então, Recebo-te no meu rebanho. O homem levantou-se, tomou o archote e saiu para o ar livre. Jesus seguiu-o. Era noite fechada, a lua ainda não nascera. Juntas à entrada da caverna, sem mais ruído que o leve tilintar das campainhas de algumas, as ovelhas e as cabras, tranquilas, pareciam ter estado à espera da conclusão da conversa entre o seu pastor e o ajuda novo. O homem levantou o archote para mostrar as cabeças negras das cabras, os focinhos alvacentos das ovelhas, os lombos secos e escorridos dumas, as redondas e felpudas garupas doutras, e disse, Este é o meu rebanho, cuida tu de não vires a perder um só destes animais. Sentados à boca da caverna, sob a luz instável do archote, Jesus e o pastor comeram do queijo e do pão duro dos alforges. Depois o pastor foi dentro e trouxe o pau novo, o que ainda estava encascado. Acendeu uma fogueira e, aos poucos, movendo habilmente o pau entre as chamas, foi-lhe queimando a casca até fazê-la sair em longas tiras, depois alisou-lhe toscamente os nós. Deixou-o a arrefecer por um bocado e tornou a metê-lo no lume, agora movendo-o mais depressa, sem dar tempo a que as labaredas o queimassem, desta maneira escurecendo e enrijecendo a epiderme da madeira, como se sobre a jovem vergôntea se tivessem antecipado os anos.
Quando chegou ao fim do trabalho, disse, Aqui tens, forte e direito, o teu cajado de pastor, é o teu terceiro braço. Apesar de não ser de mãos delicadas, Jesus teve de largar o pau para o chão, tão quente estava. Como pôde ele aguentar, pensou, e não encontrava a resposta. Quando, finalmente, a lua nasceu, entraram na cova para dormir. Umas poucas ovelhas e cabras entraram também e deitaram-se ao lado deles. Alvorecia o primeiro luzeiro da manhã, quando o pastor sacudiu Jesus, dizendo-lhe, Levanta-te, rapaz, chega de dormir, o meu gado tem fome, daqui em diante o teu trabalho vai ser levá-
lo ao pasto, nunca em tua vida farás coisa mais importante. Lentamente, porque o que regulava a marcha era o passo miudinho e travado do rebanho, posto o pastor lá adiante, o ajuda atrás, foram-se dali todos, os humanos e os animais, numa fresca e transparente madrugada que parecia não ter pressa de fazer nascer o sol, ciosa de uma claridade que era como a de um mundo apenas começado. Bem mais tarde, uma mulher idosa, que a custo caminhava ajudando-se com um bordão como uma terceira perna, veio das escondidas casas de Belém e entrou na caverna. Não ficou muito admirada por não estar ali Jesus, provavelmente já nada teriam para dizer um ao outro. Na meia escuridão habitual da cova brilhava a amêndoa luminosa da candeia, que o pastor reabastecera de azeite. Daqui a quatro anos Jesus encontrará Deus. Ao fazer esta inesperada revelação, quiçá prematura à luz das regras do bem narrar antes mencionadas, o que se pretende é tão-só bem dispor o leitor deste evangelho a deixar-se entreter com alguns vulgares episódios de vida pastoril, embora estes, adianta-se desde já para que tenha desculpa quem for tentado a passar à frente, nada de substancioso venham trazer ao principal da matéria. No entanto, quatro anos sempre são quatro anos, mormente numa idade de tão grandes mudanças físicas e mentais, ele é o corpo que cresce desta desatinada maneira, ele é a barba que começa a sombrear uma pele já de si morena, ele é a voz que se torna funda e grossa como uma pedra rolando pela aba da montanha, ele é a tendência para o devaneio e o sonhar acordado, sempre censuráveis, mormente quando há deveres de vigilância a cumprir, é o caso das sentinelas nos quartéis, castelos e acampamentos, por exemplo, ou, para não sairmos da história, deste novel ajudante de pastor a quem foi dito que não pode largar de vista as cabras e as ovelhas do patrão. Que, a bem dizer, não se sabe quem seja. Pastorear, neste tempo e nestes lugares, é trabalho para servo ou escravo bruto, obrigado, sob pena de castigo, a dar constantes e pontuais contas do leite, do queijo e da lã, sem falar do número de cabeças de gado, o qual sempre deverá estar em aumento, para que possam dizer os vizinhos que os olhos do Senhor contemplam com benignidade o piedoso proprietário de bens tão profusos, o qual, se quer estar conforme com as regras do mundo, mais deverá fiar-se da benevolência do Senhor do que da força genesíaca dos cobridores do seu rebanho. Estranho, porém, é 77
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
que Pastor, que assim quis ele que lhe chamássemos, não pareça ter um amo que o governe, pois nestes quatro anos não virá ninguém ao deserto a recolher a lã, o leite ou o queijo, nem o maioral deixará o gado para ir dar contas do seu múnus. Tudo estaria certo se o pastor fosse, no sentido conhecido e costumado da palavra, o dono destas cabras e destas ovelhas, mas é muito difícil acreditar que o seja, realmente, quem, como ele, deita a perder quantidades de lã que excedem toda a imaginação, quem, pelos vistos, só tosquia para que não se sufoquem de calor as ovelhas, quem aproveita o leite, se o aproveita, apenas para fabricar o queijo de cada dia e trocar o que sobra por figos, tâmaras e pão, quem, finalmente, e enigma dos enigmas, não vende cordeiro ou cabrito do seu rebanho, nem mesmo na altura da Páscoa, quando, por via da procura, alcançam tão bom preço. Não admira, portanto, que o rebanho cresça sem parar, como se, afincadamente, e com o entusiasmo de quem sabe garantida uma duração justa de vida, cumprisse aquela famosa ordem que o Senhor deu, talvez pouco confiante na eficácia dos doces instintos naturais, Crescei e multiplicai-vos. Nesta grei insólita e vagabunda morre-se de velhice, e é o próprio Pastor, em pessoa, quem, serenamente, ajuda a morrer, matando-os, os animais que, por doença ou senilidade, já não podem acompanhar o rebanho.
Jesus, a primeira vez que tal aconteceu depois que começara a trabalhar para o pastor, protestou contra a fria crueldade, mas ele respondeu-lhe simplesmente, Ou os mato, como sempre tenho feito, ou os deixo abandonados para morrerem sozinhos nesses desertos, ou detenho o rebanho e fico aqui à espera de que morram, sabendo que, se levarem dias a morrer, acabará o pasto por não chegar para os que ainda estão vivos, diz-me tu como procederias se estivesses no meu lugar, se, como eu, fosses senhor da vida e da morte do teu rebanho. Jesus não soube que responder e, para mudar de assunto, perguntou, Se não vendes a lã, se temos mais leite e mais queijo do que precisamos para viver, se não fazes comércio dos anhos e dos cabritos, para que queres tu o rebanho e o deixas viver e fazes crescer assim, a ponto de um dia, se continuas, ele cobrir todos estes montes e encher a terra inteira, e Pastor respondeu, O rebanho estava aqui, alguém tinha de cuidar dele, defendê-lo das cobiças, calhou ser eu, Aqui, onde, Aqui, além, em toda a parte, Quererás dizer, se não me engano, que o rebanho sempre esteve, sempre foi, Mais ou menos, Foste tu que compraste a primeira ovelha e a primeira cabra, Não, Quem foi, então, Encontrei-as, não sei se foram compradas, e já eram rebanho quando as encontrei, Deram-tas, Ninguém mas deu, eu encontrei-as, elas encontraram-me, Então, és o dono, Não sou o dono, nada do que existe no mundo me pertence, Porque tudo pertence ao Senhor, devias sabê-lo, Tu o dizes, Há quanto tempo és pastor, Já o era quando nasceste, Desde quando, Não sei, talvez cinquenta vezes a idade que tens, Só os patriarcas de antes do dilúvio viveram tantos ou mais anos, nenhum homem dos de agora pode esperar ter tão longa vida, Bem o sei, Se o sabes, mas insistes que viveste todo esse tempo, admitirás que eu pense que não és homem, Admito. Ora, se Jesus, que tão bem encaminhado vinha na ordem e sequência do interrogatório, como se na cartilha socrática tivesse aprendido as artes da maiêutica analítica, se Jesus perguntasse, Que és então, já que homem não és, era muito provável que Pastor condescendesse em responder-lhe com um ar de quem não quer dar extrema importância ao assunto, Sou um anjo, mas não o digas a ninguém. Acontece isto muitas vezes, não fazemos as perguntas porque ainda não estávamos preparados para ouvir as respostas, ou por termos, simplesmente, medo delas. E, quando encontramos coragem para as lançar, não é raro que não nos respondam, como virá a fazer Jesus quando um dia lhe perguntarem, Que é a verdade. Então se calará até hoje. Como quer que seja, o que Jesus já sabe, sem precisar de perguntar, é que o seu enigmático companheiro não é um anjo do Senhor, pois os anjos do Senhor cantam em todos os momentos do dia e da noite as glórias do Senhor, não são como os homens, que só o fazem por obrigação e nas ocasiões regulamentares, também é certo que os anjos têm razões mais próximas e justificadas para cantarem tanto, pois que com o dito Senhor vivem eles no céu, por assim dizer de casa-e-pucarinho. O que primeiro Jesus estranhou de todo foi que, saídos da caverna para a madrugada, não tivesse Pastor procedido como ele procedera, bendizendo a Deus por aquelas coisas que sabemos, haver-lhe restituído a alma, haver dado inteligência ao galo, e, porque tivera precisão de ir atrás daquela fraga a mijar e dar de corpo, agradecer-lhe os orifícios e vasos existentes no organismo humano, providenciais no sentido absoluto da palavra, pois que sem eles. Pastor olhou o céu e a terra como faz qualquer um depois de sair da cama, murmurou algumas palavras sobre o bom tempo que os ares prometiam e, levando dois dedos à boca, soltou um assobio estridente que pôs todo o rebanho de pé como um só homem. Nada mais. Pensou Jesus que teria sido um caso de 78
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
esquecimento, sempre possível quando uma pessoa anda com o espírito ocupado, por exemplo, estar Pastor a pensar na melhor maneira de ensinar o rude ofício a um moço habituado aos confortos duma oficina de carpinteiro. Ora, nós sabemos que, numa situação normal, entre gente comum, Jesus não iria ter de esperar muito para se inteirar do grau efectivo de religiosidade do seu maioral, uma vez que os judeus do tempo emitiam bênçãos aí umas trinta vezes ao dia, por dá cá aquela palha, como bastantemente ao longo deste evangelho se viu, sem necessidade de melhor demonstração agora.
Passou-se o dia e nada de bênçãos, veio a noite, dormida ao relento, num descampado, e nem a majestade do céu de Deus foi capaz de acordar na alma e na boca de Pastor uma só palavrinha de louvor e gratidão, afinal o tempo podia estar de chuva e não estava, o que era, a todos os títulos, tanto os humanos como os divinos, sinal indubitável de que o Senhor velava pelas suas criaturas. Na manhã seguinte, de- pois de comer, e quando o maioral se preparava para dar uma volta ao rebanho em jeito de reconhecimento, a ver se alguma irrequieta cabra não resolvera ir de aventura pelos arredores, Jesus anunciou numa voz firme, Vou-me embora. Pastor parou, olhou-o sem mudar de expressão, apenas disse, Boa viagem, não preciso dizer-te que não és meu escravo nem há contrato legal entre nós, podes partir quando entenderes, Não queres saber por que me vou, A minha curiosidade não é tão forte que me obrigue a perguntar-to, Parto porque não devo viver ao lado duma pessoa que não cumpre as suas obrigações para com o Senhor, Que obrigações, As mais elementares, as que se exprimem pelas bênçãos e pelas graças. Pastor ficou calado, com um meio sorriso que se revelava mais nos olhos que na boca, depois disse, Não sou judeu, não tenho de cumprir obrigações que não são minhas. Jesus recuou um passo, escandalizado. Que a terra de Israel fervilhasse de estrangeiros e seguidores de deuses falsos, por de mais o sabia, mas nunca lhe sucedera dormir ao lado de um deles, comer do seu pão e beber do seu leite. Por isso, como se segurasse diante de si uma lança e um escudo protector, exclamou, Só o Senhor é Deus. O sorriso de Pastor apagou-se, a boca ganhou de súbito um vinco amargo, Sim, se existe Deus terá de ser um único Senhor, mas era melhor que fossem dois, assim haveria um deus para o lobo e um deus para a ovelha, um para o que morre e outro para o que mata, um deus para o condenado, um deus para o carrasco, Deus é uno, completo e indivisível, clamou Jesus, e quase chorava de piedosa indignação, ao que o outro respondeu, Não sei como pode Deus viver, a frase não passou daqui porque Jesus, com a autoridade de um mestre de sinagoga, cortou, Deus não vive, é, Nessas diferenças não sou entendido, mas o que te posso dizer é que não gostaria de me ver na pele de um deus que ao mesmo tempo guia a mão do punhal assassino e oferece a garganta que vai ser cortada, Ofendes a Deus com esses pensamentos ímpios, Não valho tanto, Deus não dorme, um dia te punirá, Ainda bem que não dorme, dessa maneira evita os pesadelos do remorso, Por que me falas tu de pesadelos e remorso, Porque estamos a falar do teu deus, E o teu, quem é, Não tenho deus, sou como uma das minhas ovelhas, Ao menos dão filhos para os altares do Senhor, E eu digo-te que como lobos uivariam essas mães se o soubessem. Jesus ficou pálido, sem resposta. Agora o rebanho rodeava-os, atento, num grande silêncio. O sol já nascera e a sua luz toucava de vermelho-rubi o velo das ovelhas e os cornos das cabras. Jesus disse, Vou-me embora, mas não se moveu. Apoiado ao cajado, tão calmo como se soubesse ter todo o tempo futuro à sua disposição, Pastor esperava. Enfim, Jesus deu alguns passos, abrindo caminho entre as ovelhas, mas parou de repente e perguntou, Que sabes tu de remorso e pesadelos, Que és o herdeiro de teu pai.
Estas palavras não as pôde suportar Jesus. No mesmo instante dobraram-se-lhe os joelhos, escorregou-lhe do ombro o alforge, donde, por obra de acaso ou de necessidade, lhe saltaram as sandálias do pai, ao mesmo tempo que se ouvia o ruído da tigela do fariseu ao partir-se. Jesus começou a chorar como uma criança abandonada, porém Pastor não se aproximou, apenas disse lá donde estava, Lembrar-te-ás sempre de que conheço tudo a teu respeito desde que foste concebido, e agora decide-te de uma vez, ou partes, ou ficas, Diz-me primeiro quem és, Ainda não é tempo de o saberes, E quando o souber, Se ficares, arrepender-te-ás de não teres partido, se partires, arrepender-te-ás de não ter ficado, Mas se eu me fosse embora não viria a saber quem és, Enganas-te, a tua hora há-de chegar e nessa altura estarei presente para to dizer, posto isto basta já de conversa, o rebanho não pode ficar aqui o dia todo à espera de que tu te resolvas. Jesus recolheu os cacos da tigela, olhou-os como se lhe custasse separar-se deles, em verdade não havia motivo para isso, ontem, a esta hora, ainda nem tinha encontrado o fariseu, além disso as tigelas de barro são assim, partem-se com grande facilidade. Largou os fragmentos para o chão como se os semeasse, e foi então que Pastor disse, Terás 79
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
uma outra tigela, mas essa não se quebrará enquanto vivas. Jesus não o ouviu, tinha as sandálias de José na mão e pensava se não deveria calçá-las, é certo que, tão pouco tempo passado, os pés não podiam ter-lhe crescido à medida, mas o tempo, bem o sabemos, é consoante, parecia a Jesus que andara com as sandálias do pai no alforge durante uma eternidade, forte surpresa era se ainda lhe estivessem largas. Calçou-as e, sem saber por que o fazia, guardou as suas. Disse Pastor, Pés que cresceram não voltam a encolher, e tu não terás filhos que de ti herdem a túnica, o manto e as sandálias, mas Jesus não as lançou fora, o peso delas ajudava o alforge quase vazio a segurar-se no ombro. A resposta que Pastor pedira não precisou ser dada, Jesus tomou o seu lugar atrás do rebanho, divididos os sentimentos entre uma indefinível impressão de terror, como se a sua alma estivesse em perigo, e outra, ainda mais indefinível, de sombria fascinação. Hei-de saber quem tu és, murmurava Jesus enquanto, em meio do pó levantado pelo rebanho, fazia avançar uma ovelha retardatária, e desta maneira se explicava, cria ele, o motivo por que finalmente resolvera ficar com o enigmático pastor.
Este foi o primeiro dia. De assuntos de crença e impiedade, de vida, morte e propriedade, não se voltou a falar, mas Jesus, que passara a observar mesmo os mais simples movimentos e atitudes de Pastor, notou que, coincidindo quase sempre com as vezes em que ele próprio bendizia o Senhor, o seu companheiro baixava-se e assentava suavemente as palmas das duas mãos na terra, curvando a cabeça e fechando os olhos, sem dizer uma palavra. Um dia, quando era ainda menino pequeno, Jesus ouvira contar a uns velhos viajantes que passaram por Nazaré que no interior do mundo existiam enormíssimas cavernas onde se encontravam, como à superfície, cidades, campos, rios, bosques e desertos, e que esse mundo inferior, em tudo cópia e reflexo deste em que vivemos, tinha sido criado pelo Diabo depois de o ter precipitado Deus das alturas do céu, em castigo da sua revolta. E como o Diabo, de quem Deus ao princípio fora amigo, e ele favorito de Deus, comentando-se mesmo no universo que desde os tempos infinitos nunca se vira uma amizade igual àquela, como o Diabo, diziam os velhos, estivera presente no acto do nascimento de Adão e Eva, e tinha podido aprender como se fazia, então repetiu no seu mundo subterrâneo a criação de um homem e de uma mulher, com a diferença, ao contrário de Deus, de não lhes ter proibido nada, razão por que não teria havido, no mundo do Diabo, pecado original. Um dos velhos atreveu-se mesmo a dizer, E como não houve pecado original, também não houve nenhum outro. Depois de os velhos se terem ido embora, expulsos, com a ajuda de algumas pedradas persuasivas, por nazarenos furiosos que enfim tinham percebido aonde queriam os ímpios chegar com a insidiosa conversa, houve um rápido abalo sísmico, coisa ligeira, nada mais que um sinal confirmador vindo das entranhas profundíssimas da terra, foi o que então ocorreu a Jesus pensar, já muito capaz, este pequeno, de ligar um efeito à sua causa, apesar da pouca idade. E agora, perante o pastor ajoelhado, de cabeça baixa, as mãos assim pousadas no chão, de leve, como para tornar mais sensível o contacto de cada grão de areia, de cada pequena pedra, de cada radícula subida à superfície, a lembrança da antiga história despertou na memória de Jesus, e ele acreditou, por momentos, ser este homem um habitante do oculto mundo criado pelo Diabo à semelhança do mundo visível, Que terá vindo cá fazer, pensou, mas a sua imaginação não teve ânimos para ir mais longe. Então, quando Pastor se levantou, perguntou-lhe, Por que fazes isso, Certifico-me de que a terra continua por baixo de mim, Não te chegam os pés para teres a certeza, Os pés não percebem nada, o conhecimento é próprio das mãos, quando tu adoras o teu Deus não é os pés que levantas para ele, mas as mãos, e contudo podias levantar qualquer parte do corpo, até o que tens entre as pernas, se não és um eunuco. Jesus corou violentamente, a vergonha e uma espécie de susto sufocaram-no, Não ofendas o Deus que não conheces, exclamou por fim, e Pastor, acto contínuo, Quem criou o teu corpo, Deus foi quem me criou, Tal como é e com tudo o que tem, Sim, Há alguma parte do teu corpo que tenha sido criada pelo Diabo, Não, não, o corpo é obra de Deus, Então todas as partes do teu corpo são iguais perante Deus, Sim, Poderia Deus rejeitar como obra não sua, por exemplo, o que tens entre as pernas, Suponho que não, mas o Senhor, que criou Adão, expulsou-o do paraíso, e Adão era obra sua, Responde-me direito, rapaz, não me fales como um doutor da sinagoga, Queres obrigar-me a dar-te as respostas que te convêm, e eu recito-te, se for preciso, todos os casos em que o homem, porque assim o ordenou o Senhor, não poderá, sob pena de contaminação e morte, descobrir uma nudez alheia ou a sua própria, prova de que essa parte do corpo é, por si mesma, maldita, Não mais maldita do que a boca quando mente e calunia, e ela serve-te para louvares o teu Deus antes da mentira e depois da calúnia, Não te quero ouvir, Tens de ouvir-me, que mais não seja 80
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
para atenderes à pergunta que te fiz, Que pergunta, Se Deus poderá rejeitar como obra não sua o que levas entre as pernas, diz sim ou não, Não pode, Porquê, Porque o Senhor não pode não querer o que antes quis. Pastor acenou a cabeça lentamente e disse, Por outras palavras, o teu Deus é o único guarda duma prisão onde o único preso é o teu Deus. Ainda o último eco da tremenda afirmação vibrava nos ouvidos de Jesus quando Pastor, agora num tom de falsa naturalidade, voltou a falar, Escolhe uma ovelha, disse, Quê, perguntou Jesus desnorteado, Digo-te que escolhas uma ovelha, a não ser que prefiras uma cabra, Para quê, Vais precisar dela, se realmente não és um eunuco. A compreensão atingiu o rapaz com a força de um murro. Porém, pior que tudo foi a vertigem de uma horrível voluptuosidade que do afogamento da vergonha e da repugnância num rápido instante emergiu e prevaleceu. Tapou a cara com as mãos e disse numa voz rouca, Esta é a palavra do Senhor Se um homem se ajuntar com um animal, será punido com a morte, e matareis o animal, e também disse Maldito o que peca com um animal qualquer, Disse isso tudo o teu Senhor, Sim, e eu digo-te que te afastes de mim, abominação, criatura que não és de Deus, mas do Diabo. Pastor ouviu e não se moveu, como se estivesse a dar tempo a que as iradas palavras de Jesus produzissem todo o seu efeito, fosse ele qual fosse, assombração de raio, corrosão de lepra, morte súbita do corpo e da alma. Nada aconteceu. Um vento veio correndo entre as pedras, levantou uma nuvem de poeira que atravessou o deserto, e depois nada, o silêncio, o universo calado contemplando os homens e os animais, à espera, talvez, ele próprio, de saber que sentido lhe atribuem, ou encontram, ou reconhecem, uns e outros, e nessa espera se consumindo, já rodeado de cinzas o fogo primordial, enquanto a resposta se busca e tarda. De súbito, Pastor levantou os braços e clamou, em estentórea voz, virado para o rebanho, Ouvide, ouvide, ovelhas que aí estais, ouvide o que nos vem ensinar este sábio rapaz, que não é lícito fornicar-vos, Deus não o permite, podeis estar tranquilas, mas tosquiar-vos, sim, maltratar-vos, sim, matar-vos, sim, e comer-vos, pois para isso vos criou a sua lei e vos mantém a sua providência.
Depois deu três longos assobios, agitou por sobre a cabeça o cajado, Andai, andai, gritou, e o rebanho pôs-se em movimento, na direcção por onde tinha desaparecido a coluna de poeira. Jesus ficou ali, parado, a olhar, até quase se perder na distância a alta figura de Pastor e se confundirem com a cor da terra os dorsos resignados dos animais. Não vou com ele, dissera, mas foi. Acomodou o alforge ao ombro, ajustou as correias das sandálias que tinham sido do pai e seguiu de longe o rebanho. Juntou-se a ele quando a noite caiu, apareceu da escuridão para a luz da fogueira, e disse, Aqui estou. Atrás de tempo, tempo vem, é sentença conhecida e de muita aplicação, porém não tão óbvia quanto pode parecer a quem se satisfaça com o significado próximo das palavras, quer soltas, uma por uma, quer juntas e articuladas, pois tudo vai é da maneira de dizer, e esta varia com o sentimento de quem as expresse, não é o mesmo pronunciá-las alguém que, correndo-lhe mal a vida, espere dias melhores, ou atirá-las como ameaça, como prometida vingança que o futuro haverá de cumprir. O caso mais extremo seria o de uma pessoa que, sem fortes e objectivas razões de queixa quanto à sua saúde e bem-estar, suspirasse melancolicamente, Atrás de tempo, tempo vem, só por ser de natureza pessimista e atreita a prever o pior. Não seria de todo crível que Jesus, na sua idade, andasse com estas palavras na boca, qualquer que fosse o sentido em que as usasse, mas nós, sim, que, como Deus, tudo sabemos do tempo que foi, é e há-de ser, nós podemos pronunciá-las, murmurá-las ou suspirá-las enquanto o vamos vendo entregue à sua faina de pastor, por essas montanhas de Judá, ou descendo, no tempo próprio, ao vale do Jordão. E não tanto por de Jesus se tratar, mas porque todo o ser humano tem por diante, em cada momento da sua vida, coisas boas e coisas más, atrás de umas, outras, atrás de tempo, tempo. Sendo Jesus o evidente herói deste evangelho, que nunca teve o propósito desconsiderado de contrariar o que escreveram outros e portanto não ousará dizer que não aconteceu o que aconteceu, pondo no lugar de um Sim um Não, sendo Jesus esse herói e conhecidas as suas façanhas, ser-nos-ia muito fácil chegar ao pé dele e anunciar-lhe o futuro, o bom e maravilhoso que será a sua vida, milagres que darão de comer, outros que restituirão a saúde, um que vencerá a morte, mas não seria sensato fazê-lo, porque o moço, ainda que dotado para a religião e entendido em patriarcas e profetas, goza do robusto cepticismo próprio da sua idade e mandar-nos-ia passear.
Mudará de ideias, claro está, quando se encontrar com Deus, mas esse decisivo acontecimento não é para amanhã, daqui até lá ainda Jesus vai ter de subir e descer muito monte, mungir muita cabra e muita ovelha, ajudar a fabricar o queijo, ir à troca de produtos às aldeias. Também matará animais doentes ou estropiados, e chorará por eles. Mas o que nunca lhe irá acontecer, sosseguem os espíritos 81
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
sensíveis, é cair na horrível tentação de usar, como lhe propôs o malicioso e pervertido Pastor, uma cabra ou uma ovelha, ou as duas, para descarga e satisfação do sujo corpo com que a límpida alma tem de viver. Esqueçamo-nos, por não ser aqui lugar de análises íntimas, só possíveis em tempos a este futuros, de que, quantas e quantas vezes, para poder exibir e gabar-se de um corpo limpo, a alma a si mesma se carregou de tristeza, inveja e imundície. Pastor e Jesus, passados aqueles enfrentamentos éticos e teológicos dos primeiros dias, contudo ainda por algum tempo recidivantes, levaram sempre, enquanto juntos, uma boa vida, o homem ensinando sem impaciências de mais velho as artes da pastorícia, o rapaz aprendendo-as como se a sua vida fosse depender maximamente delas.
Jesus aprendeu a lançar o cajado, rodopiando e zumbindo pelo ar até ir cair nos lombos dumas ovelhas que, por distracção ou atrevimento, se afastavam do rebanho, mas essa foi uma dorida aprendizagem, porque um dia, não estando ainda seguro da técnica, atirou o pau demasiado por baixo, com o trágico resultado de, na trajectória, apanhar em cheio o tenro pescocinho de um cabrito de poucos dias, que no mesmo instante ali morreu. Acidentes destes podem ocorrer a qualquer pessoa, até um pastor veterano e diplomado não está livre de lhe acontecer um azar, mas o pobre Jesus, que já tantas dores transporta consigo, parecia uma estátua da amargura quando levantou do chão, ainda quente, o cabritinho. Não havia nada a fazer, a própria cabra mãe, depois de farejar por um momento o filho, afastou-se e continuou a pastar, rapando a erva rasa e dura, que repuxava com secos movimentos da cabeça, aqui devemos citar o conhecido refrão, Cabra que berra, bocada que erra, que é outra maneira de dizer o mesmo, Chorar e comer não faz bom viver. Pastor veio ver o que sucedera, O mal é dele, que morreu, tu não fiques triste, Matei-o, lamentou-se Jesus, e era tão pequeno, Sim, se fosse um bode feio e fedorento não terias pena, ou não terias tanta, põe-no no chão, que eu trato dele, e tu vai-te além, está lá uma ovelha em jeito de parir, Que vais fazer, Esfolá-lo, que é que julgas, vida não posso dar-lha, não sou competente em obras milagrosas, Faço jura de não comer dessa carne, Comer o animal que matámos é a única maneira de respeitá-lo, mau é comerem uns o que outros tiveram de matar, Não o comerei, Pois não comas, mais fica para mim, Pastor tirou a faca da cinta, olhou Jesus e disse, Mais tarde ou mais cedo, também isto terás de aprender, ver como são feitos por dentro aqueles que foram criados para nos servir e alimentar. Jesus virou a cara para o lado e deu um passo para retirar-se, mas Pastor, que detivera o movimento da faca, ainda disse, Os escravos vivem para servir-nos, talvez devêssemos abri-los para sabermos se levam escravos dentro, e depois abrir um rei para ver se tem outro rei na barriga, e olha que se encontrássemos o Diabo e ele deixasse que o abríssemos, talvez tivéssemos a surpresa de ver saltar Deus lá de dentro. Falámos, antes, de recidivas dos choques de ideias e convicções entre Jesus e Pastor, e este é um exemplo. Mas Jesus, com o tempo, aprendera que a melhor resposta seria calar, não se dar por achado perante as provocações, mesmo brutais, como esta, e ainda assim vai com sorte, podia ter sido bem pior, imagine-se o escândalo se Pastor se lembrava de abrir Deus para ver se o Diabo lá estava dentro. Jesus foi à procura da ovelha que estava a parir, ao menos ali não o esperavam surpresas, apareceria um cordeiro igual a todos, verdadeiramente à imagem e semelhança da mãe, por sua vez retrato fiel das suas irmãs, há seres assim, não levam dentro de si senão isso, a certeza de uma pacífica e não interrogativa continuidade. A ovelha já parira, no chão o anho parecia feito só de pernas, e a mãe tentava ajudá-lo a erguer-se dando-lhe leves empurrões com o focinho, mas o pobre, estonteado, apenas sabia fazer movimentos bruscos com a cabeça como se procurasse o melhor ângulo de visão para entender o mundo em que nascera. Jesus ajudou-o a firmar-se nas patas, ficaram-lhe as mãos húmidas dos humores da matriz da ovelha, mas ele não se importou nada, é o que faz viver no campo com animais, cuspo e baba é tudo o mesmo, este cordeiro vem em boa altura, tão bonito, com o pêlo frisado, já a sua boca rósea e frenética buscava o leite onde o havia, naquelas tetas que ele nunca vira antes, com as quais não podia ter sonhado no útero da mãe, em verdade nenhuma criatura pode queixar-se de Deus, se logo ao nascer já vem a saber tantas coisas úteis. Lá adiante Pastor levantava a pele do cabrito esticada numa armação de paus em forma de estrela, o corpo esfolado, agora dentro do alforge, embrulhado num pano, será salgado quando o rebanho parar para passar a noite, menos a parte de que Pastor entender fazer a sua ceia, que Jesus já disse que não comerá duma carne a que, sem querer, tirou a vida. Para a religião que cultiva e os costumes a que obedece, estes escrúpulos de Jesus são subversivos, haja vista a matança desses outros inocentes todos os dias sacrificados nos altares do Senhor, maiormente em Jerusalém, onde as vítimas se contam por hecatombes. No fundo, 82
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
talvez que o caso de Jesus, à primeira vista incompreensível nas circunstâncias de tempo e de lugar, seja apenas uma questão de sensibilidade, por assim dizer, em carne viva, recordemos quão próxima está ainda a trágica morte de José, quão próximas as revelações insuportáveis do que aconteceu em Belém vai fazer quinze anos, caso para admirar é que este rapaz mantenha o seu juízo inteiro, que não tenha sido tocado nas polias e roldanas do miolo, apesar daqueles sonhos que não o largam, ultimamente não temos falado deles, mas continuam. Quando o sofrimento passa a mais, indo ao ponto de transmitir-se ao próprio rebanho que acorda, noite alta, julgando que o vêm matar, Pastor acorda-o suavemente, Que é isso, que é isso, diz, e Jesus sai do pesadelo para os braços dele, como se do seu desgraçado pai se tratasse. Um dia, logo ao princípio, Jesus contou a Pastor o que sonhava, tentando, porém, disfarçar as raízes e as causas da sua nocturna e quotidiana agonia, mas Pastor disse, Deixa, não vale a pena contares-mo, sei tudo, até aquilo que estás a tentar esconder-me. Foi isto naqueles dias em que Jesus recriminava Pastor pela sua falta de fé e pelos defeitos e maldades que se deduziam e reconheciam no seu comportamento, incluindo, perdoe-se-nos que voltemos ao assunto, o sexual. Mas Jesus, vendo bem, não tinha ninguém no mundo, se exceptuarmos a família, de que se afastou e de que quase anda esquecido, salvo a mãe, que sempre é a mãe, aquela que nos deu o ser, e a quem algumas vezes na vida apeteceu dizer, Antes não tivesses dado, além da mãe, só a irmã Lísia, não se sabe porquê, a memória tem destas coisas, razões suas próprias para lembrar-se e esquecer-se.
Sendo estas coisas o que são, Jesus acabou por sentir-se bem na companhia de Pastor, imaginemo-lo por nós, a consolação que será não vivermos sozinhos com a nossa culpa, ter ao lado alguém que a conhecesse e que, não tendo de fingir perdoar o que perdão não possa ter, supondo que estaria em seu poder fazê-lo, procedesse connosco com rectidão, usando de bondade e de severidade segundo a justiça de que seja merecedora aquela parte de nós que, cercada de culpas, conservou uma inocência.
Isto nos ocorreu explicar agora, aproveitando o a-propósito, para que com mais facilidade se pudessem entender as razões, e recebê-las por boas, por que Jesus, em tudo tão diferente e contrário ao seu rude hospedeiro, virá afinal a ficar com ele até ao anunciado encontro com Deus, de que tanto há a esperar, pois Deus não iria aparecer a um simples mortal sem ter para isso fortes razões. Antes, porém, vão querer as circunstâncias, os acasos e as coincidências de que tanto se tem falado, que Jesus encontre sua mãe e alguns dos seus irmãos em Jerusalém, por ocasião desta primeira Páscoa que ele julgava ir viver longe da família. Que Jesus quisesse celebrar a Páscoa em Jerusalém, poderia ter sido, para o pastor, causa de estranheza e motivo de liminar recusa, estando eles no deserto e precisando o rebanho de tanta cópia de assistência e cuidados, sem contar, claro está, que não sendo Pastor judeu nem tendo outro deus para honrar, podia, que mais não fosse por antipática embirração, dizer, Pois não vai, não senhor, aqui é que é o seu lugar, patrão sou eu e não vou de férias. Ora, há que reconhecer que não foi assim, Pastor apenas perguntou, Voltas, se bem que, pelo tom de voz, parecia estar seguro de que Jesus voltaria, e foi o que o rapaz respondeu, sem hesitação, mas surpreendido, ele sim, por lhe ter saído tão pronta a palavra, Volto, Escolhe então aí um cordeiro limpo e são e leva-o para o sacrifício, já que vocês são dados a esses usos e costumes, mas isto disse-o Pastor a experimentar, queria ver se Jesus era capaz de conduzir à morte um cordeiro daquele rebanho que tanto trabalho lhes dava a guardar e defender. A Jesus ninguém o avisou, não se lhe chegou de mansinho um anjo, dos outros pequenos e quase invisíveis, a sussurrar-lhe ao ouvido, Cuidado, olha que é uma armadilha, não te fies, esse sujeito é capaz de tudo. A sua simples sensibilidade é que lhe encontrou a boa resposta, ou teria sido, quem sabe, a lembrança do cabrito morto e do anho nascido, Não quero cordeiro deste rebanho, disse, Porquê, Não levaria à morte o que ajudei a criar, A mim parece-me isso muito bem, mas já pensaste, creio, que em outro rebanho o haverás de buscar, Não posso evitá-lo, os cordeiros não descem do céu, Quando queres partir, Amanhã cedo, E voltas, Volto.
Sobre este assunto não disseram mais palavra, apesar de nos ficarem dúvidas de como irá Jesus, que não é rico e trabalha pela comida, comprar o cordeiro pascal. Estando ele tão livre de tentações que custem dinheiro, é de presumir que ainda traga consigo aquelas poucas moedas que o fariseu lhe deu há quase um ano, mas esse pouco é pouco mesmo, sabido, como foi dito já, que nesta época do ano os preços do gado em geral, e especialmente dos cordeiros, disparam para alturas tão especulativas que é, verdadeiramente, um Deus nos acuda. Apesar do que de mau lhe tem sucedido, apeteceria dizer que a este rapaz uma boa estrela o cuida e defende, se não fosse suspeitosíssima debilidade, sobretudo em boca de evangelista, este ou outro qualquer, acreditar que corpos celestes tão afastados do nosso 83
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
planeta possam produzir efeitos decisivos na existência de um ser humano, por muito que a esses astros tenham invocado, estudado e relacionado os solenes magos que, se é verdade o que se diz, teriam andado por estes páramos aqui há uns anos, sem mais consequência que ver o que viram e ir à vida. O que este discurso longo e trabalhoso pretende afinal dizer é que o nosso Jesus há-de encontrar, de certeza, maneira de apresentar-se dignamente no Templo com o seu borreguito, cumprindo o que se espera do bom judeu que tem provado ser, em tão difíceis condições como foram os valentes enfrentamentos que sustentou com Pastor. Por este tempo gozava o rebanho dos abundantes pastos do vale de Ayalon, que está entre as cidades de Gezer e Emaús. Em Emaús tentou Jesus ganhar algum dinheiro com que pudesse comprar o cordeiro de que precisava, mas rapidamente chegou à conclusão de que um ano de pastor o especializara de tal maneira que o tornara inapto para outros ofícios, incluindo o de carpinteiro, em que, aliás, não chegara a progredir coisa que se visse, por falta de tempo. Meteu-se por isso ao caminho que sobe de Emaús para Jerusalém, deitando contas à sua difícil vida, comprar já sabemos que não pode, roubar já sabíamos que não quer, e mais milagre seria do que sorte achar ele um cordeiro que na estrada de Emaús se tivesse perdido. Não faltam aqui os inocentes, vão com uma corda ao pescoço atrás das famílias, ou ao colo se lhes calhou o conforto de um dono piedoso, mas, como meteram nas suas juvenis cabeças que saíram a passeio, vão excitados, nervosos, querem saber tudo, e, porque não podem fazer perguntas, usam os olhos, como se eles bastassem para entender um mundo feito de palavras. Jesus sentou-se numa pedra, à beira do caminho, a pensar na maneira de resolver o problema material que o está impedindo de cumprir um dever espiritual, vã esperança, por exemplo, seria aparecer-lhe aí outro fariseu, ou o mesmo, se de tais actos faz prática quotidiana, a perguntar, ele sim, com palavras, Precisas de um cordeiro, como antes lhe tinha perguntado, Tens fome. Da primeira vez, Jesus não precisou esmolar para que lhe fosse dado, agora, sem a certeza de que lhe darão, vai ser obrigado a pedir. Já tem a mão estendida, postura que de tão eloquente dispensa explicações, e tão forte em expressão que o mais comum é desviarmos dela os olhos como os desviamos duma chaga ou duma obscenidade. Algumas moedas foram deixadas cair por viandantes menos distraídos na concha da mão de Jesus, mas tão poucas que não vai ser por este andar que o caminho de Emaús chegará às portas de Jerusalém. Somados o dinheiro que já tinha e o que lhe deram, não dá nem para metade de um cordeiro, e é por de mais sabido que o Senhor não aceita nos seus altares nada que não esteja perfeito e completo, por isso é que rejeita o animal cego, aleijado ou mutilado, sarnento ou com verrugas, imagine-se o escândalo no Templo se nos apresentássemos ao sacrifício com os quartos traseiros de um animal, e ainda assim sob condição de que os testículos dele não estivessem pisados, esmagados, quebrantados ou cortados, caso em que a exclusão estaria igualmente certa. Ninguém se lembra de perguntar a este rapaz para que quer ele o dinheiro, isto se começou a escrever no exacto instante em que um homem de muita idade, com uma comprida barba branca, se aproximava de Jesus, deixando a sua numerosa família, que, por deferência para com o patriarca, parou no meio da estrada, à espera. Pensou Jesus que vinha ali outra moeda, mas enganou-se. O velho perguntou-lhe, Quem és tu, e o rapaz levantou-se para responder, Sou Jesus de Nazaré, Não tens família, Tenho, Por que não estás então com ela, Vim trabalhar de pastor para a Judeia, e esta foi uma maneira mentirosa de dizer a verdade ou de pôr a verdade a servir a mentira. O
velho olhou-o com uma expressão de curiosidade insatisfeita e perguntou, enfim, Por que pedes tu esmola, se tens um ofício, Trabalho pela comida, e não tenho dinheiro que chegue para comprar o cordeiro da Páscoa, Por isso pedes, Sim. O velho fez sinal a um dos homens do grupo, Dá um cordeiro a este rapaz, compramos outro em chegando ao Templo. Os anhos eram seis, atados a uma mesma corda, o homem soltou o último e foi levá-lo ao velho, que disse, Aqui tens o teu cordeiro, assim não achará o Senhor falta nos sacrifícios desta Páscoa, e sem esperar pelos agradecimentos foi juntar-se à família que o recebeu sorridente e com aplauso. Jesus deu-lhes as graças quando já não podiam ouvi-las, e não se sabe como nem porquê a estrada ficou deserta nesse instante, entre uma curva e outra curva não havia mais que estes dois, o rapaz e o cordeiro, encontrados finalmente no caminho de Emaús por obra da bondade de um judeu velho. Jesus segura a ponta do baraço que prendera o anho à corda, o animal olhou o seu novo dono e baliu, fez mé-é-é-é naquele jeito tímido e trémulo dos cordeiros que vão morrer jovens por os amarem tanto os deuses. Este som, quantas mil vezes ouvido durante a sua novel actividade de pastor, tocou o coração de Jesus em ponto de sentir que se lhe dissolviam de pena os membros, ali estava, como nunca antes desta maneira absoluta, 84
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
senhor da vida e da morte de outro ser, este cordeiro branco, imaculado, sem vontade nem desejos, que levantava para ele um focinho interrogativo e confiante, via-se-lhe a língua rósea quando balia, e era róseo, por baixo da penugem, o interior das orelhas, e róseas ainda as unhas, que nunca hão-de vir a endurecer e a mudar para cascos um nome por enquanto comum aos homens. Jesus acariciou a cabeça do cordeiro, que correspondeu levantando-a e roçando-lhe a palma da mão com o nariz húmido, fazendo-o estremecer. O encantamento desfez-se como principiara, ao fundo da estrada, do lado de Emaús, apareciam já outros peregrinos num tropel esvoaçante de túnicas, alforges e bordões, com outros cordeiros e outros louvores ao Senhor. Jesus pegou no seu anho ao colo, como uma criança, e começou a caminhar. Não voltara a Jerusalém desde aquele distante dia em que aqui o trouxera a necessidade de saber quanto valem culpas e remorsos, e como se hão-de eles suportar na vida, se partilhados, como os bens da herança, ou por inteiro guardados, como cada um a sua própria morte. A multidão nas ruas parecia um rio de lama pardacenta que ia desaguar na grande esplanada fronteira à escadaria do Templo. Com o cordeiro nos braços, Jesus assistia ao desfilar da gente, uns que iam, outros que vinham, aqueles levando os animais ao sacrifício, estes já sem eles, de rosto alegre, gritando Aleluia, Hosana, Ámen, ou não o dizendo por não ser o próprio da ocasião, como próprio também não seria sair-se alguém a exclamar Evoé ou berrando Hip hip hurrah, ainda que, no fundo, as diferenças entre estas expressões não sejam tão grandes quanto parecem, empregamo-las como se fossem quintessências do sublime, e depois, com a continuação do tempo e do uso, ao repeti-las, perguntamo-nos, Para que serve isto, afinal, e já não sabemos responder. Por cima do Templo, a alta coluna de fumo, enovelada, contínua, mostrava a toda a terra em redor que quantos ali tinham ido a sacrificar eram directos e legítimos descendentes de Abel, aquele filho de Adão e Eva que ao Senhor, naquele tempo, oferecera primogénitos do seu rebanho e as gorduras deles, favoravelmente recebidos, enquanto seu irmão Caim, não tendo para apresentar mais do que simples frutos da terra, viu que o Senhor, sem que se soubesse até hoje porquê, deles desviou os olhos e para ele não olhou.
Se esta foi a causa de matar Caim a Abel, hoje podemos viver descansados, que não se matarão estes homens uns aos outros, pois todos sacrificam, por igual, o mesmo, é ver como as gorduras crepitam, como as carnes rechinam, Deus, nas empíreas alturas, respira, comprazido, os odores da carnagem.
Jesus apertou o cordeiro contra o peito, não compreende por que não aceita Deus que no seu altar se derrame uma concha de leite, sumo da existência que passa de um ser a outro ser, ou nele se espalhe, com um gesto de semeador, um punhado de trigo, matéria entre todas substantiva do pão imortal. O
seu cordeiro, que ainda há pouco foi oferta admirável de um velho a um rapaz, não verá pôr-se o sol deste dia, é tempo de subir a escada do Templo, tempo de levá-lo ao cutelo e ao fogo, como se não fosse merecedor de viver ou tivesse cometido, contra o eterno guardião dos pastos e das fábulas, o crime de beber do rio da vida. Então Jesus, como se uma luz houvesse nascido dentro dele, decidiu, contra o respeito e a obediência, contra a lei da sinagoga e a palavra de Deus, que este cordeiro não morrerá, que o que lhe tinha sido dado para morrer continuará vivo, e que, tendo vindo a Jerusalém para sacrificar, de Jerusalém partirá mais pecador do que quando cá entrou, já não lhe bastavam as faltas antigas, agora caiu em mais esta, o dia chegará, porque Deus não esquece, em que terá de pagar por todas elas. Durante um momento, o temor do castigo fê-lo hesitar, mas a mente, numa rapidíssima imagem, representou-lhe a visão aterradora de um mar de sangue infinito, o sangue dos inumeráveis cordeiros e outros animais sacrificados desde a criação do homem, que para isso mesmo é que a humanidade foi posta neste mundo, para adorar e sacrificar. A tal ponto o perturbaram estas imaginações que lhe pareceu ver a escadaria do Templo alagada de vermelho, escorrendo em toalhas de degrau em degrau, e ele próprio ali, com os pés no sangue, levantando ao céu, degolado, morto, o seu cordeiro. Abstraído, Jesus era como se estivesse no interior duma bolha de silêncio, mas de repente a bolha estalou, rompeu-se em pedaços, e ele achou-se outra vez mergulhado no meio da algazarra das palavras, das bênçãos, dos apelos, dos gritos, dos cânticos, das vozes patéticas dos cordeiros, e, num instante que fez calar tudo isto, o mugido profundo, três vezes repetido, do chofar, o longo e espiralado chifre do carneiro, feito trombeta. Envolvendo o anho no alforge, como para o defender duma ameaça agora iminente, Jesus correu para fora da esplanada, perdeu-se nas ruas mais estreitas, sem se preocupar com a direcção em que ia. Quando deu por si, estava no campo, saíra da cidade pela porta do norte, a de Ramalá, a mesma por onde entrara quando viera de Nazaré. Sentou-se debaixo duma oliveira, à beira da estrada, e retirou o cordeiro do alforge, ninguém se estranharia de o 85
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
ver ali, pensariam, Está a descansar da caminhada, a ganhar forças para ir ao Templo levar o cordeiro, bonito é ele, não saberemos, nós, se, na ideia de quem o pensou, o bonito é o anho, ou é Jesus. Temos cá a nossa opinião, que os dois o são, mas, se tivéssemos de votar, assim à primeira vista, daríamos a maçã ao cordeiro, porém com uma condição, não crescer. Jesus está deitado de costas, segura a ponta do baraço para que o cordeiro não fuja, mas nem seria precisa a precaução, que as forças do pobrezinho estão por um fio, não é só a pouca idade, é também a agitação, esta correria, este contínuo levar e trazer, sem falar do pouco alimento que lhe foi deixado hoje pela manhã, que não convém nem é decente ir-se alguém, borrego seja ou mártir, a morrer de barriga cheia. Deitado está pois Jesus, aos poucos calmou-se-lhe a respiração, e olha o céu por entre as ramagens da oliveira que o vento move suavemente, fazendo dançar sobre os seus olhos os raios de sol que passam pelos interstícios das folhas, deve ser mais ou menos a hora sexta, a luz zenital reduz as sombras, ninguém diria que a noite virá apagar, com o seu lento sopro, este deslumbramento de agora. Jesus já descansou, agora fala ao cordeiro, Vou-te levar para o rebanho, diz, e começa a levantar-se. Na estrada passam algumas pessoas, outras vêm atrás, e quando Jesus põe os olhos nestas leva um sobressalto, o seu primeiro movimento é para fugir, mas claro que não o fará, como se atreveria, se quem ali vem é sua mãe com alguns dos seus irmãos, os mais velhos, Tiago, José e Judas, também vem Lísia, mas essa é mulher, leva menção à parte, não a que lhe caberia naturalmente se seguíssemos a ordem dos nascimentos, entre Tiago e José. Ainda não o viram. Jesus desce à estrada, tem outra vez o cordeiro ao colo, mas agora suspeita-se que o faz para ter os braços ocupados. O primeiro que dá por ele é Tiago, levanta um braço, depois fala precipitadamente para a mãe, e Maria olha, agora apressam todos o passo, por isso Jesus sente-se obrigado a fazer também a sua parte de caminho, porém, tendo o cordeiro ao colo, não pode correr, tanto tempo isto leva a explicar que parece que não queremos que estes se encontrem, mas não é isso, o amor maternal, fraternal e filial dar-lhes-ia asas, mas há reservas, certos constrangimentos, sabemos como se separaram, não sabemos que efeitos causaram tantos meses de afastamento e falta de notícias. Andando, sempre se acaba por chegar, aí estão eles, frente a frente, Jesus diz, A tua bênção, mãe, e a mãe diz, O Senhor te abençoe, meu filho. Abraçaram-se, depois foi a vez dos irmãos, Lísia veio no fim, posto o que, bem o tínhamos previsto, ninguém soube o que havia de dizer, Maria não ia perguntar ao filho, Que surpresa, por aqui, nem ele à mãe, Estava longe de te encontrar, por que vieste à cidade, o cordeiro de um e o cordeiro dos outros, que o traziam, falavam por si, é a Páscoa do Senhor, a diferença é que um vai morrer e o outro já se salvou. Nunca mais deste notícia de ti, disse Maria enfim, e neste momento soltaram-se-lhe as fontes dos olhos, era o seu primogénito que ali estava, tão alto, a cara já de homem, com uns começos de barba, e a pele escura de quem leva a vida debaixo do sol, de frente para o vento e a poeira do deserto. Não chores, mãe, tenho o meu trabalho, sou pastor, Pastor, Sim, Cuidava eu que terias seguido o ofício que teu pai te ensinou, Calhou ser pastor, é o que sou, Quando voltas para casa, Ah, isso não sei, um dia, Ao menos, vem com a tua mãe e os teus irmãos, vamos juntos ao Templo, Não vou ao Templo, mãe, Porquê, ainda tens aí o teu cordeiro, Este cordeiro não vai ao Templo, Tem defeito, Nenhum defeito, este cordeiro só morrerá quando chegar a sua hora natural, Não te compreendo, Não precisas compreender, se salvo este cordeiro é para que alguém me salve a mim, Então, não vens com a tua família, Já ia de partida, Para onde vais, Vou para onde pertenço, para o rebanho, E onde anda ele, Agora está no vale de Ayalon, Onde fica esse vale de Ayalon, Do outro lado, Do outro lado de quê, De Belém. Maria recuou um passo, tornou-se pálida, podia-se ver como envelhecera, apesar de ter apenas trinta anos, Por que falas de Belém, perguntou, Porque foi lá que encontrei o pastor que me governa, Quem é ele, e antes que o filho tivesse tempo de responder disse para os outros, Sigam, esperem por mim na porta, depois agarrou Jesus pela mão, puxou-o para a beira da estrada, Quem é ele, repetiu, Não sei, respondeu Jesus, Tem nome, Se o tem, não mo disse, chamo-lhe Pastor, nada mais, Como é, Grande, Onde estavas quando o encontraste, Na cova onde nasci, Quem te lá levou, Uma escrava chamada Zelomi que esteve no meu nascimento, E ele, Ele, quê, Que te disse, Nada que tu não saibas. Maria deixou-se cair no chão como se uma mão poderosa a tivesse empurrado, Esse homem é um demónio, Como sabes, disse-to ele, Não, a primeira vez que o vi disse-me que era um anjo, mas que o não dissesse eu a ninguém, Quando foi que o viste, No dia em que teu pai soube que eu estava grávida de ti, apareceu-nos à porta como um mendigo e disse que era um anjo, Viste-o outras vezes, Na estrada, quando fomos, teu pai e eu, a Belém, para o recenseamento, na cova onde 86
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
nasceste, e na noite depois do dia em que te foste de casa, entrou no pátio, eu pensei que fosses tu, mas era ele, vi-o pela frincha da porta arrancar a árvore que estava ao lado da entrada, lembras-te, a árvore que tinha nascido no sítio onde se enterrou a tigela com a terra que brilhava, Que tigela, que terra, Nunca soubeste, foi o que o mendigo me deu antes de se ir embora, uma terra que brilhava dentro da tigela onde tinha comido o que lhe dei, Para da terra ter feito luz, seria realmente um anjo, Ao princípio acreditei que o fosse, mas o diabo também tem as suas artes. Jesus tinha-se sentado ao lado da mãe e deixara o cordeiro à vontade, Sim, já compreendi que, quando um e outro estão de acordo, não se pode distinguir um anjo do Senhor de um anjo de Satã, disse, Fica connosco, não voltes para esse homem, pede-to a tua mãe, Prometi que voltaria, cumprirei a minha palavra, Promessas ao diabo, só se for para enganá-lo, Este homem, que não é homem, bem o sei, este anjo ou este demónio acompanha-me desde que nasci e eu quero saber porquê, Jesus, meu filho, vem ao Templo com a tua mãe e com os teus irmãos, leva esse cordeiro ao altar como é teu dever e destino dele, e pede ao Senhor que te livre de possessões e maus pensamentos, Este cordeiro morrerá no seu dia, Este é o seu dia de morrer, Mãe, os cordeiros que de ti nasceram terão de morrer, mas tu não hás-de querer que morram antes do seu tempo, Cordeiros não são homens, muito menos se esses homens são filhos, Quando o Senhor mandou a Abraão que matasse seu filho Isaac, não se percebia então a diferença, Sou uma simples mulher, não te sei responder, só te peço que abandones esses maus pensamentos, Ó minha mãe, os pensamentos são o que são, sombras que passam, e não são bons nem maus em si mesmos, só as acções é que contam, Louvado seja o Senhor que me deu um filho sábio, a mim que sou uma pobre ignorante, mas sempre te digo que essa não é ciência de Deus, Também se aprende com o Diabo, E tu estás em poder dele, Se foi pelo poder dele que este cordeiro teve a sua vida salva, alguma coisa se ganhou hoje no mundo. Maria não respondeu. Vindo da porta da cidade, Tiago aproximava-se. Então Maria levantou-se, Encontrei o meu filho e tornei a perdê-lo, disse, e Jesus respondeu, Se não o tinhas perdido já, não foi agora que o perdeste. Meteu a mão no alforge, tirou o dinheiro que juntara, de esmolas todo, É quanto tenho, Tantos meses para tão pouco, Trabalho pela comida, Muito deves tu querer a esse homem que te governa, para que com tão pouco te contentes, O Senhor é o meu pastor, Não ofendas a Deus, tu que vives com um demónio, Quem sabe, minha mãe, quem sabe, pode ser que ele seja um anjo servidor doutro deus e morando noutro céu, O
Senhor disse Eu sou o Senhor, não terás outro deus além de mim, Ámen, rematou Jesus. Tomou o anho nos braços e disse, Já aí vem Tiago, adeus, minha mãe, e Maria disse, Parece até que tens mais amor a esse cordeiro que à tua família, Neste momento, sim, respondeu Jesus. Sufocada de dor e indignação, Maria deixou-o e correu ao encontro do outro filho. Não se voltou nunca para trás. Pelo lado de fora das muralhas, agora por outro caminho, atravessando os campos, Jesus começou a longa descida para o vale de Ayalon. Parou numa aldeia, comprou, com o dinheiro que a mãe não tinha querido aceitar, algum alimento, pão e figos, leite para si e para o cordeiro, era leite de ovelha, diferenças, se as havia, não se notavam, ao menos neste caso é possível aceitar que uma mãe valha a outra. A quem estranhasse vê-lo por ali àquela hora, gastando dinheiro com um cordeiro que já devia estar morto, poderíamos responder que este rapaz, antes, fora dono de dois cordeiros, que um deles foi sacrificado e está na glória do Senhor, e que a este o rejeitou o mesmo Senhor por sofrer de defeito, uma orelha rasgada, Veja, Mas a orelha está inteira, disseram, Pois se está, eu mesmo a rasgo, diria Jesus, e, pondo o cordeiro sobre os ombros, seguiu o seu caminho. Avistou o rebanho quando já a última luz da tarde declinava, mais depressa ainda porque o céu se ensombrecera de escuras nuvens baixas. Respirava-se na atmosfera a tensão que prenuncia as trovoadas, e, para confirmá-lo, o primeiro relâmpago rasgou os ares no momento preciso em que o rebanho apareceu aos olhos de Jesus. Não choveu, era uma daquelas trovoadas que denominamos secas, que assustam mais do que as outras, porque perante elas nos sentimos realmente sem defesa, sem a cortina, para lhe chamarmos assim, e que nunca imaginaríamos protectora, da chuva e do vento, em verdade esta batalha é um enfrentamento directo, entre um céu que se rasga e atroa e uma terra que estremece e se crispa, impotente para responder aos golpes. A cem passos de Jesus, uma luz deslumbrante, insuportável, fendeu de alto a baixo uma oliveira, que acto contínuo pegou fogo, ardendo com força, tal um archote de nafta. O choque e o estrondo do trovão, como se o céu se tivesse rasgado, de uma vez, entre horizonte e horizonte, atiraram Jesus ao chão, sem conhecimento. Outros dois raios caíram, um aqui, outro além, como duas decisivas palavras, e depois, aos poucos, os trovões começaram a ouvir-se 87
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
mais distantes, até se perderem num murmúrio amável, uma conversa de amigos entre o céu e a terra.
O cordeiro, que saíra ileso da queda, aproximou-se, passado o susto, e veio tocar com a boca a boca de Jesus, não fungou, não farejou, foi apenas um toque, e foi, quem somos nós para duvidar, o suficiente. Jesus abriu os olhos, viu o cordeiro, depois o céu escuríssimo, como uma mão negra que sufocasse o que restava do dia. A oliveira ardia ainda. Ao mover-se, Jesus sentiu dores, mas percebeu que era senhor do seu corpo, se tal se pode dizer do que, com tanta facilidade, pode ser destruído e lançado por terra. Dificilmente, conseguiu sentar-se, e, mais pelo pressentimento do tacto do que pela certificação dos olhos, comprovou que não estava queimado nem tolhido, que não tinha qualquer membro partido, e que, exceptuando uma fortíssima zoeira na cabeça, que parecia, porém, interminável, um ronco de chofar, estava vivo e são. Puxou o cordeiro para si e, indo buscar as palavras aonde não sabia que as tinha, disse, Não tenhas medo, ele só quis mostrar-te que te poderia ter morto, se quisesse, e a mim veio dizer-me que não fui eu quem te salvou a vida, mas ele. Um lento e último trovão alastrou no espaço como um suspiro, lá em baixo a mancha alvacenta do rebanho era um oásis à espera. Lutando ainda contra os membros entorpecidos, Jesus começou a descer a encosta.
O cordeiro, só por cautela preso pelo baraço, trotava ao seu lado como um cãozito. Atrás deles, a oliveira ardia. E foi à luz que ela projectava, mais que à do crepúsculo que se extinguia, que Jesus viu levantar-se na sua frente, como uma aparição, a alta figura de Pastor, envolto naquele manto que parecia não ter fim, segurando o cajado com que poderia, se o levantasse, tocar as nuvens. Disse Pastor, Sabia que a trovoada estava à tua espera, E eu devia sabê-lo, disse Jesus, Que cordeiro é esse, O dinheiro que tinha não chegava para comprar o cordeiro da Páscoa, por isso pus-me à beira da estrada a pedir, mas veio um velho e deu-me este que aqui vês, Por que não o sacrificaste, Não pude, não fui capaz. Pastor sorriu, Percebo melhor agora, esperou por ti, deixou-te vir em paz até ao rebanho para mostrar, à minha vista, a sua força. Jesus não respondeu, tinha dito ao cordeiro mais ou menos o mesmo, mas não queria, ainda mal chegara, alimentar uma conversa mais sobre as razões de Deus e os seus actos. E agora, esse cordeiro, que queres fazer com ele, Nada, trouxe-o para que ficasse com o rebanho, Os cordeiros brancos são todos iguais, amanhã já não o reconhecerás no meio dos outros, Ele conhece-me, Chegará o dia em que começará a esquecer-te, além disso vai-se cansar de ser ele sempre a procurar-te, o remédio seria marcá-lo, dar-lhe um golpe numa orelha, por exemplo, Pobre bichinho, Não sei porquê, tu também estás marcado, cortaram-te o prepúcio para se saber a quem pertences, Não é o mesmo, Não devia ser, mas é. Enquanto falavam, Pastor tinha juntado alguma lenha e agora ocupava-se a acender uma fogueira, petiscando lume. Disse Jesus, Era mais fácil ir buscar ali um ramo à oliveira que está a arder, e Pastor respondeu, Ao fogo do céu há que deixá-lo consumir-se por si mesmo. O tronco da oliveira era agora uma inteira brasa, refulgindo na escuridão, o vento arrancava-lhe faúlhas, pedaços incandescentes da casca, gravetos que voavam ardendo e logo se apagavam. O céu mantinha-se pesado, insolitamente presente. Do que era seu habitual passadio fizeram Pastor e Jesus ceia, o que levou Pastor a comentar, irónico, Este ano não comes o cordeiro pascal. Jesus ouviu e calou, mas no seu íntimo não ficou contente, o seu problema, a partir de agora, iria ser a insolúvel contradição entre comer os cordeiros e não matar os cordeiros.
Então, que lhe fazemos, perguntou Pastor, e continuou, O cordeiro, marca-se, ou não se marca, Não sou capaz, disse Jesus, Dá-mo cá, eu trato disso. Com um movimento rápido e firme da faca, Pastor seccionou a ponta de uma das orelhas, depois, segurando o pequeno pedaço cortado, perguntou, Que queres que lhe faça, enterro-o, deito-o fora, e Jesus, sem pensar, respondeu, Dá-mo, e deixou-o cair no fogo. Como fizeram ao teu prepúcio, disse Pastor. Da orelha do cordeiro gotejava um sangue lento, pálido, que em pouco tempo se estancaria. Das chamas, com o fumo, espalhava-se o cheiro inebriante da tenra carne queimada. Assim, ao cabo do longo dia, depois de tantas horas passadas em demonstrações pueris e presunçosas de um querer contrário, o Senhor recebia, finalmente, o que lhe era devido, quem sabe se graças àquele majestoso e atroador aviso dos trovões e coriscos, que, pela via irresistível das causalidades profundas, teria encontrado o caminho para fazer-se obedecer pelos renitentes pastores. Caiu a última gota de sangue do cordeiro, e a terra logo a bebeu, porque não estaria bem, de tão disputado sacrifício, perder-se o mais precioso. Ora, foi este, precisamente, o animal, já transformado pelo tempo numa vulgaríssima ovelha, apenas distinta das outras em faltar-lhe a ponta duma orelha, que, passados uns três anos, veio a perder-se em umas agrestes paragens ao sul de Jericó, lindando com o deserto. Num tão grande rebanho como este, uma ovelha a mais ou a 88
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
menos parece que tanto faz, mas este gado, se ainda precisamos lembrá-lo, não é como os outros, tão-pouco os pastores têm semelhanças com os que conhecemos de ver ou ouvir dizer, pelo que não se deve estranhar que Pastor, olhando de um cômoro sobranceiro, desse pela falta duma cabeça de gado sem que, para isso, tivesse tido que contá-las todas. Chamou Jesus e disse-lhe, A tua ovelha não está no rebanho, vai procurá-la, e como Jesus, em resposta, não perguntou, E como sabes tu que a ovelha é a minha, não o perguntaremos nós também. O que, sim, agora importa é vermos como, apenas entregue à sua pouca ciência dos lugares e à falível intuição de caminhos onde ninguém os tinha traçado antes, vai Jesus orientar-se neste redondo completo do horizonte. Vindo eles das bandas férteis de Jericó, onde não quiseram demorar-se por mais estimarem a tranquilidade de um contínuo vaguear do que o fácil comércio das gentes, o mais provável seria perder-se a pessoa, ou a ovelha, sobretudo se de caso pensado o tinham feito, em sítios onde a canseira de buscar alimento, por excessiva, não fosse agravante da procurada solidão. Por esta lógica, estava claro que a ovelha de Jesus, de modo dissimulado, como quem não quer a coisa, se tinha deixado ficar para trás, devendo estar agora a retouçar nos verdes da fresca margem do Jordão, à vista de Jericó, por maior segurança.
Porém, a lógica não é tudo na vida, e não é raro que justamente o previsível, que o é por ser o remate mais plausível duma sequência, ou porque, simplesmente, havia sido já anunciado antes, não é raro, dizíamos, que o previsível, levado por razões que só ele conhece, acabe por escolher, para enfim revelar-se, uma conclusão por assim dizer aberrante, quer quanto ao lugar, quer quanto à circunstância. Se este é o caso, então deverá o nosso Jesus procurar a sua extraviada ovelha, não naqueles viçosos prados da retaguarda, mas na árida e requeimada secura do deserto que tem pela frente, de nada servindo aqui a fácil objecção de que a ovelha não teria decidido perder-se para ir morrer de fome e de sede, primeiro, porque ninguém sabe o que se passa realmente no cérebro duma ovelha, segundo, considerando a já referida imprevisibilidade a que o previsível recorre algumas vezes. Ao deserto irá pois Jesus, para lá se encaminha já, sem que Pastor se tenha surpreendido com a resolução, antes, calado, a aprovou, num lento e solene movimento da cabeça que, estranha ideia, podia ser também tomado como um aceno de despedida. Este deserto de aqui não é uma daquelas largas, longas e conhecidas extensões de areia que o mesmo nome usam. Este deserto de aqui é mais um mar de secas e duras colinas arenosas, encavaladas umas nas outras, criando um labirinto inextricável de vales, no fundo dos quais mal sobrevivem umas raras plantas que parecem só feitas de espinhos e cerdas, e a que talvez pudessem atrever-se as sólidas gengivas duma cabra, mas que rasgariam, ao primeiro contacto, os beiços sensíveis duma ovelha. Este deserto de aqui é mais assustador do que os formados apenas de lisas areias ou daquelas dunas instáveis que mudam constantemente de forma e de feitio, neste deserto cada colina oculta e anuncia a ameaça que nos espera na colina seguinte, e, quando a esta chegámos, tremendo, logo sentimos que a ameaça, a mesma, passou para trás das nossas costas. Aqui, o grito que dermos não responderá, pelo eco, à voz que o atirou, o que ouviremos, sim, em resposta, é as próprias colinas gritando, ou o desconhecido, o não sabido, que nelas teima em esconder-se. Eis que, pois, munido somente do seu cajado e do alforge, Jesus entrou no deserto. Poucos passos adiante, mal acabara de cruzar o limiar do mundo, percebeu, subitamente, que as velhas sandálias que haviam sido de seu pai se lhe estavam desfazendo debaixo dos pés. Muito tinham durado, ainda assim, pela virtude remendeira das tombas nelas lançadas assiduamente, às vezes in extremis, mas agora as artes cordoeiras e sapateiras de Jesus já não podiam acudir a sandálias que tantos e tantos caminhos tinham andado e tanto suor amassado em pó.
Como se estivessem obedecendo a uma ordem, esgarçavam-se os últimos fios, soltavam-se, frouxas, as tiras, partiam-se sem remédio os atilhos, em menos tempo do que o que levou a contar ficaram descalços os pés de Jesus, sobre os restos. Lembrou-se o rapaz, chamamos-lhe assim por hábito adquirido, que aos dezoito anos, sendo judeu, mais é homem feito e refeito do que mocinho adolescente, lembrou-se Jesus das suas antigas sandálias, transportadas todo este tempo no alforge como uma relíquia sentimental do passado, e, movido por uma vã esperança, tentou calçá-las. Razão tivera Pastor quando lhe disse, Pés que crescem não voltam a encolher, a Jesus custava-lhe a entender que alguma vez os seus pés tivessem podido caber nestas sandálias minúsculas. Estava descalço frente.ao deserto, como Adão quando o expulsaram do paraíso, e, tal como ele, hesitou antes de dar o primeiro doloroso passo sobre o torturado chão que o chamava. Mas depois, sem ter-se perguntado por que o ia fazer, talvez só porque de Adão se lembrara, deixou cair o alforge e o cajado, e, 89
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
levantando a túnica pela fímbria, fê-la sair por cima da cabeça num só gesto, ficando, como Adão, nu.
Aqui, onde está, já não o vê Pastor, nenhum borrego curioso o seguiu, do ar vêem-no apenas os poucos pássaros que por esta fronteira ainda se atrevem, e os bichos da terra, que são formigas, alguma escolopendra, um lacrau que, de susto, levanta o aguilhão venenoso, estes não têm memória de homem nu nestes sítios, nem sabem para que serve. Se o perguntassem a Jesus, Por que te desnudaste, talvez ele respondesse de uma maneira incompreensível para o entendimento de heminópteros, miriápodes e aracnídeos, Ao deserto só é possível ir nu. Nu, dizemos nós, apesar dos espinhos que rasgam a pele e arrepelam os pêlos do púbis, nu apesar das arestas que cortam e das areias que esfolam, nu apesar do sol que queima, reverbera e deslumbra, nu, enfim, para procurar a ovelha perdida, aquela que nos pertence porque com a nossa marca a marcámos. O deserto abre-se aos passos de Jesus, para logo se fechar, como se lhe cortasse o caminho de retirada. O silêncio ressoa nos ouvidos com o som de um búzio, daqueles que vêm mortos e vazios à praia e ali se deixam ficar, a encherem-se do vasto rumor das ondas, até que alguém passa e os encontra e, levando-os devagar ao ouvido, põe-se à escuta e diz, O deserto. Os pés de Jesus sangram, o sol afasta as nuvens para feri-lo de espada nos ombros, os espinhos cortam-lhe a pele das pernas como unhas sôfregas, as cerdas chicoteiam-no, Ovelha, onde estás, grita ele, e as colinas passam palavra, Onde estás, onde estás, dissessem elas isto apenas e saberíamos, enfim, o que é o eco perfeito, mas o longo e remoto som do búzio sobrepõe-se, murmurando, Deeeeeeuuus, Deeeeeeuuus, Deeeeeeuuus. Então, como se de súbito as colinas se tivessem arredado do seu caminho, Jesus saiu do labirinto dos vales para um espaço circular liso e arenoso onde, no centro exacto, viu a ovelha. Correu para ela, tanto quanto lho permitiam os pés feridos, mas uma voz deteve-o, Espera. Uma nuvem da altura de dois homens, que era como uma coluna de fumo girando lentamente sobre si mesma, estava diante dele, e a voz viera da nuvem. Quem me fala, perguntou Jesus, arrepiado, mas adivinhando já a resposta. A voz disse, Eu sou o Senhor, e Jesus soube por que tivera de despir-se no limiar do deserto. Trouxeste-me aqui, que queres de mim, perguntou, Por enquanto nada, mas um dia hei-de querer tudo, Que é tudo, A vida, Tu és o Senhor, sempre vais levando de nós as vidas que nos dás, Não tenho outro remédio, não podia deixar atravancar-se o mundo, E a minha vida, quere-la para quê, Não é ainda tempo de o saberes, ainda tens muito que viver, mas venho anunciar-te, para que vás bem dispondo o espírito e o corpo, que é de ventura suprema o destino que estou a preparar para ti, Senhor, meu Senhor, não compreendo nem o que dizes nem o que queres de mim, Terás o poder e a glória, Que poder, que glória, Sabê-lo-ás quando chegar a hora de te chamar outra vez, Quando será, Não tenhas pressa, vive a tua vida como puderes, Senhor, eis-me aqui, se nu me trouxeste diante de ti, não demores, dá-me hoje o que tens guardado para dar-me amanhã, Quem te disse que tenciono dar-te alguma coisa, Prometeste, Uma troca, nada mais que uma troca, A minha vida por não sei que pago, O poder, E a glória, não me esqueci, mas se não me dizes que poder, e sobre quê, que glória, e perante quem, será como uma promessa que veio cedo de mais, Tornarás a encontrar-me quando estivéres preparado, mas os meus sinais acompanhar-te-ão desde agora, Senhor, diz-me, Cala-te, não perguntes mais, a hora chegará, nem antes nem depois, e então saberás o que quero de ti, Ouvir-te, meu Senhor,:é obedecer, mas tenho de fazer-te ainda uma pergunta, Não me aborreças, Senhor, é preciso, Fala, Posso levar a minha ovelha, Ah, era isso, Sim, era só isso, posso, Não, Porquê, Porque ma vais sacrificar como penhor da aliança que acabo de celebrar contigo, Esta ovelha, Sim, Sacrifico-te outra, vou ali ao rebanho e volto já, Não me contraries, quero esta, Mas repara, Senhor, que tem defeito, a orelha cortada, Enganas-te, a orelha está intacta, repara, Como é possível, Eu sou o Senhor, e ao Senhor nada é impossível, Mas esta é a minha ovelha, Outra vez te enganas, o cordeiro era meu e tu tiraste-mo, agora a ovelha paga a dívida, Seja como queres, o mundo todo pertence-te e eu sou o teu servo, Sacrifica então, ou não haverá aliança, Mas vê, Senhor, que estou nu, não tenho cutelo nem faca, estas palavras disse-as Jesus cheio de esperança de poder ainda salvar a vida da ovelha, e Deus respondeu-lhe, Não seria eu o Senhor se não pudesse resolver-te essa dificuldade, aí tens. Palavras não eram ditas, apareceu aos pés de Jesus um cutelo novo, Vá, despacha-te, tenho mais que fazer, disse Deus, não posso ficar aqui eternamente. Jesus empunhou o cutelo, avançou para a ovelha que levantava a cabeça, hesitante em reconhecê-lo, pois nunca o tinha visto nu, e, como é por de mais sabido, o olfacto destes animais não vale grande coisa. Estás a chorar, perguntou Deus, Tenho os olhos sempre assim, disse Jesus. O cutelo subiu, tomou o ângulo do golpe, e caiu velozmente como o machado das execuções ou a guilhotina 90
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
que ainda falta inventar. A ovelha não soltou um som, apenas se ouviu, Aaaah, era Deus suspirando de satisfação. Jesus perguntou, E agora, posso-me ir embora, Podes, e não te esqueças, a partir de hoje pertences-me, pelo sangue, Como devo ir-me de ti, Em princípio, tanto faz, para mim não há frente nem costas, mas o costume é ir recuando e fazendo vénias, Senhor, Que enfadonho és, homem, que temos mais agora, O pastor do rebanho, Que pastor, O que anda comigo, Quê, É um anjo, ou um demónio, alguém que eu conheço, Mas diz-me, é anjo, é demónio, Já to disse, para Deus não há frente nem costas, passa bem. A coluna de fumo estava e deixou de estar, a ovelha desaparecera, só o sangue ainda se percebia, e esse procurava esconder-se na terra. Quando Jesus chegou ao campo, Pastor olhou-o fixamente e perguntou, A ovelha, e ele respondeu, Encontrei Deus, Não te perguntei se encontraste Deus, perguntei-te se achaste a ovelha, Sacrifiquei-a, Porquê, Deus estava lá, teve de ser.
Com a ponta do cajado, Pastor fez um risco no chão, fundo como rego de arado, intransponível como uma vala de fogo, depois disse, Não aprendeste nada, vai. Como posso ir-me, se tenho os pés neste estado, pensou Jesus vendo afastar-se Pastor para o outro lado do rebanho. Deus, que tão limpamente fizera desaparecer a ovelha, não o beneficiara, de dentro da nuvem, com a graça do seu divino cuspo, para que o mortificado Jesus pudesse, com ele, untar e sarar as feridas por onde o sangue continuava a manar, brilhando sobre as pedras. Pastor não o ajudará, lançou as palavras cominatórias e retirou-se, como quem espera que a sentença seja cumprida e não tenciona estar presente nos preparativos da partida, e muito menos despedir-se. A custo, arrastando-se sobre os joelhos e as mãos, Jesus alcançou o bivaque, onde, a cada paragem, se arrumavam os utensílios do governo do rebanho, os tarros para o leite, as tábuas da espremedura, e também as peles de ovelha e de cabra que iam curtindo, e com que, por troca, adquiriam os bens de que precisavam, uma túnica, um manto, alimentos mais variados.
Pensou Jesus que não poderiam culpá-lo se se pagasse do seu salário por suas próprias mãos, talhando das peles de ovelha umas formas de sandálias ou coturnos para envolver os pés, servindo depois para os atilhos umas tiras de pele de cabra, mais manejáveis por terem menos pêlo. Ao ajeitá-las, duvidou se a lã deveria ficar do lado de dentro ou do lado de fora, acabando por usá-la como forro, por dentro, visto o mísero estado em que tinha os pés. O mal vai ser colarem-se-lhe as feridas aos pêlos, mas, como já decidiu que o seu caminho será pela margem do Jordão, bastará que meta os pés calçados na água e aos poucos se lhe dissolverá a goma seca do sangue. O próprio peso das botifarras, que é o que mais parecem, metidas na água e ensopadas, ajudará suavemente a despegarem-se os pés do lanoso chumaço, sem levar consigo as protectoras e benfazejas crostas que aos poucos se vêm formando. Um pouco de sangue levado na corrente era sinal, pela boa cor dele, de que as feridas ainda se não haviam infectado, por muito que custe a acreditar. Jesus, na sua vagarosa caminhada para o norte, fazia pois longos descansos, deixava-se ficar sentado na margem do rio, com os pés suspensos dentro de água, a gozar da frescura e da medicina. Doía-lhe ter sido expulso daquela maneira, depois de haver-se encontrado com Deus, acontecimento inaudito no sentido pleno da palavra, pois, que ele o soubesse, não havia hoje um único homem em todo Israel que pudesse gabar-se de ter visto Deus e sobrevivido.
É certo que, aquilo que se chama ver, ele não vira, mas se uma nuvem se nos apresenta no deserto, com a forma de uma coluna de fumo, e diz, Eu sou o Senhor, mantendo depois uma conversação, não apenas lógica e sensata, mas com uma expressão de autoridade sem réplica que só divina podia ser, qualquer dúvida, pequena que fosse, seria ofensa. Que o Senhor era o Senhor demonstrara-o a resposta que dera quando lhe perguntara acerca de Pastor, aquelas palavras despreocupadas, em que era patente haver um pouco de desprezo mas também de intimidade, o que fora reforçado pela recusa de responder se anjo era, ou demónio. Mas o mais interessante era que as palavras de Pastor, duras e aparentemente alheadas da questão central, não faziam mais que confirmar a verdade sobrenatural do encontro, Não te perguntei se encontraste Deus, como se estivesse a dizer, Até aí já eu sei, como se o anúncio o não tivesse surpreendido, como se o soubesse de antemão. Mas o que parecia ser certo era não lhe ter perdoado a morte da ovelha, outro sentido não podiam ter aquelas palavras finais, Não aprendeste nada, vai, e depois retirou-se ostensivamente para o outro extremo do rebanho, mantendo-se ali, de costas voltadas, até ele ter-se ido embora. Ora, numa destas ocasiões, quando Jesus deixava espraiar-se a imaginação em previsões do que viria o Senhor a querer dele quando voltassem a encontrar-se, as palavras de Pastor soaram-lhe repentinamente aos ouvidos, tão claras e distintas como se estivesse mesmo ali ao lado, Não aprendeste nada, e nesse instante o sentimento de ausência, de falta, de solidão, foi tão forte que o seu coração gemeu, ali estava ele, sozinho, sentado na margem do 91
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
Jordão, olhando os pés na transparência do rio e vendo manar de um dos calcanhares um leve fio de sangue, e lentamente mover-se entre duas águas, de súbito não lhe pertenciam o sangue nem os pés, era seu pai que ali tinha vindo, coxeando com os seus calcanhares furados, a gozar do fresco do Jordão, e dizia-lhe igual que Pastor, Tens de voltar ao princípio, não aprendeste nada. Jesus, como se erguesse do chão uma pesada e longa cadeia de ferro, recordava a sua vida, elo por elo, o anúncio misterioso da sua concepção, a terra iluminada, o nascimento na cova, as crianças mortas de Belém, a crucifixão do pai, a herança dos pesadelos, a fuga de casa, o debate no Templo, a revelação de Zelomi, o aparecimento do pastor, a vida com o rebanho, o cordeiro salvo, o deserto, a ovelha morta, Deus. E como esta última palavra era demasiada para que o seu espírito pudesse ocupar-se dela, fixou-se obsessivamente num pensamento, por que é que um cordeiro que tinha sido salvo da morte veio a morrer ovelha, questão tão estúpida quanto se vê, mas que se compreenderá melhor se for assim traduzida, Nenhuma salvação é suficiente, qualquer condenação é definitiva. O último elo da corrente é este agora, estar na margem do rio Jordão, ouvindo o dolente canto de uma mulher que dali não se pode ver, escondida entre a junça, talvez lavando roupa, talvez banhando-se, e Jesus quer perceber como isto é tudo o mesmo, o cordeiro vivo que se transformou em ovelha morta, os seus pés sangrando do sangue de seu pai, e a mulher que canta, nua, deitada de costas sobre a água, os peitos duros levantados fora dela, o púbis negro soerguendo-se na ondulação da aragem, não é verdade que Jesus alguma vez tivesse visto, até hoje, uma mulher nua, mas se um homem, apenas partindo duma simples coluna de fumo, pode pôr-se a futurar o que será estar com Deus em o dia chegando a um e a outro, não se compreenderia que as minúcias de uma mulher nua, supondo que a palavra é própria, não pudessem ser imaginadas e criadas duma música que se lhe ouve cantar, mesmo sem sabermos se as palavras nos são dirigidas. José já não está aqui, regressou à vala comum de Séforis, de Pastor não assoma nem a ponta do cajado, e Deus, se está em toda a parte, como se diz, não escolheu uma coluna de fumo para mostrar-se, talvez esteja naquela água que corre, a mesma onde se banha a mulher. O
corpo de Jesus deu um sinal, inchou no que tinha entre as pernas, como acontece a todos os homens e a todos os animais, o sangue correu veloz a um mesmo sítio, a ponto de se lhe secarem subitamente as feridas, Senhor, que forte é este corpo, mas Jesus não foi dali à procura da mulher, e as suas mãos repeliram as mãos da tentação violenta da carne, Não és ninguém se não te quiseres a ti mesmo, não chegas a Deus se não chegares primeiro ao teu corpo. Quem disse estas palavras, não se sabe, porém Deus não as diria, não são contas do seu rosário, de Pastor, sim, poderiam ser, se não estivesse tão longe daqui, talvez, no fim das contas, fossem as palavras da canção que a mulher cantava, nesse momento pensou como podia ser agradável ir lá pedir-lhe que lhas explicasse, mas a voz já se não ouvia, porventura a tinha levado consigo a corrente, ou a mulher, simplesmente, saíra da água para enxugar-se e vestir-se, assim calando o seu corpo. Jesus enfiou as pantufas ensopadas e pôs-se de pé, fazendo esparrinhar a água para os lados, como uma esponja. Muito irá rir a mulher, se para estes lados está vindo, ao encontrar-se com as grotescas patorras, mas pode bem ser que esse riso de troça não dure muito, quando os olhos dela subirem pelo corpo de Jesus acima, adivinhando as formas que a túnica esconde, e se detiverem a olhar os olhos dele, doridos por causas antigas e agora, por uma razão nova, ansiosos. Com poucas ou nenhumas palavras, o corpo dela tornará a despir-se, e quando tiver acontecido o que destes casos sempre se deverá esperar, ela retirar-lhe-á as sandálias com grande cuidado, curará as feridas pondo em cada pé um beijo e envolvendo-os depois, como um ovo ou um casulo, nos seus próprios cabelos húmidos. Pelo caminho não vem ninguém, Jesus olha em redor, suspira, busca um recanto escondido e para lá se encaminha, mas de súbito pára, lembrou-se a tempo de que o Senhor tirou a vida a Onan por derramar o seu sémen no chão. Ora, tivesse Jesus dado outra mais analítica volta ao episódio clássico, o que aliás concordaria com os seus processos mentais, e talvez o não detivesse a impiedosa severidade do Senhor, e isto por duas razões, sendo a primeira razão não haver ali cunhada com quem devesse, pela lei, dar posteridade a um irmão morto, e sendo a segunda razão, acaso mais forte que a outra, ter o Senhor, segundo lho fizera saber no deserto, algumas firmes ainda que não reveladas ideias quanto ao seu futuro, e não ser portanto crível nem lógico que se esquecesse das promessas feitas, deitando tudo a perder só porque uma mão sem governo tinha ousado chegar-se aonde não devia, sabendo o Senhor o que são as necessidades do corpo, não é só o trivial do comer e do beber, trivial, havendo, dizemos, outros jejuns existem que não são menos custosos de aturar. Estas e outras semelhantes reflexões, que deveriam ajudar Jesus a levar 92
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
por diante o humaníssimo movimento de procurar, para certo fim, um refúgio longe das vistas, acabaram por ter efeito contraproducente, distraiu-se o pensamento do que tinha em mente, achou-se envolvido nos meandros do seu próprio pensar, o resultado foi ir-se-lhe a vontade do que queria, de desejo nem falemos, que, sendo pecaminoso, um simples nada o faz hesitar e esmorecer. Resignado com a sua própria virtude, Jesus pôs o alforge ao ombro, empunhou o cajado e meteu pés ao caminho.
No primeiro dia desta viagem ao longo da margem do Jordão, o hábito de quatro anos de isolamento levara Jesus a apartar-se dos raros lugares povoados que por ali havia. Porém, à medida que se aproximava do lago de Genesaré, tornou-se cada vez mais difícil, para ele, rodear as aldeias, tanto mais que as cercavam campos cultivados, nem sempre cómodos de atravessar, tanto pelos desvios que era obrigado a fazer como pelas desconfianças que o seu ar de vagabundo despertava nos lavradores.
Decidiu-se pois Jesus a ir ao mundo, e a verdade é que não desgostou do que viu, só o importunava muito o ruído, de que quase se esquecera. Na primeira destas aldeias em que entrou, um bando estúrdio de rapazes fez-lhe uma assuada tremenda às botas, boa coisa foi, afinal, porque Jesus tinha dinheiro suficiente para comprar umas sandálias novas, recordemos que não toca no dinheiro que traz, desde aquele que lhe foi dado pelo fariseu, viver quatro anos com tão pouco e não ter precisado de o gastar, foi máxima riqueza, não há que rogar mais ao Senhor. Agora, compradas as sandálias, ficou-lhe o tesouro reduzido a duas moedas de pouco valor, mas a penúria não o aflige, já pouco lhe falta para chegar ao seu destino, Nazaré, a casa, aonde é certo que vai regressar porque um dia, ao deixá-la, e parecia que para sempre a deixava, dissera, Duma maneira ou doutra, sempre voltarei. Vem sem pressa, bordejando as mil curvas do Jordão, também é verdade que o estado em que tinha os pés não lhe permitiria grandes façanhas andarilhas, mas a razão principal do vagar residia na sua própria certeza de chegar, como se pensasse, É como se já lá estivesse, mas um outro sentimento, esse menos consciente, lhe retardava ainda os passos, qualquer coisa que se poderia exprimir por palavras como estas, Quanto mais depressa chegar, mais depressa torno a partir. Subia ao longo da margem do lago, em direcção ao norte, já está à altura de Nazaré, se quisesse chegar rapidamente a casa não teria mais que rodar os calcanhares no sentido do sol-poente, mas as águas do lago retêm-no, azuis, largas, tranquilas. Gosta de sentar-se na margem a olhar a manobra dos pescadores, alguma vez, em pequeno, veio a estas paragens, acompanhando os pais, mas nunca se detivera a olhar com atenção a faina destes homens que deixam atrás de si todos os cheiros do peixe, como se eles próprios fossem habitantes do mar. Enquanto por aqui andou, Jesus ganhou o sustento ajudando no que sabia, que era nada, e no que podia, que era pouco, puxar um barco para terra ou empurrá-lo para a água, dar uma mão a uma rede que transbordava, os pescadores viam-lhe a cara de necessidade e davam-lhe dois ou três peixes espinhosos, chamados tilápias, como salário. Ao princípio, tímido, Jesus ia assá-los e comê-los à parte, mas, tendo-se demorado por ali três dias, logo ao segundo o quiseram chamar os pescadores para que com eles arranchasse. E no último dia já Jesus foi ao mar, na barca de dois irmãos que se chamavam Simão e André, mais velhos do que ele, nenhum dos dois tinha menos de trinta anos. No meio das águas, Jesus, sem experiência do ofício, ele próprio rindo da sua falta de habilidade, atreveu-se, incitado pelos seus novos amigos, a lançar a rede, naquele largo gesto que, olhado de longe, se parece com uma bênção ou um desafio, sem outro resultado que quase ter caído à água de uma das vezes em que o tentou. Simão e André riram muito, já sabiam que Jesus só percebia de cabras e ovelhas, e Simão disse, Melhor vida seria a nossa se este outro gado se deixasse levar e trazer, e Jesus respondeu, Pelo menos não se perdem, não se tresmalham, estão aqui todos na concha do mar, todos os dias a fugir da rede, todos os dias a cair nela. A pesca não tinha sido frutuosa, o fundo do barco estava pouco menos que vazio, e André disse, Mano, vamos para casa, que este dia já deu o que tinha a dar. Simão assentiu, Tens razão, mano, vamos lá. Enfiou os remos nos toletes e ia dar a primeira das remadas que os levariam à margem, quando Jesus, não creiamos que por inspiração ou pressentimento de marca maior, foi um modo, apenas, ainda que inexplicável, de demonstrar a sua gratidão, propôs que se fizessem três últimas tentativas, Quem sabe se o rebanho dos peixes, conduzido pelo seu pastor, terá vindo cá para o nosso lado. Simão riu, Essa é outra vantagem que têm as ovelhas, poderem ser vistas, e para André, Lança lá a rede, se não se ganha, também não se perde, e André lançou a rede e a rede veio cheia. Arregalaram-se de espanto os olhos dos dois pescadores, mas o assombro transformou-se em portento e maravilha quando a rede, lançada mais uma vez e outra ainda, voltou cheia duas vezes. De um mar que tão deserto de pescado antes parecera, como a água 93
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
duma infusa posta à boca da fonte límpida, saíam, com nunca vista profusão, torrentes luzidias de guelras, dorsos e barbatanas em que a vista se confundia. Perguntaram Simão e André como soubera ele que o peixe ali chegara de um momento para o outro, que olhar de lince se apercebera do movimento profundo das águas, e Jesus respondeu que não, que não sabia, fora apenas uma ideia, experimentar a sorte uma última vez antes de regressarem. Não tinham os dois irmãos motivos para duvidar, o acaso faz destes e outros milagres, mas Jesus, dentro de si, estremeceu, e no silêncio da sua alma perguntou, Quem fez isto. Disse Simão, Ajuda aqui a escolher, ora, a oportunidade é boa para explicar que não foi neste mar de Genesaré que nasceu a ecuménica sentença, Tudo o que vem à rede é peixe, aqui os critérios são diferentes, peixe será o que a rede trouxe, mas a lei é claríssima neste ponto, como em todos, Eis aquilo que podereis comer dos diversos animais aquáticos, podeis comer tudo o que, nas águas, mares ou rios, tem barbatanas e escamas, mas tudo o que não tem barbatanas e escamas, nos mares ou nos rios, quer o que pulula na água, quer os animais que nela vivem, são abomináveis para vós, e abomináveis continuarão a ser, não comeis a sua carne e considerai os seus cadáveres como abomináveis, tudo o que, nas águas, não tem barbatanas e escamas, será para vós abominável. Os peixes réprobos, de pele lisa, aqueles que não podem ir à mesa do povo do Senhor, foram assim restituídos ao mar, muitos deles, mesmo, já tinham ganho o costume e não se preocupavam quando os levava a rede, sabiam que pronto tornariam à água, sem risco de morrerem sufocados. Em sua cabeça de peixes criam beneficiar duma benevolência especial do Criador, senão mesmo de um amor particular, o que os levou, ao cabo do tempo, a considerarem-se superiores aos outros peixes, os que ficavam nas barcas, que muitas e graves faltas esses deviam ter cometido a coberto das escuras águas para que Deus, assim, sem piedade, os deixasse morrer. Quando enfim chegaram à margem, com mil artes e cuidados para não irem a pique, pois a superfície do lago lambia a borda do barco como se o quisesse engolir, a surpresa das gentes não teve explicação. Quiseram saber como aquilo acontecera, sabendo-se que os outros pescadores tinham regressado com o fundo seco, mas, de tácito e comum acordo, nenhum dos três afortunados falou das circunstâncias da pescaria prodigiosa, Simão e André para não verem publicamente diminuídos os seus méritos de práticos, Jesus por não querer que os outros pescadores o metessem, como um chamariz, nas respectivas companhas, o que, dizemos nós, seria de inteira justiça, para se acabar, de vez, com as diferenças entre filhos e enteados que tanto mal têm trazido ao mundo. Por este pensar é que Jesus anunciou, nessa noite, que na manhã seguinte partiria para Nazaré, onde o esperava a família, depois de quatro anos de ausências e de andanças que podiam dizer-se do demónio, tão afadigadas foram.
Lamentaram muito Simão e André uma decisão que os privava do melhor olheiro de gado aquático de que havia memória nos anais de Genesaré, lamentaram-na também dois outros pescadores, Tiago e João, filhos de Zebedeu, moços um pouco simples, a quem, por brincadeira, costumavam perguntar, Quem é o pai dos filhos de Zebedeu, os pobres ficavam interditos, perdidos de si mesmos, e nem o facto de saberem a resposta, como está claro que sabiam, sendo eles os filhos, nem isto os poupava a um instante de perplexidade e de angústia. A pena que sentiam da saída de Jesus não era só por assim se lhes escapar a oportunidade duma famosa pescaria, mas porque, sendo novos, João era mesmo mais novo que Jesus, teriam gostado de formar com ele uma tripulação de juvenis para disputar com a geração mais velha. A sua simplicidade de espírito não era necedade nem retraso mental, iam era pela vida como se sempre estivessem a pensar noutra coisa, por isso começavam por hesitar quando se lhes perguntava como se chamava o pai dos filhos de Zebedeu e não percebiam por que se ria a gente com tanto gosto quando, triunfalmente, respondiam, Zebedeu. João ainda foi fazer uma tentativa, chegou-se a Jesus e disse-lhe, Fica connosco, a nossa barca é maior que a de Simão, apanharemos mais peixe, e Jesus, sábio e piedoso, respondeu-lhe, A medida do Senhor não é a medida do homem, mas a da sua justiça. Embatucou João, foi-se embora de cabeça baixa, e sem diligências doutros interessados se passou o serão. No dia seguinte, Jesus despediu-se dos primeiros amigos que criara nos seus dezoito anos de vida, e, de farnel aviado, virando costas a este mar de Genesaré, onde, ou muito se enganava, ou lhe fizera Deus um sinal, orientou enfim os passos para as montanhas, caminho de Nazaré. Quis, porém, o destino que, passando ele pela cidade de Magdala, se lhe rebentasse ali, do pé, uma ferida que andava renitente em sarar, e em tal jeito que parecia o sangue não querer estancar-se. Também quis o destino que o perigoso acidente tivesse ocorrido à saída de Magdala, mesmo em frente, por assim dizer à porta, de uma casa que ali havia, afastada das outras, como se não quisesse aproximar-se 94
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
delas, ou elas a repelissem. Vendo que o sangue não dava mostras de querer parar, Jesus chamou, Ó
de dentro, disse, e, acto contínuo, uma mulher apareceu à porta, como se justamente estivesse à espera de que a chamassem, embora, por um leve ar de surpresa que começou por aparecer-lhe na cara, pudéssemos ser levados a pensar que estaria antes habituada a que lhe entrassem pela casa dentro, sem bater, o que, se bem considerarmos as coisas, teria menos razão de ser que em outro qualquer caso, pois esta mulher é uma prostituta e o respeito que deve à sua profissão manda-lhe que feche a porta de casa quando recebe um cliente. Jesus, que estava sentado no chão, comprimindo a desatada ferida, olhou de relance a mulher que se lhe acercava, Ajuda-me, disse, e, tendo segurado a mão que ela lhe estendia, conseguiu pôr-se de pé e dar uns passos, coxeando. Não estás em estado de andar, disse ela, entra, que eu trato-te dessa ferida. Jesus não disse nem sim nem não, o odor da mulher entontecia-o, a ponto de ter-lhe desaparecido, de um momento para o outro, a dor que lhe dera ao abrir-se a chaga, e agora, com um braço por cima dos ombros dela e sentindo a sua própria cintura cingida por outro que evidentemente não podia ser seu, apercebeu-se do tumulto que lhe trespassava o corpo em todas as direcções, se não fosse mais exacto dizer sentidos, porque neles, ou em um que tem esse nome, mas que não é o ver nem o ouvir nem o cheirar nem o gostar nem o tocar, podendo no entanto levar de cada um deles uma parte, aí é que ia bater tudo, salvo seja. A mulher ajudou-o a entrar para o pátio, trancou a porta e fê-lo sentar-se, Espera, disse. Foi dentro e voltou com uma bacia de barro e um pano branco. Encheu de água a bacia, molhou o pano e, ajoelhando-se aos pés de Jesus, sustendo na palma da mão esquerda o pé ferido, lavou-o cuidadosamente, limpando-o da terra, amaciando a crosta estalada através da qual surdia, com o sangue, uma matéria amarela, purulenta, de mau aspecto. Disse a mulher, Não vai ser com água que te curarás, e Jesus disse, Só te peço que me ates a ferida de modo a poder chegar a Nazaré, depois lá me trato, ia a dizer, Minha mãe trata-me, mas emendou porque não queria parecer aos olhos desta mulher como um rapazinho que, por dar uma topada numa pedra, vai a chorar, Mãezinha, mãezinha, à espera do afago, um sopro suave no dedo ofendido, um toque dulcificante dos dedos, Não é nada, meu menino, já passou. Daqui a Nazaré ainda tens muito que andar, mas se é assim que queres, espera só que te ponha um unguento, disse a mulher, e entrou em casa, onde iria demorar-se um pouco mais que antes. Jesus olhou em redor o pátio, surpreendido porque em sua vida nunca vira nada tão limpo e arrumado. Está desconfiado de que a mulher é uma prostituta, não por particular habilidade sua em adivinhar profissões à primeira vista, ainda não há muitos dias ele próprio poderia ter sido identificado pelo cheiro a gado cabrum que tresandava, e agora todos dirão, É pescador, foi-se aquele cheiro, outro veio, que não tresanda menos.
A mulher cheira a perfume, mas Jesus, apesar da sua inocência, que não é ignorância, pois não lhe faltaram ocasiões de ver como procediam bodes e carneiros, tem bom senso que chegue para considerar que cheirar bem do corpo não é razão suficiente para afirmar que uma mulher é prostituta.
Na verdade, uma prostituta deveria era cheirar ao que frequenta, a homem, como o cabreiro cheira a cabra e o pescador a peixe, mas talvez, sabe-se lá, essas mulheres se perfumem tanto justamente por quererem esconder, disfarçar ou, mesmo, esquecer o cheiro do homem. A mulher reapareceu com um pequeno boião e vinha a sorrir como se alguém, dentro de casa, lhe tivesse contado uma história divertida. Jesus via-a aproximar-se, mas, se os olhos o não estavam enganando, ela vinha muito devagar, como acontece às vezes nos sonhos, a túnica movia-se, ondulava, modelando ao andar o balanço rítmico das coxas, e os cabelos pretos da mulher, soltos, dançavam-lhe sobre os ombros como o vento faz às espigas da seara. Não havia dúvida, a túnica, mesmo para um leigo, era de prostituta, o corpo de bailarina, o riso de mulher leviana. Jesus, em aflição, pediu à sua memória que o socorresse com algumas apropriadas máximas do seu célebre homónimo e autor, Jesus, filho de Sira, e a memória serviu-o bem, murmurando-lhe discretamente, do lado de dentro do ouvido, Foge do encontro duma mulher leviana, para não caíres nas suas ciladas, e logo, Não andes muito com uma bailarina, não suceda que pereças por causa dos seus encantos, e finalmente, Nunca te entregues às prostitutas, para que não te percas a ti e aos teus haveres, perder-se este Jesus de agora bem poderá acontecer, sendo homem e tão novo, mas, quanto aos haveres, esses já sabemos que não correm perigo porque os não tem, pelo que ele próprio se achará salvo, em chegando a hora, quando a mulher, antes de fechar o contrato, lhe perguntar, Quanto tens. Preparado para tudo está, portanto, Jesus, e por isso não o apanha de surpresa a pergunta que ela lhe fez enquanto, agora posto o pé dele sobre o joelho dela, lhe cobria de unguento a ferida, Como te chamas, Jesus, foi o que respondeu, e não disse 95
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
de Nazaré, por- que já antes o tinha declarado, como ela, por ser aqui que vivia, não disse de Magdala, quando, ao perguntar- -lhe ele por sua vez o nome, respondeu que Maria. Com tantos movimentos e observações, acabou Maria de Magdala de fazer o penso ao dorido pé de Jesus, rematando-o com uma sólida e pertinente atadura, Aí tens, disse ela, Como te devo agradecer, perguntou Jesus, e pela primeira vez os seus olhos tocaram os olhos dela, negros, brilhantes como carvões de pedra, mas onde perpassava, como uma água que sobre água corresse, uma espécie de voluptuosa velatura que atingiu em cheio o corpo secreto de Jesus. A mulher não respondeu logo, olhava-o, por sua vez, como se o avaliasse, a pessoa que era, que de dinheiros bem se via que não estava provido o pobre moço, e por fim disse, Guarda-me na tua lembrança, nada mais, e Jesus, Não esquecerei a tua bondade, e depois, enchendo-se de ânimo, Nem te esquecerei a ti, Porquê, sorriu a mulher, Porque és bela, Não me conheceste no tempo da minha beleza, Conheço-te na beleza desta hora. O sorriso dela esmoreceu, extinguiu-se, Sabes quem sou, o que faço, de que vivo, Sei, Não tiveste mais que olhar para mim e ficaste a saber tudo, Não sei nada, Que sou prostituta, Isso sei, Que me deito com homens por dinheiro, Sim, Então é o que eu digo, sabes tudo de mim, Sei só isso. A mulher sentou-se junto dele, passou-lhe suavemente a mão pela cabeça, tocou-lhe na boca com a ponta dos dedos, Se queres agradecer-me, fica este dia comigo, Não posso, Porquê, Não tenho com que pagar-te, Grande novidade, Não te rias de mim, Talvez não creias, mas olha que mais facilmente me riria de um homem com a bolsa cheia, Não é só a questão do dinheiro, Que é, então. Jesus calou-se e voltou a cara para o lado. Ela não o ajudou, podia ter-lhe perguntado, És virgem, mas deixou-se ficar calada, à espera. Fez-se silêncio, tão denso e profundo que parecia que apenas os dois corações soavam, mais forte e rápido o dele, o dela inquieto com a sua própria agitação. Jesus disse, Os teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo das vertentes pelas montanhas de Galaad. A mulher sorriu e ficou calada. Depois Jesus disse, Os teus olhos são como as fontes de Hesebon, junto à porta de Bat-Rabim. A mulher sorriu de novo, mas não falou. Então Jesus voltou lentamente o rosto para ela e disse, Não conheço mulher. Maria segurou-lhe as mãos, Assim temos de começar todos, homens que não conheciam mulher, mulheres que não conheciam homem, um dia o que sabia ensinou, o que não sabia aprendeu, Queres tu ensinar-me, Para que tenhas de agradecer-me outra vez, Dessa maneira, nunca acabarei de agradecer-te, E eu nunca acabarei de ensinar-te. Maria levantou-se, foi trancar a porta do pátio, mas primeiro dependurou qualquer coisa do lado de fora, sinal que seria de entendimento, para os clientes que viessem por ela, de que se havia cerrado a sua fresta porque chegara a hora de cantar, Levanta-te, vento do norte, vem tu, vento do meio-dia, sopra no meu jardim para que se espalhem os seus aromas, entre o meu amado no seu jardim e coma dos seus deliciosos frutos. Depois, juntos, Jesus amparado, como fizera antes, ao ombro de Maria, esta prostituta de Magdala que o curou e o vai receber na sua cama, entraram em casa, na penumbra propícia de um quarto fresco e limpo. A cama não é aquela rústica esteira estendida no chão, com um lençol pardo lançado por cima, que Jesus viu sempre em casa dos pais enquanto lá viveu, esta é um verdadeiro leito como o outro de que alguém disse, Adornei a minha cama com cobertas, com colchas bordadas de linho do Egipto, perfumei o meu leito com mirra, aloés e cinamomo. Maria de Magdala conduziu Jesus até junto do forno, onde o chão era de ladrilhos de tijolo, e ali, recusando o auxílio dele, por suas mãos o despiu e lavou, às vezes tocando-lhe o corpo, aqui e aqui, e aqui, com as pontas dos dedos, beijando-o de leve no peito e nas ancas, de um lado e do outro. Estes roces delicados faziam estremecer Jesus, as unhas da mulher arrepiavam-no quando lhe percorriam a pele, Não tenhas medo, disse Maria de Magdala. Enxugou-o e levou-o pela mão até à cama, Deita-te, eu volto já. Fez correr um pano numa corda, novos rumores de águas se ouviram, depois uma pausa, o ar de repente tornou-se perfumado e Maria de Magdala apareceu, nua. Nu estava também Jesus, como ela o deixara, o rapaz pensou que assim é que devia estar certo, tapar o corpo que ela descobrira teria sido como uma ofensa. Maria parou -ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo, ardente e suave, e disse, És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos. Hesitando, Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus dois seios são como dois filhinhos gémeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, 96
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, Aprende, aprende o meu corpo. Jesus olhava as suas próprias mãos, que Maria segurava, e desejava tê-las soltas para que pudessem ir buscar, livres, cada uma daquelas partes, mas ela continuava, uma vez mais, outra ainda, e dizia, Aprende o meu corpo, aprende o meu corpo.. Jesus respirava precipitadamente, mas houve um momento em que pareceu sufocar, e isso foi quando as mãos dela, a esquerda colocada sobre a testa, a direita sobre os tornozelos, principiaram uma lenta carícia, na direcção uma da outra, ambas atraídas ao mesmo ponto central, onde, quando chegadas, não se detiveram mais do que um instante, para regressarem com a mesma lentidão ao ponto de partida, donde recomeçaram o movimento. Não aprendeste nada, vai-te, dissera Pastor, e quiçá quisesse dizer que ele não aprendera a defender a vida. Agora Maria de Magdala ensinara-lhe, Aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, Aprende o teu corpo, e ele aí o tinha, o seu corpo, tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que dizia, Calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava gritando, impossível, não pode ser, os peixes não gritam, ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frémito.
Durante todo o dia, ninguém veio bater à porta de Maria de Magdala. Durante todo o dia, Maria de Magdala serviu e ensinou o rapaz de Nazaré que, não a conhecendo nem de bem nem de mal, lhe viera pedir que o aliviasse das dores e curasse das chagas que, mas isso não o sabia ela, tinham nascido doutro encontro, no deserto, com Deus. Deus dissera a Jesus, A partir de hoje pertences-me pelo sangue, o Demónio, se o era, desprezara-o, Não aprendeste nada, vai-te, e Maria de Magdala, com os seios escorrendo suor, os cabelos soltos que parecem deitar fumo, a boca túmida, olhos como de água negra, Não te prenderás a mim pelo que te ensinei, mas fica comigo esta noite. E Jesus, sobre ela, respondeu, O que me ensinas, não é prisão, é liberdade. Dormiram juntos, mas não apenas nessa noite. Quando acordaram, já manhã alta, e depois de uma vez mais os seus corpos se terem buscado e achado, Maria foi ver como estava a ferida do pé de Jesus, Tem melhor ar, mas não devias ir ainda para a tua terra, vai-te fazer mal o caminho, com esse pó, Não posso ficar, e se tu mesma dizes que estou melhor, Ficar, podes, a questão é que tenhas a vontade, quanto à porta do pátio, estará fechada por todo o tempo que quisermos, A tua vida, A minha vida, nesta hora, és tu, Porquê, Respondo-te com as palavras do rei Salomão, o meu amado meteu a mão pela abertura da porta e o meu coração estremeceu, E como posso ser o teu amado se não me conheces, se sou apenas alguém que te veio pedir ajuda e de quem tiveste pena, pena das minhas dores e da minha ignorância, Por isso te amo, porque te ajudei e te ensinei, mas tu a mim é que não poderás amar-me, pois não me ensinaste nem ajudaste, Não tens nenhuma ferida, Encontrá-la-ás, se a procurares, Que ferida é, Essa porta aberta por onde entravam outros e o meu amado não, Disseste que sou o teu amado, Por isso a porta se fechou depois de entrares, Não sei nada que possa ensinar-te, só o que de ti aprendi, Ensina-me também isso, para saber como é aprendê-lo de ti, Não podemos viver juntos, Queres dizer que não podes viver com uma prostituta, Sim, Por todo o tempo que estiveres comigo, não serei uma prostituta, não sou prostituta desde que aqui entraste, está nas tuas mãos que continue a não o ser, Pedes-me demasiado, Nada que não possas dar-me por um dia, por dois dias, pelo tempo que o teu pé leve a sarar, para que depois se abra outra vez a minha ferida, Levei dezoito anos para chegar aqui, Alguns dias mais, não te farão diferença, ainda és novo, Tu também és nova, Mais velha do que tu, mais nova do que a tua mãe, Conheces a minha mãe, Não, Então por que disseste, Porque eu nunca poderia ter um filho que tivesse hoje a tua idade, Que estúpido sou, Não és estúpido, apenas inocente, Já não sou inocente, Por teres conhecido mulher, Não o era já quando me deitei contigo, Fala-me da tua vida, mas agora não, agora só quero que a tua mão esquerda descanse sobre a minha cabeça e a tua direita me abrace.
Jesus ficou uma semana em casa de Maria de Magdala, o tempo necessário para que debaixo da crosta da ferida se formasse a nova pele. A porta do pátio esteve sempre fechada. Alguns homens impacientes, picados de cio ou de despeito, vieram bater, ignorando deliberadamente o sinal que devia 97
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
mantê-los afastados. Queriam saber quem era esse que se demorava tanto, e algum mais gracioso atirou por cima dos muros um dichote, Ou será porque não pode, ou será porque não sabe, abre-me a porta, Maria, que eu explico-lhe como se faz, e Maria de Magdala veio ao pátio para responder, Quem quer que sejas, o que pudeste não voltarás a poder, o que fizeste não o farás mais, Maldita mulher, Vai-te, que bem enganado vais, não encontrarás no mundo mulher mais bendita do que eu sou. Fosse por este incidente ou porque assim tinha de ser, ninguém mais veio bater-lhes à porta, em todo o caso o mais provável foi que nenhum daqueles homens, moradores de Magdala ou passantes informados, tivesse querido arriscar-se a ouvir a praga que os condenaria à impotência, pois é geral convicção que as prostitutas, sobretudo as de alto coturno, diplomadas ou de largo currículo, sabendo tudo sobre as artes de alegrar o sexo de um homem, também são muito competentes para reduzi-lo a uma soturnidade irremediável, cabisbaixo, sem ânimo nem apetites. Gozaram, pois, Maria e Jesus de tranquilidade durante aqueles oito dias, durante os quais as lições dadas e recebidas acabaram por passar a um discurso só, composto de gestos, descobertas, surpresas, murmúrios, invenções, como um mosaico de tésseras que não são nada uma por uma e tudo acabam por ser depois de juntas e postas nos seus lugares. Mais de uma vez, Maria de Magdala quis voltar àquela curiosidade de saber da vida do amado, mas Jesus mudava de conversa, respondia, por exemplo, Entro no meu jardim, minha irmã, minha esposa, colho a minha mirra e o meu bálsamo, como o favo com o meu mel e bebo o meu vinho com o meu leite, e, tendo-o dito tão apaixonadamente, logo passava da recitação do versículo ao acto poético, em verdade, em verdade te digo, querido Jesus, assim não se pode conversar. Mas um dia Jesus resolveu falar do seu pai carpinteiro e da sua mãe cardadora de lã, dos seus oito irmãos, e que segundo o costume, tinha começado por aprender o ofício paterno, mas depois fora pastor durante quatro anos, que estava ali de regresso a casa, andara uns dias com pescadores, mas não chegara o tempo para aprender deles a arte. Quando Jesus isto contou, era um fim de tarde, estavam no pátio a comer, e de vez em quando levantavam a cabeça para ver o rápido voo das andorinhas que passavam soltando os seus gritos estrídulos, pelo silêncio que se fez entre os dois pareceu que ficara tudo dito, o homem confessara-se à mulher, porém, a mulher, como se nada fosse, perguntou, Só isso, ele fez um sinal afirmativo, Sim, só isto. O silêncio tornou-se completo, os círculos das andorinhas rodavam sobre outras paragens, e Jesus disse, Meu pai foi crucificado há quatro anos em Séforis, chamava-se José, Se não estou enganada, és o primogénito, Sim, sou o primogénito, Então não compreendo por que não ficaste com a tua família, era o teu dever, Houve umas diferenças entre nós, e não me perguntes mais nada, Nada que sobre a tua família seja, mas esses anos de pastor, fala-me desse tempo, Não há nada a dizer, é sempre o mesmo, são as cabras, são as ovelhas, são os cabritos, são os borregos, e leite, muito leite, leite por todos os lados, Gostaste de ser pastor, Gostei, Por que te vieste embora, Aborreci-me, tinha saudades da família, Saudade, que é isso, Pena de estar longe, Estás a mentir, Por que dizes que estou a mentir, Porque vi medo e remorso nos teus olhos. Jesus não respondeu. Levantou-se, deu uma volta pelo pátio, depois parou diante de Maria, Um dia, voltando nós a encontrar-nos, talvez te conte o resto, se então me prometeres que não dirás a ninguém, Poupavas-nos tempo se fosse já, Direi, sim, mas só se nos voltarmos a encontrar, Esperas que nessa altura eu já não seja prostituta, por agora não podes ter confiança nesta, pensas que seria capaz de vender os teus segredos por dinheiro ou dá-los a um qualquer que aí viesse, por divertimento, em troca duma noite de amor mais gloriosa do que as que eu te dei e tu me deste, Não é essa a razão por que prefiro calar-me, Pois eu digo-te que Maria de Magdala estará ao pé de ti, prostituta ou não, quando precisares dela, Quem sou eu para merecer isso, Tu não sabes quem és. Nessa noite, o antigo pesadelo voltou, depois de ter sido, apenas, nos últimos tempos, como uma angústia vaga que se infiltrava nos interstícios dos sonhos comuns, por fim habitual e suportável. Mas esta noite, talvez por ser a última que Jesus dormia naquela cama, talvez porque ele falou de Séforis e dos crucificados, o pesadelo, como uma serpente gigantesca que estivesse a acordar da hibernação, começou a desenrolar lentamente os anéis, a levantar a horrível cabeça, e Jesus acordou aos gritos, coberto de suores frios, Que tens, que tens, perguntava-lhe Maria, aflita, Um sonho, nada mais que um sonho, defendeu-se ele, Conta-mo, e esta palavra simples foi dita com tanto amor, com tanta ternura, que Jesus não pôde segurar as lágrimas e, depois das lágrimas, as palavras que quisera esconder, Sonho que meu pai me vem matar, É teu pai que está morto, tu estás aqui, vivo, Eu sou uma criança, estou em Belém da Judeia e meu pai vem matar-me, Porquê em Belém, Foi lá que nasci, Talvez penses que teu pai não 98
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
queria que tivesses nascido, é o que o sonho está a dizer, Tu não sabes nada, Não, não sei, Houve crianças em Belém que morreram por causa de meu pai, Matou-as ele, Matou-as porque não as salvou, não foi a mão dele que usou o punhal, E no teu sonho és uma dessas crianças, Tenho morrido mil mortes, Pobre de ti, pobre Jesus, Foi por causa disto que saí de casa, Compreendo, enfim, Julgas que compreendes, Que mais falta, O que ainda não te posso dizer, O que me dirás se nos voltarmos a encontrar, Sim. Jesus adormeceu com a cabeça no ombro de Maria, respirando sobre o seu seio. Ela ficou acordada em todo o resto da noite. Doía-lhe o coração porque a manhã não tardaria a separá-los, mas a sua alma estava serena. O homem que repousava a seu lado era, sabia-o, aquele por quem tinha esperado toda a vida, o corpo que lhe pertencia e a quem o seu corpo pertencia, virgem o dele, usado e sujado o dela, mas há que ver que o mundo tinha começado, o que se chama começar, faz apenas oito dias, e só esta noite é que se achou confirmado, oito dias é nada se os compararmos a um futuro por assim dizer intacto, de mais sendo tão novo este Jesus que me apareceu, e eu, Maria de Magdala, eu aqui estou, deitada com um homem, como tantas vezes, mas agora perdida de amor e sem idade. A manhã gastaram-na a preparar a viagem, que parecia que ia o rapaz para o cabo do mundo, quando não chega a duzentos estádios o que vai ter de andar, nada que um homem de normal constituição não possa fazer entre o sol do meio-dia e o crepúsculo da tarde, mesmo levando em conta que de Magdala a Nazaré nem tudo é caminho chão, por ali não faltam encostas escarpadas e pedregosos descampados. E toma tu cuidado, que andam nesses sítios bandos da guerra contra os romanos, dizia Maria, Ainda, perguntou Jesus, Tens vivido longe, isto aqui é a Galileia, E eu sou galileu, não me farão mal, Galileu não és, se foste nascer a Belém de Judeia, Meus pais conceberam-me em Nazaré, e eu, verdadeiramente, nem em Belém nasci, nasci foi numa cova, no interior da terra, e agora até me chega a parecer que voltei a nascer, aqui, em Magdala, De uma prostituta, Para mim, não és prostituta, disse Jesus, com violência, É o que tenho sido. Ficou um largo silêncio depois destas palavras, Maria à espera de que Jesus falasse, Jesus dando voltas a uma inquietação que não conseguia dominar. Por fim, perguntou, Aquilo que penduraste na porta para que nenhum homem entrasse, vais retirá-lo.
Maria de Magdala olhou-o com uma expressão séria, logo sorriu, com malícia, Não poderia ter dentro de casa dois homens ao mesmo tempo, Isso que quer dizer, Que tu te vais, mas que continuas aqui.
Fez uma pausa e rematou, O sinal que está dependurado na porta, continuará lá, Pensarão que estás com um homem, Se o pensarem, pensarão bem, porque estarei contigo, Ninguém mais aqui entrará, Tu disseste-o, esta mulher a quem chamam Maria de Magdala deixou de ser prostituta quando aqui entraste, De que vais viver, Só os lírios do campo crescem sem trabalhar nem fiar. Jesus tomou-lhe as mãos e disse, Nazaré não é longe de Magdala, um destes dias virei visitar-te, Se me procurares, aqui me encontrarás, O meu desejo será encontrar-te sempre, Encontrar-me-ias mesmo depois de morreres, Queres dizer que vou morrer antes de ti, Sou mais velha, de certeza morrerei primeiro, mas, se acontecesse morreres tu antes de mim, eu continuaria a viver, só para que me pudesses encontrar, E se fores tu a primeira a morrer, Bendito seja quem te trouxe a este mundo quando eu ainda estava nele.
Depois disto, Maria de Magdala serviu de comer a Jesus, e ele não precisou dizer-lhe, Senta-te comigo, porque desde o primeiro dia, na casa fechada, este homem e esta mulher tinham dividido e multiplicado entre si os sentimentos e os gestos, os espaços e as sensações, sem excessivos respeitos de regra, norma ou lei. Com certeza, não saberiam como responder-nos se agora lhes perguntássemos de que modo se comportariam se não se achassem protegidos e à solta nestas quatro paredes, entre as quais puderam, por uns poucos dias, talhar um mundo à simples imagem e semelhança de homem e mulher, bem mais dela do que dele, diga-se de passagem, mas, tendo sido ambos tão peremptórios quanto aos seus futuros encontros, basta que tenhamos a paciência de esperar o lugar e a hora em que, juntos, se enfrentarão com o mundo de fora da porta, este dos que já se perguntam com inquietação, Que se passa ali dentro, e não é nas conhecidas folestrias de quarto e cama que estão a pensar. Depois de terem comido, Maria calçou as sandálias a Jesus e disse-lhe, Tens de ir, se queres chegar a Nazaré antes da noite, Adeus, disse Jesus, e, tomando o alforge e o cajado, saiu para o pátio. O céu estava nublado por igual, como um forro de lã suja, ao Senhor não devia ser fácil perceber, do alto, o que andavam a fazer as suas ovelhas. Jesus e Maria de Magdala despediram-se com um abraço que parecia não ter fim, também se beijaram, mas com menos demora, não admira, o costume do tempo não era tanto esse.
99
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
Acabara de pôr-se o sol quando Jesus tornou a pisar o chão de Nazaré, quatro longos anos contados, mais semana menos semana, sobre aquele dia em que daqui fugiu, criança ainda, afligido por um mortal desespero, para ir pelo mundo à procura de alguém que o ajudasse a entender a primeira verdade insuportável da sua vida. Quatro anos, mesmo arrastados, podem não ser bastantes para sarar uma dor, mas, no geral, adormecem-na. Perguntara no Templo, refizera os caminhos da montanha com o rebanho do Diabo, encontrara Deus, dormira com Maria de Magdala, este homem que para cá vem não parece já sofrer, tirando aquela humidade dos olhos de que temos falado, mas que, se bem ponderarmos as causas possíveis, também poderia ser um efeito tardio do fumo dos sacrifícios, ou um arrebato da alma produzido pelos horizontes das altas pastagens, ou o medo de quem sozinho no deserto ouviu dizer Eu sou o Senhor, ou, enfim, quiçá o mais provável por mais próximo estar, a ânsia e a lembrança de um corpo ainda há poucas horas deixado, Confortai-me com uvas passas, fortalecei-me com maçãs, porque desfaleço de amor, esta doce verdade poderia vir dizê-
la Jesus a sua mãe e seus irmãos, mas o passo suspendeu-se-lhe no limiar da porta, Quem são minha mãe e meus irmãos, pergunta, não é que ele o não saiba, a questão é se sabem eles quem ele é, aquele que perguntou no Templo, aquele que contemplou os horizontes, aquele que encontrou Deus, aquele que conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem. Neste mesmo sítio, em frente da porta, esteve em tempos um mendigo que disse ser um anjo e que, podendo, se anjo era, irromper pela casa dentro, levando consigo o tufão das suas revoltas asas, preferiu bater, e com palavras de mendigo pedir esmola. A porta está fechada apenas com a tranqueta. Jesus não vai precisar chamar como teve de fazer lá em baixo em Magdala, entrará tranquilamente nesta casa que é sua, veja-se como vem curado da chaga do pé, é certo que são as mais fáceis de curar, as de sangue e de pus. Não precisava bater, mas bateu. Ouvira vozes por trás do muro, reconheceu, mais distante, a da mãe, mas não teve ânimo de empurrar simplesmente a porta e anunciar, Aqui estou, como alguém que, sabendo-se desejado, quer fazer a surpresa que a todos irá tornar felizes. Quem veio abrir foi uma menina pequena, de uns oito ou nove anos, que não reconheceu o visitante, a voz do sangue não lhe acudiu a dizer, Este homem é teu irmão, não te lembras, o Jesus, o primogénito, foi ele quem disse, apesar dos quatro anos acrescentados à idade de um e do outro e do lusco-fusco da hora, Chamas-te Lídia, e ela respondeu, Sim, pronta a maravilhar-se por um desconhecido saber o seu nome, mas ele quebrou os encantamentos todos, dizendo, Sou o teu irmão Jesus, deixa-me passar. No pátio, junto à casa e debaixo do alpendre, viu vultos que eram como sombras, seriam os seus irmãos, e agora olhavam na direcção da porta, dois deles, os mais velhos dos rapazes, Tiago e José, aproximavam-se, não tinham ouvido o que Jesus dissera, mas não merecia a pena virem identificar o visitante, Lídia já gritava, entusiasmada, É Jesus, é o nosso irmão, então todas as sombras se moveram e à porta da casa apareceu Maria, estava Lísia com ela, a outra filha, quase tão alta como a mãe, e ambas exclamaram, que parece que o disseram com a mesma voz, Ai o meu filho, Ai o meu irmão, no instante seguinte estavam todos abraçados ali no meio do pátio, era, verdadeiramente, a alegria das famílias reencontradas, acontecimento em geral notável, sobretudo, como é o caso, quando foi o próprio primogénito quem regressou aos nossos carinhos e cuidados. Jesus saudou a mãe, saudou cada um dos irmãos, por todos eles foi saudado com calorosas expressões de boas-vindas, Mano Jesus, que bom ver-te, Mano Jesus, julgávamos que te tinhas esquecido de nós, um pensamento não se ouviu, Mano Jesus, não parece que venhas rico. Entraram em casa e sentaram-se a cear, que para isso se estava preparando a família quando ele bateu à porta, aqui se diria, vindo Jesus donde vem, de excessos de carne pecadora e má frequentação moral, aqui se diria, com a rude franqueza da gente simples que viu reduzir-se-lhe de repente a ração, À hora de comer, sempre o diabo traz mais um. Não o disseram estes, e mal pareceria se o dissessem, que ao coro das mastigações só uma boca viera acrescentar-se, nem se nota a diferença, onde comeriam nove, comem dez, e este tem mais direito. Enquanto ceavam quiseram os irmãos mais novos saber de aventuras, que os três mais velhos e a mãe logo perceberam que não houvera mudança de profissão desde o encontro de Jerusalém, tanto mais que do peixe havia-se perdido antes o cheiro, e dos aromas pecaminosos de Maria de Magdala deram conta o vento, as horas de caminhada e o pó, salvo se chegássemos bem o nariz à túnica de Jesus, mas, se a tanto nem a família se atreveria, que faríamos nós. Jesus contou que andara de pastor no maior de todos os rebanhos alguma vez visto, que nos últimos tempos estivera no mar pescando e ajudara a fazer sair dele grandes e maravilhosas pescarias, e também que lhe sucedera a mais extraordinária aventura que 100
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
podia caber na imaginação e na esperança dos homens, mas que dela só poderia falar noutra ocasião, e não a todos. Estava-se nisto, os mais pequenos insistindo, Conta, conta, quando o do meio, Judas chamado, perguntou, mas não o fez por mal, De tanto tempo, que dinheiro trazes, e Jesus respondeu, Nem três moedas, nem duas, nem uma, nada, e, para prová-lo, porque a todos devia estar parecendo impossível uma tal penúria depois de quatro anos de contínuo trabalho, ali mesmo esvaziou o alforge, na verdade nunca se viu maior pobreza de bens e petrechos, uma faca de lâmina gasta e torcida, uma ponta de baraço, um troço de pão duríssimo, dois pares de sandálias feitas em pedaços, o que restara dos rasgões duma túnica velha, É a do teu pai, disse Maria, tocando-lhe, e, tocando as sandálias maiores, Eram do vosso pai. Baixaram-se as cabeças dos irmãos, uma saudade recordou o triste passamento do progenitor, depois Jesus fez voltar ao alforge o mísero conteúdo, quando de súbito deu por que uma ponta da túnica fazia um nó volumoso e percebeu que o nó era pesado e, sendo-o, ao pensá-lo subiu-lhe o sangue à cara, só podia conter dinheiro, esse mesmo que negara possuir, e que o dinheiro fora ali posto por Maria de Magdala, ganho portanto, não com o suor do rosto, como manda a dignidade, mas com gemidos falsos e suores suspeitos. A mãe e os irmãos olharam a denunciadora ponta da túnica, depois, como se tivessem combinado o movimento, olharam-no a ele, e Jesus, entre disfarçar e ocultar a prova da sua mentira e exibi-la sem poder dar uma explicação que a moralidade da família condescendesse em aceitar, tomou o partido mais difícil, desatou o nó e fez sair o tesouro, vinte moedas como nunca as tinham visto nesta casa, e disse, Não sabia que tinha este dinheiro. A reprovação silenciosa da família passou no ar como um sopro escaldante do deserto, que vergonha, um primogénito mentiroso. Jesus reflectia em seu coração e não encontrava nele qualquer irritação contra Maria de Magdala, só uma infinita gratidão pela sua generosidade, por essa delicadeza de querer dar-lhe um dinheiro que sabia que ele teria pejo em aceitar da mão dela directamente, pois uma coisa é ter dito, A tua mão esquerda está debaixo da minha cabeça, e a tua direita abraça-me, e outra coisa seria não pensar que outras mãos esquerdas e outras mãos direitas te abraçaram, sem quererem saber se alguma vez a tua cabeça desejou um simples amparo. Agora é Jesus quem olha a família, desafiando-a a aceitar a sua palavra, Não sabia que tinha este dinheiro, verdade, sem dúvida, mas que é, ao mesmo tempo, inteira e incompleta, desafiando-a também, em silêncio, a fazer-lhe a pergunta irreplicável, Se não sabias que o tinhas, como explicas que o tenhas, a isto não pode ele responder, Pô-lo aqui uma prostituta com quem dormi nestes últimos oito dias e que o ganhou dos homens com quem dormiu antes. Sobre a túnica suja e esgarçada do homem que morreu crucificado há quatro anos e cujos ossos conheceram a ignomínia duma vala comum, brilham as vinte moedas, como a terra luminosa que uma noite assombrou esta mesma casa, mas aqui não virão hoje os anciãos da sinagoga dizer, Enterrem-nas, como também ninguém aqui perguntará, Donde vieram, para que a resposta não nos obrigue a rejeitá-las, contra vontade e necessidade. Jesus recolhe as moedas na concha das duas mãos, torna a dizer, Não sabia que tinha este dinheiro, como quem oferece ainda uma última oportunidade, e depois, olhando a mãe, Não é dinheiro do Diabo. Estremeceram de horror os irmãos, mas Maria respondeu, sem alterar-se, Tão-pouco veio de Deus. Jesus fez saltar as moedas, uma, duas vezes, brincando, e disse, tão simplesmente como se anunciasse que no dia seguinte voltaria à banca de carpinteiro, Minha mãe, de Deus falaremos amanhã, e, para os irmãos Tiago e José, Também convosco falarei, acrescentou, ora, é bom que não se pense ter sido uma deferência de primogénito dizê-lo, aqueles dois já entraram na maioridade religiosa, têm, por direito próprio, acesso aos assuntos reservados. Entendeu porém Tiago que, tendo em conta a superior importância do tema, algo devia ser adiantado já sobre os motivos da prometida conversa, não é chegar aqui um irmão, por muito primogénito que seja, e dizer, Temos de ter uma conversa acerca de Deus, por isso, com um sorriso insinuante, disse, Se, como nos disseste, andaste quatro anos de pastor por esses montes e vales, não há-de ter sido muito o tempo que te sobrou para frequentares sinagogas e aprender nelas, ao ponto de, mal tornado a casa, nos dizeres que nos queres falar do Senhor. Jesus sentiu a hostilidade por baixo da blandícia e respondeu, Ai, Tiago, quão pouco sabes tu de Deus se ignoras que não precisamos andar à procura dele se ele estiver decidido a encontrar-nos, Se bem estou a entender-te referes-te a ti próprio, Não me faças perguntas até amanhã, amanhã falarei do que tiver de falar. Murmurou Tiago palavras que não se ouviram, mas que deviam ter sido um comentário ácido sobre aqueles que presumem de saber tudo. Maria disse com ar cansado para Jesus, Amanhã dirás, ou depois de amanhã, ou quando quiseres, mas agora diz-me, e aos teus irmãos, o que tencionas fazer com esse dinheiro, que aqui 101
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
estamos passando muita necessidade, Não queres saber como o tenho, Disseste que não sabias que o tinhas, E é verdade, mas pensei e sei já por que o tenho, Se não está mal nas tuas mãos, também não o estará nas da tua família, É tudo quanto tens a dizer acerca deste dinheiro, Sim, Então gastá-lo-emos, como é justo, no governo da casa. Ouviu-se um murmúrio geral de aprovação, o próprio Tiago fez um sinal de congratulação amistosa, e Maria disse, Se não te importasses, guardaríamos uma parte dele para o dote da tua irmã, Ainda não me havíeis dito que Lísia já tem casamento aprazado, Sim, vai ser na primavera, Dir-me-ás quanto necessitas, Não sei o que valem essas moedas. Jesus sorriu e disse, Também não sei quanto valem, só sei o valor que têm. Riu alto e destemperado, como se tivesse achado graça às suas próprias palavras, e toda a família o olhou, confundida. Apenas Lísia baixara os olhos, tem quinze anos e o pudor intacto, todas as misteriosas intuições da idade, e é, de quantos aqui estão, aquela que mais fortemente se perturba com este dinheiro que ninguém quer saber a quem pertenceu, donde veio nem como foi ganho. Jesus entregou uma moeda à mãe e disse, Amanhã a cambiarás, então saberemos o seu valor, Decerto me vão perguntar como me entrou tanta riqueza em casa, pois quem uma moeda destas pode mostrar, outras mais terá guardadas, Dizes apenas que o teu filho Jesus voltou da viagem, e que não há riqueza maior que o regresso do filho pródigo. Nessa noite Jesus sonhou com o pai. Fora deitar-se no pátio, debaixo do alpendre, porque, ao ver aproximar-se a hora de ir para a cama, sentiu que não suportaria a promiscuidade da casa, aquelas dez pessoas espalhadas pelos cantos à procura dum recolhimento impossível, não era como no tempo em que não se notava grande diferença entre isto e um rebanho de cordeirinhos, agora sobram pernas, braços, contactos e incompatibilidades. Antes de adormecer, Jesus pensou em Maria de Magdala e em todas as coisas que tinham feito juntos, e, se é certo que tais pensamentos o alteraram ao ponto de por duas vezes se ter levantado da palha para dar uma volta no pátio a fim de refrescar o sangue, também é certo que, entrado finalmente no sono, o dormir acabou por lhe chegar liso e manso, de criança inocente, como um corpo que fosse rio abaixo, abandonado à corrente vagarosa, vendo passar por cima da cabeça os ramos e as nuvens, e um pássaro sem voz que aparecia e desaparecia. O sonho de Jesus começou quando ele imaginou ter sentido um leve choque, como se o seu corpo, vogando, tivesse roçado outro corpo. Pensou que era Maria de Magdala e sorriu, sorrindo voltou a cabeça para ela, mas quem ali ia, levado na mesma água, debaixo do mesmo céu e dos mesmos ramos, sob o esvoaçar da ave silenciosa, era seu pai. O antigo grito de pavor começou a formar-se-lhe na garganta, mas suspendeu-se logo, o sonho não era o do costume, ele não estava, criança, numa praça de Belém com outras crianças à espera da morte, não se ouviam passos e relinchos de cavalos nem tilintar e ranger de armas, apenas o sedoso deslizar da água, os dois corpos como se fossem uma jangada, o pai, o filho, levados no mesmo rio. Nesse instante, o medo desapareceu da alma de Jesus e, em seu lugar, explodiu, irreprimível, como um rapto patético, um sentimento de exultação, Meu pai, disse ele, sonhando, Meu pai, repetiu, já acordado, mas agora estava a chorar porque percebeu que se encontrava sozinho. Quis regressar ao sonho, repeti-lo desde o primeiro momento, para tornar a sentir, já a esperando, a surpresa daquele choque, ver outra vez o pai e deixar-se ir com ele na corrente, até ao fim das águas e dos tempos. Não o conseguiu nesta noite, mas o antigo sonho não voltará mais, daqui em diante, em vez do medo vir-lhe-á a exultação, em vez da solidão terá a companhia, em vez da morte adiada a vida prometida, expliquem agora, se tal podem, os sábios da Escritura que sonho foi este que Jesus teve, que significam o rio e a corrente, e os ramos suspensos e as nuvens vogando, e a ave calada, e por que é que graças a tudo isto, reunido e posto por ordem, se puderam juntar o pai e o filho, apesar da culpa de um não ter perdão e a dor do outro não ter remédio. No dia seguinte, Jesus quis ajudar Tiago no trabalho da carpintaria, mas logo ali ficou demonstrado que os seus bons propósitos não bastariam para suprir a ciência que faltava e que, até aos últimos tempos da aprendizagem, em vida do pai, nunca chegara a merecer nota de suficiente. Para as necessidades da clientela, Tiago tornara-se num carpinteiro bastante sofrível, e o próprio José, apesar de não ter mais que catorze anos, conhecia já destas artes da madeira o bastante para poder dar lições ao irmão mais velho, se um tal atentado às precedências da idade fosse consentido na rígida hierarquia familiar.
Tiago ria-se da falta de jeito de Jesus e dizia-lhe, Quem te fez pastor, perdeu-te, palavras estas simples, de simpática ironia, que não se podia imaginar que cobrissem um pensamento reservado ou sugerissem um segundo sentido, mas que fizeram com que Jesus se afastasse de modo brusco da banca e Maria dissesse ao segundo filho, Não fales de perdição, não chames o diabo e o mal à nossa 102
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
casa. E Tiago, estupefacto, Mas eu não chamei nada, minha mãe, eu só disse, Sabemos o que disseste, cortou Jesus, a nossa mãe e eu sabemos o que disseste, quem juntou na sua cabeça pastor e perdição foi ela, não tu, e as razões tu não as sabes, mas ela sim, Eu avisei-te, disse Maria, com força, Avisaste-me quando o mal estava feito, se mal foi, que eu olho para mim e não o encontro, respondeu Jesus, Não há cego tão cego como aquele que não quer ver, disse Maria. Estas palavras enfadaram muito Jesus, que respondeu, repreensivo, Cala-te, mulher, se os olhos do teu filho viram o mal, viram-no depois de ti, mas estes mesmos olhos, que para ti parece que estão cegos, viram também o que nunca viste e com certeza não verás. A autoridade de filho primogénito e a dureza do tom, além das enigmáticas palavras finais, fizeram ceder Maria, mas a sua resposta ainda levou uma última advertência, Perdoa-me, não foi minha intenção ofender-te, queira o Senhor guardar-te sempre a luz dos olhos e a luz da alma, disse. Tiago olhava a mãe, olhava o irmão, percebia que havia ali um conflito, mas não imaginava que antigas causas pudessem explicá-lo, já que para causas novas não parecia que tivesse chegado a haver tempo. Jesus dirigiu-se para a casa, mas, no limiar da porta, virou-se para trás e disse à mãe, Manda os teus filhos que saiam e se distraiam fora, preciso falar-te a sós, mais a Tiago e a José. Saíram os irmãos, e a casa, um minuto antes atravancada de gente, ficou de repente vazia, apenas quatro pessoas sentadas no chão, Maria entre Tiago e José, Jesus diante deles.
Houve um longo silêncio, como se todos, de comum acordo, estivessem dando tempo aos indesejados ou não merecedores para que se afastassem até onde nem o eco de um grito pudesse chegar, enfim Jesus disse, deixando cair as palavras, Eu vi Deus. O primeiro sentimento legível nos rostos da mãe e dos irmãos foi de temor reverencial, o segundo de incredulidade cautelosa, depois, entre um e outro, perpassou algo como uma expressão de desconfiança malévola em Tiago, um assomo de excitação deslumbrada em José, um traço de amargor resignado em Maria. Nenhum deles falou, e Jesus repetiu, Eu vi Deus. Se um súbito instante de silêncio é, no dizer popular, consequência de ter passado um anjo, aqui não acabavam de passar, Jesus já dissera tudo, os parentes não sabiam que dizer, não tarda que se levantem e vá cada um à sua vida, perguntando-se se realmente teriam sonhado um sonho assim, tão impossível de acreditar. Tem, porém, o silêncio, se lhe dermos tempo, aquela virtude, que aparentemente o nega, de obrigar a falar. Por isso, quando já não se podia aguentar mais a tensão da espera, Tiago fez uma pergunta, a mais inócua de todas, pura e gratuita retórica, Tens a certeza. Jesus não respondeu, apenas o olhou como provavelmente Deus o olhara a ele de dentro da nuvem, e pela terceira vez disse, Eu vi Deus. Maria não fez perguntas, só disse, Terá sido uma ilusão tua, Mãe, as ilusões existem, mas as ilusões não falam, e Deus falou-me, respondeu Jesus. Tiago recobrara a presença de espírito, o caso parecia-lhe mais uma história de loucos, um irmão seu a falar com Deus, imagine-se o disparate, Quem sabe, então, se não foi o Senhor quem te pôs o dinheiro no alforge, e sorriu quando o disse, ironicamente. Jesus corou, mas respondeu com secura, Do Senhor nos vem tudo, sempre ele encontra e abre os caminhos para chegar até nós, e esse dinheiro, que em verdade não veio dele, por ele é que veio, E que foi que te disse o Senhor, onde estavas quanto o viste, dormias ou vigiavas, Estava no deserto, procurava uma ovelha e ele chamou-me, Que te disse, se te é permitido repeti-lo, Que um dia me pedirá a minha vida, Todas as vidas pertencem ao Senhor, Isso lhe disse, E ele, Que em troca da vida que lhe hei-de dar, terei poder e glória, Terás poder e glória depois de morreres, perguntou Maria, que julgara ter ouvido mal, Sim, mãe, Que glória, que poder poderá ser dado a alguém que morreu, Não sei, Estavas a sonhar, Estava acordado e procurava a minha ovelha no deserto, E quando te vai pedir o Senhor a tua vida, Não sei, mas disse-me que tornarei a encontrá-lo quando estiver preparado. Tiago olhou o irmão com expressão inquieta, depois lançou uma dúvida, O
sol do deserto fez-te mal à cabeça, foi o que foi, e Maria inesperadamente, E a ovelha, que aconteceu à ovelha, O Senhor mandou-me que lha sacrificasse como um sinal de aliança. Estas palavras indignaram Tiago, que protestou, Ofendes o Senhor, o Senhor fez uma aliança com o seu povo, não a ia fazer agora com um simples homem como tu, filho de carpinteiro, pastor e sabe-se lá que mais.
Maria, pela expressão do seu rosto, parecia que estivera seguindo, com muito cuidado, um fio de pensamento, como se temesse vê-lo partir-se diante dos seus olhos, mas ao fim dele encontrou a pergunta que tinha de fazer, Que ovelha era essa, Era o cordeiro que eu tinha comigo quando nos encontrámos em Jerusalém, na porta de Ramalá, afinal, o que eu tinha querido negar ao Senhor, o Senhor mo tomou das mãos, E Deus, como era Deus quando o viste, Uma nuvem, Fechada ou aberta, perguntou Tiago, Uma coluna de fumo, Estás louco, irmão, Se estou louco o Senhor me enlouqueceu, 103
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
Estás em poder do Diabo, disse Maria; e o seu dizer era um grito, Não foi o Diabo que eu encontrei no deserto, foi o Senhor, e se for verdade que em poder do Diabo estou, o Senhor o quis, O Diabo está contigo desde que nasceste, Tu o sabes, Sim, sei-o, viveste com ele e sem Deus durante quatro anos, E
ao fim de quatro anos com o Diabo encontrei-me com Deus, Estás a dizer horrores e falsidades, Sou o filho que tu puseste no mundo, crê em mim, ou rejeita-me, Não creio em ti, E tu, Tiago, Não creio em ti, E tu, José, que tens o nome do nosso pai, Eu creio em ti, mas não no que dizes. Jesus levantou-se, olhou-os do alto e disse, Quando em mim se cumprir a promessa que o Senhor fez, sereis obrigados a acreditar no que então de mim se disser. Foi buscar o alforge e o cajado, calçou as sandálias. Já à porta, dividiu o dinheiro em duas partes e disse, Este é o dote de Lísia, para a sua vida de casada, e dispô-lo no chão, moeda ao lado de moeda, na soleira da porta, o resto voltará às mãos donde veio, talvez lá se torne também em dote. Virou-se para a porta, ia sair sem despedir-se, e Maria disse, Reparei que não trazes no teu alforge uma tigela para servir-te, Tive-a, mas partiu-se, Estão aí quatro, escolhe uma e leva-a. Jesus ainda hesitou, queria ir de mãos vazias, mas foi ao forno, onde, postas umas sobre as outras, estavam as quatro tigelas. Escolhe uma, repetiu Maria. Jesus olhou, escolheu, Levo esta, que é a mais velha, Escolheste como te convinha, disse Maria, Porquê, Tem a cor da terra negra, não se parte nem se gasta. Jesus meteu a tigela no alforge, bateu com o cajado no chão, Dizei outra vez que não me creis, Não te cremos, disse a mãe, e agora menos que antes, porque escolheste o sinal do Diabo, De que sinal falas, Essa tigela. Neste momento, vindas do fundo profundo da memória, chegaram aos ouvidos de Jesus as palavras de Pastor, Terás uma outra tigela, mas essa não se há-de quebrar enquanto vivas. Uma corda parecia que fora estendida e esticada em todo o seu comprimento, e afinal o que temos aqui é um círculo, fechado com um nó que acaba de ser dado. Por segunda vez, Jesus saía de sua casa, mas agora não disse, Duma maneira ou doutra, sempre voltarei. O
que pensava, enquanto, voltadas as costas a Nazaré, ia descendo a primeira encosta da montanha, era bem mais simples e melancólico, se também Maria de Magdala não acreditaria nele. Este homem, que traz em si uma promessa de Deus, não tem outro sítio aonde ir se não a casa duma prostituta. Não pode regressar ao rebanho, Vai-te, disse-lhe Pastor, nem tornar à sua própria casa, Não te cremos, disse-lhe a família, e agora os seus passos hesitam, tem medo de ir, tem medo de chegar, é como se estivesse novamente no meio do deserto, Quem sou eu, os montes e os vales não lhe respondem, nem o céu que tudo cobre e tudo devia saber, se agora a casa voltasse e a pergunta repetisse, sua mãe dir-lhe-ia, És meu filho, mas não te creio, ora, sendo assim, é tempo de que Jesus se sente nesta pedra que aqui está à sua espera desde que o mundo é mundo, e nela sentado chore lágrimas de abandono e de solidão, quem sabe se o Senhor não resolverá aparecer-lhe outra vez, mesmo que seja em figura de fumo e de nuvem, a questão é que lhe diga, Homem, o caso não é para tanto, lágrimas, soluços, que é isso, todos nós temos os nossos maus bocados, mas há um ponto importante de que nunca falámos, digo-to agora, na vida, percebes, tudo é relativo, uma coisa má até pode tornar-se sofrível se a compararmos com uma coisa pior, portanto enxuga-me essas lágrimas e porta-te como um homem, já fizeste as pazes com o teu pai, que mais queres, e essa cisma da tua mãe, eu me encarrego quando chegar a altura, o que não me agradou muito foi a história com a Maria de Magdala, uma puta, mas enfim, estás na idade, aproveita, uma coisa não empata a outra, há um tempo para comer e um tempo para jejuar, um tempo para pecar e um tempo para ter medo, um tempo para viver e um tempo para morrer. Jesus enxugou as lágrimas às costas da mão, assoou-se sabe Deus a quê, em verdade não valia a pena ficar ali o dia todo, o deserto é como se vê, rodeia-nos, cerca-nos, de algum modo protege-nos, mas dar, não dá nada, apenas olha, e se o sol se cobriu de repente e por causa disso dizemos, O céu acompanha a minha dor, tolos somos, que o céu, nisso, é de uma perfeita imparcialidade, nem se alegra com as nossas alegrias nem se entristece com as nossas tristezas. Vem gente nesta direcção, a caminho de Nazaré, e Jesus não quer dar pasto aos risos, um homem inteiro e de barba na cara a chorar como uma criança que pede colo. Cruzam-se na estrada os raros viajantes, uns que sobem, outros que descem, saúdam-se com a conhecida exuberância, mas só depois de certificados da bondade das intenções, porque, nestas paragens, quando se fala de bandidos, tanto pode ser de uns como pode ser de outros. Há-os da espécie gatuna e salteadora, como aqueles malvados escarninhos que roubaram este mesmo Jesus vai para cinco anos, quando o pobre ia procurar em Jerusalém alívio para as suas penas, e há-os da digna espécie guerrilheira que, sendo certo não fazerem da estrada seu trânsito habitual, às vezes por aí aparecem, disfarçados, a espreitar as deslocações dos contingentes 104
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
militares dos romanos, com vista à próxima emboscada, ou então, de cara descoberta, para deixarem sem ouro nem prata, nem valor que se aproveite, os ricaços colaboracionistas, a quem, em geral, nem as nutridas escoltas que trazem conseguem livrar do enxovalho. Não teria Jesus os seus dezoito anos se alguns devaneios de bélica aventura não lhe perpassassem na imaginação diante destas solenes montanhas em cujas ravinas, grutas e desvãos se ocultam os continuadores das grandes lutas de Judas o Galileu e dos seus companheiros, e então pôs-se a futurar que decisão tomaria se lhe saísse ao caminho um destacamento de guerrilheiros a desafiá-lo para que se juntasse a eles, trocando as amenidades da paz, mesmo necessitada, pela glória das batalhas e pelo poder de vencedor, pois escrito está que um dia a vontade do Senhor suscitará um Messias, um Enviado, para que, de uma vez, fique o seu povo liberto das opressões de agora e fortalecido para os combates do futuro. Uma lufada de louca esperança e de irresistível orgulho sopra, como um sinal do Espírito, a fronte de Jesus, e o filho do carpinteiro vê-se, pelo tempo de uma rápida vertigem, capitão, general e mando supremo, de espada ao alto, espavorindo, com a sua simples aparição, as legiões romanas, lançadas aos precipícios como varas de porcos possessos de todos os demónios, senatus populusque romanus, pois então. Ai de nós, que no instante seguinte se lembrou Jesus de que o poder e a glória lhe estão prometidos, sim, mas para depois da sua morte, posto o que o melhor é que aproveite a vida, e se tivesse de ir à guerra, uma condição lhe poria, que, havendo tréguas, pudesse ir-se das fileiras para estar uns dias com Maria de Magdala, salvo se nas hostes dos patriotas se admitem vivandeiras de um soldado só, que mais do que isso seria prostituição, e Maria de Magdala já disse que se acabou. Esperemos que sim, porque a Jesus lhe entraram renovadas forças com a lembrança dessa mulher que o curou de uma dolorosa chaga, pondo no seu lugar a insofrida ferida do desejo, e a pergunta é esta, como vai ele enfrentar-se com a porta fechada e assinalada, sem a certeza certa de que por trás dela só encontrará o que imagina ter deixado, alguém que alimenta uma exclusiva espera, a do seu corpo e da sua alma, que Maria de Magdala não aceita uma coisa sem outra. A tarde descai, as casas de Magdala já se vêem ao longe, reunidas como um rebanho, mas a de Maria é como a ovelha que se afastou, não é possível distingui-la daqui, entre as grandes pedras que ladeiam o caminho, curva após curva. Por momentos, Jesus lembrou-se da ovelha, aquela que teve de matar para selar com sangue a aliança que o Senhor lhe impôs, e o seu espírito, agora desligado de batalhas e triunfos, todo se comoveu à ideia de que a estava procurando outra vez, a sua ovelha, não para a matar, não para a levar de novo ao rebanho, mas para juntos subirem aonde se encontram as pastagens virgens, que as há ainda, se procurarmos bem, no vasto e cruzado mundo, e, nas ovelhas que somos, os desfiladeiros indevassados, se procurarmos melhor. Jesus parou diante da porta, com mão discreta verificou que está fechada por dentro. O sinal continua dependurado, Maria de Magdala não recebe. A Jesus bastaria chamar, dizer, Sou eu, e de dentro ouvir-se-ia o canto jubiloso, Esta é a voz do meu amado, ei-lo que veio saltando sobre os montes, pulando sobre os outeiros, ei-lo atrás dos nossos muros, atrás desta porta, sim, mas Jesus preferirá bater nela com o punho, uma vez, duas vezes, sem falar, e esperar que lhe venham abrir, Quem é e o que quer, perguntaram de dentro, foi então que Jesus teve uma má ideia, disfarçar a voz e proceder como cliente que trouxesse dinheiro e urgência, dizer, por exemplo, Abre, flor, que não te arrependerás, nem do pago, nem do serviço, e é certo que a fala lhe saiu mentirosa, porém as palavras tiveram de ser as verdadeiras, Sou Jesus, de Nazaré. Tardou Maria de Magdala a vir abrir, por suspeita da voz que não condizia com o anúncio, mas também por lhe parecer impossível que já estivesse de volta, passada apenas uma noite, passado um dia, o homem que lhe prometera, Um dia destes virei visitar-te, de Nazaré a Magdala não é longe, quantas vezes se disseram coisas assim, só para comprazer a quem nos ouve, um dia destes poderá significar daqui por três meses, mas nunca amanhã. Maria de Magdala abre a porta, lança-se aos braços de Jesus, nem quer acreditar em tamanha felicidade, e a sua comoção é tal que a leva, absurdamente, a imaginar que ele voltou por se lhe ter aberto novamente a chaga do pé, e é a pensar nisto que o conduz para dentro, que o senta e aproxima uma luz, O teu pé, mostra-me o teu pé, mas Jesus diz-lhe, O meu pé está curado, não vês. Maria de Magdala poderia ter-lhe respondido, Não, não vejo, porque essa era a verdade extrema dos seus olhos rasos de lágrimas. Precisou tocar com os lábios o dorso do pé coberto de poeira, desatar cuidadosamente os atilhos que cingiam a sandália ao tornozelo, afagar com a ponta dos dedos a fina pele renovada, para confirmar-se nas esperadas virtudes lenitivas do unguento e, no mais íntimo dos pensamentos, admitir que o seu amor alguma parte podia ter tido na cura. Enquanto cearam, Maria de 105
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
Magdala não fez perguntas, quis apenas saber, e isso, escusado seria dizê-lo, não era perguntar, se lhe correra bem a viagem, se tivera maus encontros no caminho, trivialidades, coisas assim. Terminada a refeição, calou-se, abriu e manteve um espaço de silêncio, porque já não era a sua vez de falar. Jesus olhou-a fixamente, como se estivesse no alto duma rocha a medir as suas forças com o mar, não por temer que na lisa superfície se ocultassem animais devorantes ou recifes rasgadores, mas como quem, simplesmente; interroga a sua própria coragem de saltar. Conhece esta mulher há uma semana, tempo e vida bastantes para saber que se for para ela encontrará uns braços abertos e um corpo oferecido, mas amedronta-o revelar-lhe, porque o momento sem dúvida é chegado, o que ainda há tão poucas horas foi objecto de rejeição por aqueles que, sendo da sua carne, deveriam ser também do seu espírito. Jesus hesita, procura o caminho por onde há-de levar as palavras e o que lhe sai não é a longa explicação necessária, mas uma frase para ganhar tempo, se não é mais exacto dizer perdê-lo, Não estranhaste ter eu vindo tão cedo, Comecei a esperar-te quando partiste, não contei o tempo entre ires e voltares, como também não o contaria se tivesses demorado dez anos. Jesus sorriu, fez um movimento com os ombros, já devia saber que para esta mulher não serviam fingimentos ou palavras evasivas. Estavam sentados no chão, frente a frente, com uma luz no meio, o que sobrara da comida.
Jesus tomou um pedaço de pão, partiu-o em duas partes, e disse, dando uma delas a Maria, Que este seja o pão da verdade, comamo-lo para que creiamos e não duvidemos, seja o que for que aqui dissermos e ouvirmos, Assim seja, disse Maria de Magdala. Jesus acabou de comer o pão, esperou que ela terminasse também, e disse, pela quarta vez, as palavras, Eu vi Deus. Maria de Magdala não se alterou, apenas as mãos que tinha cruzadas no regaço se moveram um pouco, e perguntou, Era isso o que tinhas para dizer-me se nos voltássemos a encontrar, Sim, e mais quanto me aconteceu desde que de casa saí, há quatro anos, que estas coisas me parece que estão todas ligadas uma às outras, mesmo não sabendo eu explicar porquê nem para quê, Sou como a tua boca e os teus ouvidos, respondeu Maria de Magdala, o que disseres estarás a dizê-lo a ti mesmo, eu apenas sou a que está em ti. Agora Jesus já pode começar a falar, porque ambos comeram do pão da verdade, e em verdade não são muitas na vida as horas como esta. A noite tornou-se madrugada, a luz da candeia duas vezes morreu e duas vezes ressuscitou, toda a história de Jesus que já conhecemos foi ali narrada, incluindo, até, certos pormenores que então não achámos que merecessem a pena, e muitos e muitos pensamentos que deixámos escapar, não porque Jesus no-los disfarçasse, mas simplesmente porque não podíamos, nós, evangelista, estar em todo o lado. Quando, numa voz que de repente se tornara cansada, Jesus ia começar a dizer o que sucedera depois do seu regresso a casa, o desgosto fê-lo hesitar, como lá o fizera parar aquele obscuro pressentimento antes de bater à porta, e Maria de Magdala, rompendo pela primeira vez o silêncio, perguntou, contudo no tom de quem antecipadamente conhece a resposta, Tua mãe não acreditou em ti, Assim é, respondeu Jesus, E por isso voltaste a esta outra casa, Sim, Quem me dera poder mentir-te, para te dizer que também não acredito, Porquê, Porque tornarias a fazer o que fizeste, ir-te-ias daqui como te foste de tua casa, e eu, não te crendo, não teria de seguir-te, Isso não responde à minha pergunta, Tens razão, não responde, Então, Se eu não acreditasse em ti, não teria de viver contigo as coisas terríveis que te esperam, E
como podes saber tu que me esperam coisas terríveis, Não sei nada de Deus, a não ser que tão assustadoras devem ser as suas preferências como os seus desprezos, Onde foste buscar tão estranha ideia, Terias de ser mulher para saberes o que significa viver com o desprezo de Deus, e agora vais ter de ser muito mais que um homem para viveres e morreres como seu eleito, Queres assustar-me, Vou-te contar um sonho que tive, uma noite apareceu-me em sonho um menino, de repente apareceu vindo de parte nenhuma, apareceu e disse Deus é medonho, disse-o e desapareceu, não sei quem fosse aquela criança, donde veio e a quem pertencia, Sonhos, Ninguém menos do que tu pode dizer a palavra nesse tom, E depois, que aconteceu, Depois comecei a ser prostituta, Já deixaste tal vida, Mas o sonho não foi desmentido, nem mesmo depois que te conheci, Diz-me outra vez, como foram as palavras, Deus é medonho. Jesus viu o deserto, a ovelha morta, o sangue na areia, ouviu a coluna de fumo suspirando de satisfação, e disse, Talvez, talvez, porém uma coisa é ouvi-lo em sonho, outra será vivê-lo em vida, Prouvera a Deus que o não viesses a saber, Cada um tem de viver o seu destino, E do teu já tu recebeste o primeiro aviso solene. Sobre Magdala e o mundo, gira lentamente a cúpula de um céu crivado de estrelas. Em algum lugar do infinito, ou infinitamente o preenchendo, Deus faz avançar e recuar as peças doutros jogos que joga, é demasiado cedo para preocupar-se com este, agora 106
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
só tem de deixar que os acontecimentos sigam naturalmente o seu curso, apenas uma vez ou outra dará com a ponta do dedo mindinho um toque a propósito para que algum acto ou pensamento desgarrados não quebrem a implacável harmonia dos destinos. Por isto é que não cura de interessar-se pelo resto da conversa que Jesus e Maria de Magdala prosseguem, E agora, que pensas fazer, perguntou ela, Disseste que irias comigo para onde eu fosse, Disse que estaria contigo onde tu estivesses, Qual é a diferença, Nenhuma, mas podes ficar aqui pelo tempo que quiseres, se não te importa viver comigo na casa onde fui prostituta. Jesus pensou, ponderou, finalmente disse, Buscarei onde trabalhar em Magdala e viveremos juntos como marido e mulher, Prometes demasiado, já é bastante que me deixes estar ao pé de ti. Trabalho, Jesus não teve, mas teve o que deveria ter esperado, risos, chufas e insultos, realmente o caso não era para menos, um homem, pouco mais do que adolescente na idade, a viver com a Maria de Magdala, aquela gaja, Deixem vocês passar uns dias e ainda o vamos ver sentado à porta de casa, à espera que saia o cliente. Duas semanas se aguentou a troça, mas ao cabo Jesus disse a Maria, Vou-me embora daqui, Para onde, Para a borda do mar.
Partiram de madrugada, e os habitantes de Magdala não chegaram a tempo de aproveitar alguma coisa na casa que ardia. Passados meses, numa chuvosa e fria noite de inverno, um anjo entrou em casa de Maria de Nazaré, e foi o mesmo que se não tivesse entrado ninguém, pois a família assim como estava assim se deixou ficar, só Maria deu pela chegada do visitante, que nem teria podido ela dar-se por desentendida, uma vez que o anjo lhe dirigiu directamente a palavra, e foi assim, Deves saber, ó Maria, que o Senhor pôs a sua semente de mistura com a semente de José na madrugada em que concebeste pela primeira vez, e que, por conseguinte e consequência, dela, da do Senhor, e não da do teu marido, ainda que legítimo, é que foi engendrado o teu filho Jesus. Ficou Maria muito assombrada com a notícia, cuja substância, felizmente, não se perdeu na elocução confusa do anjo, e perguntou, Então Jesus é filho de mim e do Senhor, Mulher, que falta de educação, deves ter cuidado com as hierarquias, com as precedências, do Senhor e de mim é que deverias dizer, Do Senhor e de ti, Não, do Senhor e de ti, Não me baralhes a cabeça, responde-me ao que te perguntei, se Jesus é filho, Filho, o que se chama filho, é só do Senhor, tu, para o caso, não passaste de ser uma mãe portadora, Então, o Senhor não me escolheu, Qual quê, o Senhor ia só a passar, quem estivesse a olhar tê-lo-ia percebido pela cor do céu, mas reparou que tu e José eram gente robusta e saudável, e então, se ainda te lembras de como estas necessidades se manifestavam, apeteceu-lhe, o resultado foi, nove meses depois, Jesus, E há a certeza, o que se chame certeza, de que tenha sido mesmo a semente do Senhor que engendrou o meu primeiro filho, Bom, a questão é melindrosa, o que tu estás a pretender de mim é, sem tirar nem pôr, uma investigação de paternidade, quando a verdade é que, nestes conúbios mistos, por muitas análises, por muitos testes, por muitas contagens de glóbulos que se façam, certezas nunca as podemos ter absolutas, Pobrezinha de mim, que cheguei a imaginar, ouvindo-te, que o Senhor me havia escolhido para ser a sua esposa naquela madrugada, e afinal foi tudo obra de um acaso, tanto poderá ser que sim como poderá ser que não, digo-te até que melhor seria não teres descido aqui na Nazaré para vires deixar-me nesta dúvida, aliás, se queres que te fale com franqueza, um filho do Senhor, mesmo tendo-me a mim como mãe, dávamos por ele logo ao nascer, e quando crescesse teria, do mesmo Senhor, o porte, a figura e a palavra, ora, ainda que se diga que o amor de mãe é cego, o meu filho Jesus não satisfaz as condições, Maria, o teu primeiro grande engano é julgares que eu vim cá apenas para te falar desse antigo episódio da vida sexual do Senhor, o teu segundo grande engano é pensares que a beleza e a facúndia dos homens existem à imagem e semelhança do Senhor, quando o sistema do Senhor, digo-to eu que sou da casa, é ele ser sempre o contrário de como os homens o imaginam, e, aqui muito em confidência, eu até acho que o Senhor não saberia viver doutra maneira, a palavra que mais vezes lhe sai da boca não é o sim, mas o não, Sempre ouvi eu dizer que o Diabo é que é o espírito que nega, Não, minha filha, o Diabo é o espírito que se nega, se no teu coração não deres pela diferença, nunca saberás a quem pertences, Pertenço ao Senhor, Pois é, dizes que pertences ao Senhor e caíste no terceiro e maior dos enganos, que foi o de não teres acreditado no teu filho, Em Jesus, Sim, em Jesus, nenhum dos outros viu Deus, ou alguma vez o verá, Diz-me, anjo do Senhor, é mesmo verdade que meu filho Jesus viu Deus, Sim, e, como uma criança que encontrou o seu primeiro ninho, veio a correr mostrar-to, e tu, céptica, e tu, desconfiada, disseste que não podia ser verdade, que se ninho havia estava vazio, que se ovos tinha, eram goros, e que se os não tinha, comera-os a serpente, Perdoa-me, meu anjo, por ter duvidado, Agora não sei se estás a falar comigo, 107
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
ou com o teu filho, Com ele, contigo, com ambos, que posso eu fazer para emendar o mal feito, Que é que te aconselharia o teu coração de mãe, Que fosse procurá-lo, dizer-lhe que creio nele, pedir que me perdoe e volte para casa, aonde o Senhor o virá chamar, em chegando a hora, Francamente, não sei se vais a tempo, não há nada mais sensível do que um adolescente, arriscas-te a ouvir más palavras e a levar com a porta na cara, Se tal acontecer, a culpa tem-na aquele demónio que o embruxou e perdeu, nem sei como o Senhor, sendo pai, lhe consentiu tais liberdades, tanta rédea solta, De que demónio falas, Do pastor com quem o meu filho andou durante quatro anos, a governar um rebanho que ninguém sabe para que serve, Ah, o pastor, Conhece-lo, Andámos na mesma escola, E o Senhor permite que um demónio como ele perdure e prospere, Assim o exige a boa ordem do mundo, mas a última palavra será sempre a do Senhor, só não sabemos é quando a proferirá, mas vais ver que uma manhã destas acordamos e descobrimos que não há mal no mundo, e agora devo ir-me, se tens mais algumas perguntas a fazer, aproveita, Só uma, óptimo, Para que quer o Senhor o meu filho, Teu filho é uma maneira de dizer, Aos olhos do mundo Jesus é meu filho, Para que o quer, perguntas tu, pois olha que é uma boa pergunta, sim senhor, o pior é que não sei responder-te, a questão, no estado actual, é toda entre eles dois, e Jesus não creio que saiba mais do que a ti te terá dito, Disse-me que terá poder e glória depois de morrer, Dessa parte também estou informado, Mas que irá ele ter de fazer em vida para merecer as maravilhas que o Senhor lhe prometeu, Ora, ora, tu crês, ignorante mulher, que essa palavra exista aos olhos do Senhor, que possa ter algum valor e significado o que presunçosamente chamais merecimentos, em verdade não sei que é que vos-julgais, quando não passais de míseros escravos da vontade absoluta de Deus, Nada mais direi, sou realmente a escrava do Senhor, cumpra-se em mim segundo a sua palavra, diz-me só, depois de todos estes meses passados, onde poderei encontrar o meu filho, Procura-o, que é a tua obrigação, ele também foi à procura da ovelha perdida, Para matá-la, Sossega, que a ti não te matará, mas tu, sim, o matarás a ele, não estando presente na hora da sua morte, Como sabes que não morrerei eu primeiro, Estou bastante próximo dos centros de decisão para sabê-lo, e agora adeus, fizeste as perguntas que querias, talvez não tenhas feito alguma que devias, mas isso é assunto que já não me diz respeito, Explica-me, Explica-te tu a ti própria. Com a última palavra, o anjo desapareceu e Maria abriu os olhos. Todos os filhos dormiam, os rapazes em dois grupos de três, Tiago, José e Judas, os mais velhos, a um canto, noutro canto os mais novos, Simão, Justo e Samuel, e com ela, uma de cada lado, como de costume Lísia e Lídia, mas os olhos de Maria, perturbados ainda pelos anúncios do anjo, arregalaram-se-lhe de repente, estarrecidos, ao ver que Lísia estava toda descomposta, praticamente nua, a túnica arregaçada por cima dos seios, e dormia profundamente, e suspirava sorrindo, com o brilho de um leve suor na testa e sobre o lábio superior, que parecia mordido de beijos. Se não fosse a certeza de ter estado ali apenas um anjo conversador, os sinais mostrados por Lísia fariam gritar e clamar que um demónio íncubo, desses que acometem maliciosamente as mulheres adormecidas, andara a fazer das suas no desprevenido corpo da donzela, enquanto a mãe se deixava distrair com a conversa, provavelmente foi sempre assim e nós que não o sabíamos, andarem estes anjos aos pares para onde quer que vão, e enquanto um, para entreter e fazer costas, se põe a contar histórias da Carochinha, o outro, calado, opera o actus nefandus, maneira de dizer, que nefando em rigor não é, tudo indicando que na vez seguinte se trocarão as funções e as posições para que não se perca, nem no sonhador nem no sonhado, o beneficioso sentido da dualidade da carne e do espírito. Maria cobriu a filha como pôde, puxando-lhe a túnica até à altura do que é impróprio estando descoberto, e, quando a teve decente, acordou-a e perguntou-lhe em voz baixa, por assim dizer à queima-roupa, Que estavas a sonhar.
Apanhada de surpresa, Lísia não podia mentir, respondeu que sonhara com um anjo, mas que o anjo nada lhe dissera, apenas olhara para ela, e era um olhar tão meigo e tão doce que melhores não poderão ser os olhares no paraíso. Não te tocou, perguntou Maria, e Lísia respondeu, Ó minha mãe, os olhos não servem para isso. Sem bem saber se devia tranquilizar-se ou preocupar-se com o que se passara a seu lado, Maria, em voz ainda mais baixa, disse, Eu também sonhei com um anjo, E o teu, falou, ou também esteve calado, perguntou Lísia, inocentemente, Falou para me dizer que teu irmão Jesus dissera a verdade quando nos anunciou que tinha visto Deus, Ai, minha mãe, que mal fizemos então, não acreditámos na palavra de Jesus, e ele tão bom, que, de zangado, até podia ter levado o dinheiro do meu dote, e não o fez, Agora temos de ver como o remediaremos, Não sabemos onde está, notícias não deu, o anjo é que bem podia ter ajudado, sabem tudo, os anjos, Pois não, não ajudou, só 108
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
me disse que procurássemos o teu irmão, que era esse o nosso dever, Mas, ó minha mãe, se afinal foi verdade que o mano Jesus esteve com o Senhor, então a nossa vida, daqui por diante, vai ser diferente, Diferente, talvez, mas para pior, Porquê, Se nós não acreditámos em Jesus nem na sua palavra, como esperas que os outros acreditem, com certeza não quererás que vamos aí pelas ruas e praças de Nazaré a apregoar Jesus viu o Senhor Jesus viu o Senhor, seríamos corridas à pedrada, Mas o Senhor, visto que o escolheu, nos defenderia, que somos a família, Não estejas tão certa disso, quando o Senhor fez a sua escolha, nós não estávamos lá, para o Senhor não há pais nem filhos, lembra-te de Abraão, lembra-te de Isaac, Ai, mãe, que aflição, O mais prudente, filha, é guardarmos estas coisas nos nossos corações e falarmos delas o menos possível, Então, que faremos, Amanhã mandarei Tiago e José a procurar Jesus, Mas onde, se a Galileia é imensa, e a Samaria, se para lá foi, ou a Judeia, ou a Idumeia, que essa está no cabo do mundo, O mais provável é teu irmão ter ido para o mar, recorda-te do que ele nos disse quando veio, que tinha andado com uns pescadores, E não teria antes voltado para o rebanho, Esse tempo acabou, Como sabes, Dorme, que a manhã ainda vem longe, Pode ser que tornemos a sonhar com os nossos anjos, Pode ser. Se o anjo de Lísia, acaso tendo fugido à companhia do parceiro, veio habitar-lhe outra vez o sono, não se chegou a perceber, mas o anjo do anúncio, mesmo se se esqueceu de algum pormenor, não pôde voltar, porque Maria esteve sempre de olhos abertos na meia escuridão da casa, o que sabia sobrava-lhe, o que adivinhava temia. Nasceu o dia, enrolaram-se as esteiras, e Maria, diante da família reunida, fez saber que tendo pensado muito nos últimos tempos sobre o modo como haviam procedido com Jesus, A começar por mim, que, sendo a mãe, deveria ter sido mais benévola e compreensiva, cheguei a uma conclusão muito clara e justa, de que deveremos ir procurá-lo e pedir-lhe que torne a casa, pois nele cremos e, querendo-o o Senhor, viremos a crer no que nos disse, foram estas as palavras de Maria, que não deu fé de estar a repetir o que havia dito o seu filho José, ali presente, na hora dramática da rejeição, quem sabe se Jesus ainda aqui não estaria hoje se aquele murmúrio discreto, que o foi, de facto, embora na altura não o tivéssemos feito notar, se tivesse tornado em voz de todos. Maria não falou de anjo nem de anúncio de anjo, apenas do simples dever de todos para com o primogénito. Não ousou Tiago pôr em dúvida os pontos de vista novos, ainda que, lá no íntimo, não arredasse pé da convicção de que o irmão estava falho do juízo, ou, quando muito, eventualidade sempre a ter em conta, fora objecto duma repugnante mistificação de gente ímpia. Prevendo já a resposta, perguntou, E quem, dos que aqui estão, irá procurar o mano Jesus, Tu irás, que és o irmão a seguir, e José irá contigo, juntos andareis mais seguros, Por onde começaremos a procurar, Pelo mar da Galileia, tenho a certeza de que aí o encontrareis, Quando partimos, Passaram meses depois que Jesus se foi, não devemos perder nem mais um dia, Chove muito, minha mãe, o tempo não está bom para viagem, Filho, a ocasião pode sempre criar uma necessidade, mas se a necessidade é forte, terá de ser ela a fazer a ocasião. Os filhos de Maria olharam-na surpreendidos, em verdade não estavam habituados a ouvir da boca da mãe sentenças tão acabadas, ainda são muito novos para saberem que a frequentação dos anjos produz destes e doutros ainda melhores resultados, a prova, sem que os de mais o suspeitem, está Lísia a dá-
la neste mesmo momento, pois outra coisa não significa o seu lento, sonhador movimento afirmativo de cabeça. Terminou o conselho de família, Tiago e José foram ver se os meteoros do ar estavam de feição, que, tendo eles de ir à descoberta de um irmão em tempo tão ruim, ao menos que pudessem sair ao campo numa estiada, ora foi o caso tal que pareceu que estivera a ouvi-los o céu, pois justamente do lado do mar da Galileia se estava agora abrindo um azul aguado que parecia prometer uma tarde aliviada da chuva. Feitas as despedidas dentro da casa, discretamente, por entender Maria que não tinham os vizinhos que saber mais do que convinha, partiram enfim os dois irmãos, não pelo caminho que a Magdala levava, pois não tinham motivo para pensar que Jesus seguira essa direcção, mas por um outro, o que, directamente, e com maior comodidade, os levaria à nova cidade de Tiberíades. Iam descalços porque, com os caminhos transformados num lamaçal, em pouco tempo se lhes cairiam desfeitas dos pés as sandálias, agora a salvo nos alforges, à espera de tempo mais benigno. Duas boas razões teve Tiago para escolher a estrada de Tiberíades, sendo a primeira a sua própria curiosidade de aldeão que ouvira falar de palácios, templos e outras grandezas similares em construção, e a segunda estar situada a cidade, segundo ouvira contar, entre os extremos norte e sul da margem de cá, mais ou menos a meio caminho. Como teriam de ganhar a vida enquanto durasse a busca, esperava Tiago que fosse fácil arranjarem trabalho nas obras da cidade, apesar do que diziam 109
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
os judeus devotos de Nazaré, que o local era impuro por causa dos ares malsãos e das águas sulfurosas que havia ali por perto. Não puderam chegar a Tiberíades ainda nesse dia porque as promessas do céu, afinal, não se cumpriram, não passara ainda uma hora de caminho começou a chover, e muita sorte foi terem encontrado uma cova onde felizmente couberam e se abrigaram antes que a chuva tivesse maneira de levá-los de enxurrada. Ali dormiram, e, na manhã do dia seguinte, tornados desconfiados pela experiência, tardaram a convencer-se de que o tempo melhorara para valer e de que poderiam chegar a Tiberíades com a roupa do corpo mais ou menos enxuta. O trabalho que arranjaram nas obras foi o de acarretar pedra, que para mais não dava o saber de um e do outro, felizmente que ao cabo de uns poucos dias encontraram que já tinham ganho o suficiente, não porque o rei Herodes Ântipas fosse generoso pagador, mas porque, sendo tão poucas e tão pouco instantes as necessidades, com elas se podia viver sem ter de satisfazê-las por completo. Logo nesta Tiberíades perguntaram se ali estivera ou por ali tinha passado um tal Jesus de Nazaré, que é nosso irmão, de figura assim assim, modos assim assado, se anda acompanhado, isso é que nós não sabemos.
Disseram-lhes que naquela obra não, e eles deram a volta a todos os estaleiros da cidade, até se certificarem de que Jesus nunca aqui havia estado, o que nem era tanto para admirar, pois se o irmão decidira regressar ao seu começado ofício de pescador, com certeza não ia deixar-se ficar, tendo o mar ali à vista, a penar entre duras pedras e duríssimos capatazes. Com o dinheiro ganho, ainda que escasso, a questão que tinham de resolver agora era se a busca ao longo da margem, povoado a povoado, companha a companha, barco a barco, deveria continuar para o norte ou para o sul. Tiago acabou por escolher o sul por lhe parecer ser mais fácil caminho, quase raras as margens, enquanto para norte a orografia se tornava mais acidentada. O tempo estava seguro, o frio suportável, fora-se a chuva, e quaisquer sentidos da natureza mais experientes do que os destes dois moços seriam mesmo capazes de perceber, pelo cheiro dos ares e palpitar do chão, uns primeiros tímidos indícios de primavera. A busca do irmão pelos irmãos, por razões superiores ordenada, estava a transformar-se em excursão amável e egoísta, passeio ao campo, férias na praia, pouco parecia faltar já para que Tiago e José se esquecessem do que tinham vindo fazer para estes lados, quando, de repente, logo nos primeiros pescadores que encontraram, souberam notícias de Jesus, e ainda por cima dadas da mais estranha maneira, pois estas foram as palavras dos homens, Vimo-lo, sim, e conhecemo-lo, e se andais em busca dele dizei-lhe, se o encontrardes, que aqui o estamos esperando como quem espera o pão de cada dia. Assombraram-se os dois irmãos e não puderam acreditar que os pescadores estivessem a falar da pessoa de Jesus, ou então seria outro o Jesus que eles conheciam, Pelos sinais que nos destes, responderam os pescadores, é o mesmo Jesus, se veio de Nazaré não sabemos, que ele não o disse, E
por que dizeis que o esperais como ao pão de cada dia, perguntou Tiago, Porque, estando ele dentro de um barco, sempre o peixe vem às redes como nunca em tempo nenhum se viu, Mas o nosso irmão não tem artes bastantes de pescador, logo não é o mesmo Jesus, Nem nós dissemos que este Jesus tem arte de pescador, ele não pesca, apenas diz Lançai a rede deste lado, e nós lançamos e a rede vem cheia, Sendo assim, por que não está ele convosco, Porque se vai embora passados uns dias, diz que tem de ir ajudar outros pescadores, e realmente assim é, pois connosco já esteve três vezes e de cada vez disse que voltava, E agora, onde está ele, Não sabemos, da última vez que aqui esteve foi para o sul, mas também pode ser que tenha ido para o norte sem que nós nos apercebêssemos, ele aparece e desaparece segundo a sua vontade. Disse Tiago para José, Vamos nós então para o sul, pelo menos já sabemos que o nosso irmão anda por esta borda do mar. Parecia fácil, mas há que atender que, ao passarem, Jesus podia estar ao largo numa barca, entregue a uma das suas miraculosas pescas, em geral não damos importância a estes pormenores, mas o destino não é nada do que julgamos, pensamos que está tudo determinado desde um princípio qualquer, quando a verdade é muito diferente, repare-se que para que possa cumprir-se o destino de um encontro de umas pessoas com outras, como no caso de agora, é preciso que elas consigam encontrar-se num mesmo ponto e à mesma hora, o que custa não pouco trabalho, bastava que nos demorássemos, pouco que fosse, a olhar uma nuvem no céu, a escutar o canto duma ave, a contar as entradas e saídas de um formigueiro, ou, pelo contrário, que por distracção não olhássemos nem ouvíssemos nem contássemos e seguíssemos adiante, e lá se deitava a perder o que tão bem ensejado parecia, o destino é o mais difícil que há no mundo, mano José, já verás quando chegares à minha idade. Postos assim de sobreaviso, os dois irmãos iam olhando com mil olhos, faziam paragens no caminho à espera de ver regressar um barco 110
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
que se demorava, e algumas vezes voltaram subitamente para trás, na mira de surpreenderem pelas costas um possível aparecimento de Jesus em local inesperado. Assim chegaram ao fim do mar.
Passaram o rio Jordão para o outro lado e aos primeiros pescadores que encontraram perguntaram por Jesus. Tinham ouvido falar, sim senhor, dele e da sua magia, mas por ali não aparecera. Tornaram Tiago e José sobre os seus passos, rumo ao norte, redobrando de atenção, também eles como pescadores que fossem levando uma rede de arrasto, na esperança de levantarem o rei dos peixes.
Uma noite que dormiram no caminho, fizeram quartos de sentinela, não fosse aproveitar Jesus a claridade do luar para ir de um sítio para outro, pela calada. Andando e perguntando chegaram à altura de Tiberíades, aonde não precisaram subir a buscar trabalho, pois ainda não se lhes acabara o dinheiro, para o que concorrera a hospitalidade dos pescadores que lhes davam peixe, o que fez dizer uma vez a José, Mano Tiago, já pensaste que este peixe que estamos a comer pode ter sido pescado pelo nosso irmão, e Tiago respondeu, Não sabe melhor por isso, palavras más que não se esperariam de um amor fraternal, mas que a irritação de quem anda à procura de uma agulha num palheiro, salvo seja, justifica. Encontraram Jesus aí a uma hora de caminho, hora das nossas, queremos dizer, depois de Tiberíades. O primeiro a avistá-lo foi José, que tinha uns olhos finíssimos a ver ao longe, É ele, além, exclamou. Realmente vêm nesta direcção duas pessoas, mas uma é mulher, e Tiago diz, Não é ele. Um irmão mais novo nunca teima com um irmão mais velho, mas José, de contentamento, não está disposto a respeitar normas nem conveniências, Digo-te que é ele, Mas vem lá uma mulher, Vem lá uma mulher, e vem um homem, e o homem é Jesus. Pelo carreiro ao longo da margem, num campo que aqui era plano, entre duas colinas cujos sopés quase tocavam a água, vinham caminhando Jesus e Maria de Magdala. Tiago parou, à espera, e disse a José que ficasse com ele. O moço obedeceu, contrariado, porque o seu desejo era correr para o irmão finalmente encontrado, abraçá-lo, saltar-lhe ao pescoço. A Tiago perturbava-o a criatura que vinha com Jesus, quem seria, não queria acreditar que o irmão já conhecesse mulher, mas sentia que essa simples probabilidade o colocava, a si, a uma distância infinita do primogénito, como se Jesus, que se gloriara de ter visto Deus, só por esta razão, afinal, de conhecer mulher, é que pertencesse a um mundo definitivamente outro. De uma reflexão se vai à seguinte, e muitas vezes chega-se lá sem dar pelo caminho que uniu as duas, é como ir de uma margem à outra de um rio por uma ponte coberta, vínhamos andando e não víamos para onde, passámos um rio que não sabíamos existir, assim foi que Tiago, sem perceber como, se achou a pensar que não era próprio ter-se deixado ali ficar parado, como se ele é que fosse o primogénito a quem o irmão devesse vir saudar. O seu movimento libertou José, que correu para Jesus de braços abertos, com gritos de pura alegria, fazendo levantar um bando de aves que, escondidas pelas ervas altas da margem, catavam no lodo o sustento. Tiago apressou o passo para impedir que José tomasse à sua conta recados que só a si pertenciam, em pouco tempo estava diante de Jesus e dizia, Graças dou ao Senhor por haver querido que encontrássemos o irmão que buscávamos, e Jesus respondeu, Graças dou por vos ver de boa saúde. Maria de Magdala parara, um pouco atrás. Jesus perguntou, Que viestes fazer a estes lugares, irmãos, e Tiago disse, Afastemo-nos um pouco a esta parte para que em sossego possamos falar, Em sossego já estamos, respondeu Jesus, e se por causa desta mulher é que o disseste, fica sabendo que tudo quanto tenhas para informar-me, e eu queira ouvir de ti, o pode ouvir ela também como se fosse eu próprio. Houve um silêncio tão denso, tão alto, tão profundo que parecia que era um silêncio do mar e dos montes concertados, e não o de quatro simples pessoas frente a frente, tomando forças. Jesus parecia ainda mais homem do que antes, mais escuro de pele, mas quebrara-se-lhe a febre do olhar, e o rosto, sob a espessa barba negra, mostrava-se apaziguado, tranquilo, apesar da visível crispação causada pelo encontro inesperado. Quem é essa mulher, perguntou Tiago, Chama-se Maria e está comigo, respondeu Jesus, Casaste-te, Sim, mas não, não, mas sim, Não compreendo, Nem eu contava que compreendesses, Devo falar-te, Fala, então, Trago recado da nossa mãe, Estou a ouvir-te, Preferia dar-to a sós, Ouviste o que eu disse. Maria de Magdala deu dois passos, Posso retirar-me para onde não vos oiça, disse, Não há na minha alma um pensamento que não conheças, é portanto justo que saibas que pensamentos teve minha mãe a meu respeito, assim poupar-me-ás o trabalho de tos contar depois, respondeu Jesus. A irritação fez subir o sangue à cara de Tiago, que deu um passo atrás, como para retirar-se, ao mesmo tempo que lançava a Maria de Magdala um olhar de cólera, mas onde se percebia também um sentimento confuso, de cobiça e rancor. No meio dos dois, José estendia as mãos para retê-los, era tudo quanto podia fazer.