Peregrinação Fernando Mendes Pinto
Sempre em misérias e e m pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigos da vida, me quis também levar às partes da Índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas, me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos. Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la) para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, M.
acáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos confins da Ásia, a que os escritores chins, siameses, guéus, léquios, chamam em suas geografias a pestana do mundo, como ao adiante espero tratar muito particular e muito amplamente. Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida.
Como António de Faria
pelejou com o cor6ário Coja Acém e do que com ele lhe 6ucedeu Velejando nós pelo rio acima com vento e maré que Nosso Senhor então nos deu, em menos de uma hora chegámos onde os inimigos estavam, que até este tempo nos não tinham ainda sentido; mas como eles eram ladrões e se temiam da gente da terra, pelos males e roubos que ali cada dia lhe faziam, estavam tão aparelhados e tinham tão boa vigia que em nos vendo tocaram um sino muito apressadamente, ao som do qual foi tamanho o rumor e revolta de gente, tanto da que estava em terra como da que estava embarcada, que não havia quem se ouvisse com eles, o que vendo António de Faria, bradou logo, dizendo:
- Eia, senhores e irmãos meus, a eles, com o nome de Cristo, antes que as suas lorchas lhes acudam! Santiago!
E disparando toda a nossa artilharia, prouve a Nosso Senhor que se empregou tão bem que dos mais esforçados que já neste tempo estavam em cima do chapitéu, veio logo abaixo a maior parte, feitos em pedaços, o que foi um bom prognóstico do nosso desejo.
Após isto, os nossos atiradores, que seriam cento e sessenta, pondo fogo a toda a arcabuzaria, conforme o sinal que lhes fora feito, os conveses de ambos os juncos ficaram tão vazios da multidão que antes neles se via, que já nenhum dos inimigos ousava aparecer. Os nossos dois juncos, abalroando então os dois dos inimigos assim como estavam, a briga se travou entre todos, de maneira que realmente confesso que não me atrevo a particularizar o que nela se passou, ainda que me achasse presente, porque ainda neste tempo a manhã não era bem clara, e a
revolta dos inimigos e nossa era tamanha, juntamente com o estrondo dos tambores, bacias e sinos, e com as gritas e brados de uns e dos outros, acompanhados de muitos pelouros de artilharia e de arcabuzaria, e na terra o retumbar dos ecos pelas concavidades dos vales e outeiros, que as carnes tremiam de medo; e durando assim esta briga por espaço de um quarto de hora, as suas lorchas e lanteas lhes acudiram de terra com muita gente de refor
ço, vendo o que, um tal Diogo Meireles, que vinha no junco de Ouiay Panjão, e que o seu condestável, dos tiros que fazia nenhum acertava, por andar tão pasmado e fora de si que nenhuma coisa acertava, estando ele então para dar fogo a um camelo, meio turvado, o empurrou tão de rijo que deu com ele da escotilha abaixo, dizendo:
- Guar-te daí, vilão, que não prestas para nada, porque este tiro neste tempo é para os homens como eu, e não para os tais como tu!
E apontando o camelo por suas miras e regra de esquadria, de que sabia razoavelmente, deu fogo à peça que estava carregada com pelouro e roca de pedras, e tomando a primeira lorcha que vinha na dianteira, por capitânia das quatro, a descoseu toda de popa à proa pelo a1catrate da banda de estibordo, com o que tudo ficou raso com a água, de maneira que logo ali a pique se foi ao fundo, sem dela se salvar pessoa nenhuma, e varejando a muni
ção da roca por cima, deu no convés de outra lorcha que vinha um pouco mais atrás, e lhe matou o capitão e seis ou sete que estavam junto dele, do que as outras duas ficaram tão assombradas que querendo tornar a voltar para terra, se embaraçaram ambas nos guardins das velas de maneira que nenhuma delas se pôde mais desembaraçar, e assim presas uma na outra estiveram ambas estacadas sem poderem ir para trás nem para diante.
Vendo então os capitães das nossas duas lorchas (os quais se chamavam Gaspar de Oliveira e Vicente Morosa) o tempo disposto para efectuarem o desejo que traziam, e a inveja honrosa de que ambos se picavam, arremeteram juntamente a elas, e lançando-lhes muita soma de panelas de pólvora, se ateou o fogo em ambas, de maneira que assim juntas como estavam arderam até ao lume da água, com o que a maior parte da gente se lançou ao mar, e os nossos acabaram ali de matar a todos às zargunchadas, sem um só ficar vivo; e somente nestas três lorchas morreram passante de duzentas pessoas; e a outra que levava o capitão morto, tão-pouco pôde escapar, porque Quiay Panjão foi atrãs dela na sua champana, que era o batel do seu junco, e a foi tomar já pegada com terra, mas sem gente nenhuma, porque toda se lhe lançou ao mar, de que a maior parte se perdeu também nuns penedos que estavam junto da praia, com a qual vista os inimigos que ainda estavam nos juncos, que podiam ser até cento e cinquenta, e todos mouros lusóes, e bornéus, com alguma mistura de jaus, começaram a enfraquecer, de maneira que muitos começavam já a se lançar ao mar.
o perro do Coja Acém que até este tempo não era ainda conhecido, acudiu com muita pressa ao desmancho que via nos seus, armado com uma coura de lâminas de cetim carmesim franjada de ouro, que fora de portugueses, e bradando alto para que todos o ouvissem, disse por três vezes:
- Lah hilah hilah lah muhamd roçol halah, ó massoleimóes e homens justos da santa lei de Mafamede, como vos
deixais vencer assim por uma gente tão fraca como são estes cães, sem mais ânimo que de galinhas brancas e de mulheres barbadas? A eles, a eles, que certa temos a promessa do livro das flores, em que o profeta Noby abastou de deleites os daroeses da casa de Meca. Assim fará hoje a vós e a mim, se nos banharmos no sangue destes cafres sem lei!
Com as quais malditas palavras o Diabo os esforçou de maneira que fazendo-se todos num corpo, amoucos, tornaram a voltar tão esforçadamente que era espanto ver como se metiam nas nossas espadas.
António de Faria então bradando também aos seus, lhes disse:
- Ah, cristãos e senhores meus, se estes se esforçam na maldita seita do Diabo, esforcemo-nos nós em Cristo Nosso Senhor posto na Cruz por nós, que nos não há-de desamparar, por mais pecadores que sejamos, porque enfim somos seus, o que estes perros não são.
E arremetendo com este fervor e zelo da fé, ao Coja Acém,
como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu com ambas as mãos com uma espada que trazia, uma tão grande cutilada pela cabeça, que cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão, e tornando-lhe com outro revés lhe decepou ambas as pernas, de que se não pôde mais levantar, o qual sendo visto pelos seus, deram uma grande grita e arremetendo a António de Faria se igualaram com ele uns cinco ou seis com tanto ânimo e ousadia que nenhuma conta fizeram de trinta portugueses de que ele estava rodeado, e lhe deram duas cutiladas, com que o tiveram quase no chão, o que vendo os nossos, acudiram logo com muita pressa, e esforçando-os ali Nosso Senhor, o fizeram de maneira que em pouco mais de dois credos foram mortos, dos inimigos ali sobre o Coja Acém, quarenta e oito, e dos nossos catorze somente, de que só cinco foram portugueses, e os mais moços escravos muito bons cristãos e muito leais. Já neste tempo os que ficavam começaram a enfraquecer, e se foram retirando desordenadamente para os chapitéus da proa, com a tenção de se fazerem aí fortes, a que vinte soldados dos trinta que estavam no junco de Quiay Panjão, acudiram com muita pressa, e tomando-os de rosto antes que se assenhoreassem do que pretendiam, os apertaram de maneira que os fizeram lançar todos ao mar, com tamanho desatino que uns caíam por cima dos outros. Animados então os nossos com o nome de Cristo Nosso Senhor, por quem chamavam continuamente, e com a vitória que já conheciam, e com a muita honra que tinham ganho, os acabaram ali de matar e consumir a todos, sem ficarem deles mais que só cinco que tomaram vivos, os quais, depois de presos e atados de pés e mãos, e lançados em baixo na bomba para com tratos se lhes fazerem algumas perguntas, se degolaram às dentadas uns aos outros com receio da morte que se lhes podia dar. E estes também foram feitos em quartos pelos nossos moços e lançados ao mar, em companhia do perro do Coja Acém, seu capitão e caciz
-mor de el-rei de Bintão, e derramador e bebedor do sangue português, como se ele intitulava nos começos das suas cartas, e publicamente pregava a todos os mouros, por causa do que, e pelas superstições da sua maldita seita, era deles muito venerado.
Do mai6 que António de Faria bez depoi6 que houve eHa vitória e da liberalidade que aqui U60U
com 06 portugue6e6 de Liampó o processo desta cruel e áspera peleja, cujo fim foi esta gloriosa vitória que tenho contado, quis escrever assim brevemente e em resumo, porque se me pusera a contar por extenso todas as particularidades dela, tanto do muito que os nossos fizeram, como do grande esforço com que os inimigos se defenderam, além de não ter eu cabedal para tanto, me fora necessário fazer um processo muito mais largo e uma história muito mais comprida que esta; porém, como minha tenção é somente tocar estas coisas como de corrida, trabalho sempre quanto posso para ser breve em muitas coisas em que porventura outros engenhos melhores que o meu se alargaram muito e fizeram muito caso delas, se as viram ou as escreveram; e por isso eu não tocando agora mais que aquelas coisas que de necessidade se hão-de escrever, me torno ao de que ia tratando.
A primeira coisa a que António de Faria atendeu, depois desta vitória, foi a cura dos feridos, que por todos seriam noventa e dois, de que os mais foram portugueses e moços nossos. Após isto, querendo saber o número dos mortos, achou dos nossos quarenta e dois, entre os quais foram oito portugueses, o que António de Faria mostrou sentir mais que tudo, e dos inimigos trezentos e oitenta, de que só cento e cinquenta foram a ferro e fogo, e todos os mais afogados. E ainda que esta vitória fosse de todos muito festejada, não deixou de haver nela assaz de lágrimas públicas e secretas pela morte dos companheiros que ainda estavam por enterrar, e os mais deles com as cabe ças feitas em quartos pelas machadinhas com que os inimigos pelejavam.
António de Faria, ainda que estivesse com três feridas, desembarcou logo em terra com toda a gente que estava
boa para o poder acompanhar, onde primeiro que tudo se tratou do enterramento dos mortos, na qual obra se gastou a maior parte do dia.
Após isto, foi logo António de Faria correr toda a ilha em roda, para ver se havia nela alguma gente, e foi dar num vale muito aprazível de muitas hortas e pomares de muita divel’sidade de frutas, no qual estava uma aldeia de quarenta ou cinquenta casas térreas que Coja Acém tinha saqueado, e dado a morte a alguns dos moradores dela que não puderam fugir. Mais abaixo do vale, cerca de um tiro de besta, ao longo de uma fresca ribeira de água doce em que havia muita quantidade de mugens, e trutas, e robalos, estava uma teracena ou casa grande que parecia ser templo daquela aldeia, a qual estava toda cheia de doentes e feridos que Coja Acém ali tinha em cura, entre os quais havia alguns mouros parentes seus, e outros também honrados que ele trazia a soldo, que eram, por todos, noventa e seis; estes, em vendo António de Faria, deram uma grande grita como que a pedir-lhe misericórdia, a qual ele então não quis usar com eles, dando por razão que se não podia dar a vida a quem tantos cristãos tinha morto, e
mandando-lhes pôr fogo por seis ou sete partes, como a casa era de madeira breada e coberta de folha de palmeira seca, ardeu de maneira que foi uma espantosa coisa de ver, e em parte piedosa, pela horribilidade dos gritos que os miseráveis davam dentro quando a labareda começou a se atear por todas as partes; alguns deles se quiseram lan
çar pelas frestas que a casa tinha por cima, porém os nossos como magoados os receberam de maneira que no ar eram espetados em muitas chuças e lanças. Acabada esta crueza, tornando-se António de Faria à praia onde estava o junco que Coja Acém tomara havia vinte e seis dias aos portugueses de Liampó, entendeu logo em o lançar ao mar, porque já neste tempo estava consertado, e depois de estar na água o entregou a seus donos, que eram Mem Taborda e António Anriquez, . E fazendo
-os pôr a mão a ambos num livro que tinha na mão, lhes disse:
- Eu, em nome destes meus irmãos e companheiros tanto vivos como mortos, a quem este vosso junco tem custado tantas vidas e tanto sangue como hoje vistes, vos faço esmoIa como cristão, de tudo, para que Deus Nosso Senhor no-Ia receba por essa no seu santo reino, e nos queira dar nesta vida perdão de nossos pecados, e na outra a sua glória, como confio que dará a estes nossos irmãos que hoje morreram como bons e fiéis cristãos, por sua santa fé católica; porém vos peço e recomendo muito e vos admoesto por este juramento que vos dou, que não tomeis mais que a vossa fazenda somente, digo, toda a que trazíeis de Liampó, tanto vossa como de partes neste vosso junco, porque nem eu vos dou mais, nem é razão que vós a tomeis, porque faremos ambos nisso o que não devemos, eu em vo-la dar e vós em a tomardes.
Mem Taborda e António Anriquez, que quiçá não esperavam aquilo dele, se lhe lançaram aos pés com os olhos cheios de água, e querendo com palavras dar-lhe as gra
ças pela mercê que lhes fazia, o ímpeto das lágrimas lho impediu, de maneira que se tornou ali a renovar um lastimoso e triste pranto pelos mortos que ali estavam já enterrados, e com a terra que tinham em cima de si, ainda banhada pelo seu fresco sangue. Os dois começaram logo a entender em cobrarem sua fazenda, e foram por toda a ilha com cerca de cinquenta ou sessenta moços que os senhores deles lhes emprestaram, a recolher a seda molhada que ainda estava a enxugar, de que todas as árvores estavam cheias, fora mais de duas casas em que estava a enxuta, e a mais bem acondicionada, que como eles tinham dito eram cem mil taéis de emprego, no que tinham parte mais de cem homens, tanto dos que ficavam em Liampó, como de outros que estavam em Malaca, a quem se ela lá mandava. E a fazenda que estes dois homens ainda recolheram valeria de cem mil cruzados para cima, porque a mais, que podia ser a terça parte, se perdeu na podre, na molhada, na quebrada, e na furtada, de que nunca se soube parte.
Recolhendo-se após isto, António de Faria, para a sua embarcação, não atendeu aquele dia a mais que visitar e prover os feridos, e agasalhar os soldados, por ser já quase noite; e quando ao outro dia foi manhã clara, foi ao junco grande que tinha tomado, o qual estava ainda cheio de corpos mortos do dia anterior, e mandando-os lançar todos ao mar, da maneira que estavam, só ao perro do Coja Acém, por ser mais honrado e merecer mais fausto e cerimónia nas suas exéquias, o mandou tomar assim vestido e armado como ainda jazia, e feito em quartos o mandou também lançar ao mar, onde a sepultura que então teve o seu corpo, por assim o merecer sua pessoa e suas obras, foram buchos de lagartos, de que andava grande quantidade a bordo do junco, à carniça dos mortos que se lançavam, e ao qual António de Faria, em lugar de oração que lhe rezava pela alma, disse:
- Andar, muiti eramá para esse inferno, onde a vossa enfuscada alma agora estará gozando dos deleites de Mafamede, como ontem com grandes brados pregáveis a essoutros cães tais como vós.
E fazendo logo vir perante si todos os escravos, cativos, tanto sãos como feridos, que trazia em sua companhia, mandou também chamar os senhores deles, e a todos lhes fez uma fala de homem bom cristão, como na verdade o era, em que lhes pediu que pelo amor de Deus tivessem todos por bem lhes darem liberdade, da maneira que ele lhes tinha prometido antes da peleja, porque ele de sua fazenda lhes satisfaria muito à sua vontade; ao que todos responderam que pois sua mercê assim o havia por bem,
eles eram muito contentes, e os haviam como forros e livres daquele dia para sempre. E disto se fez logo um assento, em que todos assinaram, porque por então se não pôde fazer mais, e depois em Liampó lhes deram a todos suas cartas de alforria. Após isto, se fez inventário da fazenda que Iiquidamente se achou, tirando a que se deu aos portugueses e foi avaliada em cento e trinta mil taéis em prata do Japão e fazendas limpas, como foram cetins, damascos, seda, retrós, tafetás, almíscar e porcelanas de barça muito finas, porque então se não fez mais receita do mais que este corsário tinha roubado por toda aquela costa de Sumbor até ao Fuchéu, onde havia passante de um ano que continuava.
Como António de Faria 6e partiu de6te rio Tintau para Liampó, e de um de6venturado 6uceHO que teve na viagem
Depois de haver já vinte e quatro dias que António de Faria estava neste rio de Tinlau, dentro dos quais os feridos todos convalesceram, se partiu para Liampó onde levava determinado invernar, para daí na entrada do Verão cometer a viagem das minas de Ouãogeparu, como tinha assentado com o Ouiay Panjão que levava em sua companhia.
E estando tanto avante como a ponta de Micuy, que está em altura de vinte e seis graus, lhe deu um rijo contraste de noroeste, pelo que, por conselho dos pilotos pairou à trinca, para não perder o caminho que tinha andado; este tempo carregou sobre a tarde, com chuveiros e mares tão grossos que as duas lanteas de remo, por o não poderem sofrer, se fizeram já quase noite na volta da terra, com o propósito de se meterem no rio de Xilendau que estava dali a uma légua e meia. António de Faria, também temendo que lhe acontecesse algum desastre, se afastou o mais depressa que pôde, e marcando-se pela sua esteira as foi seguindo com cerca de cinco ou seis palmos de vela somente, tanto para as não escorrer, como por ser o ímpeto do vento tão rijo que não era possível apará-lo. E como a cerração da noite era muito grande, e o escarcéu rebentava todo em flor, não enxergou o baixo que estava entre o ilhéu e a ponta do recife, e varando por cima dele deu tamanha pancada que a sobrequilha lhe rebentou logo por quatro lugares, com parte do couce da quilha debaixo; e querendo então o seu condestável dar fogo a um falcão para que os outros juncos lhes acudissem naquele trabalho, ele o não quis consentir, dizendo que já que Nosso Senhor era servido de eles ali acabarem, não queria nem era razão que também os outros por sua causa ali se perdessem, mas que pedia e rogava a todos que o ajudassem, a trabalharem em público com as mãos e em secreto pedirem a Deus perdão dos seus
pecados, e graça para emendarem a vida, porque se assim o fizessem de todo o seu coração, ele lhes dizia que muito cedo se veriam a salvo e livres, daquele trabalho. E com isto, arremetendo ao mastro grande, o fez cortar junto dos tamboretes da segunda coberta, e em este caindo ficou o junco algum tanto quieto, ainda que a sua queda custasse a vida de três marinheiros e de um moço nosso, porque ao cair os colheu debaixo e os fez em pedaços; e após este, mandou também cortar todos os outros mastros de popa e de proa, e arrasar todas as obras dos gasalhados, de modo que tudo foi fora até à primeira coberta, e conquanto estas coisas se fizessem com grande presteza, quase que nada nos aproveitava, por ser o tempo tamanho, o mar tão grosso, a noite tão escura, o escarcéu tão alto, o cheiro tão forte, e o ímpeto do vento tão incomportável e de refregas tão furiosas que não havia homem que as pudesse esperar com o rosto direito. Neste mesmo tempo os outros quatro juncos fizeram também sinal de como se perdiam, ao que António de Faria, pondo os olhos no céu e apertando as mãos, disse alto, que todos o ouviram:
- Senhor Jesus Cristo, assim como tu meu Deus, por tua
misericórdia tomaste sobre ti satisfazer na Cruz pelos pecadores, assim te peço por quem és, que permitas por castigo da tua divina justiça que eu só pague as ofensas que estes homens te fizeram, pois eu fui a principal causa de eles pecarem contra a tua divina bondade, porque senão, vejam nesta triste noite a maneira em que eu por meus pecados agora me vejo, pelo que, Senhor, te peço com dor da minha alma, em nome de todos, ainda que não seja digno de me ouvires, que tires os olhos de mim e os ponhas em ti e no muito que te custámos todos por tua infinita misericórdia.
Após estas palavras, deram todos uma tamanha grita de
Senhor Deus, misericórdia”, que não havia homem que não pasmasse de dor e tristeza. E como o natural de todos os homens é, em tempos semelhantes, trabalharem para conservar a vida, se’m a lembrança de outra coisa nenhuma, era tamanho’ o desejo que todos tinham da salvação, que não procuravam mais do que os meios que para isso podiam ter, pelo que, esquecida de todo a cobiça, se tratou logo com toda a presteza de alijar a fazenda ao mar, e saltando em baixo no porão, cerca de cem homens, tanto portugueses como escravos e marinheiros, em menos de uma hora foi tudo lançado ao mar, de maneira que nenhuma coisa ficou a que se pudesse pôr nome, que pelos bordos não fosse fora, e foi tão excessivo o desatino destes homens que até de doze caixões cheios de barras de prata que na briga passada se haviam tomado a Coja Acém, nenhum ficou que também não fosse ao mar, sem haver homem de entre eles que tivesse acordo para se lembrar do que era, fora coisas de muita valia que junto com o mais foram por este triste caminho.
Do mai trabalho e perigo em que no vimo e do ocorro que tivemo
Passando assim toda aquela noite nus e descalços e escalavrados, e quase esbofados do grande trabalho que tínhamos levado, prouve a Nosso Senhor que quando a manhã começou a clarear, o vento foi sendo algum tanto menos, com o que o junco ficou mais quieto, ainda que já estivesse assentado sobre a ponta da coroa do baixo, e com treze palmos de água dentro, e os homens todos estivessem pegados em cordas da banda de fora, para que os mares grandes que quebravam em cima no costado os não afogassem ou lançassem sobre os penedos, como já tinham feito a dez ou doze que não se preveniram disto; e quando foi o dia bem claro, quis Nosso Senhor que nos enxergou o junco de Mem Taborda e António Anriquez, que toda a noite tinha pairado em árvore seca, com grandes jangadas de madeira à popa à charachina, que os seus oficiais lhe inventaram para poderem sustentar melhor o pairo, e como houve vista de nós nos veio logo demandar, e em chegando a nós nos arremessaram muita soma de paus atados a cordas, para que nos pegássemos neles, o que nós logo fizemos, e nisto se gastou quase uma hora com assaz de trabalho de todos, pelo desmancho e desordenada cobiça que cada um tinha de ser o primeiro que se salvasse, o que foi causa de se afogarem vinte e duas pessoas, de que cinco foram portugueses, que António de Faria mais sentiu que toda a perda do junco e da fazenda de prata, ainda que não fosse tão pequena que não passasse de cem mil taéis, só em fazenda de pl’ata, porque a maior parte das presas que se tomaram e do que se tomou ao Coja Acém se metera naquele junco em que andava António de Faria, por ser maior e melhor, e em que parecia que corria menos perigo que nas outras embarcações que não eram tão boas nem tão seguras.
Depois que com assaz de trabalho e risco de nossas vidas nos recolhemos ao junco de Mem Taborda, se gastou este dia todo em prantos e lamentações por este triste e desventurado sucesso, sem se saber parte da mais companhia; mas prouve a Nosso Senhor que sobre a tarde houvemos vista de dois barcos, que de um bordo ao outro faziam as voltas tão curtas, como que pairavam o tempo, por onde conhecemos que eram da nossa armada, e por ser quase noite não pareceu bem ir até elas, por algumas razões que para isso se deram, mas fazendo-lhes farol, nos responderam logo a nosso propósito, e sendo já meio quarto da lua passado, chegaram a nós e depois de fazerem suas salvas assaz tristemente, perguntaram pelo capitão
-mor e pela mais companhia, ao que então se respondeu que quando fosse manhã lho diriam, e que se afastassem dali até que o dia mais aclarasse, porque andavam ainda os mares tão grossos que poderia acontecer algum desastre. Logo que a estrela de alva apareceu e a manhã come
çou a ser clara vieram dois portugueses do junco de Quiay Panjão, os quais vendo António de Faria da maneira que estava metido no junco de Mem Taborda, porque o seu já era perdido, depois que souberam o sucesso da sua desventura, eles também contaram do seu trabalho que quase foi igual ao nosso, em que disseram que uma refrega de vento lhes levara três homens ao mal’ e os lançara tão longe como quase um tiro de pedra, coisa decerto nunca vista nem ouvida, E também contaram da maneira que se perdera o junco pequeno com cinquenta pessoas, e as mais delas ou quase todas cristãs, das quais sete foram portuguesas, em que entrara Nuno Preto, capitão dele, homem honrado e de grande espírito, como tinha bem mostrado nas adversidades passadas, o que António de Faria sentiu muito, Neste tempo chegou também uma das lanteas de que até então se não sabia parte, e contou também de si assaz de trabalho, e certificou que a outra quebrara as amarras com o tempo e fora dar à costa, e que à sua vista se fizera em pedaços na praia, e que de toda a gente se não salvaram mais que só treze pessoas, cinco portugueses e oito moços cristãos, os quais a gente da terra levara cativos para um lugar que se chamava Nouday, De maneira que nesta desventurada tormenta se perderam dois juncos e uma lorcha ou lantea, em que morreram passante de cem pessoas, onde entraram onze portugueses, fora os cativos.
E a perda de tudo, tanto fazenda, como prata, peças ricas, embarcações, artilharia, armas, mantimentos e munições, foi avaliada em passante de duzentos mil cruzados, com o que o capitão e os soldados todos ficaram sem terem de seu mais que o que tinham vestido. E estas pancadas tais tem esta costa da China, mais que todas as das outras terras, pelo que ninguém pode navegar seguro nela um só ano, que lhe não aconteçam desastres, se com as conjun
ções das luas cheias se não meter nos abrigos dos portos, que tem muitos e muito bons, onde sem nenhum receio se pode entrar, porque toda é limpa, tirando somente Lamau e Sumbor, que têm uns baixos a cerca de meia légua das barras da parte do sul.
Como António de Faria teve nova6 d06 cinco portugue6e6 que e6tavam cativo6, e do que bez 60bre iMo Quando aquela brava tormenta acalmou de todo, António de Faria se passou logo ao outro junco grande que tinha tomado a Coja Acém, de que então era capitão Pêro da Silva de Sousa, e dando à vela se partiu com toda a mais companhia que eram três juncos e uma lorcha ou lantea, como lhe chamam os chins, e foi surgir na angra de Nouday, para daí saber novas dos treze cativos. Mandou logo à boca da noite dois balões equipados a espiar o porto e sondar o rio, e ver o surgidouro e o sítio da terra, e que navios estavam dentro, e outras coisas necessárias à sua determinação, e mandou-lhes que tl’abalhassem por tomar alguns homens naturais da cidade, para saber deles a certeza do que pretendia e lhe darem novas do que era feito dos portugueses, porque receava que os tivessem já levado pela terra dentro. Os balões se partiram logo e às duas horas depois da meia-noite chegaram a uma aldeia pequena que estava na boca da barra, na ponta de uma calheta a que chamavam Nipafau, onde quis Nosso Senhor que negociaram tão bem que antes que fosse manhã tornaram a bordo com uma barca carregada de louça e canas-de-açúcar, que acharam surta no meio do rio, na qual vinham oito homens e duas mulheres, e um menino pequeno de seis ou sete anos, os quais sendo todos metidos no junco de António de Faria, os segurou do medo que traziam, porque lheS parecia que a todos os haviam de matar; e começando a os inquirir, nunca já lhes puderam tirar outra palavra da boca senão somente Suqui hamidau nivanquao lapopa dagatur, que quer dizer: Não nos mates sem razão, que te demandará Deus nosso sangue, porque somos pobres.
E com isto choravam e tremiam de tal maneira que não podiam pronunciar palavra nenhuma. Vendo então António de Faria sua miséria e simplicidade, não os quis por então mais importunar, mas dissimulando com eles por um grande espaço, rogou a uma mulher china cristã que ali levava o piloto, que os agasalhasse e os segurasse do medo que tinham, para que respondessem a propósito ao que lhes perguntassem, o que ela lhes fez com tantos afagos que em menos de uma hora disseram à china que se o capitão os deixasse ir livremente naquela sua embarcação assim como lha tinham tomado, que eles confessariam toda a verdade do que viram pelos olhos, e do que ouviram dizer, e António de Faria lhes prometeu o fazer assim, e lho afirmou com muitas palavras.
Então um deles, que era o mais velho e parecia ser entre eles de mais autoridade, disse:
- Não me fio ainda muito da liberalidade dessas tuas palavras, porque te estendeste tanto nelas que temo que me faltes no efeito do que elas prometem, pelo que te peço que mo jures por esta água do mar que te sustenta em cima de si, porque se mentires jurando, crê certo que o Senhor da mão poderosa com ímpeto de ira se inclinará contra ti de tal maneira que os ventos por cima e ela por
baixo nunca cessem em tuas viagens de te contrariar a vontade, porque te juro pela formosura das suas estrelas que é a mentira tão feia e aborrecida diante de seus olhos, como a inchada soberba dos ministros das causas que se julgam na terra, quando com desprezo e descortesia falam às partes que requerem diante deles o que faz a bem de sua justiça.
E jurando-lhe António de Faria com toda a cerimónia necessária a seu intento, que ele lhe cumpriria a sua palavra, o chim se houve por satisfeito e lhe disse:
- Esses teus homens por quem perguntas, eu os vi há dois dias prender na chifanga de Nouday, e botar-lhes ferros nos pés, dando como razão que eram ladrões que roubavam as gentes do mar.
Com isto ficou António de Faria suspenso e assaz enfadado, parecendo-lhe que podia ser aquilo assim; e querendo logo com muita pressa prover no remédio da soltura deles, pelo perigo que entendia que podia haver na tardan
ça, lhes mandou uma carta por um destes chins, ficando por ele, como reféns, todos os mais, o qual se partiu logo pela manhã muito cedo. E como a estes chins lhes tardava verem-se fora do em que se viam, este, que era o marido de uma das duas que foram tomadas na barca da louça e então ficaram no junco, se deu tanta pressa que quando veio ao meio-dia tornou com a resposta escrita nas costas da carta, e assinada por todos cinco, em que brevemente lhe relatavam a cruel prisão em que os tinham, e que sem falta nenhuma os haviam de matar por justiça, pelo que lhe pediam pelas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo que os não deixassem ali perecer ao desamparo, e que lhe lembrasse sua fé e verdade, pois como sabia, por sua causa vieram ter àquele triste estado, e outras piedades a este modo, como de homens que estavam cativos em poder de gente cruel e fraca como são os chins.
António de Faria leu esta carta perante todos e lhes pediu conselho sobre o que nisto se devia fazer, e como eram muitos os que davam seus pareceres, assim foram também muitas e diversas as opiniões, de que ele não ficou nada satisfeito, pelo que, depois de haver sobre isto uma longa altercação, vendo ele que pela variedade dos pareceres s e não tomava resolução nos negócios, lhes disse quase agastado:
- Eu, senhores e irmãos meus, tenho prometido a Deus com juramento solene de me não ir daqui até não haver à mão estes pobres soldados e companheiros meus, por qualquer via que seja, ainda que sobre isto aventure mil vezes a vida, quanto mais com despesas de minha fazenda que eu estimarei muito pouco, pelo que, senhores, vos pe
ço a todos muito, muito, muito, por mercê, que ninguém me contrarie isto de que tanto depende minha honra, porque juro à casa de Nossa Senhora de Nazaré que qualquer que o contradisser me terá por tanto seu inimigo, quanto eu entendo que o será de minha alma quem for contra isso.
Ao que todos lhe responderam que o que sua mercê dizia, isso era o melhor e o mais acertado, e que para sua consciência por nenhum caso deixasse de o fazer assim, porque eles todos o acompanhariam até porem as vidas por isso. Ele lho agradeceu então muito e os abraçou a todos
com o barrete n a mão e lágrimas nos olhos, e muita cortesia nas palavras, e de novo lhes tornou a certificar que pelo tempo em diante lhes satisfazia por obras o que então lhes prometia só com palavras, com o que todos ficaram de todo conformes e muito satisfeitos.
Como António Faria e6creveu tuna carta ao mandarim de Nouday 60bre o negócio de6te6 cativ06, e a re6po6ta que teve a ela, e o que ele tez 60bre i660
Tornada esta resolução, se pôs logo em conselho que maneira se havia de ter no proceder deste negócio, e se assentou que a primeira coisa fosse fazer-se pacificamente diligências com o mandarim, mandando-lhe pedir aqueles cativos, e prometer-lhe pelo resgate deles o que fosse razão, e que com a sua resposta se determinaria o que se havia de fazer. E com isto se fez logo uma petição conforme o estilo com que no auditório se costuma falar, e a mandou António de Faria ao mandarim, por dois chins dos que se tomaram, os que pareciam de mais respeito, e
com ela lhe mandou um odiá que valia duzentos cruzados, parecendo-lhe que entre gente de primor aquilo bastava para não querer mais, o que foi muito pelo contrário, como logo se verá.
Partidos os chins que levavam a petição e o presente, tornaram logo ao outro dia com a resposta escrita nas costas da petição, a qual era um despacho que dizia desta maneira:
- Venha a tua boca diante de meus pés, e depois de seres ouvido, te proverei se tiveres justiça.
Vendo António de Faria o mau despacho do mandarim, e a soberba e desconcerto das palavras dele, ficou algum tanto triste e melancólico porque entendeu daquele princípio que já havia de ter trabalho em libertar aqueles cativos, e discutindo este negócio particularmente com alguns que para isso foram chamados, não deixou ainda de haver algumas diversidades de pareceres, mas no fim delas se veio a concluir que todavia lhe tornasse a mandar outro recado, em que com mais eficácia lhe pedisse os seus homens, e que lhe daria por eles dois mil taéis em prata e fazenda, e senão que falasse muito claro e o desenganasse, que se não havia de ir dali até que lhos não mandasse, porque quiçá certificado desta determinação, o medo lhe faria fazer o que pelas outras vias lhe negava, tanto mais que pela via do interesse poderia ser que se rendesse.
Os mesmos dois chins se tornaram a partir logo com este recado escrito em uma carta cerrada, como de uma pessoa a outra, sem cerimónia de petição nem outras vaidades que eles entre si nestes casos gentilicamente costumam, para que visse o mandarim na isenção da carta, quão determinado estava no que lhe dizia. Porém, antes que vá mais por diante, quero dizer só dois pontos do que ia na carta, que foram causa de este negócio se danar de todo, os quais foram: um, dizer-lhe António de Faria que ele era um mercador estrangeiro, português de nação, que ia de veniaga para o porto de Liampó, onde havia muitos mercadores residentes na terra com suas fazendas que pagavam seus direitos costumados, sem nunca fazerem nela roubos nem males como ele dizia; e o outro ponto foi dizer-Ihe que porque el-rei de Portugal, seu senhor, era com verdadeira amizade irmão de el-rei da China, vinham eles à sua terra, como também os chins por esta causa costumavam ir a Malaca onde eram tratados com toda a verdade, favor e justiça, sem se lhes fazer agravo nenhum. E ainda que o mandarim ambos estes pontos não sofresse, todavia este derradeiro de dizer que el-rei de Portugal era irmão de el-rei da China, tomou tão a mal
‘que, sem ter mais respeito a coisa alguma, mandou açoitar os dois que levaram a carta, e cortar-lhes as orelhas, e os tornou assim a mandar com a resposta para António de Faria, escrita num pedaço de papel roto que dizia assim:
- Bareja triste, nascida de mosca encharcada no mais sujo monturo que pode haver em masmorras de presos que nunca se limparam, quem deu atrevimento à tua baixeza para parafusar nas coisas do céu? Porque mandando eu ler a tua petição, em que, como a senhor me pedias que houvesse piedade de ti que eras miserável e pobre, à qual eu, por ser grandioso já me tinha inclinado e estava quase satisfeito do pouco que davas, tocou no ouvido de minhas orelhas a blasfémia de tua soberba, dizendo que o teu rei
era irmão do filho do Sol, leão coroado por poderio incrível no trono do mundo, debaixo de cujo pé estão submetidas todas as coroas dos que governam a terra com real ceptro de mando, servindo-lhe continuamente de brochas de suas alparcas, esmagados na trilha do seu calcanhar, como os escritores das bralas de ouro testemunham na fé de suas verdades em todas as terras que as gentes habitam. E por esta tamanha heresia mandei queimar o teu papel, representando nele por cerimónia de cruel justiça a vil estátua de tua pessoa, como desejo fazer a ti também por tamanho pecado, pela qual te mando que logo e logo sem mais tardar te faças à vela, para que não fique maldito o mar que em si te sustenta.
Acabando o intérprete (que lá se chama tansu) de ler a carta e declarar o que ela dizia, todos os que a ouviram ficaram assaz corridos, e António de Faria mais corrido e
. afrontado que todos: e estiveram um grande espaço algum tanto confusos, porque de todo perderam as esperanças de resgatarem os cativos. E discutindo o desconcerto das palavras da carta e o mau ensino do mandarim, se determinou no fim de tudo que saíssem em terra e acometessem a cidade, porque Nosso Senhor os ajudaria conforme à boa tenção com que o faziam, e para efeito disso se ordenaram logo embarcações em que saíssem de terra, que foram quatro barcaças de pescadores que aquela noite se tomaram. E fazendo-se alarde da gente que podia haver para este efeito, se acharam trezentos homens, de que setenta eram portugueses e os mais escravos e marinheiros, com a gente de Ouiay Panjão, dos quais cento e sessenta eram arcabuzeiros, e os mais com lanças, e chuças, e bombas de fogo, e outras muitas maneiras de armas necessárias para o efeito deste negócio.
Como António de Faria
acometeu a cidade de Nouday e o que lhe aconteceu
Ao outro dia quase manhã clara, António de Faria se fez à vela pelo rio acima com três juncos e a lorcha, e com as quatro barcaças que tinha tomado, e foi surgir em seis braças e meio pegado com os muros da cidade; e amainando as velas sem salva nem estrondo de artilharia, pôs bandeira de veniaga ao costume dos chins, para que com as mostras destas pazes lhes não ficassem nenhuns cumprimentos por fazer, ainda que soubesse que, como isto da parte do mandarim estava danado, nenhuma coisa daquelas lhes havia de aproveitar. Daqui lhe tornou a mandar outro recado com promessa de mais interesse pelos cativos, e cumprimentos de muitas amizades, com o que o perro se indignou de tal maneira que mandou aspar o coitado do chim e mostrá-lo do muro a toda a armada, com a qual vista António de Faria acabou de perder as esperanças que ainda alguns lhe faziam ter. E crescendo com isto a cólera aos soldados lhe disseram que pois tinha assentado sair em terra, não esperasse mais, porque seria dar tempo aos inimigos para juntarem muita gente. Ele, parecendo-lhe bem este conselho, se embarcou logo com todos os que estavam determinados para este feito, que já estavam presentes para isso, e deixou recado nos juncos que não deixassem nunca de atirar aos inimigos e à cidade, onde vissem maiores ajuntamentos de gente; porém isto havia de ser enquanto ele não andasse travado com eles.
E desembarcando abaixo do surgidouro cerca de um tiro de berço, sem oposição nenhuma, se foi marchando ao longo da praia para a cidade na qual já a este tempo havia muita gente por cima dos muros com grande soma de bandeiras de seda, capeando com muitos tangeres e grandes gritas, como gente que se estribava mais nas palavras
e nas mostras de fora, que nas obras. Chegando os nossos a pouco mais de tiro de espingarda, das cavas que estavam por fora do muro, nos saíram por duas portas cerca de mil até mil e duzentos homens, segundo o esmo de alguns, dos quais cento até cento e vinte eram a cavalo, ou para melhor dizer, de sendeiros bem magros. Estes começaram a escaramuçar de uma parte para outra, e o fizeram tão bem e tão despejadamente que as mais das vezes se encontravam uns com os outros, e em muitas delas caíam três e quatro no chão, por onde se entendeu que devia ser gente do termo que viera ali vinda mais por força que por sua vontade.
António de Faria esforçou alegremente os seus para a peleja, e fazendo sinal aos juncos esperou os inimigos fora no campo, parecendo-lhe que ali se quisessem averiguar com ele, segundo a fanfarronice das suas mostras prometia; eles, tornando de novo à escaramuça, andaram um pedaço à roda como se debulhassem calcadouro de trigo, parecendo-lhes que só aquilo bastava para nos desviarem do nosso propósito, porém vendo que nós não voltávamos o rosto como lhes pareceu ou porventura desejavam, se juntaram todos num corpo e assim juntos e mal concertados se detiveram um pouco sem virem mais para diante.
O nosso capitão, vendo-os daquela maneira, mandou disparar a espingardaria toda junta, a qual até então estivera sempre quieta, e prouve a Deus que se empregou tão bem que dos de cavalo que estavam na dianteira, mais de metade vieram logo ao chão. Nós, com este bom prognóstico arremetemos todos a eles, bradando sempre pelo nome de Jesus, e quis ele por sua misericórdia que os inimigos nos largaram o campo fugindo tão desatinadamente que uns caíam por cima dos outros, e chegando a uma ponte que atravessava a cava, se embaraçaram de maneira que não podiam ir para trás nem para diante. Nesta conjunção chegou até eles o corpo da nossa gente, e os trataram de maneira que mais de trezentos ficaram logo ali deitados uns sobre os outros, coisa lastimosa de ver, porque não houve nenhum que arrancasse espada. Nós, com o fervor desta vitória arremetemos logo à porta e nela achámos o mandarim com cerca de seiscentos homens consigo, o qual estava em cima de um bom cavalo, com umas couraças de veludo roxo de cravação dourada do tempo antigo, as quais depois soubemos que foram de um tal Tomé Pires, que EI-Rei D. Manuel da gloriosa memória mandara como embaixador à China, na nau de Fernão Peres de Andrade, governando o Estado da Índia, Lopo Soares de Albergaria.
o mandarim, com a gente que tinha consigo nos quis fazer rosto ao entrar pela porta, com o que entre eles e nós se travou uma cruel briga, em que por espaço de quatro ou cinco credos se iam eles já metendo connosco com muito menos medo que os outros da ponte, se um moço nosso não derrubasse o mandarim do cavalo abaixo com uma espingardada que lhe deu pelos peitos, com o que os chins ficaram tão assombrados que todos juntamente voltaram logo as costas, e se começaram a recolher sem nenhuma ordem pelas portas dentro, e nós todos de volta com eles, derrubando-os às lançadas, sem nenhum ter acordo de fechar as portas, e levando-os assim como a gado por uma rua muito comprida, saíram por outra porta que ia para o sertão, ao qual se acolheram todos sem ficar nem um só. António de Faria, recolhendo então a si toda a gente, para não haver algum desmancho, se fez todo num corpo e se foi com ela à chifanga, que era a prisão onde os nossos estavam, que em nos vendo deram
uma tamanha grita de . Senhor Deus misericórdia. que fazia tremer as carnes. E mandou logo com machados quebrar as portas e as grades. e como o desejo e o fervor disto era grande. em um momento foi tudo feito em pedaços.
e os ferros com que os cativos estavam presos. logo tirados. de maneira que em muito breve espaço os companheiros todos estavam soltos e livres. E foi mandado aos soldados e à mais gente da nossa companhia que cada um por si apanhasse o que pudesse. porque não havia de haver repartição nenhuma. senão que o que cada um levasse havia de ser tudo seu. mas que lhes rogava que fosse muito depressa. porque lhes não dava mais espaço que só meia hora muito pequena. ao que todos responderam que eram muito contentes.
Então se começaram logo uns a meter pelas casas. e António de Faria se foi às do mandarim. que quis por seu quinhão. onde achou oito mil taéis de prata somente. e cinco boiões grandes de almíscar que mandou recolher. e o mais largou aos moços que iam com ele. que foi muita seda. retrós. cetins. damascos. e barças de porcelana finas.
em que todos carregaram até mais não poderem. de maneira que as quatro barcas e as três champanas em que a gente desembarcara, por quatro vezes se carregaram e descarregaram nos juncos, tanto que não houve moço nem marinheiro que não falasse de caixão e caixões de peças, fora o secreto com que cada um se calou.
Vendo António de Faria que era já passada mais de hora e meia, mandou com muita pressa recolher a gente, a qual não havia coisa que a pudesse desapegar da pressa em que andava, e na gente de mais conta se enxergava ainda isto muito mais. Pelo que, receoso ele de lhe acontecer algum desastre, por se já vir chegando a noite, mandou pôr fogo à cidade por dez ou doze partes, e como a maior parte dela era de tabuado de pinho e de outra madeira, em menos de um quarto de hora ardeu tão bravamente que parecia coisa do inferno. E retirando-se com toda a gente para a praia, se embarcou sem oposição nenhuma, e todos muito ricos e muito contentes, e com muitas moças muito formosas, que era lástima vê-Ias ir atadas com os morrões dos arcabuzes, a quatro e quatro, e cinco a cinco, e todas chorando, e os nossos rindo e cantando.
Do maió que António de faria paMOU até chegar
à6 portaó de Liampó
Sendo António de Faria embarcado com toda a gente, como era já tarde, não se atendeu por então a mais que a curar os feridos, que foram cinquenta, de que oito eram portugueses, e os mais escravos e marinheiros, e a mandar enterrar os mortos que foram nove, em que entrou um português. E passando a noite com boa vigia, por causa dos juncos que estavam no rio, logo que a manhã foi clara se foi a uma povoação que estava da outra parte à borda da água e a achou despejada de toda a gente, sem se achar nela uma só pessoa, mas achou as casas com todo
o recheio de suas fazendas e infinitos mantimentos, com os quais António de Faria mandou carregar os juncos, receoso que pelo que ali tinha feito lhos não quisessem vender em nenhum porto onde fosse. E com isto se determinou, com parecer e conselho de todos, ir invernar os três meses que lhe faltavam para poder fazer sua viagem, a uma ilha deserta que estava ao mar de Liampó quinze léguas, que se chamava Pulo Hinhor, de boa aguada e bom surgi douro, por lhe parecer que indo a Liampó poderia prejudicar a mercancia dos portugueses que lá invernavam quietamente com suas fazendas, a qual determinação e bom propósito todos lhe louvaram muito.
Partidos nós daqui deste porto de Nouday, havendo já cinco dias que velejávamos por entre as ilhas de Comolém e a terra firme, um sábado ao meio-dia nos veio acometer um ladrão de nome Prematá Gundel, grandíssimo inimigo da nação portuguesa, e a quem já por vezes tinha feito muito dano, tanto em Patane como em Sunda e Sião e nas mais partes onde acertava de os achar a seu propósito, e parecendo-lhe que éramos chins, nos acometeu com dois juncos muito grandes em que trazia duzentos homens de
peleja, fora a equipagem da mareação das velas; e aferrando um deles o junco de Mem Tarborda, o teve quase rendido; porém o Quiay Panjão, que ia um pouco mais ao mar, vendo-o daquela maneira voltou sobre ele e abalroou o junco do inimigo assim enfunado como vinha, e tomando-o pela quadra de estibordo lhe deu tamanha pancada que ambos ali logo se foram ao fundo, com o que Mem Taborda ficou livre do perigo em que estava. A isto acudiram com muita pressa três lorchas nossas que António de Faria levara do porto de Nouday, e quis Nosso Senhor que chegando elas, salvaram a maior parte da nossa gente, e os da parte contrária se afogaram todos. Neste tempo chegou o Prematá Gundel ao junco grande em que ia António de Faria, e aferrando-o com dois arpéus atados em cadeias de ferro muito compridas, o teve atracado de popa e de proa, onde se travou entre eles uma briga muito para ver, a qual depois de durar espaço de mais de meia hora, os inimigos pelejaram com tanto esforço que António de Faria se achou com a maior parte da sua gente ferida, e com isto por duas vezes em risco de ser tomado; porém, acudindo-lhe então as três lorchas e um junco pequeno em que vinha Pêro da Silva, prouve a Nosso Senhor que com este socorro tornaram os nossos a ganhar o que tinham perdido, e apertaram os inimigos de tal maneira que em pouco espaço se acabou o negócio de concluir de todo, com morte de oitenta e seis mouros que estavam dentro do junco de António de Faria, e o tinham posto em tanto aperto que os nossos não tinham já mais nele do que o chapitéu da popa. E daqui, entrando no junco do corsário, meteram à espada todos quantos acharam nele, sem a nenhum conservarem a vida, e a equipagem se tinha já toda lançado ao mar. Mas não se houve esta vitória tão barata que não custasse as vidas de dezassete dos nossos, nos quais entraram cinco portugueses, dos melhores soldados e mais esforçados de toda a companhia, e quarenta e três muito feridos, dos quais um foi António de Faria que ficou com uma zargunchada e duas cutiladas.
Concluída assim esta briga, se fez inventário do que o junco dos inimigos trazia, e foi avaliada a presa em oitenta mil taéis, de que a maior parte era prata do Japão que o corsário tinha tomado em três juncos de mercadores que vinham de Firando para o Chinchéu, de modo que só nesta embarcação trazia este corsário cento e vinte mil cruzados, e no junco que se foi ao fundo disseram que trazia quase outro tanto, com o que muitos dos nossos ficaram bem magoados. Com esta presa se recolheu António de Faria a uma ilha pequena chamada Buncalou, que estava dali a três ou quatro léguas para a parte do oeste, de boa aguada e de bom surgidouro, e desembarcando em terra esteve nela dezoito dias agasalhado em choças que aí se fizeram, por causa dos muitos feridos que levava, onde quis Nosso Senhor que todos tiveram saúde. E dali seguimos nossa rota para onde levávamos determinado, António de Faria no seu junco grande e Mem Taborda e António Anriquez no seu, e Pêro da Silva no pequeno que se tomou em Nouday, e o Ouiay Panjão com todos os seus no que se tomou ao ladrão, em satisfação do que tinha perdido, com mais vinte mil taéis que se lhe deram do monte maior, com o que se ele deu por bem pago e satisfeito, e todos os nossos foram também contentes com isso, por lho António de Faria pedir com grande instância, e muitas promessas para o diante. E navegando nós desta maneira, chegámos dali a seis dias às portas de Liampó, que são
F E R H Ã O M E H O E S P I H T O jj duas ilhas a três léguas donde naquele tempo os portugueses faziam o trato de sua fazenda, que era uma povoa
ção que eles tinham feito em terra, de mais de mil casas, com governança de vereadores, e ouvidor, e alcaides, e outras seis varas de justiça e oficiais da república, onde os escrivães no fim das escrituras públicas que faziam, punham:
- E eu, fulano, público tabelião das notas e judicial nesta cidade de Liampó, por el-rei nosso senhor - como se ela estivera situada entre Santarém e Lisboa, e isto com tanta confiança e ufania que havia já casas de três mil cruzados de custo, as quais todas tanto grandes como pequenas, por nossos pecados foram depois de todo destruídas e postas por terra pelos chins, sem ficar delas coisa em que se pudesse pôr os olhos, como mais largamente contarei em seu lugar. E então se verá quão incertas são as coisas da China, de que nesta terra se trata com tanta curiosidade, e de que alguns enganados fazem tanta conta, porque em cada hora estão arriscados a muitos desastres e desventuras.
Do que bez António de faria chegando à6 porta6 de Liampó, e da6 nova6 que aí teve
do que 6e pa66ava no reino da China Por entre estas duas ilhas a que os naturais da terra e os que navegam aquela costa chamam as portas de Liampó, vai um canal de pouco mais de dois tiros de espingarda, de largo, com fundo de vinte até vinte e cinco braças, e em partes tem angras de bom surgidouro e ribeiras frescas de água doce, que descem do cume da serra por entre bosques de arvoredo muito basto de cedros, carvalhos e pinheiros mansos e bravos, de que muitos navios se provêem de vergas, mastros, tabuado e outras madeiras, sem lhes custarem nada,
Surgindo António de Faria nestas ilhas uma quarta-feira pela manhã, Mem Taborda e António Anriquez lhe pediram licença para irem adiante dar recado à povoação de como ele era chegado, e saber as novas que havia na terra, e se se dizia ou soava por lá alguma coisa do que ele fizera em Nouday, porque se a sua ida lá prejudicasse em alguma coisa a segurança e quietação dos portugueses, se iria invernar à ilha de Pulo Hinhor, como levava determinado; e que de tudo o mandariam avisar com muita brevidade, ao que ele respondeu que lhe parecia muito bem e lhes deu a licença que pediam, e escreveu também por eles algumas cartas aos mais honrados que então governavam a terra, em que lhes dava relação de todo o sucesso da viagem, e lhes pedia por mercê que o quisessem aconselhar, e lhe mandassem o que queriam que fizesse, porque ele estava muito prestes para lhes obedecer em tudo, e outras palavras a este modo, que sem nenhum custo resultam às vezes em muito proveito. António Anriquez e Mem Taborda se partiram aquele mesmo dia à tarde, e António de Faria se deixou ali ficar surto até ver que recado lhe mandavam.
Chegados os dois à povoação, já com duas horas de noite, logo que a gente dela os viu e soube deles as novas que traziam e todo o sucesso da sua viagem, ficaram tão espantados quanto a novidade do caso o requeria, e juntando-se a som de sino tangido na igreja de Nossa Senhora da Conceição, que era a matriz de seis ou sete que havia mais na terra, trataram entre si sobre o que aqueles dois homens tinham dito; e vendo a liberalidade que António de Faria usara com eles e com todos os mais que tinham sua parte no junco, assentaram em lhe satisfazer em parte com mostras de amor e agradecimento, o que por sua pouca possibilidade em todo não podiam; e respondendo
-lhe às suas cartas com uma geral, em que todos assinaram como consulta de câmara, lha mandaram com duas lanteas de muito refresco, por um tal Jerónimo do Rego, homem fidalgo e com cãs, e de muito saber e autoridade, na qual lhe relataram com palavras de grande agradecimento, a muita obrigação em que todos lhe estavam, tanto pela mercê que lhes fizera em lhes livrar suas fazendas das mãos dos inimigos, como pelo muito amor que lhes mostrara na liberalidade que usara com eles, a qual esperavam que Deus Nosso Senhor lhe pagaria com abundan-
tíssimos bens na sua glória. E que quanto a se temer de invernar ali pelo que fizera em Nouday, estivesse nisso muito descansado, porque não andava a terra ao presente tão quieta que isso se pudesse lembrar, tanto pela morte do rei da China como pelas dissensões que havia em todo o reino em treze opositores que pretendiam o ceptro dele, os quais todos estavam já postos em armas com seus exércitos em campo, para pela força averiguarem o que se não podia determinar por justiça; e que o tutão Nay, que era a suprema pessoa depois do rei em todo o governo com mero e místico império da majestade real, estava cercado na cidade de Quoansy, pelo Prechá Muão, imperador dos conchins, em cujo favor se tinha por certo que vinha o rei da Tartária, com um exército de 900 mil homens; assim, que a coisa andava tão baralhada e dividida entre eles, que ainda que sua mercê assolasse a cidade de Cantão, se não faria caso disso, quanto mais a cidade de Nouday, que na China em comparação com muitas outras, era muito menos que em Portugal pode ser Oeiras com Lisboa. E que, pela certeza de tão boa nova pediam todos a sua mercê, alvíssaras, que se deixasse ali estar surto seis dias, para que neles tivessem eles tempo de lhe negocia-
rem umas casas em que se agasalhasse, já que não prestavam para mais, nem por então podiam mostrar o muito que lhe deviam, conforme o desejo que todos tinham disso, e outras palavras de cumprimentos muito copiosos a que ele respondeu como entendeu que era razão, e lhes quis fazer a vontade no que lhe pediam. E nas duas lanteas em que lhe trouxeram o refresco, mandou os feridos e os doentes que havia na armada, os quais os de Liampó agasalharam com muita caridade, e os repartiram pelas casas dos mais abastados, onde foram curados e providos de tudo o necessário muito cumpridamente sem lhes faltar nada. E em todos estes seis dias que António de Faria aqui esteve, não ficou homem de nome na povoação ou cidade, como todos lhe chamavam, que o não viesse visitar com muitos presentes de muitas invenções de manjares e refrescos, e frutas, em tanta abundância que todos pasmávamos do que víamos, e principalmente do grande concerto e aparato que estas coisas traziam consigo.
O Corsário dos Sete Mares - Fernão Mendes Pinto
Fernão Mendes Pinto é uma figura singular da nossa História e Literatura, tanto pela vida que viveu como pela sua obra Peregrinação. Foi também, como é frequente acontecer com os que mais contribuem para o conhecimento e valorização de Portugal, injustiçado e desacreditado pelos seus compatriotas, incapazes de apreciarem o valor do seu livro, publicado em 1614, trinta e um anos após a sua morte.
Nesse século XVII, a sua obra (de difícil leitura nos nossos tempos) teve uma enorme repercussão na Europa, com vinte edições em várias línguas, contribuindo para o conhecimento pelos europeus dos povos do Oriente, dos costumes e mentalidades de variadíssimas civilizações até então totalmente desconhecidas. Independentemente das imprecisões e dos erros cronológicos ou dos exageros e das efabulações que contribuem para o fascínio da Literatura de Viagens, em que se insere a Peregrinação.
Posteriormente, nos finais do século xix e também no século xx, as opiniões dos críticos dividiram-se sobre a importância e o valor do autor e da sua obra. Os portugueses, seguindo, como é seu hábito, as vozes dos críticos ingleses – que se esforçam por enaltecer os seus heróis e apagar ou destruir os das outras nações que lhes foram rivais, em particular o Portugal dos Descobrimentos –, encarniçaram-se contra a inveracidade da sua narração.
O galardão que lhe ofereceram pela singularidade do seu génio e pela sua obra única – sem comparação na Europa do seu tempo – foi o chiste que perdurou, denegrindo o seu nome e o seu trabalho: Fernão, Mentes? Minto.
No entanto, Fernão Mendes Pinto faz também parte da Literatura e História de países tão longínquos como o Japão, a Birmânia ou a Tailândia, surgindo como um dos primeiros portugueses a tocar solo japonês e o noivo do primeiro matrimónio de uma japonesa com um ocidental, um caso que servirá de suporte ao mito da Madame Butterfly, na tradição oral e escrita de cerca de quatrocentos anos; ou ainda como cronista quase único das guerras da Birmânia com o Sião, nos finais da década de 1540, que serviram de base para o impressionante filme histórico A Lenda de Suriyothai, de Chatrichalerm Yukal (2001).
Figura polémica, ele pertence à galeria de personalidades marginalizadas ou injustamente ignoradas que tenho procurado reabilitar em benefício dos meus leitores, como Bartolomeu Dias e Diogo Cão em O Navegador da Passagem, Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva em O Espião de D. João II e tantos outros que os portugueses esqueceram ou desconhecem ainda, substituídos no nosso tempo por famosos de vidas fugazes e vazias.
No entanto, hesitei sempre em escrever um romance sobre este anti-herói desmesurado, de quem pouco mais se sabe além daquilo que ele contou na sua Peregrinação, uma vida de contínuas viagens, aventuras e desastres que davam e sobejavam para outras sete vidas. Embora ninguém pudesse oferecer melhor exemplo e suporte para se escrever a saga dos portugueses no Oriente longínquo, parecia-me uma tarefa impossível romancear a vida de Fernão Mendes Pinto sem correr o risco de me colar à sua narrativa, fazendo uma paráfrase ou uma glosa da sua obra.
Como pretendo que cada um dos meus livros seja diferente dos anteriores, necessito de experimentar estruturas e processos narrativos distintos, para manter viva a chama da imaginação e da paixão da escrita que me faz sentir viva e me alimenta, no intuito de causar surpresa aos meus leitores, permitindo-me o prazer de um diálogo renovado a cada romance.
À dificuldade de conciliar as peregrinações de Fernão por inúmeros mares, ao som da aventura, para mais enredada nos erros de datas, lugares e acontecimentos (compreensíveis, por estar a contar tais sucessos quase trinta anos depois de os ter vivido), com a saga dos portugueses no Oriente – com que pretendo completar a narrativa dos Descobrimentos que venho fazendo ao longo das minhas obras –, acrescentei uma estrutura demasiado complexa de concretizar, mas que, por meio de múltiplas intertextualidades, me permitia alargar o conhecimento dos meus leitores, espicaçar-lhes a curiosidade e diverti-los. Levando-os, numa viagem no tempo e na pele das personagens, ao encontro de mundos antigos e de outros povos, tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes na sua humanidade. Daí a razão para cada capítulo começar por um provérbio e um texto da época retratada, português ou dos muitos países visitados e até imaginados, desde o mar Roxo à Terra Australis, na busca incessante da mítica Ilha do Ouro.
A divisão do romance em sete mares, de acordo com as áreas geográficas por onde Fernão navegou, teve de jogar com mais de uma viagem ao mesmo lugar, feitas em épocas diferentes, intercaladas com as de outros mares que poderiam estar nos seus antípodas. Por isso, a sua narradora, meu caro Leitor/Leitora, ousa guiá-lo algumas vezes por entre esses baixios e restingas para que chegue a bom porto, estabelecendo consigo um diálogo mais cúmplice e íntimo.
Recriando com fidelidade esses mundos de antanho, sempre através do olhar do visitante, maravilhado ou repugnado com o que via. Desta forma, certas atitudes, falas e pensamentos das personagens podem veicular mentalidades e comportamentos que, nos nossos dias, não podemos deixar de considerar preconceituosos ou mesmo racistas, mas que no tempo dos Descobrimentos traduziam o ponto de vista próprio do homem europeu, que se julgava o centro do mundo, dificilmente aceitando o Outro, de raça ou credo diferentes, como detentor de uma civilização e cultura distintas.
Procurei manter em Fernão Mendes Pinto, a personagem central do meu romance, essa característica picaresca, tão portuguesa, do andarilho aventureiro que, graças à sua esperteza e expediente (vulgo desenrascanço), consegue salvar-se das situações mais difíceis e perigosas e sobreviver. Contudo, ele é muito mais do que uma figura de comédia, a sua inteligência e curiosidade, a ânsia de conhecer o mundo, os sentimentos de piedade e generosidade, o seu espírito crítico, evidentes na sua obra, dão-lhe uma dimensão humana a que dificilmente se pode ficar indiferente.
Ele é também o pretexto para o encontro ou a evocação de outras histórias com heróis conhecidos ou anónimos, cuja grandeza e miséria, tão humanas, construíram o nosso Passado colectivo, criando os alicerces do nosso Presente e, de algum modo, marcando também o Futuro dos portugueses.
Se o leitor chegar ao fim do romance com desejos de saber mais destas gentes e da sua saga no Oriente, será a minha maior recompensa pelos três anos de trabalho que me levou a fazê-lo. Oxalá.
REINO DO PRESTE JOÃO
[Para que vejam] estes meus trabalhos, & perigos da vida que passei no discurso de vinte & hum, em que fuy treze vezes catiuo, & dezassete vendido, nas partes da India, Etiopia, Arabia feliz, China, Tartaria, Macassar, Samatra, & outras muitas prouincias daquelle oriental arcipelago dos confins da Asia, a que os escritores Chins, Siames, Gueos, Elequios nomeão em suas geografias por pestana do mundo, e daqui por numa parte tomem os homens motiuo de se não desanimarem cos trabalhos da vida para deixarem de fazer o que deuem, porque não há nenhuns, por grandes que sejão, com que não possa a natureza humana, ajudada do fauor diuino.
(Da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, dirigida à Católica Real Majestade del Rey dom Filipe o III deste nome nosso Senhor, capítulo I)
Nunca se esquecem as lições aprendidas na dor
(africano)
Carta d’el-rei D. Manuel I ao Papa Leão X:
Com a ajuda de Deus, descobrimos aquele poderosíssimo chefe dos índios e etíopes cristãos, o Preste João, senhor da Província da Abissínia. Nossos antepassados esforçaram-se por descobrir novas terras, mais para benefício da cristandade do que em proveito próprio; nós, seguindo seus passos, fomos melhor afortunados do que eles e descobrimos a Índia e muitas outras províncias. A nós coube unirmo-nos com este grande e poderoso príncipe, que muito desejava nossa amizade e aliança e há alguns anos enviou um embaixador com cartas e presentes e um bocado do lenho da verdadeira cruz.
Finalmente a nossa armada chegou agora às praias e portos do Preste João, e depois de ter sabido alguma cousa daquela gente e distrito, tanto quanto o permitia a brevidade do tempo, e assinar um tratado, e enviar ao Preste João seu próprio embaixador com alguns dos nossos homens, para investigar devidamente os costumes, religião e outros particulares da província.
Lisboa, 8 de Maio de 1521
Dezasseis anos tinham passado sobre a carta jubilosa acima transcrita, que el-rei D. Manuel enviara ao Papa Leão X com a notícia da descoberta do reino do Preste João das Índias, pouco tempo antes da morte de ambos e da chegada a Lisboa de Fernão Mendes Pinto, aos dez anos de idade. Se, então, alguém lhe tivesse dito que haveria de visitar o encoberto imperador cristão da Abássia, tomá-lo-ia como chiste ou zombaria, por lhe parecer coisa impossível, contudo, a realidade que se desdobra ante os seus olhos confirma-o.
Fernão sente nas costas a dureza redonda do mastro onde se apoiou, em busca da sombra protectora da vela, para contemplar à sua guisa Daqhano, o porto de Arquico, no mar Roxo, que se acerca velozmente de encontro ao focinho da Silveira. Com a fusta1 a correr sobre as ondas como um corcel em campo aberto, reconhece quão grande era a sua ignorância das coisas do Oriente que, ao ver pela primeira vez aquele tipo de embarcação à sua chegada a Diu, o levara a desdenhá-la por lhe parecer fraca e perigosa.
Afinal ficara a dever a vida à sua ligeireza e boa navegação durante o ataque do navio mouro, cerca da ilha de Maçuá, que quase metera a pique as duas embarcações às bombardadas. Na violenta refrega, as fustas mostraram-se tão ágeis quanto manobráveis e Fernão vingara o baptismo de fogo que sofrera aos catorze anos de idade, à saída do Tejo, quando corsários franceses tinham tomado o barco de assalto, abandonando-o com outros sobreviventes, nu e aterrorizado, numa praia deserta. Desta vez, as duas valentes tripulações tinham enfrentado e vencido oitenta mouros do mar Roxo, comandados por um renegado maiorquino, a quem aprisionaram junto com os quatro sobreviventes da sua chusma.
Posto a tormentos, o capitão corsário acabara por confessar que a armada de Soleimão Paxá partira já do Suez para tomar Adem e logo seguiria para a Índia, a fim de expulsar os portugueses das suas fortalezas e feitorias. Apesar de instado pelos dois capitães das fustas para se fazer de novo cristão, o homem recusara com palavras duras, mostrando-se tão contumaz e desatinado na sua nova lei que fora lançado vivo ao mar, atado de pés e mãos, com um penedo ao pescoço. Feito o balanço da refrega, viu-se que tinham ido buscar lã para ficarem tosquiados, tendo a presa custado demasiado sangue para o pouco que rendera, porque não se tinham tomado cativos e a carga consistia em tintas de baixo preço.
Embora pobre como antes, é com emoção profunda que Fernão entra no porto de Arquico, lugar assaz importante para os portugueses por ser o único do mar Roxo ainda sob o poder do Preste João.
– Os abexins trazem do sertão muito ouro, marfim, mel e manteiga para trocar aqui, em Daqhano, por panos que nesta terra são muito caros.
Desvia os olhos da paisagem e presta atenção à prática entre o soldado veterano e o padre que embarcou com eles para conhecer aqueles antigos cristãos, conforme afirma nesse preciso momento:
– Ouvi dizer que não são como os de Çacotorá, descendentes dos cristãos do bem-aventurado apóstolo S. Tomé, mas das doze antigas tribos de Israel e eu quero certificar-me se o seu baptismo é, segundo me disseram, tomado com três cerimónias: a do sangue, em que são circuncidados como os judeus; a do fogo, para gravar com ferro em brasa uma cruz na testa e nas fontes do neófito; e a da água, que é igual à nossa. Receio que andem a praticar heresias, por viverem há tantos centos de anos cercados de infiéis.
O soldado parece mais interessado nos tesouros da terra e a sua voz soa sonhadora:
– Dizem que o Negusa Nagast ou Rei dos Reis, como também é por aqui nomeado, mora num palácio todo revestido de ouro e riquíssima pedraria. Muito me prazeria vê-lo!
– Numa carta escrita pela sua própria mão, há mais de quatrocentos anos, o imperador que então reinava dizia que o seu leito era de safira, a pedra da castidade. Apesar de possuir várias esposas formosíssimas, elas só podiam ter conversação com ele quatro vezes por ano, para a procriação de filhos, regressando logo aos seus aposentos, santificadas como Betsabé por David. Temo que este Preste também tenha várias esposas como os mouros.
– É uma terra de prodígios! Há uma raça de homens com cornos, outra com olhos adiante e atrás na cabeça ou só com um olho na testa e também uma gente sem cabeça, com os olhos e a boca no peito, com o comprimento de doze pés e a largura de seis. E há mulheres com grandes corpos e barbas até às mamas que andam com as cabeças rapadas, se vestem de peles e são óptimas caçadoras.
Calam-se e Fernão sente-lhes nos corpos que se inclinam da balaustrada um prazer igual ao seu na antecipação da descoberta, embora por distintos motivos. Reconhece na prática dos dois homens os mitos que correm no Ocidente sobre o fabuloso reino do Preste João, suscitados por uma carta supostamente escrita por um antepassado do imperador abexim, em que descrevia o seu imenso poder e riqueza. Na corte portuguesa, graças às embaixadas que o visitaram, sabe-se que o reino já pouco guarda desse esplendor, se porventura o teve em tempos recuados, não sendo agora senão um povo de negros que, embora cristãos, vivem como cafres2.
Retoma a sua observação do cais, onde se vê claramente, num grupo de negros a cavalo, um homem branco a agitar freneticamente os braços, saudando as fustas. Tem vontade de corresponder a essa saudação, como se lhe fosse especialmente dedicada, um convite para entrar nesse mundo privilegiado e misterioso, de que ele se tornou merecedor ao receber o seu baptismo de sangue nas Índias, lutando contra os mouros, na eterna guerra da Cruz e do Crescente, da Cruzada e da jihad.
Navegara seis mil léguas por mar, de Lisboa à Índia, uma penosa viagem devido ao confinamento no espaço exíguo da nau Frol de la Mar de quase duas centenas de pessoas, forçadas a verem as mesmas caras, seis meses a fio, até já não as poderem sofrer; uma tortura agravada pelas más condições de alojamento, imundície, cheiros nauseabundos e, sobretudo, pragas de ratos, baratas, pulgas e piolhos, que eram o pão-nosso-de-cada-dia nos navios daquela longuíssima carreira.
A navegação decorrera sem acidentes graves de tempestades, calmarias ou doenças, tirante alguns casos de pneumonia entre a gente mesquinha que se embarcava para a Índia como quem ia para Almada; desprovidos de tudo, durante mais de seis meses, viajavam mortos de fome e quase nus, dormindo ao relento no convés da primeira coberta, expostos ora à torreira do sol, ora à inclemência das chuvas e do frio de dois Invernos e dois Verões, segundo as partes do mundo por onde passavam.
No comando da Frol de la Mar – nome posto em honra da nau de Afonso de Albuquerque que se afundara com todo o tesouro da conquista de Malaca – ia Lopo Vaz Vogado, capitão ordinário de viagem, que não sofria desobediências, por isso haviam sido pouco frequentes as rixas entre matalotes e soldados, causadas quer pela jogatina, quer por algum furto ou pela primazia do uso do forno, quando lhes permitiam cozinhar. De pronto dominadas, antes de causarem morte ou ferimentos graves, com os desordeiros postos a ferros ou condenados a penas de açoites, tinham servido de distracção à mesmice da viagem, porque as punições eram administradas com muita solenidade, na presença de todos os tripulantes e passageiros, estes últimos procurando disfarçar o mareio provocado pelo som dos tambores, dos silvos do látego e dos uivos dos condenados.
Fernão viera com comida e catre assegurados na segunda coberta, a dos oficiais, graças à influência do seu protector Francisco de Faria, a quem servira durante quatro anos, findos os quais o amo o fizera entrar para moço da câmara do Senhor D. Jorge – o Mestre da Ordem de Santiago e filho bastardo d’el-rei D. João II. Como a paga mal dava para se sustentar, passado ano e meio, anunciara-lhes a sua decisão de partir para o Oriente em busca de fortuna.
Francisco de Faria escrevera-lhe cartas de recomendação para Pêro de Faria, um parente há muito estabelecido em Goa, assim como para um fidalgo seu amigo que ia na mesma nau, pedindo-lhe para o tomar sob a sua protecção. Este falara com os oficiais, gabando-lhes as letras de Fernão e o seu bom engenho, conseguindo que o pusessem como ajudante do boticário e barbeiro, em vez de trabalhar com os matalotes nas rudes fainas do mar para pagar a sua passagem.
A longa travessia dos dois oceanos fora uma verdadeira escola das manhas de sobreviver a qualquer preço, ministradas por malfeitores e criminosos sem escrúpulos e aprendidas à própria custa pelos grumetes mais moços e inocentes ou por quem viajasse sozinho e não se soubesse defender. Por ser bom de peleja e gozar da protecção de gente de qualidade, Fernão nada sofrera, evitando todavia imiscuir-se nas contendas da vilanagem para defender alguma vítima mais fraca, mesmo que o coração o impelisse a fazê-lo, seguro de que se o tentasse já não veria o amanhecer, pois nessa mesma noite teria a garganta cortada e seria lançado ao mar, sem ninguém se dar conta da malfeitoria.
Quando no ano da morte d’el-rei D. Manuel, em mil quinhentos e vinte e um, o seu tio o levara da casa paterna, na pacata vila de Montemor-o-Velho, para o serviço de uma senhora fidalga de Lisboa, a fim de lhe dar melhor vida, a mudança fora tão súbita e brutal como se tivesse passado do jardim da inocência para a terra da perdição. Ninguém preparara o menino de dez anos para os jogos e intrigas da Babel cosmopolita, faustosa e corrupta, que era a capital do reino, onde por pouco não perdera a alma e a vida.
Ao embarcar para a Índia, se acaso guardava ainda alguns resquícios de inocência desses tempos de meninice e juventude ao serviço do Mestre de Santiago, perdera-os irremediavelmente durante a viagem, vendo como o comportamento dos que embarcavam em busca de fortuna se assemelhava mais ao das feras do que ao dos homens. A experiência, por outro lado, ensinara-lhe que não devia esperar ajuda de outrem, pois no Oriente cada um era por si, o que, seja dito em abono da verdade, não era muito diferente no reino.
À sua chegada, no dia cinco de Setembro, a Diu – onde as naus d’el-rei, Frol de la Mar, Galega e Santa Bárbara, tinham ido deixar homens de reforço na fortaleza ameaçada pelos turcos –, vendo a alegria e o caloroso acolhimento com que eram recebidos pelo capitão António da Silveira e pelos seus companheiros, Fernão experimentara uma sorte de epifania ao sentir que fazia parte desse pequeno punhado de homens, quase todos portugueses, a quem Deus concedera o privilégio de visitarem, antes de quaisquer outros europeus, aquelas remotas paragens para aí se estabelecerem.
Com surpresa constatara que os mercados do Ocidente não chegavam sequer aos calcanhares dos da Índia, tendo muito pouco para oferecer em troca da variedade e riqueza dos seus produtos, quer naturais quer manufacturados, que ele via expostos por toda a parte, como se aquele lado do mundo fosse um bazar inesgotável para os mercadores que ali vinham carregar os seus navios ou as suas cáfilas. Fernão sentiu crescer dentro de si a ânsia de descobrir as ilhas encobertas de que falavam os matalotes, cujas areias eram pó de ouro e as pedras pepitas; ou, na sua impossibilidade, buscar as fontes odoríficas das especiarias, essa cornucópia de fortunas feitas em pouco tempo e quase sem trabalho.
O capitão da fortaleza, António da Silveira e Meneses, era um fidalgo da casa real, filho de Nuno Martins da Silveira (senhor de Góis e mordomo-mor da rainha D. Catarina) e irmão mais novo de Luís da Silveira, o conde da Sortelha. Cavaleiro de grande coragem, servira já como capitão de Goa e de Ormuz, antes de lhe ser dada a capitania de Diu e era tão generoso e mãos-largas que dava mesa, à sua custa, a mais de quinhentos homens.
Os bons auspícios que Fernão tivera no início da viagem confirmaram-se, dezassete dias depois de ter posto o pé em terra, quando estava ainda sem saber o que fazer da sua vida no arraial de tendas onde se acolhiam os recém-chegados sem pouso nem protectores na terra. Um capitão seu amigo, que ia partir com duas fustas para o mar Roxo, desafiara-o a acompanhá-lo, alvoroçando-o com a promessa de andarem às presas nos barcos de Meca, cujo saque o haveria de enriquecer. Aceitara a oferta sem hesitação.
Afinal as fustas iam ao estreito de Bab-el-Mandeb, o Portão das Lágrimas – a única passagem do mar Roxo para o da Arábia, no oceano Índico –, com a missão secreta de espiar quão verdadeiros eram os rumores de terem os turcos construído uma poderosa armada que, comandada pelo formidável Hadim Soleimão Paxá, se preparava para correr com os portugueses dos mares da Índia. Levavam também uma carta de António da Silveira para o seu feitor Henrique Barbosa que estava há mais de três anos em Arquico, no misterioso reino do Preste João, à espera de que o fossem buscar e aos quarenta portugueses que haviam escapado do assalto do rei de Zeila, Ahmed al-Ghazi, o Granhe ou o Canhoto, que capturara D. Manuel de Meneses juntamente com cento e sessenta dos seus homens.
Aprendera à sua custa que naquelas partes não se devia viajar contra as monções, porque as duas embarcações que seguiam juntas – em conserva, na linguagem dos matalotes – para melhor se protegerem de ataques inimigos, foram duramente fustigadas por ventos, chuvas e vagas temerosas, a ponto de crer que a sorte mais uma vez o abandonara e se iria perder naquela navegação. Porém, uma mudança dos ventos empurrara-os para a ilha de Çacotorá3, onde haviam feito a aguada e ele conhecera alguns cristãos descendentes dos primeiros convertidos pelo apóstolo S. Tomé, dos quais ouvira falar no reino sem todavia lhes dar crédito, tendo-os por uma das muitas lendas fabulosas que corriam sobre o Oriente.
Pouco depois de terem largado da ilha, sucedera uma coisa nunca vista, que só podia ser milagre, senão de Deus, pelo menos da natureza. Passavam dois relógios do quarto da modorra4, quando surgiram no céu umas barras de luz muito compridas, que saíam do horizonte, uma das quais parecia cingir todo o hemisfério e do seu pé partia uma segunda, atravessada; outras duas listas vinham juntar-se no zénite e da lua, que ficava entre estas e a mais comprida, saía nova barra de luz que ia também acabar na grande. Nunca ninguém, nas duas fustas, vira tal mostra no céu e os homens olhavam com pasmo, persignando-se para esconjurar o medo5.
Fernão tomara o encontro com aqueles antiquíssimos cristãos e o aparecimento do estranho fenómeno por bons presságios ou sinais da Divina Providência, como preparação para esta outra maravilha que o aguardava ali, ao alcance dos olhos: ia pisar a terra do Preste João, o Grande Abexim, o misterioso imperador que Pêro da Covilhã, um espião de D. João II, tinha descoberto e revelado às nações da Europa que o andavam buscando há mais de duzentos anos. Nestas circunstâncias Deus estava seguramente do lado dos portugueses e por isso ele não temera pela sua vida.
A fusta acostara. Cumpridas as manobras de ancoragem e as formalidades do porto, o cavaleiro branco subiu a bordo da Silveira para falar com o capitão. Com ele vinham três nobres abexins, pardos e não negros como os restantes membros da comitiva que ficaram em terra; bem apessoados e de bons corpos, usavam o trajo de guerreiro etíope feito de couros curtidos e vinham armados com espadas semelhantes às portuguesas em vez do arco e da lança indígenas.
Aproveitando a pausa na acção e o fim do capítulo, apressa-se a narradora a sair do anonimato para, com a sua própria voz, dar uma explicação ao leitor sobre o modo como carteou esta longa viagem por onde pretende levá-lo no rasto de Fernão Mendes Pinto, alertando-o para os escolhos, baixios e restingas onde poderia encalhar, correndo o risco de se perder.
Ao abordar a peregrinação de Fernão Mendes Pinto pelos mares do Oriente, debateu-se esta sua narradora com uma particular dificuldade, que apenas poderá ser ultrapassada com a cumplicidade do leitor: conciliar os tempos e os lugares de passagem deste irrequieto andarilho (tão móveis quanto diversos) com a estrutura narrativa repartida por sete mares, de modo a completar as histórias de cada um deles, articulando ainda os episódios vividos no presente com os sucessos do passado, aquando dos primeiros encontros dos portugueses com esses povos e lugares.
E porque a vida humana é imprevisível e não imita a ficção, mas sim o contrário, a narradora roga ao seu leitor que entre neste jogo de quebra-cabeças e, qual Viajante no Tempo, se passeie por esta teia intemporal ao sabor da narrativa.
1 Embarcação de cerca de trezentas toneladas, chata, alongada, com vela latina (triangular) e dezasseis bancadas de remos para as suas chusmas ou tripulações.
2 Cafre, da palavra árabe kàfir (infiel), designava o negro do sertão africano, não cristão e sem polícia, ou seja, pouco civilizado, na perspectiva do conquistador e do mercador muçulmano ou cristão.
3 Soqotra ou Sukutra, uma das maiores ilhas ocidentais do oceano Índico, à entrada do mar Roxo, conquistada por Afonso de Albuquerque com Tristão da Cunha onde, dada a sua importância estratégica, se fez uma fortaleza que pouco tempo depois acabou por ser abandonada devido às dificuldades de manutenção.
4 Turno da meia-noite às quatro da manhã.
5 Um halo lunar (Roteiro de Lisboa a Goa, de D. João de Castro), mais raro do que o solar. Ao contrário do arco-íris, que aparece na parte do céu oposta à que o astro ocupa, estes halos surgem entre o observador e o astro luminoso, produzidos nos cristais de gelo que estão suspensos a grande altura.
Tem parentesco com a hiena, e todas as hienas serão tuas amigas
(africano)
Como neste tempo de el-rei David entrou em Etiópia um poderoso mouro e causou nela grande destruição:
Este imperador David em Etiópia, tendo logrado em sua primeira idade grandes triunfos dos mouros seus inimigos, passou os últimos dias de sua vida entre grandes tribulações e terríveis fadigas, causadas todas pela entrada que em suas terras fez Ahamed, mouro mui temido e poderoso, a quem chamaram por alcunha o Granhe, que quer dizer Esquerdo, por ser esquerdo nos braços, sendo mais sinistro na vida; o qual com um copioso exército e com grã soberba e bárbara arrogância tratava de conquistar toda a Etiópia .
Vendo, pois, o triste imperador como ia o seu império miseravelmente descaindo e que o general dos mouros, Granhe, ia à maneira de um impetuoso rio ou como um raio abrasador, levando e assolando tudo, tratou de mandar pedir socorro à Índia aos portugueses e também a Portugal, a el-rei D. João III e ainda a Roma, querendo outra vez dar obediência ao Sumo Pontífice, para assim mais o obrigar.
(História da Etiópia, de P.e Baltasar Teles)
– Sou Vasco Martins de Seixas, natural da vila de Óbidos – apresenta-se o recém-chegado, com um grande sorriso. – Há um mês que estou aqui, a mando do feitor Henrique Barbosa, à espera que passe um barco de portugueses para enviar uma carta ao nosso capitão António da Silveira, com o pedido de todos nós para ele mandar logo gente armada, a fim de libertar os portugueses tomados pelo Granhe na última batalha. Os cativos inda devem estar em Zeila, mas não tardarão a ser enviados como escravos de esmola para Meca ou vendidos nos mercados dos mouros.
Termina com as lágrimas a correr-lhe pelo rosto e os três abexins, para espanto dos presentes, têm também os olhos marejados.
– Estes três moços são filhos de Cid Petrus – acrescenta quando pode falar de novo –, aquele Pêro da Covilhã que foi mandado por el-rei D. João II a descobrir o Preste. Os seus dezoito filhos entendem e falam alguma cousa da nossa língua, porque o pai praticava muito com eles em português.
– Que mais fez ele por cá. além de filhos? – pergunta o capitão, com uma risada, abismado da novidade. – No reino, até à chegada do embaixador Mateus no ano de catorze, pensava-se que ele morrera, como o companheiro Afonso de Paiva, sem ter cumprido a sua missão.
– E, no entanto, cumpriu não só a sua como a do companheiro, descobrindo o Negusa Nagast ou Rei dos Reis que nesse tempo era Eskender e lhe concedeu o título de Ajazé, que é como o nosso Dom para fidalgo, dando-lhe um grande feudo de terras, gados e gentes armadas, benesses confirmadas pelo imperador Na’od e também por Lebna Dengel, o Preste David que hoje reina e ao lado de quem Pêro morreu a combater o Granhe.
Os capitães das fustas reúnem conselho e determinam enviar quatro homens como emissários à mãe do Preste Anaf Sagad, Sabla Vangél, cujo nome significa Espiga do Evangelho, que está refugiada em Damaa, uma escarpada montanha-fortaleza, enquanto o filho trava acesa guerra contra as forças da jihad do Canhoto que continuam a devastar-lhe terras e cidades. O imperador pediu socorro aos portugueses e a rainha espera a carta do governador da Índia, pelo que os capitães terão de lhe apresentar uma desculpa convincente por não lhe trazerem a esperada resposta. Ávido de novidades, Fernão oferece-se para a missão e é aceite como escrivão da embaixada.
Por ordem de Sabla Vangél, o Barnagais ou Senhor dos Mares, nome dado ao governador daquela província, fornece-lhes montadas e camelos para o transporte do fato e dos presentes que levam, além de criados para os servirem e de uma escolta de seis guerreiros porque as estradas são perigosas. O malfadado Granhe, além de ser um formidável general, fez aliança com os turcos, já senhores do Egipto e de muitos portos do mar Roxo, que lhe enviaram companhias de soldados e janízaros disciplinados, munidos de armas de fogo muito superiores às dos abexins. Há dez anos recomeçara as hostilidades contra a Abássia e, proclamando a jihad ou guerra santa contra os cristãos, invadira e conquistara grande parte das províncias, acossando e perseguindo o Rei dos Reis por vales e montanhas, até ao próprio coração do império.
Por onde passava o exército móvel e ligeiro de Ahamed, nada ficava de pé e só sobreviviam os que se faziam mouros e serviam os conquistadores. Tudo era saqueado e queimado, em particular igrejas e conventos, depois de estripados das ricas alfaias de ouro e prata, dos panos preciosos de brocado, seda e veludo, reduzidos a cinza que o vento dispersava pela terra enegrecida. Destruíra e pilhara a cidade Axum da lendária rainha de Sabá e roubara o tesouro real guardado na Amba Nagast, uma serra que se julgava inexpugnável.
Isto contam Seixas e os três filhos do escudeiro Pêro da Covilhã, com muita emoção quando, ao fim da primeira jornada, acampam para cear e dormir, em resposta às perguntas que lhes fazem os recém-chegados, vendo as terras queimadas e as povoações destruídas e abandonadas.
– Esta província foi a primeira a ser assaltada, faz já alguns anos – conclui Seixas. – As hostes do Granhe são como pragas de gafanhotos, ávidos e ligeiros, atacam um lugar e logo partem para outro; porém, quando acabam de passar, não fica um grão no campo, nem uma galinha na capoeira e a fome faz fugir os sobreviventes dos ataques. Podemos atravessar com alguma segurança, porque já não há nada para roubar nestas terras. E amanhã entraremos na parte da Abássia que ainda está sob o domínio do Preste e tereis outro recebimento.
Seixas fala verdade. Por todo o lado os gaxiagenuz ou estrangeiros são recebidos como emissários da salvação que tarda, mas há-de chegar na ponta das espadas e nos tiros dos arcabuzes portugueses. Partilham com eles os melhores comeres que podem confeccionar na escassez da guerra e servem-lhos numas gamelas da feição de bandejas compridas e assentes no chão, em vez de mesas, porém essas iguarias são de estarrecer e fariam bolsar o labrego mais faminto.
Os visitantes ainda conseguem engolir uns pedaços da posta quase crua de boi ou carneiro, temperada com muita pimenta e sal, servida sobre uns pães chatos e largos, chamados apas, que fazem as vezes de pratos – e também de guardanapos, pois é a eles que os abexins limpam as mãos –, porém, o prato principal que lhes oferecem como a melhor iguaria do mundo, o chienfillá, não passa de um guisado de lixo de vaca feito de fígados e tripas mal lavadas, tudo temperado com sal, pimentos e fel. Vale-lhes, para empurrar o requintado manjar, a talla, uma cerveja de cevada e sorgo e, para lavar o mau gosto da boca, o abençoado teg, um hidromel muito saboroso, servidos ambos em cornos de boi de cinco ou seis canadas que em pouco tempo os põem a dormir como anjos.
Avistam, depois de longas e penosas jornadas, a montanha onde se refugiou a imperatriz com os filhos, as mulheres e os velhos. No sopé da serra estende-se o vasto arraial de tendas dos seus defensores, uma coorte de guerreiros abexins, além do troço dos quarenta portugueses de Henrique Barbosa que vêm recebê-los ao caminho com lágrimas de alegria e de saudade.
– Estamos aqui muito à nossa guisa, como senhores da terra – diz-lhes o feitor com voz embargada pela comoção, quando consegue falar –, porém, isso dá-nos pouca satisfação.
– .porque aqui é desterro e não a nossa pátria – conclui o que os guiara.
Fernão fica sem saber o que dizer, mordido por uma saudade igual à dos desterrados e sente-se aliviado quando Henrique Barbosa os convida para comer, depois de os aposentar na melhor tenda do arraial, por ser noite e já não poderem visitar a imperatriz.
– Os cozinheiros são abexins? – pergunta Fernão por zombaria ao feitor, que solta uma gargalhada.
– É gente da terra, mas cozinham ao nosso modo, pois já cá estamos há mais de três anos. Descansai que não vos daremos o chienfillá – e ri-se de novo quando os quatro hóspedes lançam em simultâneo um suspiro de alívio.
– Não nos importamos de tomar talla.
– E o teg até se bebe bem.
Regalam-nos com um bom assado de vaca, regado de abundante cerveja e hidromel. Entre os comensais, além dos portugueses, contam-se os três filhos de Pêro da Covilhã.
– Tal pai, tais filhos! – exclama o feitor, num rasgado elogio que os faz corar de satisfação. – São fidalgos valentes como poucos e combatem ao modo de Portugal, segundo lhes ensinou o nosso Pêro ou Cid Petrus como aqui é nomeado com reverência.
– Apesar de ter mais de setenta anos, combateu nas primeiras escaramuças com os mouros – esclarece o moço mais velho, cheio de orgulho.
– O nosso pai morreu no campo de batalha, a lutar, como era seu desejo – acrescenta o mais novo, com os olhos húmidos.
Fernão sente-se arrebatado por aquele encontro, que é mais um elo a enredá-lo na formidável teia de acontecimentos e de gentes, em que ele agora também participa, fazendo História e ligando Portugal aos quatro cantos do Mundo, deixando para o bem e para o mal a sua marca nos povos e lugares. Por sorte, o feitor é um homem loquaz e, enquanto ceiam, põe os recém-chegados a par da situação que se vive no reino da Abissínia:
– Há dez anos que este reino anda sujeito a ferro e fogo. No ano de vinte e sete, a poderosa armada do Negusa Nagast foi derrotada na batalha de ad-Dir por tropas muito inferiores em número, mas bem armadas e ainda melhor comandadas pelo maldito Granhe, que se fez imã e apelou à jihad.
– E logo no ano seguinte repetiu o feito, vencendo o Rei dos Reis numa grande batalha e ocupando cinco das principais províncias da Abássia – acrescenta Seixas que, tendo guiado os visitantes durante aqueles dias, se acha com direitos à sua instrução. – Pilhou e abrasou igrejas e mosteiros, destruiu relíquias e livros sagrados e cativou muita gente que depois converteu à Lei de Mafamede. O Preste tem vindo a perder terreno a cada assalto do Canhoto que o empurrou para as terras altas e implantou um reino muçulmano nas terras conquistadas.
Sem se melindrar com a interrupção, o feitor concorda e prossegue:
– Por isso, há dois anos, depois da destruição da riquíssima cidade de Axum, onde outrora a rainha de Sabá guardava o ouro das suas minas, o Preste enviou ao nosso bom rei D. João III e ao Papa Paulo III um pedido de socorro. O mensageiro foi o seu abuna, o bispo D. João Bermudez que, antes de ser consagrado patriarca de Alexandria, era nem mais nem menos do que mestre João, o físico português da embaixada de D. Rodrigo de Lima que por cá ficou como refém, vindo a tomar as ordens. – E conclui, encolhendo os ombros descontente: – Todavia, até hoje, não chegou qualquer resposta nem vieram tropas.
– Era então por isso que Seixas nos esperava, sem saber que vínhamos!
– Com assunto de tamanha urgência, temos sempre no porto um homem de vigia. A imperatriz vai ficar muito desiludida e angustiada por não receber carta do governador ou d’el-rei de Portugal.
Agradado da curiosidade e interesse de Fernão, quando ele lhe pede que conte com minudência o que sabe do espião de D. João II e das primeiras embaixadas entre os reinos de Portugal e da Etiópia, o feitor não se faz rogado em prolongar o serão, depois de os companheiros se retirarem a cambalear de sono e de vinho, à excepção dos três filhos de Pêro da Covilhã que não se cansam de ouvir as histórias do seu pai.
– Desde menino que tenho escutado muitos rumores sobre invejices e desavenças entre os membros das embaixadas que foram a causa de se perderem. Na casa do meu amo, o senhor D. Jorge, falava-se muito do padre Francisco Álvares que participou nas duas embaixadas e estava a escrever um livro sobre o que vira e ouvira nesta terra.
Henrique Barbosa acede de boamente ao seu pedido com tamanha viveza e minudências que Fernão não tem dificuldade em assistir com os olhos da sua imaginação, ainda mais pujante do que a do interlocutor, ao encontro entre o espião d’el-rei D. João II e o padre Álvares que viera na embaixada enviada por el-rei D. Manuel ao Preste João das Índias.
O homem é como a palma-vinho: quando jovem, doce mas sem força; na velhice, forte mas áspero
(africano)
Como Pêro da Covilhã foi ter a esta terra do Preste:
Tenho algumas vezes falado em Pêro da Covilhã português que é nesta terra e com ele alegado, e não deixarei d’alegar por ser pessoa honrada e de merecimento e crédito, e é razão que se diga como a esta terra veio ter, e dele darei conta como é razão e ele de si ma deu .
Mais me contou o princípio de sua vida. Primeiramente como era natural da vila de Covilhã nos reinos de Portugal e como foi até fora do estreito na cidade de Zeila, e daí caminhou por terra até chegar ao Preste João que é de Zeila muito perto e chegou à corte e deu suas cartas a el Rei Alexandre que então reinava, e diz que as recebeu com muito prazer e alegria dizendo que o mandaria à sua terra com muita honra. E neste tempo morreu, e reinou seu irmão Nahu, que o assi recebeu com muita graça, e pedindo licença não lha quis dar. E morreu Nahu e reinou seu filho David que hora reina, e assi quis pedir-lhe licença e não lha quis dar. Dizendo que não viera no seu tempo, e que seus antecessores lhe deram terras e senhorios que as regesse e lograsse, que a licença não lha podia dar, e assi ficou. Ele Pêro de Covilhã é homem que todas as línguas sabe que se falar podem assi de cristãos como mouros, e gentios, e que todas as cousas a que o mandaram soube, e assi delas dá conta como que as tivesse presente.
(Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias,
escrita pelo P.e Francisco Álvares)
Pêro da Covilhã cala-se, fatigado ou perdido nas recordações que desfiava há várias horas, sem que o padre Francisco Álvares, sentado na sua frente, ousasse interrompê-lo para não quebrar a magia. Deixava-o boquiaberto aquela confissão, a primeira que o espião de D. João II fazia a um sacerdote em trinta e três anos de Etiópia, porque, como os padres abexins não guardavam o segredo do confessionário, só na igreja e no íntimo do seu coração se confessara a Deus.
Ao entrar na sua tenda, ia preparado para ouvir uma extensa enumeração de pecados e predisposto a dar-lhe a absolvição, por muito condenáveis que fossem os vícios do beirão; considerava penitência bastante as três décadas que o escudeiro fora forçado a viver, primeiro entre infiéis e depois com os negros, embora cristãos, dos confins de África. O que acabava de escutar não era um rol de delitos, mas o relato minucioso de uma prodigiosa viagem apenas comparável à do veneziano Marco Polo. E o seu protagonista surgia-lhe como a encarnação de um verdadeiro milagre, considerando que, em Portugal, há muito o haviam dado por morto.
O antigo escudeiro do Príncipe Perfeito parece despertar de um sonho e olha-o, como se subitamente se tivesse apercebido da sua presença:
– Nos primeiros anos deste meu desterro, perdida toda a esperança de sair daqui, sentia-me ainda mais descorçoado por não ter novas do reino. Um dia, porém, ouvi uns mercadores mouros falarem de grandes navios de franges6, que andavam às presas no estreito do mar Roxo, tendo atacado Mombaça e Quíloa, tomado Çacotorá e incendiado Zeila. Rejubilei. Era a confirmação de que Bartolomeu Dias havia descoberto a passagem para o Índico e que os portugueses navegavam já pela costa oriental de África e pelo mar Roxo a dar santiago nos mouros.
O padre Francisco sorri, sem sair do pasmo que lhe causa a formidável memória daquele homem de cerca de setenta anos de idade, robusto e vigilante. Um varão da fibra de Bartolomeu Dias, Duarte Pacheco Pereira ou Afonso de Albuquerque, a estirpe de heróis que faziam do pequeno reino de Portugal uma nação maior.
– Embora el-rei D. João II tivesse começado a preparar a armada, foi D. Manuel quem enviou Vasco da Gama a descobrir a Índia, no ano de noventa e sete, a que se seguiu, três anos mais tarde, Pedr’Álvares Cabral, já com uma grande armada para impor respeito ao Samorim7 de Calecut.
– Nós só tivemos rascunho desses sucessos no ano de mil quinhentos e oito, quando aqui chegaram João Gomes e o P.e João Sanches, enviados pelo capitão-mor Tristão da Cunha, disfarçados de mercadores e guiados por um mouro. Nesse ano morrera o Preste Naód e a Itegê Eleni e o Abuna Marcos, que têm os grandes senhores na mão e muita influência na terra, fizeram levantar ao trono o seu filho mais novo, em detrimento do irmão Anqo Israel, que continuava vivo e de boa saúde em Amba Geshen, a fortaleza onde viviam encerrados com as suas famílias todos os parentes dos sucessivos Prestes que pudessem ter direito ao trono. Lebna Dengel ou Incenso da Virgem, que vós conheceis por David, era menor e, embora a rainha viúva Na’od Mogassa fosse a regente, era Eleni quem governava. E eu assegurei à Itegê e ao Abuna que os portugueses eram um povo poderoso, valente e grande defensor da fé cristã, que lhes conviria muito ter por aliados e amigos, contra o rei de Adel e outros vizinhos mouros. Como aqui, na Abássia, andam muito devagar, só quatro anos mais tarde e, a meu pedido, é que ela enviou o mercador Mateus como seu emissário a Portugal.
– Foi então obra de Eleni, a rainha velha! Por isso o Preste disse ao nosso embaixador que não mandara qualquer emissário a Portugal.
– O Preste era então uma criança e estava doente, mas a Itegê via como o império estava a ser acossado de todos os lados pelos mouros e necessitava de aliados cristãos. Eleni enviou Mateus à Índia, para que Afonso de Albuquerque tratasse da sua viagem a Portugal. Eu ajudei a escrever as cartas para o governador e para el-rei.
– Mesmo as partes em que o Preste oferece a el-rei D. Manuel as princesas negras, com seus ricos dotes, para casarem com o príncipe herdeiro e os infantes portugueses? – O padre ri-se, secundado pelo escudeiro. – Afonso de Albuquerque recebeu-o com todas as honras, mas na viagem para Portugal, no ano de catorze, o embaixador foi mui maltratado pelos inimigos do governador, os capitães Bernardim Freire e Francisco Pereira. Deram-lhe pouco de comer, esbofetearam-no, depenaram-lhe as barbas e até o puseram a ferros, desacatando-lhe as duas mulheres que levava. Enfim, um inferno! Os capitães diziam que Mateus era um espião mouro, traidor e mentiroso, não um embaixador do Preste como afirmava Afonso de Albuquerque, o qual apenas se queria mostrar grandioso para que el-rei o fizesse conde. Com isto queriam desacreditar o governador que favorecera o emissário.
– E el-rei creu neles?
– Não. D. Manuel fê-los prender, mal desembarcaram em Lisboa. E recebeu Mateus com todas as honras, pondo-se de joelhos para beijar a cruz do Santo Lenho que lhe mandava o Preste. El-rei estava mui ufano daquela embaixada e enviou notícia dela sem demora ao Papa, ao doge de Veneza e a muitos outros reis e príncipes, mantendo o embaixador na corte, durante um ano, às suas custas, com todo o fausto.
– Se Mateus lá chegou no ano de catorze e el-rei o tomou por verdadeiro emissário do Negusa Nagast, porque tardou Sua Alteza seis anos a enviar uma embaixada em resposta?
– El-rei despachou Mateus logo no ano seguinte à sua chegada, junto com o embaixador Duarte Galvão que levava um riquíssimo presente para o Preste. Eu acompanhei-os. Partimos na armada para a Índia com o governador Lopo Soares de Albergaria que ia substituir Afonso de Albuquerque, não por merecimento mas por influência de validos, Deus me perdoe se não é verdade o que digo! Durante a viagem, sobretudo em Cananor, semeou-se grande zizânia entre os embaixadores que viajaram juntos, porque Mateus era muito assomado e acusou Duarte Galvão de ter deixado morrer por falta de cuidados um nobre abexim da sua companhia. O nosso embaixador, quezilento e escorropião8 da muita idade e da viagem, acusou-o de ser mouro e falso enviado do Preste. Mateus insultou-o em aravia de tal modo que o língua se escusou a fazer a traslação porque as cousas que ele dizia não eram para se dizer e depois podiam dizer que não disseram tal.
É a vez de Pêro pasmar com os sucessos que desconhecia:
– E o governador não soube pôr fim à querela?
– Pelo contrário, ainda lançou mais achas na fogueira. Já na fortaleza de Cananor, em Outubro, mandou lavrar um auto, dando azo à má-língua dos argolões9, sobretudo do escrivão Vilalobos que era velhaco e inzoneirão. Estas traquinadas e inteligências estenderam-se por todo o ano que passámos na Índia, sem que Lopo Soares enviasse a embaixada ao Preste.
– Que coisa era, o presente? O Negusa Nagast crê que era outro e não o que lhe destes, pois este é mui pobre.
– E tem razão, o Preste! O outro era um tesouro sem preço e todo se perdeu! Sua Alteza queria mostrar-lhe que também o reino de Portugal era rico e poderoso – disse, com um misto de mágoa e orgulho. – Trazíamos armaduras, armas, arreios e selas de veludo. Havia uma cama completa, guarda-portas, mesas, cadeiras de estado, muitos panos de armar, bordados com histórias da Virgem e fábulas antigas, paramentos, baixelas de prata para as igrejas e muitos arcazes com obras de devoção. Da rainha D. Maria vinha para a esposa do Preste um riquíssimo livro de horas e para a rainha Helena uma meada de aljôfar com uma cruz de rubis.
– E tudo se perdeu? – repete Pêro, incrédulo, quando o padre se cala a retomar o fôlego. – Como se pode dar descaminho a um tesouro de tamanha grandeza?
Francisco Álvares encolhe os ombros, com desânimo ou resignação:
– Trouxemos também dois órgãos de foles e dois sinos grandes! A embaixada ia mui bem servida de gente, a começar pelo velho Duarte Galvão, um grande letrado que já fora como embaixador de Portugal a várias cortes de Europa e ao Papa. Vinham vinte mestres dos ofícios mecânicos, das armas e das artes da música, como organistas, pintores e até um imprimidor para o serviço do Preste. Só faltou vontade ao governador Lopo Soares de lhe dar conclusão, como se esta missão, por ser tão querida a Afonso de Albuquerque, lhe fosse especialmente odiosa.
– Se tal embaixada aqui tivesse chegado, quanto não haveria de ser o espanto e o acatamento do Preste e de todo este povo pelo reino de Portugal! E a minha missão estaria finalmente cumprida.
O confessor, ao notar o tom magoado da sua voz, muda de assunto:
– Mateus disse a el-rei D. Manuel que o Preste tem sob o seu poder sessenta e seis reis cristãos e oito mouros, no entanto, por onde passámos não vimos esses reinos grandiosos, cheios de palácios de que falava a carta do seu antepassado. Ou quaisquer cidades e vilas prósperas. As povoações não passam de aldeias e lugares de pastores, mais pobres do que os nossos.
– Os abexins são mui gravasolas10 e fazem-se grandes, maiores do que são de verdade – comenta Pêro, soltando uma risada. – Contam como reis os garâds e xums mais poderosos, que governam as províncias ou os grandes senhorios. Eu próprio, com o meu gulto ou feudo de muitas terras e vassalos, já entro também nesse rol. Perdoai-me, reverendo padre, a interrupção e contai-me por miúdos o que acaeceu à embaixada, que morro de o saber.
O religioso recolhe-se um pouco, a ordenar pensamentos, retomando a narrativa dos tristes sucessos que havia presenciado ou mesmo em que tinha participado como elemento apaziguador:
– Nos começos do ano de dezassete, Lopo Soares decidiu-se por fim a ir em busca da armada dos rumes, que era a maior ameaça para os portugueses da Índia, e de caminho deixaria a embaixada em qualquer lugar sujeito ao Preste. Duarte Galvão queria concertar com o imperador acções dos portugueses e abexins contra Meca, no mar Roxo, ao mesmo tempo que outras nações cristãs combateriam a Síria a fim de abrir caminho para Jerusalém.
– Era essa também a estratégia do Preste, ou antes, da Itegê Eleni e do Abuna, por verem como a Etiópia estava quase sem acesso ao mar, com todos os portos, desde Suaquim a Zeila, nas mãos dos mouros. Uma armada cristã a percorrer estas costas seria a salvação.
– Afonso de Albuquerque e D. Francisco de Almeida tinham-no conseguido em parte, porém, nem todos os capitães-mores e governadores eram do mesmo jaez do Terríbil. A nossa armada era fortíssima, levava mil seiscentos e cinquenta portugueses e mil e duzentos malabares, no entanto, só lhe aconteceram desandâncias, graças em grande parte ao pouco mérito de Lopo Soares.
O padre Francisco Álvares faz uma pausa que Pêro da Covilhã aproveita para lhe servir uma bebida.
– Porque dizeis isso?
– O governador levou a armada para o estreito de Bab-el-Mandeb e chegou a Djidda ou Judá no domingo da Pascoela. A entrada no porto fazia-se por canais estreitos e tortuosos, de manobra dificílima e Lopo Soares maravilhou até os nossos inimigos pela ousadia de passar com todos os navios através da artilharia inimiga. Porém, quando todos os capitães esperavam ordem para o ataque, ele recusou-se a combater, fazendo orelhas moucas a conselhos e rogos.
– Então foi mesmo verdade o que disseram os dezasseis franges cativos dos turcos em Judá que fugiram com alguns abexins, quando o governador lá foi! – exclama Pêro, com grande sanha. – E eu não os quis crer, ao ouvi-los contar que a armada portuguesa não atacou o lugar, que era mui fraco do lado do mar, tendo-o à mercê do seu fogo, para mais com a grande armada dos rumes varada em terra. Ainda hoje não entendem por que razão se retiraram os portugueses sem dar batalha, tendo a vitória certa.
– Nem ninguém na armada entendeu! – retorque o padre com acalorada indignação. – Duarte Galvão chegou mesmo a encerrar-se com Lopo Soares na câmara, admoestando-o por não combater o inimigo, quando podia de um só golpe desbaratar toda a armada dos rumes, que era o que ali vinham fazer. O governador bradou-lhe que o deixasse em paz, fechou-se no camarote e nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima. Passados três dias, sem dar qualquer razão, fez-se à vela na sua nau, saindo barra fora, com sinais aos outros navios para o seguirem, mau grado os protestos e injúrias dos fidalgos cavaleiros e a grande surriada de apupos dos mouros. Desde então a indisciplina reinou em toda a armada, dando azo à sua perda.
– El-rei D. João que Deus tem – interrompe Pêro, lembrando com saudade o Príncipe Perfeito que nunca deixara de admirar –, escolhia os homens segundo as suas qualidades, valor e mérito, sem jamais atender a peitas ou influências.
– El-rei D. Manuel, pelo contrário, é demasiado crédulo e fia-se muito nos validos emboladeiros. Diz-se ter sido graças às intrigas que Lopo Soares de Albergaria foi substituir Afonso de Albuquerque. Depois da retirada, a armada passou ainda por tantas provações de fome, calmarias e doença que, dos quase três mil homens do início, entre enfermos e sãos havia ao todo mil e quinhentos. Dos portugueses, morreram novecentos!
– E, quanto à vossa embaixada, o governador também nada fez?
– O embaixador Duarte Galvão morreu, creio que de mágoa pela morte do seu filho Jorge e por ver perdida a sua embaixada, quando o governador se recusou a pôr-nos em terras do Preste.
– Depois da morte de Galvão, Lopo Soares não cuidou mais da embaixada?
– Nemigalha! Para se vingar do mal que dele falava a gente, queimou Zeila sem nenhum ganho para a armada, chegando a Adem só com metade da frota, porque os restantes navios se dispersaram a buscar remédio de comer e de beber, pois já ninguém lhe obedecia.
– E Mateus?
– Seguiu viagem comigo até Cochim e ali ficámos a lazerar durante mais dois anos, com o presente d’el-rei D. Manuel para o Preste a desbaratar-se, por míngua de Lopo Soares. que o não pagou. Tal como deixou que se perdesse o crédito dos portugueses, pelos muitos roubos que permitia aos nossos fazerem aos mouros amigos.
– Então, quem vos enviou? Viestes por nova ordem d’el-rei?
– Não. Se estamos aqui, finalmente, foi por obra do novo capitão-mor, Diogo Lopes de Sequeira. Embora não trouxesse no seu regimento instruções para nós, reuniu a pouca gente que quedava da nossa primeira missão com os restos do presente de D. Manuel e trouxe-nos ao porto de Maçuá onde, no dia sete de Abril do ano de mil quinhentos e vinte, recebemos a visita do xum de Arquico, com a sua gente, além de muitos frades do mosteiro de Bizão. Alguns dias mais tarde Sequeira e o Barnagais juraram sobre a cruz amizade e aliança, com a promessa de, dali em diante, ajudarem em tudo as causas dos seus soberanos.
– Foi pena Mateus ter morrido – lamenta o escudeiro –, sem receber merecidas alvíssaras pelo grande serviço que fez ao Preste e pelo muito que padeceu nessa sua embaixada.
– Que descanse em paz! Era um bom cristão e não um mouro falso e traidor, como o quiseram pintar. O governador decidiu nomear D. Rodrigo de Lima por embaixador e, para o acompanhar, o pintor Lázaro de Andrade, o organista Manuel de Mares e eu por termos feito parte da primeira embaixada.
– Uma boa embaixada, em verdade se diga. E, pelo que já ouvi, se ela se fez, foi graças em grande parte à vossa porfia junto dos governadores e d’el-rei!
Francisco Álvares sorri, com os olhos a brilharem de satisfação:
– Em Cochim não cessei de rogar por carta a el-rei e em presença a todos os oficiais da Índia, para não se olvidarem de mim quando fossem ao Preste. O governador lembrava-se de como eu o havia importunado com o mesmo pedido durante dois anos, por isso, disse ao senhor embaixador, na presença de todos: – D. Rodrigo, eu não mando o padre Francisco Álvares convosco, mas a vós com ele e cousa alguma façais sem seu conselho.
– Bem avisado foi ele! – concorda Pêro, com um sorriso. – Sei que vossa reverência também contribuiu muito para o bom resultado dela.
O padre ruboriza-se de prazer e conclui o relato:
– Com mais algumas nomeações, em poucos dias ficou a delegação pronta e o governador escreveu uma carta ao Preste, contando-lhe da embaixada de Duarte Galvão e dando por escusa de se levar um presente tão pobre, ter-se perdido o tesouro que lhe levávamos na nau Santo António que se afundou às portas do estreito.
– Afinal que haveis oferecido a Lebna Dengel para o deixar tão entrunfado?
– Um presente assaz mesquinho. As melhores peças são um órgão frautado e um cravo que vieram com o organista Manuel de Mares, ainda do tempo de Duarte Galvão. O resto foi o que de melhor se pôde achar na armada: uma espada, um punhal de grande preço, umas ricas couraças, um capacete, muitas lanças douradas, quatro panos de armar e um mapa-múndi para lhe darem a entender a redondeza da Terra. Havia ainda dois berços11, quatro câmaras e pelouros, dois barris de pólvora que tivemos de abandonar pelo caminho, por serem difíceis de transportar.
– Deveras pobre, meu padre, para um moço rei tão cobiçoso como Lebna Dengel, não admira que se tenha amonado. – Pêro ri-se, acrescentando: – Alegrai-vos, todavia, que tendes sobejas razões para estardes todos orgulhosos. Sois a primeira embaixada do Ocidente a viajar pelo interior da Abássia.
O padre franze o rosto numa careta de fingido terror, ao dizer:
– Penámos as penas do inferno e comemos o pão que o diabo amassou! Partimos da praia de Arquico aos vinte dias de Abril deste ano de quinhentos e vinte, vestidos com os nossos melhores trajos, para maior lustro e cor do cortejo, só chegando à vista do arraial do Preste, em Xaoá, a dez de Outubro, depois de cruzar toda a Etiópia. Foi a maior, a mais penosa e mais perigosa viagem do mundo!
– Bem sei, padre Francisco, bem sei! – Pêro solta uma sonora gargalhada: – Lembrai-vos de que eu passei pelo mesmo, antes de vós!
6 Também Franges ou Francos. Nome dado pelos árabes aos cristãos ocidentais.
7 Malayalam S-am-uttiri (Senhor dos Mares) era o título do rei hindu de Calecut, o principal porto de Kerala.
8 Irascível.
9 Que falam muito, de si e dos outros.
10 Gabarolas.
11 Peças de artilharia, curtas.
A riqueza vem como a tartaruga e foge como a gazela
(árabe)
Tornados nós ao porto de Arquico onde achámos os nossos companheiros, depois de estarmos ali mais nove dias acabando de espalmar as fustas e provê-las do necessário, nos partimos uma quarta-feira, seis dias do mês de Novembro do ano de 1537. E levámos connosco o Vasco Martins de Seixas com presente e carta que a Mãe do Preste João mandava ao Governador e levámos também um Bispo Abexim. E velejando desde uma hora ante manhã, que saímos do porto, fomos com ventos bonanças ao Gocão12, antes de chegarmos ao ilhéu do arrecife, vimos três velas surtas, e parecendo-nos que seriam gelvas ou tarradas13 da outra costa, fomos guinando a elas à vela e a remo, porque já nesse tempo o vento nos ia acalmando, e com tudo porfiámos tanto nesta ida, que em espaço de quase duas horas nos chegámos tão perto delas que lhe enxergámos toda a apelação dos remos e conhecemos que eram galeotas dos turcos, pelo qual nos tornámos a fazer na volta da terra com a mor pressa que pudemos, como quem desejava de fugir do perigo em que já estava metido.
(Peregrinação, capítulo V)
Na manhã seguinte, ainda com a cabeça pesada de sono, da talla e do hidromel que emborcara, Fernão e os seus companheiros passam por uma pasmosa experiência, quando Henrique Barbosa os conduz às casas da rainha, situadas no cume da amba de Damaa. A montanha tem uma base quadrada, é duas vezes mais alta do que a maior torre de Portugal, subindo um bom pedaço do mesmo tamanho e a pique até ao cimo, onde se estende em forma de sombreiro, com a copa virada para baixo e a aba toda direita, como uma planura circular que tivesse sido talhada à mão.
Os recém-chegados acham-na inacessível, custando-lhes a crer que alguém, que não seja um eremita louco, consiga sequer viver no seu cume, quanto mais construir casas, igrejas e fortalezas. Para sua maior surpresa, o capitão mostra-lhes uma porta cravada na rocha, guardada por homens armados, por onde acedem a um caminho de muitas voltas, tão torto e estreito que têm de o subir em fila, um após outro, com muito trabalho, até dois terços da serra, onde faz um pequeno tabuleiro em que não descortinam qualquer passagem.
– Estamos num beco sem saída! – exclama Fernão. – Como é que.
Cala-se antes de terminar a frase. Do céu, bem atado a umas correias de couro cru, muito fortes, vem descendo um cesto onde cabe um só homem, o único meio de transporte para atingir o cume da fortaleza de pedra que é a própria montanha ou amba de Damaa. Um a um os emissários entram no cesto e são içados para as nuvens, mareados dos solavancos e da bebedeira da noite anterior.
Pasmam do que os seus olhos vêem e Barbosa lhes descreve quando se lhes junta com os seus principais oficiais. O cume em forma de sombreiro é tão saliente que domina todo o sopé da montanha, de modo que ninguém pode chegar a ela sem ser visto. Na sua aba dera-lhe a natureza como que uma tesourada, fazendo-lhe um pequeno rasgão, a modo de escotilha de navio, por onde apenas podia passar um cesto ou uma padiola alados por uma corda com um só homem de cada vez. A abertura era cerrada por portas de ferro.
O sombreiro mediria um quarto de légua de circunferência e nele havia duas grandes cisternas que recolhiam água das chuvas no Inverno, o bastante para abastecer os cerca de quinhentos moradores e regar os campos semeados de trigo, cevada, milho, favas e lentilhas, além de terras de pasto com muitas cabras, currais e capoeiras e inúmeras colmeias.
– Aqui está uma fortaleza que não se pode tomar – exclama Fernão.
– Sabla Vangél vive aqui recolhida há vários anos – concorda o feitor. – Dizem que el-rei de Zeila teve esta serra cercada com todo o seu arraial, para deitar as mãos à rainha, que ele cobiçava por ser formosíssima, como vereis que ainda é, se ela vos mostrar o rosto. O velhaco retirou-se ao fim de um ano, reconhecendo que não a podia vencer pela fome e pela sede.
Dirigem-se em silêncio à capela onde a mãe do Preste foi ouvir missa, nesse Domingo, e aí quis receber os emissários com todas as honras. Os portugueses ajoelham-se na sua frente, beijam-lhe o leque que ela tem na mão e fazem-lhe outras cortesias ao modo da terra como o feitor lhes ensinou. Sempre de joelhos escutam a sua doce saudação, trasladada pelo língua:
– A vossa vinda, cristãos de Portugal, é para mim tão agradável e foi sempre tão desejada de meus olhos, como o fresco jardim deseja o borrifo da noite. Vinde em boa hora e sentai-vos nessas esteiras que quero saber novas de onde vindes.
É um grande privilégio que lhes concede, convidando-os a sentarem-se a poucos passos da sua pessoa.
– Como se chama o Papa que agora reina? – pergunta, com a boca cheia de riso, mal os vê aquietados. – Quantos reis há na Cristandade? Porque se descuidam eles tanto na destruição do turco?
Respondem-lhe o melhor que podem, mas Sabla Vangél insta-os, cada vez mais séria, com perguntas que mostram a sua ansiedade pelo auxílio que tarda:
– Não sabeis nada, então, da resposta do vosso rei ou do governador da Índia ao meu pedido? Não enviaram nenhuma armada?
– A distância é imensa, Alteza – responde Fernão, apiedado da sua ansiedade e mentindo um pouco a fim de a tranquilizar. – Para ir e vir à Europa, para mais tratando-se de negócios de tanta monta e demorados pareceres, serão precisos três anos senão mais.
Depois de ouvir o traslado, a rainha faz uma curta pausa e o seu rosto toma uma expressão resignada, prosseguindo todavia com as suas perguntas:
– É grande o poder que el-rei de Portugal tem na Índia? Quantas fortalezas tendes lá? Em que terras estão?
A conversa dura toda a manhã, até Sabla Vangél se quedar satisfeita com as respostas, dando-lhes então permissão para se retirarem.
Não voltou a chamá-los durante os dias que permaneceram na fortaleza, onde os mandara alojar, a fazerem os preparativos para regressarem ao navio. Vem assistir à sua partida, fora das suas casas para mais os honrar, despedindo os quatro emissários com presentes de ouro no valor de duzentos e quarenta cruzados, uma verdadeira fortuna que eles agradecem de joelhos, beijando-lhe a fímbria da veste.
– Pesa-me de vos ver ir tão cedo, mas já que é forçado ser assi, que a vossa tornada à Índia seja em muito boa hora e que lá vos recebam como Salomão recebeu a nossa rainha de Sabá14.
Sabla Vangél dá-lhes um capitão e vinte guerreiros para escolta e protecção, muitas mulas com mantimentos para a jornada e entrega a Vasco Martins de Seixas um rico presente para o governador, com uma carta a pedir-lhe socorro de gente armada. Para reforçar o seu pedido vai também um bispo abexim que o governador deverá enviar a el-rei de Portugal.
O numeroso bando chega ao porto de Daqhano sem sofrer nenhuma contrariedade e os portugueses embarcaram logo nos batéis que os levam à Silveira para fazerem o relatório aos capitães que ali tinham reunido o conselho dos seus oficiais para os ouvirem.
Fora auspiciosa a primeira empresa de Fernão, contudo, à saída do Reino do Preste João, a Fortuna caprichosa, que haveria de o perseguir sem descanso daí por diante, vai atirá-lo para as mãos do corsário Soleimão Dragut.
Os capitães das fustas iam tão cegos pela ganância de fazerem presas das três gelbas15 e terradas16 mouras surtas num ilhéu, junto à ponta do Gocão, que só deram pelo seu erro quando já era tarde demais.
– Não são gelbas, são galeotas dos turcos do Soldão! Aos remos, para a volta de terra! – brada o capitão da Silveira ao piloto e ao mestre, ouvindo a grita dos turcos que, ao vê-los tentar a fuga, já lhes vêm no encalço com os três navios de velas desfraldadas e enfunadas pelos ventos que lhes correm de feição e as fazem voar.
Mais pequenas do que as galés, de uma só árvore17 com vela latina e casco mais reduzido, as galeotas ofereciam menor resistência ao vento, eram mais velozes e mais fáceis de manobrar do que as galés, por serem movidas a remos por chusmas de gente livre cujo número chegava aos dois terços da tripulação. Cada embarcação tinha vinte e cinco bancos por banda com três remadores por banco, a remarem com tal cadência e força que em menos de três credos caíram sobre os portugueses como falcões sobre pombas assustadas.
Formadas em meia-lua, ao chegarem a alcance do tiro, dispararam em uníssono as bombardas que tinham fixas à popa acertando em cheio em ambas as fustas. Além das chusmas, cada embarcação trazia cerca de vinte azaps – uma guarnição de escol de marinheiros que eram também guerreiros e bombardeiros –, e cerca de cinquenta janízaros, formidáveis combatentes.
Na confusão de fogo, fumo, destruição e gritos, Fernão não pode ver o que se passa com a Santa Cecília, mas não deve ser diferente do caos que se instalou na Silveira. Nove homens foram feitos em pedaços, outros vinte e seis ficaram tão feridos que não podem tomar armas, nos barcos imobilizados, à mercê dos assaltantes, porque os sobreviventes das chusmas se lançaram ao mar, procurando salvar-se a nado.
As galeotas arribam sobre as fustas, enganchando-se nelas, de modo a, da popa, poderem ferir os portugueses às lançadas, enquanto os seus archeiros disparam os arcos e as bestas sobre tudo o que se move nos conveses, outros lançam artifícios de fogo como panelas de pólvora e petardos, a fim de protegerem os que preparam a ponte de cordas para a abordagem. Os cristãos resguardam-se com os paveses e defendem-se com tiros de arcabuz e de mosquete, porém, sem tempo para os recarregarem, vêem-se forçados a trocá-los por lanças ou piques e logo por espadas e punhais para o corpo a corpo.
Perdida toda a esperança de salvação, os quarenta e dois portugueses das duas fustas que ainda podem lutar, seguidos por doze criados fiéis e animando-se uns aos outros, lançam-se num ataque simultâneo sobre a capitânia dos turcos e, com o ímpeto do desespero, logram varrer da popa à proa os surpreendidos janízaros, matando vinte e sete.
Vendo a capitânia em perigo, as duas outras galeotas lançam-se em seu socorro e, da que chega primeiro, saltam para o convés quarenta azaps, de mangas arregaçadas até aos cotovelos, brandindo os alfanges, soltando gritos de guerra com grande furor e sem temor da morte, fazendo perder o ânimo aos cristãos feridos e já sem forças, exauridas pelo duro combate anterior.
Terminada a contenda, enfarruscado da pólvora e manchado de sangue, seu e dos inimigos, Fernão Mendes é arrastado para junto dos restantes sobreviventes, apenas onze dos cinquenta e quatro que tinham feito a abordagem. Os vencedores, reunidos na tolda, apupam-nos e enchem-nos de insultos, pondo os dedos em cruz e cuspindo-lhe em cima, proferindo muitas blasfémias.
Os esquifes que tinham lançado à água para recolher os náufragos bons para o serviço dos remos ou para serem vendidos como escravos, regressam vazios, enchendo a tripulação de sanha, pois sem tomarem presas os soldados não recebem paga. O mestre da capitânia, acompanhado de um renegado italiano que lhe serve de língua, vem examinar os prisioneiros para separar os de melhor condição que lhes possam render um bom resgate das famílias.
Os portugueses sabem que o papel do intérprete que acolita o mouro é fazer-lhes perguntas ardilosas para os desmascarar, se acaso esconderem as suas origens nobres ou abastadas, pelo que o mais seguro será fingirem não perceber a língua e fazerem-se passar por gente baixa, rogando a Deus a graça de serem poupados ao serviço dos remos. Um a um, o mestre examina-lhes a aparência, os modos como respondem às perguntas, as suas roupas e as mãos em busca das calosidades feitas pelas duras fainas ou da macieza causada por uma vida ociosa e rica.
Dividido entre o medo e a curiosidade, Fernão não consegue desviar os olhos do temível corsário Soleimão Dragut, capitão-mor da frota dos turcos que viera postar-se diante deles, em silêncio, para saborear a vitória e decerto saciar a sua vingança sobre os odiados cristãos. Os portugueses conhecem bem a sua reputação, que lhe granjeara o respeito de aliados e inimigos.
Como todos os que navegavam pelo Mediterrâneo ou pelos mares da Arábia nos últimos anos, Fernão cansara-se de ouvir histórias a seu respeito, onde o terror se mesclava com a admiração pelos seus feitos. Dragut era filho de camponeses de uma terreola dos arredores de Rhodes e guardara rebanhos na sua infância; com a idade de doze anos, fora levado para o Cairo por um oficial bombardeiro que lhe ensinara a sua arte, na qual em breve se fizera melhor do que o mestre. Ansioso por ganhar fortuna, partira para Alexandria e lançara-se no corso a bordo de um pequeno bergantim, tomando muitas presas cujo saque lhe permitira armar a sua própria galera, não tardando a enriquecer e a fazer-se poderoso.
A fama de Khair ed-Din, o Barba-Roxa, atraíra-o de seguida a Alger a fim de se juntar ao formidável corsário que aterrorizava o Mediterrâneo. Dragut capturou em pouco tempo inúmeros barcos de mercadores cristãos e a sua reputação de bom piloto e grande artilheiro levara Barba-Roxa a contratá-lo para capitão de uma armada de doze galés com a qual se dedicara a fazer constantes razias nas costas da Sicília e de Nápoles.
Com o recrudescer da rivalidade e dos confrontos entre os portugueses recém-chegados e os muçulmanos há muito estabelecidos na Índia, Dragut achava-se em missão de espionagem e inspecção ao mar Roxo, ao serviço de Soleimão, o Magnífico, quando as duas fustas se tinham vindo incautamente meter na boca do lobo. Com este mau passo Fernão Mendes Pinto iniciava, sem o saber, o rol de desventuras que haviam de fazer dele o mais martirizado de todos os aventureiros do Oriente onde, no decurso de vinte e um anos, seria feito treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macassar e Samatra.
12 Cabo do mar Roxo.
13 Barcos do mar Roxo. As gelvas eram como pequenas caravelas movidas a remos e velas; as tarradas eram barcos em forma de barril para transporte de cavalos e cavaleiros.
14 Peregrinação, capítulo IV.
15 Gelbas ou jelbas eram embarcações pequenas, subtis e ligeiras, sem pregadura, com as tábuas atadas por cairo, com mastro bípede e duas velas, governadas a dois remos, não podendo navegar de noite.
16 Terradas são embarcações largas e sem quilha, de proa baixa e popa muito alta, de um só mastro com vela latina, triangular, também movida a remos, muito rápidas. O leme é governado por cordas que vêm sair no centro da terrada.
17 Mastro.
V
Uma boca que reza e uma mão que mata
(árabe)
De alguns preceitos da jihad:
Se for feita presa, que [o capitão] a mande juntar e dar o despojo do morto ao matador, despojo que consiste nas suas roupas, sapatos, cinturão e fato; quanto aos objectos encontrados com ele, braceletes, armamento de guerra, arreios, selas e rédeas, mandá-las dividir em cinco quinhões, e um deles em cinco outros; o primeiro para beneficiação dos muçulmanos, por exemplo, a defesa da fronteira, a construção de fortalezas, de pontes, de mesquitas, e honorários de juízes e sacerdotes; o segundo para os próximos parentes do profeta, os Háxeme e os Almotálebe18; o terceiro para os órfãos; o quarto para os desprotegidos da sorte, incluindo os faquires; o quinto para os viajantes; e os quatro quintos restantes para os apresadores que realmente tomaram parte na luta.
(O Mimo do Campeão da Fé ou a História dos Portugueses no
Malabar, de Zinadim Benalí Benhamede19)
Ferhâd Paxá, o capitão da cidade de Al Mukhâ ou Mocaa, como ouviam pronunciar os portugueses, tendo sido avisado da vitória e chegada do seu genro Soleimão Dragut, preparara-lhe um recebimento digno de um herói, com a artilharia do porto a disparar estrondosas salvas. Dezenas de galeras engalanadas saem ao encontro das galeotas, saudando com grandes gritas e fanfarra de muitos instrumentos os macabros estandartes pendurados nas pontas dos mastros que são os oito pedaços ensanguentados de dois cativos portugueses que não tinham sobrevivido aos ferimentos do combate e os seus algozes haviam esquartejado para os exibir como troféus.
Dragut responde com disparos da sua artilharia e vai desembarcar na praia, onde já o espera o sogro com muito povo e uma força de algumas centenas de soldados, perfilados em boa ordem. Mal põe o pé em terra, soam os tiros das bombardas, tanto das defesas da cidade, como dos navios que o escoltaram, com tal estrondo que a terra estremece e os pássaros fogem espavoridos. Incontáveis músicos tocam oboés, címbalos, flautas e tambores com um estrugido igualmente ensurdecedor que, todavia, não logra abafar as vaias com que Fernão e os oito companheiros são recebidos pela multidão, quando os soldados os lançam na praia presos uns aos outros por uma corrente.
Ferhâd sauda o genro, levando as mãos ao coração e em seguida tomando as dele entre as suas e o Moulana ou caciz que eles têm por santo, num carro engalanado como um andor de procissão, faz uma arenga muito apaixonada ao povo para dar graças ao profeta Muhammad por aquela vitória sobre os cristãos, cuja punição dos sobreviventes fará ganhar indulgência plenária a todos os fiéis que nela participem.
Trazem a Dragut um cavalo berbere ricamente ajaezado, com um frontal de prata e pedraria, rédeas de seda e manta bordada e o longo cortejo percorre em triunfo a cidade, com os cativos acorrentados a servirem de divertimento à populaça, que os esbofeteia, cospe e insulta, chamando-lhes perros infiéis, ministros de Satã, franges malditos, a quem as mulheres lançam do alto dos terraços e janelas muitos bacios de urina e de fezes por vitupério e para ganharem a tal indulgência que lhes prometera o caciz.
O suplício só termina ao sol-posto e a imunda prisão subterrânea para onde o atiram com os companheiros parece a Fernão um abrigo abençoado, embora depois de longos dias de encarceramento, fome e maus tratos se tenha transformado num túmulo onde os seus algozes parecem querer sepultá-los vivos. Dois portugueses e o bispo abexim, que padeciam de graves ferimentos do combate, à míngua de tratamento e agravados pelas sevícias da populaça, morreram nessa primeira noite. Embora chorasse os companheiros pela sua valentia e o bispo pela sua bondade e zelo cristão que muito os confortara no infortúnio, quase lhes invejara a sorte, apesar de ver como os corpos foram levados presos pelos pés e a arrastar pelo chão, através das ruas da cidade, para serem apedrejados pelo povo e lançados ao mar. Se usavam de tamanha crueza para com os mortos, o aventureiro tremia só de pensar no que iriam fazer aos vivos.
Temendo que os cativos morressem todos e se perdesse assim o maior lucro das presas, cujo espólio fora de modesta valia, os capitães das galeotas exigiram que os cristãos tomados no assalto fossem a leilão em hasta pública, sem tardança, dando instruções ao carcereiro sobre o preço a partir do qual os leiloeiros deviam licitar cada um dos seis escravos. Nessa mesma noite curaram-lhes as chagas com uma mistura de sal e vinagre, o que causou tamanho sofrimento aos que tinham as feridas mais graves que todos cuidaram que eles não veriam a luz do novo dia. Mas, Deus não se compadeceu dos pecadores, conservando-lhes a vida para os fazer sofrer, no dia seguinte, ainda maiores provações às mãos dos mouros.
O lugar do mercado de escravos é junto aos bazares da cidade, na praça principal numa espécie de pátio quadrado, circundado por quatro galerias abertas, onde se reúnem os compradores. Para lá os conduziram o carcereiro e os traficantes, como animais, a golpes de cacete e enchendo-os de injúrias. Aturdido pela fome, as pancadas e a gritaria, Fernão sente-se a viver um pesadelo, no qual o mundo se virara do avesso e ele, em vez de se achar a comprar cativos mouros ou negros em Lisboa, por artes do diabo ou de malévolo feiticeiro, fora transformado de predador em presa, de senhor em servo, de homem livre em escravo com menos direitos do que um animal de carga, prestes a ser vendido num mercado da Arábia.
Sofre com resignação o puxão da corrente no seu pescoço, quando os pregoeiros os arrastam numa última volta por todo o mercado, chamando os compradores, em altos brados, apresentando-lhes a mercadoria como peças robustas e da melhor condição, a fim de fazerem subir o preço.
– Estes cristãos são fortes e avezados ao trabalho – apregoa um –, bons para laborarem as terras, cultivarem os jardins, guardarem gado nos campos ou nas quintas.
– Os franges foram apresados no mar – anuncia outro –, sabem trabalhar nos barcos, na pesca ou em qualquer ofício de proveito para o amo. Ou podeis vendê-los na Índia ou no Cairo, com muito lucro.
Os compradores vão-se chegando para os observarem de perto.
– Os escravos franges são um perigo. Podem cortar-nos a garganta ao primeiro descuido.
– Estes são mui enfezados e enfermos! Não servem para trabalhar nos campos e podem pegar-me alguma maleita.
– Inda não tiveram tempo de se recompor dos ferimentos de quando foram cativados – apressa-se a justificar o leiloeiro, alteando a voz para se sobrepor aos risos que os comentários provocam. – Com algum repouso e um pouco de comida não tardarão a ganhar forças. Vede como têm bons corpos e sem nenhum mal vergonhoso que os impeça de trabalhar.
Manda-os despir e Fernão apressa-se a obedecer quando vê os servos do mercado arrancarem as roupas à força de pancada a dois companheiros que se recusavam a cumprir a ordem. Como um animal amestrado, faz o que lhe é ordenado, andando, saltando, cabriolando e mostrando os dentes para os clientes verem que não padece de qualquer mal capaz de prejudicar o trabalho exigido pelo amo.
Apesar da sua miserável nudez e humilhação, Fernão observa os pormenores da cena, em que se manifestavam as diferenças dos povos que tanta curiosidade lhe despertavam quando as apreciava em liberdade e segurança. Mesmo reduzido à ínfima condição humana, quase se esquece de si, pasmado de ver como os compradores são dados às artes da quiromancia, mirando demoradamente as linhas das mãos dos cativos, comentando entre si o tempo de vida de tal escravo, os sinais de doença deste outro, o perigo ou a má sorte que lhes haveria de trazer aquele de má catadura, ou mesmo se haveria de fugir ao cativeiro.
Sente o coração apertado de angústia e a custo contém as lágrimas para não mostrar fraqueza ante os algozes, acirrando-lhes o desprezo e o desejo de lhe infligirem maiores sevícias. Terminara cedo e mal a sua aventura do Oriente, vendido como uma rês e como ela condenado a puxar um arado, zurzido pelo cajado de um infiel até à sua morte, que esperaria com ansiedade por só nela achar a libertação do cativeiro.
A menos que renegasse a sua fé e se convertesse à Lei dos muçulmanos, como lhe iria ser requerido pelos seus donos, disso não duvidava, por serem sobejamente conhecidas as histórias dos renegados, que por medo ou interesse aceitavam a conversão, a fim de terem uma vida melhor ou, se a sorte lhes sorrisse, ganharem a alforria ou mesmo ocuparem cargos de importância entre os mouros.
Só os mártires e santos resistiam aos tormentos que estes inimigos usavam para forçarem os cristãos a abjurarem da sua fé. O mais comum dos tratos, ministrado nas prisões, consistia em os carrascos obrigarem o cativo a curvar-se, atando-lhe os pés aos ombros e suspendendo-o de um pau, preso ao tecto, para lhe darem chibatadas nas plantas dos pés ou lhas pingarem com cera ardente de uma vela acesa, até a sua vítima ceder a tudo o que os seus algozes demandavam ou morrer.
Ele não tem vocação para santo nem para mártir, não passa de um mísero mortal, um pobre coitado sem fortuna que viera para a Índia a fim de enriquecer ou pelo menos melhorar de vida. Por muito que ame e tema a Deus, sabe que renunciará sem hesitar à sua fé, para se salvar da tortura; embora pedindo-Lhe perdão e continuando a adorá-Lo no segredo do seu coração, não deixará de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ganhar tempo e salvar a vida, enquanto espera por uma oportunidade de fuga.
Os leilões de cristãos não devem ser muito frequentes naquele lugar, porque a praça não tarda a encher-se de uma grande multidão, cuja excitação atinge o rubro com a chegada do capitão da cidade Ferhâd Paxá que, agradecendo a ovação e os gritos rolados na garganta, vai sentar-se numa bancada que os leiloeiros cobriram com panos e coxins. O pregoeiro principal, fazendo um esforço para dominar a emoção, toma Fernão por um braço e dá início ao leilão apresentando a primeira peça:
– Este cristão letrado é um frange mercador, que vos poderá ser de grande valia nos negócios e.
É interrompido pelo burburinho que faz a multidão a arredar-se para deixar passar o Moulana20 que chega com uma dúzia dos seus cacizes ou sacerdotes menores e se dirige sem delongas a Ferhâd Paxá:
– Cessai o leilão dos cristãos! Valoroso capitão, requeiro-vos que me entregueis estes cativos para eu os levar de esmola ao túmulo do profeta Muhammad, louvado seja o seu nome, aonde vou em peregrinação por mor do povo desta cidade e, para não ser caso de desonra para ti, não devo apresentar-me ante o seu santo corpo de mãos a abanar porque, sem uma generosa dádiva, o Moulana de Medina não me concederá o perdão dos pecados para estes moradores que tão necessitados estão das graças de Allah.
Ouve-se o murmúrio de protesto dos matalotes e soldados que acompanham Coja Geinal, um dos capitães janízaros que fora encarregue pelos outros da venda dos cativos. Ferhâd Paxá, de cenho franzido pela contrariedade, responde numa voz firme:
– Não tenho poder nesta presa, Moulana, para dispensar nela tão largo quanto me pedes, porque ela pertence aos que os cativaram em combate. Terás de falar com o capitão-mor Soleimão Dragut, meu genro, que decerto te outorgará de boa vontade o que pedes.
– As esmolas pedidas em nome de Allah não devem ser joeiradas por tantas mãos, Paxá, mas apenas pelas daqueles a quem se pedem – replica o caciz com arrogância. – Tu, e só tu, és capitão desta cidade e deste povo, portanto só a ti pertence conceder esta esmola tão justa ao profeta, pois só ele deu a vitória ao teu genro e não o esforço dos seus soldados, como tu dizes.
O murmúrio dos soldados transforma-se em brados de protesto e alguns punhos erguem-se no ar. Coja Geinal fez um gesto com a mão para que se calem e, erguendo a voz a fim de se fazer ouvir do Moulana e de Ferhâd, replica em tom magoado:
– Falastes em desprezo meu e destes homens, que com risco de suas vidas tomaram estes cativos. Quanto melhor vos fora, Moulana, para salvação da vossa alma, repartirdes com os pobres soldados do vosso que vos sobeja, do que com palavras hipócritas tentardes roubar-lhes o seu, como tendes por ofício fazer continuamente.
Um silêncio pesado caiu sobre a multidão, pasmada com o que o capitão ousava dizer ao poderoso Moulana, que parecia ter igualmente perdido a fala.
– Se não quereis levar as mãos vazias – continua Geinal imperturbável – para por vosso interesse peitardes os cacizes de Medina, fazei-o com o património que o vosso pai vos deixou e não com estes cativos que custaram as vidas de muitos dos nossos e muito sangue a nós que estamos vivos.
– Como ousas, vilão, insultar um homem de Deus? Maldito sejas, com toda essa corja de assassinos que te acompanha! Condeno-vos ao.
E mais não pôde dizer, porque os soldados de Geinal, turcos e mouros, desembainham as armas contra ele, porém, as gentes da cidade, que são a favor do Moulana, fazem barreira, tomando cacetes, punhais e tudo o que possa servir de arma, enfrentam os soldados. Ferhâd chega-se aos brigões, tentando aquietar os ânimos, mas ninguém o quer ouvir e um bando de exaltados rodeia-o, ameaçador, sem que os seus guarda-costas ousem impedi-los. Um golpe traiçoeiro corta-lhe um braço e só a muito custo os da sua comitiva logram retirá-lo da praça e levá-lo para casa, deixando-o entregue aos cuidados do seu físico.
Todos criam que as autoridades da cidade em breve poriam fim ao confronto e castigariam os prevaricadores; porém, a briga degenerou num combate feroz que se saldou por mais de seiscentos mortos e no saque de meia cidade. Entre os mortos acharam-se o Moulana com as suas sete mulheres, os nove filhos e toda a restante família que os soldados mataram e lançaram ao mar depois de lhes roubarem a casa que era muito rica.
Os cativos portugueses só souberam destes sucessos depois de Dragut ter pacificado a cidade, em nome do sogro que convalescia do ferimento, porque, durante o leilão, Fernão e os seus companheiros pouco perceberam da disputa entre o Moulana e Geinal, por isso, quando a briga estalou entre as duas partes, sentiram um grande júbilo na esperança de que se matassem uns aos outros. Mas, ao verem o capitão da cidade ser retirado em braços da praça gravemente ferido e os leiloeiros porem-se em fuga, seguidos pelos oficiais da justiça, deixando-os entregues à sua sorte, os cativos entreolharam-se aterrados, sem saberem o que fazer.
– Quando se cansarem de lutar entre si, vão virar-se contra nós – lembrara Fernão, passando a língua pelos lábios ressequidos – porque esta querela tem a ver connosco, já que aquele capitão turco foi o que me caçou.
– Não duvido! Vão fazer-nos em pedaços!
– E ninguém nos acudirá! – soluçara um moço grumete. – Não nos podemos esconder?
Falavam todos ao mesmo tempo, atropelando as palavras, tremendo no terror de serem apedrejados ou feitos em pedaços por uma multidão em fúria. Alheio à agitação dos companheiros Fernão tentava descobrir um buraco onde se pudessem esconder.
– O cárcere! – bradara de súbito. – Se chegarmos à prisão estaremos em segurança!
– Mas da masmorra viemos nós! Tens assim tanta pressa de te enfiar naquele buraco imundo?
– Ele tem razão – dissera o mestre da fusta Santa Cecília. – No cárcere quedaremos a salvo. E como eles estão entretidos a matarem-se uns aos outros, talvez logremos chegar ao tronco, que não está longe daqui, sem que nos detenham. Fujamos e que Deus nos ajude.
Muito juntos e escondendo as correntes o melhor que podiam, esgueiraram-se do pátio do mercado e tomaram o caminho da prisão, seguindo pelas ruas quase sem gente, porque os moradores, atraídos pelo tumulto, se tinham concentrado na praça principal e os poucos retardatários corriam para lá desatinados, sem lançarem sequer um olhar ao grupo de pedintes ou faquires com que se cruzavam. Fernão jamais julgaria possível que um imundo cárcere mouro, de onde só desejaria fugir, pudesse afinal vir a salvar-lhe a vida e as dos cinco companheiros.
Fora curto o interregno na sua desgraça, porque mal a cidade se pacificou, os cativos voltaram ao mercado de escravos e o leilão processou-se sem novos incidentes. Fernão foi vendido a um grego renegado que, durante três meses, o fez comer o pão que o diabo amassou, com trabalho e maus tratos.
Desesperado da vida, deixou de comer, não tardando a perder as forças e as poucas carnes que lhe cobriam os ossos, de modo que o dono, temendo o prejuízo que lhe adviria com a sua morte, o entregou por doze mil-réis de tâmaras ao judeu Abraão Muça que o tratou e levou para Ormuz, onde D. Fernando de Lima, o capitão da fortaleza, o resgatou por duzentos pardaus, do seu bolso e de esmolas da gente de terra, lhe deu pousada para recuperar a saúde e as forças e o enviou de novo para a Índia.
18 Os descendentes, respectivamente, do bisavô e avô de Maomé.
19 Zinadím, que significa O Ornamento da Fé, foi um escritor islamita do século XVI, talvez natural do Malabar, que atribui toda a violência aos portugueses que condena, mas justifica e até glorifica todos os ataques e morticínios que os muçulmanos lhes faziam.
20 Maulama, caciz – ulema, imã, sacerdote principal.
LIVRO II
MAR DA ARÁBIA E MALABAR
COCHIM
Na boca deste rio [de Cochim] tem el-rei nosso senhor uma fortaleza mui formosa, derredor da qual está uma grande povoação de portugueses e cristãos naturais da terra, que se fizeram cristãos depois de assentada nossa fortaleza .
[Na] povoação de Cochim há el-rei nosso senhor corregimento de suas naus e outras se fazem de novo, assi galés e caravelas, em tanta perfeição como que se fizessem na ribeira de Lisboa. Aqui se carrega grande soma de pimenta e outras muitas especiarias e drogarias que de Malaca vêm e daqui se levam cada ano a Portugal.
El-rei de Cochim tem muito pequena terra e não era rei antes que os portugueses descobrissem a Índia, porque todos os reis que novamente reinavam em Calecut tinham por costume e lei que, entrando em Cochim, tirado el-rei fora de seu estado, meterem-se em posse; e, se lhe prazia, tornavam-lho a dar ou não.
El-rei de Cochim lhes dava cada ano certos elefantes, mas não podia fazer moeda, nem cobrir seus paços de telha sob pena de perder a terra. Agora que el-rei nosso senhor descobriu a Índia o fez rei isento e poderoso.
(Livro em que dá relação das cousas que viu e ouviu no Oriente Duarte Barbosa, 1516)
Quem se senta ao fundo do poço para contemplar o céu, há-de achá-lo pequeno
(hindu)
Carta de el-rei de Calecut a el-rei de Cochim:
Samorim, a ti Trimumpara, rei de Cochim, te faço saber que a mim é dito que tu recolhes e favoreces os cristãos em tua terra ; e porque o [que] lhes fazes farás por não saber o nojo e destruição que deles tenho recebido, matando minha gente, queimando minhas naus, com outras coisas que calo, em que recebo grande pesar; pelo qual te rogo que olhes quanto amigos sempre fomos e como todos somos de uma terra e natureza; pela razão que para isso temos, não queiras perder a mim por homens que têm vida de ladrões roubadores, que andam para subjugar reis e terras, em quem se perderá todo bem que neles se fizer. E estimá-lo-ei muito para to pagar em boas obras, quando as de mim houveres mister.
Carta de el-rei de Cochim a el-rei de Calecu:
Trimumpara, a ti Samorim, rei de Calecut, ao que dizes que recebes nojo em eu recolher em minhas terras os cristãos e lhes dar carga para as suas naus e mantimentos por seus dinheiros, tu o não deves ter por mal, porque obrigado sou a isso. Dizes que são ladrões; não os conheço por tais, antes, neste pouco tempo que com eles tratei, os achei muito bons e verdadeiros, e de tal gente não deves haver por mal enobrecer minha terra e porto, pois sabes que todos disso vivemos. Eu folgo muito com a tua amizade, como tu sabes e é razão. Rogo-te que te não agraves de mim, porque será sem nenhuma razão, que em tua terra os tiveste e dela os deitaste, matando-os. Eles, desacorridos, se vieram a mim, e comigo assentaram paz, ficando alguns deles sob a minha guarda e amparo, e seria assaz de mau exemplo se, sem causa, os lançasse fora.
Com o corpo mais composto de carnes e de ânimo novamente esperançoso, porque tristezas não pagam dívidas e quem não se quer aventurar não deve passar o mar, Fernão Mendes Pinto achava que as provações por si sofridas, enquanto cativo de mouros, tinham sido expiação mais que suficiente para todos os pecados que até então cometera, pelo que Deus lhe haveria de dar ocasião de enriquecer na Índia. Queria tentar a sua sorte em Goa, por isso embarcara na nau Cisne de Jorge Fernandes Taborda, que lá ia vender cavalos persas e arábios de Ormuz, um rico negócio, segundo dizia o capitão, apesar do dito dos mouros que naquelas partes se fizera anexim: Se não houvera sofrimento, não houvera já mundo; e se não houvesse cavalos, não haveria guerra.
Se os ventos bonançosos e a boa navegação se mantivessem, não tardariam a chegar à vista da fortaleza de Diu, um desvio na sua derrota21 para deixar alguns soldados de reforço à fortaleza, por haver notícia de que se aprontava uma armada dos rumes22 contra os portugueses. Fora de Diu que partira, há quase um ano, para a sua primeira e desafortunada aventura no mar Roxo, que tivera tão bons começos, mas, como tudo na sua vida, acabara muito mal, lançando-o na mais negra escravatura. Apesar da beleza e riqueza de Ormuz, a Pedra do Anel da Pérsia, que o deixaram deslumbrado, jurou jamais volver aos mares da Arábia, para não correr o risco de cair de novo nas garras de mouros ou turcos.
Como pouco mais possuía além da roupa que tinha no corpo, precisava de ganhar depressa algum dinheiro para recomeçar a sua vida. Ninguém lhe emprestaria a maquia necessária à compra de mercadorias para fazer tratos e, por isso, dificilmente seria bem sucedido no Malabar, apesar dos numerosos reinos que se estendiam desde o monte Delhi ao cabo Comorim e cujos nomes já em Portugal o faziam sonhar: Cananor, Calecut, Tanor, Cranganor, Cochim, Repelim, Chembé (também chamado Reino da Pimenta), Porcá, Coulão ou Travancor. Em Goa talvez fosse mais fácil embarcar em um qualquer junco ou nau que andasse às presas em lugares longínquos como Malaca, Ceilão, Samatra ou Molucas, onde poderiam trocar ou vender o produto dos saques com muito proveito porque, sendo tomados no corso, esses bens ficavam fora da alçada da Coroa e não pagavam o quinto a el-rei de Portugal.
Por ora, nada mais podia fazer senão ouvir as conversas dos navegantes e colher informações sobre as derrotas comerciais, os lugares, as mercadorias e os mais desvairados sucessos ocorridos entre os portugueses e as gentes daquelas terras. Em todos os navios que percorriam os mares do Oriente, havia sempre veteranos de muitas campanhas, dispostos a contarem façanhas heróicas, a descreverem sítios maravilhosos por eles visitados ou a darem informações das cidades e fortalezas sob alçada d’el-rei de Portugal, indicando aquelas onde melhor se poderia fazer fortuna com menor risco e avisando contra as que eram verdadeiros cemitérios de portugueses, como Moçambique.
A Cisne não fugia à regra, havendo sempre narradores de serviço, quer de noite, quer de dia, durante os longos períodos de ócio, sobretudo quando a nau pairava em calmaria. Ele próprio já fizera pasmar os seus companheiros de viagem com o relato do seu cativeiro pelo formidável Soleimão Dragut, seguido da revolta dos mouros em Mocaa sobre a venda dos cativos cristãos e, por fim, dos seus infortúnios como escravo de um renegado.
– Enquanto viver, hei-de arrenegar do maldito grego, que quase me matou com trabalhos, pancadas e fome – concluíra, ufano da atenção da assistência, que durante o seu relato lhe fizera muitas perguntas sobre o mouro Dragut e os seus corsários. – Nos três meses em que estive em poder daquele demónio, senti-me tão desesperado que, por oito vezes, me quis matar com peçonha, mas Nosso Senhor deu-me forças para resistir até o judeu Abraão Muça me resgatar e levar para Ormuz.
Nessa noite, é Bento Castanho, homem já de cãs, discreto e bem criado, que tem a seu cargo o desenfadamento de um bom número de ouvintes, entre os quais se acha um mercador de Aveiro, a viver há mais de dez anos com a sua mulher em Cochim. Fernão junta-se ao grupo, na esperança de ouvir falar dessa colónia de casados e das oportunidades de fazer fortuna. O homem, porém, conta a história da fortificação de Diu, o porto de escala antes de Goa onde lançariam ferro.
– O sultão Bahadur, do reino de Cambaia, na península do Guzarate, deu permissão ao capitão Martim Afonso de Sousa e ao governador Nuno da Cunha para construírem uma fortaleza em qualquer lugar de Diu à sua escolha, em troca da ajuda que recebera, e haveria de receber sempre que dela houvesse mister, contra os seus inimigos, os mogores23 do reino de Deli. No dia vinte e um de Dezembro de mil quinhentos e trinta e cinco, vai fazer três anos, o governador lançou a primeira pedra para a sua construção, enterrando muitas moedas de ouro debaixo dela, para dar sorte. Trabalhámos que nem uns desalmados, todos os que vínhamos na armada (escravos, matalotes, soldados, oficiais e fidalgos), mas acabámos a obra em seis meses.
– Pelos ossos de meu pai! – exclama Fernão, incrédulo, recordando-se das dimensões e imponência da construção, muito embora tivesse chegado a Diu aturdido da extenuante viagem da carreira da Índia e, ocupado em buscar um rumo para a sua nova vida nos escassos dias que ali passara, pouco ficara a conhecer da sua história. – Fizestes aquela fortaleza em apenas meio ano?
– Juro-vos pelos Evangelhos que é verdade, pois laborei nela duramente! A fortaleza, pelo lugar onde se achava, era cousa de tanta sustância para o serviço d’el-rei D. João III, que deu causa à inimizade entre Nuno da Cunha e o Martim Afonso de Sousa. O governador queria ter a honra de fazer aquela fortaleza, porém o capitão adiantou-se-lhe e tratou do negócio com Bahadur.
Fernão solta uma gargalhada e, vendo a estranheza que o seu riso causa, justifica-se:
– Pouco antes de eu vir para cá, chegou a Lisboa a notícia da construção da fortaleza. Foi o piloto Diogo Botelho Pereira que a levou, navegando desde Cochim numa pequena fusta, que foi cousa espantosa de se ver.
– Esse Diogo Botelho fez a volta da Índia, de Cochim para o reino, numa fusta? – pergunta o mercador aveirense, com assombro. – Não o posso crer!
– Uma proeza bem singular, de verdade – confirma Fernão. – Durante muito tempo não se falou de outra cousa no reino. A fusta era o que mais fazia pasmar as gentes que acorriam de todos os lugares para a ver, pois parecia impossível que alguém pudesse fazer nela tão espantosa viagem.
– Diogo Botelho partiu de cá sem licença do governador, que quase ensandeceu de raiva! – É a vez de Castanho rir com gosto: – Era mais um que lhe passava a perna e fazia perraria! Nuno da Cunha temia que Martim Afonso de Sousa se lhe adiantasse a mandar a notícia a el-rei D. João para receber as alvíssaras, por isso se dava muita pressa a concertar uma boa nau para enviar a nova ao reino por Simão Ferreira, o seu secretário de confiança. Não desconfiou do piloto e mestre esférico24 que tirava as medidas à fortaleza e lhe fazia os debuxos dela, os quais o atrevido também levou a el-rei D. João, junto com o traslado das capitulações do tratado de paz entre Bahadur, rei de Cambaia, e o governador Nuno da Cunha.
– Não foi esse Diogo Botelho Pereira que el-rei degredou para cá, como castigo da sua prosápia em lhe pedir, sendo quase menino, a capitania de Chaul em troca dos seus serviços como fazedor das cartas de marear, em que era mestre apesar de tão moço?
– Esse mesmo, sem tirar nem pôr – retorque o soldado da Índia ao mestre que aproveita o tempo morto da navegação para se juntar aos passageiros. – Ele já aí está de novo, pois veio do reino, no ano de trinta e quatro, com o capitão-mor Martim Afonso de Sousa que se gaba de o trazer manso como um cordeiro! Diogo é filho natural de António Real, antigo alcaide de Cochim, e foi o primeiro português a nascer na Índia. É levado do diabo! Inda antes de vir ao mundo já a sua história dava que falar.
– Nasceu cá? Então é pardo?
– Não, é branco. Iria Pereira, a sua mãe, foi também a primeira portuguesa a vir para a Índia, logo no ano de mil quinhentos e cinco, dando muito que falar por ter embarcado às escondidas, vestida de homem, na nau do vizo-rei D. Francisco de Almeida.
– Foi uma viagem dos diabos! – lembra o capitão.
– Ninguém desmascarou a moça na nau? – espanta-se Luzia de Aveiro, a esposa do mercador, também ela portuguesa.
– Se foi descoberta, ninguém a denunciou.
– Que lhe aconteceu? – insiste a matrona. – Havei-la conhecido bem?
– Sim, eu passei esses difíceis anos de Cochim perto deles. Viveram felizes nos primeiros tempos, depois desentenderam-se por causa de umas moças cativas que Afonso de Albuquerque lhes requereu e António Real não lhe quis entregar.
– O governador cobiçou-lhe as moças? – pasma a mulher.
– Não, queria apenas dar-lhes alforria e dotes, como fazia a muitas outras gentias, livres ou cativas, a quem mandava criar como cristãs, cuidadas por donas honestas, para as casar com portugueses, gente limpa que ficasse a morar na Índia, nas terras que para isso ele lhes dava.
– O Terríbil conhecia bem a Índia e sabia como a manter – concorda o capitão. – Mais do que pela força das armas, as terras conquistadas só quedariam em nosso poder se tivéssemos gente nossa a viver nelas e a criar raízes. Para tal havia mister de mulheres e, à míngua de portuguesas, decidiu lançar mão das cativas mouras e das gentias.
– António Real ganhou-lhe um ódio mortal e buscou por todos os meios fazê-lo cair em desgraça, intrigando junto dos fidalgos e capitães da Índia do partido do vizo-rei D. Francisco de Almeida, que era também inimigo do governador.
– Feia aleivosia! – indigna-se o mercador. – A inveja e a inimizade que os portugueses têm uns aos outros dão quase sempre causa a que se danem os negócios importantes, sobretudo quando topam com alguém que trabalha para o bem de todos e da nação. Lembro-me dessa guerra entre o governador e o vizo-rei, porque D. Afonso de Albuquerque lhe requeria o governo da Índia e D. Francisco de Almeida recusava-se a entregar-lho, apesar de ter terminado o seu mandato e das ordens de D. Manuel para lho largar.
Castanho, que servira como soldado da armada no tempo em que Albuquerque ainda era capitão-mor, recorda com alguma amargura:
– D. Francisco ficara muito ufano pela sua grande vitória sobre os rumes e trabalhara muito para que os capitães e fidalgos seus amigos escrevessem a el-rei D. Manuel uma carta assinada por todos pedindo para ele continuar como vizo-rei da Índia. Contudo, pior do que a oposição dos fidalgos que não queriam perder os seus privilégios, foi a conspiração do bando de Cochim, com o António Real à cabeça, que lhe levantou falsos testemunhos de roubos e conluios com os reis mouros e gentios, mal Albuquerque entrou no cargo de governador. El-rei D. Manuel, que Deus tenha em sua glória, era mui crédulo e deu razão aos mexeriqueiros, causando tamanha paixão ao Terríbil que lhe apressou a morte.
As conversas são como as cerejas, cogita Fernão, puxa-se uma e vem logo uma dúzia atrás: Diu e Cochim, Iria e Real, Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque! Do Terríbil, sabia algumas histórias ouvidas na casa do Senhor D. Jorge, que atribuía as razões da animosidade de D. Manuel para com Albuquerque, por este ter sido estribeiro-mor, amigo e admirador de D. João II. O Venturoso, assim que subira ao trono começara a desfazer tudo o que o cunhado fizera e a afastar todos os homens da sua confiança.
– Albuquerque só pensava no serviço d’el-rei e do reino, não deixando essa gente roubar como queria. Ele nunca guardou nada para si, toda a gente sabe isso na Índia! – volve o aveirense que sentia muita sanha dos oficiais e fidalgos que se dedicavam ao corso e ao comércio privado, em vez de se empenharem na defesa da Fazenda d’el-rei. – ’té os presentes e jóias que os sultões lhe ofereciam ele enviava a D. Manuel ou à rainha D. Maria. Podia ter ficado podre de rico, como quase todos os que para cá vêm com ofícios e cargos da Coroa, mas morreu sem nada, pedindo a el-rei para lhe proteger o filho!
– Os de agora fazem o mesmo – comenta um tratante25, natural de Ormuz que falava bem português.
Castanho concorda:
– Esses capitães e feitores roubavam tanto que Albuquerque, quando tomou posse da governação da Índia, nem dinheiro tinha para a mantença e soldos dos homens que andavam nas batalhas, chegando a oferecer as suas barbas, a uns ricos mercadores gentios, como penhor de um empréstimo, a fim de lhes pagar.
O mercador de Aveiro acrescenta, como quem conhece bem aqueles sucessos:
– Vendo que o governador tomava Goa para fazer dela a capital da Índia, António Real e o seu bando moveram céu e terra para que el-rei ordenasse o seu abandono, pois só assim Cochim poderia manter a sua importância e eles os seus privilégios e proveitos.
– Albuquerque sabia bem o que se devia fazer para governar e conservar a Índia – contrapõe Castanho. – Não desistiu de Goa, porque em todo o Malabar não havia outro porto que se lhe pudesse comparar, para manter vigia sobre os mouros guzarates.
– Muito me prazeria conhecer essa história de Cochim e da inimizade de Albuquerque com o vizo-rei assim como com António Real e o seu bando – roga Fernão.
– E a de Iria Pereira e do seu filho também – suplica a mulher –, já que vossa mercê abriu o apetite à minha curiosidade, pelo modo como sabe contar uma história, que até parece que estamos lá a ver e a ouvir.
– Se quereis saber como tudo se passou – anui, agradado do elogio –, eu vo-lo contarei com toda a verdade, porque a tudo fui presente.
Com um murmúrio de aprovação, cada um se acomoda o melhor que pode no espaço exíguo e desconfortável da coberta para ouvir o soldado da Índia que, como aquela dona dizia, é um bom contador de histórias. Bento Castanho cerra os olhos por momentos, como para arrumar as ideias, e começa:
– Para conseguir a fortaleza de pedra, o vizo-rei jogou com a gratidão e o receio do soberano a quem, no ano de mil quinhentos e três, os portugueses tinham ajudado a vencer o exército do Samorim de Calecut, livrando-o da sua vassalagem e fazendo dele um rei muito mais poderoso. Em paga desse auxílio, Huriabem26 permitira aos primos Albuquerque a construção de um forte de madeira na boca do rio, o lugar escolhido pelo feitor Diogo Fernandes Correia, por ter uma bela baía onde se poderia fazer um amplo porto para carregar as naus. Ao longe, os três grandes rochedos, dispostos em fileira e seguindo a linha da costa, pareciam sentinelas vigilantes.
Pela sua privilegiada situação, a sul de Calecut, Cochim era a escolha óbvia para capital da Índia portuguesa, necessitando para tal de uma fortificação de pedra e cal, defendida por muralhas, uma forte artilharia, sustentada por uma boa povoação de gente lusa com cristãos da terra que, em pouco tempo, se convertesse numa cidade populosa e próspera.
D. Francisco de Almeida viera determinado a fazê-la, recorrendo a todos os meios pacíficos, como odiaas27, peitas e promessas de futuros benefícios, para vencer a relutância d’el-rei Huriabem, o qual, muito embora predisposto a satisfazer todos os pedidos dos seus aliados cristãos, achava que uma construção muralhada, armada com grossa artilharia seria uma clara manifestação de medo face aos seus potenciais inimigos e, portanto, uma grande perda da sua honra. Para mais, querendo o vizo-rei construir edifícios cobertos de telha, um privilégio de que em todo o Malabar apenas gozavam as casas dos reis ou os templos dos seus pagodes28 e que, por uma antiga lei de Calecut, era também interdito aos pouco poderosos reis de Cochim, que se arriscavam a perder o reino em caso de desobediência.
Não querendo de nenhum modo agravar quem lhe concedera o monopólio da pimenta, carregando-lhe em cada ano todas as naus do reino com a preciosa especiaria, D. Francisco fingira acatar a determinação do soberano e fizera construir uma grande povoação de muitas ruas com casas de madeira sobradadas29, cobertas de palha ao modo malabar, onde também havia boticas e tendas da gente da terra que vendiam toda a sorte de coisas de comer, boas e baratas. Ao mesmo tempo, peitava em segredo os caimais – os seus duques e condes –, bem como os regedores do reino, fazendo-lhes grandes honrarias e cumulando-os de presentes; como o seu filho Lourenço conquistara a amizade do príncipe herdeiro, que lhe chamava irmão, contava ter nele um formidável aliado.
O rajá, todavia, não se decidia a satisfazer-lhe o pedido e o vizo-rei recorreu a remédios mais extremos. Mandou a alguns dos seus homens de confiança que escondidamente fossem lançar fogo às casas de madeira dos portugueses e da feitoria (que mantinha vigiadas para não deixar o fogo alastrar e consumir as mercadorias armazenadas), recompensando os donos pelos seus prejuízos à custa do rei Huriabem que lhes pagava os soldos. Por fim, fizera incendiar a sua própria casa e a igreja, que deixara arder até ao fim, para ter maior razão de queixa contra os mouros de Calecut que, a mando do Samorim, queriam escorraçar de Cochim os portugueses que defendiam el-rei contra os seus inimigos.
Nessa tarde, apresentara-se com o seu filho na corte do rajá, para agradecer a preocupação e o pesar que Sua Alteza manifestara pelo desastre. Apesar de muito moço, D. Lourenço ganhara o cognome de Aquiles Português, por ser um formidável guerreiro e se mostrar indestrutível em combate, com a sua armadura branca e a portentosa alabarda. Quando ia aos paços reais, nunca deixava de levar a arma, por saber quanto a sua vista maravilhava o próprio rei, que sempre lhe pedia para fazer algumas demonstrações com ela.
– Não haverá mais trabalho nem medo do fogo – anunciara o príncipe, indicando D. Lourenço que se mantinha respeitosamente atrás de seu pai –, porque este valente cavaleiro me confirmou que vem para o matar com a sua poderosa alabarda.
Era a arma mais espantosa que gentios e mouros alguma vez haviam visto no Oriente: uma haste grossa, chapeada com uma barra de ferro, dourada e retorcida em redor dela, com uma lâmina de quase meio côvado30 de comprimento, tendo no revés um bulhão ou punhal de três pontas e um punção roliço; na outra extremidade da haste, brilhava o aço de um ferrão quadrado, também de meio côvado. Era tão pesada que nenhum outro homem na armada a conseguia menear.
– E como haveis de o matar? – perguntara el-rei, rindo.
– Senhor, de um só golpe todo o matarei. Assi! – respondera D. Lourenço e, levantando a alabarda, desferira um golpe no chão com tamanha força que a lâmina toda se meteu pelo sobrado dentro, arrancando muitos aplausos e brados de espanto aos assistentes.
– Não há dúvida que com tal golpe já todo o fogo será morto – felicitara-o Huriabem, encantado.
– Senhor, eu bem vejo que não posso escapar das chamas – dissera D. Francisco, em tom de profunda tristeza, aproveitando a boa disposição d’el-rei e dos cortesãos para apresentar um novo pedido. – Mais tarde ou mais cedo, o fogo queimará as casas onde guardo as fazendas d’el-rei de Portugal, vosso irmão, e os aparelhos dos navios da armada, que será a maior perda. Eu fui criado na guerra e nunca tive receio dela, mas agora tenho medo do fogo que qualquer mouro de Calecut me poderá pôr na porta, o que não me deixa repousar nem de noite nem de dia. Rogo a Vossa Alteza, por grande mercê, que, em lugar das casas de canas e ola31 que nos arderam, mas deixe fazer de pedra e telha, à nossa maneira, onde tudo esteja seguro. Porque, se o não puder fazer, ainda que eu e todos os portugueses estejamos prontos para morrer por vosso serviço, teremos de ir invernar em Angediva.
Huriabem acabara por ceder aos rogos do príncipe e dos caimais, para que não fizesse inimigos daqueles poderosos estrangeiros que o haviam socorrido na guerra, e dera o seu consentimento ao vizo-rei para a construção da fortaleza em pedra, com a condição de não cobrir imediatamente os edifícios com telha, a fim de não escandalizar os seus súbditos. D. Francisco lançara logo mãos à obra, pondo a gente comum e os fidalgos a trabalhar lado a lado, sem lhes dar descanso, a acartar e assentar pedra, a escoar com baldes a água das fundações, que eram muito próximas do mar, ou a fazer qualquer outra tarefa necessária. O rajá e o príncipe vinham visitar as obras e pasmavam de ver os fidalgos cobertos de lama a partir pedra ou vergados sob o peso de cestos e baldes.
– Nobres cavaleiros a trabalharem como escravos! – exclamara Huriabem. – Quem me dera ser rei de tal gente que assi se sacrifica pelo seu soberano, mesmo quando se acham no outro lado do mundo, longe das suas vistas!
– Só lhes faz bem, Alteza – rira-se o vizo-rei –, porque ficam com os braços mais compridos, o que lhes dará vantagem na guerra, quando empunharem a espada ou a lança.
Vestido, como sempre, de um saio32 de lã e boleta aberta do mesmo tecido, carapuça branca na cabeça e uma caninha na mão, D. Francisco distinguia-se pela simplicidade do trajo e nobreza da figura, a percorrer a obra cada dia, provendo a todos e tudo vigiando. Dava pressa aos homens, ansioso por terminar os panos das muralhas e as fortificações, não fosse o rajá mudar de aviso e suspender as obras, escondendo as bombardas que mandava trazer desmontadas das naus, durante a noite, para não criar alarme nos gentios e mouros que poderiam denunciá-lo a Huriabem.
A conclusão dos trabalhos, em tão breve tempo que aos próprios construtores admirara, fora festejada com procissão, muitos comeres, música e danças de moças gentias.
– E Iria? Que parte teve nessa história? – pergunta a mulher do mercador, enfadada com os desvios que os homens davam constantemente à saborosa prática sobre as cativas, para murmurarem das invejas dos capitães e das lutas pelo poder. – Contai-nos, por vossa vida, o resto da sua lenda.
– De início, como vos disse antes, a vida parecia correr-lhes bem, mas quando começaram as guerras entre Afonso de Albuquerque e o bando de Cochim, Iria Pereira apartou-se de António Real ou ele dela.
O som de um apito interrompe-o e o grumete, que acaba de virar a ampulheta, diz com voz entoada:
– Uma hora passou,/ outra começou/ melhor há-de ser/ se Deus quiser. – E logo brada: – É meia-noite. A pé, grumetes, qu’é o quarto da modorra, a pé!
Por momentos a Cisne anima-se com o movimento dos matalotes que trocam de turno e alguns dos assistentes erguem-se com pena de deixar a história por acabar. Bento Castanho conforta-os:
– Vejo que se fez tarde, meus amigos. Ide dormir, que amanhã aqui estarei para contar a história de Iria, se houver quem ainda me queira ouvir.
Com muitos risos, bênçãos de bem haja!, Deus vos bendiga! e desejos de uma santa noite, todos se recolhem às câmaras, catres ou recantos onde têm lugar para estender a esteira ou a rede de dormir.
– Céu salteado, vento fresco e variado! – entoa ao longe uma voz, que muitos já não ouvem.
21 Rota, navegação.
22 Turcos de Constantinopla.
23 Povo de raça mongólica, aparentados com os tártaros, que se estabeleceu no Indostão, reino de Deli (da palavra persa mughal).
24 Geógrafo.
25 Homem que faz tratos comerciais, mercador.
26 Também denominado Nambeadora pelo cronista João de Barros.
27 Presentes diplomáticos, feitos pelas embaixadas aos reis, aos grandes senhores e principais autoridades.
28 Na Peregrinação, pagode tanto pode significar templo como representação do deus, o ídolo.
29 Com mais de um piso e soalho de madeira.
30 Antiga medida de comprimento equivalente a três palmos, cerca de sessenta e seis centímetros.
31 Folhas de uma certa palmeira que serviam para a cobertura dos edifícios.
Só as casas dos reis e os templos podiam ser cobertos de telha.
32 Saio – camisa até aos joelhos, de mangas largas, usada pelas classes baixas.
Quando falares, cuida que tuas palavras sejam melhores que o silêncio
(hindu)
Carta de Afonso de Albuquerque a el-rei D. Manuel:
Senhor: Vossa Alteza me culpa, me culpa, me culpa em algumas cousas de cá da Índia, e creio que será por má informação que vos de mim darão algumas pessoas, com inveja e dor de meus feitos e meus serviços.
Os que vos estas cousas escrevem, não andam em minha companhia, nem me vêem o rosto, nem são companheiros em meus trabalhos, perigos e fadigas, nem vestem as armas, mas querem ganhar autoridade em vos escreverem mil enganos e falsidades; pronosticam e profetizam, falam com feiticeiras que lhes digam o que está por vir, e ajuntam toda essa massa, de que fazem esse pastel que lá mandam a vossalteza cada ano e não vos deixam tomar verdadeiro assento nas cousas de vosso serviço, nem determinar o caminho que quereis que leve o negócio da Índia.
Digo-vos, senhor, isto, porque se bem olhardes vossos regimentos e determinações, cada ano vem um contrairo ao outro, e cada ano fazeis uma mudança e haveis novo conselho, e a Índia não é o castelo da Mina, para cada ano bulirdes com ela, porque há nela muito grandes reis e senhores que s’esforçam a vos defender que não segureis vosso estado nela, nem vos façais forte na terra, nem lhe ganheis os lugares principais; e estão confiados que haveis de leixar a Índia
E vossalteza ajuda-os a seu propósito, porque uma hora pondes um emplastro para este feito vir a furo, outra hora lhe pondes defensivos que não crie matéria; e tanto pode vossalteza ir por este caminho, que dareis com todo feito no chão.
De Cananor ao primeiro dia de Dezembro de 151333.
Passavam já três relógios do quarto da prima34 quando Bento Castanho recomeça a saga de Iria Pereira e Fernão Mendes semicerra os olhos e deixa-se ir, no sabor das palavras do narrador, ao encontro do passado e daquela valente mulher, para lhe imaginar a vida e a luta em Cochim, longe da família que a trouxera ao mundo e da terra onde deixara as suas raízes.
Iria Pereira tomara a longa navegação do reino para a Índia, sete anos antes, como castigo e expiação dos seus pecados, sofrendo sem um queixume um terrível martírio durante mais de sete negregados meses escondida na S. Jerónimo, a nau de D. Francisco de Almeida, o vizo-rei da Índia. Muitos homens fortes haviam sucumbido às agruras da infernal viagem e só por milagre da misericordiosa Santa Iria, sua protectora, é que ela não morrera nem tivera um desmancho, encafuada num buraco malcheiroso, para não denunciar a sua presença, contando apenas com a ajuda do primo, presa de terríveis vagados que ora a deixavam prostrada, como desacordada, ora a faziam botar a comida e o estômago pela boca, mareada de morte.
O último mês de viagem – Outubro de mil quinhentos e cinco –, coincidira com o fim da sua prenhez e, apesar do incómodo peso e do calor, fora menos penoso do que os anteriores. Por terem partido de Lisboa em Novembro, sofrera o primeiro Inverno quase até Cabo Verde, logo seguido de um Verão de grandes calmas, ao passarem a linha equinocial; contudo, fora muito pior o segundo Inverno, cerca do cabo da Boa Esperança, quando nevou no dia de S. João e seguintes, com tanta força que os grumetes passavam horas a lançar a neve dos navios às pazadas. O vizo-rei e os demais fidalgos não saíam dos seus aposentos, assando-se aos braseiros, por ser menor o perigo do fogo, e os homens que andavam nas fainas traziam todos os seus fatos vestidos, em camadas sobrepostas de saios e gibões, bragas e calças, botas, borzeguins e sapatos, barretes, boinas e sombreiros, e até cabeleiras de vestir35! Iria fizera outro tanto, mas quase perdera os dedos das mãos e dos pés.
Depois adviera medonha tempestade quando, para fugir do frio, se tinham acercado de terra: ondas altíssimas pareciam querer engolir as naus e, no seu esconderijo, sobrepondo-se ao bramido do mar e ao estrondear da trovoada, chegavam-lhe os gritos e rogos que os matalotes lançavam aos céus, encomendando a salvação da sua alma a Jesus Cristo ou a Nossa Senhora, e ela orara também em silêncio, à espera da morte. As suas vozes haviam chegado aos céus, porque o temporal amansara antes de os navios se desfazerem e serem engolidos pelos mares.
Nesse Inverno rigorosíssimo muitos homens caíram enfermos de prioris36 e febres e, juntamente com a esposa java do língua veneziano, o vigário Diogo Pereira, seu parente, e os padres da sua companhia, ela oferecera-se para ajudar o mestre barbeiro e sangrador a cuidar dos enfermos, entre os quais se achava o seu homem. Fosse por ser a companheira de António Real, que era da privança do vizo-rei, ou quiçá pelos seus bons serviços e dedicação aos doentes, ninguém a denunciara, permitindo-lhe até uma maior liberdade de movimentos durante o resto da viagem.
Após a conquista de Quíloa, a S. Jerónimo ecoara com os risos e brados dos homens a festejarem ruidosamente a vitória e o saque, a que se seguiram os gritos e prantos, logo abafados com pancadas, promessas ou ameaças, das cativas tomadas por prémio e galardão dos vencedores, que nelas cevavam o cio e o jejum de muitos meses sem conversação com mulheres, em luta diária com a morte. Feitas as pazes com el-rei, D. Francisco obrigara os homens, não sem muitos protestos e resistência, a libertar todas as mulheres e a restituí-las às suas famílias. Com a cidade segura, enquanto os portugueses faziam a fortaleza, Iria pudera desembarcar por mais de uma vez, andar pela praia e pelas ruas em companhia de António, vestida com um saio largo de homem, sentindo já o filho de ambos a germinar no seu ventre.
Com a conquista e destruição de Mombaça, Iria sentira-se no céu, em vez do inferno que até então fora para si aquela prisão do mar, como chamavam às naus os que lhes sofriam os horrores da pousada. O vizo-rei mandara anunciar com pregão em todos os navios que, das cativas ganhas no saque, os homens só poderiam levar para a Índia as que tivessem menos de doze anos, sendo obrigados a desembarcar as restantes mulheres, sob pena de grandes castigos em caso de desobediência. Com muitas crianças na S. Jerónimo, de serviço aos fidalgos e homens baixos – dando azo a cenas ainda mais pungentes e brutais do que as de Quíloa –, Iria metera-se no aposento de António, com as duas meninas mouras que ele trouxera para bordo e assim fizera o resto da viagem como se fora sua esposa, sem que ninguém lho estranhasse ou defendesse.
Apiedada das cativas, que não teriam mais do que uns oito ou nove anos de idade, tratara-as com bondade, consolando-as na sua desdita e ensinando-as a falar português, para melhor se entenderem; Zobeida e Giauhare mostravam-lhe a sua gratidão prestando-lhe toda a ajuda que podiam, para maior conforto da sua prenhez. António, pelo contrário, inspirava-lhes um verdadeiro terror ou ódio, que as fazia tremer e chorar sem tino e nem boas palavras, meiguices ou presentes logravam sossegá-las. Embora ele o não confessasse, Iria adivinhara que as meninas o tinham visto matar-lhes a família, roubar-lhes e incendiar-lhes as casas, antes de as levar à força para a nau.
Em meados de Outubro, sofrera o último sobressalto da viagem que quase a fizera parir antes do tempo, quando D. Francisco de Almeida decidira ir na capitaina castigar el-rei de Onor, queimando-lhe a frota e os navios de carga surtos no porto. O fogo pegara-se à cidade, pondo toda a gente em fuga como formigas em debandada e Iria a muito custo lograra consolar as duas cativas, a quem o estrondear das bombardas, o fumo e o cheiro da pólvora traziam à memória o inferno de Mombaça ainda tão próximo. Por fim, Timoja, o temível corsário malabar, aliado d’el-rei de Onor, viera como embaixador à S. Jerónimo para tratar da paz e fazer daquele reino vassalo de Portugal. Feliz aliança, pois Afonso de Albuquerque a ele ficaria a dever, em parte, a conquista de Goa!
Finalmente em Cochim, onde haviam desembarcado no primeiro dia de Novembro, a fortaleza de madeira, com a sua pequena povoação de casas de troncos e cobertura de folhas de palma, causara-lhe desilusão e temor. Enquanto António não era provido no seu cargo, ainda ocupado pelo oficial em funções, fora-lhe atribuída para moradia uma dessas cabanas, junto ao baluarte, onde ela vivera em contínuo sobressalto do fogo, dominando os medos para não enfadar o seu homem e acorrendo sempre ao toque do sino para combater as chamas.
Graças a Zobeida e Giauhare, não sentira solidão, apesar de ser a primeira portuguesa a pisar terra da Índia, uma proeza de que muito se orgulhava. Poucos dias após a sua chegada, apenas instalada na sua nova casa e com a ajuda das meninas e de uma parteira malabar, dera à luz o filho naquele mundo onde tudo lhe era estranho. Quase morrera de susto, quando a aparadeira gentia a lavara e ao filho, por três vezes, em água quente e fria e não enfaixara a criança, como era de uso em Portugal. Os homens fazem as leis, as mulheres os costumes!, pensara, decidida a aceitar os modos da terra que não fossem contra a sua religião e natureza e este do banho, sobretudo quando estava com as regras – o que era proibido pelos físicos portugueses como coisa prejudicial e muito perigosa – , era afinal um preceito prazeiroso que adoçava os sentidos.
Não se queixara, nem se arrependera da sua vinda, porque, se era esse o preço a pagar para estar com o homem que amava, dava por bem empregue o sacrifício. No ano seguinte, Iria assistiria maravilhada à reconstrução da fortaleza em pedra e cal, ordenada por D. Francisco de Almeida, que lograra o grande feito de convencer el-rei a dar-lhe permissão para a fazer assim forte e cobrir de telha os seus edifícios e as casas da nova povoação. Como alcaide-mor de Cochim, António tivera direito a casa dentro da fortaleza, para onde Iria se mudara com o filho e as meninas.
Decorridos já oito anos sobre esses sucessos, Iria ainda gostava de passear ao longo das ameias e varandas das suas altas muralhas, levando Diogo pela mão e contando-lhe histórias. Era uma bela construção de forma quadrada, tendo nas duas esquinas do lado da praia cubelos de dois sobrados, cobertos com pasta de chumbo e guarnecidos de ameias; nas outras duas esquinas erguiam-se as torres quadradas também de dois sobrados, o de cima para as casas do capitão e do alcaide-mor com a sua gente, o de baixo para armazéns de mercadorias grossas.
Caminhando pelas varandas que ligavam as torres, mãe e filho podiam ver, no lado de dentro, o pátio com o grande poço no meio e a casa da tranqueira que fora reforçada, onde viviam o feitor e os restantes oficiais. A porta abria para o lado do mar e, no interior, tinham construído um vasto alpendre com bancos muito bem lavrados onde o vizo-rei vinha tomar o fresco com os seus fidalgos. Já não necessitava de levantar Diogo nos braços para ele ver a ribeira em que se varavam as naus, com os estaleiros para a sua reparação e também construção de navios tão bons como os de Portugal. Agora, o menino alçava-se em bicos dos pés a olhar maravilhado para o vaivém dos elefantes de trabalho que transportavam nas trombas os pesados troncos de madeira, cortados pelos lenhadores da casta dos revolons, para os locais indicados pelos cornacas seminus escarranchados nos seus cachaços.
O filho fizera-se um esbelto rapazinho, assaz alto para a idade e de engenho muito vivo, que aos sete anos já sabia ler muito bem, embora escrevesse ainda com alguma dificuldade; em breve teria de lhe arranjar um verdadeiro mestre, pois já lhe ensinara tudo quanto sabia e o casado Afonso Álvares, que tinha a seu cargo o ensino dos meninos gentios entre os onze e os quinze anos, só servia (e mal!) para ensinar a língua portuguesa. Não desejava para Diogo a carreira das armas e jurara fazer dele um letrado ou um doutor, nem que para tal tivesse de enfrentar António.
Decidira também educar Zobeida e Giauhare o melhor que lhe permitiam o lugar e as circunstâncias em que vivia. O vigário e os padres usavam as cartilhas para ensinarem às crianças gentias a língua portuguesa e o catecismo, embora algumas orações fossem trasladadas para maliama37. As duas moças aprenderam o pater noster, a ave Maria, o credo e a salve regina em latim e em linguagem comum, como quaisquer meninas portuguesas, para poderem receber o baptismo. Por outro lado, Iria encarregara-se de lhes proporcionar outras leituras, através dos livros que trouxera ou que António lhe mandava vir do reino.
Rebelde e aventureira, de mente curiosa, estava grata ao pai que a fizera aprender a ler e a escrever, por não poder dar-lhe um dote que lhe assegurasse um bom casamento ou a entrada num convento – um destino que nem em sonhos desejava. Quando descobrira que ela se entregara a António, a mãe acusara o marido, os livros e as leituras que ele aconselhara à filha mais nova de lhe terem tirado o siso e metido em trabalhos, trazendo a desonra à família: Encheram-lhe a cabeça de fantasias e ela perdeu-se. António Real nunca a desposará sem um dote chorudo. E nós, que mal temos dinheiro para comer, como poderemos dar-lhe dote? Eu morro de vergonha!. Iria não quisera crer na mãe e, iludida pelas promessas do amante, embarcara atrás dele para aquele fim de mundo.
Caminhar pelas ameias dava-lhe sossego para pensar. Nunca fora seu costume evocar o passado ou a família, nem lamentar-se ou sentir arrependimento, mas agora chegara o momento de repensar a sua vida e tomar nas próprias mãos as rédeas do seu destino. Não sentia saudades da sua terra, aonde não desejava volver desonrada, apontada a dedo como mulher solteira com um filho, pois António não casara com ela, nem perfilhara Diogo, conforme a mãe lhe havia prognosticado. O menino fora baptizado e registado sem nenhum apelido do pai e com o Botelho no meio, para se distinguir do vigário que o baptizara e do feitor da fortaleza, seu padrinho, ambos chamados Diogo Pereira.
Reconhecia agora que António nunca pensara em cumprir a sua promessa, crendo ficar livre de amores indesejáveis ao partir para a Índia. Jamais lhe passara pela cabeça que ela o haveria de seguir naquela aventura, até a ver à beira do seu catre na nau, por altura do cabo da Boa Esperança, a cuidá-lo da febre e lhe perguntar se ela era sonho ou desvario das sezões. Nos primeiros tempos em Cochim, perdidamente enamorada e ocupada com o filho, embora estranhasse não lhe ouvir falar no casamento, ao conhecer a vida livre e sem pejo que levavam os homens e mulheres na Índia, aceitara a sua mancebia como coisa natural que haveriam de resolver no regresso ao reino.
O seu olhar pairou sobre a povoação de casas brancas com telhados vermelhos, tão distintas de todas as outras daquele mundo. Aprendera a gostar de Cochim-de-Baixo, um lugar muito aprazível, espécie de ilhota atravessada por numerosos cursos de água, com o rio principal correndo para o mar por entre bosques verdejantes de árvores de canela brava ou do mato, de gengibre e de pimenta, a qual crescia como a hera em torno de outras árvores e palmeiras ou em latadas de onde pendiam os cachos dos seus frutos. A povoação desenvolvera-se rapidamente, convertendo-se numa cidade muito populosa e rica, graças à construção de navios e ao movimento do porto com o trato da pimenta e outros produtos.
Para o interior, separada por um rio que se podia passar a vau, ficava Cochim-de-Cima, uma vastíssima urbe com casas ao modo malabar, de madeira e ola, onde vivia o rei com a sua corte e cuja população seguia a religião dos seus pagodes. Ali, todos os dias tinha lugar uma grande feira, onde vinham mercadores de todas as nações comprar produtos da região, em particular a melhor pimenta que se cultivava na Índia. Para lá dos limites desta urbe existia outro importante lugar com uma comunidade muito rica de tratantes guzarates, de que ela apenas ouvira falar, pois onde houvesse mouros, os portugueses não estariam seguros, muito menos uma mulher branca, moça e de bom parecer.
33 Fontes dos capítulos: Cartas de Afonso de Albuquerque (Academia Real das Ciências de Lisboa); Segunda Década da Ásia, livro V, de João de Barros; Mulheres Navegantes, de Fina d’Armada; outras.
34 Quarto da prima era o primeiro turno da noite, das oito horas à meia-noite.
35 Perucas.
36 Pleurisia.
37 Forma aportuguesada de malaiala, malaiálam ou malaiálim, a língua do Malabar, da família dravídica, a que também pertencia o tâmil.
O homem é o seu próprio demónio
(hindu)
Carta de António Real a el-rei Dom Manuel:
O serviço que vosso capitão-mor [Afonso de Albuquerque] fez, depois que veio de Malaca, é este: meter-se nesta fortaleza com quarenta ou cinquenta putas, que, logo como chegou, mandou por elas a Goa, e outras que trazia de Malaca; e meteu-se com elas todas em uma torre, sem nunca sair, nem lhe poder falar homem nem mulher, nem requerer nada .
E, para verdes, senhor, quão bem guardada deixou esta fortaleza, levou toda a gente consigo e não deixou ninguém; e na torre da menagem, deixou todalas suas quarenta ou cinquenta putas, taipadas, e com capados dentro, em guarda; e por porteiro um Gonçalo Afonso, mealheiro; e deixou-lhes, para passearem, além da torre da menagem, toda uma sala e dous cubelos, sem nunca as ver ninguém, que não sei mosteiro de freiras tão encerrado; e eu pouso em um cubelo, sobre a porta, donde faço minhas vigias.
E estes são os homens que aqui deixou para guardarem a fortaleza; e diz que as tem assi guardadas para as casar; e ele não casa senão as que anda tomando aos homens que as têm em suas casas, criadas de pequenas, porque as suas todas que tem, com todas dorme, e Mafamede não teve tal vida.
E umas duas moças que eu tinha, que me ele não deu, e eu tomei por minha lança em Mombaça, sorraticiamente mas trazia enganadas, com suas embaixadas, que lhes mandava, que casassem a furto com alguém, e que seriam forras. Pelo qual, sendo eu uma noite a tirar a nau Enxobregas em terra, mandou um seu negro e outros seus moços que saltassem com elas e as recebessem, e que ele faria bom o casamento. Então me saltaram em casa, e me roubaram algumas cousas, que achei menos, e as receberam.