CAPÍTULO VINTE

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Fito, pasma, a Dra. Greene, o mundo ruindo ao meu redor. Um filho. Um filho. Eu não quero um filho… ainda não. Merda. E, bem no fundo, sei que Christian vai pirar.

— A senhora está muito pálida. Quer um copo d’água?

— Sim, por favor.

Mal se ouve minha voz. Minha cabeça está a mil. Grávida? Quando?

— Vejo que a senhora ficou surpresa.

Aquiesço sem pronunciar uma palavra enquanto a médica, atenciosa, me entrega o copo d’água que ela pegou de um bebedouro convenientemente próximo. Tomo um gole aliviador.

— Em choque — balbucio.

— Podemos fazer uma ultrassonografia para ver em que estágio está a sua gravidez. A julgar pela sua reação, suspeito de que seja recente: quatro ou cinco semanas de gravidez. Imagino também que não tenha percebido nenhum sintoma.

Balanço a cabeça em silêncio. Sintomas? Acho que não.

— Eu pensei… pensei que esse método anticoncepcional fosse confiável.

A Dra. Green ergue uma sobrancelha.

— Geralmente é, quando a pessoa se lembra de tomar a injeção — diz ela friamente.

— Devo ter perdido a noção do tempo.

Christian vai pirar. Tenho certeza disso.

— Teve algum sangramento?

— Não — respondo, franzindo a testa.

— Isso é normal com o Depo-Provera. Vamos fazer uma ultrassonografia, está bem? Eu tenho um tempo agora.

Concordo, desorientada, e a Dra. Greene me conduz até uma mesa de exames forrada de couro preto que fica atrás de um biombo.

— Peço que tire a saia e a roupa íntima e se cubra com o lençol que está sobre a mesa, para podermos começar — diz ela, em tom enérgico e eficiente.

Roupa íntima? Eu esperava uma ultrassonografia sobre a barriga. Por que eu preciso tirar a calcinha? Dou de ombros, consternada, e depois faço rapidamente o que ela mandou, deitando-me sob o macio lençol branco.

— Muito bem.

A Dra. Greene aparece na extremidade da mesa e puxa a máquina de ultrassom para mais perto. É uma pilha de computadores de última geração. Ela se senta, posicionando, a tela de modo que fique visível para nós duas, e move o trackball no teclado. A tela se acende.

— Por favor, levante os joelhos, depois flexione e afaste-os. — Ela é objetiva.

Franzo a testa, receosa.

— É uma ultrassonografia transvaginal. Se você estiver grávida há pouco tempo, vamos conseguir encontrar o bebê com isto aqui. — Ela ergue uma sonda comprida e branca.

Ah, a senhora deve estar brincando!

Tudo bem — balbucio, aflita, e faço o que ela manda.

A médica cobre a sonda com uma camisinha e a lubrifica com gel transparente.

— Sra. Grey, por favor, relaxe.

Relaxar? Eu estou grávida, droga! Como você espera que eu relaxe? Fico vermelha e me esforço para me concentrar no meu local ideal de descanso e felicidade… que foi realocado para algum lugar perto do continente perdido de Atlântida.

Lenta e cuidadosamente, ela insere a sonda.

Puta merda!

Tudo o que enxergo na tela é o equivalente visual a um ruído branco — embora seja mais cor de sépia. A Dra. Green move a sonda dentro de mim, devagar, o que é muito perturbador.

— Olhe ali — murmura ela, pressionando um botão para congelar a imagem na tela e apontando para um pequenino ponto na tempestade sépia.

É só um pontinho. Há um ponto minúsculo dentro da minha barriga. Uau. Esqueço o desconforto e o encaro, pasma.

— Ainda é muito cedo para ver o coração, mas isso comprova que a senhora está realmente grávida. Quatro ou cinco semanas, eu diria. — Ela franze o cenho. — Parece que o anticoncepcional perdeu o efeito cedo. Bem, isso às vezes acontece.

Estou aturdida demais para dizer qualquer coisa. O diminuto ponto é um bebê. Um bebê de verdade. O bebê de Christian. O meu bebê. Minha nossa. Um bebê!

— Quer que eu imprima a imagem?

Aceito, ainda incapaz de falar, e a Dra. Greene aperta um botão. Depois ela remove a sonda delicadamente e me entrega papel toalha para eu me limpar.

— Parabéns, Sra. Grey — diz ela quando eu me sento. — Precisamos marcar outra consulta. Sugiro que seja daqui a quatro semanas. Aí já vamos poder determinar a idade exata do seu bebê e estabelecer uma data de nascimento provável. Pode se vestir agora.

— Está certo.

Meio cambaleante, visto-me apressada. Eu tenho um ponto pequenino, um pontinho. Quando saio de trás do biombo, a Dra. Greene já está de volta à sua mesa.

— Enquanto isso, gostaria que a senhora começasse a tomar ácido fólico e vitaminas pré-natais. Aqui está uma lista do que fazer e do que não fazer.

Ela me entrega algumas cartelas de comprimidos e um folheto e continua a falar, mas não estou mais ouvindo. Estou em choque. Perplexa. É claro que eu deveria ficar feliz. Mas eu poderia esperar até os trinta… pelo menos. Ainda é cedo — muito cedo. Tento reprimir uma crescente sensação de pânico.

Educadamente, despeço-me da Dra. Greene e me dirijo outra vez à saída, para a fresca tarde de outono. De repente, sou tomada por um frio arrepiante e um profundo mau pressentimento. Christian vai pirar, sei disso, mas não faço ideia de até que ponto nem por quanto tempo. As palavras dele me assombram. “Ainda não estou pronto para dividir você.” Aperto o casaco em volta do meu corpo, tentando afastar o frio.

Sawyer salta do SUV e abre a porta para mim. Ele franze o cenho quando repara em meu rosto, mas ignoro sua expressão preocupada.

— Para onde, Sra. Grey? — pergunta ele delicadamente.

— SIP.

Eu me acomodo no banco traseiro, fecho os olhos e recosto a cabeça no apoio do assento. Eu deveria estar feliz. Sei que deveria estar feliz. Mas não estou. Ainda é muito cedo. Cedo demais. E o meu trabalho? E a SIP? E minha vida com Christian? Não. Não. Não. Nós vamos ficar bem. Ele vai ficar bem. Ele adorava Mia quando ela era bebê — eu me lembro de Carrick contando isso —, e continua mimando a irmã. Talvez eu deva avisar ao Dr. Flynn… Talvez eu não deva contar a Christian. Talvez eu… talvez eu pudesse acabar com isso. Interrompo meus pensamentos quando eles se encaminham para essa estrada sombria, assustada com o rumo que vão tomando. Instintivamente, minha mão desce até a minha barriga, onde descansa de forma protetora. Não. Meu Pontinho. Lágrimas brotam nos meus olhos. O que eu vou fazer?

A visão de um menininho de cabelo acobreado e brilhante e olhos cinzentos na campina perto da nossa casa nova invade meus pensamentos, provocando-me e me atormentando com inúmeras possibilidades. Ele dá risadas e gritinhos de felicidade enquanto Christian e eu corremos atrás dele. Christian o balança nos braços, bem alto, e o carrega no colo ao retornarmos para dentro de casa, de mãos dadas.

Minha visão se transforma em Christian me rejeitando, com repulsa. Estou gorda e esquisita, com uma barriga avantajada. Ele caminha pelo longo corredor de espelhos, para longe de mim, os sons de seus passos ecoando no chão, nas paredes e nos espelhos prateados. Christian…

Dou uma sacudida para despertar. Não. Ele vai ficar fora de si.

Quando Sawyer para o automóvel em frente à SIP, saio rápido e me dirijo ao prédio.

— Ana, que bom ver você. Como está o seu pai? — pergunta Hannah logo que entro.

Eu a fito friamente.

— Melhor, obrigada. Você pode vir à minha sala?

— Claro. — Ela me acompanha, e parece surpresa. — Está tudo bem?

— Preciso saber se você adiou ou desmarcou alguma consulta minha com a Dra. Greene.

— Dra. Greene? Desmarquei sim. Duas ou três. Basicamente porque você estava em outras reuniões ou com o tempo corrido. Por quê?

Porque agora eu estou grávida, porra!, berro com ela na minha imaginação. Respiro fundo para tentar me tranquilizar.

— Se você mudar qualquer um dos meus compromissos, não deixe de me avisar. Nem sempre eu verifico minha agenda.

— Claro — diz Hannah, em voz baixa. — Desculpe. Eu fiz alguma coisa errada?

Balanço a cabeça em negativa e suspiro alto.

— Pode me preparar um chá? Aí então a gente conversa sobre o que aconteceu enquanto eu estive fora.

— Certo. É pra já.

E, novamente animada, ela sai da sala.

Eu a acompanho com o olhar quando ela deixa o recinto.

— Está vendo aquela mulher? — falo bem baixo para o Pontinho. — Talvez ela seja responsável pela sua existência.

Afago o meu ventre, mas depois me sinto uma idiota completa, porque estou falando com um ponto. Meu pequenino Pontinho. Balanço a cabeça, irritada comigo e com Hannah… embora, bem lá no fundo, eu saiba que não posso realmente culpá-la. Desolada, ligo o computador. Há um e-mail de Christian.


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De: Christian Grey

Assunto: Saudades

Data: 13 de setembro de 2011 13:58

Para: Anastasia Grey


Sra. Grey,

Faz apenas três horas que voltei ao escritório e já estou com saudades.

Espero que Ray tenha se instalado bem em seu novo quarto. Minha mãe vai visitá-lo hoje à tarde para ver como ele está.

Busco você lá pelas seis, e podemos passar lá para vê-lo antes de voltarmos para casa.

Que tal?

Seu apaixonado marido,

Christian Grey


CEO, Grey Enterprises Holdings, Inc.

Digito uma resposta rápida.


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De: Anastasia Grey

Assunto: Saudades

Data: 13 de setembro de 2011 14:10

Para: Christian Grey


Claro.

Bj,

Anastasia Grey


Editora, SIP


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De: Christian Grey

Assunto: Saudades

Data: 13 de setembro de 2011 14:14

Para: Anastasia Grey


Você está bem?

Christian Grey


CEO, Grey Enterprises Holdings, Inc.

Não, Christian, não estou. Estou pirando só de pensar que você vai pirar. Não sei o que fazer. Mas não vou contar para você por e-mail.


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De: Anastasia Grey

Assunto: Saudades

Data: 13 de setembro de 2011 14:17

Para: Christian Grey


Sim. Só muito ocupada.

Vejo você às seis.

Bj,

Anastasia Grey


Editora, SIP

Quando é que eu vou contar a ele? Esta noite? Talvez depois do sexo? Talvez durante o sexo. Não, pode ser perigoso para nós dois. Quando ele estiver dormindo? Descanso a cabeça nas mãos. Droga, o que eu vou fazer?

— Oi — diz Christian cautelosamente quando entro no SUV.

— Oi — murmuro.

— O que houve?

Ele franze o cenho. Balanço a cabeça no mesmo momento em que Taylor parte com o carro rumo ao hospital.

— Nada.

Talvez agora? Eu podia contar a ele logo agora, pois estamos em um local fechado e Taylor está conosco.

— Tudo bem no trabalho? — insiste ele.

— Tudo bem. Ótimo. Obrigada.

— Ana, o que aconteceu? — Seu tom fica um pouco mais insistente, e eu perco a coragem.

— Só estava com saudades de você, só isso. E preocupada com Ray.

Christian relaxa visivelmente.

— Ray está bem. Falei com minha mãe hoje à tarde e ela está impressionada com o progresso dele. — Christian pega minha mão. — Nossa, sua mão está fria. Você comeu hoje?

Fico vermelha.

— Ana — repreende-me Christian, aborrecido.

Bom, eu não comi porque sei que você vai arrancar os cabelos quando souber que estou grávida.

— Vou comer de noite. Não tive tempo.

Ele balança a cabeça, frustrado.

— Quer que eu acrescente “alimentem minha mulher” à lista de tarefas dos seguranças?

— Desculpe. Vou comer alguma coisa. É só que o dia hoje foi meio estranho. Você sabe, a transferência do papai e tudo o mais.

Seus lábios se contraem com força, mas Christian não diz nada. Olho para fora. Conte a ele!, meu inconsciente sibila no meu ouvido. Não. Sou uma covarde.

Christian interrompe minha divagação:

— Talvez eu tenha que ir a Taiwan.

— Ah, é? Quando?

— No final da semana. Ou talvez semana que vem.

— Está bem.

— Queria que você fosse comigo.

Engulo em seco.

— Christian, por favor. Eu tenho o meu trabalho. Não vamos voltar a discutir isso.

Ele suspira e faz beicinho como um adolescente contrariado.

— Achei melhor perguntar — murmura ele, petulante.

— Vai ficar quanto tempo?

— Uns dois dias, no máximo. Eu queria que você me dissesse o que está acontecendo.

Como é que ele sabe?

Bom, agora que meu amado marido está indo viajar…

Christian beija meus dedos.

— Não vou ficar longe muito tempo.

— Ótimo.

E abro um sorriso murcho.

* * *

RAY ESTÁ MUITO mais animado e bem menos carrancudo. Fico tocada por sua discreta gratidão a Christian, e por um momento, quando me sento para ouvir os dois conversarem sobre pescaria e sobre os Mariners, esqueço a desagradável notícia que recebi hoje. Mas ele se cansa fácil.

— Papai, vamos deixá-lo dormir.

— Obrigado, Ana querida. Gostei de ver você. Hoje também vi sua mãe, Christian. Ela me tranquilizou bastante. E ainda por cima torce pelos Mariners.

— Mas ela não é muito fã de pesca — diz Christian, com uma careta, ao se levantar.

— Não conheço muitas mulheres que sejam, não é? — Ray abre um sorriso.

— Vejo você amanhã, ok?

Dou-lhe um beijo. Meu inconsciente faz cara de reprovação. Se Christian não resolver trancar você… ou se não fizer coisa pior. Meu ânimo vai lá no chão.

— Venha.

Christian estende a mão para mim, franzindo o cenho. Eu aceito sua mão e deixamos juntos o hospital.

* * *

MAL TOCO NO JANTAR. A Sra. Jones preparou frango à caçadora, mas simplesmente não estou com fome. A ansiedade dá um nó apertado no meu estômago.

— Droga! Ana, quer fazer o favor de me dizer o que está havendo? — Christian afasta seu prato vazio, irritado. Eu olho para ele. — Por favor. Você está me deixando louco.

Engulo em seco e tento controlar o pânico que cresce na minha garganta. Respiro fundo para me recompor. É agora ou nunca.

— Estou grávida.

Ele fica imóvel, e pouco a pouco toda a cor foge de seu rosto.

— O quê? — murmura ele, pálido.

— Estou grávida.

Surgem vincos de incompreensão entre suas sobrancelhas.

— Como?

Como assim como? Que espécie de pergunta ridícula é essa? Eu fico vermelha e lanço-lhe um olhar irônico, como quem diz “Como é que você acha?”.

Imediatamente sua postura se transforma, seus olhos se endurecendo como pedra.

— E a injeção? — rosna ele.

Ah, merda.

— Você esqueceu de tomar a injeção?

Eu apenas o encaro, incapaz de falar. Cacete, ele está com raiva — muita raiva.

— Meu Deus, Ana! — Ele dá um soco na mesa, fazendo-me pular, e se levanta tão bruscamente que quase derruba a cadeira. — Você só precisava se lembrar de uma coisa, uma única coisa. Merda! Eu não acredito. Como é que você pôde ser tão idiota?

Idiota! Engulo em seco. Merda. Quero dizer a ele que o método falhou, mas as palavras me faltam. Olho para os meus dedos.

— Sinto muito — sussurro.

— Sente muito? Porra! — repete.

— Eu sei que não é a melhor hora.

— Não é a melhor hora! — grita ele. — A gente se conhece faz só cinco minutos, porra. Eu queria levar você para conhecer o mundo, mas agora… Puta que pariu. Fralda, vômito e merda!

Ele fecha os olhos. Acho que está tentando se controlar, mas perdendo a batalha.

— Você esqueceu? Diga. Ou fez de propósito?

Seus olhos ardem, e a raiva emana dele como um campo de força.

— Não — sussurro.

Não posso contar sobre Hannah — ele a demitiria.

— Eu achei que tivéssemos concordado sobre isso! — grita ele.

— Eu sei. E tínhamos. Desculpe.

Ele me ignora.

— É por isso. É por isso que eu gosto de controle. Assim não acontece esse tipo de merda, pra foder com tudo.

Não… Pontinho.

— Christian, por favor, não grite comigo.

As lágrimas começam a rolar pelo meu rosto.

— Não venha com a sua choradeira agora — reclama ele. — Puta que pariu. — Ele passa a mão no cabelo, puxando-o como se quisesse arrancá-lo. — Você acha que eu estou preparado para ser pai? — Sua voz está embargada, um misto de raiva e pânico.

E então tudo fica claro, o medo e o lampejo de ódio em seus olhos: sua raiva é como a de um adolescente impotente. Ah, meu Cinquenta Tons, eu sinto muito mesmo. Também estou em choque.

— Eu sei que nenhum de nós dois está pronto para isso, mas acho que você vai ser um ótimo pai — falo, contendo as lágrimas. — Vamos dar um jeito.

— Como é que você sabe, porra?! — berra ele, dessa vez mais alto. — Como?

Seus olhos queimam, e muitas emoções cruzam seu rosto, sendo o medo a mais evidente.

— Ah, foda-se! — vocifera ele, numa atitude de rejeição, e joga as mãos para o alto como se admitindo derrota.

Ele vira-se e, a passos largos, dirige-se ao hall, pegando o casaco ao sair da sala. Seus passos ecoam no assoalho de madeira e ele desaparece por trás das portas duplas que dão para o hall, batendo a porta atrás de si e me fazendo novamente dar um pulo.

Fico sozinha com o silêncio — o silêncio total e vazio da sala. Estremeço involuntariamente quando olho entorpecida para as portas fechadas. Ele se afastou de mim. Merda! Sua reação foi muito pior do que eu jamais teria imaginado. Empurro meu prato para a frente e dobro os braços sobre a mesa, e então afundo a cabeça e choro.

* * *

— ANA, QUERIDA. — A Sra. Jones aparece ao meu lado.

Eu me empertigo rápido, esfregando as lágrimas do rosto.

— Eu ouvi tudo. Sinto muito — diz ela gentilmente. — A senhora gostaria de um chá de ervas ou algo assim?

— Quero uma taça de vinho branco.

A Sra. Jones faz uma pausa por uma fração de segundo, e eu me lembro do Pontinho. Agora não posso mais ingerir álcool. Ou será que posso? Tenho que ler a lista de proibições e deveres que a Dra. Greene me deu.

— Vou trazer.

— Na verdade, vou tomar uma xícara de chá, por favor.

Limpo meu nariz. Ela sorri com candura.

— Já está saindo.

Ela tira os pratos e se dirige à cozinha. Vou junto, e me acomodo em um dos bancos, de onde fico vendo-a preparar meu chá.

Ela coloca uma caneca fumegante na minha frente.

— O que mais posso preparar para a senhora?

— Nada, obrigada; assim está bom.

— Tem certeza? Você não comeu muito.

Eu a fito.

— Não estou com fome, só isso.

— Ana, você precisa comer. Agora não está mais sozinha. Por favor, deixe que eu prepare alguma coisa. Do que você gostaria?

Ela me olha ansiosa. Mas é sério: não consigo encarar comida alguma.

Meu marido acabou de me deixar sozinha porque eu engravidei, meu pai sofreu um grave acidente de carro, e ainda tenho que enfrentar o doido do Jack Hyde inventando que eu o assediei sexualmente. De repente tenho uma vontade incontrolável de rir. Veja o que você fez comigo, Pontinho! Acaricio minha barriga.

A Sra. Jones sorri para mim, indulgente.

— Sabe de quanto tempo está? — pergunta ela, com suavidade.

— Bem pouco. Quatro ou cinco semanas, a médica não tem certeza.

— Se não vai comer, deve pelo menos descansar.

Concordo, e, levando meu chá, vou para a biblioteca. É o meu refúgio. Procuro meu BlackBerry na bolsa e penso em ligar para Christian. Sei que é um choque para ele — mas realmente foi uma reação extremada. E quando é que ele age de forma diferente? Meu inconsciente ergue para mim uma sobrancelha bem delineada. Solto um suspiro. Cinquenta tons de uma cabeça toda fodida.

— É, é o seu pai, Pontinho. Vamos torcer para que ele esfrie a cabeça e volte para casa… logo.

Pego o folheto que explica o que se deve ou não fazer e me sento para ler.

Não consigo me concentrar. Christian nunca me largou sozinha assim. Ele estava tão atencioso e carinhoso nos últimos dias, tão amável, e agora… E se ele nunca mais voltar? Merda! Talvez eu deva telefonar para Flynn. Não sei o que fazer. Estou desorientada. Christian é tão frágil em tantos aspectos, e eu sabia que ele reagiria mal quando soubesse. Ele estava tão doce durante o fim de semana… As circunstâncias estavam fora do seu controle, e mesmo assim ele se saiu bem. Mas essa novidade agora foi demais.

Desde que conheci Christian que minha vida tem sido complicada. Será que é por causa dele? Será que é por estarmos juntos? E se ele não quiser passar por isso? E se quiser o divórcio? A bile sobe à minha boca. Não. Não posso pensar assim. Ele vai voltar. Vai, sim. Eu sei que vai. Apesar dos gritos e das palavras duras, sei que ele me ama… E vai amar você também, Pontinho.

Recostando-me na cadeira, começo a cochilar.

* * *

ACORDO DESORIENTADA E com frio. Tremendo, vejo as horas: onze da noite. Ah, sim… Você. Acaricio minha barriga. Cadê Christian? Será que já voltou? Levanto-me da cadeira ainda meio dura e vou procurar meu marido.

Cinco minutos depois, percebo que ele não está em casa. Espero que não tenha acontecido nada com ele. As recordações da longa espera quando o Charlie Tango desapareceu surgem na minha mente.

Não, não, não. Pare de pensar assim. Ele deve ter ido encontrar… Quem? A quem ele iria recorrer? Elliot? Ou talvez tenha ido se consultar com Flynn. Espero que sim. Volto à biblioteca para pegar meu BlackBerry e digito uma mensagem.

*Onde você está?*

Vou até o banheiro e preparo um banho de banheira. Estou com tanto frio…

* * *

CHRISTIAN AINDA NÃO voltou quando saio do banho. Escolho uma camisola de cetim estilo anos 1930, coloco o robe por cima e vou até a sala. No caminho, dou uma parada diante do quarto vago. Talvez pudesse ser o quarto do Pontinho. Chocada diante dessa ideia, continuo ali parada na porta, contemplando essa realidade. Será que vamos pintar de azul ou cor-de-rosa? Meu doce devaneio azeda quando lembro que meu indócil marido ficou furioso com a minha gravidez. Apanhando o edredom da cama vazia, vou para a sala iniciar minha vigília.

* * *

ALGO ME DESPERTA. Um barulho.

— Merda!

É Christian no hall. Ouço novamente o barulho da mesa arrastando no chão.

— Merda! — repete ele, dessa vez um som mais abafado.

Ergo o corpo, meio desajeitada, a tempo de vê-lo passar cambaleando pelas portas duplas. Ele está bêbado. Sinto uma comichão no couro cabeludo. Merda, Christian bêbado? Ele odeia bêbados. Levanto-me em um salto e corro até ele.

— Christian, você está bem?

Ele se inclina contra o batente das portas.

— Sra. Grey — diz, com a voz pastosa.

Droga. Ele está muito bêbado. Não sei o que fazer.

— Ah… Você está extremamente elegante, Anastasia.

— Onde você estava?

— Shh! — Ele leva o dedo aos lábios e abre um sorriso torto.

— Acho que é melhor você ir para a cama.

— Com você… — Ele solta um riso baixo, de escárnio.

Rindo desse jeito! Franzindo a testa, coloco o braço delicadamente em volta da sua cintura, pois ele mal se aguenta em pé — quanto mais andar sozinho. Onde será que ele estava? Como conseguiu voltar para casa?

— Vou ajudar você a chegar até a cama. Apoie-se em mim.

— Você está muito bonita, Ana.

Ele se deixa cair sobre mim e cheira meu cabelo, quase derrubando a nós dois.

— Christian, ande. Vou colocar você na cama.

— Tudo bem — diz, como se tentasse se concentrar.

Cambaleamos pelo corredor até finalmente chegarmos ao quarto.

— Cama — diz ele, com um sorriso.

— Isso mesmo, cama.

Eu o conduzo até a beirada, mas ele não me solta.

— Vem cá, vem — diz.

— Christian, acho que você precisa dormir.

— Ih, já começou. Bem que me falaram.

Franzo o cenho.

— Falaram o quê?

— Que com bebês não existe mais sexo.

— Isso não é verdade. Se fosse assim, todo mundo seria filho único.

Ele me fita.

— Você está engraçada.

— E você está bêbado.

— Aham.

Ele sorri, mas seu sorriso se transforma quando ele começa a pensar no significado disso, e uma expressão atormentada passa pelo seu rosto, uma expressão que me dá calafrios.

— Venha, Christian — digo com ternura. Detesto a expressão dele. Parece trazer consigo lembranças terríveis, que nenhuma criança deveria ter. — Venha para a cama.

Empurro-o com delicadeza, e ele se joga no colchão, todo esparramado e rindo para mim, já sem o semblante atormentado.

— Vem cá — chama ele, enrolando a língua.

— Primeiro, vamos tirar essa sua roupa.

Ele dá um sorriso selvagem e embriagado.

— Agora sim você está falando a minha língua.

Puta merda. O Christian bêbado é fofo e engraçado. Qualquer hora dessas vou substituir o Christian soltando fogo pelas ventas por esse.

— Sente-se. Para eu poder tirar o seu casaco.

— O quarto está rodando.

Droga… será que ele vai vomitar?

— Christian, sente-se!

Ele me lança um sorriso esquisito.

— Mas como você é mandona, Sra. Grey…

— Sou mesmo. Faça o que eu estou mandando: levante o corpo e fique sentado na cama.

Ponho as mãos na cintura. Ele ri novamente, ergue o corpo apoiando-se nos cotovelos e então se senta, de uma maneira desajeitada e totalmente não Christian. Antes que ele caia novamente, agarro sua gravata e tiro o casaco cinza, um braço de cada vez.

— Você está cheirosa.

— E você está cheirando a álcool.

— É… bour-bon.

Ele pronuncia as sílabas com tanto exagero que preciso conter o riso. Jogo seu casaco no chão e começo a tirar a gravata, enquanto ele repousa as mãos no meu quadril.

— Gostoso esse tecido em você, Anasta-shia… — diz ele, pronunciando mal as palavras. — Você devia usar cetim ou seda o tempo todo.

Ele desliza as mãos pelos meus quadris, subindo e descendo, e depois me puxa na sua direção, pressionando a boca contra a minha barriga.

— E tem um intruso aqui.

Paro de respirar. Puta merda. Ele está falando com o Pontinho.

— Você vai me deixar a noite toda acordado, não vai? — pergunta ele à minha barriga.

Ai, meu Deus. Christian ergue o olhar para mim, seus olhos cinzentos embaçados e sombrios. Meu coração se aperta.

— Você vai gostar mais dele do que de mim — diz ele, triste.

— Christian, você não tem ideia do que está falando. Não seja ridículo; não vou preferir ninguém. E ele pode ser ela.

Ele franze a testa.

— Ela… Ah, meu Deus.

Ele cai novamente na cama e cobre os olhos com o braço. Consegui desatar a gravata. Desamarro os cadarços e tiro seus sapatos e meias. Quando me levanto, percebo por que não encontrei nenhuma resistência — Christian simplesmente desmaiou. Está dormindo profundamente e ressona baixinho.

Fico contemplando-o. Ele é lindo de morrer, mesmo bêbado e roncando. Os lábios bem delineados entreabertos, um braço acima da cabeça, bagunçando o cabelo já todo despenteado, o rosto com ar relaxado. Ele parece jovem — quer dizer, ele é jovem; meu jovem marido, estressado, embriagado e infeliz. Esse pensamento pesa no meu coração.

Bom, pelo menos ele está em casa. Fico me perguntando aonde ele foi. Não sei se tenho energia ou força suficientes para empurrá-lo ou despi-lo mais. Além disso, ele caiu por cima do edredom. Voltando à sala, pego o edredom que eu estava usando e o levo para o nosso quarto.

Ele continua dormindo profundamente, ainda de gravata e cinto. Subo na cama ao seu lado, tiro a gravata e, com cuidado, abro o primeiro botão da sua camisa. Ele balbucia alguma coisa incoerente, mas não acorda. Abro o cinto com jeitinho, vou puxando-o pelos passadores e, com alguma dificuldade, consigo tirá-lo. A camisa está para fora da calça, revelando um trecho do caminho da felicidade. Não resisto: me abaixo e beijo sua barriga. Ele se mexe, jogando o quadril para a frente, mas continua dormindo.

Volto a erguer o corpo e o contemplo novamente. Ah, Christian, meu Cinquenta Tons… o que é que eu vou fazer com você? Passo os dedos pelo cabelo dele — tão macio — e o beijo na têmpora.

— Eu amo você, Christian. Mesmo quando está bêbado e desaparece de casa, indo sabe Deus aonde, eu amo você. Vou amá-lo para sempre.

— Hmm — murmura ele.

Beijo-o na têmpora mais uma vez, depois saio da cama e o cubro com o outro edredom. Posso dormir ao seu lado, atravessada na cama… É, vou fazer isso.

Porém, primeiro vou dobrar as roupas dele. Balanço a cabeça, resignada, e então apanho as meias e a gravata e dobro o casaco no braço. Nisso, seu BlackBerry cai no chão. Ao pegá-lo, acabo sem querer desbloqueando-o. Ele mostra a caixa de entrada de mensagens. Vejo a que eu enviei. Mas há uma mais recente.

Puta merda. Sinto uma comichão na cabeça.

*Foi bom ver você. Agora eu entendo.


Não fique assim. Você vai ser um pai maravilhoso.*

A mensagem é dela. Elena Monstra Filha da Mãe Robinson.

Merda. Então foi isso. Ele foi ver aquela mulher.

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