José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
mãe, pois já se sabe que as palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler. Das mãos do arrais do barco receberam Maria e Jesus o cesto de peixe com que lhes era pago o serviço, e, como sempre faziam, recolheram-se os dois à casa onde pernoitariam, porque a sua vida era isto, não ter casa própria, ir de barco em barco e de esteira em esteira, algumas vezes, ao princípio, Jesus disse a Maria, Esta vida não te convém, busquemos uma casa que seja nossa e eu irei estar contigo sempre que seja possível, ao que Maria respondeu, Não quero esperar-te, quero estar onde estiveres. Um dia, Jesus perguntou-lhe se não tinha parentes que pudessem recebê-la, e ela disse que tinha um irmão e uma irmã vivendo na aldeia de Betânia de Judeia, ela Marta, ele Lázaro, mas que os deixara quando se prostituíra e, para que não se envergonhassem dela, fora para longe, de terra em terra, até chegar a Magdala. Então o teu nome deveria ser Maria de Betânia, se lá nasceste, disse Jesus, Sim, foi em Betânia que nasci, mas em Magdala é que me encontraste, por isso de Magdala quero continuar a ser, A mim não me chamam Jesus de Belém, apesar de em
Belém ter nascido, de Nazaré não sou porque nem me
querem eles nem os quero eu, talvez devesse chamar-me Jesus de Magdala, como tu, pela mesma razão, Lembra-te de que queimámos a casa, Mas não a memória, disse Jesus. De voltar Maria a Betânia não se falou mais, esta borda do mar é para eles o mundo inteiro, onde quer que o homem esteja, estará com ele a obrigação. Diz o povo, dizemo-lo nós, provavelmente dizem-no os povos todos, sendo como é a experiência dos males tão geral e universal, que debaixo dos pés se levantam os trabalhos. Um tal dito, se não nos enganamos, só podia tê-lo inventado um povo da terra, à custa de tropeções e de topadas, de percalços, esperas e puas assassinas. Depois, em virtude da generalidade e da universalidade já assinaladas, ter-se-á espalhado por todo o orbe, fazendo lei, mas, ainda assim, supomos que com alguma relutância por parte da gente marítima e piscatória que sabe existirem fundíssimas funduras entre os seus pés e o chão, e não poucas vezes abissais abismos. Para o povo do mar os trabalhos não se levantam do chão, para o povo do mar os trabalhos caem do céu, chamam-se vento e ventania, e é por causa deles que se erguem as ondas e as vagas, se geram as tempestades, se rompe a vela, se quebra o mastro, se afunda o frágil lenho, e estes homens da pesca e da navegação onde morrem, verdadeiramente, é entre o céu e a terra, o céu que as mãos não alcançam, o chão a que os pés não chegam. O mar da Galileia é quase sempre um tranquilo, manso e comedido lago, mas lá vem o dia em que as fúrias oceânicas se desmandam para estes lados e é um salve-se quem puder, às vezes, desgraçadamente, nem todos podem. De um caso destes haveremos nós de falar, mas antes é preciso que regressemos a Jesus de Nazaré e a algumas recentes preocupações suas que mostram quanto o coração do homem é um eterno insatisfeito e o simples dever cumprido, afinal, não dá tanta satisfação como nos vêm dizendo os que com pouco se contentam. Sem dúvida, pode-se dizer que graças ao contínuo sobe e desce de Jesus, entre o rio Jordão de cima e o rio Jordão de baixo, não há penúria, nem sequer ocasionais faltas, em toda a margem ocidental, tendo-se até chegado ao ponto de beneficiarem da abundância os próprios que não eram pescadores, pois a fartura do peixe fez baixar os preços, o que, evidentemente, veio a resultar em mais gente a comer mais e mais barato. É verdade que houve uma ou outra tentativa de manter os preços altos pelo conhecido método corporativo de lançar ao mar uma parte do produto da pesca, mas Jesus, de quem em última instância dependia a maior ou menor sorte dos lanços, ameaçou ir-se dali a outra parte, e os prevaricadores da lei nova vieram pedir-lhe desculpa, até ver. Toda a gente, portanto, parece ter razões para sentir-se feliz, mas Jesus não. Pensa ele que não é vida andar constantemente acima e abaixo, a embarcar e a desembarcar, sempre os mesmos gestos, sempre as mesmas palavras, e que, sendo certo que o poder de fazer aparecer o peixe é do Senhor que lhe vem, não se vê razão para que o mesmo Senhor queira que a sua vida se consuma nesta monotonia até que chegue o dia em que for servido chamá-lo, como prometeu. Que o Senhor esteja consigo, não o duvida Jesus, pois o peixe nunca deixa de vir quando o chama, e esta circunstância, por um processo dedutivo inevitável de que aqui não julgamos necessário fazer a demonstração e apresentar a sequência, acabou por levá-lo, com o tempo, a perguntar-se se não haveria acaso outros poderes que o Senhor estivesse disposto a ceder-lhe, não por delegação ou outorga, claro está, apenas emprestados, e com a condição de fazer deles bom uso, o que, como temos visto, Jesus estava em condições de garantir, haja vista o trabalho a que meteu ombros, sem mais que a intuição a ajudá-lo. A maneira de saber era fácil, tão fácil como dizer ai, bastava fazer a experiência, se ela resultasse, era porque Deus estava a favor, se não resultasse, Deus manifestava que estava 114
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contra. Simplesmente, havia uma questão prévia a resolver, e essa questão era a da escolha. Não sendo possível consultar directamente o Senhor, Jesus teria de arriscar, seleccionar entre os poderes possíveis o que parecesse oferecer menos resistência e que não desse demasiado nas vistas, porém não tão discreto que passasse despercebido a quem dele viesse a beneficiar e ao mundo, com o que padeceria a glória do Senhor, que em tudo deve prevalecer. Mas Jesus não se decidia, tinha medo de que Deus escarnecesse dele, o humilhasse, como no deserto fizera e podia ter feito depois, ainda hoje se sentia estremecer à lembrança da vergonha que teria sido, quando pela primeira vez disse Lançai a rede deste lado, vê-la subir vazia. Tanto o ocupavam estes pensamentos que uma noite sonhou que alguém lhe dizia ao ouvido, Não temas, lembra-te de que Deus precisa de ti, mas quando acordou teve dúvidas sobre a identidade do conselheiro, podia ser um anjo, dos muitos que andam a fazer os recados do Senhor, podia ser um demónio, dos outros tantos que a Satã servem para tudo, ao seu lado Maria de Magdala parecia dormir profundamente, por isso não podia ter sido ela, nem Jesus pensou que o fosse. Estava-se nisto, e, um dia, que pelos indícios em nada mostrava ir ser diferente dos outros, Jesus foi ao mar para o milagre do costume. O tempo estava carregado, de nuvens baixas, a ameaçar chuva, mas por esse pouco não vai ficar um pescador em casa, bem estaríamos nós se tudo na vida fosse regalos e bem-estar. Calhou a barca ser a de Simão e André, aqueles dois irmãos pescadores que testemunharam o primeiro prodígio, e com ela, de conserva, vai também a dos filhos de Zebedeu, o Tiago e o João, pois que, não sendo o efeito miraculoso igual, sempre o barco que está perto aproveita alguma parte do peixe que vier. O vento forte leva-os rapidamente para o meio do mar e aí, descidas as velas, começam os pescadores, num barco e noutro, a desdobrar as redes, à espera de que Jesus diga para que lado as devem lançar. Estão nisto, quando de repente se levantam os trabalhos na forma de uma tempestade que caiu do céu sem prevenir, porque como prevenção não se podia ter entendido um simples céu coberto, e foi de maneira tal que as vagas eram como as do mar verdadeiro, da altura de casas, empurradas por um vento doido, ora cá, ora lá, e no meio aquelas casquinhas de noz baloiçando sem governo, que a manobra nada podia contra a fúria dos elementos à solta. A gente que estava na margem, vendo o perigo em que se achavam as pobres criaturas já sem defesa, começou em desabalados gritos, havia ali esposas e mães, e irmãs, e filhos pequeninos, alguma sogra de bom feitio, e era um clamor que não se sabe como não chegou ao céu, Ai, o meu querido marido, Ai, o meu querido filho, Ai, o meu querido irmão, Ai, o meu genro, Maldito sejas tu, ó mar, Senhora dos Aflitos, valei-nos, Senhora da Boa Viagem, acudi-lhes, os meninos só sabiam chorar, mas nem assim.
Maria de Magdala estava também ali e murmurava, Jesus, Jesus, porém não era por ele que o dizia, pois sabia que o Senhor o tinha guardado para outra altura, não para uma vulgar tormenta no mar, sem mais consequências que morrerem uns tantos afogados, dizia Jesus Jesus como se dizê-lo pudesse valer de alguma coisa aos pescadores, que esses, sim, parecia que se lhes ia cumprir ali a sorte. Ora, Jesus, lá na barca, vendo o desânimo e o desbarato que ia nas tripulações em redor, e que as ondas saltavam por cima da borda e alagavam tudo dentro, e que os mastros se partiam levando-os pelos ares as velas soltas, e que a chuva caía em torrentes que só elas chegariam para afundar uma nave do imperador, Jesus, vendo tudo isto, disse consigo mesmo, Não é justo que morram estes homens, ficando eu com vida, sem contar que o Senhor me ralharia de certeza Podias ter salvo os que estavam contigo e não os salvaste, já não te bastou teu pai, a dor desta lembrança fez saltar Jesus, e então, de pé, firme e seguro como se debaixo de si o suportasse um sólido chão, gritou, Cala-te, e isto era para o vento, Aquieta-te, e isto era para o mar, palavras não eram ditas acalmaram-se o mar e o vento, as nuvens no céu apartaram-se e o sol apareceu como uma glória, que o é e sempre há-de ser, ao menos para quem vive menos do que ele. Não se imagina o que foi a alegria naqueles barcos, os beijos, os abraços, os choros de alegria em terra, os daqui não sabiam por que tinha acabado assim tão súbito a tempestade, os de,além, como ressuscitados, não pensavam senão na vida salva, e se alguns exclamaram, Milagre, milagre, naqueles instantes primeiros não se deram conta de que alguém tinha de ter sido o autor dele. Mas de repente fez-se o silêncio no mar, os outros barcos rodeavam o de Simão e André, e os pescadores todos olhavam Jesus, calados de assombro, apesar do estrondo da tempestade tinham ouvido os gritos, Cala-te, Aquieta-te, e ali estava ele, Jesus, o homem que gritara, o que ordenava aos peixes que saíssem das águas para os homens, o que ordenava às águas que não levassem os homens para os peixes. Jesus tinha-se sentado no banco dos remadores, de cabeça baixa, com uma difusa e contraditória impressão de triunfo e de desastre, como se, tendo subido ao ponto 115
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mais alto duma montanha, no mesmo instante começasse a melancólica e inevitável descida. Mas agora, ali postos em círculo, os homens esperavam uma palavra sua, não era bastante ter dominado o vento e amansado as águas, tinha de explicar-lhes como o pudera fazer um simples galileu filho de carpinteiro, quando o próprio Deus parecia tê-los abandonado ao frio abraço da morte. Levantou-se Jesus então e disse, Isto que acabais de ver não o cometi eu, as vozes que afastaram a tempestade não foram dadas por mim, foi o Senhor que falou pela minha boca, eu apenas sou a língua de que Deus se serviu para falar, lembrai-vos dos profetas. Disse Simão, que na mesma barca estava, Assim como fez vir a tempestade, o Senhor podia tê-la mandado embora, e nós apenas diríamos O Senhor a trouxe, o Senhor a levou, mas foram a tua vontade e a tua palavra que nos restituíram a vida salva quando, diante dos olhos de Deus, a críamos perdida, Deus o fez, torno a dizer, não eu. Disse então João, o filho menor de Zebedeu, provando desta maneira que não era tão simples de espírito, Sem dúvida o fez Deus, pois nele moram toda a força e todo o poder, mas fê-lo por intermédio de ti, donde tiro eu a conclusão de que Deus quer que te conheçamos, Já me conhecíeis, De apareceres aqui vindo não sabemos donde, de nos encheres as nossas barcas de peixe não sabemos como, Sou Jesus de Nazaré, filho de um carpinteiro que morreu crucificado pelos romanos, durante um tempo pastor do maior rebanho de ovelhas e cabras que já se viu, agora, convosco, e porventura até à hora da minha morte, pescador. Disse ; André, o irmão de Simão, Nós outros, sim, é que devemos estar contigo, porque se a um homem comum, como tu dizes ser, foram dados tais poderes e o poder de os usar, pobre de ti, que a solidão te será mais pesada do que uma pedra ao pescoço. Disse Jesus, Ficai comigo, se o coração vo-lo pedir, mas não digais a ninguém nada do que aqui se passou, porque o tempo ainda não é chegado de confirmar o Senhor a vontade que quer executar em mim, se, como diz João, quer Deus que me conheçais. Disse então Tiago, o filho maior de Zebedeu, tão pouco simples, afinal, como seu irmão, Não penses que o povo se vai calar, olha-os além na margem, vê como te esperam para aclamar-te, e alguns, de impaciência, já empurram barcos para a água para virem juntar-se a nós, mas ainda que conseguíssemos moderar-lhes o entusiasmo, ainda que os convencêssemos a guardar, quanto possam, o segredo, terás tu a certeza de que, em qualquer momento, mesmo não o desejando tu, não se manifestará Deus, mais do que na tua presença, por teu intermédio. Jesus deixou pender a cabeça, era uma representação viva da tristeza e do abandono, e disse, Estamos todos nas mãos do Senhor, Tu mais do que nós, disse Simão, porque ele te preferiu, porém nós estaremos contigo, Até ao fim, disse João, Até quando não nos queiras, disse André, Até onde pudermos, disse Tiago. Aproximavam-se os barcos que tinham vindo da margem, acenavam com os braços os que vinham dentro, multiplicavam-se as bênçãos e os louvores, e Jesus, resignado, disse, Vamos, o vinho está no vaso, é preciso bebê-lo. Não procurou Maria de Magdala, sabia que ela o esperava em terra, como sempre, que nenhum milagre alteraria a constância dessa espera, e um contentamento grato e humilde pacificou-lhe o coração. Quando desembarcou, mais do que abraçá-la, abraçou-se nela, escutou, sem surpresa, o que Maria de Magdala lhe disse num murmúrio, rente à orelha, o rosto contra a barba molhada, Perderás a guerra, não tens outro remédio, mas ganharás todas as batalhas, e depois, juntos, saudando ele a um lado e a outro os circunstantes que o festejavam, como um general que regressasse vencedor do seu primeiro combate, subiram, acompanhados dos amigos, o íngreme caminho que levava a Cafarnaúm, a aldeia sobranceira ao mar onde viviam Simão e André, em casa de quem, por esta ocasião, moravam. Tivera razão Tiago quando augurou mal da esperança de Jesus de que o conhecimento público do milagre da tempestade acalmada pudesse ficar circunscrito aos que o testemunharam. Em poucos dias, não se falava doutra coisa por aqueles arredores, embora, caso estranho, não sendo este mar, como tem sido dito, uma imensidão, podendo, de um ponto alto e com limpeza dos ares, ser visto, por inteiro, de margem a margem e de extremo a extremo, aconteceu que em Tiberíades, por exemplo, ninguém dera pelo temporal, e quando alguém ali chegou com a nova de que um que estava com os pescadores de Cafarnaúm fizera cessar, à sua voz, uma tempestade, a resposta que recebeu foi, Qual tempestade, o que deixou sem fala o informador. Que, porém, houvera tempestade, não se pode duvidar, aí estava para o afirmar e jurar o susto que tinham apanhado os protagonistas do episódio, directos e indirectos, nestes se incluindo uns almocreves de Safed e Caná que lá se encontravam por motivo do seu negócio. Foram eles que levaram a notícia para o interior, matizada segundo os arrebatos de imaginação de cada um, mas, enfim, não puderam alcançar a toda a parte, e isto de notícias, sabemos como é, vão perdendo a 116
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convicção com o tempo e a distância, e quando a nova, que já tão pouco o era, chegou a Nazaré, não se sabia se o milagre o havia sido realmente, ou apenas uma feliz coincidência entre uma palavra que fora lançada ao vento e um vento que se cansara de soprar. Coração de mãe, porém, não se engana, e a Maria bastaram os quase extintos ecos de um prodígio de que já se começava a duvidar, para, em seu coração, ter a certeza de que o obrara o filho ausente. Chorou pelos cantos o orgulho da sua ínfima autoridade materna, que a fizera ocultar de Jesus o aparecimento do anjo e as revelações de que fora portador, fiando-se de que um simples recado de meia dúzia de palavras reticentes faria regressar a casa quem dela saíra com o seu próprio coração sangrando. Não tinha Maria ao pé de si, para desafogar-se de tristezas tão amargas e dolorosas, a sua filha Lísia, que neste meio-tempo se casara e fora viver para a aldeia de Caná. A Tiago não ousaria falar, esse viera espumando fúrias do encontro com o irmão, não se calando com a mulher que com ele estava, Podia ser mãe dele, minha mãe, e o ar que ela tinha, de muita experiência da vida e outras coisas que não menciono, ainda que, manda a verdade dizer-se, seja a própria experiência de Tiago escassíssima em termos de comparação, neste buraco do mundo que é a sua aldeia. Desabafou pois Maria com José, esse filho que, pelo nome e parecenças, mais lhe recordava o marido, mas ele não a pôde consolar, Minha mãe, estamos pagando o que fizemos, e o meu temor, eu que vi a Jesus e o ouvi, é que seja para sempre, que de lá onde está não volte nunca, Sabes o que dele se diz, que falou com uma tempestade e ela se acalmou, ouvindo-o, Também sabíamos que com o seu poder enchia de peixe as barcas dos pescadores, a nós o disseram os próprios, Tinha razão o anjo, Que anjo, perguntou José, e Maria contou-lhe tudo quanto com eles havia acontecido, desde o aparecimento do mendigo que lançara na tigela a terra luminosa até ao anjo do seu sonho. Esta conversa não a tiveram em casa, que aí não era possível, sendo a família ainda tão numerosa, esta gente, sempre que quer falar de assuntos sigilosos, vai para o deserto, onde, calhando, até pode encontrar Deus. Estavam assim conversando quando, em certa altura, viu José passar ao longe, nas colinas a que a mãe virava as costas, um rebanho de ovelhas e cabras com o seu pastor.
Pareceu-lhe que o rebanho não era grande, nem alto o pastor, por isso viu e calou. E quando a mãe disse, Nunca mais vejo Jesus, respondeu, pensativo, Quem sabe. Tinha razão José. Passados uns tempos, coisa de um ano, veio um recado de Lísia para a mãe, convidando-a, em nome dos sogros, a ir a Caná, ao casamento duma sua cunhada, irmã do marido, e que levasse consigo quem entendesse, que todos seriam bem-vindos. Sendo ela a convidada, tinha o direito de escolher quem a deveria acompanhar, mas como, por respeito, não queria tornar-se pesada, posto que poucas coisas serão tão deprimentes como uma viúva com muitos filhos, resolveu levar apenas dois, o agora seu preferido José, e Lídia, a quem, sendo rapariga, nunca festas e distracções sobrariam. Caná não está longe de Nazaré, pouco mais de uma hora de caminho das nossas, e, por este tempo de suave outono, sempre teria sido um passeio dos mais aprazíveis, mesmo que o objectivo final da viagem não fosse um casamento. Saíram de casa mal o sol acabara de nascer para poderem chegar a Caná ainda a tempo de ajudar Maria às últimas tarefas de um acto cerimonial e festivo em que o trabalho está na directa proporção do quanto a gente se alegra e diverte. Veio Lísia ao encontro da mãe e dos irmãos com afectuosas mostras, de um lado se tomaram informações sobre o bem-estar e a saúde, do outro sobre a saúde e a felicidade, e, porque o trabalho urgia, foram logo dali, ela e Maria, para a casa do noivo, onde, segundo o costume, se celebraria a festa, iam a cuidar dos caldeiros com as demais mulheres da família. José e Lídia ficaram no pátio, de brincadeira com os da sua idade, os meninos jogando com os meninos, as meninas dançando com as meninas, até ao momento em que deram fé de que a cerimónia começava. Correram todos, agora sem maior discriminação dos sexos, atrás dos homens que acompanhavam o noivo, os amigos dele, que levavam os archotes da tradição, e isto numa manhã como esta, de tão resplandecente luz, o que, pelo menos, poderá servir para demonstrar que uma luzinha mais, mesmo de archote, nunca é de desprezar, por muito que brilhe o sol. Os vizinhos, com alegre semblante, apareciam a saudar às portas, guardando as bênçãos para daqui a pouco, quando o cortejo regressar trazendo já a noiva. Não chegaram José e Lídia, porém, a ver o resto, de todo o modo nunca seria novidade completa para eles, porquanto haviam tido em seu tempo um casamento na família, o noivo a bater à porta e a pedir para ver a noiva, ela a aparecer rodeada das suas amigas, também estas com luzes, ainda que modestas, simples lamparinas como a mulheres convém, que um archote é coisa de homem pelo fogo e pela dimensão, e depois o noivo a levantar o véu da noiva e a dar um grito de júbilo perante o tesouro que tinha encontrado, como se nestes últimos doze meses, 117
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que tantos eram os que o noivado durava, não a tivesse visto mil vezes e com ela ido para a cama quantas lhe apeteceu. Não viram José e Lídia estes números porque, num súbito instante, olhando ele, casualmente, pelo enfiamento duma rua, viu aparecerem lá ao fundo dois homens e uma mulher, e, com a sensação de estar a viver por segunda vez, reconheceu seu irmão Jesus e a mulher que com ele andava. Gritou para a irmã, Olha, é Jesus, ambos correram naquela direcção, mas de repente José parou, lembrara-se da mãe, lembrou-se também da dureza com que o irmão o recebera lá no mar, não a ele, é certo, ao recado que com Tiago fora mandado levar, e, pensando que depois teria de explicar a Jesus por que estava assim procedendo, voltou para trás. Ao virar a esquina da rua, olhou ainda, e, mordido de ciúme, viu o irmão levantar Lídia nos braços como uma pena voando e ela cobrir-lhe a cara de beijos, enquanto a mulher e o outro homem sorriam. Com os olhos nublados de lágrimas de frustração, José correu, correu, entrou na casa, atravessou o pátio aos saltos para evitar pisar as toalhas e as vitualhas dispostas no chão e nas mesas baixinhas, chamou, Mãe, mãe, o que nos salva é termos cada um a nossa voz, não faltariam mães a olharem para um filho que não era o seu, olhou apenas Maria, olhou e compreendeu, quando José lhe disse, Vem aí Jesus, ela já o sabia. Empalideceu, corou, sorriu, ficou séria e pálida outra vez, e o resultado de todas estas alterações foi levar uma mão ao peito como se o coração lhe faltasse e recuar dois passos como se tivesse batido contra um muro. Quem vem com ele, perguntou, porque tinha a certeza de que alguém o acompanhava, Um homem e uma mulher, e a Lídia, que lá ficou, A mulher é a que tu viste, Sim, mãe, mas ao homem não o conheço.
Aproximou-se Lísia, apenas curiosa, mal adivinhando, Que é, minha mãe, Teu irmão está aqui e vem ao casamento, Jesus está em Caná, Viu- -o José. Não foram tão manifestos os alvoroços de Lísia, mas abriu-se-lhe no rosto um sorriso que parecia não ter de acabar e murmurou, O meu irmão, note-se, para quem o não souber, que é isto o comprazimento, um sorriso como o de Lísia e um murmúrio que vale outro tanto, Vamos ao encontro dele, disse, Vai tu, eu fico aqui, defendeu-se a mãe, e para José, Vai com a tua irmã. Mas José não quis ser segundo nos abraços em que Lídia fora primeira e, porque Lísia sozinha não se atrevia, ali ficaram os três, como culpados à espera duma sentença, incertos sobre a misericórdia do juiz, se as palavras juiz e misericórdia podem ter cabimento neste caso. Assomou Jesus à porta, trazia Lídia ao colo, e vinha Maria de Magdala atrás, mas antes entrara André, que era ele o outro homem da companhia, parente do noivo como logo se percebeu, dizia para os que acudiram, risonhos, a recebê-lo, Pois não, Simão não pôde vir, e enquanto este encontro de família a uns estava tão felizmente ocupando, outros, ali, olhavam-se por cima de um abismo, perguntando-se qual deles seria o primeiro a pôr um pé na delgada e frágil ponte que, apesar de tudo, ainda unia um lado ao outro lado. Não diremos, como um poeta disse, que o melhor do mundo são as crianças, mas é graças a elas que às vezes os adultos conseguem dar, sem desdouro de orgulho, certos difíceis passos, ainda que depois se venha a ver que o caminho não passou daí. Lídia escorregou dos braços de Jesus e correu para a mãe, e foi como no teatro de fantoches, um movimento obrigou a outro, os dois a um terceiro, Jesus avançou para a mãe e saudou-a, conjuntamente aos irmãos, com as palavras de quem todos os dias se encontra, sóbrias e sem emoção. Feito isso seguiu adiante, deixando Maria como uma transida estátua de sal, e, perdidos, os irmãos. Maria de Magdala foi atrás dele, passou ao lado de Maria de Nazaré, e as duas mulheres, a honesta e a impura, num relance, olharam-se sem hostilidade nem desprezo, antes com uma expressão de mútuo e cúmplice reconhecimento que só aos entendidos nos labirínticos meandros do coração feminino é dado compreender. Já vinha perto o cortejo, ouviam-se os gritos e as palmas, o ruído trémulo e vibrante das pandeiretas, os sons esparsos e finos das harpas, o ritmar das danças, um vozear de gente falando ao mesmo tempo, no instante após o pátio ficou cheio, os noivos entraram como de empurrão entre vivas e aplausos e foram adiante a receber as bênçãos dos pais e dos sogros, que os esperavam. Maria, que ali ficara, também os abençoou, como abençoara tempos atrás a sua filha Lísia, agora, como então, sem ter a seu lado nem marido nem primogénito que lhe ocupasse, em poder e autoridade, o lugar. Sentaram-se todos, a Jesus foi logo oferecido um lugar de importância porque André, à boca pequena, informara os parentes de que aquele é que era o homem que atraía os peixes às redes e domava as tempestades, mas Jesus recusou a honra e foi sentar-se com os outros, ficando no extremo duma das filas de convidados. A Jesus servia-o Maria de Magdala, que ninguém ali perguntou quem fosse, alguma vez se acercou Lísia, e ele, nos modos, não fez diferenças entre uma e outra. Maria atendia noutro lado, com frequência, nas idas e vindas, cruzava-se com Maria de Magdala, trocavam o mesmo olhar, porém não falavam, até que a 118
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mãe de Jesus fez à outra sinal para chegar-se a um recanto do pátio, e disse-lhe, sem preâmbulo, Cuida do meu filho, que um anjo me disse que o esperam grandes trabalhos, e eu não posso nada por ele, Cuidarei, defendê-lo-ia com a minha vida se ela merecesse tanto, Como te chamas, Sou Maria de Magdala e fui prostituta até conhecer o teu filho. Maria ficou calada, na sua mente ordenavam-se, um a um, certos factos do passado, o dinheiro e o que acerca dele haveriam querido insinuar as meias palavras de Jesus, o relato irritado do filho Tiago e as suas opiniões sobre a mulher que acompanhava o irmão, e, agora tudo sabendo, disse, Eu te abençoo, Maria de Magdala, pelo bem que a meu filho Jesus fizeste, hoje e para sempre te abençoo. Maria de Magdala aproximou-se para beijar-lhe o ombro em sinal de respeito, mas a outra Maria lançou-lhe os braços, apertou-a contra si e as duas ficaram abraçadas, em silêncio, até que se separaram e voltaram ao trabalho, que não podia esperar. A festa continuava, das cozinhas, em correnteza contínua, vinha a comida, das ânforas corna o vinho, a alegria soltava-se em cantos e danças, quando, de repente, um alarme correu secretamente do mordomo até aos pais dos noivos, Que se nos acaba o vinho, avisava. O pesar e a confusão caíram sobre eles como se o tecto lhes tivesse desabado em cima, E agora, que vamos fazer, como diremos aos nossos convidados que se acabou o vinho, amanhã não se falará doutra coisa em Caná, A minha filha, lamentava-se a mãe da noiva, a troça que não vão fazer dela daqui em diante, que no seu casamento até o vinho faltou, não merecíamos esta vergonha, que mau começo de vida. Nas mesas escorripichavam-se os últimos fundos dos copos, alguns convidados já olhavam em redor à procura de quem devia estar a servi-los, e eis que Maria, agora que já transmitira a outra mulher os encargos, deveres e obrigações que o filho recusava receber das suas mãos, quis, num relâmpago de inteligência, ter a sua prova própria dos anunciados poderes de Jesus, posto o que poderia depois recolher-se a casa e ao silêncio, como quem já terminou a sua missão no mundo e só espera que dele o venham retirar. Procurou com os olhos Maria de Magdala, viu-a cerrar lentamente as pálpebras e fazer um gesto de assentimento, e, sem mais demora, chegou-se ao filho e disse-lhe, no tom de quem está certo de não ter de dizer tudo para ser entendido, Não têm vinho. Jesus voltou lentamente a cara para a mãe, olhou-a como se ela lhe tivesse falado de muito longe, e perguntou, Mulher, que há entre ti e mim, palavras estas, tremendas, que as ouviu quem ali estava, mas o assombro, a estranheza, a incredulidade, Um filho não trata desta maneira a mãe que lhe deu o ser, farão que o tempo, as distâncias e as vontades busquem para elas traduções, interpretações, versões, matizes que mitiguem a brutalidade e, se tal é possível, dêem o dito por não dito ou o ponham a dizer o seu contrário, assim se escreverá no futuro que Jesus disse, Por que vens incomodar-me com isso, ou, Que tenho eu que ver contigo, ou, Quem te mandou meter-te nisto, mulher, ou, Que temos nós com isso, mulher, ou, Deixa-me proceder, não é preciso que mo peças, ou, Por que não mo pedes abertamente, continuo a ser o filho dócil de sempre, ou, Farei como queres, entre nós não há desacordo. Maria recebeu o choque em pleno rosto, suportou o olhar que a repelia, e, desta maneira colocando o filho entre a espada e a parede, rematou o desafio dizendo aos servidores, Fazei o que ele vos disser. Jesus viu a mãe afastar-se, não disse uma palavra, não fez um gesto para a reter, compreendera que o Senhor se havia servido dela como antes se serviu da tempestade ou da necessidade dos pescadores. Levantou o seu copo, onde ainda algum vinho ficara, e disse para os servidores, Enchei de água aquelas talhas, eram seis talhas de pedra que serviam para a purificação, e eles encheram-nas até cima, que cada uma delas levava duas ou três medidas, Chegai-mas cá, disse, e eles assim fizeram. Então Jesus verteu em cada talha uma parte do vinho que tinha no copo, e disse, Levai-as ao mordomo. Ora o mordomo, que não sabia donde lhe vinham as talhas, depois de provar a água que a pequena quantidade de vinho nem chegara a tingir, chamou o noivo e disse-lhe, Toda a gente serve primeiro o vinho bom, e, quando os convidados já beberam bem, serve então o pior, tu, porém, guardaste o vinho bom até agora. O noivo, que nunca em sua vida vira aquelas talhas servirem a vinho e, aliás, de mais sabia ele que o vinho se acabara, provou também e fez cara de quem, com mal fingida modéstia, se limita a confirmar o que tinha por certo, a excelente qualidade do néctar, por assim dizer um vintage. Se não fosse a voz do povo, representada, no caso, por uns servidores que no dia seguinte deram com a língua nos dentes, teria sido um milagre frustrado, pois o mordomo, se desconhecedor estava da transmutação, desconhecedor continuaria, ao noivo convinha, evidentemente, abotoar-se com o feito alheio, Jesus não era pessoa para andar dizendo por aí, Eu fiz os milagres tais e tais, Maria de Magdala, que desde o princípio participara do enredo, não iria pôr-se a fazer publicidades, Ele fez um milagre, ele fez um 119
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milagre, e Maria, a mãe, ainda menos, porque a questão fundamental era entre ela e o filho, o mais que aconteceu foi por acréscimo, em todos os sentidos da palavra, digam os convidados se não é assim, eles que voltaram a ter os copos cheios. Maria de Nazaré e o filho não se falaram mais. Pelo meio da tarde, sem se despedir da família, Jesus foi-se embora com Maria de Magdala pelo caminho de Tiberíades. Escondidos da vista dele, José e Lídia seguiram-no até à saída da aldeia e ali ficaram a olhá-lo até que desapareceu numa curva da estrada.
Começou então o tempo da grande espera. Os sinais com que até agora o Senhor se havia manifestado na pessoa de Jesus não passavam de meros prodígios caseiros, hábeis prestidigitações, passes do tipo mais-rápido-do-que-o-olhar, no fundo pouco diferentes dos truques que certos mágicos do oriente manipulavam com muito menos rústica arte, como seja atirar uma corda ao ar e subir por ela, sem que se percebesse se a ponta, em cima, estava atada a um sólido gancho ou se a invisível mão de um génio auxiliar a segurava. Para obrar aquelas coisas, a Jesus bastava querê-lo, mas, se alguém lhe perguntasse para que as fizera, não saberia dar-lhe resposta, ou apenas que assim tinha sido preciso, uns pescadores sem peixe, uma tempestade sem recurso, uma boda sem vinho, verdadeiramente, ainda não chegara a hora de o Senhor começar a falar pela sua boca. O que se dizia pelos povoados deste lado da Galileia era que um homem de Nazaré andava por ali a usar de poderes que só de Deus lhe poderiam ter vindo, e não o negava, mas que, apresentando-se ele, em absoluto, omisso de causas, razões e contrapartidas, o que tinham que fazer era aproveitar a fartura e calar as perguntas. Claro que Simão e André não pensavam assim, nem os filhos de Zebedeu, mas esses eram seus amigos e temiam por ele. Todas as manhãs, quando acordava, Jesus perguntava-se em silêncio, Será hoje, em voz alta o fazia algumas vezes, para que Maria de Magdala ouvisse, e ela ficava calada, suspirando, depois rodeava-o com os braços, beijava-o na fronte e sobre os olhos, enquanto ele respirava o cheiro doce e morno que lhe subia dos seios, dias houve, destes, em que readormecia assim, outros em que esquecia a pergunta e a ansiedade e se refugiava no corpo de Maria de Magdala como se entrasse num casulo donde só poderia renascer transformado. Depois ia para o mar, para os pescadores que o esperavam, muitos dos quais nunca haveriam de compreender, e disseram-no, por que não comprava ele uma barca, à conta dos lucros futuros, e passava a trabalhar por conta própria.
Em certas ocasiões, quando, no meio do mar, se prolongavam os intervalos entre as manobras da pesca, sempre necessárias mesmo tendo-se ela tornado fácil e relaxada como um bocejo, Jesus tinha um súbito pressentimento e o seu coração estremecia, porém os olhos não se viravam para o céu, onde é sabido que Deus habita, o que ele fixava, com obsessiva avidez, era a superfície calma do lago, as águas lisas que brilhavam como uma pele polida, o que ele esperava, com desejo e temor, parecia que das profundidades é que devia aparecer, o nosso peixe, diriam os pescadores, a voz que tarda, pensava talvez Jesus. A pesca chegava ao fim, a barca volvia carregada, e Jesus, cabisbaixo, seguia outra vez ao longo da margem, com Maria de Magdala atrás, à procura de quem precisasse dos seus serviços de olheiro grátis. Desta maneira passaram as semanas e os meses, passaram os anos também, mudanças que à vista se percebessem só as de Tiberíades, onde cresciam os edifícios e os triunfos, o mais eram as costumadas e consabidas repetições duma terra que nos invernos parece morrer-nos nos braços e nas primaveras ressuscitar, observação falsa, engano grosseiro dos sentidos, que a força da primavera seria nada se o inverno não tivesse dormido. E eis que, enfim, ia Jesus nos seus vinte e cinco anos, pareceu que o universo todo começou de súbito a mover-se, novos sinais se sucederam, uns atrás dos outros, como se alguém, com repentina pressa, pretendesse reaver um tempo que houvesse malgastado. A bem dizer, o primeiro desses sinais não foi, propriamente falando, um milagre milagre, afinal não é nenhuma coisa do outro mundo estar a sogra de Simão achacada de uma indefinida febre e chegar-se Jesus à cabeceira da cama, pôr-lhe a mão na testa, qualquer de nós já fez este gesto, apenas por impulso de coração, sem esperança de ver curados por essa maneira rudimentar e seu tanto mágica os males do enfermo, mas o que nunca nos acontecera foi sentir a febre sumir-se debaixo dos dedos de Jesus como uma água maligna que a terra absorvesse e reduzisse, e acto contínuo levantar-se a mulher e dizer, é certo que fora de propósito, Quem é amigo do meu genro, é meu amigo, e foi-se às lides da casa como se nada. Este foi o primeiro sinal, doméstico, de interior, mas o segundo teve mais que se lhe diga porque representou um desafio frontal de Jesus à lei escrita e observada, acaso justificável, tendo em conta os comportamentos humanos normais, por viver Jesus com Maria de 120
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Magdala sem com ela estar casado, prostituta que havia sido, ainda por cima, por isso não se devia estranhar que estando uma mulher adúltera a ser apedrejada, conforme a lei de Moisés, e disso devendo morrer, aparecesse Jesus a interpor-se e a perguntar, Alto lá, quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra, como se dissesse, Até eu, se não vivesse, como vivo, em concubinato, se estivesse limpo da lacra dos actos e pensamentos sujos, estaria convosco na execução dessa justiça. Arriscou muito o nosso Jesus porque podia ter acontecido que um ou mais dos apedrejadores, por serem de coração endurecido e estarem empedernidos nas práticas do pecado em geral, dessem ouvidos de mercador à admoestação e prosseguissem no apedrejamento, sem medo, eles próprios, à lei que estavam aplicando, por ser destinada às mulheres. O que Jesus não parece ter pensado, talvez por falta de experiência, é que se nós nos deixamos ficar à espera de que apareçam no mundo esses julgadores sem pecado, únicos, em sua opinião, que terão o direito moral de condenar e punir, muito me temo que medre desmesuradamente o crime nesse meio-tempo, e prospere o pecado, andando por aí as adúlteras à solta, ora com este, ora com aquele, e quem diz adúlteras, dirá o resto, incluindo os mil nefandos vícios que determinaram o Senhor a enviar uma chuva de fogo e enxofre sobre as cidades de Sodoma e Gomorra, deixando-as reduzidas a cinzas. Mas o mal, que nasceu com o mundo, e dele, quanto sabe, aprendeu, amados irmãos, o mal é como a famosa e nunca vista ave Fénix que, parecendo morrer na fogueira, de um ovo que as suas próprias cinzas criaram volta a renascer. O
bem é frágil, delicado, basta que o mal lhe lance ao rosto o bafo quente de um simples pecado para que se lhe creste para sempre a pureza, para que se quebre o caule do lírio e murche a flor da laranjeira. Jesus disse à adúltera, Vai e doravante não tornes a pecar, mas no íntimo ia cheio de dúvidas. Um outro caso notável veio a ocorrer no lado de lá do mar, aonde Jesus achou por bem ir alguma vez, para que não se andasse a dizer que os seus carinhos e atenções iam todos para os da margem ocidental. Chamou, pois, Tiago e João, e disse-lhes, Vamos nós à Outra Banda, onde vivem os gadarenos, a ver se se nos apresenta alguma aventura, e à volta tratamos da pescaria, desta maneira nunca será uma viagem perdida. Convieram os filhos de Zebedeu na oportunidade da ideia e, apontado o rumo da barca, começaram a remar, esperando que lá mais à frente uma brisa os pudesse levar ao destino com menor esforço. Assim veio a acontecer, mas começaram por levar um susto porque de um momento para o outro pareceu que se lhes ia armar ali uma tempestade capaz de ombrear com aquela de há anos, porém Jesus disse às águas e aos ares, Então, então, como se falasse a uma criança traquina, e logo o mar se acalmou e o vento voltou a soprar na conta justa e na direcção certa. Desembarcaram os três, Jesus ia adiante, atrás Tiago e João, nunca tinham vindo antes a estas paragens e tudo lhes parecia surpresa e novidade, mas a maior delas, de abafar-se-nos o coração, foi que lhes saltou de repente um homem ao caminho, se o nome de homem podia ser dado a uma figura coberta de imundícies, de medonha barba e medonho cabelo, cheirando à putrefacção dos túmulos onde, como vieram a saber depois, tinha o costume de esconder-se sempre que conseguia partir os grilhões e correntes com que, por estar possesso, o queriam sujeitar no cárcere. Se ele fosse apenas um louco, ainda que saibamos que a estes se lhes duplicam as forças quando enfurecidos, bastaria, para mantê-lo, lançar-lhe em cima outro tanto de grilhões e correntes. Em vão o haviam feito uma vez, sem resultado o repetiram muitas, porque o espírito imundo que vivia dentro do homem e o governava ria-se de todas as prisões. Dia e noite, o endemoninhado andava aos saltos pelos montes, fugindo de si mesmo e da sua sombra, mas sempre voltava para esconder-se entre os túmulos e muitas vezes dentro deles, donde o tiravam à força, espavorindo de horror as gentes que o viam. Assim o encontrou Jesus, os guardas que atrás vinham para capturar o homem faziam grandes gestos com os braços a Jesus para que se pusesse a salvo do perigo, mas Jesus viera por uma aventura e não a iria perder por nada. Apesar do medo da avantesma, João e Tiago não abandonaram o seu amigo, e por isso foram eles as primeiras testemunhas de palavras que nunca alguém pensou poderem alguma vez ser ditas e ouvidas, porque iam contra o Senhor e as suas leis, como já a seguir se verá. Vinha a besta-fera estendendo as garras e arreganhando os colmilhos, donde pendiam restos de carnes putrefactas, e os cabelos de Jesus arrepiavam-se de terror, quando a dois passos se prostra no chão o endemoninhado e clama em voz alta, Que queres de mim, ó Jesus, filho do Deus Altíssimo, por Deus te peço que não me atormentes. Ora, esta foi a primeira vez que em público, não em sonhos privados, dos quais a prudência e o cepticismo sempre aconselharam a duvidar, uma voz se levantou, e voz diabólica ela era, para anunciar que este Jesus de Nazaré era filho de Deus, o que ele próprio até aí 121
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ignorava, pois durante a conversa que entretivera com Deus no deserto a questão da paternidade não fora abordada, Vou precisar de ti mais tarde, foi tudo quanto lhe disse o Senhor, e nem sequer era possível tirar pelas parecenças, tendo em conta que o pai se lhe mostrara em figura de nuvem e coluna de fumo. O possesso revolvia-se aos seus pés, a voz dentro dele pronunciara o até hoje impronunciado e calara-se, e nesse instante, Jesus, como quem acabasse de reconhecer-se noutro, sentiu-se, também ele, como que possesso, possesso de uns poderes que o levariam não sabia aonde ou a quê, mas sem dúvida, no fim de tudo, ao túmulo e aos túmulos. Perguntou ao espírito, Qual é o teu nome, e o espírito respondeu, Legião, porque somos muitos. Disse Jesus, imperiosamente, Sai desse homem, espírito imundo. Mal o dissera, ergueu-se o coro das vozes diabólicas, umas finas e agudas, outras grossas e roucas, umas suaves como de mulher, outras que pareciam serras a serrar pedra, umas em tom de sarcasmo provocante, outras com humildades falsas de mendigo, umas soberbas, outras de lamúria, umas como de criancinha que aprende a falar, outras que eram só grito de fantasma e gemido de dor, mas todas suplicavam a Jesus que os deixasse ficar ali, nestes sítios que já conheciam, que bastaria dar-lhes ele a ordem de expulsão e sairiam do corpo do homem, mas que, por favor, os não expulsasse da região. Perguntou Jesus, E para onde querem vocês ir. Ora, ali próximo do monte andava a pastar uma grande vara de porcos, e os espíritos impuros imploraram a Jesus, Manda-nos para os porcos e entraremos neles. Jesus pensou e pareceu-lhe que era uma boa solução, considerando que aqueles animais deviam ser pertença de gentios, uma vez que a carne do porco é impura para os judeus. A ideia de que, comendo os seus porcos, poderiam os gentios ingerir também os demónios que dentro deles estavam e ficar possessos, não ocorreu a Jesus, como também não lhe ocorreu o que depois desgraçadamente aconteceu, mas a verdade é que nem mesmo um filho de Deus, aliás ainda não habituado a tão alto parentesco, poderia prever, como no xadrez, todas as consequências dum simples lance, duma decisão simples. Os espíritos impuros, excitadíssimos, esperavam a resposta de Jesus, faziam apostas, e quando ela veio, Sim, podem passar para os porcos, deram em uníssono um grito descarado de alegria e, violentamente, entraram nos animais. Fosse pelo inesperado do choque, fosse por não estarem os porcos habituados a andar com demónios dentro, o resultado foi enlouquecerem todos num repente e lançarem-se do precipício abaixo, os dois mil que eram, indo cair ao mar, onde morreram afogados todos. Não se descreve a raiva dos donos dos inocentes animais que ainda um minuto antes andavam no seu sossego, fossando nas terras brandas, se as encontravam, à procura de raízes e vermes, rapando a erva escassa e dura das superfícies ressequidas, e agora, vistos cá de cima, os porquinhos faziam pena, uns já sem vida, boiando, outros, quase desfalecidos, faziam ainda um esforço titânico para manter as orelhas fora de água, pois é sabido que os porcos não podem fechar os condutos auditivos, entra-lhes por ali a água em caudal e, em menos que um ámen, ficam inundados por dentro. Os porqueiros, furiosos, atiravam de longe pedras a Jesus e a quem estava com ele, e já vinham a correr aí com o propósito, justíssimo, de exigir responsabilidades ao causador do prejuízo, um x por cabeça, a multiplicar por dois mil, as contas são fáceis de fazer. Mas não de pagar.
Pescador é gente de pouco dinheiro, vive de espinhas, e Jesus nem pescador era. Ainda quis o nazareno esperar pelos reclamantes, explicar-lhes que o pior de tudo no mundo é o diabo, que ao lado dele dois mil porcos não tiram nem acrescentam, e que todos nós estamos condenados a sofrer perdas na vida, as materiais e as outras, Tenham paciência, irmãos, diria Jesus quando chegassem à fala. Mas Tiago e João não estiveram de acordo que se deixassem ficar à espera de um recontro, que, pela amostra, não seria pacífico, de nada servindo a boa educação e as boníssimas intenções de um lado contra a brutalidade e a razão do outro lado. Jesus não queria, mas teve de render-se a argumentos que ganhavam mais poder persuasivo a cada pedra que caía perto. Desceram a correr a encosta para o mar, num salto estavam dentro da barca, e, à força de remos, em pouco tempo se acharam a salvo, os do outro lado não pareciam ser gente dada à vida da pesca, pois se barcos tinham não estavam à vista.
Perderam-se uns porcos, salvou-se uma alma, o ganho é de Deus, disse Tiago. Jesus olhou-o como se pensasse noutra coisa, uma coisa que os dois irmãos, olhando-o a ele, queriam conhecer e de que estavam ansiosos por falar, a insólita revelação, feita pelos demónios, de que Jesus era filho de Deus, mas Jesus virara os olhos para a margem donde tinham fugido, via o mar, os porcos flutuando e baloiçando-se na ondulação, dois mil animais sem culpa, uma inquietação germinava dentro de si, buscava por onde romper, e de súbito, Os demónios, onde estão os demónios, gritou, e depois soltou uma gargalhada para o céu, Escuta-me, ó Senhor, ou tu escolheste mal o filho que disseram que eu 122
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sou e há-de cumprir os teus desígnios, ou entre os teus mil poderes falta o duma inteligência capaz de vencer a do diabo, Que queres dizer, perguntou João, aterrado pelo atrevimento da interpelação, Quero dizer que os demónios que moravam no possesso estão agora livres, porque os demónios já nós sabíamos que não morrem, meus amigos, nem sequer Deus os pode matar, o que eu ali fiz valeu tanto como cortar o mar com uma espada. Do outro lado descia para a margem muita gente, alguns atiravam-se à água para recuperar os porcos que boiavam mais perto, outros saltavam para os barcos e iam à caça. Nessa noite, na casa de Simão e André, que era ao lado da sinagoga, reuniram-se os cinco amigos em segredo para debaterem a tremendíssima questão de ser Jesus, segundo a revelação dos demónios, filho de Deus. Depois do mais que estranho caso, tinham-se posto de acordo os da aventura em deixarem para a noite a inevitável conversa, mas agora era chegado o momento de pôr tudo em pratos limpos. Jesus começou por dizer, Não se pode ter confiança no que diz o pai da mentira, referia-se; claro está, ao Diabo. Disse André, A verdade e a mentira passam pela mesma boca e não deixam rasto, o Diabo não deixa de ser Diabo por alguma vez ter falado verdade. Disse Simão, Que tu não eras um homem como nós, sabíamo-lo já, veja-se o peixe que não pescaríamos sem ti, a tempestade que nos ia matando, a água que tornaste em vinho, a adúltera que salvaste da lapidação, agora os demónios expulsos dum possesso. Disse Jesus, Não fui o único a fazer sair demónios de pessoas, Tens razão, disse Tiago, mas foste o primeiro diante de quem eles se humilharam, chamando-te filho do Deus Altíssimo, Serviu-me de muito a humilhação, no fim o humilhado fui eu, O que conta não é isso, eu estava lá e ouvi, interveio João, por que não nos disseste que és filho de Deus, Não sei se sou filho de Deus, Como é possível que o saiba o Diabo e não o saibas tu, Boa pergunta é ela, mas a resposta só eles ta saberão dar, Eles, quem, Deus, de quem o Diabo diz que sou filho, o Diabo, que só de Deus o podia ter sabido. Houve um silêncio, como se todos que ali estavam quisessem dar tempo a que as personagens invocadas se pronunciassem, e, ao cabo, Simão lançou a questão decisiva, Que há entre ti e Deus. Jesus suspirou, Eis a pergunta que eu esperava que me fizésseis desde que aqui cheguei, Nunca imaginaríamos que um filho de Deus tivesse querido fazer-se pescador, Já vos disse que não sei se sou filho de Deus, Que és tu, afinal. Jesus cobriu a cara com as mãos, buscava nas lembranças do que tinha sido uma ponta por onde começar a confissão que lhe pediam, de súbito viu a sua vida como se ela pertencesse a outro, aí está, se os diabos falaram verdade, então tudo quanto antes lhe sucedeu tem de ter um sentido diferente do que parecia e alguns desses sucessos só à luz da revelação podem ser agora entendidos. Jesus afastou as mãos da cara, olhou os amigos um por um, com uma expressão de súplica, como se reconhecesse que a confiança que lhes pedia era superior à que um homem pode conceder a outro homem, e no fim de um longo silêncio disse, Eu vi Deus. Nenhum deles pronunciou palavra, apenas aguardaram. Ele prosseguiu, de olhos baixos, Encontrei-o no deserto e ele anunciou-me que quando a hora for chegada me dará glória e poder em troca da minha vida, mas não disse que eu fosse seu filho. Outro silêncio. E como se mostrou Deus aos teus olhos, perguntou Tiago, Como uma nuvem, uma coluna de fumo, Não de fogo, Não, não de fogo, de fumo, E não te disse mais nada, Que voltaria quando chegasse o momento, O
momento de quê, Não sei, talvez de vir buscar a minha vida, E essa glória, e esse poder, quando tos dará, Não sei. Novo silêncio, na casa onde estavam abafava-se de calor, mas todos tremiam. Depois Simão perguntou pausadamente, Serás tu o Messias, a quem deveremos chamar filho de Deus porque virás para resgatar o povo de Deus da servidão em que se encontra, Eu, o Messias, Não seria maior motivo de assombro do que seres filho directo do Senhor, sorriu-se André nervosamente. Disse Tiago, Messias ou filho de Deus, o que eu não compreendo é como o soube o Diabo, se o Senhor nem a ti to declarou. Disse João, pensativo, Que coisas que nós não sabemos haverá entre o Diabo e Deus.
Olharam-se receosos, porque tinham medo de sabê-lo, e Simão perguntou a Jesus, Que vais fazer; e Jesus respondeu, O que só posso, esperar a hora. Já vinha muito perto, a hora, mas Jesus, antes de ela chegar, ainda teve ocasião, por duas vezes, de manifestar os seus poderes milagrosos, embora sobre a segunda fosse preferível deixar cair um véu de silêncio porque se tratou de um equívoco seu, de que veio a resultar morrer uma figueira que tão inocente estava de qualquer mal como os porcos que os demónios precipitaram no mar. Porém, o primeiro destes dois actos merecia bem ser levado ao conhecimento dos sacerdotes de Jerusalém para ficar depois gravado com letras de ouro no frontão do Templo, porque uma coisa assim nunca se tinha visto antes, nem tornou a ver-se mais, até aos dias de hoje. Discrepam os historiadores sobre os motivos que teriam levado tanta e tão diversa gente a 123
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reunir-se naquele lugar, sobre cuja localização, diga-se de passagem e a propósito, também abundam as dúvidas, havendo quem afirme, isto quanto aos motivos, que se tratava simplesmente de uma romaria tradicional cuja origem já se teria perdido na noite dos tempos, outros que não senhor, o que tinha era corrido a voz, que depois veio a averiguar-se infundada, de que chegara um plenipotenciário de Roma para anunciar uma descida dos impostos, e outros, ainda, não propondo qualquer hipótese ou solução para o problema, protestam que só ingénuos podem acreditar em diminuições de cargas fiscais e revisões da massa tributária favoráveis ao contribuinte e que, quanto à supostamente desconhecida origem da romaria, sempre algum indício de causa prima se poderia descobrir se os que gostam de encontrar tudo feito se dessem ao trabalho de investigar o imaginário colectivo. O certo e o sabido é que estavam ali entre quatro mil e cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças, e que toda esta gente, num determinado momento, se achou sem ter de que comer. Como é que um povo tão precavido, tão acostumado a viajar e a prevenir-se de farnel mesmo quando se tratava de ir daqui além, se encontrou de repente desmunido de uma côdea de pão e de uma febra de conduto, é o que ninguém hoje consegue nem tenta explicar. Mas os factos são os factos, e os factos dizem-nos que estavam ali entre doze e quinze mil pessoas, se desta vez não nos esquecermos das mulheres e das crianças, com o estômago vazio há não se sabe quantas horas, tendo, mais cedo ou mais tarde, de voltar para casa, com perigo de se ficarem pelo caminho a morrer de inanição ou entregues à caridade e fortuna de quem passasse. As crianças, que nestes casos são sempre as primeiras a dar o sinal, já reclamavam, impacientes, algumas choramingando, Ó mãe, tenho fome, e a situação ameaçava tornar-se, a cada momento, como então se dizia, incontrolável. Jesus estava no meio da multidão com Maria de Magdala, estavam também os seus amigos, Simão, André, Tiago e João, que, desde o episódio dos porcos e o que depois se soube, quase sempre andavam com ele, mas, ao contrário do resto da gente, tinham-se aviado com alguns peixes e alguns pães. Estavam, por assim dizer, servidos. Porem-se a comer, ali diante de toda aquela gente, além de ser prova de um feio egoísmo, não estava isento de alguns riscos, uma vez que da necessidade à lei apenas medeia um curtíssimo passo, e a mais expedita justiça, sabemo-lo desde Caim, é a que fazemos pelas nossas próprias mãos. Jesus nem por sombras imaginava que pudesse valer a tanta gente num tal aperto, mas Tiago e João, com a segurança que caracteriza as testemunhas presenciais, foram para ele e disseram-lhe, Se foste capaz de fazer sair do corpo dum homem os demónios que o matavam, também deves poder fazer entrar no corpo desta gente a comida de que precisam para viver, E como o farei, se aqui não temos mais alimento do que este pouco que trouxemos, És o filho de Deus, podes fazê-lo. Jesus olhou Maria de Magdala, que lhe disse, Já chegaste ao ponto donde não podes voltar para trás, e a expressão da sua cara era de pena, não percebeu Jesus se dele ou da esfomeada gente. Então, tomando os seis pães que tinham trazido, partiu cada um deles em duas metades e deu-os aos que o acompanhavam, fez o mesmo com os seis peixes, ficando, também ele, com um pão e um peixe. Depois disse, Vinde comigo e fazei o que eu fizer. Sabemos o que fez, mas nunca saberemos como pôde tê-lo feito. ia de pessoa em pessoa, partindo e dando o pão e o peixe, porém, cada uma recebia, em cada pedaço, um peixe e um pão inteiros. Do mesmo modo procediam Maria de Magdala e os quatro, e por onde eles passavam era como um benévolo vento que fosse soprando sobre a seara, levantando uma a uma as espigas descaídas, com um grande rumor de folhas que eram, aqui, as bocas mastigando e agradecendo, É o Messias, diziam alguns, É um mago, diziam outros, mas a nenhum dos que ali estavam passou pela cabeça perguntar, És o filho de Deus. E Jesus dizia a todos, Quem tiver ouvidos que ouça, se não dividirdes, não multiplicareis. Que Jesus o tenha ensinado, bem está, que a oportunidade vinha a calhar. Mas o que não está bem é ter ele próprio tomado à letra a lição quando não devia, que esse foi o caso já falado da figueira. ia Jesus por um caminho no campo quando sentiu fome, e vendo ao longe uma figueira com folhas, foi ver se nela encontraria alguma coisa, mas, ao chegar ao pé dela, não encontrou senão folhas, pois não era tempo de figos. Disse então, Nunca mais nascerá fruto de ti, e naquele mesmo instante secou a figueira. Disse Maria de Magdala, que com ele estava, Darás a quem precisar, não pedirás a quem não tiver. Arrependido, Jesus ordenou à figueira que ressuscitasse, mas ela estava morta.
Manhã de nevoeiro. O pescador levanta-se da esteira, olha pela fresta da casa o espaço branco e diz para a mulher, Hoje não vou ao mar, com uma névoa assim até os peixes se perdem 124
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
debaixo de água. Disse-o este, e, por iguais ou parecidas palavras, também o disseram os mais pescadores todos, duma margem e da outra, perplexos pela extraordinária novidade de um nevoeiro impróprio da época do ano em que estamos. Só um, que pescador de ofício não é, ainda que com os pescadores seja o seu viver e trabalhar, assoma à porta da casa como para certificar-se de que é hoje o seu dia, e, olhando o céu opaco, diz para dentro, Vou ao mar. Por trás do seu ombro, Maria de Magdala pergunta, Tens de ir, e Jesus respondeu, Já era tempo, Não comes, Os olhos estão em jejum quando se abrem de manhã. Abraçou-a e disse, Enfim, vou saber quem sou e para o que sirvo, depois, com uma incrível segurança, pois o nevoeiro não deixava ver nem os próprios pés, desceu o declive que levava à água, entrou numa das barcas que ali se encontravam amarradas e começou a remar para o invisível que era o centro do mar. O som dos remos roçando e batendo na borda do barco, o levantar e o espalhar da água que deles escorria, ressoavam por toda a superfície e obrigavam a estar de olhos abertos os pescadores a quem as boas mulheres haviam dito, Se não podes ir pescar, aproveita e dorme. Inquietas, desassossegadas, as pessoas das aldeias olhavam o nevoeiro impenetrável na direcção onde o mar devia estar e esperavam, sem o saberem, que o ruído dos remos e da água se interrompesse de repente, para tornarem a entrar em casa e, com chaves, trancas e cadeados, fecharem todas as portas, ainda sabendo que um simples sopro as derrubará, se aquele que além está é quem eles imaginam e para este lado resolver vir soprar. O nevoeiro abre-se para Jesus passar, mas o mais longe a que os olhos chegam é a ponta dos remos, e a popa, com a sua travessa simples a servir de banco. O resto é um muro, primeiro baço e cinzento, depois, à medida que a barca se aproxima do destino, uma claridade difusa começa a tornar branco e brilhante o nevoeiro, que vibra como se procurasse, sem o conseguir, no silêncio, um som. Numa roda maior de luz, a barca pára, é o centro do mar. Sentado no banco da popa, está Deus. Não é, como da primeira vez, uma nuvem, uma coluna de fumo, que hoje, estando assim o tempo, poderiam ter-se perdido e confundido no nevoeiro. É um homem grande e velho, de barbas fluviais espalhadas sobre o peito, a cabeça descoberta, cabelo solto, a cara larga e forte, a boca espessa, que falará sem que os lábios pareçam mover-se. Está vestido como um judeu rico, de túnica comprida, cor de magenta, um manto com mangas, azul, debruado de tecido de ouro, mas nos pés tem umas sandálias grossas, rústicas, dessas de que se diz que são para andar, o que mostra que não deve ser pessoa de hábitos sedentários. Quando se tiver ido embora, perguntar-nos-emos, Como eram os cabelos, e não nos recordaremos se brancos, pretos ou castanhos, pela idade deveriam ser brancos, mas há pessoas a quem as cãs vêm tarde, será talvez esse o caso.
Jesus meteu os remos para dentro do barco, como quem calcula que a conversa vá ser demorada, e disse, simplesmente, Cá estou. Sem pressa, metodicamente, Deus compôs as abas do manto sobre os joelhos, e disse também, Cá estamos. Pelo tom da voz, diríamos que tinha somdo, mas a boca não se moveu, apenas os longos fios do bigode e do queixo estremeceram, como um sino vibrando. Disse Jesus, Vim saber quem sou e o que terei de fazer daqui em diante para cumprir, perante ti, a minha parte do contrato. Disse Deus, São duas questões, portanto temos de ir por partes, por qual queres começar, Pela primeira, quem sou eu, perguntou Jesus, Não o sabes, perguntou Deus por sua vez, Julgava saber, julgava que era filho do meu pai, A que pai te referes, Ao meu pai, ao carpinteiro José filho de Heli, ou de Jacob, não sei bem, O que morreu crucificado, Não pensava que houvesse outro, Foi um trágico engano dos romanos, esse pai morreu inocente e sem culpa, Disseste esse pai, isso significa que há outro, Admiro-te, és um rapaz esperto, inteligente, Neste caso não foi a inteligência que me serviu, ouvi-o da boca do Diabo, Andas com o Diabo, Não ando com o Diabo, foi ele quem veio ao meu encontro, E que foi que ouviste da boca do Diabo, Que sou teu filho. Deus fez, compassado, um gesto afirmativo com a cabeça e disse, Sim, és meu filho, Como pode um homem ser filho de Deus, Se és filho de Deus, não és um homem, Sou um homem, vivo, como, durmo, amo como um homem, portanto sou um homem e como homem morrerei, No teu lugar, não estaria tão certo disso, Que queres dizer, Essa é a segunda questão, mas temos tempo, que respondeste tu ao Diabo que disse que eras meu filho, A esse respeito nada, fiquei à espera do dia em que te encontrasse, e a ele expulsei-o do possesso que andava atormentando, chamava-se Legião e era muitos, Onde estão agora, Não sei, Disseste que os expulsaste, Com certeza sabes melhor do que eu que, quando se expulsam diabos de um corpo, não se sabe para onde vão, E por que hei-de eu saber dos assuntos do Diabo, Sendo Deus, tens de saber tudo, Até um certo ponto, só até um certo ponto, Que ponto, O ponto em que começa a ser interessante fazer de conta que ignoro, Pelo menos saberás 125
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como e porquê sou teu filho e para quê, Observo que estás muito mais despachado de espírito, e mesmo um tanto impertinente, considerando a situação, do que quando te vi pela primeira vez, Era um rapaz assustado, agora sou um homem, Não tens medo, Não, Tê-lo-ás, descansa, o medo chega sempre, até a um filho de Deus, Tens outros, Outros, quê, Filhos, Só precisava de um, E eu, como vim eu a ser teu filho, Tua mãe não to disse, Minha mãe sabe, Enviei-lhe um anjo a explicar-lhe como as coisas se tinham passado, pensei que to tivesse contado, E quando esteve esse anjo com minha mãe, Deixa-me ver, se não erro muito os cálculos, foi depois de teres saído de casa pela segunda vez e antes de fazeres aquela do vinho em Caná, Então, minha mãe soube e não mo disse, contei-lhe que te vi no deserto e não acreditou, mas tinha de acreditar depois de aparecer-lhe o anjo, e não o quis reconhecer perante mim, Deves saber como são as mulheres, vives com uma, que eu sei, têm lá uns melindres, uns escrúpulos, que só elas, Que melindres, que escrúpulos, Bem vês, eu tinha misturado a minha semente na semente de teu pai antes de seres concebido, era a maneira mais fácil, a que menos dava nas vistas, E estando as sementes misturadas, como podes estar certo de que sou teu filho, É
verdade que nestes assuntos, em geral, não é prudente mostrar certeza, ainda menos absoluta, mas eu tenho-a, de alguma coisa me serve ser Deus, E por que foi que quiseste ter um filho, Como não tinha nenhum no céu, tive de arranjá-lo na terra, não é original, até em religiões com deuses e deusas que podiam fazer filhos uns com os outros, tem-se visto vir um deles à terra, para variar, suponho, de caminho melhorando um pouco uma parte do género humano pela criação de heróis e outros fenómenos, E este filho que sou, para que o quiseste, Por gosto de variar, não foi, escusado seria dizê-
lo, Então porquê, Porque estava precisado de quem me ajudasse aqui na terra, Como Deus que és, não devias precisar de ajudas, Essa é a segunda questão. No silêncio que se seguiu começou a ouvir-se de dentro do nevoeiro, porém de nenhuma direcção precisa que se pudesse apontar, um ruído de alguém que viesse por aí nadando, e que, a julgar pelos resfolgos que soltava, ou não pertencia à corporação dos mestres nadadores, ou estava prestes a chegar ao limite das forças. A Jesus pareceu-lhe ver que Deus sorria e que de propósito prolongava a pausa para dar tempo a que o nadador se mostrasse no círculo limpo de névoa de que a barca era o centro. Surgiu por estibordo, inesperadamente, quando se diria que ia chegar do outro lado, uma mancha escura mal definida em que, no primeiro instante, a imaginação de Jesus julgou ver um porco com as orelhas esticadas fora da água, mas que, após umas quantas braçadas mais, se viu ser um homem ou algo que de homem tinha todas as semelhanças. Deus virou a cabeça para o lado do nadador, não apenas com curiosidade, mas interessado, como se quisesse incitá-lo neste esforço derradeiro, e um tal gesto, quiçá por vir de quem veio, deu resultado imediato, as braçadas finais foram rápidas e harmoniosas, nem parecia que o recém-chegado viera de tão longe, da margem, queremos dizer. As mãos agarraram-se à borda da barca enquanto a cabeça ainda estava meio mergulhada na água, e eram umas mãos largas e possantes, com unhas fortes, as mãos de um corpo que, como o de Deus, devia ser alto, grande e velho. A barca oscilou com o impulso, a cabeça ascendeu da água, o tronco veio atrás escorrendo qual catarata, as pernas depois, era o leviatã surgindo das últimas profundidades, era, como se viu, passados todos estes anos, o pastor, que dizia Cá estou eu também, enquanto se ia instalando na borda do barco, exactamente a meia distância entre Jesus e Deus, porém, caso singular, a embarcação desta vez não se inclinou para o seu lado, como se Pastor tivesse decidido aliviar-se do seu próprio peso ou levitasse parecendo estar sentado. Cá estou, repetiu, espero ter chegado ainda a tempo de assistir à conversa, Já íamos bastante avançados nela, mas não tínhamos entrado no essencial, disse Deus, e, dirigindo-se a Jesus, Este é o Diabo, de quem falávamos há pouco. Jesus olhou para um, olhou para outro, e viu que, tirando as barbas de Deus, eram como gémeos, é certo que o Diabo parecia mais novo, menos enrugado, mas seria uma ilusão dos olhos ou um engano por ele induzido. Disse Jesus, Sei quem é, vivi quatro anos na sua companhia, quando se chamava Pastor, e Deus respondeu, Tinhas de viver com alguém, comigo não era possível, com a tua família não querias, só restava o Diabo, Foi ele que me foi buscar, ou tu que me enviaste a ele, Em rigor, nem uma coisa nem outra, digamos que estivemos de acordo em que essa era a melhor solução para o teu caso, Por isso ele sabia o que dizia quando, pela boca do possesso gadareno, me chamou teu filho, Tal qual, Quer dizer, fui enganado por ambos, Como sempre sucede aos homens, Tinhas dito que não sou um homem, E confirmo-o, poderemos é dizer que, qual é a palavra técnica, podemos dizer que encarnaste, E agora, que quereis de mim, Quem quer sou eu, não ele, Estais aqui os dois, bem vi que o aparecimento dele não foi surpresa para ti, portanto esperava-lo, 126
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Não precisamente, embora, por princípio, se deva contar sempre com o Diabo, Mas se a questão que temos que tratar, tu e eu, apenas nos diz respeito a nós, por que veio ele cá, por que não o mandas embora, Pode-se despedir a arraia-miúda que o Diabo tem ao seu serviço, no caso de ela começar a tornar-se inconveniente por actos ou palavras, mas o Diabo, propriamente dito, não, Portanto, veio porque esta conversa é também com ele, Meu filho, não esqueças o que te vou dizer, tudo quanto interessa a Deus, interessa ao Diabo. Pastor, a quem, uma vez por outra, vamos chamar assim para não estarmos a mencionar a toda a hora o nome do Inimigo, ouviu o diálogo sem dar mostras de atenção, como se não fosse dele que se estivesse a falar, deste modo negando, na aparência, a última e fundamental afirmação de Deus. Mas logo se viu que a desatenção não passava de um fingimento, foi só Jesus dizer, Falemos agora da segunda questão, e aí o temos alerta. Porém, não saiu, da sua boca, uma só palavra. Deus inspirou profundamente, olhou em redor o nevoeiro e murmurou, no tom de quem acaba de fazer uma descoberta inesperada e curiosa, Não o tinha pensado, isto aqui é como estar no deserto. Virou os olhos para Jesus, fez uma longa pausa, e depois, como quem se resigna ao inevitável, começou, A insatisfação, meu filho, foi posta no coração dos homens pelo Deus que os criou, falo de mim, claro está, mas essa insatisfação, como todo o mais que os fez à minha imagem e semelhança, fui eu buscá-la aonde ela estava, ao meu próprio coração, e o tempo que desde então passou não a fez desvanecer, pelo contrário, posso dizer-te, até, que o mesmo tempo a tornou mais forte, mais urgente, mais exigente. Deus fez aqui uma breve pausa como para apreciar o efeito da introdução, depois prosseguiu, Desde há quatro mil e quatro anos que venho sendo deus dos judeus, gente de seu natural conflituosa e complicada, mas com quem, feito um balanço das nossas relações, não me tenho dado mal, uma vez que me tomam a sério e assim se irão manter até tão longe quanto a minha visão do futuro pode alcançar, Estás, portanto, satisfeito, disse Jesus, Estou e não estou, ou melhor, estaria se não fosse este inquieto coração meu que todos os dias me diz Sim senhor, bonito destino arranjaste, depois de quatro mil anos de trabalho e preocupações, que os sacrifícios nos altares, por muito abundantes e variados que sejam, jamais pagarão, continuas a ser o deus de um povo pequeníssimo que vive numa parte diminuta do mundo que criaste com tudo o que tem em cima, diz-me tu, meu filho, se eu posso viver satisfeito tendo esta, por assim dizer, vexatória evidência todos os dias diante dos olhos, Não criei nenhum mundo, não posso avaliar, disse Jesus, Pois é, não podes avaliar, mas ajudar, podes, Ajudar a quê, A alargar a minha influência, a ser deus de muito mais gente, Não percebo, Se cumprires bem o teu papel, isto é, o papel que te reservei no meu plano, estou certíssimo de que em pouco mais de meia dúzia de séculos, embora tendo de lutar, eu e tu, com muitas contrariedades, passarei de deus dos hebreus a deus dos que chamaremos católicos, à grega, E
qual foi o papel que me destinaste no teu plano, O de mártir, meu filho, o de vítima, que é o que de melhor há para fazer espalhar uma crença e afervorar uma fé. As duas palavras, mártir, vítima, saíram da boca de Deus como se a língua que dentro tinha fosse de leite e mel, mas um súbito gelo arrepiou os membros de Jesus, tal qual se o nevoeiro se tivesse fechado sobre ele, ao mesmo tempo que o Diabo o olhava com uma expressão enigmática, misto de interesse científico e involuntária piedade.
Disseste-me que me darias poder e glória, balbuciou Jesus, ainda tremendo de frio, E darei, e darei, mas lembra-te do nosso acordo, tê-los-ás, mas depois da tua morte, E de que me servem poder e glória, se estou morto, Bem, não estarás precisamente morto, no sentido absoluto da palavra, pois, sendo tu meu filho, estarás comigo, ou em mim, ainda não o tenho decidido em definitivo, Nesse sentido que dizes, que é não estar morto, É, por exemplo, veres, para todo o sempre, como te venerarão em templos e altares, ao ponto, posso adiantar-to desde já, de as pessoas no futuro se esquecerem um pouco do Deus inicial que sou, mas isso não tem importância, o muito pode ser partilhado, o pouco não o deve. Jesus olhou Pastor, viu -o sorrir, e compreendeu, Percebo agora por que está aqui o Diabo, se a tua autoridade vier a alargar-se a mais gente e a mais países, também o poder dele sobre os homens se alargará, pois os teus limites são os limites dele, nem um passo mais, nem um passo menos, Tens toda a razão, meu filho, alegro-me com a tua perspicácia, e a prova disso tem-la tu no facto, em que nunca se repara, de os demónios de uma religião não poderem ter qualquer acção noutra religião, como um deus, imaginando que tivesse entrado em confronto directo com outro deus, não o pode vencer nem por ele ser vencido, E a minha morte, será como, A um mártir convém-lhe uma morte dolorosa, e se possível infame, para que a atitude dos crentes se torne mais facilmente sensível, apaixonada, emotiva, Não estejas com rodeios, diz-me que morte será a minha, Dolorosa, 127
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infame, na cruz, Como meu pai, Teu pai sou eu, não te esqueças, Se ainda posso escolher um pai, escolho-o a ele, mesmo tendo sido ele, como foi, infame uma hora da sua vida, Foste escolhido, não podes escolher, Rompo o contrato, desligo-me de ti, quero viver como um homem qualquer, Palavras inúteis, meu filho, ainda não percebeste que estás em meu poder e que todos esses documentos selados a que chamamos acordo, pacto, tratado, contrato, aliança, figurando eu neles como parte, podiam levar uma só cláusula, com menos gasto de tinta e de papel, uma que prescrevesse sem floreados Tudo quanto a lei de Deus queira é obrigatório, as excepções também, ora, meu filho, sendo tu, duma certa e notável maneira, uma excepção, acabas por ser tão obrigatório como o é a lei, e eu que a fiz, Mas com o poder que só tu tens, não seria muito mais fácil, e eticamente mais limpo, ires tu próprio à conquista desses países e dessa gente, Não pode ser, impede-o o pacto que há entre os deuses, esse, sim, inamovível, nunca interferir directamente nos conflitos, imaginas-me a mim numa praça pública, rodeado de gentios e pagãos, a tentar convencê-los de que o deus deles é uma fraude e que o verdadeiro deus sou eu, não são coisas que um deus faça a outro, além disso nenhum deus gosta que venham fazer na sua casa aquilo que seria incorrecto ir ele fazer à casa dos outros, Então, servis-vos dos homens, Sim, meu filho, o homem é pau para toda a colher, desde que nasce até que morre está sempre disposto a obedecer, mandam-no para ali, e ele vai, dizem-lhe que pare, e ele pára, ordenam-lhe que volte para trás, e ele recua, o homem, tanto na paz como na guerra, falando em termos gerais, é a melhor coisa que podia ter sucedido aos deuses, E o pau de que eu fui feito, sendo homem, para que colher vai servir, sendo teu filho, Serás a colher que eu mergulharei na humanidade para a retirar cheia dos homens que acreditarão no deus novo em que me vou tornar, Cheia de homens, para os devorares, Não precisa que eu o devore, quem a si mesmo se devorará. Jesus meteu os remos na água, disse, Adeus, vou para casa, voltareis pelo caminho por onde viestes, tu, a nado, e tu, que sem mais nem quê apareceste, desaparece sem mais nem quê. Nem Deus nem o Diabo se mexeram donde estavam, e Jesus acrescentou, irónico, Ah, preferem ir de barco, pois é melhor assim, sim senhores, levo-os até à borda para que todos possam, finalmente, ver Deus e o Diabo em figura própria, o bem que se entendem, o parecidos que são. Jesus deu meia volta à barca, apontando-a à margem donde tinha vindo, e, em remadas fortes e largas, entrou no nevoeiro, tão espesso que no mesmo instante deixou de se ver Deus, e do Diabo nem o vulto. Sentiu-se vivo e alegre, com um vigor fora do comum, donde estava não podia ver a proa do barco, mas sentia-a levantar-se a cada impulso dos remos como a cabeça do cavalo na corrida, que a todo o momento parece querer desligar-se do pesado corpo, mas tem de resignar-se a puxar por ele até ao fim. Jesus remou, remou, a margem já deverá estar próxima, qual irá ser, pergunta-se, a atitude das gentes quando lhes disser, O das barbas é Deus, o outro é o Diabo. Jesus olhou de relance para trás, onde a costa era, distinguiu uma claridade diferente e anunciou, Cá estamos, e remou mais. A todo o momento esperava ouvir o deslizar macio do fundo da barca sobre o lodo espesso da margem, o roçar alegre das pequenas pedras soltas, mas a proa da barca, que ele não via, estava era apontada ao centro do mar, e, quanto à luz que percebera, tornara a ser a do brilhante círculo mágico, a da armadilha fulgurante de que Jesus imaginara ter-se escapado. Exausto, deixou pender a cabeça para o peito, cruzou os braços sobre os joelhos, postos um sobre o outro os punhos, como se esperasse que alguém lhos viesse atar, e nem pensou em meter os remos para dentro do barco, tão imperiosa e exclusiva se lhe tornara a consciência da inutilidade de qualquer gesto que fizesse. Não seria o primeiro a falar, não reconheceria em voz alta a derrota, não pediria perdão por haver desrespeitado a vontade e os decretos de Deus, e, indirectamente, atentado contra os interesses do Diabo, natural beneficiário dos efeitos segundos, porém não secundários, do uso da vontade e da realização efectiva dos projectos do Senhor. O silêncio, depois da tentativa frustrada, foi breve, Deus, lá no seu banco, após ter composto a fralda da túnica e o cabeção do manto com a falsa solenidade ritual do juiz que vai produzir uma sentença, disse, Recomecemos, recomecemos a partir da altura em que te disse que estás em meu poder, porque tudo quanto não seja uma aceitação tua, humilde e pacífica, desta verdade, é um tempo que não deverias perder nem obrigar-me a perder a mim, Recomecemos então, disse Jesus, mas toma já nota de que me recuso a fazer os milagres cuja oportunidade me apareça, e, sem milagres, o teu projecto é nada, aguaceiro que caiu do céu e não chegou para matar nenhuma verdadeira sede, Terias razão se fosse na tua mão que estivesse o poder de fazeres ou não fazeres milagres, E não é, Que ideia, os milagres, tanto os pequenos como os grandes, quem os faz sempre sou eu, na tua presença, claro, para que estejas lá a 128
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receber os benefícios que me convêm, no fundo és um supersticioso, crês que é preciso estar o milagreiro à cabeceira do enfermo para que o milagre aconteça, ora, querendo eu, um homem que estivesse a morrer sem ter ninguém ao lado, sozinho na maior solidão, sem médico, nem enfermeira, nem parente querido ao alcance da mão ou da voz, querendo eu, repito, esse homem salvar-se-ia e continuaria a viver, como se nada lhe tivesse acontecido, Por que não o fazes, então, Porque ele imaginaria que a cura lhe tinha vindo pela graça dos seus méritos pessoais, pôr-se-ia a dizer coisas como esta Uma pessoa como eu não podia morrer, ora, já há presunção de mais no mundo que criei, não ia agora permitir que a tanto pudessem chegar os desconcertos de opinião, Portanto, todos os milagres são teus, Os que fizeste e os que farás, e mesmo admitindo, mas trata-se de uma mera hipótese, apenas útil à clarificação da questão que aqui nos trouxe, admitindo que levarias por diante essa obstinação contra a minha vontade, se fosses por esse mundo, é um exemplo, a clamar que não és o filho de Deus, o que eu faria seria suscitar à tua passagem tantos e tais milagres que não terias outro remédio senão renderes-te a quem tos estivesse agradecendo, e, em consequência, a mim, Logo, não tenho saída, Nenhuma, e não faças como o cordeiro irrequieto que não quer ir ao sacrifício, ele agita-se, ele geme que corta o coração, mas o seu destino está escrito, o sacrificador espera-o com o cutelo, Eu sou esse cordeiro, O que tu és, meu filho, é o cordeiro de Deus, aquele que o próprio Deus leva ao seu altar, que é o que estamos preparando aqui. Jesus olhou Pastor como se dele esperasse, não um auxílio, mas, sendo forçosamente diferente o entendimento que ele terá das coisas do mundo, pois homem não é nem foi, nem deus foi ou há-de ser, talvez que um olhar, um sinal de sobrancelhas, pudessem sugerir-lhe ao menos uma resposta hábil, dilatória, que o libertasse, mesmo só por uns tempos, da situação de animal acuado em que se encontra. Mas o que Jesus lê nos olhos de Pastor é as palavras que ele lhe disse quando o mandou embora do rebanho, Não aprendeste nada, vai-te, agora Jesus compreende que desobedecer a Deus uma vez não basta, aquele que não lhe sacrificou o cordeiro, não deve sacrificar-lhe a ovelha, que a Deus não se pode dizer Sim para depois dizer-lhe Não, como se o Sim e o Não fossem mão esquerda e mão direita, e bom só o trabalho que as duas fizessem. Deus, apesar das suas habituais exibições de força, ele é o universo e as estrelas, ele é os raios e os trovões, ele é as vozes e o fogo no alto da montanha, não tinha poder para obrigar-te a matar a ovelha, e, contudo, tu, por ambição, mataste-a, o sangue que ela derramou não o absorveu todo a terra do deserto, vê como chegou até nós, é aquele fio vermelho sobre a água, que, quando daqui nos formos, nos há-de seguir pelo rasto, a ti, a Deus e a mim. Jesus disse a Deus, Anunciarei aos homens que sou teu filho, o único filho que Deus tem, mas não creio que, mesmo nestas terras que são tuas, seja isso suficiente para que se alargue, quanto tu queres, o teu império, Reconheço-te, enfim, filho meu, eis que já abandonaste as cansativas veleidades de resistência com que quase chegaste a irritar-me, e entras, por teu próprio pé, no modus faciendi, ora, entre as coisas inúmeras que aos homens podem ser ditas, qualquer que seja a sua raça, cor, credo ou filosofia, uma só é pertinente a todos, uma só, no sentido de que nenhum desses homens, sábio ou ignorante, novo ou velho, poderoso ou miserável, ousaria responder-te Isso que me estás dizendo não é comigo, De que se trata, perguntou Jesus, agora sem disfarçar o interesse, Todo o homem, respondeu Deus, em tom de quem dá lição, seja ele quem for, esteja onde estiver, faça o que fizer, é um pecador, o pecado é, por assim dizer, tão inseparável do homem quanto o homem se tornou inseparável do pecado, o homem é uma moeda, vira-la, e vês lá o pecado, Não respondeste à minha pergunta, Respondo, sim, e desta maneira, a única palavra que nenhum homem pode repelir como coisa não sua é Arrepende-te, porque todos os homens caíram em pecado, nem que fosse uma só vez, tiveram um mau pensamento, infringiram um costume, cometeram crime menor ou maior, desprezaram quem deles precisou, faltaram aos deveres, ofenderam a religião e os seus ministros, renegaram a Deus, a esses homens não terás de dizer mais do que Arrependei-vos Arrependei-vos Arrependei-vos, Por tão pouco não precisarias sacrificar a vida daquele de quem dizes ser pai, bastava que fizesses aparecer um profeta, O tempo em que lhes davam ouvidos já passou, hoje só lá vamos com um revulsivo forte, qualquer coisa capaz de chocar as sensibilidades e arrebatar os sentimentos, Um filho de Deus na cruz, Por exemplo, E que deverei eu dizer mais a essa gente, além de injungi-los a um duvidoso arrependimento, se, fartos do teu recado, me virarem as costas, Sim, mandá-los arrependerem-se não creio que seja suficiente, vais ter de recorrer à imaginação, não digas que não a tens, ainda hoje admiro a maneira como conseguiste não me sacrificar o cordeiro, Foi fácil, o animal não tinha nada de que se arrepender, Graciosa resposta, 129
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porém sem sentido, mas até isso é bom, há que deixar as pessoas inquietas, duvidosas, levá-las a pensar que se não conseguem compreender, a culpa é só delas, Devo-lhes contar histórias, então, Sim, histórias, parábolas, exemplos morais, mesmo que tenhas de torcer um bocadinho a lei, não te importes, é uma ousadia que as pessoas timoratas sempre apreciam nos outros, eu próprio, mas não por ser timorato, gostei da maneira como livraste da morte a adúltera, e olha que é muito dizer da minha parte, pois essa justiça pu-la eu na regra que vos dei, Permites que te subvertam as leis, é um mau sinal, Permito-o quando me serve, e chego a querê-lo quando me é útil, recorda o que te expliquei sobre lei e excepções, o que a minha vontade quer torna-se obrigatório no mesmo instante, Morrerei na cruz, disseste, Essa é a minha vontade. Jesus olhou de relance o pastor, mas o rosto dele parecia ausente, como se estivesse contemplando um momento do futuro e lhe custasse acreditar no que os seus olhos viam. Jesus deixou cair os braços e disse, Faça-se então em mim segundo a tua vontade. Deus ia congratular-se, levantar-se do banco para abraçar o filho amado, quando um gesto de Jesus o deteve, Com uma condição, Bem sabes que não podes pôr condições, respondeu Deus, com uma expressão de contrariedade, Não lhe chamemos condição, chamemos-lhe pedido, o simples pedido de um condenado à morte, Diz lá, Tu és Deus, e Deus não pode senão responder com verdade a qualquer pergunta que se lhe faça, e, sendo Deus, conhece todo o tempo passado, a vida de hoje, que está no meio, e todo o tempo futuro, Assim é, eu sou o tempo, a verdade e a vida, Então, diz-me, em nome de tudo o que dizes ser, como será o futuro depois da minha morte, que haverá nele que não haveria se eu não tivesse aceitado sacrificar-me à tua insatisfação, a esse desejo de reinares sobre mais gente e mais países. Deus fez um movimento de enfado, como quem acaba de ver-se preso na rede armada pelas suas próprias palavras, e procurou, sem convicção, uma evasiva, Ora, meu filho, o futuro é enorme, o futuro leva muito tempo a contar, Há quanto tempo estamos nós aqui no meio do mar, cercados de nevoeiro, perguntou Jesus, um dia, um mês, um ano, pois bem, continuemos outro ano, outro mês ou outro dia, o Diabo que se vá embora, se quiser, de qualquer modo já tem garantida a sua parte, e se os benefícios forem proporcionais, como parece justo, quanto mais Deus crescer, mais crescerá o Diabo, Fico, disse Pastor, era a sua primeira palavra desde que se tinha anunciado, Fico, repetiu, e depois, Posso, eu próprio, ver algumas coisas do futuro, mas o que nem sempre consigo é. distinguir se é verdade ou mentira o que julgo ver, quer dizer, às minhas mentiras vejo-as como o que são, verdades de mim, porém nunca sei até que ponto são as verdades dos outros mentiras deles. A labiríntica tirada exigia, para ser bem rematada, que Pastor dissesse que coisas do futuro via, mas a sua boca fechou-se com a brusquidão de quem acaba de perceber que já falou demasiado. Jesus, que não desviara de Deus os olhos, disse, com uma espécie de ironia triste, Para quê fingires que não sabes o que sabes, sabias que eu te faria este pedido, sabes que me dirás o que quero saber, portanto não atrases mais o meu tempo de começar a morrer, Começaste a morrer desde que nasceste, Assim é, mas agora irei mais depressa. Deus olhou Jesus com uma expressão que, em pessoa, diríamos ter sido de um súbito respeito, todo o seu modo e ser se humanizou, e, parecendo embora que isto nada tem que ver com aquilo, mas nós não conheceremos nunca as ligações profundas que existem entre todas as coisas e actos, o nevoeiro avançou para a barca, rodeou-a como uma intransponível muralha, para que dali não saíssem e divulgassem no mundo as palavras de Deus sobre os efeitos, resultados e consequências do sacrifício deste Jesus, filho seu que diz ser, e de Maria, mas cujo pai verdadeiro é José, segundo aquela lei não escrita que manda acreditar só no que se vê, embora, já se sabe, não vejamos sempre, nós, homens, as mesmas coisas da mesma maneira, o que, aliás, se tem mostrado excelente para a sobrevivência e relativa sanidade mental da espécie. Disse Deus, Haverá uma Igreja, que, como sabes, quer dizer assembleia, uma sociedade religiosa que tu fundarás, ou em teu nome será fundada, o que é mais ou menos o mesmo se nos ativermos ao que importa, e essa Igreja espalhar-se-á pelo mundo até a confins que ainda estão por conhecer, chamar-se-á católica porque será universal, o que, infelizmente, não evitará desavenças e dissensões entre os que te terão como referência espiritual, mais, como já te disse, do que a mim próprio, mas isso será apenas por algum tempo, só uns milhares de anos, porque eu já era antes que tu fosses e sempre o hei-de ser depois que tu deixes de ser o que és e o que serás, Fala claro, interrompeu Jesus, Não é possível, disse Deus, as palavras dos homens são como sombras, e as sombras nunca saberiam explicar a luz, entre elas e a luz está e interpõe-se o corpo opaco que as faz nascer, Perguntei-te pelo futuro, É do futuro que estou a falar, O que quero que me digas é como viverão os homens que depois de mim vierem, Referes-te aos 130
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que te seguirem, Sim, se serão mais felizes, Mais felizes, o que se chama felizes, não direi, mas terão a esperança duma felicidade lá no céu onde eu eternamente vivo, portanto a esperança de viverem eternamente comigo, Nada mais, Parece-te pouco, viver com Deus, Pouco, muito ou tudo, só se virá a saber depois do juízo final, quando julgares os homens pelo bem e mal que tiverem feito, por enquanto vives sozinho no céu, Tenho os meus anjos e os meus arcanjos, Faltam-te os homens, Pois faltam, e para que eles venham a mim é que tu serás crucificado, Quero saber mais, disse Jesus quase com violência, como se quisesse afastar a imagem que de si mesmo se lhe representara, suspenso duma cruz, ensanguentado, morto, Quero saber como chegarão as pessoas a crer em mim e a seguir-me, não me digas que será suficiente o que eu lhes disser, não me digas que bastará o que em meu nome disserem depois de mim os que em mim já creiam, dou-te um exemplo, os gentios e os romanos, que têm outros deuses, quererás tu dizer-me que, sem mais nem menos, os trocarão por mim, Por ti não, por mim, Por ti ou por mim, tu próprio dizes que é o mesmo, não joguemos com as palavras, responde à minha pergunta, Quem tiver a fé virá a nós, Assim, sem mais nada, tão simplesmente como acabas de o dizer, Os outros deuses resistirão, E tu lutarás contra eles, por certo, Que disparate, tudo quanto acontece, é na terra que acontece, o céu é eterno e pacífico, o destino dos homens cumprem-no os homens onde estiverem, Dizendo as coisas por claro, mesmo sendo as palavras sombras, vão morrer homens por ti e por mim, Os homens sempre morreram pelos deuses, até por falsos e mentirosos deuses, Podem os deuses mentir, Eles podem, E tu és, de todos, o único e verdadeiro, Único e verdadeiro, sim, E, sendo verdadeiro e único, nem assim podes evitar que os homens morram por ti, eles que deviam ter nascido para viver para ti, na terra, quero dizer, não no céu, onde não terás, para lhes dar, nenhuma das alegrias da vida, Alegrias falsas, também elas, porque nasceram com o pecado original, pergunta aqui ao teu Pastor, ele te explicará como foi, Se há entre ti e o Diabo segredos não partilhados, espero que um deles seja o que eu aprendi com ele, mesmo que ele diga que não aprendi nada. Houve um silêncio, Deus e o Diabo olharam-se de frente pela primeira vez, ambos deram a impressão de ir falar, mas nada aconteceu. Disse Jesus, Estou à espera, De quê, perguntou Deus, como se estivesse distraído, De que me digas quanto de morte e de sofrimento vai custar a tua vitória sobre os outros deuses, com quanto de sofrimento e de morte se pagarão as lutas que, em teu nome e no meu, os homens que em nós vão crer travarão uns contra os outros, Insistes em querer sabê-lo, Insisto, Pois bem, edificar-se-á a assembleia de que te falei, mas os caboucos dela, para ficarem bem firmes, haverão de ser cavados na carne, e os seus alicerces compostos de um cimento de renúncias, lágrimas, dores, torturas, de todas as mortes imagináveis hoje e outras que só no futuro serão conhecidas, Finalmente, estás a ser claro e directo, continua, Para começar por quem tu conheces e amas, o pescador Simão, a quem chamarás Pedro, será, como tu, crucificado, mas de cabeça para baixo, crucificado também há-de ser André, numa cruz em forma de X, ao filho de Zebedeu, aquele que se chama Tiago, degolá-lo-ão, E João, e Maria de Magdala, Esses morrerão de sua natural morte, quando se lhes acabarem os dias naturais, mas outros amigos virás a ter, discípulos e apóstolos como os outros, que não escaparão aos suplícios, é o caso de um Filipe, amarrado à cruz e apedrejado até se lhe acabar a vida, um Bartolomeu, que será esfolado vivo, um Tomé, que matarão à lançada, um Mateus, que não me lembro agora de como morrerá, um outro Simão, serrado ao meio, um Judas, a golpes de maça, outro Tiago, lapidado, um Matias, degolado com acha-de-armas, e também Judas de Iscariote, mas desse virás tu a saber melhor do que eu, salvo a morte, por suas próprias mãos enforcado numa figueira, Todos eles vão ter de morrer por causa de ti, perguntou Jesus, Se pões a questão nesses termos, sim, todos morrerão por minha causa, E depois, Depois, meu filho, já to disse, será uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas, Conta, quero saber tudo. Deus suspirou e, no tom monocórdico de quem preferiu adormecer a piedade e a misericórdia, começou a ladainha, por ordem alfabética para evitar melindres de precedências, Adalberto de Praga, morto com um espontão de sete pontas, Adriano, morto à martelada sobre uma bigorna, Afra de Ausburgo, morta na fogueira, Agapito de Preneste, morto na fogueira, pendurado pelos pés, Agrícola de Bolonha, morto crucificado e espetado com cravos, Águeda de Sicilia, morta com os seios cortados, Alfégio de Cantuária, morto a golpes de osso de boi, Anastácio de Salona, morto na forca e decapitado, Anastásia de Sírmio, morta na fogueira e com os seios cortados, Ansano de Sena, morto por arrancamento das vísceras, Antonino de Pamiers, morto por esquartejamento, António de Rivoli, morto à pedrada e queimado, Apolinário de Ravena, 131
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morto a golpes de maça, Apolónia de Alexandria, morta na fogueira depois de lhe arrancarem os dentes, Augusta de Treviso, morta por decapitação e queimada, Aura de Óstia, morta por afogamento com uma mó ao pescoço, Áurea de Síria, morta por dessangramento, sentada numa cadeira forrada de cravos, Auta, morta à frechada, Babilas de Antioquia, morto por decapitação, Bárbara de Nicomedia, morta por decapitação, Barnabé de Chipre, morto por lapidação e queimado, Beatriz de Roma, morta por estrangulamento, Benigno de Dijon, morto à lançada, Blandina de Lião, morta a cornadas de um touro bravo, Brás de Sebaste, morto por cardas de ferro, Calisto, morto com uma mó ao pescoço, Cassiano de Ímola, morto pelos seus alunos com um estilete, Castulo, morto por enterramento em vida, Catarina de Alexandria, morta por decapitação, Cecília de Roma, morta por degolamento, Cipriano de Cartago, morto por decapitação, Ciro de Tarso, morto, ainda criança, por um juiz que lhe bateu com a cabeça nas escadas do tribunal, Claro de Nantes, morto por decapitação, Claro de Viena, morto por decapitação, Clemente, morto por afogamento com uma âncora ao pescoço, Crispim e Crispiniano de Soissons, mortos por decapitação, Cristina de Bolsano, morta por tudo quanto se possa fazer com mó, roda, tenazes, flechas e serpentes, Cucufate de Barcelona, morto por esventramento, chegando ao fim da letra C, Deus disse, Para diante é tudo igual, ou quase, são já poucas as variações possíveis, excepto as de pormenor, que, pelo refinamento, levariam muito tempo a explicar, fiquemo-nos por aqui, Continua, disse Jesus, e Deus continuou, abreviando no que podia, Donato de Arezzo, decapitado, Elífio de Rampillon, cortaram-lhe a calote craniana, Emérita, queimada, Emílio de Trevi, decapitado, Esmerano de Ratisbona, amarraram-no a uma escada e aí o mataram, Engrácia de Saragoça, decapitada, Erasmo de Gaeta, também chamado Telmo, esticado por um cabrestante, Escubículo, decapitado, Ésquilo da Suécia, lapidado, Estêvão, lapidado, Eufémia da Calcedónia, enterraram-lhe uma espada, Eulália de Mérida, decapitada, Eutrópio de Saintes, cabeça cortada por uma acha-de-armas, Fabião, espada e cardas de ferro, Fé de Agen, degolada, Felicidade e os Sete Filhos, cabeças cortadas à espada, Félix e seu irmão Adaucto, idem, Ferreolo de Besançon, decapitado, Fiel de Sigmaringen, maça eriçada de puas, Filomena, flechas e âncora, Firmin de Pamplona, decapitado, Flávia Domitília, idem, Fortunato de Évora, talvez idem, Frutuoso de Tarragona, queimado, Gaudêncio de França, decapitado, Gelásio, idem mais cardas de ferro, Gengoulph de Borgonha, corno, assassinado pelo amante da mulher, Gerardo Sagredo de Budapeste, lança, Gereão de Colónia, decapitado, Gervásio e Protásio, gémeos, idem, Godeliva de Ghistelles, estrangulada, Goretti Maria, idem, Grato de Aosta, decapitado, Hermenegildo, machado, Hierão, espada, Hipólito, arrastado por um cavalo, Inácio de Azevedo, morto pelos calvinistas, estes não são católicos, Inês de Roma, esventrada, Januário de Nápoles, decapitado depois de ter sido lançado às feras e atirado para dentro de um forno, Joana d'Arc, queimada viva, João de Brito, degolado, João Fisher, decapitado, João Nepomuceno de Praga, afogado, Juan de Prado, apunhalado na cabeça, Júlia de Córsega, cortaram-lhe os seios e depois crucificaram-na, Juliana de Nicomedia, decapitada, Justa e Rufina de Sevilha, uma na roda, outra estrangulada, Justina de Antioquia, queimada com pez a ferver e decapitada, Justo e Pastor, mas não este que aqui temos, de Alcalá de Henares, decapitados, Killian de Würzburg, decapitado, Léger d'Autun, idem depois de lhe arrancarem os olhos e a língua, Leocádia de Toledo, fraguada do alto de um rochedo, Liévin de Gand, arrancaram-lhe a língua e decapitaram-no, Longuinhos, decapitado, Lourenço, queimado numa grelha, Ludmila de Praga, estrangulada, Luzia de Siracusa, degolada depois de lhe arrancarem os olhos, Magino de Tarragona, decapitado com uma foice serrilhada, Mamede de Capadócia, estripado, Manuel, Sabel e Ismael, o Manuel com um cravo de ferro espetado em cada lado do peito e um cravo atravessando-lhe a cabeça de ouvido a ouvido, todos degolados, Margarida de Antioquia, tocha e pente de ferro, Mário da Pérsia, espada, amputação das mãos, Martinha de Roma, decapitada, os mártires de Marrocos, Berardo de Cobio, Pedro de Gemianino, Otão, Adjuto e Acúrsio, degolados, os do Japão, vinte e seis crucificados, alanceados e queimados, Maurício de Agaune, espada, Meinrad de Einsiedeln, maça, Menas de Alexandria, espada, Mercúrio da Capadócia, decapitado, Moro Tomás, idem, Nicásio de Reims, idem, Odília de Huy, flechas, Pafnúcio, crucificado, Paio, esquartejado, Pancrácio, decapitado, Pantaleão de Nicomedia, idem, Pátrocles de Troyes e de Soest, idem, Paulo de Tarso, a quem deverás a tua primeira Igreja, idem, Pedro de Rates, espada, Pedro de Verona, cutelo na cabeça e punhal no peito, Perpétua e Felicidade de Cartago, a Felicidade era escrava da Perpétua, escorneadas por uma vaca furiosa, Piat de Tournai, cortaram-lhe o crânio, Policarpo, apunhalado e queimado, Prisca de Roma, 132
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comida pelos leões, Processo e Martiniano, a mesma morte, julgo eu, Quintino, pregos na cabeça e outras partes, Quirino de Ruão, crânio cortado em cima, Quitéria de Coimbra, decapitada pelo próprio pai, um horror, Renaud de Dortmund, maço de pedreiro, Reine de Alise, gládio, Restituta de Nápoles, fogueira, Rolando, espada, Romão de Antioquia, língua arrancada, estrangulamento, ainda não estás farto, perguntou Deus a Jesus, e Jesus respondeu, Essa pergunta devias fazê-la a ti próprio, continua, e Deus continuou, Sabiniano de Sens, degolado, Sabino de Assis, lapidado, Saturnino de Toulouse, arrastado por um touro, Sebastião, flechas, Segismundo rei dos Burgúndios, atirado a um poço, Segundo de Asti, decapitado, Servácio de Tongres e de Maastricht, morto à tamancada, por impossível que pareça, Severo de Barcelona, cravo espetado na cabeça, Sidwel de Exeter, decapitado, Sinforiano de Autun, idem, Sisto, idem, Tarcísio, lapidado, Tecla de Icónio, amputada e queimada, Teodoro, fogueira, Tibúrcio, decapitado, Timóteo de Éfeso, lapidado, Tirso, serrado, Tomás Becket de Cantuária, espada cravada no crânio, Torcato e os Vinte e Sete, mortos pelo general Muça às portas de Guimarães, Tropez de Pisa, decapitado, Urbano, idem, Valéria de Limoges, idem, Valeriano, idem, Venâncio de Camerino, degolado, Vicente de Saragoça, mó e grelha com puas, Virgílio de Trento, outro morto por tamancos, Vital de Ravena, lança, Vítor, decapitado, Vítor de Marselha, degolado, Vitória de Roma, morta depois de ter a língua arrancada, Wilgeforte, ou Liberata, ou Eutrópia, virgem, barbuda, crucificada, e outros, outros, outros, idem, idem, idem, basta. Não basta, disse Jesus, a que outros te referes, Achas que é mesmo indispensável, Acho, Refiro-me àqueles que, não tendo sido martirizados e morrendo de sua morte própria, sofreram o martírio das tentações da carne, do mundo e do demónio, e que para as vencerem tiveram de mortificar o corpo pelo jejum e pela oração, há até um caso interessante, um tal John Schorn, que passou tanto tempo ajoelhado a rezar que acabou por criar calos, onde, nos joelhos, evidentemente, e também se diz, isto agora é contigo, que fechou o diabo numa bota, ah, ah, ah, Eu, numa bota, duvidou Pastor, isso são lendas, para que eu pudesse ser fechado numa bota, era preciso que ela tivesse o tamanho do mundo, e, mesmo assim, queria ver quem havia aí capaz de calçá-la e descalçá-la depois, Só pelo jejum e pela oração, perguntou Jesus, e Deus respondeu, Também ofenderão o corpo com dor e sangue e porcaria, e outras muitas penitências, usando cilícios e praticando flagelações, haverá mesmo quem não se lave durante toda a vida, ou quase, haverá quem se lance para o meio das silvas e se revolva na neve para domar as importunações da carne suscitadas pelo Diabo, a quem estas tentações se devem, que o fito dele é desviar as almas do recto caminho que as levaria ao céu, mulheres nuas e monstros pavorosos, criaturas da aberração, a luxúria e o medo, são as armas com que o Demónio atormenta as pobres vidas dos homens, Tudo isto farás, perguntou Jesus a Pastor, Mais ou menos, respondeu ele, limitei-me a tomar para mim aquilo que Deus não quis, a carne, com a sua alegria e a sua tristeza, a juventude e a velhice, a frescura e a podridão, mas não é verdade que o medo seja uma arma minha, não me lembro de ter sido eu quem inventou o pecado e o seu castigo, e o medo que neles há sempre, Cala-te, interrompeu Deus, impaciente, o pecado e o Diabo são os dois nomes duma mesma coisa, Que coisa, perguntou Jesus, A ausência de mim, E a ausência de ti, a que se deve, a teres-te retirado tu ou a terem-se retirado de ti, Eu não me retiro nunca, Mas consentes que te deixem, Quem me deixa, procura-me, E se não te encontra, a culpa, já se sabe, é do Diabo, Não, disso não é ele culpado, a culpa tenho-a eu, que não alcanço a chegar onde me buscam, estas palavras proferiu-as Deus com uma pungente e inesperada tristeza, como se de repente tivesse descoberto limites ao seu poder. Jesus disse, Continua, Outros há, recomeçou lentamente Deus, que se retiram para descampados agrestes e fazem, em grutas e cavernas, na companhia dos bichos, vida solitária, outros que se deixam emparedar, outros que sobem a altas colunas e ali vivem anos e anos a fio, outros, a voz diminuiu, esmoreceu, Deus contemplava agora um desfile interminável de gente, milhares e milhares, milhares de milhares de homens e mulheres, em todo o orbe, entrando em conventos e mosteiros, algumas rústicas construções, muitos palácios soberbos, Ali vão ficar para nos servirem, a mim e a ti, de manhã à noite, com vigílias e orações, e, tendo todos eles o mesmo propósito e o mesmo destino, adorarem-nos e morrerem com os nossos nomes na boca, usarão nomes distintos, serão beneditinos, bernardos, cartuxos, agostinhos, gilbertinos, trinitários, franciscanos, dominicanos, capuchinhos, carmelitas, jesuítas, e serão muitos, muitos, muitos, ah como eu gostaria de poder exclamar Meu Deus por que são eles tantos. Disse o Diabo, nesta altura, a Jesus, Observa como há, no que ele tem vindo a contar, duas maneiras de perder-se a vida, uma pelo martírio, outra pela renúncia, não bastava terem 133
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de morrer quando lhes chegasse a hora, ainda é preciso que, de uma maneira ou outra, corram ao encontro dela, crucificados, estripados, degolados, queimados, lapidados, afogados, esquartejados, estrangulados, esfolados, alanceados, escorneados, enterrados, serrados, flechados, amputados, escardeados, ou então, dentro e fora de celas, capítulos e claustros, castigando-se por terem nascido com o corpo que Deus lhes deu e sem o qual não teriam onde pôr a alma, tais tormentos não os inventou este Diabo que te fala. É tudo, perguntou Jesus a Deus, Não, ainda faltam as guerras, Também haverá guerras, E matanças, De matanças estou informado, podia mesmo ter morrido numa delas, vendo bem, foi pena, agora não teria à minha espera um crucifixo; Levei o outro teu pai aonde era preciso que estivesse para poder ouvir o que eu quis que os soldados dissessem, enfim, poupei-te a vida, Poupaste-me a vida para me fazeres morrer quando te aprouvesse e aproveitasse, é como se me matasses duas vezes, Os fins justificam os meios, meu filho, Pelo que tenho ouvido da tua boca desde que aqui estamos, acredito que sim, renúncia, clausura, sofrimentos, morte, e agora as guerras e matanças, que guerras são essas, Muitas, um nunca mais acabar delas, mas sobretudo as que serão feitas contra ti e contra mim em nome de um deus que ainda está por aparecer, Como é possível estar por aparecer um deus, um deus, se realmente o é, só pode existir desde sempre e para sempre, Reconheço que custa a compreender, não menos a explicar, mas vai suceder como te estou dizendo, um deus virá e lançará contra nós, e os que então nos seguirem, povos inteiros, não, não tenho palavras bastantes para contar-te das mortandades, das carnificinas, das chacinas, imagina o meu altar de Jerusalém multiplicado por mil, põe homens no lugar dos animais, e nem mesmo assim chegarás a saber ao certo o que foram as cruzadas, Cruzadas, que é isso, e por que dizes tu que foram se ainda estão para ser, Lembra-te de que eu sou o tempo, e que, portanto, para mim, tudo quanto está para acontecer, já aconteceu, tudo quanto aconteceu, está acontecendo todos os dias, Conta-me isso das cruzadas, Bom, meu filho, estes lugares onde agora estamos, incluindo Jerusalém, e outras terras para norte e ocidente, hão-de ser conquistados pelos seguidores do tal deus tardio de que te falei, e os nossos, os que estão do nosso lado, farão tudo para expulsá-los dos sítios que tu com os teus pés pisaste e que eu com tanta assiduidade frequento, Para lançar fora de cá os romanos, hoje, não tens feito muito, Estou a falar-te do futuro, não me distraias, Prossegue, então, Acresce que tu nasceste aqui, aqui viveste e aqui morreste, Por enquanto, ainda não morri, Para o caso, tanto faz, mesmo agora te expliquei o que é, do meu ponto de vista, acontecer e ter acontecido, e, por favor, não estejas sempre a interromper-me se não queres que me cale de vez, Eu é que me calo, Ora bem, a estas bandas por aqui darão os vindouros o nome de Santos Lugares, pela razão de cá teres nascido, vivido e morrido, então não ficava nada bem, à religião que vais ser, estar o berço dela nas mãos indignas de infiéis, motivo, como vês, mais do que suficiente para justificar que, durante uns duzentos anos, grandes exércitos vindos do ocidente tentem conquistar e conservar na nossa religião a cova onde nasceste e o monte onde irás morrer, para só falar dos principais lugares, Esses exércitos são as cruzadas, Assim é, E conquistaram o que queriam, Não, mas mataram muita gente, E os das cruzadas, Morreram outros tantos, se não mais, E tudo isso, em nome nosso, Irão para a guerra gritando Deus o quer, E devem ter morrido dizendo Deus o quis, Seria uma bonita maneira de acabar, Novamente não valeu a pena o sacrifício, A alma, meu filho, para salvar-se, precisa do sacrifício do corpo, Por essas ou outras palavras, já to tinha ouvido antes, e tu, Pastor, que nos dizes destes futuros e assombrosos casos, Digo que ninguém que esteja em seu perfeito juízo poderá vir a afirmar que o Diabo foi, é, ou será culpado de tal morticínio e tais cemitérios, salvo se a algum malvado ocorrer a lembrança caluniosa de me atribuir a responsabilidade de fazer nascer o deus que vai ser inimigo deste, Parece-me claro e óbvio que não tens culpa, e, quanto ao temor de que te atirem com as responsabilidades, responderás que o Diabo, sendo mentira, nunca poderia criar a verdade que Deus é, Mas então, perguntou Pastor, quem vai criar o Deus inimigo. Jesus não sabia responder, Deus, se calado estava, calado ficou, porém do nevoeiro desceu uma voz que disse, Talvez este Deus e o que há-de vir não sejam mais do que heterónimos, De quem, de quê, perguntou, curiosa, outra voz, De Pessoa, foi o que se percebeu, mas também podia ter sido, Da Pessoa. Jesus, Deus e o Diabo começaram por fazer de conta que não tinham ouvido, mas logo a seguir entreolharam-se com susto, o medo comum é assim, une facilmente as diferenças. Passou tempo, o nevoeiro não tornou a falar, e Jesus perguntou, agora no tom de quem só espera uma resposta afirmativa, Nada mais. Deus hesitou, e depois, em tom cansado, disse, Ainda há a Inquisição, mas dela, se não te importas, podíamos falar noutra altura, Que 134
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é a Inquisição, A Inquisição é outra história interminável, Quero saber, Seria melhor que não soubesses, Insisto, Vais sofrer na tua vida de hoje remorsos que são do futuro, E tu, não, Deus é Deus, não tem remorsos, Pois eu, se já levo esta carga de ter de morrer por ti, também posso aguentar os remorsos que deviam ser teus, Preferia poupar-te, De facto, não tens feito outra coisa desde que nasci, És um ingrato, como são todos os filhos, Deixemo-nos de fingimentos, diz-me o que vai ser a Inquisição, A Inquisição, também chamada Tribunal do Santo Ofício, é o mal necessário, o instrumento crudelíssimo com que debelaremos a infecção que um dia, e por longo tempo, se instalará no corpo da tua Igreja por via das nefandas heresias em geral e seus derivados e consequentes menores, a que se somam umas quantas perversões do físico e do moral, o que, tudo reunido e posto no mesmo saco de horrores, sem preocupações de prioridade e ordem, incluirá luteranos e calvinistas, molinistas e judaizantes, sodomitas e feiticeiros, mazelas algumas que serão do futuro, outras de todos os tempos, E, sendo a necessidade que dizes, como procederá a Inquisição para reduzir esses males, A Inquisição é uma polícia e é um tribunal, por isso haverá de prender, julgar e condenar como fazem os tribunais e as polícias, Condenará a quê, Ao cárcere, ao degredo, à fogueira, À fogueira, dizes, Sim, vão morrer queimados, no futuro, milhares e milhares e milhares de homens e mulheres, De alguns já me tinhas falado antes, Esses foram lançados à fogueira por crerem em ti, os outros sê-lo-ão por duvidarem, Não é permitido duvidar de mim, Não, Mas nós podemos duvidar de que o Júpiter dos romanos seja deus, O único Deus sou eu, eu sou o Senhor, e tu és o meu Filho, Morrerão milhares, Centenas de milhares, Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia, o fumo dos queimados cobrirá o sol, a gordura deles rechinará sobre as brasas, o cheiro agoniará, e tudo isto será por minha culpa, Não por tua culpa, por tua causa, Pai, afasta de mim este cálice, Que tu o bebas é a condição do meu poder e da tua glória, Não quero esta glória, Mas eu quero esse poder. O nevoeiro afastou-se para onde estivera antes, via-se uma pouca de água ao redor do barco, lisa e baça, sem uma ruga de vento ou uma agitação de barbatana passando. Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue. i O nevoeiro voltou a avançar, alguma coisa estava para acontecer ainda, outra revelação, outra dor, outro remorso. Mas foi Pastor quem falou, Tenho uma proposta a fazer-te, disse, dirigindo-se a Deus, e Deus, surpreendido, Uma proposta, tu, e que proposta vem a ser essa, o tom era irónico, superior, capaz de reduzir ao silêncio qualquer que não fosse o Diabo, conhecido e familiar de longa data. Pastor fez um silêncio, como se procurasse as melhores palavras, e explicou, Ouvi com grande atenção tudo quanto foi dito nesta barca, e embora já tivesse, por minha conta, entrevisto uns clarões e umas sombras no futuro, não cuidei que os clarões fossem de fogueiras e as sombras de tanta gente morta, E isso incomoda-te, Não devia incomodar-me, uma vez que sou o Diabo, e o Diabo sempre alguma coisa aproveita da morte, e mesmo mais do que tu, pois não precisa de demonstração que o inferno sempre será mais povoado do " que o céu, Então de que te queixas, Não me queixo, proponho, Propõe lá, mas depressa, que não posso ficar aqui eternamente, Tu sabes, ninguém melhor do que tu o sabe, que o Diabo também tem coração, Sim, mas fazes mau uso dele, Quero hoje fazer bom uso do coração que tenho, aceito e quero que o teu poder se alargue a todos os extremos da terra, sem que tenha de morrer tanta gente, e pois que de tudo aquilo que te desobedece e nega, dizes tu que é fruto do Mal que eu sou e ando a governar no mundo, a minha proposta é que tornes a receber-me no teu céu, perdoado dos males passados pelos que no futuro não terei de cometer, que aceites e guardes a minha obediência, como nos tempos felizes em que fui um dos teus anjos predilectos, Lúcifer me chamavas, o que a luz levava, antes que uma ambição de ser igual a ti me devorasse a alma e me fizesse rebelar contra a tua autoridade, E por que haveria eu de receber-te e perdoar-te, não me dirás, Porque se o fizeres, se usares comigo, agora, daquele mesmo perdão que no futuro prometerás tão facilmente à esquerda e à direita, então acaba-se aqui hoje o Mal, teu filho não precisará morrer, o teu reino será, não apenas esta terra de hebreus, mas o mundo inteiro, conhecido e por conhecer, e mais do que o mundo, o universo, por toda a parte o Bem governará, e eu cantarei, na última e humilde fila dos anjos que te permaneceram fiéis, mais fiel então do que todos, porque arrependido, eu cantarei os teus louvores, tudo terminará como se não tivesse sido, tudo começará a ser como se dessa maneira devesse ser sempre, Lá que tens talento para enredar almas e perdê-las, isso sabia eu, mas um discurso assim nunca te tinha ouvido, um talento oratório, uma lábia, não há dúvida, quase me convencias, Não me aceitas, não me perdoas, Não te aceito, não te perdoo, quero-te 135
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como és, e, se possível, ainda pior do que és agora, Porquê, Porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és, um Bem que tivesse de existir sem ti seria inconcebível, a um tal ponto que nem eu posso imaginá-lo, enfim, se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é necessário que tu continues a ser o Mal, se o Diabo não vive como Diabo, Deus não vive como Deus, a morte de um seria a morte do outro, É a tua última palavra, A primeira e a última, a primeira porque foi a primeira vez que a disse, a última porque não a repetirei. Pastor encolheu os ombros e falou para Jesus, Que não se diga que o Diabo não tentou um dia a Deus, e, levantando-se, ia passar uma perna por cima da borda do barco, mas de súbito suspendeu o movimento e disse, Tens no teu alforge uma coisa que me pertence. Jesus não se lembrava de ter trazido o alforge para o barco, mas a verdade é que ele ali estava, enrolado, aos seus pés, Que coisa, perguntou, e, abrindo-o, viu que dentro não havia mais do que a velha tigela negra que de Nazaré trouxera, Isto, Isso, respondeu o Diabo, e tomou-lha das mãos, Um dia voltará ao teu poder, mas tu não chegarás a saber que a tens. Meteu a tigela por dentro da grosseira roupa de pastor que vestia e desceu para a água. Não olhou Deus, apenas disse, como se falasse a um auditório de invisíveis, Até sempre, já que ele assim o quis. Jesus seguiu-o com os olhos, Pastor ia-se afastando a pouco e pouco em direcção ao nevoeiro, não se lembrara de lhe perguntar por que capricho viera e se retirava assim, a nado, à distância era outra vez como um porco com as orelhas espetadas, ouviam-se os resfolgos bestiais, mas um ouvido fino não teria dificuldade em perceber que havia também ali um som de medo, não de afogar-se, que ideia, o Diabo, acabámos de sabê-lo mesmo agora, não acaba, mas de ter de existir para sempre. Já Pastor se perdia na fímbria esgarçada da névoa quando a voz de Deus de repente soou, rápida, como quem já vai de partida, Mandarei um homem chamado João para te ajudar, mas terás de convencê-lo de que és quem dirás ser. Jesus olhou, mas Deus já ali não estava. No mesmo instante o nevoeiro levantou-se e desfez-se no ar, deixando o mar limpo e liso de uma ponta à outra, entre os montes e os montes, na água nem um sinal do Diabo, no ar nem um sinal de Deus. Na margem donde tinha vindo viu Jesus, apesar da distância, um grande ajuntamento de pessoas, e muitas tendas armadas por trás da multidão, como se aquele lugar se tivesse transformado em local de permanência de uma gente que, não sendo dali, e portanto não tendo onde dormir, fora obrigada a organizar-se por sua conta. Achando o caso curioso, mas nada mais, Jesus meteu os remos na água e orientou a barca naquela direcção. Ao olhar por cima do ombro, observou que estavam a ser empurrados alguns barcos para a água, e, firmando melhor a vista, reconheceu dentro deles Simão e André, e Tiago e João, de mistura com outros que não se lembrava de ter visto, uns tantos sim, de andarem por aqui. Em pouco tempo se aproximaram, tanto era o empenho com que manejavam os remos, e, chegando à fala, gritou Simão, Onde estiveste, o que queria saber não era isto, claro, mas tinha de começar de alguma maneira, Aqui no mar, respondeu Jesus, palavras tão desnecessárias umas como outras, em verdade não parecem principiar bem as comunicações na nova época da vida do filho de Deus, de Maria e de José. Daí a um nada, enfim, saltava Simão para a barca de Jesus, e o incompreensível, o impossível, o absurdo foi conhecido, Sabes quanto tempo estiveste no mar, no meio do nevoeiro, sem que nós pudéssemos lançar os nossos barcos à água, que uma força invencível de cada vez nos empurrava para trás, perguntou Simão, O dia todo, foi a resposta de Jesus, um dia e uma noite, acrescentou, para corresponder à excitação de Simão com uma expectativa semelhante, Quarenta dias, gritou Simão, e em voz mais baixa, Quarenta dias estiveste ali, quarenta dias em que o nevoeiro não se levantou nem um bocadinho, como se quisesse esconder da nossa vista o que dentro dele se passava, que estiveste lá a fazer, que em quarenta contados dias nem um só peixe nos foi permitido tirar destas águas. Jesus deixara para Simão um dos remos, agora vinham os dois remando e conversando de concerto, ombro com ombro, pausados, o melhor que há para uma confidência, por isso antes que se acercassem outros barcos disse Jesus, Estive com Deus e sei o meu futuro, o tempo que viverei e a vida depois da minha vida, Como é ele, como é Deus, quero dizer, Deus não se mostra numa única forma, tanto pode aparecer numa nuvem, numa coluna de fumo, como vir de judeu rico, conhecemo-lo mais pela voz, depois de o termos ouvido uma vez, Que te disse ele, Que sou seu Filho, Confirmou, Sim, confirmou, Então, o Diabo tinha razão quando foi daquele caso dos porcos, O Diabo também esteve agora no barco, presenciou tudo, parece saber tanto de mim como Deus, mas há ocasiões em que penso que sabe ainda mais do que Deus, E onde, Onde, quê, Onde estavam eles, O Diabo na borda do barco, aí mesmo, entre ti e Deus, que ficou no banquinho da popa, Que te disse Deus, Que sou seu filho e serei crucificado, Vais 136
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
para as montanhas lutar ao lado dos bandidos, se vais, vamos contigo, Ireis comigo, mas não para as montanhas, o que importa não é vencer César pelas armas, mas fazer triunfar Deus pela palavra, Só, Pelo exemplo também, e pelo sacrifício das nossas vidas, quando for preciso, São palavras de teu Pai, A partir de hoje todas as minhas palavras serão palavras dele, e aqueles que nele crerem, em mim crerão, porque não é possível crer no Pai e não crer no Filho, se o novo caminho que o Pai escolheu para si, só no Filho que eu sou poderá começar, Disseste que iríamos contigo, a quem te referes, A ti, em primeiro lugar, a André, teu irmão, aos dois filhos de Zebedeu, a Tiago e a João, a propósito, Deus disse-me que me enviaria um homem chamado João para me ajudar, mas aquele não deve ser, Não precisamos de mais, isto não é um cortejo de Herodes, Outros hão-de vir, e quem sabe se alguns desses não estão já ali, à espera de um sinal, um sinal que Deus manifestará em mim, para que me creiam e me sigam aqueles por quem ele não se deixa ver, Que vais anunciar às pessoas, Que se arrependam dos seus pecados, que se preparem para o novo tempo de Deus que aí vem, o tempo em que a sua espada flamejante obrigará a dobrar o pescoço àqueles que tiverem rejeitado a sua palavra e sobre ela cuspido, Vais dizer-lhes que és o Filho de Deus, não podes fazer menos do que isso, Direi que meu Pai me chamou seu Filho e que levo essas palavras no coração desde que nasci, e que agora veio também Deus dizer-me Meu Filho, um pai não faz esquecer o outro, mas hoje quem ordena é o Pai Deus, obedeçamos-lhe, Então, deixa-me o caso comigo, disse Simão, e, acto contínuo, largou o remo, deslocou-se para a proa da embarcação e, como a voz já alcançasse, gritou, Hosana, que vem chegando o Filho de Deus, ele que esteve no mar durante quarenta dias a falar com o Pai e agora regressa a nós para que nos arrependamos e preparemos, Não digas que o Diabo também lá estava, avisou rápido Jesus, temeroso de que se tornasse conhecida publicamente uma situação que teria muita dificuldade em explicar. Deu Simão um novo grito, mas mais vibrante, com o que se alvoroçaram as gentes que na margem esperavam, e depois voltou a correr para o seu lugar, dizendo a Jesus, Deixa esse remo para mim e vai-te pôr na proa, de pé, mas não digas nada de lá, enquanto não saltarmos em terra não dizes uma palavra. Assim fizeram, Jesus em pé, na proa da barca, com a sua túnica velha, o alforge vazio ao ombro, os braços meio levantados, como se fosse saudar ou lançar uma bênção e o retivesse a timidez ou uma falta de confiança no seu próprio merecimento. Dentre os que o esperavam, três houve, mais impacientes, que se meteram à água até à cintura e, chegados à altura do barco, lançaram-lhe mão e vieram puxando e empurrando a barca, enquanto, de fora, com a mão livre, um deles tentava tocar a túnica de Jesus, não porque estivesse convencido da verdade do anúncio de Simão, mas por já se lhe afigurar caso notável ter-se ausentado um homem para o meio do mar durante quarenta dias, como se tivesse ido para o deserto à procura de Deus, e das entranhas frias duma montanha de nevoeiro estar agora voltando, visse ou não visse Deus. Não deveria ser preciso acrescentar que não se tem falado doutra coisa por estas aldeias e cercanias, muitos dos que aqui estão vieram por causa do fenómeno meteorológico, ouviram apenas falar que estava lá um homem dentro e disseram, Coitado. A barca abicou sem um solavanco, como se ali a tivessem deposto asas de anjos.
Simão ajudou Jesus a sair, sacudindo com impaciência mal reprimida os três que tinham ido à água e por isso se julgavam credores de diferente pago, Deixa-os, disse Jesus, um dia ouvirão que morri e sentirão dor de não terem podido levar o meu corpo morto, deixa-os que me ajudem enquanto estou vivo. Jesus subiu a um cômoro e perguntou aos seus, Onde está Maria, viu-a no mesmo instante em que fez a pergunta, como se o nome dela, pronunciado, a tivesse trazido de um nada ou de um nevoeiro, parecia que não estava ali, mas bastava dizer-lhe o nome, e ela vinha, Aqui estou, meu Jesus, Vem para o meu lado, venham também Simão e André, venham Tiago e João, os filhos de Zebedeu, estes são os que me conhecem e em mim crêem, que já me conheciam e criam quando eu ainda não podia dizer-lhes, e a vós também, que sou o Filho de Deus nascido, este Filho que foi chamado pelo Pai e com ele esteve quarenta dias no meio do mar, e que de lá voltou para dizer-vos que o tempo do Senhor é chegado e que deveis arrepender-vos antes que o Diabo venha recolher as espigas podres que tiverem caído da messe que Deus transporta no seu regaço, que essas sois vós, se, por vosso mal, ao amoroso abraço de Deus quereis escapar-vos. Passou um murmúrio pela multidão, rolando sobre as cabeças como aquelas pequenas ondas que no mar outra vez se vêem, em verdade, muitos dos assistentes tinham ouvido falar de milagres obrados em diversas partes por aquele que além está, alguns haviam sido, mesmo, directas testemunhas e beneficiários deles, Eu comi daquele pão e daquele peixe, dizia um, Eu bebi daquele vinho, dizia outro, Eu era vizinho daquela adúltera, 137
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dizia um terceiro, mas entre tais cometimentos, por muito transcendentes que pudessem ter sido ou o parecessem, e este proclamado supremo prodígio de ser Filho de Deus e, portanto, Deus ele próprio, a distância é como da terra ao céu, e essa, que se saiba, ainda não foi, até hoje, medida. Do meio da multidão veio então uma voz, Dá-nos uma prova de que és o Filho de Deus e eu seguir-te-ei, Tu seguir-me-ias sempre se o teu coração te trouxesse a mim, mas o teu coração está preso dentro de um peito fechado, por isso pedes-me uma prova que os teus sentidos possam compreender, pois bem, vou dar-te agora uma prova que dará satisfação aos teus sentidos, mas que a tua cabeça recusará, e, no fim, estando tu dividido e perplexo entre a cabeça e os sentidos, não terás outro remédio senão vir a mim pelo coração, Quem puder entender que entenda, eu não entendo, disse o homem, Como te chamas, Tomé, Vem aqui, Tomé, vem comigo até à borda da água, vem ver-me fazer uns pássaros com esta lama que colho às mãos-cheias, repara como é tão fácil, formo e modelo o corpo e as asas, afeiçoo a forma da cabeça e do bico, engasto estas pedrinhas que são os olhos, ajeito as penas compridas da cauda, equilibro-lhes as pernas e os dedos, e, tendo feito este, faço mais onze, aqui os tens, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze pássaros de lama, imagina, até podemos, se quiseres, dar-lhes nomes, este é Simão, este Tiago, este André, este João, e este, se não te importa, chamar-se-á Tomé, quanto aos outros vamos esperar que os nomes apareçam, os nomes, muitas vezes, atrasam-se no caminho, chegam mais tarde, e agora vê como faço, lanço esta rede por cima das avezinhas para que elas não possam fugir, os pássaros, se não temos cuidado, Queres dizer-me que se esta rede for levantada, os pássaros fogem, perguntou, incrédulo, Tomé, Sim, se a rede for levantada, os pássaros fogem, Esta é a prova com que querias convencer-me, Sim e não, Como, sim e não, A melhor prova, mas essa não é de mim que depende, seria não levantares tu a rede e acreditares que os pássaros fugiriam se a levantasses, São de barro, não podem fugir, Experimenta, também Adão, nosso primeiro pai, foi de barro e tu descendes dele, A Adão deu-lhe a vida Deus, Não duvides mais, Tomé, e levanta a rede, eu sou o Filho de Deus, Assim o quiseste, assim o terás, estes pássaros não voarão, com um movimento rápido Tomé levantou a rede, e os pássaros, livres, levantaram voo, deram, chilreando, duas voltas sobre a multidão maravilhada e desapareceram no espaço. Disse Jesus, Olha, Tomé, o teu pássaro foi-se embora, e Tomé respondeu, Não, Senhor, está aqui ajoelhado aos teus pés, sou eu. Da multidão adiantaram-se alguns homens, atrás deles, porém não dependentes, umas quantas mulheres. Aproximaram-se e disseram como se chamavam, Eu sou Filipe, e Jesus viu nele as pedras e a cruz, Eu sou Bartolomeu, e Jesus viu nele um corpo esfolado, Eu sou Mateus, e Jesus viu-o morto entre gente bárbara, Eu sou Simão, e Jesus viu nele a serra que o cortava, Eu sou Tiago, filho de Alfeu, e Jesus viu que o lapidavam, Eu sou Judas Tadeu, e Jesus viu a maça que se levantava sobre a sua cabeça, Eu sou Judas de Iscariote, e Jesus teve pena dele porque o viu enforcar-se por suas próprias mãos na figueira. Então Jesus chamou os outros e disse, Agora estamos todos, chegou a hora.
E para Simão, irmão de André, Porque temos um outro Simão connosco, tu, Simão, de hoje em diante, chamar-te-ás Pedro. Viraram as costas ao mar e puseram-se a caminho, atrás deles iam as mulheres, da maior parte das quais não chegámos a saber os nomes, na verdade, tanto faz, quase todas estas são Marias, e mesmo as que o não forem darão por esse nome, dizemos mulher, dizemos Maria, e elas olham e vêm servir-nos.
Jesus e os seus iam pelos caminhos e povoados, e Deus falava pela boca de Jesus, e eis o que dizia, Completou-se o tempo e o reino de Deus está perto, arrependei-vos e acreditai na boa nova.
Ouvindo isto, pensava o vulgo das aldeias que entre completar-se o tempo e acabar-se o tempo não podia haver diferença, e que portanto vinha aí próximo o fim do mundo, que é onde o tempo se mede e gasta. Todos davam muitas graças a Deus pela misericórdia de ter mandado adiante, a dar formal aviso da iminência do sucesso, um que se dizia seu Filho, o que bem podia ser verdade, porquanto sem mais nem quê obrava milagres por onde quer que passava, a única condição, se assim se lhe deve chamar, mas essa imprescindível, era a convicta fé de quem lhos rogasse, como foi o caso daquele leproso que lhe suplicou, Se quiseres, podes limpar-me, e Jesus, com muito dó do mísero chagado, tocou-o e mandou, Quero, fica limpo, palavras não tinham sido ditas; naquele mesmo instante a carne podre tornou-se sã, o que nela já faltava achou-se reconstituído, e onde antes estivera um gafoso horrendo e sujo, de quem todo o mundo fugia, via-se agora um homem lavado e perfeito, muito capaz para tudo. Um outro caso, igualmente digno de nota, foi o daquele paralítico a quem, por ser multidão 138
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a gente à entrada da porta, tiveram de fazer subir e depois descer, no seu catre, por um buraco do telhado da casa onde Jesus estava, que seria a de Simão, chamado Pedro, e porque tão grande fé era merecedora de prémio, disse Jesus, Meu filho, os teus pecados te são perdoados, ora aconteceu que tinham ido ali uns escribas desconfiados, desses que em tudo vêem um motivo de recriminação e trazem a lei na ponta da língua, e que, ouvindo o que Jesus disse, não tiveram mão que não protestassem, Por que falas assim, estás a blasfemar, pecados só Deus os pode perdoar, e Jesus respondeu com uma pergunta, Qual é mais fácil, dizer ao paralítico Os teus pecados te são perdoados, ou dizer-lhe Levanta-te, toma o teu catre e anda, e, sem esperar que algum dos outros lhe respondesse, concluiu, Pois bem, para que saibais que tenho na terra o poder de perdoar os pecados, ordeno-te, isto era dito para o paralítico, que te levantes, tomes o teu catre e vás para tua casa, palavras foram elas tais que ali se assistiu logo a levantar-se de pé o miraculado, ainda por cima recuperado das forças, apesar da inacção causada pela paralisia, pois tomou o catre e pô-lo às costas, e foi-se à sua vida, dando mil graças a Deus. Está visto que as pessoas não andam todas por aí a pedir milagres, cada um de nós, com o tempo, habitua-se às suas pequenas ou medianas mazelas e com elas vai vivendo sem que alguma vez lhe passe pela cabeça importunar os altos poderes, mas os pecados são outra coisa, os pecados atormentam por baixo do que se vê, não são perna coxa nem braço tolhido, não são lepra de fora, mas são lepra de dentro. Por isso tinha tido Deus muita razão quando a Jesus disse que todo o homem tem pelo menos um pecado de que se arrepender, e o mais corrente e normal é que tenha muitíssimos. Ora, estando este mundo para acabar e vindo aí o reino de Deus, mais do que querermos entrar nele com um corpo refeito à custa de milagres, o que importa é que a ele sejamos encaminhados por uma alma, a nossa, purificada pelo arrependimento e curada pelo perdão. Aliás, se o paralítico de Cafarnaúm tinha passado uma parte da sua vida num grabato era porque pecara, pois é sabido que toda a doença é consequência de pecado, por isso, conclusão sobre todas lógica, a vera condição duma boa saúde, além de o ser da imortalidade do espírito, e não sabemos mesmo se da do corpo, só poderá ser uma integralíssima pureza, uma ausência absoluta do pecado, por passiva e eficaz ignorância ou por activo repúdio, tanto nas obras como nos pensamentos. Porém, não se julgue que o nosso Jesus andasse por aquelas terras do Senhor a desbaratar o poder de curar e a autoridade de perdoar que pelo mesmo Senhor lhe fora outorgado. Não que ele o não tivesse desejado, claro está, pois mais o seu bom coração o inclinaria a tornar-se em universal panaceia do que, como por mando de Deus estava obrigado, ter de anunciar a todos o fim dos tempos e reclamar de cada um arrependimento, e para que não perdessem os pecadores demasiado tempo, em cogitações que mais não visavam que adiar a difícil decisão de dizer, Eu pequei, o Senhor punha na boca de Jesus certas prometedoras e terríveis palavras, como estas eram, Em verdade vos digo que alguns dos que estão aqui presentes não experimentarão a morte sem ter visto chegar o reino de Deus com todo o seu poder, imaginem-se agora os efeitos arrasadores que um tal anúncio produziria nas consciências dos povos, de toda a parte as multidões acorriam, ansiosas, e punham-se a seguir Jesus como se ele, directamente, as devesse conduzir ao paraíso novo que o Senhor instauraria na terra e que se distinguiria do primeiro por serem agora muitos os que dele gozariam, havendo resgatado, por oração, penitência e arrependimento, o pecado de Adão, também chamado original. E como, em sua maior parte, esta confiante gente provinha de baixos estratos sociais, artesãos e cavadores de enxada, pescadores e mulherzinhas, atreveu-se Jesus, num dia em que Deus o deixara mais à solta, a improvisar um discurso que arrebatou todos os ouvintes, ali se tendo derramado lágrimas de alegria como só se conceberiam à vista duma já não esperada salvação, Bem-aventurados, disse Jesus, bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus, bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis saciados, bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir, mas nesta altura deu-se Deus conta do que ali se estava a passar, e, não podendo suprimir o que por Jesus tinha sido dito, forçou a língua dele a pronunciar umas outras palavras, com o que as lágrimas de felicidade se tornaram em negras lástimas por um futuro negro, Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, quando vos expulsarem, vos insultarem e rejeitarem o vosso nome infame, por causa do Filho do Homem. Quando Jesus isto acabou de dizer, foi como se a alma lhe tivesse caído aos pés, pois no mesmo instante se lhe representou no espírito a trágica visão dos tormentos e das mortes que Deus lhe havia anunciado no mar. Por isso, diante da multidão que o olhava transida de pavor, Jesus caiu de joelhos e, prostrado, orou em silêncio, nenhum de quantos ali se encontravam 139
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podia imaginar que ele estivesse pedindo, a todos, perdão, ele que se gloriava, como Filho de Deus que era, de poder perdoar aos demais. Nessa noite, na intimidade da tenda em que dormia com Maria de Magdala, Jesus disse, Eu sou o pastor que, com o mesmo cajado, leva ao sacrifício os inocentes e os culpados, os salvos e os perdidos, os nascidos e os por nascer, quem me libertará deste remorso, a mim que me vejo, hoje, como meu pai naquele tempo, mas ele é por vinte vidas que responde, e eu por vinte milhões. Maria de Magdala chorou com Jesus e disse-lhe, Tu não o quiseste, Pior é isso, respondeu ele, e ela, como se desde o princípio conhecesse, por inteiro, o que, aos poucos, temos vindo nós a ver e a ouvir, Deus é quem traça os caminhos e manda os que por eles hão-de seguir, a ti escolheu-te para que abrisses, em seu serviço, uma estrada entre as estradas, mas tu por ela não andarás, e não construirás um templo, outros o construirão sobre o teu sangue e as tuas entranhas, portanto melhor seria que aceitasses com resignação o destino que Deus já ordenou e escreveu para ti, pois todos os teus gestos estão previstos, as palavras que hás-de dizer esperam-te nos sítios aonde terás de ir, aí estarão os coxos a quem darás pernas, os cegos a quem darás vista, os surdos a quem darás ouvidos, os mudos a quem darás voz, os mortos a quem poderias dar vida, Não tenho poder contra a morte, Nunca o experimentaste, Já, sim, mas a figueira não ressuscitou, O tempo, agora, é outro, tu estás obrigado a querer o que Deus quer, mas Deus não pode negar-te o que tu queiras, Que me liberte desta carga, não quero mais, Queres o impossível, meu Jesus, a única coisa que Deus verdadeiramente não pode, é não querer-se a si mesmo, Como o sabes tu, As mulheres têm uns outros modos de pensar, talvez seja por o nosso corpo ser diferente, deve ser isso, sim, deve ser isso. Um dia, porque a terra sempre é grande de mais para o esforço de um homem, mesmo quando se trate apenas duma sua pequeníssima parcela, como é, neste caso, a Palestina, decidiu Jesus mandar os seus amigos, aos pares, a anunciar pelas cidades, vilas e aldeias a próxima chegada do reino de Deus, ensinando e pregando por toda a parte, como ele o fazia. E como assim se achou sozinho com Maria de Magdala, pois as outras mulheres tinham acompanhado os homens, conforme os gostos e as preferências deles e delas, lembrou-se de irem de jornada até Betânia, que está perto de Jerusalém, e assim, se ao dito não falta respeito, matavam dois coelhos duma cajadada, visitando eles a família de Maria, que já era tempo de que se reconciliassem os irmãos e conhecessem os cunhados, e indo depois o grupo, outra vez reunido, a Jerusalém, pois Jesus marcara encontro a todos os seus amigos para daí a três meses, em Betânia. Do que fizeram os doze nas terras de Israel não há muito para dizer, em primeiro lugar, porque, tirante alguns pormenores da vida e circunstâncias da morte, não foi a história deles que fomos chamados a contar, e, em segundo lugar, porque não lhes havia sido concedido mais do que o poder de repetir, porém segundo o jeito de cada um, as lições e as obras do mestre, o que quer dizer que ensinaram como ele, mas curaram conforme souberam. Pena foi que Jesus lhes tivesse taxativamente ordenado que não seguissem pelo caminho dos gentios nem entrassem em cidade de samaritanos, porque com essa manifestação de surpreendente intolerância, que não devia poder esperar-se duma pessoa tão bem formada, perdeu-se a oportunidade de abreviar futuros trabalhos, pois tendo Deus o propósito, assaz claramente expresso, de ampliar os seus temtórios e influência, mais tarde ou mais cedo terá a vez de chegar, não só aos samaritanos, mas sobretudo aos gentios, quer os daqui, quer os das outras partes. Dissera-lhes Jesus que curassem os enfermos, ressuscitassem os mortos, limpassem os leprosos, expulsassem os demónios, mas, em verdade, além de umas alusões vagas e muito gerais, não se observa que tenha ficado registo nem memória de tais acções, se é que as cometeram de facto, o que finalmente serve para mostrar que Deus não se vai fiar de qualquer um, por muito boas que sejam as recomendações. Quando voltarem a estar com Jesus, algo, sem dúvida, terão os doze para contar-lhe acerca dos resultados da pregação de arrependimento que andaram espalhando, mas muito pouco poderão referir no capítulo das curas, salvo a expulsão de uns tantos demónios subalternos, desses que não precisam de exorcismos particularmente imperiosos para saltarem de uma pessoa para outra. O que, sim, dirão, é que algumas vezes foram eles expulsos ou mal recebidos em caminhos que não eram de gentios e cidades que não eram de samaritanos, sem terem outra consolação que sacudirem à saída o pó dos pés, como se a culpa fosse duma pobre poeira que todos pisam e que de nenhum se queixa. Mas Jesus tinha-lhes dito que era o que deviam fazer em tais casos, como testemunho contra quem os não quisesse ouvir, deplorável, resignada resposta, em verdade, pois do que tratava era da própria palavra de Deus deste modo rejeitada, posto que o mesmo Jesus fora muito explícito, Não vos preocupeis com o que haveis de falar, nessa altura ser-vos-á 140
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inspirado o que tiverdes de dizer. Ora talvez que, afinal, as coisas não possam ser bem assim, talvez que, neste como em outros casos, a solidez da doutrina, que está em cima, dependa do factor pessoal, que está em baixo, a lição, se não é temerário adiantá-lo, parece boa, aproveitemo-la. Calhou estar o tempo como de rosas acabadas de colher, fresco e perfumado como elas, e as estradas limpas e amenas como se adiante andassem anjos salpicando de orvalho o caminho, para depois o varrerem com vassouras de loureiro e murta. Jesus e Maria de Magdala viajaram incógnitos, não pernoitando nunca nos caravançarais, evitando juntar-se às caravanas, onde era maior o risco de encontrar ele quem o reconhecesse. Não era que Jesus estivesse a descurar as suas obrigações, que não lho consentiria a minuciosa vigilância de Deus, mas parecia que o mesmo Deus decidira conceder-lhe uns dias feriados, pois à estrada não desciam leprosos a implorar curas nem possessos a rejeitá-las, e as aldeias por onde passavam compraziam-se bucolicamente na paz do Senhor, como se, por uma virtude sua própria, se tivessem adiantado na via dos arrependimentos. Dormiam onde calhava, sem mais preocupações de conforto que o regaço do outro, alguma vez tendo por único tecto o firmamento, o imenso olho negro de Deus crivado daquelas luzes que são o reflexo deixado pelos olhares dos homens que contemplaram o céu, geração após geração, interrogando o silêncio e escutando a única resposta que o silêncio dá. Mais tarde, quando estiver sozinha no mundo, Maria de Magdala quererá recordar estes dias e estas noites, e de cada vez será obrigada a lutar muito para defender a memória dos assaltos da dor e da amargura, como se estivesse a proteger uma ilha de amores das investidas de um mar tormentoso e dos seus monstros. Já esse tempo não está longe, mas, olhando a terra e o céu, não se distinguem os sinais da aproximação, assim no espaço livre uma ave voa, e não se apercebe do rápido falcão que, com as garras lançadas adiante, desce como uma pedra. Jesus e Maria de Magdala cantam no caminho, os outros viajantes, que os não conhecem, dizem, Gente feliz, e por enquanto não há outra verdade mais verdadeira. Assim chegaram a Jericó e dali, com vagar, levando dois largos dias na jornada, porque o calor era muito e as sombras nenhumas, subiram para Betânia. Depois dos anos passados, não sabia Maria de Magdala como iriam recebê-la os seus irmãos, de mais tendo ela saído de casa para viver uma má vida, Talvez até pensem que morri, dizia, talvez mesmo desejem que eu tenha morrido, e Jesus tentava afastar-lhe da cabeça as negras ideias, O tempo cura tudo, sentenciava, e não se lembrava de que a ferida que, para ele, era a sua própria família, continuava viva e aberta e todo o tempo sangrava. Entraram em Betânia, Maria cobrindo meio rosto, por vergonha de que a reconhecessem os vizinhos, e Jesus, suavemente, repreendia-a, De quem te escondes, não és mais a mulher que viveu a outra vida, essa já não existe, Não sou quem fui, é verdade, mas sou quem era, e aquela que sou e aquela que era ainda estão atadas uma à outra pela vergonha daquela que fui, Agora és quem és, e estás comigo, Bendito seja Deus por isso, ele que de mim te levará um dia, e Maria deixou cair o manto, mostrando o rosto, porém ninguém disse, Ali vai a irmã de Lázaro, aquela que foi viver de prostituta. Esta é a casa, disse Maria de Magdala, mas não teve ânimo para bater nem voz para anunciar-se. Jesus empurrou um pouco a cancela, que era apenas encostada, e perguntou, Está alguém, lá de dentro uma mulher disse, Quem chama, a sua própria resposta pareceu tê-la trazido até à porta, e aí estava, Marta, a irmã de Maria, gémeas, porém não iguais, porque sobre esta fizera maior estrago a idade, ou o trabalho, ou o feitio e modo de ser. Deu primeiro com os olhos em Jesus, e o seu rosto, com se dele se tivesse levantado uma nuvem que o obscurecesse, tornou-se de súbito luminoso e claro, mas, logo depois, vendo a irmã, duvidou, desenhou-se-lhe nas feições uma expressão de descontentamento, Ele quem é, para estar com ela, podia ter assim pensado, ou talvez, Como pode estar com ela, se é o que parece, mas Marta não saberia dizer, se lho ordenassem, que era o que lhe parecia Jesus. E foi certamente por isso que em vez de perguntar à irmã, Como estás, ou, Que vens cá fazer, as palavras que disse foram, Quem é este homem que te acompanha. Jesus sorriu-se, e o seu sorriso foi direito ao coração de Marta com a rapidez e o choque de um disparo de flecha, e ali ficou a doer, a doer, como um estranho e desconhecido gozo, Chamo-me Jesus de Nazaré, disse, e estou com tua irmã, palavras estas que eram, mutatis mutandis, tal como saberiam dizer os romanos no seu latim, equivalentes às que tinha gritado a seu irmão Tiago quando dele se separou na borda do mar, Chama-se Maria de Magdala e está comigo. Marta abriu a porta toda e disse, Entrem, estás na tua casa, mas não se soube em qual dos dois estava pensando. Já no pátio, Maria de Magdala travou do braço da irmã, e disse-lhe, Pertenço a esta casa como tu pertences, pertenço a este homem que não te pertence a ti, estou em regra contigo e com ele, portanto não faças da tua virtude pregão nem da 141
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minha imperfeição sentença, foi em paz que vim e em paz quero ficar. Marta disse, Recebo-te como minha irmã pelo sangue, e espero que possa chegar o dia em que te receba pelo amor, mas hoje não, ia prosseguir, porém um pensamento deteve-a, é que não sabia se o homem que ali estava com a irmã era conhecedor, ou não, da vida que ela levara, se não a levava ainda, e então, neste ponto do raciocínio o rosto cobriu-se-lhe de rubor e confusão, por um momento odiou-os aos dois e a si própria, enfim falou Jesus, para que Marta ouvisse o que era mister, não é tão difícil assim adivinhar o que vai no pensamento das pessoas, Deus julga-nos a todos e em cada dia nos julgará diferentemente, segundo o que somos em cada dia, ora, se a ti, Marta, tivesse Deus de julgar-te hoje, não creias que serias, aos seus olhos, diferente de Maria, Explica-te melhor, não te entendo, E eu não te direi mais, guarda as minhas palavras no teu coração e repete-as contigo mesma quando olhares a tua irmã, Maria já não, Queres saber se já não sou puta, perguntou brutalmente Maria de Magdala, cortando a reticência da irmã. Marta recuou, acenou com as mãos diante do rosto, Não, não, não quero que mo digas, bastam-me as palavras de Jesus, e, sem poder conter-se, começou a chorar. Maria foi-se para ela, abraçou-a como se a embalasse, Marta dizia entre soluços, Que vida, que vida, mas não se sabia se era da irmã que falava ou de si própria. Lázaro, onde está, perguntou Maria, Na sinagoga, E de saúde, como tem passado, Continua a sofrer daquelas suas antigas sufocações, fora isso, não passa mal. Deu-lhe vontade de acrescentar, noutro sobressalto de amargura, que a preocupação se tinha atrasado pelo caminho, pois, em todos estes anos de culpada ausência, a irmã pródiga, pródiga de tempo e de corpo, pensou Marta com ironia despeitada, nunca tivera a lembrança de mandar saber notícias da família, em particular de um irmão cuja saúde débil a cada instante parecia ir romper-se de vez. Voltando-se para Jesus, que afastado dois passos observava com atenção o mal disfarçado conflito, Marta disse, O nosso irmão copia livros na sinagoga, não tem saúde para mais, e o tom, embora a intenção não fosse certamente essa, era o de alguém que nunca poderá compreender como é possível viver-se sem esta força diligente, sem este contínuo trabalho, que em todo o santo dia não tenho um momento de descanso. De que sofre Lázaro, perguntou Jesus, Dumas sufocações, como se o coração se lhe fosse parar, depois torna-se pálido, pálido, parece que vai ficar-se. Marta fez uma pausa e acrescentou, é mais novo do que nós, disse-o sem pensar, talvez porque subitamente dera pela própria juventude de Jesus, outra vez a confusão lhe entrou no espírito, um sentimento de ciúme tocou-lhe o coração, e o resultado de tudo isto foram umas palavras que soaram de modo estranho estando ali presente Maria de Magdala, que ela, sim, tinha o dever e o direito de as pronunciar, Vens cansado, senta-te, e deixa-me que te lave os pés. Um pouco mais tarde, Maria, achando-se sozinha com Jesus, disse-lhe, meio a sério, meio a sorrir, Pelos vistos e ouvidos, estas irmãs nasceram para enamorar-se de ti, e Jesus respondeu, O coração de Marta está cheio da tristeza de não ter vivido, A tristeza dela não é essa, está triste porque pensa que não há mais justiça no céu se a impura é a que recebe o prémio, e a virtuosa tem o corpo vazio, Deus terá para ela outras compensações, Pode ser, mas Deus, que fez o mundo, não deveria privar de nenhum dos frutos da sua obra as mulheres de que também foi autor, Conhecer homem, por exemplo, Sim, como tu vieste a conhecer mulher, e mais não devias precisar, sendo, como és, o filho de Deus, Quem contigo se deita não é o filho de Deus, mas o filho de José, Na verdade, nunca, desde que vieste, senti que estivesse deitada com o filho de um deus, De Deus, queres tu dizer, Quem me dera que o não fosses. Por um rapazito, filho de vizinhos, Marta mandou avisar o irmão de que tinha tornado Maria, mas não o fez sem ter hesitado muito, pois assim ia abreviar a inevitável e saborosa notícia de que a prostituta irmã de Lázaro regressara a casa, com o que a família voltava a cair nas bocas do mundo depois de o tempo, mais ou menos, as ter feito calar. A si mesma perguntava com que cara iria sair no dia seguinte à rua, e, pior ainda, se teria coragem para levar consigo a irmã, estando obrigada a falar a vizinhas e amigas, dizer, é um exemplo, Lembras-te da minha irmã Maria, pois aqui está ela, tornou a casa, e a outra, com ar entendido, Lembro-me, lembro-me, quem é que não se lembra, que estas minúcias prosaicas não escandalizem quem com elas tenha de perder o seu tempo, a história de Deus não é toda divina. Censurou-se Marta dos seus mesquinhos pensamentos quando Lázaro, chegando, se abraçou a Maria e lhe disse com simplicidade, Bem-vinda sejas, minha irmã, como se não lhe estivessem doendo tantos anos de ausência e de calado desgosto, e porque algum sinal de alegre disposição agora lhe competia dar, apontou Marta a Jesus e disse para o irmão, Este é Jesus, nosso cunhado. Os dois homens olharam-se com simpatia, e logo se sentaram a conversar, enquanto as mulheres, repetindo gestos e movimentos 142
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que haviam sido comuns noutro tempo, começaram a preparar a refeição. Ora, depois de terem ceado, Lázaro e Jesus saíram ao pátio para tomarem o fresco da noite, dentro de casa ficaram as irmãs a resolver a importante questão de como deveriam ser instaladas as esteiras, tendo em conta a alteração ocorrida na composição da família, e, ao cabo de um silêncio, Jesus, olhando as primeiras estrelas que surgiam no céu ainda claro, perguntou, Sofres, Lázaro, e Lázaro respondeu, numa voz estranhamente tranquila, Sim, sofro, Deixarás de sofrer, disse Jesus, Decerto, quando estiver morto, Deixarás de sofrer agora, Não me tinhas dito que és médico, Irmão, se eu fosse médico não saberia como curar-te, Nem podes curar-me, mesmo não o sendo, Estás curado, murmurou Jesus docemente, tomando-lhe a mão. No mesmo instante Lázaro sentiu que o mal lhe fugia do corpo como uma água escura devorada pelo sol, que se lhe alargava o fôlego e rejuvenescia o coração, e, porque não podia compreender o que se passava, teve medo na sua alma, Que é isto, perguntou, e a voz enrouquecia-lhe de angústia, Quem és tu, Médico, não sou, sorriu Jesus, Em nome de Deus, diz-me quem és, Não invocas o nome de Deus em vão, Que devo entender, Chama Maria, ela to dirá. Não foi preciso, atraídas pelo repentino altear das vozes, Marta e Maria apareceram à porta, andariam os dois homens altercando, mas logo viram que não, o pátio estava todo ele azul, o ar, queremos dizer, e Lázaro, trémulo, apontava para Jesus, Quem é este, perguntava, que com ter-me tocado a sua mão e dizer-me Estás curado me curou. Marta veio para o irmão com o propósito de sossegá-lo, como era possível estar ele curado se daquela maneira tremia, mas Lázaro afastou-a, disse, Fala tu, Maria, que o trouxeste, quem é ele. Sem se mover do limiar da porta onde se deixara ficar, Maria de Magdala disse simplesmente, É
Jesus de Nazaré, filho de Deus. Ora, mesmo sendo estes lugares, e, neles, o tempo desde o princípio do mundo, tão regularmente favorecidos de revelações proféticas e anúncios apocalípticos, o mais natural da vida seria terem manifestado Lázaro e Marta uma peremptória incredulidade, porque uma coisa é reconhecer-se alguém de súbito curado por óbvio efeito de milagre, e outra é virem-te dizer que o homem que te tocou na mão e te libertou do mal é o próprio filho de Deus. Porém, a fé e o amor podem muito, há até quem afirme que não precisam andar juntos para poderem tudo, e o caso foi que Marta se lançou, a chorar, nos braços de Jesus, depois, assustada pela ousadia, escorregou para o chão, onde ficou, e só sabia murmurar, com o rosto transfigurado, Lavei-te os pés, lavei-te os pés.
Lázaro não se tinha mexido, o assombro paralisara-o, podemos mesmo supor que se a subitânea revelação o não fulminou foi porque um acto oportuno de amor, no minuto antes, lhe pusera um coração novo no lugar do coração velho. Sorrindo, Jesus foi abraçá-lo e dizer-lhe, Que não te surpreenda ver que o filho de Deus é um filho de homem, em verdade, Deus não tinha mais por onde escolher, como os homens que escolhem as suas mulheres e as mulheres que escolhem os seus homens. As últimas palavras eram destinadas a Maria de Magdala, que as tomaria pelo bom lado, mas não se lembrou Jesus de que elas só iriam servir para aumentar o sofrimento de Marta e o desespero da sua solidão, é a diferença que há entre Deus e um filho seu, Deus fá-lo-ia de propósito, fê-lo o filho apenas por humaníssima inabilidade. Enfim, a alegria, hoje, é grande nesta casa, amanhã tornará Marta a sofrer e a suspirar, mas um alívio pode ela já ter por certo, é que ninguém terá o atrevimento de arrastar pelas ruas, praças e mercados de Betânia a vida dissoluta da irmã quando se vier a saber, e a própria Marta disso se ocupará, que o homem que com ela veio curou Lázaro do seu mal sem poção nem tisana. Estavam em casa, recolhidos e desfrutando a hora, e Lázaro disse, De longe em longe, têm chegado notícias de que um homem de Galileia andava a fazer milagres, mas não que fosse filho de Deus, Umas notícias andam mais depressa do que outras, disse Jesus, És tu esse homem, Tu o disseste. Então Jesus contou a sua vida desde o princípio, mas não toda ela, de Pastor nada, de Deus disse somente que lhe aparecera para dizer-lhe, És meu filho. Se não fosse aquela primeira notícia de uns longínquos milagres, tornados verdades puras pela palpável evidência deste, se não fosse o poder da fé, se não fosse o amor e os seus poderes, decerto haveria de ser muito difícil a Jesus, apenas com uma frase lacónica, se bem que posta na boca do próprio Deus, convencer Lázaro e Marta de que o homem que daí a pouco se iria deitar com a irmã deles era feito de espírito divino, se com a sua humana carne se aproximara dela, que a tantos homens conhecera sem temer a Deus. Perdoemos a Marta o orgulho que a levou a dizer, baixinho, com a cabeça tapada pelo lençol para não ver nem ouvir, Eu seria mais digna. Na manhã seguinte, a notícia correu velocíssima, tudo em Betânia foi um louvar e dar graças ao Senhor, e mesmo os que, modestos, começaram por duvidar do caso, considerando ser a terra demasiado pequena para nela poderem acontecer grandes coisas, esses não 143
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tiveram mais remédio que render-se, à vista do miraculado Lázaro, de quem nunca deverá dizer-se que passara a vender saúde, porque era de tão amorável coração que toda a daria, se pudesse. Já à porta da casa se juntavam curiosos que queriam ver, com os seus próprios, e portanto não mentirosos olhos, o autor do feito celebrado, e, podendo ser, para final e definitiva certeza, pôr-lhe a mão em cima. Também, uns por seu pé, outros trazidos de charola, ou às costas de parentes, vieram os doentinhos à cura, em ponto de não se poder romper na estreita rua onde moravam Lázaro e suas irmãs. Sabedor que foi do adjunto, mandou Jesus avisar que falaria a todos na praça maior da aldeia, e que fossem andando para lá, que já se lhes juntaria. Ora, quem tem um pássaro na mão, não será tão tolo que o vá deitar a voar, antes lhe faz com os dedos mais segura gaiola. Por causa desta prudência ou desconfiança, ninguém dali arredou, e Jesus teve de mostrar-se e sair como qualquer um, igualzinho a nós aparecendo no vão duma porta, sem música nem resplendor, sem que a terra tremesse ou os céus se movessem de um lado a outro, Aqui estou, disse, fazendo por falar em tom natural, mas, supondo que o conseguiu, eram daquelas palavras, por si sós, vindas de quem vinham, capazes de fazer pôr os joelhos no chão a uma aldeia inteira, clamando piedade, Salva-nos, gritavam estes, Cura-me, imploravam aqueles. Jesus curou a um que, por ser mudo, nada podia pedir, e aos outros mandou-os para as suas casas porque não tinham fé bastante, e que voltassem noutro dia, mas que, primeiro que tudo, era preciso que se arrependessem dos pecados, pois o reino de Deus estava perto e o tempo a ponto de completar-se, doutrina já conhecida. És tu o filho de Deus, perguntaram-lhe, e Jesus respondeu do modo enigmático a que acostumara quem o ouvia, Se eu não o fosse, mais depressa te faria Deus mudo, que consentir que mo perguntasses. Com estes assinalados actos principiou a estação de Jesus em Betânia, enquanto não chegava o dia do encontro combinado com os discípulos que por distantes paragens andavam. Claro que não tardou que começasse a vir gente das cidades e aldeias em redor, conhecida que foi lá a notícia de que o homem que fazia milagres no norte estava agora em Betânia. Não precisaria Jesus de sair da casa de Lázaro porque todos acorriam a ela como a um lugar de peregrinação, porém Jesus não os recebia, mandava-os que se reunissem num certo monte fora da aldeia e ali lhes ia pregar o arrependimento e fazer algumas curas. Tanto se falou e disse, que as vozes chegaram a Jerusalém, fazendo com que se engrossassem as multidões e Jesus se interrogasse sobre se deveria ali continuar, com risco dos motins que sempre se geram nos ajuntamentos excessivos. De Jerusalém viera, primeiramente, ao rumor duma esperança de salvação e cura, o miúdo povo, mas não demorou que começasse a aparecer também gente das classes que por cima estão, e mesmo uns quantos fariseus e escribas que se tinham recusado a acreditar que alguém, em seu juízo, tivesse o atrevimento, por assim dizer suicida, de chamar-se, com todas as letras, Filho de Deus. Regressavam a Jerusalém irritados e perplexos porque Jesus nunca respondia afirmativamente quando lho perguntavam, e todo o seu falar, no que toca a filiações, era denominar-se a si mesmo Filho do Homem, e se, falando de Deus, lhe acontecia dizer Pai, entendia-se que o era de todos, e não apenas seu. Restava então, como questão dificilmente polémica, o poder curativo de que dava sucessivas provas, exercido sem artificiosos passes de mágica, do modo mais simples, uma ou duas palavras, Caminha, Levanta-te, Diz, Vê, Sê limpo, um subtil toque da mão, nada mais que o roce suave da ponta dos dedos, acto contínuo a pele dos leprosos brilhava como o orvalho ao dar-lhe a primeira luz do sol, os mudos e os gagos embriagavam-se no fluxo torrencial da palavra libertada, os paralíticos saltavam do catre e dançavam até se lhes esgotarem as forças, os cegos não acreditavam no que os seus olhos podiam ver, os coxos corriam e corriam, e depois, de pura alegria, fingiam-se de coxos para tornarem a correr outra vez, Arrependei-vos, dizia-lhes Jesus, arrependei-vos, e não lhes pedia mais nada. Mas os sacerdotes superiores do Templo, sabedores, mais do que ninguém, das confusões e outras perturbações históricas a que tinham dado azo, no seu tempo, profetas e anunciadores de vária índole, decidiram, depois de pesadas e medidas todas as palavras ouvidas a Jesus, que neste tempo não se veriam convulsões religiosas, sociais e políticas como as do passado, e que de hoje em diante estariam com atenção a tudo o que o galileu fosse fazendo e dizendo, para que, em caso de necessidade, e tudo indica que lá havemos de chegar, seja cortado e arrancado pela raiz o mal que já se anuncia, porque, dizia o sumo sacerdote, A mim não me engana ele, o filho do Homem é o filho de Deus. Jesus não fora semear grãos a Jerusalém, mas em Betânia talhava, forjava e dava fio à foice com que lá o haverão de ceifar. Nesta festa estávamos quando, dois agora, dois amanhã, aos pares de cada vez, ou quatro que se tinham encontrado no caminho, começaram a chegar a Betânia os 144
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discípulos. Diferindo apenas, uns e outros, em pormenores e circunstâncias de somenos, traziam todos a mesma notícia, e era que do deserto havia saído um homem que profetizava ao jeito antigo, como se rolasse pedras com a voz e movesse montanhas com os braços, anunciando castigos ao povo e a vinda iminente do Messias. Não o tinham chegado a ver porque ele ia constantemente de um lado para outro, pelo que as informações que traziam, embora no geral coincidentes, eram todas de segunda mão, e, diziam, se não o foram procurar foi só porque se estava cumprindo o prazo combinado de três meses e não queriam faltar ao encontro. Perguntou então Jesus se sabiam como se chamava o profeta e eles responderam que João, ora este era o nome do homem que devia vir para o ajudar, consoante Deus lhe anunciara à despedida. Já chegou, disse Jesus, e os amigos não compreenderam o que ele pretendia significar com tais palavras, só Maria de Magdala, mas essa sabia tudo. Jesus queria ir já à procura de João, que decerto o estaria buscando a ele, mas dos doze faltavam ainda Tomé e Judas de Iscariote, e como podia suceder que eles trouxessem notícias mais directas e completas, enfadava-o a tardança. Valeu a pena, porém, a espera, os retardatários tinham visto João e falado com ele. Vieram os outros das tendas onde estanciavam, fora de Betânia, para ouvirem o relato de Tomé e Judas de Iscariote, sentados todos em círculo no pátio da casa de Lázaro, e Marta e Maria, e as outras mulheres, por ali, servindo-os. Então falaram alternadamente Judas de Iscariote e Tomé, e disseram isto, que João estava no deserto quando a palavra de Deus lhe foi dirigida, posto o que se foi dali para as margens do Jordão a pregar um baptismo de penitência para remissão dos pecados, mas indo as multidões a ele para se fazerem baptizar, recebeu-as com estes brados, que os ouvimos nós e deles nos assombrámos, Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para chegar, deveis é produzir frutos de arrependimento sincero e não vos iludirdes a vós mesmos dizendo que tendes por pai a Abraão, pois eu vos digo que Deus pode, destas brutas pedras, suscitar novas vergônteas a Abraão, deixando-vos a vós desprezados, vede que já o machado se encontra à raiz das árvores, e por isso toda aquela que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo, ora as multidões, cheias de temor, perguntaram-lhe, Que devemos fazer, e João respondeu-lhes, Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma, e quem mantimentos tiver faça o mesmo, e aos publicanos que cobram os impostos disse-lhes, Não exijais nada que não estiver estabelecido na lei, mas não creiais que a lei é justa só porque lhe chamais lei, e aos soldados que lhe perguntaram, E nós, que devemos fazer, respondeu-lhes, Não exerçais violência sobre ninguém, não denuncieis injustamente e contentai-vos com o vosso soldo. Calou-se neste ponto Tomé, que era o que tinha começado, e Judas de Iscariote, pegando-lhe na palavra, prosseguiu, Perguntaram-lhe então se ele era o Messias, e ele respondeu, Eu baptizo-vos em água para vos mover ao arrependimento, mas vai chegar quem é mais poderoso do que eu, alguém cujas correias das sandálias não sou digno de desatar, que vos baptizará no Espírito Santo e no fogo, que tem na sua mão a pá de joeirar para limpar a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha num fogo inextinguível. Não disse mais Judas de Iscariote e todos esperaram que Jesus falasse, mas Jesus, com um dedo, fazia riscos enigmáticos no chão e parecia esperar que algum dos outros falasse. Então disse Pedro, És tu o Messias que João veio anunciar, e Jesus, sem deixar de riscar a poeira, Tu é que o dizes, não eu, que a mim Deus disse-me apenas que era seu filho, fez uma pausa, e concluiu, Vou procurar João, Vamos contigo, disse o que também se chamava João, filho de Zebedeu, mas Jesus abanou lentamente a cabeça, Irei só, só com Tomé e Judas de Iscariote, porque o conhecem, e para Judas, Como é ele, Mais alto do que tu e muito mais forte, usa uma grande barba que parece feita de espinhos, anda entrajado com umas toscas peles de camelo que aperta com uma tira de couro à volta da cintura e lá no deserto dizem alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre, Parece bem mais o Messias do que eu, disse Jesus, e levantou-se da roda. Partiram logo na manhã seguinte os três, e, sabido que João nunca se demorava muitos dias num mesmo lugar, mas que o mais provável, em todos os casos, seria encontrá-lo baptizando nas margens do Jordão, desceram dos altos de Betânia para o sítio de Betabara, que está à beira do Mar Morto, com a ideia de irem depois subindo o rio, sempre, até ao Mar da Galileia, e mais para o setentrião ainda, até à nascente, se preciso fosse. Mas, quando de Betânia saíram nunca poderiam ter imaginado que a jornada seria tão breve, pois foi ali mesmo, em Betabara, que, sozinho, como se estivesse à espera, encontraram João. Viram-no de longe, minúscula figura de um homem sentado à beira do rio, cercado por montes lívidos que eram como caveiras e vales que pareciam cicatrizes ainda doridas, e, estendendo-se para a direita, a brilhar sinistramente debaixo do sol e do céu branco, a superfície 145
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terrível do Mar Morto, como de estanho fundido. Quando se aproximaram à distância de um tiro de funda, Jesus perguntou aos companheiros, É ele, os dois olharam com atenção, protegendo a vista com a mão em pala sobre as sobrancelhas, e responderam, Seria o seu gémeo, se não fosse, Esperai aqui até que eu volte, disse Jesus, não vos acerqueis, aconteça o que acontecer, e, sem mais palavra, começou a descer para o rio. Tomé e Judas de Iscariote sentaram-se no chão requeimado, viram Jesus afastar-se, aparecendo e desaparecendo consoante os acidentes do terreno, e depois, já no rebaixo da margem, caminhar para onde estava João, que em todo este tempo não se movera. Prouvera que não nos tenhamos enganado, disse Tomé, Devíamos ter ido mais perto, disse Judas de Iscariote, mas Jesus teve logo a certeza quando o viu, perguntou por perguntar. Lá em baixo, João erguera-se e olhava para Jesus, que se aproximava. Que irão dizer um ao outro, perguntou Judas de Iscariote, Talvez Jesus no-lo diga, talvez se cale, disse Tomé. Agora os dois homens, tão longe, estavam frente a frente e falavam com animação, podia-se perceber pelos gestos, pelos movimentos que faziam com os cajados, passado tempo desceram para a água, daqui não é possível vê-los porque o relevo da margem os tem escondido, porém Judas e Tomé sabiam o que estava a passar-se além porque também eles se tinham feito baptizar por João, os dois entrando na corrente até ao meio do corpo e João colhendo a água com as duas mãos em concha, levantando-a depois ao céu e deixando-a escorrer sobre a cabeça de Jesus, enquanto dizia, Baptizado estás com água, seja ela a alimentar o teu fogo. Já o fez, já o disse, já sobem do rio João e Jesus, tomaram do chão os cajados, sem dúvida estão dizendo um ao outro uma palavra de despedida, disseram-na e abraçaram-se, depois João começa a caminhar ao longo da margem, para o norte, e Jesus está vindo para o nosso lado. Tomé e Judas de Iscariote esperaram-no de pé, ele chega, e, outra vez sem dizer-lhes uma palavra, passa e segue adiante, a caminho de Betânia. Vão atrás dele, com não pequeno despeito, os discípulos, roídos de curiosidade insatisfeita, e, num dado momento, Tomé não pôde conter-se mais e, descuidando do gesto que Judas ainda fez para retê-lo, perguntou, Não queres falar-nos do que te disse João, Ainda não é a hora, respondeu Jesus, Disse-te ao menos que és o Messias, Ainda não é a hora, repetiu Jesus, e os discípulos ficaram sem perceber se ele apenas repetia o que antes tinha dito, ou os estava informando de que a hora de vir o Messias ainda não chegara. Para esta hipótese se inclinou Judas de Iscariote quando, desanimados, se deixaram ficar para trás, enquanto Tomé, céptico por decidida e renitente inclinação do espírito, opinava que se tratara de uma mera repetição, ainda por cima impaciente, acrescentou. Do que foi só Maria de Magdala teve conhecimento nessa noite, e ninguém mais, Não se falou muito, disse Jesus, mal tínhamos acabado de saudar-nos, ele quis saber se eu era aquele que há-
de vir, ou se devíamos esperar outro, E tu, que lhe respondeste, Disse-lhe que os cegos vêem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, e a boa nova é anunciada aos pobres, E
ele, Não é preciso que o Messias faça tanto, desde que faça o que deve, Foi o que ele disse, Sim, foram as suas palavras exactas, E que deve fazer o Messias, Isso lhe perguntei, E ele, Respondeu-me que eu teria de o descobrir por mim, E depois, Mais nada, levou-me para o rio, baptizou-me e foi-se embora, Que palavras foram as que te disse para baptizar-te, Baptizado estás com água, seja ela a alimentar o teu fogo. Depois desta conversação com Maria de Magdala, Jesus não falou mais por espaço de uma semana. Saiu da casa de Lázaro e foi viver para fora de Betânia, onde os discípulos estavam, mas recolheu-se em uma tenda apartada das outras, ficava dentro dela todo o dia, sozinho, pois nem mesmo Maria de Magdala podia lá entrar, e saía à noite para ir para os montes desertos.
Seguiram-no algumas vezes os discípulos escondidamente, dando a si mesmos a desculpa de quererem protegê-lo de um ataque das bestas selvagens, de que em verdade não havia por ali notícia, e o que viram foi que ele procurava uma clareira desafogada e ali se sentava, olhando, não o céu, mas na sua frente, como se, da sombra inquietante dos vales ou assomando na aresta duma colina, esperasse ver surgir alguém. Era tempo de lua, quem viesse poderia ser visto de longe, mas nunca apareceu ninguém. Quando a madrugada pisava o primeiro limiar da luz, Jesus retirava-se e regressava ao acampamento. Comia só uma pequena parte do alimento que João e Judas de Iscariote, ora um, ora outro, lhe levavam, mas não respondia às saudações deles, e uma vez aconteceu mesmo ter despedido rudemente Pedro, que apenas queria saber como ele estava e receber ordens. Não errara de todo Pedro no passo que dera, deu-o cedo de mais, foi o que foi, porque ao cabo dos oito dias saiu Jesus da tenda em pleno dia, foi juntar-se aos discípulos e comeu com eles, e, tendo terminado, disse, Amanhã subiremos a Jerusalém, ao Templo, lá fareis o que eu fizer, que é tempo de saber o Filho de 146
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Deus para que está a servir a casa do seu Pai e de começar o Messias a fazer o que deve. Perguntaram-lhe os discípulos que coisas eram essas de que falava, mas Jesus não lhes disse mais do que, Não precisareis de viver muito para o saberdes. Ora, os discípulos não estavam acostumados a que ele lhes falasse neste tom nem a vê-lo com aquela expressão de dureza na cara, que nem parecia o mesmo Jesus que conheciam, doce e sossegado, a quem Deus levava por onde queria e mal sabia queixar-se.
Não podia haver dúvidas de que a mudança tinha a sua causa nas razões, por ora desconhecidas, que o haviam levado a separar-se da comunidade dos amigos e a andar, como se estivesse possesso dos demónios da noite, por esses cabeços e ravinas à procura duma palavra, que sempre é o que se busca.
Considerou, porém, Pedro, como mais velho de quantos ali estavam, que não era justo que, sem mais explicações, tivesse Jesus ordenado, Vamos subir a Jerusalém, como se eles não fossem mais do que uns paus-mandados, bons para levar e trazer, mas não para conhecer os motivos de ter ido e ter voltado. E então disse, Sempre reconhecemos o teu poder e a tua autoridade e com eles nos conformámos, tanto pelo que dizes como pelo que tens feito, tanto por seres filho de Deus como pelo homem que também és, mas não está certo que lides connosco como se fôssemos meninos sem tino ou velhos caducos, não nos comunicando o teu pensamento, apenas que deveremos fazer o que tu fizeres, sem que o juízo que temos seja chamado a julgar o que pretendes de nós, Perdoai-me todos, disse Jesus, mas nem eu próprio sei o que me leva a Jerusalém, só me foi dito que devo ir, nada mais, mas vós não estais obrigados a acompanhar-me, Quem foi que te disse que deves ir a Jerusalém, Alguém que entrou na minha cabeça para decidir do que terei de fazer e não fazer, Mudaste muito desde que te encontraste com João, Compreendi que não basta trazer a paz, mas que é preciso trazer também a espada, Se o reino de Deus está perto, a que vem a espada, perguntou André, Deus não me disse por que caminho chegará a vós o seu reino, temos provado a paz, provemos agora a espada, e Deus fará a sua escolha, mas, torno a dizer, não estais obrigados a acompanhar-me, Bem sabes que iremos contigo para onde quer que fores, disse João, e Jesus respondeu, Não jureis, sabê-lo-eis os que lá tiverdes chegado. Na manhã seguinte, tendo Jesus ido a casa de Lázaro, não tanto para despedir-se, mas para dar sinal benévolo de que regressara à convivência de todos, foi-lhe dito por Marta que o irmão já tinha saído para a sinagoga. Então Jesus e os seus tomaram a estrada de Jerusalém, e Maria de Magdala e as outras mulheres foram com eles até às últimas casas de Betânia, onde ficaram acenando adeuses, a elas bastava-lhes fazerem-no, que os homens nem uma só vez se voltaram para trás. O céu está nublado, ameaçando chuva, talvez seja por isso que há pouca gente no caminho, os que não têm motivos de força maior para irem a Jerusalém deixaram-se ficar por casa, à espera do que os astros decidam. Avançam, pois, os treze por uma estrada muitas vezes deserta, enquanto as nuvens grossas e cinzentas rolam sobre as alturas dos montes como se, enfim, e para sempre, fossem ajustar-se o céu e a terra, o molde e o moldado, o macho e a fêmea, o côncavo e o convexo. Porém, chegados às portas da cidade, logo se viu que maiores diferenças de variedade e número na multidão não as havia, e que, como de costume, iam ser precisos muito tempo e muita paciência para abrir caminho e chegar ao Templo. Não foi assim, contudo. O aspecto dos treze homens, quase todos descalços, com os seus grandes cajados, as barbas soltas, os pesados e escuros mantos sobre túnicas que parecia terem visto o princípio do mundo, fazia afastar a gente amedrontada, perguntando uns aos outros, Quem são estes, quem é o que vai à frente, e não sabiam responder, até que um que tinha descido da Galileia disse, É Jesus de Nazaré, o que diz ser filho de Deus e faz milagres, E aonde vão, perguntava-se, e como a única maneira de o saberem era seguirem-nos, foram muitos atrás deles, de modo que ao chegarem à entrada do Templo, da parte de fora, não eram treze, mas mil, mas estes ficaram-se por ali, à espera de que os outros lhes satisfizessem a curiosidade. Foi Jesus para o lado onde estavam os cambistas e disse aos discípulos, Eis o que viemos fazer, acto contínuo começou a derrubar as mesas, empurrando e batendo a eito nos que compravam e vendiam, com o que se levantou ali um tumulto tal que não teria deixado ouvir as palavras que proferia se não se desse o estranho caso de soar a sua voz natural como um estentor de bronze, assim, Desta casa que deveria ser de oração para todos os povos, fizestes vós um covil de ladrões, e continuava a deitar as mesas abaixo, fazendo espalhar e saltar as moedas, com enorme gáudio de uns quantos dos mil que correram a colher aquele maná. Andavam os discípulos no mesmo trabalho, e por fim já os bancos dos vendedores de pombas eram também atirados ao chão, e as pombas livres, voavam por sobre o Templo, rodopiando doidas, além, em redor do fumo do altar, onde não iriam ser queimadas porque havia chegado o seu salvador. Vieram os 147
José Saramago – O Evangelho segundo Jesus Cristo
guardas do Templo, armados de bastões, para castigar e prender ou lançar fora os desordeiros, mas, para seu mal, encontraram-se com treze rudes galileus que, de cajado nas mãos, varriam quem ousava fazer-lhes frente e gritavam, Venham mais, venham todos, que Deus para todos chegará, e carregavam sobre os guardas, e destroçavam as bancas, de súbito apareceu um archote aceso, em pouco tempo tinham pegado fogo os toldos, uma outra coluna de fumo se erguia no ar, alguém gritou, Chamem os soldados romanos, mas ninguém fez caso, acontecesse o que tivesse de acontecer, os romanos, era da lei, não entrariam no Templo. Acudiram mais guardas, estes de espada e lança, aos quais foram juntar-se um que outro cambista e vendedor de pombas, resolvidos a não deixarem só em mãos alheias a defesa dos seus interesses, e a sorte das armas, aos poucos, começou a virar, que se esta luta, como nas cruzadas, a queria Deus, não parecia que pusesse nela o mesmo Deus empenho bastante para que a vencessem os seus. Nisto estávamos, quando no alto da escadaria apareceu o sumo sacerdote, acompanhado dos seus pares e dos anciãos e escribas que fora possível chamar à pressa, e deu uma voz que em nada ficou a dever àquela de Jesus, disse ele, Deixai-o ir desta vez, que, se voltar cá, então o cortaremos e lançaremos fora, como ao joio quando está em excesso na seara e ameaça afogar o trigo. Disse André para Jesus, que a seu lado brigava, Bem é que digas que vieste trazer a espada e não a paz, agora já sabemos que cajados não são espadas, e Jesus disse, No braço que brande o cajado e maneja a espada é que se vê a diferença, Que fazemos então, perguntou André, Tornemos a Betânia, respondeu Jesus, não é a espada que ainda nos falta, mas o braço. Recuaram em boa ordem, com os cajados apontados aos apupos e escárnios da multidão, que a mais bravos cometimentos não se atrevia, e em pouco tempo puderam sair de Jerusalém, posto o que, cansados todos, maltratados alguns, tomaram o caminho de regresso. Quando entraram em Betânia, notaram que os vizinhos que apareciam às portas os olhavam com expressões de piedade e desgosto, mas aceitaram-nas como coisa natural, visto o lastimoso estado em que voltavam da peleja. Pronto, porém, se desenganaram dos motivos, foi entrar na rua onde Lázaro morava e logo perceberam que sucedera uma desgraça. Jesus correu à frente de todos, entrou no pátio, pessoas de ar compungido abriram-lhe caminho para que ele passasse, ouviam-se dentro os choros e as lamentações, Ai, meu querido irmão, esta era a voz de Marta, Ai, meu querido irmão, esta a de Maria. Deitado no chão, sobre uma esteira, viu Lázaro, tranquilo como se dormisse, o corpo e as mãos compostas, mas não dormia, não, estava morto, durante quase toda a sua vida o seu coração ameaçara deixá-lo, depois curara-se, que assim o podia testemunhar Betânia inteira, e agora estava morto, por enquanto sereno como se fosse de mármore, intacto como se tivesse entrado na eternidade, mas não tardará que do interior da sua morte suba à superfície o primeiro sinal de podridão para tornar mais insuportável a angústia e o pavor destes vivos. Jesus, como se lhe tivessem cortado de um traço os tendões dos jarretes, caiu de joelhos, e gemeu, chorando, Como foi que aconteceu, como foi que aconteceu, é uma ideia que sempre nos acode diante do que já não tem remédio, perguntar aos outros como foi, desesperada e inútil maneira de distrair o momento em que iremos ter de aceitar a verdade, é isso, queremos saber como foi, e é como se pudéssemos ainda pôr no lugar da morte, a vida, no lugar do que foi, o que poderia ter sido.
Do fundo do seu desfeito e amargo choro, Marta disse a Jesus, Se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido, mas eu sei que tudo quanto pedires a Deus, ele to concederá, como te tem concedido a vista dos cegos, a limpeza dos leprosos, a voz dos mudos, e todos os mais prodígios que moram na tua vontade e esperam a tua palavra. Jesus disse-lhe, Teu irmão há-de ressuscitar, e Marta respondeu, Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição do último dia. Jesus levantou-se, sentiu que uma força infinita arrebatava o seu espírito, podia, nesta suprema hora, obrar tudo, cometer tudo, expulsar a morte deste corpo, fazer regressar a ele a existência plena e o ente pleno, a palavra, o gesto, o riso, a lágrima também, mas não de dor, podia dizer, Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá, e perguntaria a Marta, Crês tu nisto, e ela responderia, Sim, creio que és o filho de Deus que havia de vir ao mundo, ora, assim sendo, estando dispostas e ordenadas todas as coisas necessárias, a força e o poder, e a vontade de os usar, só falta que Jesus, olhando o corpo abandonado pela alma, estenda para ele os braços como o caminho por onde ela há-de regressar, e diga, Lázaro, levanta-te, e Lázaro levantar-se-á porque Deus o quis, mas é neste instante, em verdade último e derradeiro, que Maria de Magdala põe uma mão no ombro de Jesus e diz, Ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes, então Jesus deixou cair os braços e saiu para chorar.