XIII - GAIOLA DE OURO
Era a espécie de sala de recepção que as maiores corporações norte-americanas possuem no andar em que se situa o escritório do presidente, em seus arranha-céus de Nova Iorque. Suas proporções eram agradáveis, com cerca de vinte pés quadrados. O chão era todo recoberto pelo mais espesso tapete Wilton cor-de-vinho. O teto e as paredes estavam pintados numa suave tonalidade cinza pombo. Viam-se ainda reproduções litográficas de esboços de balé de Degas penduradas em séries, nas paredes, e a iluminação era feita com altos e modernos jogos de abajures de seda verde-escuro, imitando a forma de elegantes barricas.
À direita de Bond estavam uma larga mesa de mogno, com o tampo recoberto com couro verde, outras peças que se harmonizavam perfeitamente com a mesa, e um caro sistema de intercomunicações. Duas cadeiras altas, de antiquado, aguardavam os visitantes. Do outro lado da sala via-se uma mesa do tipo refeitório, sobre a qual estavam várias revistas com capas em cores vivas e mais duas cadeiras. Tanto na mesa de escritório, como na outra, viam-se vasos de hibiscos. O ar era fresco e impregnado de leve fragrância.
Duas mulheres estavam naquela sala. Por trás da mesa de trabalho, empunhando uma caneta que descansava sobre um formulário impresso, estava sentada uma jovem chinesa, de aspecto eficiente, com óculos de armação de chifre, sob uma franja de cabelos negros cortados curtos. Em seus olhos e em sua boca havia o sorriso padrão de boas-vindas que qualquer recepcionista exibe — a um tempo claro, obsequioso e inquisitivo.
Ainda com a mão na maçaneta da porta pela qual eles tinham passado, e esperando que os recém-chegados se adiantassem mais, a fim de que ela a pudesse fechar, estava uma mulher mais velha, com aspecto de matrona, e que deveria ter cerca de quarenta e cinco anos. Era fácil ver-se que também tinha sangue chinês. Sua aparência, saudável, de farto busto, era viva e quase excessivamente graciosa. O seu “pince-nez” de lentes cortadas em quadrado brilhava com o desejo da recepcionista de os pôr à vontade.
Ambas as mulheres vestiam roupas imaculadamente alvas, com meias brancas e sapatos de camurça branca como costumam apresentar-se as auxiliares empregadas nos mais luxuosos salões de beleza norte-americanos. Havia um que de suave e pálido em suas peles, como se elas raramente saíssem para o ar-livre.
Bond observou o ambiente, enquanto a mulher junto à porta lhe dizia frases convencionais de boas-vindas, como se eles tivessem sido colhidos por uma tempestade o chegado com atraso a uma festa.
— Oh, coitados! Nós não sabíamos quando vocês iriam chegar. A todo momento nos diziam que vocês já estavam a caminho... primeiro à hora do chá, ontem, depois na hora do jantar, e apenas há uma hora fomos informadas de que vocês chegariam à hora do desjejum. Devem estar com fome. Venham aqui e ajudem a irmã Rosa a preencher o formulário; depois eu os prepararei para a cama. Devem estar muito cansados.
Ia dizendo aquilo com voz doce e cacarejante, ao mesmo tempo que fechava a porta e os levava para junto da mesa e os fazia sentar nas cadeiras. Depois disse: — Bem, eu sou a irmã Lírio, e esta é a irmã Rosa. Ela irá fazer-lhes apenas algumas perguntas. Agora, aceitam um cigarro? — e pegou uma caixa de couro trabalhado que estava em cima da mesa. Abriu-a e pô-la diante deles. A caixa tinha três divisões, e a chinesinha explicou apontando com um dedo: “Esses são americanos, esses são ingleses e esses turcos.” Ela apanhou um luxuoso isqueiro de mesa e esperou.
Bond estendeu as mãos algemadas para tirar um cigarro turco.
A irmã Lírio deu um gritinho de espanto: — Oh, mas francamente. — Parecia sinceramente embaraçada. — Irmã Rosa, dê-me a chave, depressa. Já disse por várias vezes que os pacientes não devem ser trazidos dessa maneira. — Havia impaciência e aborrecimento em sua voz. — Francamente, aquela gente lá de fora! Já era tempo que eles fossem chamados à ordem.
A irmã Rosa estava tão embaraçada quanto a irmã Lírio. Rapidamente remexeu dentro de uma gaveta e entregou uma chave à irmã Lírio, que com muitas desculpas e cheia de dedos abriu os dois pares de algemas e, afastando-se para trás da mesa, deixou aquelas duas pulseiras de aço caírem dentro da cesta de papéis como se fossem ataduras sujas.
— Obrigado, — disse Bond, que não sabia como enfrentar aquela situação, a não ser procurando desempenhar um papel qualquer na comédia que se estava representando. Ele estendeu o braço, apanhou um cigarro e acendeu-o. Lançou um olhar para Honeyehile Rider, que parecia estonteada e nervosamente apertava com as mãos os braços de sua cadeira. Bond dirigiu-lhe um sorriso de conforto.
— Agora, por favor; — disse a irmã Rosa e inclinou-se sobre um comprido formulário impresso em papel caro. — Prometo ser o mais rápida que puder. O seu nome, sr... sr...
— Bryce, John Bryce.
Ela escreveu a resposta com grande concentração. — Endereço permanente?
— Aos cuidados do Jardim Zoológico Real, Regents Park, Londres, Inglaterra.
— Profissão?
— Ornitologista.
— Oh, meu Deus!, poderia o senhor soletrar isso? Bond atendeu-a.
— Muito obrigada. Agora, vejamos, objeto da viagem?
— Aves — respondeu Bond. — Sou também representante da Sociedade Audubon de Nova Iorque. Eles arrendaram parte desta ilha.
— Oh, sem dúvida. — Bond observou que a pena escrevia exatamente o que ele dizia. Depois da última palavra ela pôs um claro ponto de interrogação entre parênteses.
— E — a irmã Rosa sorriu polidamente em direção a Honeyehile — a sua esposa? Ela também está interessada em pássaros?
— Sim, sem dúvida.
— O seu primeiro nome?
— Honeyehile.
A irmã Rosa estava encantada. — Que nome lindo! — Ela voltou a escrever apressadamente. — E agora os parentes mais próximos de ambos, e estará tudo acabado.
Bond deu o verdadeiro nome de M como o parente mais próximo de ambos. Apresentou-o como “tio” e indicou o seu endereço como sendo “Diretor-Gerente, Exportadora Universal, Regents Park, Londres.”
A irmã Rosa acabou de escrever e disse: — Pronto, está tudo feito. Muito obrigada, sr. Bryce, e espero que ambos apreciem a permanência aqui.
— Muito obrigado. Estou certo de que apreciaremos. — Bond levantou-se e Honeyehile fez o mesmo, ainda com expressão vazia.
A irmã Lírio disse: — Agora, venham comigo, queridos.
— Ela caminhou até uma porta na parede distante e deteve-se com a mão na maçaneta talhada em vidro. — Oh, meu Deus, — disse —, não é que agora me esqueci do número de seus quartos? É o apartamento creme, não é, irmã?
— Isso mesmo. Catorze e quinze.
— Obrigada, querida. E agora — ela abriu a porta — se vocês quiserem me seguir... Receio que seja uma caminhada um pouco longa. — Fechou a porta, por trás deles, e pôs-se à frente, indicando o caminho. — O Doutor tem falado várias vezes em instalar uma dessas escadas rolantes, ou algo de parecido, mas sabem como são os homens ocupados: — Ela riu alegremente. — Ele tem tantas outras coisas em que pensar!
— Sim, acredito, — disse Bond polidamente.
Bond tomou a mão da jovem e seguiram ambos a maternal e agitada chinesa através de cem metros de um alto corredor, do mesmo estilo da sala de recepção, mas que era iluminado a freqüentes intervalos por caros tubos luminosos fixados às paredes.
Bond respondia com polidos monossílabos aos comentários ocasionais que a irmã Lírio lhe lançava por sobre os ombros. Toda a sua mente se concentrava nas extraordinárias circunstâncias de sua recepção. Tinha certeza de que aquelas duas mulheres tinham sido sinceras. Nenhum só olhar ou palavra conseguira registrar que estivesse fora de propósito. Evidentemente aquilo era alguma espécie de fachada, mas de qualquer forma uma fachada sólida, meticulosamente apoiada pelo cenário e pelo elenco. A ausência de ressonância, na sala, e agora no corredor, estava a indicar que eles tinham deixado o galpão pré-fabricado para se internarem no flanco da montanha e agora estavam atravessando a sua base. Segundo o seu palpite estavam mesmo andando em direção oeste — em direção à penedia na qual terminava a ilha. Não havia umidade nas paredes e o ar parecia fresco e puro, com uma brisa a afagá-los. Muito dinheiro e uma bela realização de engenharia tinham sido os responsáveis por aquilo. A palidez das duas mulheres estava a sugerir que passavam a maior parte do tempo internadas no âmago da montanha. Do que a irmã dissera, parecia que elas faziam parte de um grupo de funcionários internos que nada tinham a ver com o destacamento de choque do exterior, e que talvez não soubessem a espécie de homens que eles eram.
Aquilo era grotesco, concluiu Bond ao se aproximar de uma porta, na extremidade do corredor, perigosamente grotesco, mas em nada adiantava pensar nisso no momento. Ele apenas podia seguir o papel que lhe tinha sido destinado. Pelo menos, aquilo era melhor do que os bastidores, na arena exterior da ilha.
Junto à porta, a irmã Lírio fez soar uma campainha. Já eram esperados e a porta abriu-se imediatamente. Uma encantadora jovem chinesa, de quimono lilás e branco, ficou a sorrir e a curvar-se, como se deve esperar que o façam as jovens chinesas. E, mais uma vez só havia calor e um sentimento de boas-vindas naquele rosto pálido como uma for. A irmã Lírio exclamou: — Aqui estão eles, finalmente, May! São o senhor e a senhora John Bryce. E sei que ambos devem estar exaustos, por isso devemos levá-los imediatamente aos seus aposentos, para que possam repousar e dormir. — Voltando-se para Bond: — Esta é May, muito boazinha. Ela tratará de ambos. Qualquer coisa que queiram é só tocar a campainha que May atenderá. É uma espécie de favorita de todos os nossos hóspedes.
Hóspedes!, pensou Bond. Essa é a segunda vez que ela usa a palavra. Sorriu polidamente para a jovem, e disse;
— Muito prazer; sim, certamente que gostaríamos de ir para os nossos aposentos.
May envolveu-os num cálido sorriso, e disse em voz baixa e atraente: — Espero que ambos se sintam bem, sr. Bryce. Tomei a liberdade de mandar vir uma refeição assim que soube que os senhores iam chegar. Vamos...? — Corredores saiam para a esquerda e a direita de portas duplas de elevadores, instalados na parede oposta. A jovem adiantou-se, caminhando na frente, para a direita, logo seguida de Bond e Honeyehile, que tinham atrás a irmã Lírio.
Ao longo do corredor, dos dois lados, viam-se portas numeradas. A decoração era feita no mais pálido cor-de-rosa, com um tapete cinza-pombo. Os números nas portas eram superiores a dez. O corredor terminava abruptamente, com duas portas, uma em frente a outra, com a numeração catorze e quinze. A irmã May abriu a porta catorze e o casal a seguiu, entrando na peça.
Era um lindo quarto de casal, em moderno estilo Mia-mi, com paredes verde-escuro, chão encerado de mogno escuro, com um ou outro espesso tapete branco e bem desenhado mobiliário de bambu com um tecido “chintz” de grandes rosas vermelhas sobre fundo branco. Havia uma porta de comunicação para um quarto de vestir masculino e outra que dava para um banheiro moderno e extremamente luxuoso, com uma banheira de descida e um bidê.
Era como se tivessem sido introduzidos num apartamento do mais moderno hotel da Flórida, com exceção de dois detalhes que não passaram despercebidos a Bond. Não havia janelas e nenhuma maçaneta interior nas portas.
May olhou com expressão de expectativa, de um para o outro.
Bond voltou-se para Honeyehile e sorriu-lhe: — Parece muito confortável, não acha, querida?
A jovem brincava com a barra da saia e fez um sinal de assentimento sem olhar para Bond.
Ouviu-se uma tímida batida na porta e outra jovem, tão linda quanto May, entrou carregando uma bandeja que se equilibrava sobre as palmas das mãos. A jovem descansou a bandeja sobre a mesa do centro e puxou duas cadeiras. Retirou a toalha de linho imaculadamente limpa e saiu. Sentiu-se um delicioso cheiro de fiambre e café.
May e a irmã Lírio também se encaminharam para a porta. A mulher mais idosa se deteve por um instante e disse:
— E agora nós os deixaremos em paz. Se desejarem alguma coisa, basta tocar a campainha. Os interruptores estão ao lado da cama. Ah, outra coisa, poderão encontrar roupa limpa nos aparadores. Receio que sejam apenas de estilo chinês,
— acrescentou, como a desculpar-se —, mas espero que os tamanhos satisfaçam. A rouparia só recebeu as medidas ontem à noite. O Dr. deu ordens severas para que os senhores não fossem perturbados. Ficará encantado se puderem reunir-se a ele, esta noite, para o jantar. Deseja, entretanto, que tenham todo o resto do dia à vontade, a fim de que melhor se ambientem, compreendem? — Fez uma pausa e olhou para um e para outro, com um sorriso indagador. — Posso dizer que os senhores...?
— Sim, por favor, — disse Bond. — Pode dizer ao D., que teremos muito prazer em jantar com ele.
— Oh, sei que ficará contente. — Com uma derradeira mesura, as duas chinesas se retiraram e fecharam a porta.
Bond voltou-se para Honeyehile, que parecia embaraçada e ainda evitava os seus olhos. Ocorreu então a Bond que talvez jamais tivesse ela tido um tratamento tão cortês ou visto tanto luxo em sua vida. Para ela, tudo aquilo devia ser muito mais estranho e aterrador do que o que tinham passado ao lado de fora. Ela continuou na mesma posição, brincando com a barra da saia. Podiam-se notar vestígios de suor seco, sal e poeira em seu rosto. Suas pernas nuas estavam sujas e Bond observou que os dedos de seus pés se moviam, suavemente, ao pisarem nervosamente o maravilhoso e espesso tapete.
Bond riu. Riu com gosto ao pensamento de que os temores da jovem tivessem sido abafados pelas preocupações de etiqueta e comportamento, e riu-se também da figura que ambos faziam — ela em farrapos e ele com a suja camisa azul, as calças pretas e os sapatos de lona enlameados.
Aproximou-se dela e segurou-lhe mãos. Estavam frias. Disse: — Honey, somos um par de espantalhos, mas há apenas um problema básico. Devemos tomar o nosso desjejum primeiro, enquanto está quente, ou tiraremos antes esses farrapos e tomaremos um banho, tomando a nossa refeição fria? Não se preocupe com mais nada. Estamos aqui nessa maravilhosa casinha e isto é tudo o que importa. O que faremos, então?
Ela sorriu hesitante. Seus olhos azuis fixavam-se no rosto dele, na ânsia de obter segurança. Depois disse: — Você não está preocupado com o que nos possa acontecer? — Fez um sinal para o quarto e acrescentou: — Não acha que tudo isso pode ser uma armadilha?
— Se se trata de uma armadilha, já caímos nela. Agora nada mais podemos fazer senão comer a isca. A única questão que subsiste é a de saber se a comeremos quente ou fria. — Apertou-lhe as mãos e continuou: — Seriamente, Honey. Deixe as preocupações comigo. Pense apenas onde estávamos apenas há uma hora. Isso aqui não é melhor? Agora, decidamos a única coisa realmente importante. Banho ou desjejum?
Ela respondeu com relutância: — Bem, se você acha... Quero dizer — preferiria antes lavar-me. — Mas logo acrescentou: — Você terá que ajudar-me. — E sacudiu a cabeça em direção ao banheiro, dizendo: Não sei como mexer numa coisa dessas. Como é que se faz?
Bond respondeu com toda seriedade: — É muito fácil. Vou preparar tudo para você. Enquanto você estivar tomando o seu banho tomarei o meu desjejum. Ao mesmo tempo tratarei de fazer com que o seu não esfrie.
Bond aproximou-se de um dos armários embutidos e abriu a porta. No interior havia uma meia dúzia de quimonos, alguns de seda e outros de linho. Apanhou um de linho, ao acaso. Depois, voltando-se para ela, disse: — Tire suas roupas e meta-se nisso aqui, enquanto preparo o seu banho. Mais tarde você escolherá as coisas que preferir, para a cama e para o jantar.
Ela respondeu com gratidão: — Oh, sim, James. Se você apenas me mostrasse... — E logo começou a desabotoar a saia.
Bond pensou em tomá-la nos braços e beijá-la, mas, ao invés disso, disse abruptamente: — ótimo, Honey — e, adiantando-se para o banheiro, abriu as torneiras.
Havia de tudo naquele banheiro: essência para banhos Floris Lime, para homens, e pastilhas de Guarlain para o banho de senhoras. Esfarelou uma pastilha na água e imediatamente o banheiro perfumou-se como uma loja de orquídeas. O sabonete era o Sapoceti de Guarlain “Fleurs des Alpes”. Num pequeno armário de remédios, atrás de um espelho, em cima da pia, podiam-se encontrar tubos de pasta, escovas de dente e palitos “Steradent”, água “Rose” para lavagem bucal, aspirina e leite de magnésia. Havia também um aparelho de barbear elétrico, loção “Lentheric” para barba, e duas escovas de náilon para cabelos e pentes. Tudo era novo e ainda não tinha sido tocado.
Bond olhou para o seu rosto sujo e sem barbear, no espelho, e riu sardonicamente para os próprios olhos, cinzentos, de pária queimado pelo sol. O revestimento da pílula certamente que era do melhor açúcar. Seria inteligente esperar que o remédio, no interior daquela pílula, fosse dos mais amargos.
Tocou a água, com a mão, a fim de sentir a temperatura. Talvez estivesse muito quente para quem jamais tinha tomado antes um banho quente. Deixou então que corresse um pouco mais de água fria. Ao inclinar-se, sentiu que dois braços lhe eram passados em torno do pescoço. Endireitou-se. Aquele corpo dourado resplandecia no banheiro todo revestido de ladrilhos brancos. Ela beijou-o impetuosamente nos lábios. Ele passou-lhe os braços à volta da cintura e esmagou-a de encontro a seu corpo, com o coração aos pulos. Ela disse sem fôlego, ao seu ouvido: — Achei estranhas as roupas chinesas, mas de qualquer maneira você disse à mulher que nós éramos casados.
Uma das mãos de Bond estava pousada sobre o seu seio esquerdo, cujo mamilo estava completamente endurecido pela paixão. O ventre da jovem se comprimia contra o seu. Por que não? Por que não? Não seja tolo! Este é um momento louco para isso. Vocês dois estão diante de um perigo mortal. Você deve continuar frio como gelo, para ter alguma possibilidade de se livrar dessa enrascada. Mais tarde! Mais tarde! Não seja fraco.
Bond retirou a mão do seio dela e espalmou-a à volta de seu pescoço. Esfregou o rosto de encontro ao dela e depois aproximou a boca da boca da jovem e deu-lhe um prolongado beijo.
Afastou-se depois e manteve-a à distância de um braço. Por um momento ambos se olharam, com os olhos brilhando de desejo. Ela respirava ofegantemente, com os lábios entreabertos, de modo que ele podia ver-lhe o brilho dos dentes. Ele disse com a voz trêmula: — Honey, entre no banho antes que eu lhe dê uma surra.
Ela sorriu e sem nada dizer entrou na banheira e deitou-se em todo seu comprimento. Do fundo da banheira ergueu os olhos para ele. Os cabelos louros, em seu corpo, brilhavam como moedas de ouro. Ela disse provocadoramente: — Você tem que me esfregar. Não sei como devo fazer, e você terá que mostrar-me.
Bond respondeu desesperadamente: — Cale a boca, Honey, e deixe de namoros. Apanhe a esponja, o sabonete e comece logo a se esfregar. Que diabo! Isso não é o momento de se fazer amor. Vou tomar o meu desjejum. — Esticou a mão para a porta e segurou na maçaneta. Ela disse docemente: — James! — Ele olhou para trás e viu que ela lhe fazia uma careta, com a língua de fora. Retribuiu com uma careta selvagem e bateu a porta com força.
Em seguida, Bond dirigiu-se para o quarto de vestir e deixou-se ficar durante algum tempo, de pé, no centro da peça, esperando que as batidas de seu coração se acalmassem. Esfregou as mãos no rosto e sacudiu a cabeça, procurando esquecê-la.
Para clarear a mente, percorreu ainda cuidadosamente as duas peças, procurando saídas, possíveis armas, microfones, qualquer coisa enfim que lhe aumentasse o conhecimento da situação em que se achava. Nada disso, entretanto, pôde encontrar. Na parede havia um relógio elétrico que marcava oito e meia e uma série de botões de campainhas, ao lado da cama de casal. Esses botões traziam a indicação de “Sala de serviço”, “cabeleireiro”, “manicure”, “empregada”. Não havia telefone. Bem no alto, a um canto de ambas as peças, viam-se as grades de um pequeno ventilador. Cada uma dessas grades era de dois pés quadrados. Tudo inútil. As portas pareciam ser feitas de algum metal leve, pintadas para combinarem com as paredes. Bond jogou todo o peso de seu corpo contra uma delas, mas ela não cedeu um só milímetro. Bond esfregou o ombro. Aquele lugar era uma verdadeira prisão. Não adiantava discutir a situação. A armadilha tinha-se fechado hermèticamente sobre eles. Agora, a única coisa que restava aos ratos era tirarem o melhor proveito possível da isca de queijo.
Bond sentou-se à mesa do desjejum, sobre a qual estava uma grande jarra com suco de abacaxi, metida num pequeno balde de prata cheio de cubos de gelo. Serviu-se rapidamente e levantou a tampa de uma travessa. Ali estavam ovos mexidos sobre torradas, quatro fatias de toucinho defumado, um rim grelhado e o que parecia quatro salsichas inglesas de carne de porco. Havia também duas torradas quentes, pãezinhos conservados quentes dentro de guardanapos, geléia de laranja e morango e mel. O café estava quase fervendo numa grande garrafa térmica, e o creme exalava um odor fresco e agradável.
Do banheiro vinham as notas da canção “Marion” que a jovem estava cantarolando. Bond resolveu não dar ouvidos à cantoria e concentrou-se nos ovos.
Dez minutos depois, Bond ouviu que a porta do banheiro se abria. Descansou uma torrada que tinha numa das mãos e cobriu os olhos com a outra. Ela riu e disse: — Ele é um covarde. Tem medo de uma simples jovem. — Em seguida Bond ouviu-a a remexer nos armários. Ela continuava falando, em parte consigo mesma: — Não sei porque ele está assustado. Naturalmente que se eu lutasse com ele facilmente o dominaria. Talvez esteja com medo disso. Talvez não seja realmente muito forte, embora seus braços e peito pareçam bastante rijos. Contudo, ainda não vi o resto. Talvez seja fraco. Sim, deve ser isso. Essa é a razão pela qual não ousa despir-se na minha frente. Hum, agora vamos ver, será que ele gostaria de mim com essas roupas? — Ela elevou a voz: — Querido James, você gostaria de me ver de branco, com pássaros azul-pálido esvoaçando sobre o meu corpo?
— Sim, bolas! Agora acabe com essa conversa e venha comer. Estou começando a sentir sono.
Ela soltou uma exclamação: — Oh, se você quer dizer que já está na hora de irmos para a cama, naturalmente que me apressarei.
Ouviu-se uma agitação de passos apressados e Bond logo a via sentar-se diante de si. Ele deixou cair as mãos e ela sorriu-lhe. Estava linda. Seu cabelo estava escovado e penteado de um dos lados caindo sobre o rosto, e do outro com as madeixas puxadas para trás da orelha. Sua pele brilhava de frescura e os grandes olhos azuis resplandeciam de felicidade. Agora Bond estava gostando daquele nariz quebrado. Tinha-se tornado parte de seus pensamentos relativamente a ela, e subitamente lhe ocorreu perguntar-se por que estaria ele triste quando ela era tão imaculadamente bela quanto tantas outras lindas jovens. Sentou-se circunspectamente, com as mãos no colo, e a metade dos seios aparecendo na abertura do quimono.
Bond disse severamente: — Agora, ouça, Honey. Você está maravilhosa, mas esta não é a maneira de usar-se um quimono. Feche-o no corpo, prenda-o bem e deixe de tentar parecer uma prostituta. Isso simplesmente não são bons modos à mesa.
— Oh, você não passa de um boneco idiota. — E ajeitou o quimono, fechando-o um pouco, em uma ou duas polegadas. — Por que você não gosta de brincar? Gostaria de brincar de estar casada.
— Não à hora do desjejum — respondeu Bond com firmeza. — Vamos, coma logo. Está delicioso. De qualquer maneira estou muito sujo, e agora vou fazer a barba e tomar um banho. — Levantou-se, deu volta à mesa e beijou-lhe o alto da cabeça. — E quanto a essa história de brincar, como você diz, gostaria mais de brincar com você do que com qualquer outra pessoa do mundo. Mas não agora. — Sem esperar pela resposta, dirigiu-se ao banheiro e fechou a porta.
Bond barbeou-se e tomou um banho de chuveiro. Sentia-se desesperadamente sonolento. O sono chegava-lhe, de modo que de quando em quando tinha que interromper o que fazia e inclinar a cabeça, repousando-a entre os joelhos. Quando começou a escovar os dentes, o seu estado era tal que mal podia fazê-lo. Estava começando a reconhecer os sintomas. Tinha sido narcotizado. A coisa teria sido posta no suco de abacaxi ou no café? Este era um detalhe sem importância. Aliás, nada tinha importância. Tudo o que queria fazer era estender-se naquele chão de ladrilhos e fechar os olhos. Assim mesmo, dirigiu-se cambaleante para a porta, esquecendo-se de que estava nu. Isso também pouca importância tinha. A jovem já tinha terminado a refeição e agora estava na cama. Continuou trôpego, até ela, segurando-se nos móveis. O quimono tinha sido abandonado no chão e ela dormia pesadamente, completamente nua, sob um simples lençol.
Bond olhou para o travesseiro, ao lado da jovem. Não! Procurou o interruptor e apagou as luzes. Agora teve que se arrastar pelo chão até chegar ao seu quarto. Chegou até junto de sua cama e atirou-se nela. Com grande esforço conseguiu ainda esticar o braço, tocar o interruptor e tentar apagar a lâmpada do criado-mudo. Mas não o conseguiu: sua mão deslizou, atirou o abajur ao chão e a lâmpada espatifou-se. Com um derradeiro esforço, Bond virou-se ainda no leito e adormeceu profundamente.
Os números luminosos do relógio elétrico, no quarto de casal, anunciavam nove e meia.
Às dez horas, a porta do quarto abriu-se suavemente. Um vulto muito alto e magro destacava-se na luz do corredor. Era um homem. Talvez tivesse dois metros de altura. Permaneceu no limiar da porta, com os braços cruzados, ouvindo. Dando-se por satisfeito, caminhou vagarosamente pelo quarto e aproximou-se da cama. Conhecia perfeitamente o caminho. Curvou-se sobre o leito e ouviu a serena respiração da jovem. Depois de um momento, tocou em seu próprio peito e acionou um interruptor. Imediatamente um amplo feixe de luz difusa projetou-se na cama. O farolete estava preso ao corpo do homem por meio de um cinto que o fixava à altura do esterno.
Inclinou-se novamente para a frente, de modo que a luz clareou o rosto da jovem.
O intruso examinou aquele rosto durante alguns minutos. Uma de suas mãos avançou, apanhou a orla do lençol, à altura do queixo da jovem, e puxou-o lentamente até os pés da cama. Mas a mão que puxara aquele lençol não era u’a mão. Era um par de pinças de aço muito bem articuladas na extremidade de uma espécie de talo metálico que desaparecia dentro de uma manga de seda negra. Era u’a mão mecânica.
O homem contemplou durante longo tempo aquele corpo nu, deslocando o seu peito de um lado para outro, de modo que todo o leito fosse submetido ao feixe luminoso. Depois, a garra saiu novamente de sob aquela manga e delicadamente levantou a ponta do lençol, puxando-o dos pés da cama até recobrir todo o corpo da jovem. O homem demorou-se ainda por um momento a contemplar o rosto adormecido, depois apagou o farolete e atravessou silenciosamente o quarto em direção à porta aberta, além da qual estava Bond dormindo.
O homem demorou-se mais tempo ao lado do leito de Bond. Perscrutou cada linha, cada sombra do rosto moreno e quase cruel que jazia quase sem vida, sobre o travesseiro. Observou a circulação à altura do pescoço e contou-lhe as batidas; depois, quando puxou o lençol para baixo, fez o mesmo na área do coração. Estudou a curva dos músculos, nos braços de Bond e nas coxas, e considerou pensativo a força oculta no ventre musculoso de Bond. Chegou até mesmo a curvar-se sobre a mão direita de Bond, estudando-lhe cuidadosamente as linhas da vida e do destino.
Por fim, com grande cuidado, a pinça de aço puxou novamente o lençol, desta vez para cobrir o corpo de Bond até o pescoço. Por mais um minuto o elevado vulto permaneceu ao lado do homem adormecido, depois se retirou rapidamente, ganhando o corredor, enquanto a porta se fechava com um estalido metálico e seco.