias se atrevem a dar o passo, Que passo, Entregar os seus pade-
centes à organização que se encarrega dos suicídios, Não compreendo,
de que serve que se suicidem se não podem morrer, Estes sim, E como o
conseguem, É uma história complicada, senhor, Conte-ma, estamos sós,
No outro lado das fronteiras morre-se, senhor, Então quer dizer que
essa tal organização os leva lá, Exactamente, Trata-se de uma organi-
zação benemérita, Ajuda-nos a retardar um pouco a acumulação de
padecentes terminais, mas, como eu disse antes, é uma gota de água no
oceano, E que organização é essa. o primeiro-ministro respirou fundo e
disse, A máphia, senhor. A máphia, sim senhor, a máphia, às vezes o
estado não tem outro remédio que arranjar fora quem lhe faça os
trabalhos sujos, Não me disse nada, senhor, quis manter vossa majes-
tade à margem do assunto, assumo a responsabilidade, E as tropas que
estavam nas fronteiras, Tinham uma função a desempenhar, Que
82
função, A de parecer um obstáculo à passagem dos suicidas e não o ser,
Pensei que estavam lá para impedir uma invasão.
Nunca houve esse perigo, de todo o modo estabelecemos acordos
com os governos desses países, tudo está controlado, Menos a questão
das pensões, Menos a questão da morte, senhor, se não voltarmos a
morrer não temos futuro. o rei fez uma cruz ao lado da palavra pensões
e disse, É preciso que alguma cousa aconteça, sim, majestade, é preciso
que alguma cousa aconteça.
O sobrescrito encontrava-se sobre a mesa do director-geral da
televisão quando a secretária entrou no gabinete. Era de cor violeta,
portanto fora do comum, e o papel, de tipogofrado, imitava a textura do
linho. Parecia antigo e dava a impressão de que já havia sido usado
antes. Não tinha qualquer endereço, tanto de remetente, o que às vezes
sucede, como de destinatário, o que não sucede nunca, e estava num
gabinete cuja porta, fechada à chave, acabara de ser aberta nesse
momento, e onde ninguém poderia ter entrado durante a noite. Ao dar-
lhe a volta para ver se havia algo escrito por trás, a secretária sentiu-se a
pensar, com uma difusa sensação do absurdo que era pensá-lo e tê-lo
sentido, que o sobrescrito não estava ali no momento em que ela
introduzira a chave e fizera funcionar o mecanismo da fechadura.
Disparate, murmurou, não devo ter reparado que estava aqui quando
saí ontem. Passeou os olhos pelo gabinete para ver se tudo se
encontrava em ordem e retirou-se para o seu lugar de trabalho. Na sua
qualidade de secretária, e de confiança, estaria autorizada a abrir aquele
ou qualquer outro sobrescrito, tanto mais que nele não havia qualquer
indicação de carácter restritivo, como seriam as de pessoal, reservado
ou confidencial, porém não o tinha feito, e não compreendia porquê.
83
Por duas vezes se levantou da sua cadeira e foi entreabrir a porta do
gabinete. o sobrescrito continuava ali. Estou com manias, será efeito da
cor, pensou, ele que venha já e se acabe com o mistério. Referia-se ao
patrão, ao director-geral, que tardava. Eram dez horas e um quarto
quando finalmente apareceu. Não era pessoa de muitas palavras,
chegava, dava os bons-dias e imediatamente passava ao seu gabinete,
onde a secretária tinha ordem de só entrar cinco minutos depois, o
tempo que ele considerava necessário para se pôr à vontade e acender o
primeiro cigarro da manhã.
Quando a secretária entrou, o director-geral ainda estava de casaco
vestido e não fumava. segurava com as duas mãos uma folha de papel
da mesma cor do sobrescrito, e as duas mãos tremiam. Virou a cabeça
na direcção da secretária que se aproximava, mas foi como se não a
reconhecesse. De repente estendeu um braço com a mão aberta para
fazê-la parar e disse numa voz que parecia sair doutra garganta, saia
imediatamente, feche essa porta e não deixe entrar ninguém, ninguém,
ouviu, seja quem for. solícita, a secretária quis saber se havia algum
problema, mas ele cortou-lhe a palavra com violência, Não me ouviu
dizer-lhe que saísse, perguntou. E quase gritando, saia, agora, já. A
pobre senhora retirou-se com as lágrimas nos olhos, não estava
habituada a que a tratassem com estes modos, é certo que o director,
como toda a gente, tem os seus defeitos, mas é uma pessoa no geral
bem-educada, não é seu costume fazer das secretárias gato-sapato.
Aquilo é alguma cousa que vem na carta, não tem outra explicação,
pensou enquanto procurava um lenço para enxugar as lágrimas. Não se
enganava. se se atrevesse a entrar outra vez no gabinete veria o
director-geral a andar rapidamente de um lado para outro, com uma
expressão de desvairo na cara, como se não soubesse o que fazer e ao
84
mesmo tempo tivesse a consciência clara de que só ele, e ninguém mais,
é que poderia fazê-lo. o director olhou o relógio, olhou a folha de papel,
murmurou em voz muito baixa, quase em segredo, Ainda há tempo,
ainda há tempo, depois sentou-se a reler a carta misteriosa enquanto
passava a mão livre pela cabeça num gesto mecânico, como se quisesse
certificar-se de que ainda a tinha ali no seu lugar, de que não a perdera
engolida pelo vórtice de medo que lhe retorcia o estômago. Acabou de
ler, ficou com os olhos perdidos no vago, pensando, Tenho de falar com
alguém, depois acudiu-lhe à mente, em seu socorro, a ideia de que
talvez se tratasse de uma piada, de uma piada de péssimo gosto, um
telespectador descontente, como há tantos, e ainda por cima de
imaginação mórbida, quem tem responsabilidades directivas na
televisão sabe muito bem que não é tudo por lá um mar de rosas, Mas
não é a mim que em geral se escreve a desabafar, pensou. Como era
natural, foi este pensamento que o levou a ligar finalmente à secretária
para perguntar, Quem foi que trouxe esta carta, Não sei, senhor
director, quando cheguei e abri a porta do seu gabinete, como sempre
faço, ela já aí estava, Mas isso é impossível, durante a noite ninguém
tem acesso a este gabinete, Assim é, senhor director, Então como se
explica, Não mo pergunte a mim, senhor director, há pouco quis dizer-
lhe o que se havia passado, mas o senhor director nem sequer me deu
tempo, Reconheço que fui um pouco brusco, desculpe, Não tem
importância, senhor director, mas doeu-me muito. O director-geral
voltou a perder a paciência, se eu lhe dissesse o que tenho aqui, então é
que a senhora saberia o que é doer. E desligou. Tornou a olhar o relógio,
depois disse consigo mesmo, É a única saída, não vejo outra, há
decisões que não me compete a mim tomar. Abriu uma agenda,
procurou o número que lhe interessava, encontrou-o, Aqui está, disse.
85
As mãos continuavam a tremer, custou-lhe acertar com as teclas e ainda
mais acertar com a voz quando do outro lado lhe responderam, Ligue-
me ao gabinete do senhor primeiro-ministro, pediu, sou o director da
televisão, o director-geral. Atendeu o chefe de gabinete, Bons dias,
senhor director, muito prazer em ouvi-lo, em que posso ser-lhe útil,
Necessito que o senhor primeiro-ministro me receba o mais rapida-
mente possível por um assunto de extrema urgência, Não pode dizer-
me de que se trata para que eu o transmita ao senhor primeiro-ministro,
Lamento muito, mas é-me impossível, o assunto, além de urgente, é
estritamente confidencial, No entanto, se pudesse dar-me uma ideia,
Tenho em meu poder, aqui, diante destes olhos que a terra há-de comer,
um documento de transcendente importância nacional, se isto que lhe
estou a dizer não é suficiente, se não é bastante para que me ponha
agora mesmo em comunicação com o senhor primeiro-ministro onde
quer que se encontre, temo muito pelo seu futuro pessoal e político, E
assim tão sério, só lhe digo que, a partir deste momento, cada minuto
que tiver passado é de sua exclusiva responsabilidade, Vou ver o que
posso fazer, o senhor primeiro-ministro está muito ocupado, Pois então
desocupe-o, se quiser ganhar uma medalha, Imediatamente, Ficarei à
espera, Posso fazer-lhe outra pergunta, Por favor, que mais quer saber
ainda, Por que foi que disse estes olhos que a terra há-de comer, isso era
dantes, Não sei o que o senhor era dantes, mas sei o que é agora, um
idiota chapado, passe-me ao primeiro-ministro, já. A insólita dureza das
palavras do director-geral mostra a que ponto o seu espírito se encontra
alterado. Tomou-o uma espécie de obnubilação, não se conhece, não
percebe como foi possível ter insultado alguém apenas por lhe ter feito
uma pergunta absolutamente razoável, quer nos termos, quer na
intenção. Terei de lhe pedir desculpa, pensou arrependido, amanhã
86
poderei vir a precisar dele. A voz do primeiro-ministro soou impa-
ciente, Que se passa, perguntou, os problemas da televisão, que eu
saiba, não são comigo, Não se trata da televisão, senhor primeiro-
ministro, tenho uma carta, sim, já me disseram que tem uma carta, e
que quer que lhe faça, só venho rogar-lhe que a leia, nada mais, o resto,
para usar as suas mesmas palavras, não será comigo, Noto que está
nervoso, sim, senhor primeiro-ministro, estou mais do que nervoso, E
que diz essa misteriosa carta, Não lho posso dizer pelo telefone, A linha
é segura, Mesmo assim nada direi, toda a cautela é pouca, Então
mande-ma, Terei de lha entregar em mão, não quero correr o risco de
enviar um portador, Mando-lhe eu alguém daqui, o meu chefe de
gabinete, por exemplo, pessoa mais perto de mim será difícil, senhor
primeiro-ministro, por favor, eu não estaria aqui a incomodá-lo se não
tivesse um motivo muito sério, preciso absolutamente que me receba,
Quando, Agora mesmo, Estou ocupado, senhor primeiro-ministro, por
favor, Bom, já que tanto insiste, venha, espero que o mistério valha a
pena, obrigado, vou a correr. o director-geral pousou o telefone, meteu
a carta no sobrescrito, guardou-a num dos bolsos interiores do casaco e
levantou-se. As mãos haviam deixado de tremer, mas a testa tinha-a
alagada de suor. Limpou a cara com o lenço, depois chamou a secretária
pelo telefone interno, disse-lhe que ia sair, que chamasse o carro. o facto
de ter passado a responsabilidade para outra pessoa acalmara-o um
pouco, dentro de meia hora o seu papel neste assunto haverá termi-
nado. A secretária apareceu à porta, o carro está à espera, senhor
director, obrigado, não sei quanto tempo demorarei, tenho um encontro
com o primeiro-ministro, mas esta informação é só para si, Fique
descansado, senhor director, nada direi, Até logo, Até logo, senhor
director, que tudo lhe corra bem, Tal como estão as cousas, já não
87
sabemos o que está bem e o que está mal, Tem razão, A propósito, como
se encontra o seu pai, Na mesma situação, senhor director, sofrer, não
parece sofrer, mas para ali está a definhar, a extinguir-se, já leva dois
meses naquele estado, e, visto o que vem acontecendo, só terei de
esperar a minha vez para que me estendam numa cama ao lado dele,
sabe-se lá, disse o director, e saiu.
O chefe de gabinete foi receber o director-geral à porta, cumpri-
mentou-o com secura evidente, depois disse, Acompanho-o ao senhor
primeiro-ministro. um minuto, antes quero pedir-lhe desculpa, havia
realmente um idiota chapado na nossa conversação, mas esse era eu, o
mais provável é que não fosse nenhum de nós, disse o chefe de gabinete
sorrindo, se pudesse ver o que levo dentro deste bolso compreenderia o
meu estado de espírito, Não se preocupe, quanto ao que me toca, está
desculpado, Agradeço-lho, seja como for já não faltam muitas horas
para que a bomba estale e se torne pública, oxalá não faça demasiado
estrondo ao rebentar, o estrondo será maior que o pior dos trovões
jamais escutados, e mais cegantes os relâmpagos que todos os outros
juntos, Está a deixar-me preocupado, Nessa altura, meu caro, tenho a
certeza de que me tornará a desculpar, Vamos lá, o senhor primeiro-
ministro já está à sua espera. Atravessaram uma sala a que em épocas
passadas deviam ter chamado antecâmara, e um minuto depois o
director-geral estava na presença do primeiro-ministro, que o recebeu
com um sorriso, Vejamos então que problema de vida ou morte é esse
que me traz aí, Com o devido respeito, estou convencido de que nunca
da sua boca lhe terão saído palavras mais certas, senhor primeiro-
ministro. Tirou a carta do bolso e estendeu-a por cima da mesa. o outro
estranhou, Não traz o nome do destinatário, Nem de quem a enviou,
disse o director, é como se fosse uma carta dirigida a toda a gente, Anó-
88
nima, Não, senhor primeiro-ministro. como poderá ver vem assinada,
mas leia, leia, por favor. O sobrescrito foi aberto pausadamente. a folha
de papel desdobrada, mas logo às primeiras linhas o primeiro-ministro
levantou os olhos e disse, Isto parece uma brincadeira, Podê-lo-ia ser, de
facto, mas não creio, apareceu em cima da minha mesa de trabalho sem
que ninguém saiba como, Não me parece que essa seja uma boa razão
para darmos crédito ao que aqui se está a dizer, Continue, continue, por
favor. Chegado ao final da carta, o primeiro-ministro, devagar,
movendo os lábios em silêncio, articulou as duas sílabas da palavra que
a assinava. Pousou o papel sobre a secretária, olhou fixamente o
interlocutor e disse, Imaginemos que se trata de uma brincadeira, Não o
é, Também estou em crer que não o seja. mas se estou a dizer-lhe que o
imaginemos é só para concluir que não demoraríamos muitas horas a
sabê-lo, Precisamente doze, uma vez que é meio-dia agora, Aí é onde eu
quero chegar, se o que se anuncia na carta vier a cumprir-se, e se não
avisámos antes as pessoas, irá repetir-se. mas ao invés, o que sucedeu
na noite do fim de ano, Tanto faz que as avisemos, ou não, senhor
primeiro-ministro. o efeito será o mesmo, Contrário, Contrário, mas o
mesmo, Exacto,no entanto, se as tivéssemos avisado e afinal viesse a
verificar-se que se tratava de uma brincadeira, as pessoas teriam
passado um mau bocado inutilmente, embora seja certo que haveria
muito que conversar sobre a pertinência deste advérbio, Não creio que
valha a pena, o senhor primeiro-ministro já disse que não pensa que seja
uma brincadeira, Assim é, Que fazer, então, avisar, ou não avisar, Essa é
a questão, meu caro director-geral, temos de pensar, ponderar, reflectir,
A questão já está nas suas mãos. Senhor primeiro-ministro, a decisão
pertence-lhe. Pertence-me, de facto, poderia até rasgar este papel em mil
pedaços e deixar-me ficar à espera do que acontecesse, Não creio que o
89
faça, Tem razão, não o farei, portanto há que tomar uma decisão, dizer
simplesmente que a população deve ser avisada, não basta, é preciso
saber como, os meios de comunicação social existem para isso, senhor
primeiro-ministro, temos a televisão, os jornais, a rádio, A sua ideia,
portanto, é que distribuamos a todos esses meios uma fotocópia da
carta acompanhada de um comunicado do governo em que se pediria
serenidade à população e se dariam alguns conselhos sobre como
proceder na emergência, o senhor primeiro-ministro formulou a ideia
melhor do que eu alguma vez seria capaz de fazer, Agradeço lhe a
lisonjeira opinião, mas agora peço-lhe que faça um esforço e imagine o
que aconteceria se procedêssemos desse modo, Não percebo, Esperava
melhor do director-geral da televisão. se assim é, sinto não estar à
altura, senhor primeiro-ministro. Claro que está, o que se passa é que se
encontra aturdido pela responsabilidade, E o senhor primeiro-ministro,
não está aturdido, Também estou, mas, no meu caso, aturdido não quer
dizer paralisado. Ainda bem para o país, Agradeço-lhe uma vez mais,
nós não temos conversado muito um com o outro, geralmente só falo da
televisão com o ministro da tutela, mas creio que chegou o momento de
fazer de si uma figura nacional, Agora é que não o compreendo de todo,
senhor primeiro-ministro. É simples. este assunto vai ficar entre nós,
rigorosamente entre nós, até às nove horas da noite, a essa hora o
noticiário da televisão abrirá com a leitura de um comunicado oficial em
que se explicará o que irá suceder à meia-noite de hoje, sendo igual-
mente lido um resumo da carta, e a pessoa que procederá a estas duas
leituras será o director-geral da televisão, em primeiro lugar porque foi
ele o destinatário da carta, ainda que não nomeado nela, e em segundo
lugar porque o director-geral da televisão é a pessoa em quem confio
para que ambos levemos a cabo a missão de que, implicitamente, fomos
90
encarregados pela dama que assina este papel, um locutor faria melhor
o trabalho, senhor primeiro-ministro. Não quero um locutor, quero o
director-geral da televisão, se é esse o seu desejo, considerá-lo-ei como
uma honra, somos as únicas pessoas que conhecem o que se vai passar
hoje à meia-noite e continuaremos a sê-lo até à hora em que a população
receba a informação, se fizéssemos o que há pouco propôs, isto é, passar
já a notícia à comunicação social, iría-mos ter aí doze horas de confusão,
de pânico, de tumulto, de histerismo colectivo, e sei lá que mais,
portanto. uma vez que não está nas nossas possibilidades, refiro-me ao
governo, evitar essas reacções, ao menos que as limitemos a três horas,
daí para diante já não será connosco, vamos ter de tudo, lágrimas,
desesperos, alívios mal disfarçados, novas contas à vida, Parece boa
ideia, sim, mas só porque não temos outra melhor. o primeiro-ministro
pegou na folha de papel, passou-lhe os olhos sem ler e disse, É Curioso,
a letra inicial da assinatura deveria ser maiúscula, e é minúscula.
Também estranhei, escrever um nome com minúscula é anormal. Diga-
me se vê algo de normal em toda esta história que temos andado a
viver, Realmente, nada, A propósito. sabe tirar fotocópias, Não sou
especialista, mas tenho-o feito algumas vezes, Estupendo. o primeiro-
ministro meteu a carta e o sobrescrito dentro de uma pasta repleta de
documentos e mandou chamar o chefe de gabinete, a quem ordenou,
Faça desocupar imediatamente a sala onde se encontra a fotocopiadora.
Está onde os funcionários trabalham, senhor primeiro-ministro, é esse o
seu lugar. Que vão pata outro sítio, que esperem no corredor ou saiam a
fumar um cigarro. só precisaremos de três minutos, não é assim,
director-geral. Nem tanto, senhor, Eu poderei tirar a fotocópia com
absoluta discrição, se é isso, como me permito supor, o que se pretende,
disse o chefe de gabinete, É precisamente isso que se pretende,
91
discrição, mas, por esta vez, eu próprio me encarregarei do trabalho,
com a assistência técnica, digamos assim, do senhor director-geral da
televisão aqui presente. Muito bem, senhor primeiro-ministro, vou dar
as ordens necessárias para que a sala seja evacuada. Regressou daí a
minutos, Já está desocupada, senhor primeiro-ministro. se não vê
inconveniente volto para o meu gabinete, Congratulo-me por não ter de
lho pedir e peço-lhe que não leve a mal estas manobras aparentemente
conspirativas pelo facto de o excluírem a si, conhecerá ainda hoje o
motivo de tantas precauções e sem precisar que eu lho diga, Com
certeza, senhor primeiro-ministro, nunca me permitiria duvidar da
bondade das suas razões, Assim se fala, meu caro. Quando o chefe de
gabinete saiu, o primeiro-ministro pegou na pasta e disse, Vamos lá. A
sala estava deserta. Em menos de um minuto a fotocópia ficou pronta.
Letra por letra, palavra por palavra, mas era outra cousa, faltava-lhe o
toque inquietante da cor violeta do papel, agora é uma missiva vulgar,
comum, daquelas do género oxalá estas regras vos encontrem de boa e
feliz saúde em companhia de toda a família, que eu, por mim, só tenho
a dizer bem da vida ao fazer desta. o primeiro-ministro entregou a
cópia ao director-geral, Aí tem, fico como original, disse, E o
comunicado do governo, quando irei recebê-lo, sente-se, que eu próprio
o redijo num instante, é simples, queridos compatriotas. o governo
considerou ser seu dever informar o país sobre uma carta que lhe
chegou hoje às mãos, um documento cujo significado e importância não
necessitam ser encarecidos, embora não estejamos em condições de
garantir a sua autenticidade, admitimos, sem querer antecipar já o seu
conteúdo, uma possibilidade de que não venha a produzir-se o que no
mesmo documento se anuncia, no entanto, para que a população não se
veja tomada de surpresa numa situação que não estará isenta de tensões
92
e aspectos críticos vários, vai-se proceder de imediato à sua leitura, da
qual, com o beneplácito do governo, se encarregará o senhor director-
geral da televisão, uma palavra ainda antes de terminar, não é
necessário assegurar que, como sempre, o governo se vai manter atento
aos interesses e necessidades da população em horas que serão, sem
dúvida, das mais difíceis desde que somos nação e povo, motivo este
por que apelamos a todos vós para que conserveis a calma e a sereni-
dade de que tantas mostras haveis dado durante a sucessão de duras
provações por que passámos desde o princípio do ano, ao mesmo
tempo que confiamos em que um porvir mais benévolo nos venha
restituir a paz e a felicidade de que somos merecedores e de que desfru-
távamos antes, queridos compatriotas, lembrai-vos de que a união faz a
força, esse é o nosso lema, a nossa divisa, mantenhamo-nos unidos e o
futuro será nosso, pronto, já está, como vê, foi rápido, estes comuni-
cados oficiais não exigem grandes esforços de imaginação, quase se
poderia dizer que se redigem a si próprios, tem aí uma máquina de
escrever, copie e guarde tudo bem guardado até às nove horas da noite,
não se separe desses papéis nem por um instante, Fique tranquilo.
senhor primeiro-ministro, estou perfeitamente consciente das minhas
responsabilidades nesta conjuntura, tenha a certeza de que não se
sentirá decepcionado, Muito bem, agora pode regressar ao seu trabalho,
Permita-me que lhe faça ainda duas perguntas antes de ir-me, Adiante,
o senhor primeiro-ministro acaba de dizer que até às nove horas da
noite só duas pessoas saberão deste assunto, sim, o senhor e eu,
nenhuma outra, nem sequer o governo, E orei, se não é ousadia da
minha parte meter-me onde não sou chamado, sua majestade sabê-lo-á
ao mesmo tempo que os demais, isto, claro, no caso de estar a ver a
televisão, suponho que não irá ficar muito contente por não haver sido
93
informado antes, Não se preocupe, a melhor das virtudes que exornam
os reis, refiro-me, como é óbvio, aos constitucionais, é serem pessoas
extraordinariamente compreensivas, Ah, E a outra pergunta que queria
fazer, Não é bem uma pergunta, Então, E que, sinceramente, estou
assombrado com o sangue-frio que está demonstrando, senhor
primeiro-ministro, a mim, o que vai suceder no país à meia-noite
aparece-me como uma catástrofe, um cataclismo como nunca houve
outro, uma espécie de fim do mundo, enquanto, olhando para si, é
como se estivesse a tratar de um assunto qualquer de rotina
governativa, dá tranquilamente as suas ordens, e há pouco tive até a
impressão de que havia sorrido, Estou convencido de que também o
meu caro director-geral sorriria se tivesse uma ideia da quantidade de
problemas que esta carta me vem resolver sem ter precisado de mover
um dedo, e agora deixe-me trabalhar, tenho de dar umas quantas
ordens, falar como ministro do interior para que mande pôr a polícia de
prevenção, tratarei de inventar um motivo plausível, a possibilidade de
uma alteração da ordem pública, não é pessoa para perder muito tempo
a pensar, prefere a acção, dêem-lhe acção se querem vê-lo feliz, senhor
primeiro-ministro, consinta-me que lhe diga que considero um privi-
légio sem preço ter vivido a seu lado estes momentos cruciais, Ainda
bem que o vê dessa maneira, mas poderá ficar certo de que mudaria
rapidamente de opinião se uma só palavra das que foram duas neste
gabinete, minhas ou suas, viesse a ser conhecida fora das quatro
paredes dele, Compreendo, Como um rei constitucional, sim, senhor
primeiro-ministro.
Eram quase vinte horas e trinta minutos quando o director-geral
chamou ao seu gabinete o responsável do telejornal para o informar de
94
que o noticiário dessa noite iria abrir com a leitura de uma comunicação
do governo ao país, da qual, como de costume, deveria encarregar-se o
locutor que se encontrasse de serviço, após o que ele próprio, director-
geral, leria um outro documento, complementar do primeiro. se ao
responsável do telejornal o procedimento lhe pareceu anormal,
desusado, fora do costume, não o deu a perceber, limitou-se a pedir os
dois documentos para serem passados ao teleponto, esse meritório
aparelho que permite criar a presunçosa ilusão de que o comunicante se
está a dirigir directa e unicamente a cada uma das pessoas que o
escutam. o director-geral respondeu que neste caso o teleponto não iria
ser utilizado, Faremos a leitura à moda antiga, disse, e acrescentou que
entraria no estúdio às vinte horas e cinquenta e cinco minutos precisas,
momento em que entregaria o comunicado do governo ao locutor, a
quem instruções rigorosas já deveriam ter sido dadas para só abrir a
pasta que o continha quando fosse iniciar a leitura. O responsável do
telejornal pensou que, agora sim, havia motivo para mostrar um certo
interesse pelo assunto, É assim tão importante, perguntou, Em meia
hora o saberá, E a bandeira, senhor director-geral, quer que a mande
colocar atrás da cadeira onde se irá sentar, Não, nada de bandeiras, não
sou nem chefe do governo nem ministro, Nem rei, sorriu o responsável
do telejornal com um ar de lisonjeira cumplicidade como se quisesse
dar a entender que rei, sim, o era, mas da televisão nacional. o director-
geral fez que não tinha ouvido, Pode ir, dentro de vinte minutos estarei
no estúdio, Não haverá tempo para que o maquilhem, Não quero ser
maquilhado, a leitura será bastante breve e os telespectadores, nessa
altura, terão mais cousas em que pensar que se a minha cara está
maquilhada ou não, Muito bem, o senhor director-geral manda, Em
todo ocaso, tome providências para que os focos não me ponham covas
95
na cara, não gostaria que me vissem no ecrã com aspecto de desen-
terrado, hoje menos que em qualquer outra ocasião. As vinte horas e
cinquenta e cinco minutos o director-geral entrou no estúdio, entregou
ao locutor de serviço a pasta com o comunicado do governo e foi sentar-
se no lugar que lhe estava destinado. Atraídas pelo insólito da situação,
a notícia, como seria de esperar, tinha corrido, havia muitas mais
pessoas no estúdio do que era habitual. o realizador ordenou silêncio.
As vinte e uma horas exactas surgiu, acompanhado pela sua inconfun-
dível música de fundo, o fulgurante arranque do telejornal, uma
variada e velocíssima sequência de imagens com as quais se pretendia
convencer o telespectador de que aquela televisão, ao seu serviço as
vinte e quatro horas do dia, estava, como antigamente se dizia da
divindade, em toda a parte e de toda a parte mandava notícias. No
mesmo instante em que o locutor acabou de ler o comunicado do
governo, a câmara número dois pôs o director-geral no ecrã. Notava-se
que estava nervoso, que tinha a garganta apertada. Pigarreou um pouco
para limpar a voz e começou a ler, senhor director-geral da televisão
nacional, estimado senhor, para os efeitos que as pessoas interessadas
tiverem por convenientes venho informar de que a partir da meia-noite
de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios,
desde o princípio dos tempos e até ao dia trinta e um de dezembro do
ano passado, devo explicar que a intenção que me levou a interromper a
minha actividade, a parar de matar, a embainhar a emblemática
gadanha que imaginativos pintores e gravadores doutro tempo me
puseram na mão, foi oferecer a esses seres humanos que tanto me
detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver sempre,
isto é, eternamente, embora, aqui entre nós dois, senhor director-geral
da televisão nacional, eu tenha de confessar a minha total ignorância
96
sobre se as duas palavras, sempre e eternamente, são tão sinónimas
quanto em geral se crê, ora bem, passado este período de alguns meses
a que poderíamos chamar de prova de resistência ou de tempo gratuito
e tendo em conta os lamentáveis resultados da experiência, tanto de um
ponto de vista moral, isto é, filosófico, como de um ponto de vista prag-
mático, isto é, social, considerei que o melhor para as famílias e para a
sociedade no seu conjunto, quer em sentido vertical, quer em sentido
horizontal, seria vir a público reconhecer o equivoco de que sou respon-
sável e anunciar o imediato regresso à normalidade, o que significará
que a todas aquelas pessoas que já deveriam estar mortas, mas que, com
saúde ou sem ela, permaneceram neste mundo, se lhes apagará a
candeia da vida quando se extinguir no ar a última badalada da meia-
noite, note-se que a referência à badalada é meramente simbólica, não
seja que a alguém lhe passe pela cabeça a ideia estúpida de encravar os
relógios dos campanários ou de retirar o badalo aos sinos pensando que
dessa maneira deteria o tempo e contrariaria o que é minha decisão
irrevogável, esta de devolver o supremo medo ao coração dos homens a
maior parte das pessoas que antes se encontravam no estúdio já se
havia sumido dali, e as que ainda se mantinham bichanavam baixinho
umas com as outras, os seus murmúrios zumbindo sem que o reali-
zador, ele próprio a deixar cair o queixo de puro pasmo, se lembrasse
de mandar calar com aquele gesto furioso que era seu costume usar em
circunstâncias obviamente muito menos dramáticas portanto resignem-
se e morram sem discutir porque de nada lhes adiantaria, porém, um
ponto há em que sinto ser minha obrigação dar a mão à palmatória, o
qual tem que ver com o injusto e cruel procedimento que vinha
seguindo, que era tirar a vida às pessoas à falsa-fé, sem aviso prévio,
sem dizer água-vai, tenho de reconhecer que se tratava de uma
97
indecente brutalidade, quantas vezes não dei nem sequer tempo a que
fizessem testamento, é certo que na maior parte dos casos lhes mandava
uma doença para abrir caminho, mas as doenças têm algo de curioso, os
seres humanos sempre esperam safar-se delas, de modo que só quando
já é tarde de mais se vem a saber que aquela iria ser a última, enfim, a
partir de agora toda a gente passará a ser prevenida por igual e terá um
prazo de uma semana para pôr em ordem o que ainda lhe resta de vida,
fazer testamento e dizer adeus à família, pedindo perdão pelo mal feito
ou fazendo as pazes com o primo com quem desde há vinte anos estava
de relações cortadas, dito isto, senhor director-geral da televisão nacio-
nal, só me resta pedir-lhe que faça chegar hoje mesmo a todos os lares
do país esta minha mensagem autógrafa, que assino com o nome com
que geralmente se me conhece, morte. o director-geral levantou-se da
cadeira quando viu que já o tinham retirado do ecrã, dobrou a cópia da
carta e meteu-a num dos bolsos interiores do casaco. Notou que o
realizador vinha para ele, pálido, com o rosto descomposto, Então era
isso, dizia num murmúrio quase inaudível, então era isso. o director-
geral acenou em silêncio e dirigiu-se à saída. Não ouviu as palavras que
o locutor começara a balbuciar, Acabaram de escutar, e depois as
notícias que haviam deixado de ter importância porque em todo o país
ninguém lhes estava a dar a menor atenção, nas casas em que havia um
doente terminal as famílias foram juntar-se à cabeceira do infeliz,
porém, não podiam dizer-lhe que ia morrer daí a três horas, não
podiam dizer-lhe que já agora podia aproveitar o tempo para fazer o
testamento a que sempre se tinha negado ou se queria que chamassem o
primo para fazerem as pazes, também não podiam praticar a hipocrisia
do costume que era perguntar se se sentia melhorzinho, ficavam a
contemplar a pálida e emaciada face, depois olhavam o relógio às
98
furtadelas, à espera de que o tempo passasse e de que o comboio do
mundo regressasse aos carris do costume para fazer a viagem de
sempre. E não poucas famílias houve que, tendo já pago à máphia para
que lhes levasse dali o triste despojo, e supondo, no melhor dos casos,
que não iriam agora pôr-se a chorar o dinheiro gasto, viam como, se
houvessem tido um pouco mais de caridade e paciência, lhes teria saído
grátis o despejo. Nas ruas havia enormes alvoroços, viam-se pessoas
paradas, aturdidas, ou desorientadas, sem saberem para que lado fugir,
outras a chorar desconsoladamente, outras abraçadas como se tivessem
resolvido começar ali mesmo as despedidas, algumas discutiam se as
culpas de tudo isto seriam do governo, ou da ciência médica, ou do
papa de roma, um céptico protestava que não havia memória de a
morte ter escrito alguma vez uma carta e que era necessário mandar
fazer com urgência a análise da caligrafia porque, dizia, uma mão só
composta de trocinhos ósseos nunca poderia escrever da mesma
maneira que o teria feito uma mão Completa, autêntica, viva, com
sangue, veias, nervos, tendões, pele e carne, e que se era certo que os
ossos não deixam impressões digitais no papel e portanto não se
poderia por aí identificar o autor da carta, um exame ao adn talvez
lançasse alguma luz sobre esta inesperada manifestação epistolar de um
ser, se a morte o é, que tinha estado silencioso toda a vida. Neste mesmo
momento o primeiro-ministro está a falar com o rei pelo telefone, a
explicar-lhe as razões por que havia decidido não lhe dar conhecimento
da carta da morte, e o rei responde que sim, que compreende perfeita-
mente, então o primeiro-ministro diz-lhe que sente muito o funesto
desenlace que a última badalada da meia-noite virá impor à periclitante
vida da rainha-mãe, e o rei encolhe os ombros, que para pouca vida
mais vale nenhuma, hoje ela, amanhã eu, tanto mais que o príncipe
99
herdeiro já anda a dar mostras de impaciência, a perguntar quando
chegará a sua vez de ser rei constitucional.
Depois de terminada esta conversação íntima, com toques de inusual
sinceridade, o primeiro-ministro deu instruções ao chefe de gabinete
para convocar todos os membros do governo a uma reunião de urgên-
cia máxima, Quero-os aqui em três quartos de hora, às dez em ponto,
disse, teremos de discutir, aprovar e por em marcha os paliativos
necessários para minorar as confusões e balbúrdias de toda a espécie
que a nova situação inevitavelmente criará nos próximos dias, Refere-se
à quantidade de pessoas falecidas que vai ser preciso evacuar nesse
curtíssimo prazo, senhor primeiro-ministro, Isso ainda é o menos
importante, meu caro, para resolver problemas dessa natureza é que as
agências funerárias existem, aliás, a crise acabou para elas, devem estar
contentíssimas a deitar contas ao que vão ganhar, portanto, que
enterrem elas os mortos como lhes compete, que a nós caber-nos-á
tratar dos vivos, por exemplo, organizar equipas de psicólogos para
ajudarem as pessoas a superar o trauma de terem de voltar a morrer
quando estavam tão convencidas de que iriam viver para sempre,
Realmente deverá ser duro, eu próprio já o havia pensado, Não perca
tempo, os ministros que tragam os secretários de estado respectivos,
quero-os aqui a todos às dez em ponto, se algum lhe perguntar, diga
que é o primeiro a ser convocado, eles são como crianças pequenas,
gostam de rebuçados. o telefone tocou, era o ministro do interior,
senhor primeiro-ministro, estou a receber chamadas de todos os jornais,
disse, exigem que lhes sejam fornecidas cópias da carta que acaba de ser
lida na televisão em nome da morte e que eu deploravelmente desco-
nhecia, Não o deplore, se entendi assumir a responsabilidade de
guardar segredo foi para que não tivéssemos de aguentar doze horas de
100
pânico e de confusão, Que faço, então, Não se preocupe com este
assunto, o meu gabinete vai distribuir a carta agora mesmo por todos os
órgãos de comunicação social, Muito bem, senhor primeiro-ministro, o
governo reunir-se-á às dez horas em ponto, traga os seus secretários de
estado, os subsecretários também, Não, esses deixe-os a guardar a casa,
sempre ouvi dizer que muita gente junta não se salva, sim, senhor
primeiro-ministro, seja pontual, a reunião principiará às dez horas e um
minuto, Tenha a certeza de que seremos os primeiros a chegar, senhor
primeiro-ministro, Receberá a sua medalha, Que medalha, Era só uma
maneira de falar, não faça caso.
Os representantes das empresas funerárias, enterros, incinerações e
trasladações, serviço permanente, vão reunir-se à mesma hora na sede
da corporação. Confrontadas com o desmesurado e nunca antes
experimentado desafio profissional que representará a morte simul-
tânea e o subsequente despacho fúnebre de milhares de pessoas em
todo o país, a única solução séria que se lhes apresentará, ademais de
altamente beneficiosa do ponto de vista económico graças ao embarate-
cimento racionalizado dos custos, será porem em campo, de forma
conjunta e ordenada, os recursos de pessoal e os meios tecnológicos de
que dispõem, em suma, a logística, estabelecendo de caminho quotas
proporcionais de participação no bolo, como graciosamente dirá o
presidente da associação de classe, com discreto embora sorridente
aplauso da companhia.
Haverá que levar em conta, por exemplo, que a produção de caixões,
tumbas, ataúdes, féretros e esquifes para uso humano se encontra
estancada desde o dia em que as pessoas deixaram de morrer e que, no
improvável caso de que ainda restem existências numa ou outra
101
carpintaria de gerência conservadora, será como aquela pequena rosette
de malherbe, que, convertida em rosa, mais não pôde durar que a
brevidade de uma manhã. A citação literaria foi obra do presidente,
que, sem vir muito a propósito, mas provocando os aplausos da
assistência, disse a seguir, seja como for, terminou para nós a vergonha
de andar a fazer enterros a cães, gatos e canários de estimação, E papa-
gaios, disse uma voz lá ao fundo, E papagaios, assentiu o presidente, E
peixinhos tropicais, lembrou outra voz, Isso foi só depois da polémica
levantada pelo espírito que paira sobre a água do aquário, corrigiu o
secretário da mesa, a partir de agora vão passar a dá-los aos gatos, por
aquilo de lavoisier, quando disse que na natureza nada se cria e nada se
perde, tudo se transforma. se não se chegou a saber a que extremos
poderiam chegar os alardes de almanaque das agências funerárias ali
reunidas foi porque um dos seus representantes, preocupado com o
tempo, vinte e duas horas e quarenta e cinco minutos no seu relógio,
levantou o braço para propor que se telefonasse à associação de
carpinteiros a perguntar como estavam eles de caixões e ataúdes,
Precisamos de saber com o que podemos contar a partir de amanhã,
concluiu. Como seria de esperar, a proposta foi calorosamente aplau-
dida, mas o presidente, disfarçando mal o despeito por não ter sido dele
a ideia, observou, o mais certo é não haver ninguém nos carpinteiros a
estas horas, Permito-me duvidar. senhor presidente, as mesma razões
que aqui nos reuniram, deverão tê-los feito reunir a eles. Acertava em
cheio o proponente. Da corporação de carpinteiros responderam que
tinham alertado os respectivos associados logo a seguir à leitura da
carta da morte, chamando a sua atenção para a conveniência de restabe-
lecerem no mais curto prazo possível o fabrico de caixaria fúnebre, e
que, de acordo com as informações que estavam a receber continua-
102
mente, não só muitas empresas haviam logo convocado os seus operá-
rios, como também já se encontravam em plena laboração a maior parte
delas. Vai contra o horário de trabalho, disse o porta-voz da corporação,
mas, considerando que se trata de uma situação de emergência nacio-
nal, os nossos advogados têm a certeza de que o governo não terá outro
remédio senão fechar os olhos e de que ainda por cima nos agradecerá,
o que não poderemos garantir, nesta primeira fase, é que os caixões e os
ataúdes a fornecer se apresentem com a mesma qualidade de acaba-
mento a que tínhamos habituado os nossos clientes, os polimentos, os
vernizes e os crucifixos no tampo terão de ficar para a fase seguinte,
quando a pressão dos enterros começar a diminuir, de todo o modo
estamos conscientes da responsabilidade de sermos uma peça
fundamental neste processo. ouviram-se novos e ainda mais calorosos
aplausos na reunião dos representantes das agências funerárias, agora
sim, agora havia motivo para se felicitarem mutuamente, nenhum
corpo ficaria por enterrar, nenhuma factura por cobrar. E os coveiros,
perguntou o da proposta, os coveiros fazem o que se lhes mandar,
respondeu irritado o presidente. Não era bem assim.
Por outra chamada telefónica soube-se que os coveiros exigiam um
aumento substancial de salário e o pagamento em triplo das horas
extraordinárias. Isso é com as câmaras municipais, eles que se
amanhem, disse o presidente. E se chegamos ao cemitério e não há lá
ninguém para abrir as covas, perguntou o secretário. A discussão
prosseguiu acesa. As vinte e três horas e cinquenta minutos o
presidente teve um infarto de miocárdio. Morreu com a última
badalada da meia-noite.
103
Muito mais que uma hecatombe. Durante sete meses, que tantos
foram os que a trégua unilateral da morte havia durado, tinham-se ido
acumulando em uma nunca vista lista de espera mais de sessenta mil
moribundos, exactamente sessenta e dois mil quinhentos e oitenta,
postos de uma vez em paz por obra de um instante único, de um átimo
de tempo carregado de uma potência mortífera que só encontraria
comparação em certas repreensivas acções humanas. A propósito, não
resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem
qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem.
Talvez algum espírito curioso se esteja perguntando agora como foi que
conseguimos apurar aquela precisa quantidade de sessenta e duas mil
quinhentas e oitenta pessoas que fecharam os olhos ao mesmo tempo e
para sempre. Foi muito fácil. sabendo-se que o país em que tudo isto se
passa tem mais ou menos dez milhões de habitantes e que a taxa de
mortalidade é mais ou menos de dez por mil, duas simples operações
aritméticas, das mais elementares, a multiplicação e a divisão, a par de
uma cuidadosa ponderação das proporções intermediárias mensais e
anuais, permitiram-nos obter, para cima e para baixo, uma estreita faixa
numérica na qual a quantidade finalmente indicada se nos apresentou
como média razoável, e se dizemos razoável é porque igualmente
poderíamos haver adoptado os números laterais de sessenta e duas mil
quinhentas e setenta e nove ou de sessenta e duas mil quinhentas e
oitenta e uma pessoas se a morte do presidente da corporação das
agências funerárias, por inesperada e de última hora, não tivesse vindo
introduzir nos nossos cálculos um factor de perturbação. Ainda assim,
estamos confiantes em que a verificação dos óbitos, iniciada logo às
primeiras horas da manhã seguinte, virá confirmar a justeza das contas
feitas. outro espírito curioso, dos que sempre interrompem o narrador,
104
estará perguntando como podiam os médicos saber a que moradas se
deveriam dirigir para executar uma obrigação sem cujo cumprimento
um morto não estará legalmente morto, ainda que indiscutivelmente
morto esteja. Em certos casos, escusado seria dizê-lo, foram as próprias
famílias do defunto a chamar o seu médico assistente ou de cabeceira,
mas esse recurso teria forçosamente um alcance muito reduzido, uma
vez que o que se pretendia era oficializar em tempo recorde uma
situação anómala, de modo a evitar que se confirmasse uma vez mais o
ditado que diz que uma desgraça nunca vem só, o que, aplicado à
situação, significaria depois de morte súbita, putridez em casa. Foi
então quando se demonstrou que não é por acaso que um primeiro-
ministro chega a tão altas funções e que, como não se tem cansado de
afirmar a infalível sabedoria das nações, cada povo temo governo que
merece, devendo contudo observar-se, quanto a este particular, e para
completa clarificação do assunto, que se é verdade que os primeiros-
ministros, para bem ou para mal, não são todos iguais, também não é