Dos que menos o mar sofrer podiam,
Quatrocentos ouvi que estes seriam.
A nau de Pêro de Faria fora das primeiras a chegar a Diu, escapando ao pior da tempestade que quase desbaratara a armada do vizo-rei. De certo modo, o milagre acontecera por obra e graça de Fernão Mendes Pinto a quem o doutor Garcia de Orta dera quatro sanguessugas das que tinha no hospital para sangrar os doentes. O sábio amigo metera cada uma em seu frasco de vidro, com água de nascente até dois terços de altura, fechara-os com umas tampas de respiradouros, dizendo-lhe que as bichas eram as melhores indiciadoras das mudanças de tempo, sobretudo das tempestades que se podiam sofrer durante a navegação por aqueles mares traiçoeiros. Fernão aceitara a oferta, um tanto desconfiado, embora ouvindo com atenção as suas explicações sobre o que devia observar para prever os temporais.
Em boa hora o fizera, porque, devido aos vagares que D. Garcia de Noronha levava no caminho de Goa para Diu, alguns navios, entre os quais a nau de Pêro de Faria, tinham-se distanciado da armada. O tempo começara já a mudar e, cerca do golfão de Diu, as sanguessugas que no início da viagem se mantinham enroladas no fundo do frasco, em sinal de bom tempo, ao terceiro dia começaram a nadar de um lado para o outro, anunciando o vento que não tardara a soprar. Assim, quando as vira amarinhar pelas paredes do frasco, a contorcer-se loucamente fora da água, como se quisessem fugir, Fernão percebera que, em breve, iria cair sobre a nau uma violentíssima tempestade e correra a prevenir o capitão. Pêro de Faria não perdera tempo e navegara a todo o pano para Diu, onde chegara já debaixo de intensa chuva e ventos rijos, porém com a nau incólume.
Ao desembarcarem em Diu, mal podiam crer nos seus olhos, vendo os baluartes todos por terra e os muros da fortaleza tão esventrados que se podia entrar neles como por uma nau. Fernão sentiu um arrepio de medo, de mistura com o alívio de não ter passado por tamanhas vicissitudes como as que atestavam aquelas ruínas. Cada um dos defensores, homem ou mulher, era digno de registo nas crónicas do reino, merecedor de real recompensa, contudo, sendo a sua pátria ou os que a regem tão ingratos para com os seus filhos de maior valia, pouco haveriam de receber de prémio ou galardão. A sua única recompensa seria o terem escapado com vida daquele inferno.
Sete dias mais tarde, foram chegando os navios da armada que o temporal dispersara por muitas partes; a maioria trazia rombos no casco, os mastros quebrados, as velas rotas, a artilharia perdida, lançada ao mar como lastro. Os homens desembarcaram a maldizer e a praguejar contra o vizo-rei, cuja ganância os fizera perder o bom tempo e a muitos companheiros a fazenda e a vida:
– O malparido esteve dias a fio em Chaul e em Baçaim, sem sequer desembarcar, somente a tratar do seu proveito. Má gafeira que lhe dê! Todo o seu feito é sacar dinheiro aos moradores, assim como aos estrangeiros, tirando a uns para entregar a outros que lhe dão peitas.
– Rogo eu a Deus que má dor lhe venha! Fez com que se perdesse a galé bastarda do seu próprio filho, D. Álvaro, de que por milagre os homens se salvaram em camisa que tudo o mais se afundou. E a galé Espinheiro, do capitão João de Sousa, o Rates, também se perdeu e nela só não se afogou mais gente, além dos escravos que estavam presos aos bancos, porque o moço D. Cristóvão da Gama, o filho do almirante descobridor da Índia, os salvou com a sua nau a muito custo.
– Só as perdas desses dois navios, com os seus escravos e bombardas, mais a artilharia alijada ao mar pelos outros navios, passam de trinta mil cruzados. O demo parece que se chantou no vizo-rei, que já ninguém o pode sofrer! Traz muito pouca gente nestes cinquenta navios, porque sempre que se chegou com a armada perto de terra, os homens desembarcaram aos magotes e já não volveram aos navios.
Fazendo-se desentendido das murmurações e ódios, quer dos fidalgos quer da gente baixa, D. Garcia de Noronha reinava em Diu como lhe dava na vontade, segundo os seus interesses, distribuindo cargos, postos e benefícios de acordo com as suas inclinações ou amizades, amealhando favores e riquezas. Como António da Silveira lhe disse que el-rei de Cambaia sondara o terreno para o concerto de paz, o vizo-rei, ansioso por alcançar maior proveito para si, expedira sem demora embaixadores a Alucão, com recado de que esperava os enviados d’el-rei para se assinar o tratado. Mandou lançar pregões da outra banda do rio, concedendo seguros com muitos privilégios a todos os mercadores e moradores da cidade que quisessem voltar para as suas casas, a fim de povoar de novo a cidade que estava deserta.
António da Silveira partira para o reino, não sem antes ter sofrido em Goa mais uma humilhação dos invejosos oficiais da Coroa, que procuraram manchar a honra do capitão, que gastara na Índia muito mais da sua fortuna pessoal do que o que recebera em pagamento pelos seus serviços, para poder prover os homens que tinha sob as suas ordens.
Para que os homens de sua obrigação não chegassem ao reino de mãos a abanar, mais pobres do que haviam partido, Silveira mandara carregar um paiol da nau Santo António com as arcas deles que, em segredo, enchera de mercadorias para cada um vender em Lisboa com muito proveito. O vedor da Fazenda denunciara-o a Pêro Lopes de Sousa, e foram ambos fazer uma devassa à nau. Ao verem o paiol atravancado com as arcas dos soldados, deram ordens para que as deitassem logo fora e, em seu lugar, metessem fardos de pimenta. O capitão sentira muito a afronta, dizendo com ironia, para quem o quisera ouvir:
– O vedor da Fazenda e Pêro Lopes de Sousa não fazem el-rei mais rico com esta pimenta, o que fizeram foi mostrar-se bons servidores! Folgo porque no paiol não acharam mercadorias defesas70, senão as arcas de muita pobreza dos homens que ganharam a fortaleza de Diu às lançadas, aos quais eu quero bem como a meus próprios irmãos, pelo que lhes vi fazer, pelejando com os rumes. Se Pêro Lopes o vira, ele os estimara como eu, mas esta maldição há-de morrer com a Índia: enquanto o povo e os pobres homens trabalham, os grandes levam o proveito e o seu suor, de que Deus ouvirá os seus gemidos.
Escrevera a el-rei, fazendo-lhe muitas queixas pelo modo injusto como eram tratados os homens que mais serviços prestavam a Sua Alteza, com risco das próprias vidas.
No rescaldo da vitória de Diu, pelo contrário, as liberalidades concedidas pelo vizo-rei aos mouros inimigos depressa deram fruto e a cidade recuperou a sua anterior animação e prosperidade, com o porto a receber as naus de trato como outrora. Sabendo que as pazes assinadas entre D. Garcia de Noronha e el-rei de Cambaia haviam sido muito mais proveitosas para os vencidos do que para os portugueses (o que causara grande paixão e escândalo a António da Silveira e aos que tão caro haviam pago a vitória), os rumes que tinham andado a monte no sertão depois da fuga do capado, aproveitando o seguro concedido pelo vizo-rei, regressaram com os moradores. Tomando tal concerto de paz como sinal de fraqueza dos cristãos, recomeçaram com as provocações, os conflitos e confrontos, sempre que se cruzavam com qualquer português que fosse passear ou fazer tratos à cidade, causando frequentemente brigas com feridos ou mortos de parte a parte.
Todos trabalhavam na reedificação da fortaleza, estando os baluartes e troços de muralhas repartidos pelos capitães da armada com os seus soldados, matalotes e escravos. Por Pêro de Faria ter muita gente na sua nau, porque ninguém tinha desertado com o desejo de ir no seu serviço para Malaca, destinaram-lhe a reconstrução do baluarte do mar com a couraça da banda da terra, na parte mais difícil de trabalhar, o qual, apesar de ser o mais danificado, foi refeito e melhorado em apenas vinte e seis dias pelos seus trezentos homens, com o contributo de todos os seus oficiais, dos fidalgos seus parentes.
Terminado o trabalho, aprestavam-se para a partida, tendo Faria recebido ordens do vizo-rei para se prover em Goa de mais navios, gente e provisões que necessitasse de levar para Malaca, a tempo da monção. Fernão despedia-se de Diu, revisitando os lugares que vira antes e, depois do cerco, ajudara a erguer das cinzas, sentindo-se orgulhoso da obra feita, mas também ansioso por partir, pois ali nada mais ganhara do que o soldo.
A estadia valera pelo convívio, a fraternidade criada entre os recém-chegados e os cercados, que não lhes censuravam a demora do socorro, sabendo que a culpa não era deles mas de quem mandava. Fernão fizera amigos, como António de Azevedo, o capitão do baluarte do mar.
Querendo dar-lhe uma mostra da sua estima e um presente de despedida, o capitão convidara-o com outros dois companheiros para uma montaria ao javali, organizada por alguns mouros da cidade seus amigos, na quinta de Meliquiaz onde outrora pousara o sultão Bahadur. Conseguida a licença do capitão da fortaleza, tinham partido ao nascer do sol, levando um bom número de escravos carregados com muita comida e bebida, a fim de passarem umas horas de desenfadamento, em boa companhia.
Chegados à coutada, os criados armaram o acampamento num formoso arvoredo onde, depois de algumas horas de montaria, terminada com a morte de um porco selvagem, os caçadores se vieram deitar à sombra das árvores para comer, conversar e repousar. Os cinco mouros amigos de Azevedo eram gente nobre e de muita polícia71, todos bons caçadores. Falavam a língua franca, uma mistura do guzarate com o português, usada na terra tanto pelos moradores e mercadores da cidade, como pelos portugueses da fortaleza, sem necessidade de intérpretes.
Só deram por eles quando já estavam cercados pelo bando de quinze rumes, armados de terçados, machadinhas, arcos e flechas. Os olhares e sorrisos de mofa que lhes deitam não deixam dúvida quanto às suas intenções: provocar uma briga para matar os cristãos com os mouros que sejam tão loucos que ousem tomar o partido dos inimigos da sua lei. Longe da fortaleza e da cidade, os portugueses eram mais vulneráveis e os crimes ficavam quase sempre impunes.
Sem aguardarem por saudação ou convite, começam a servir-se, comendo do que lhes apetecia, insultando-os, por entre risos, com palavrões em português decerto aprendidos durante o cerco:
– Capados! Cornudos!
– Judeus! Infiéis!
Os mouros amigos repreendem-nos, dizendo-lhes para não importunarem os estrangeiros, que as pazes estavam concertadas, mas eles mandam-nos calar, chamando-lhes traidores e renegados, por terem conversação com cristãos infiéis. Com mãos nervosas agarram os punhos dos machados e das espadas, à espera de um pretexto para os acometer. Agastados por não terem a resposta desejada aos insultos, os arruaceiros recrudescem em violência, entornando o vinho e a comida, quebrando bacias e jarros.
Quando Fernão recebe em cheio no rosto o vinho de um pichel lançado com ódio, António de Azevedo diz, forçando um sorriso, antes que algum dos companheiros puxe da arma:
– Nada de brigas, amigos, que são quatro contra um. Tratai de rir com eles, inda que nos dêem bofetadas. Juro-vos que hão-de pagar caro esta afronta!
Fazendo das tripas coração, sofrem as injúrias, com que os bragantes não cessam de os mimosear, como se fossem graciosos cumprimentos, rindo e chalaceando com os mouros amigos, dizendo-lhes para não se agastarem, pois tudo era feito por zombaria, sem maldade.
– São horas de volver à cidade – atalha o capitão, para pôr fim à provocação, ordenando aos escravos que levantem o acampamento e levem para a fortaleza o javali morto.
Com medo de alguma cilada dos rumes, decidem seguir para a cidade em companhia dos mouros, que se mostram muito anojados daquele mau encontro, desculpando-se por não terem lutado para os defenderem.
– Seríamos todos mortos, eles são muito mais – consola-os Azevedo. – Contudo, este incidente não será esquecido.
Os rumes, vendo-os partir na companhia dos mouros, desistem de os seguir, tomando outro caminho, sempre em grande galhofa, a chamar-lhes cobardes, mulheres barbadas e outras injúrias. O capitão manda o seu moço de confiança atrás deles a espiá-los, até à Vila dos Rumes, para descobrir onde moram.
De regresso ao baluarte, António de Azevedo conta a outros companheiros a injúria que tinham sofrido e logo quatro deles se lhes juntam para a vingança.
– Se não lhes dermos uma lição, nunca mais teremos sossego em Diu.
– Se virem o desaforo dos rumes quedar sem castigo, os mouros da cidade ficarão tão soberbos como antes do cerco e matar-nos-ão ao menor pretexto.
Nessa tarde, os oito vestem saios de malha de aço por baixo das roupas e, bem armados, ficam à espera que o vigia lhes mande aviso da vinda dos rumes à cidade, como é seu costume. A espera é recompensada com a chegada de sete arruaceiros à praia, para tomarem os batéis que fazem a travessia para a cidade, onde vão festejar com os seus amigos a surriada que fizeram aos portugueses.
– Ide embarcar com eles – diz Azevedo aos quatro companheiros que os rumes não conhecem. – Durante a travessia fazei os remeiros levar o barco ao cubelo, nem que para isso tenhais de usar da força, porque nós estaremos prestes para os fisgar.
Os rumes embarcam com alguns mercadores mouros e, atrás deles, entram os quatro portugueses, como sempre fazem os da fortaleza quando pretendem ir à cidade. Ao mesmo tempo, António de Azevedo, Fernão e os companheiros da montaria vão tomar outro batel, um pouco mais acima do rio, para que os turcos, sobretudo o chefe que esteve no mato, não desconfiem da cilada.
A meio da travessia, os portugueses ordenam aos remeiros que os deixem no baluarte do mar e os homens apressam-se a obedecer, porém, os rumes logo lhes bradam que sigam para a cidade. O barqueiro, cheio de medo por se ver entre dois fogos, desculpa-se de ser forçado a obedecer aos portugueses para que estes lhes não façam mal.
Os turcos põem-se de pé, a arregaçar as mangas e a torcer os bigodes de fúria, soltando grandes gritos e pancadas nos remeiros para os obrigarem a seguir o seu caminho. Os portugueses desembainham as espadas e lançam-se sobre eles em defesa dos remeiros, desferindo cutiladas que os rumes aparam e devolvem com igual destreza.
Cheios de terror por se verem metidos à força em tão medonha briga que faz oscilar o batel como em dia de temporal, os mouros atiram-se ao mar e António de Azevedo, que entretanto se acercara com o seu barco, grita-lhes que nadem para o baluarte sem medo, que ninguém lhes fará mal, porque a pendência não é com eles. Emparelhados os batéis, o capitão salta para o dos rumes, seguido por Fernão com os dois companheiros.
– Agora as partes são mais conformes – brada-lhes, fazendo sinal ao português que acabara de receber uma cutilada para recuar e, olhando o rume que encabeçara a arruaça na montaria, aponta para si e para os seis companheiros, a mostrar-lhe que não quer qualquer vantagem.
O combate não é demorado, saldando-se por algumas feridas sem grande gravidade dos portugueses e pela morte de cinco rumes, além de dois prisioneiros – o chefe do bando e um dos que tinha estado na caçada. Azevedo leva-os para o baluarte, onde já se acham os mouros recolhidos do mar pelos seus homens. O capitão desculpa-se por lhes ter causado tamanho susto e conta-lhes a razão daquela briga, as injúrias que os seus amigos portugueses e guzarates haviam recebido do bando de arruaceiros que assim os provocara para ter ocasião de os matar.
– Foi ou não assi? – pergunta ao rume na língua franca.
– Sim – respondeu o outro, cheio de soberba. – Pena foi não teres então falado, que logo ali mo pagarias.
– Nós éramos só quatro portugueses e vós quinze velhacos – retorque-lhe António de Azevedo, irado com a desfaçatez. – Por isso o pagarás agora.
A uma ordem sua, os escravos negros matam-no com uma machadada na cabeça e fazem-no em postas que metem em salmoura, como de conserva, numa pipa velha. O capitão manda-os deitar as tripas ao rio, mas recomenda que lhe guardem a fressura.
– Faz-me uma assadura desses fígados – ordena ao negro que o matara, quando terminam a chacina – e traz-mos logo aqui, que os queremos comer. O combate fez-nos fome.
O escravo corta o fígado em vários nacos que enfia num espeto e leva para a cozinha. Os guzarates, horrorizados, pedem licença para se retirarem, porém, Azevedo diz-lhes, num tom que não admite recusa, desejar muito que eles assistam até ao final daquela sentença, para verem como ele exerce uma justiça exemplar.
Na cozinha, com muitos frouxos de riso pelo logro que fazem aos mouros, os negros deitam fora o fígado do turco, segundo as ordens secretas do capitão, substituindo-o pelo do porco, que assam no espeto e levam, junto com outros comeres, à mesa onde António de Azevedo está sentado com os sete companheiros para almoçar. Todos comem da espetada de fígado, zombando dos rumes e bebendo à vitória.
Terminado o repasto, o capitão deixa sair os guzarates e com eles o rume sobrevivente, mais morto do que vivo, para irem contar o que tinham visto. Durante dias não se falou de outra coisa, tanto na cidade como na Vila dos Rumes, e foi tal o espanto e horror que ninguém mais ousou meter-se com qualquer português, mesmo que fosse sozinho pelos matos ou andasse de noite por becos e travessas escusas.
Sendo os portugueses tão poucos, para mais espalhados por tanto mundo, a viver no meio de tantos inimigos traiçoeiros, se queriam sobreviver, não só precisavam de se impor pela força, como ainda deviam mostrar-se piores do que eram, fazendo correr muitas histórias de vinganças e castigos ferozes como aquele, para que os temessem e não ousassem causar-lhes danos.
Na nau de Pêro de Faria, ao lado do valeroso D. Cristóvão da Gama – que vai ao encontro do irmão D. Estevão, o capitão de Malaca cessante –, Fernão Mendes Pinto vê Diu perder-se na distância e sente-se ufano por ter participado naquela mirabolante aventura, se bem que a reputação de comedor de homens não seja fama de que propriamente se possa orgulhar.
70 Proibidas, por serem monopólio da Coroa.
71 Civilizada.
LIVRO III
MAR AUSTRAL
SAMATRA
AUREA CHERSONESO
Suvarnabhûmi ou a Terra do Ouro72
Está a ilha posta e encaixada no mar, como uma cunha, entre esta terra firme do Malaio, e todas as outras costas, e ilhas de Java, e outras muitas, como Ternate, Timor e Bornéu; as de Banda e as de Maluco e outras que para esta parte do sul lá se navegam, assim dos que vêm da Índia para Malaca, que todos vêm pela banda de dentro de Samatra, e a terra firme, que será de terra a terra doze até catorze léguas de travessa ; porque pela outra parte de fora atégora não é navegada, nem dos naturais da terra, nem de outros peregrinos ou estrangeiros.
Entra-se para dentro destoutra terra toda por um boqueirão que as águas vêm fazer, e onde se ajuntam, e apanham, onde se esgota a terra, e fenece a parte do sul de Samatra, e começa a correr para a do norte, defronte de Sunda: a que se faz esta boca, tendo uma goela em Samatra e outra na ponta da ilha de Java.
A parte de Sunda, de que o boqueirão toma sua denominação, e apelido, será a boca na entrada de largura de três léguas, ou pouco menos, e com muitas ilhas no meio, sem conto, altíssimas, e de muito espesso e grande arvoredo, e outros ilhéus infinitos.
Correm aqui as águas tanto, e saem com tamanho ímpeto e fúria para o mar oceano, donde nós vínhamos, que parece cousa monstruosa de ver, e incredível muito mais de contar.
(Relação da Viagem e Naufrágio da Nau S. Paulo, escrita por
Henrique Dias, em no ano de 1560)
72 Na Peregrinação, Fernão Mendes Pinto narra as suas aventuras nestes mares nos capítulos XIII a XXXII.
I
O que vai na frente junta tesouros, o que vai atrás procura-os em vão
(maori)
Carta de Afonso d’Albuquerque a El-Rei D. Manuel, 1 de Abril de 1512:
Também vos vai um pedaço de padrão73 que se tirou de uma grande carta de um piloto de Java, o qual tinha o Cabo da Boa Esperança, Portugal e a terra do Brasil, o Mar Roxo e o Mar da Pérsia, as ilhas do cravo, a navegação dos chins e gores, com suas linhas e caminhos direitos por onde as naus iam, e o sertão74, quais reinos confinavam uns com os outros.
Parece-me, senhor, que foi as melhor cousa que eu nunca vi, e vossalteza houvera de folgar muito de a ver; tinha os nomes por letra java e eu trazia [um] jau que sabia ler e escrever; mando esse pedaço a vossalteza, que Francisco Rodrigues emprantou sobre outra, donde vossalteza poderá ver verdadeiramente os chins donde vêm e os gores, e as vossas naus o caminho que hão de fazer pera as ilhas do cravo, e as minas do ouro onde são, e a ilha de Java e de Bandam, de noz moscada e maça, e a terra d’el-rei do Sião e assi o cabo da terra da navegação dos chins, e assi pera onde volve, e como dali adiante não navegam.
A carta principal se perdeu na Frol de la Mar: com o piloto e com Pêro d’Alpoim pratiquei o sentir desta carta, pera lá saberem dar razão a vossalteza; tende este pedaço de padrão por cousa muito certa e muito sabida, porque é a mesma navegação por onde eles vão e vêm: mingua-lhe o arcepedego das ilhas que se chamam Celate, qua jazem entre Java e Malaca.
Pêro de Faria chegara a Malaca uns meses antes de D. Estêvão da Gama terminar o seu tempo na capitania e seguir para Goa como governador do Estado da Índia. Embora D. Vasco da Gama o tivesse escolhido para mestre de armas deste seu segundo filho e Faria prezasse muito o seu pupilo, dez anos volvidos, por razões que Fernão Mendes desconhecia, essa amizade tinha desaparecido e, se bem que ambos o dissimulassem em público, andavam de candeias às avessas, como soe dizer-se. Para não tropeçarem um no outro, na fortaleza, Pêro de Faria, que já ocupara o mesmo posto no ano de vinte e oito, alojara-se com toda a sua gente em casa própria, onde começara a ser visitado pelos embaixadores dos reinos vizinhos que queriam dar as boas-vindas ao novo capitão de Malaca e renovar antigas alianças.
Um desses embaixadores trouxera da ilha de Samatra um rico presente de paus de águila e calambá, cinco quintais de benjoim, com uma carta de Timorraja, o rei dos Batas, a pedir ajuda de homens e armas, contra o vizinho reino de Achem, inimigo seu e dos portugueses. Pêro de Faria não desperdiçara a ocasião de favorecer os seus próprios negócios, determinando logo enviar-lhe uma embaixada com a sua resposta, um mero pretexto para levar a cabo o que verdadeiramente pretendia: espiar a terra, fazer tratos com os seus mercadores e obter do aflito soberano benefícios nos tributos das mercadorias.
Não tendo ainda tomado posse da capitania, Faria fretara em seu próprio nome um jurupango – uma embarcação malaia semelhante a uma caravela pequena –, que carregara de mercadorias no valor de dez mil cruzados, escolhendo para seu feitor um mouro de Malaca da sua confiança, bom conhecedor dos mercados, que haveria de as vender em Samatra com muito proveito, conforme lhe assegurara. Em paga dos serviços prestados por Fernão na reconstrução da fortaleza de Diu, o capitão oferecera-lhe o cargo de embaixador e espia, que ele agarrara com ambas as mãos.
– Fernão Mendes – dissera-lhe –, entendes quão importante é esta amizade dos batas para o serviço d’el-rei nosso senhor e segurança desta fortaleza, que há dois anos sofreu um grande assalto das forças de Achem? Tens de concertar bem esta aliança com Timorraja, porque, com a sua amizade e os tratos que ele nos propõe em troca de pelouros e pólvora, o rendimento da nossa alfândega crescerá muito, tal como o proveito de todos os portugueses que por estes mares mercadejam.
É com essa missão que ele atravessa agora o golfo de Malaca a caminho da grande ilha, cujos costumes e falta de polícia o enchem de pavor. O reino de Pedir fora o primeiro lugar de Samatra a ser visitado pelos portugueses, no ano de mil quinhentos e nove, quando Diogo Lopes de Sequeira ali estivera a concertar pazes com o seu rei, deixando um padrão com as armas de Portugal em testemunho da sua aliança. Depois da conquista de Malaca, Afonso de Albuquerque fora a Pacem com o mesmo propósito pacífico, tendo o rei permitido a construção de uma fortaleza. Quando três anos mais tarde os achens conquistaram aqueles reinos, os dois soberanos derrotados pediram asilo aos portugueses, homiziando-se em Malaca com as suas famílias e a fortaleza foi desmantelada.
Já é sina de Fernão receber alvíssaras envenenadas e esta viagem é um risco demasiado grande para o pouco proveito que poderá conseguir, pois toda a sua fortuna não passa de uns míseros cem cruzados que mal lhe darão para comer, quanto mais para fazer tratos e enriquecer! A menos que a sorte fugidia o bafeje e ele descubra em Samatra um dos dois mistérios que mais cobiça têm despertado aos portugueses da Índia: uma carta de marear com a derrota certa para a Ilha do Ouro, como a que Afonso de Albuquerque possuíra, e o lugar nas costas de Pedir onde se afundou a sua nau, carregada com os mais ricos despojos da conquista de Malaca, destinados a el-rei D. Manuel.
O fascínio que sente por ambos os mistérios não se pode comparar a nenhuma outra coisa no mundo; chegara a tomar por um presságio de boa fortuna ter embarcado para a Índia na nau que arvorava o nome Frol de la Mar, em homenagem ao grande conquistador. O jurupango cruza precisamente as águas das costas de Aaru onde, segundo lhe disse o feitor mouro, a nau do governador se afundou e é com profunda emoção que ele recorda a história contada por Pêro de Faria do naufrágio e do tesouro que aguarda no fundo do mar que alguém o vá buscar ou uma onda da altura de uma torre, assaz frequente naqueles mares, o lance nas praias, como costumam fazer aos barcos que apanham no mar.
Afonso de Albuquerque saíra de Malaca com três naus e um junco, em Dezembro, em plena monção de noroeste e esperava chegar sem novidade a Cochim. A Frol de la Mar, a sua capitânia, estava muito velha e metia água, porém, decidira dar o exemplo e embarcara nela e não na Trindade de Pedro de Alpoim, ao ver que toda a gente queria ir nos outros navios por medo de naufragar.
Deixara o grosso dos homens no serviço quer da fortaleza quer da armada, porque Mahamed, o rei de Malaca, que ele expulsara do trono e da cidade, logo que se recompusesse, voltaria com o seu exército para recuperar o que perdera. Enviara também cento e vinte homens com António de Abreu a descobrir as ilhas do cravo e das especiarias, que vinham na preciosa carta de marear que o piloto jau lhe vendera, sobretudo, a maior e mais longínqua, inominada, mas que ele suspeitava tratar-se da tão cobiçada Ilha do Ouro.
Levava, por isso, na sua pequena frota, apenas cem portugueses, os oficiais com os matalotes necessários para o manejo e defesa das quatro embarcações, os feridos e doentes; na Frol de la Mar iam os objectos e jóias mais preciosas que achara nos paços de Mahamed, destinados a el-rei D. Manuel, assim como o fabuloso presente de ouro e pedras preciosas do embaixador do Sião, que viera assentar pazes com o rei de Portugal, além de um bando de meninas e meninos formosíssimos, cada um de sua raça, das muitas que havia naqueles reinos, para escravos da rainha D. Maria.
A capitânia seguia mais cerca de terra, em conserva com a Trindade, que lhe prestaria auxílio em caso de necessidade, enquanto a terceira nau, a Enxobregas, tinha ordens de nunca perder de vista o junco do capitão Simão Martins, que levava uma boa parte do saque da cidade – o quinto devido a el-rei D. Manuel, mais a sua própria parte, que esperava vender com proveito na Índia; a tripulação, sendo quase toda de jaus, não o deixava tranquilo, pois, se lhes dessem ocasião não hesitariam em matar à traição os portugueses, que eram apenas doze, para se apoderarem do barco e fugirem para Java com a riquíssima carga. Esse pressentimento revelou-se uma profecia, quando os escravos se amotinaram e roubaram o junco, depois de matarem o capitão Simão Martins e oito portugueses; do massacre escaparam quatro marinheiros num batel, que viveram para contar a sua história.
À vista das costas de Aaru, como o tempo ficou tempestuoso, tanto Alpoim como Albuquerque procuraram tomar o porto de Pedir, mas o mar, de tão levantado, não lhos permitiu. Ao anoitecer a tormenta cresceu medonha com as ondas a varrerem os conveses com fúria, destruidora, de que apenas escapou um dos batéis. A Frol de la Mar metia tanta água que as bombas não a podiam escoar e o governador mandou cortar os mastros, o que pouco adiantou, porque a nau parecia um escolho perdido no mar.
Alguém alvitrou que se fizesse uma jangada porque ali não tinham salvação, no que Albuquerque logo consentiu para manter toda a gente ocupada com a tarefa de pregar tábuas e atar madeiros, sem tempo para pensar na morte ou soltar gritos de desespero. Um trabalho assaz difícil pela grandeza das ondas que desabavam no tombadilho como pedregulhos, arrastando consigo os homens que não estavam amarrados por cabos.
Fosse por descuido do piloto ou pela força das ondas, a Frol de la Mar foi lançada contra uns baixios partindo-se ao meio, com a violência do embate. A proa desfeita afundou-se com muita gente, mas a popa, com o batel, ficou assente nas pedras, a descoberto do mar, pondo a salvo Afonso de Albuquerque com os portugueses que estavam junto da jangada. Antes que o mar a desfizesse, o governador mandou alguns homens pô-la ao mar.
– Defendei com lanças e espadas a entrada dos negros com as trouxas dos seus senhores – ordenou-lhes, vendo os escravos carregados a prepararem-se para o assalto à jangada e ao batel. Bradou ao mestre: – Fazei embarcar primeiro os doentes no batel, sem emburilhos ou trouxas que tirem lugar às pessoas.
A ouvir os protestos dos que queriam salvar o espólio ganho na tomada de Malaca, disse-lhes, começando a despir-se:
– Eu vou meter-me na jangada em ceroulas e jaqueta, meus amigos, portanto, ficai certos que de outro modo nela não entrareis!
Atou um cabo à cintura, desceu para o batel, com todos os portugueses, rumou para a jangada, onde chegaram a salvo. Não consentiu o governador que nenhum negro escravo, homem ou mulher, subisse à jangada, ordenando que os deitassem ao mar às lançadas ou com pancadas dos remos, quando se queriam segurar nela. Salvou somente uma menina, filha de uma sua escrava que lha entregou, único despojo que trouxe da nau, de todos os tesouros que nela havia, ao contrário de muitos que traziam o corpo cheio de jóias de ouro e pedraria.
– Se esta inocente se pegou a mim para se salvar, eu tomo a inocência dela por minha salvação – disse, e esteve sempre de pé, na jangada, com ela nos braços.
Na noite de breu, em luta com as vagas e os ventos, não se podiam acender fogos de aviso, por isso, o junco e a Enxobregas nada viram, por irem no alto mar, ocupados com a sua própria salvação. Pêro de Alpoim ouviu os gritos Senhor, Deus de misericórdia!, viu a nau perdida à luz dos relâmpagos e coriscos que explodiam nos céus, contudo só na manhã seguinte logrou acercar-se e salvá-los com muito esforço e perigo.
Seguiram para Cochim, onde os inimigos do governador, julgando-o perdido, festejavam a sua morte, mas o resto da população recebeu-o em triunfo. Albuquerque sentiu muito a perda de dois leões de ferro dourados, que o rei de Malaca tinha às portas dos seus paços, por serem um presente do rei da China. Não eram preciosos como a maioria dos objectos que vinham na nau, porém, ele trouxera-os, por honra, como testemunho do seu triunfo.
– Ao perdê-los, além de ter ficado sem a minha fazenda, perdi também a minha honra! – ouviram-no dizer, com muita paixão. – Porque eu não queria em minha sepultura outro letreiro nem outra memória dos meus trabalhos, senão aqueles leões.
Em Cochim escreveu ao capitão de uma caravela que ia para Malaca, rogando-lhe que fosse ao sítio do naufrágio, com alguns pescadores de pérolas de Samatra, para mergulharem à procura dos dois leões e, se os achassem, os tirassem de lá por todos os meios que pudessem, que ele lhe pagaria todos os custos.
Não os acharam, nem toparam com os castelos de madeira dos elefantes do rei de Malaca, nem com os seus andores forrados a brocado e a ouro; tão-pouco descobriram a tripeça de assentar, de quatro pés, em que a rainha da Malaca comia ou os quatro leões ocos para perfumes da câmara do rei, em ouro, incrustados de magníficas pedras preciosas, para já não falar dos cofres de moedas de ouro, prata e diamantes.
Bastaria um só desses objectos para fazer do seu descobridor um homem rico e justificar os riscos dessa viagem. Fernão, que não despegara ainda os olhos do lençol de água, procurando divisar no fundo o brilho denunciador do tesouro, suspira desconsolado, pois o único fulgor que vê é o reflexo do sol no mar que ondula docemente. A Ilha do Ouro começa a parecer-lhe, afinal, mais fácil de alcançar75.
Ao abordar a peregrinação de Fernão Mendes Pinto pelos mares austrais, que os portugueses começaram a descobrir, mal Afonso de Albuquerque conquistou Malaca, a narradora volta a alertar o seu leitor para a necessidade de conciliar os tempos e lugares visitados. Este Mar Australis é um caso particularmente espinhoso, porque, Fernão Mendes Pinto faz pelo menos duas viagens importantes a Samatra, em diferentes épocas.
Pouco depois da sua chegada a Malaca, no ano de mil quinhentos e trinta e nove, é enviado duas vezes por Pêro de Faria, como embaixador, aos reinos de Bata e Aaru, onde testemunha acontecimentos quase idênticos, de modo que a presente narradora, para não cansar o seu leitor com uma narrativa demasiado extensa, limitará o seu relato aos episódios do reino de Batak.
Alguns anos mais tarde, Fernão voltará a estes mares, à ilha de Java e navegará ao longo da corda de ilhas que se estendem desde Samatra até Timor e Papuas, em frente das quais se acha a então suposta Ilha do Ouro, a Terra Australis, já antes visitada e carteada por vários exploradores portugueses. Entre estas viagens fez outras em outros mares, contadas mais adiante nesta narrativa, por isso, se o leitor aceitar os saltos no tempo, a contadora desta sua saga poderá, de consciência tranquila, narrar-lhe também algumas viagens anteriores que, embora passadas em tempos diferentes, têm em comum a vivência da guerra no mesmo espaço geográfico e a matéria do sonho na busca da Ilha do Ouro, a que também Fernão ia mandado por ordem do Capitão de Malaca.
Embora vá na pele de embaixador aos reis de Bata e de Achem, a sua verdadeira missão consiste em espiar ambos os reinos, em particular, colher todas as informações que possa sobre a derrota para a Ilha do Ouro. Como em Samatra há minas desse precioso metal, um segredo muito bem guardado merecedor dos piores castigos se for apanhado a espiar, bastar-lhe-á cometer um deslize ou desrespeitar qualquer tabu, para ser condenado à morte.
– El-rei D. João insiste em saber notícias da Ilha do Ouro – dissera-lhe o capitão, em privado, depois de ter despedido com muitas honras o embaixador Aquarem Dabolai, que lhe trouxera a carta do rei dos Batas, seu cunhado. – Ele quer fazer como o pai, que mandou barcos e gente ao descobrimento da Terra Australis, com fé nas informações que eu e outros capitães lhe escrevemos, muito à puridade, a fim de não despertar suspeitas nem cobiça às outras nações, sobretudo Castela que nos espia.
– Os nossos descobriram a Ilha do Ouro? – Faria rira-se do seu espanto, do brilho cobiçoso dos seus olhos. – Cuidei que fosse imaginação das gentes do mar! A ilha é mesmo real? Quem foi que a descobriu?
– Sabemos que a ilha jaz a sul, da parte deste reino dos Batas, à mesma declinação de Samatra ou Java, contra Timor. Ficámos a conhecer a sua derrota, há mais de vinte anos, com as viagens de descobrimento das ilhas de Banda e Molucas. Temos debuxos das suas costas, em cartas de marear separadas, mas quem por lá anda guarda segredo com medo dos espias e também de causar uma corrida ao ouro da ilha por todos os que andam nos tratos ou no corso.
– Quem foi o felizardo que a descobriu?
– Têm sido muitos, uns por ordem d’el-rei, outros por sua própria conta. A primeira missão deveu-se a Afonso de Albuquerque, em Dezembro do ano de mil quinhentos e onze, ainda no rescaldo da tomada de Malaca. António de Abreu foi por capitão-mor de três navios, levando como sota-capitães Simão Afonso Bisagudo e Francisco Serrão (que, juntamente com o primo Fernão de Magalhães, tomou parte comigo na conquista da cidade). Com eles ia Francisco Rodrigues que, apesar de moço, era já um grande debuxador de cartas de marear e padrões; levavam também alguns pilotos malaios ou jaus conhecedores daqueles mares, com a cópia de uma carta de marear, que Albuquerque tinha comprado a um piloto jau, com as derrotas para as ilhas das especiarias. Abreu regressou aqui no mês de Dezembro seguinte, depois de um ano de navegação, mas Francisco Serrão, que naufragou nas Molucas, andou por lá a explorar os mares a Sul.
– Foi então, depois dessa viagem, que Francisco Rodrigues debuxou as quatro cartas destes mares, cujas cópias me mostrais?
– Delas se serviu João Lopes Alvim, logo no ano seguinte, para ir às Molucas e, pelo caminho, colher informações das ilhas de Java a Timor, daí seguir para norte até Banda, tal como devem ter feito não só Diogo Pacheco, na sua segunda viagem, mas também Gomes Sequeira, que deu o seu nome a umas ilhas desconhecidas, muito além de Java. No entanto, Cristóvão de Mendonça foi quem passou mais tempo a cartear as costas da Ilha do Ouro, nas duas viagens que lá fez.
Cristóvão de Mendonça, o cunhado do duque de Bragança, no ano de vinte e um, fora enviado a esses mares por el-rei D. Manuel como capitão-mor de uma frota de quatro navios, de que eram capitães Pedro Eanes, o Francês, numa caravela, Francisco Polés num bergantim e Gonçalo Homem no seu parau76. No seu regimento levava duas missões secretas: tendo sabido que Fernão de Magalhães vinha de regresso a Espanha, el-rei ordenara-lhe que fosse às ilhas Molucas e de Banda para lhe afundar a frota, se ele se atrevesse a surgir em águas de domínio português, segundo o tratado de Tordesilhas que Carlos V não parecia disposto a cumprir em relação às Molucas. Ao mesmo tempo, el-rei recomendara-lhe muito que buscasse a Ilha do Ouro, porque tomara nota das informações de Pêro de Faria e queria certificar-se do seu descobrimento.
– Mendonça explorou-a?
– Mendonça partiu para Samatra e, no início de Janeiro, apanhou a monção, seguindo viagem para sudeste onde achou uma ilha, que julgou ser a do Ouro, mas à qual mais tarde chamou Ilha do Engano por ter feito outra descoberta maior.
– Era a Ilha do Ouro? – perguntara ansioso, porém, a entrada do secretário com o mouro Coja Ale impedira Faria de terminar a sua história, deixando-o roído de curiosidade.
Se o capitão o queria mandar à descoberta daquele mistério, não seria ele a contrariá-lo, muito pelo contrário, não descansaria enquanto não soubesse o que acontecera aos portugueses que não haviam tornado a Malaca, assim como àqueles cujos nomes se desconheciam. A monção forçá-lo-ia a invernar em Samatra, dando-lhe tempo de sobra para criar amizade com os da terra e fazer discretamente as suas inquirições.
Agora, à vista da ilha, recorda-se daquela prática e ri-se da sua própria pertinácia na esperança de, um dia, vir a fazer com os seus irmãos Álvaro e António essa mesma viagem à cobiçada ilha, para volverem a Malaca com os cofres cheios de ouro.
73 Mapas originais dos quais se tiravam cópias para os capitães e pilotos.
74 Terras do interior, muitas vezes identificadas com terra firme, o continente – parece ser a primeira referência portuguesa à Austrália.
75 Robert Marx, um caçador de tesouros, gastou vinte milhões de dólares na sua busca. O tesouro é disputado pela Malásia, Indonésia, Portugal e Estados Unidos. Entre muitas outras riquezas, crê-se que trazia duzentos cofres de pedras preciosas, diamantes pequenos com a dimensão de meia polegada e com o tamanho de um punho os maiores, estatuetas e objectos de ouro, de vários tipos.
76 Como uma fusta de dezoito a vinte bancos de remos, sem coberta; além dos remadores pode levar até cento e trinta homens de armas e duas bombardas.
II
Um leopardo não pode mudar as suas manchas
(malaio)
Carta do Rei dos Batas ao Capitão de Malaca Pêro de Faria:
Cobiçoso mais que todos os homens do serviço do Príncipe rico do grande Portugal teu senhor e meu, ao qual em ti varão de coluna de aço Pêro de Faria, novamente obedeço por verdadeira e santa amizade, para de hoje em diante me render por seu súbdito, com toda a limpeza e amor que um bom vassalo deve fazer, eu, Anggi Sri Timorraja, desejando agora de novo tua amizade, para cos fruitos desta minha terra enriquecer os teus súbditos, me ofereço por novo trato de ouro, pimenta, canfora, águila, e beijoim encher essa alfândega do teu Rei e meu, com tanto que na firmeza de tua verdade me mandes hum cartaz de tua letra para minhas lancharas e jurupangos navegarem seguros com todos os ventos. E te peço mais de nova amizade, que dos esquecidos de teus almazéns me socorras com pelouros e pólvora, de que ao presente me acho muito falto, para com a ajuda e favor deste primeiro çauguate77 de tua amizade, castigar os perjuros Achens, inimigos cruéis dessa tua antiga Malaca, com os quais te juro de em quanto viver nunca ter paz nem amizade, até não tomar vingança do sangue de três filhos meus que de contino ma pedem com as lágrimas derramadas pela nobre Mãe que os concebeu, e os criou a seus peitos, que este cruel tirano Achem me tem mortos nas povoações de Japura e Lingga, como mais particularmente em nome de minha pessoa to dirá Aquarem Dabolai irmão da triste Mãe destes filhos, que de mim te envio por nova amizade, para que, senhor, contigo trate o mais que lhe parecer serviço de Deus, e bem do teu povo.
(Peregrinação, capítulo XIII)
Fernão Mendes Pinto nunca vira, nem mesmo em terras da Índia, bichos voadores mais estranhos do que os de Samatra: bugios pretos de grandes olhos redondos, lagartos vermelhos, raposas com asas de morcego e tantos outros que lhe passavam a voar por cima da cabeça, sempre que saía do jurupango para desentorpecer as pernas em terra, durante a longa navegação pelo rio Guateamgim. Estarrece-o, apesar de se saber seguro na caravela, o tamanho dos lagartos que pejam o seu leito e margens, lançando-se com ferocidade sobre tudo o que se move, a que não escapam sequer as canoas dos pescadores.
– Se Deus me der vida e eu volver a Portugal, Coja Ale, é minha tenção escrever o que vi por estes lugares, mas juro-te que não ousarei contar as novidades desta terra, por medo do que de mim dirão os leitores, sobretudo aqueles que viram pouco do mundo, porque, como viram pouco, também costumam dar pouco crédito ao muito que outros viram e tachar-me-ão de mentiroso e fantasioso.
O mouro ri-se, fazendo um aceno de concordância. Tinham aportado, ao fim da manhã, à pequena povoação de Batu Rendang, a um quarto de légua da cidade de Panaju, onde o rei dos Batas reunia o seu exército para marchar sobre Achem. Da coberta do barco, Fernão observa o trabalho dos camponeses com os búfalos nos campos de arroz do gracioso kampong, de casas de madeira, ornadas com relevos de serpentes, lagartos ou cabeças de monstros com olhos esbugalhados, pintadas de cores vivas e assentes em altos pilares de madeira para impedir a água do rio de as inundar na subida da maré. Os telhados, cobertos de palma e caniço, são o elemento mais estranho, com uma inclinação côncava ao meio, em forma de sela de cavalo, com cada extremidade a terminar numa ponta muito alta e aguçada, como os cornos dos búfalos.
No centro da aldeia há uma grande casa quadrada, de bambu, que Coja Ale diz chamar-se balei, onde o chefe recebe os estrangeiros que o visitam e os moradores se reúnem para fazerem os seus negócios e festividades.
Fernão espera pela resposta de Timorraja ao mensageiro que ele lhe enviou a anunciar a sua vinda, com um presente e uma carta do capitão de Malaca. Assusta-o um pouco a audiência com o rei, pois terá de dissimular bem as suas respostas para não trair as intenções de Pêro de Faria, muito mais interessado em estabelecer tratos de mercadorias com ele do que propriamente ajudá-lo na sua guerra contra o rei dos Achens, com quem também deseja fazer acordos de paz e mercancia, para que deixe de atacar Malaca ou os navios portugueses.
Fernão tem Pêro de Faria em grande estima e sente-se afortunado por estar ao seu serviço, sob a sua protecção. Sendo um dos mais antigos oficiais das campanhas da Índia, com a vantagem de ser casado com uma mulher da terra, o capitão de Malaca conhecia como ninguém todos os meandros da administração dos lugares e fortalezas, onde servira ou tinha amigos, o que lhe dava acesso à documentação secreta destinada ao rei de Portugal, permitindo-lhe obter informações sobre tudo o que se passava naquelas partes, em particular sobre os negócios e viagens que lhe garantissem o aumento da sua fortuna. Empenhara-se pessoalmente em o preparar para a embaixada, fornecendo-lhe documentos, cartas e mapas com descrições das ilhas e dos costumes das suas gentes, rogando-lhe que os estudasse muito bem, para não cometer erros nem descortesias que os ofendessem e provocassem conflitos.
Fernão obedecera de boamente, por ser tarefa muito a seu gosto conhecer novidades e estudara com toda a atenção nas cartas de marear as derrotas para Samatra, vendo como esta ilha se avantajava em tamanho e riqueza a todas as outras que enxameavam aqueles mares. Era nomeada pelos antigos como Aurea Chersoneso e pelos seus naturais Suvarnabhûmi, a Terra do Ouro.
Lera a descrição da ilha, dos seus dezanove reinos mais onze senhorios de gentios e mouros, que frequentemente se guerreavam, memorizara as mercadorias em que se poderia conseguir maior ganho – ouro, benjoim, pimenta e cânfora. Este bom conhecimento de Samatra devia-se, em parte, aos sultões de Pacem e Pedir que se haviam homiziado em Malaca, depois de o rei de Achem os ter derrotado na guerra e se ter apropriado dos seus reinos, no ano de vinte e quatro, punindo-os pelas suas relações de amizade com os portugueses cristãos.
De entre os muitos papéis que Fernão consultara, tombara-lhe sob os olhos uma folha com um texto copiado do livro de viagens de Marco Polo, com a descrição do reino dos Batas, denominado Dragoyam78. O viajante de Veneza retratava esse povo como uma gente idólatra, tão bestial e selvagem que comia carne humana, incluindo a dos parentes enfermos aos quais se apressavam a dar a morte. Se os curandeiros, feiticeiros ou encantadores, depois de consultarem os seus diabos, afirmassem que o doente já não tinha salvação, toda a parentela se reunia e mandava chamar um homem que tinha por mester matar os enfermos com muita delicadeza, tapando-lhes a boca até perderem o bafo. Então, como açougueiros, talhavam o corpo do morto em pedaços, que assavam temperados de sal e coziam com a mioleira e outras miudezas, empanturrando-se com as suas carnes, roendo os ossos e chupando os tutanos, sem deixar migalha.
Dizem que, se as carnes apodrecessem e se tornassem em bichos, eles morreriam depois de fome, e a alma daquele finado padeceria por isso mui grandes penas, justificava Marco Polo, porém fora a frase final que mais atemorizara Fernão: E quando os homens daquela região prendem algum homem de outras partes estranhas, se não pode resgatar-se com dinheiro, matam-no e comem-no.
Com a sua desventurada sorte, Fernão teme vir a acabar num caldeiro de cozedura dos gentios ou do próprio rei. Para se desassombrar dos terrores, pergunta a Coja Ale se tais festins de carne humana ainda têm lugar em Samatra.
– Apenas o fazem os batas, que são gentios – responde o mouro muito ufano. – Em Achem e nos reinos seus aliados, deixaram de o fazer quando se converteram ao Islão e começaram a seguir os ensinamentos de Muhammad, o profeta de Deus. Assim o deveria fazer Timorraja, aceitando a conversão que lhe oferece o el-rei de Achem, em vez de lhe fazer guerra. Os batas não só comem os parentes, quando estes estão velhos e não servem para trabalhar, como comem vivos os cativos na guerra e os condenados na justiça por crimes de adultério, espionação ou traição. O coração, o nariz, as orelhas, as palmas das mãos e as solas dos pés são reservados a el-rei, por serem as melhores partes para fortalecimento do tondi, o espírito vivo que habita no corpo de cada homem. Com o sangue que recolhem do supliciado fazem um arroz.
Fernão deixa de o ouvir, mareado de morte com o funesto relato, feito na boa língua portuguesa, que o mouro domina à maravilha. Embora ache que Coja Ale zomba dele, exagerando a ferocidade dos batas, por se aperceber dos seus medos, a sua fala em vez de o sossegar aumenta-lhe os receios. Agasta-o também a presunção do mouro em alardear a crença de Mafamede na presença de um cristão, contudo nada diz, para evitar atritos, visto precisar dele e do seu conhecimento de Samatra para poder regressar a Malaca com a missão cumprida.
Sons de festa anunciam a chegada do Xabandar, o oficial que tem a seu cargo a preparação da armada. Vem com um animado cortejo de cinco lancharas, os seus navios de guerra de remo e vela, muito velozes, e doze balões, umas canoas semelhantes às almadias dos mouros, mas mais largas. Com grande estrondo de atabaques, sinos e cantoria das chusmas, escoltam o jurupango, num curta viagem, até ao cais principal de Panaju.
O movimento do porto em nada se parece com o de Batu Rendang e Fernão cola-se à amurada para ver o espectáculo da armada dos navios de guerra dos batas, surta diante da cidade e em grande azáfama, com o constante vaivém de batéis cheios de soldados e marinheiros vindos de muitas partes do reino, que desembarcam para se juntarem ao exército do rei. A pequena frota do Xabandar passa por entre eles e vai surgir num cais reservado a el-rei e aos seus dignitários.
A praia fervilha de agitação e ruído, com a multidão de soldados, gentes de desvairadas raças, tanto estrangeiros como naturais da ilha, com trajos e armas muito distintas, desde os mosquetes, em menor quantidade, aos arcos e flechas, azagaias, lanças de pontas de ferro e, à cinta, em vez dos cris, pendem as jonos, as ameaçadoras espadas dos batas. A maré humana abre caminho, forçada pela guarda do Xabandar, e o língua malaio convida o embaixador a segui-los até ao local onde o Bendara, figura principal do reino, o espera com muita gente nobre para o conduzir à presença d’el-rei.
A comitiva pretende ser de muita pompa, mas, apesar da matinada de atabaques e sinos, tem pouco brilho, por todos virem mal trajados e sem jóias, quase não se distinguindo da gente comum, que acode às ruas para os ver passar. Fernão espanta-se da pobreza do vestir, da sua rudeza, em verdade mais próprias de gente sem polícia, do que de prósperos mercadores da fabulosa terra do ouro, como ele e Pêro de Faria haviam imaginado pelo muito que lha gabavam Coja Ale e outros mouros da alfândega de Malaca.
O cortejo cruza os bairros dos mercadores estrangeiros, separados segundo as nações a que pertencem, de ruas ladeadas por casas de madeira com um gudão ou armazém por baixo, muitas lojas de prestamistas e usurários para as trocas de dinheiro, de mercadores turcos, guzarates, de Calecut, Ceilão, Sião, Bengala e outros lugares que vendem panos de algodão, sedas, porcelanas, drogas, especiarias e pedras preciosas, enchendo Fernão de esperanças em bons negócios. Atraídos pelo som da fanfarra, os lojistas e demais moradores, assomam às portas e varandas a ver passar a embaixada.
São quase só mulheres, crianças e velhos, o que Fernão não estranha depois de ver a multidão de homens do exército d’el-rei que esperam para marchar contra os achens; é um povo gracioso, mais pequeno do que o malaio, de pele mais clara e corpos bem feitos. As mulheres que o miram sem rebuço usam, como os homens, panos enrolados à volta da cintura que lhes chegam aos joelhos ou aos tornozelos, um guarda-peito ou um lenço bordado com contas coloridas a cobrir-lhes os seios e um ombro. Trazem metidas nos lóbulos das orelhas grande soma de pesadas argolas que lhas fazem muito compridas, assim como vários aros grossos à roda do pescoço, manilhas nos braços, de ouro ou de metal, e ainda pregos de cabelo em forma de dragões e pássaros.
Todos têm a cabeça assaz estreita e bicuda com os narizes chatos, por ser costume, à nascença, as mães apertarem as cabeças dos filhos e espalmarem-lhes as ventas, a fim de os fazerem mais belos. Quando sorriem, não é coisa bonita de se ver, porque os dentes, pretos do bétele que mascam sem cessar e limados em pontas agudas, lhes transformam o sorriso no esgar ameaçador de um tigre e Fernão sente a pele arrepiada, crendo ver em cada um deles um comedor de carne humana, com ganas de lhe conhecer o sabor.
Passam pela Grande Mesquita diante da praça principal, onde se situam as casas do tribunal e das audiências aos enviados estrangeiros, porém o Xabandar não pára aí, seguindo para o recinto fechado das casas reais. Por entre as árvores, Fernão vê um belo edifício que lhe dizem ser o Sida-Sida, que alberga a guarda real de eunucos e, por fim, o cortejo chega às portas do paço de Timorraja.
Uma mulher velha e alguns fidalgos de melhor presença, com amáveis palavras de boas-vindas, que dão algum descanso aos seus medos e desconfianças, conduzem-no através de dois pátios e várias salas até à câmara d’el-rei. Fernão faz-lhe as cortesias que estudou, pondo por três vezes o joelho em terra, com muito acatamento, erguendo-se e avançando três passos de cada vez, até chegar à distância prescrita para lhe entregar a carta e o presente.
– Que vens fazer aqui, em tempo de guerra? – pergunta, sem querer ouvir ler a carta, vendo com muita satisfação os ricos panos da Índia que lhe manda Pêro de Faria, à custa da Fazenda da Coroa. – Depois do socorro em armas e munições que o capitão de Malaca me mandou por meu cunhado, mais do que eu lhe pedi, não me tomes por ingrato por te dizer que esperava que ele me enviasse também uma hoste de portugueses artilheiros e arcabuzeiros, em cuja arte sois os melhores do mundo.
Para dispor bem o rei à desejada aliança e futuros tratos, o capitão enviara-lhe, além dos pelouros e pólvora mencionados na carta, cem panelas de pólvora, rocas e bombas de fogo79, que haviam conseguido o efeito pretendido.
– Venho para servir Vossa Alteza nesta sua jornada – responde Fernão, conforme lhe fora ordenado, embora sentindo algum remorso pela mentira. – Mas, para isso, preciso de ver com os meus próprios olhos as fortificações da cidade de Achem e quantas braças de fundo tem o rio, para saber se nele podem entrar as nossas naus mais grossas e os galeões, porque o capitão de Malaca determinou que, mal tome posse da capitania e lhe chegue a armada da Índia, virá ajudar Vossa Alteza e entregar Achem nas vossas mãos.
A resposta não é certamente do agrado de Timorraja que, todavia, disfarça bem a contrariedade, quando fala.
– Jurei tomar vingança dos achens pela morte dos meus três filhos e reconquistar as terras que me roubaram. Não terei paz enquanto o não fizer e amanhã mesmo marcharei contra os meus inimigos, por isso não posso esperar pelos reforços de Malaca. Agradará decerto ao teu capitão e a todos os cristãos portugueses saber que me recusei a trocar a lei dos meus antepassados pela dos muçulmanos, como quer o vosso inimigo Alauddin Mughāyah Shāh, que acaba de usurpar o trono Aceh ao seu irmão mais velho.
Faz uma pausa, olhando para Fernão que o ouve com grande acatamento, consciente do silêncio respeitoso da corte que, tal como o povo, parece amar de verdade o seu soberano.
– Alauddin buscou fazer aliança comigo, oferecendo-me a sua irmã em casamento, exigindo em troca que eu me convertesse à Lei de Mafamede e repudiasse a minha esposa, mãe de meus filhos. Perante a minha recusa, fez-me crua guerra, mas foi vencido e forçado a pedir pazes, seladas com a promessa de casar o meu filho mais velho com a princesa sua irmã. Mandei retirar o exército e voltei para casa, a fim de preparar o casamento.
Cala-se de novo, como se lhe custasse a falar ou quisesse impedir que as lágrimas que Fernão lhe vê nos olhos corressem pelo rosto, tão abundantes como as de muitos dos seus cortesãos, de mistura com suspiros e soluços que não logram abafar.
– Contudo, o traidor achem que recebeu dos turcos ajuda em homens, mosquetes e artilharia, incitado por um seu caciz mouro, rompeu a paz sem dar aviso, fazendo uma razia nas minhas terras, que achou desprotegidas e tomou sem trabalho, matando setecentos ourobalões80 e os meus três filhos, que haviam crido na sua palavra de paz. Então, jurei ao deus da justiça não comer fruta, nem sal, nem cousa que me faça sabor na boca até vingar a sua morte.
Termina com a voz embargada pelo choro, a que se junta o pranto da assistência, tão alto e tão sentido, que Fernão se comove e também não consegue suster as lágrimas face à dor do rei dos Batas e do seu povo, acirrado pelo remorso das falsas promessas que lhes fez. Timorraja, vendo chorar o embaixador estrangeiro, ergue-se do bailéu onde estava sentado para se prostrar diante de um nicho com um pagode enfeitado com muitas flores e ervas de cheio a arder. Em voz alta tece-lhe louvores pela amizade do poderoso senhor de Malaca, inimigo de Aceh, a cuja litania a assistência dá o responso num coro de vozes estranguladas pela comoção. Prostrado como os demais em adoração, Fernão roga a Jesus Cristo perdão pela sua falsidade, justificando-se com Timorraja ser um rei idólatra e quiçá comedor de carne humana.
El-rei ergue-se, imitado por toda a assistência, e chamando Fernão para o seu lado, dirige-se em procissão para o pátio principal do seus paços, onde o esperam todos os comandantes do seu exército para assistirem ao sacrifício de um búfalo de uma brancura imaculada. Junto do animal, no centro do pátio, o sacerdote tem o rosto coberto por uma máscara de madeira, os braços e pernas tatuadas com cabeças de pássaros e de outros animais, pintados de cores vivas.
O búfalo é degolado com um cris de ouro, o sangue aparado numa vasilha preciosa, de seguida esventrado e o sacerdote lê no aspecto e movimento das suas entranhas o resultado da guerra.
– Se o resultado for diferente do que ele previu – esclarece o língua, em voz baixa, por trás de Fernão – o guru será morto por ser mau adivinho.
77 Saguate – presente.
78 O Livro de Marco Polo, livro terceiro, capítulo XVII. Fac-símile da obra impressa por Valentim Fernandes, em Lisboa, 1502.
79 Roca era um canhão que lançava pedras e bombas de fogo seriam talvez projécteis que usavam nafta.
80 Chefes militares, senhores da guerra ou chefes territoriais.
III
Onde há açúcar, há formigas
(malaio)
[Em 1528], a outra nau da companhia esgarrou pelo mar do Cabo da Boa Esperança pera a banda do Sul, não sabendo por onde ia, e foi tomar nas costas da ilha de Çamatra, onde foi ter na Ilha do Ouro, que a areia da praia, grossa e miúda, era tudo ouro; a terra mui viçosa, e grandes arvoredos e ribeiras de boas águas, e muitas frutas das árvores, mui gostosas; a gente nua e bestial, que se cobria com panos feitos das folhas d’ervas, e não tolhia nada do que lhe tomavam. Carregaram quanto ouro quiseram e se partiram navegando sem saber pera onde mais lhe serviria o vento, com que foram ter na costa da Çamatra, já mui desbaratados, com a mais da gente morta e doente, e fazendo tanta água que se ia ao fundo; e correram pera terra pera varar, e antes de chegar a ela deram em uma restinga em que se perdeu a nau; e os que puderam trabalhar concertaram o batel, em que se foram a terra com muito ouro que cada um meteu, e na terra foram mortos per barcos de pescadores que os toparam e levaram o ouro. Isto se soube em Malaca por mercadores de Çamatra que lá iam tratar, que por toda a terra se falava deste batel que acharam pescadores carregado d’ouro, e que os homens falavam como bombardeiros, de que trouxeram um a elRei de uma terra, que o mandou espetar em um pau porque lhe disse que não sabia tornar à ilha. Onde assim acharam aquela Ilha do Ouro, pela qual informação se soube que esta nau fora da companhia do Brigas.
Lendas da Índia, de Gaspar Correia
Fernão ainda não se acostumou às espantosas trovoadas de Samatra, cujo ribombar faz estremecer a terra como a explosão de um barril de pólvora, enquanto todo o céu se incendeia com raios em forma de forquilha que coriscam em todas as direcções. No entanto, a gente da ilha parece nem dar por elas.
El-rei partira para a guerra, há cerca de um mês, com o seu poderoso exército, deixando o reino quase despovoado de homens e com pouca guarda de gente armada, situação privilegiada para quem quer espiar o reino ou fazer devassas e perguntas sem correr o risco de ser preso. Fernão não o seguira, com o pretexto de lhe ser forçoso ir só com um guia e um língua, para não levantar suspeitas, observar as fortificações e a fundura do rio do Achem, a fim de preparar a vinda da armada de Malaca.
Alcançara o principal propósito que ali o trouxera, ao conseguir de Timorraja grandes benefícios e isenções de tributos para uma boa veniaga à fazenda de Pêro de Faria, que Coja Ale começara logo a vender com muito lucro. Na ausência do rajá, Fernão ficara livre para se dedicar à busca de indícios e informações sobre o achamento da Ilha do Ouro, não só no reino dos Batas por meio dos mercadores da cidade de Panaju, mas também de outras partes de Samatra nunca antes visitadas dos portugueses.
Tratara, em primeiro lugar, de registar os rios, portos e angras que ia descobrindo, tanto do lado do mar mediterrâneo, como da parte do oceano, anotando cuidadosamente os nomes, a altura em graus ou medindo os fundos, conforme ao regimento que lhe dera Pêro de Faria. Colhera preciosas informações sobre a comutação de produtos e tratos daquelas gentes que ainda não tinham tido comércio com os portugueses e sobre a pescaria do aljôfar nas pequenas ilhas da costa ocidental, entre Pulo Tiquòs e Pulo Quenim, que os batas levavam a Pacem e Pedir, para serem resgatadas pelos turcos do estreito de Meca, a troco das mercadorias que traziam do Cairo e dos portos da Arábia.
Descobrira outras coisas de maior espanto, como o surgidouro da baía de Pulo Botum, onde viera ter a nau Biscainha, da frota de Fernão de Magalhães, que se veio a perder no boqueirão de Sunda, quando procurava atravessar para a ilha da Java. Achara também a baía onde naufragara o capitão Rosado, natural de Vila do Conde, que viera de Dieppe para a Índia com uma frota de corsários franceses. Das três naus, só a de Rosado conseguira chegar a Samatra, graças à sua experiência de piloto e talvez à posse de alguma carta de marear portuguesa, porém naufragara nos recifes e os sobreviventes haviam sido massacrados pelos pescadores de pérolas. Timorraja levara para Achem, na sua artilharia, dois camelos e uma meia espera81 de bronze recolhidos nos destroços dessa nau.
Fernão atara mais um fio de memória, ao descobrir o destino de outra nau desta frota, comandada pelo capitão e piloto português Estêvão Dias Brigas, cuja história ouvira contar na sua viagem para Diu e cuja viúva, a famosa Marquesa, chegara a conhecer, no fim do cerco da fortaleza. O capitão Brigas e os seus quarenta e oito corsários franceses tinham apanhado um tempo esgarrão que os forçara a arribar a Diu onde, para salvarem as vidas, se fizeram muçulmanos e serviram como bombardeiros no exército do sultão Carcandacão de Cambaia. No ano de trinta e três, Bahadur, o novo sultão do Guzerate, empregara os elches82 e a sua artilharia na guerra com o rei dos Mogores, em que todos morreram, incluindo o marido da Marquesa. O mundo até parecia pequeno, naqueles mares!
Registara também com grande minudência as diferentes nações de gentes que habitavam ao longo daquele oceano e dos rios Siak, Kampar e Indragiri por onde ia ter a Malaca o ouro de Menancabo ou Minangkabau. Segundo lhe disseram os naturais, a rainha Sabá mantivera no reino de Kampar uma casa de contrato com o feitor Nausem, para os tratos do ouro.
Por outro lado, prosseguia com a sua inquirição e punha por escrito toda a informação obtida sobre a Ilha do Ouro, que o capitão de Malaca muito encomendara e ele nunca descurara de saber, sempre que a sua espionação o levava a novos lugares. Pulo Mas jaz ao mar deste rio de Calandor em cinco graus da parte do Sul, cercada de muitos baixos, e de grandes correntes, que pode distar desta ponta da ilha Samatra, até cento e sessenta léguas pouco mais ou menos, fora o que todos lhe disseram de início.
Aproveitara bem o tempo e, com a prata que Pêro de Faria lhe dera para os gastos da embaixada, pudera comprar com presentes as boas graças de um ancião bata, chefe de uma família influente de Barus, a terra onde Diogo Pacheco aportara nas duas viagens que fizera em busca da ilha. O velho Salwi fora chamado por Timorraja para, durante o tempo de guerra, se ocupar dos mercadores estrangeiros que tinham tratos na cidade e, tendo conhecido Fernão na embaixada à corte, convidara-o muitas vezes para sua casa, onde fora recebido por toda a família com grande hospitalidade. Salwi e o seu filho Amri lembravam-se bem da chegada da nau do português a Barus, tanto no ano de dezanove como no de vinte. Com um bom língua malaio que o capitão lhe dera em Malaca, Fernão pudera interrogá-los e acrescentar mais pormenores à história que conhecia.
Fora em mil quinhentos e dezanove que o governador Diogo Lopes de Sequeira enviara o cavaleiro Diogo Pacheco, um marinheiro experimentado e valente guerreiro, com a sua nau e um bergantim comandado por Francisco de Sequeira, a descobrir toda a costa da ilha de Samatra, cuja parte sul nunca fora navegada, porque os naturais diziam que quem lá ia morria. Desconfiava-se que levava um regimento secreto, com ordens expressas d’el-rei D. Manuel, mas ninguém, nem mesmo Pêro de Faria, o soubera ao certo.
A primeira parte da viagem, em que contornaram a ponta ocidental da ilha, decorrera sem sobressaltos, porém, ao virarem a sul, cerca de vinte léguas depois do reino de Achem, foram colhidos por uma forte tempestade e o bergantim desaparecera. A nau de Pacheco continuara para sul e fora arribar ao porto de Barus.
– Nunca tínhamos visto um navio daquele tamanho e forma, com uma gente branca tão estranha como os seus trajos – evocou Salwi, a rir, mostrando os dentes limados, com incrustações de ouro –, por isso causou tão grande espanto e medo.
O filho juntou o riso ao do pai:
– E lembras-te de como as tripulações de três barcos achens que estavam surtos no porto, fugiram para terra ao reconhecerem a bandeira dos seus inimigos portugueses?
– O governador, que era o meu pai, quando viu os sinais de paz que faziam do navio, mandou-lhe num batel um saguate de refresco com dois oficiais para saber quem eram e o que queriam.
Diogo Pacheco retribuíra os presentes e apresentara-se como um capitão d’el-rei de Portugal, enviado pelo governador da Índia a rodear a ilha de Samatra para notificar os seus principais portos de que os portugueses haviam conquistado Malaca, mas queriam ter paz e tratos de mercadorias com os seus reinos e que os seus barcos lá podiam ir em segurança, se recebessem bem os mercadores portugueses nas suas terras. Oferecera-lhes ajuda de homens e armas contra os seus inimigos e dera salvo-conduto aos navios dos achens por se acharem no porto de Barus.
– Recebemo-lo muito bem – prosseguiu Salwi –, durante o tempo que ali passou a tomar água, madeira e provisões para a viagem, trocando as suas mercadorias pelos nossos produtos. Fez amizade com o meu pai, que o alojou na nossa casa. Nas muitas práticas que teve connosco e com os mercadores da terra, pouco quis saber sobre o reino de Barus, dos Batas ou do resto de Samatra, por isso soubemos que era Pulo Mas, a Ilha do Ouro, que ele verdadeiramente buscava.
Fernão suspendera a respiração, ao ouvi-lo falar do assunto que ali o trouxera, porém procurou não mostrar demasiado interesse para não espantar a lebre.
– O meu parente ia em busca da Ilha do Ouro? – perguntara, simulando espanto.
Fizera-se passar por um sobrinho de Diogo Pacheco, desejoso de conhecer o que sucedera ao seu tio, para ser mais bem aceite pelos batas, que acreditavam que as almas ou espíritos dos mortos continuavam a viver entre eles, a protegê-los ou a infernizar-lhes a vida. Para desempenhar bem o seu papel e conquistar a confiança dos gentios, mostrara muito interesse em conhecer a aventura completa do descobridor, a começar pela primeira viagem (que em Malaca se soubera com todos os pormenores da própria boca de Pacheco), a fim de poder fazer as perguntas sobre a segunda, a que deveras lhe interessava. Acrescentara, com uma risada:
– Essa ilha não é um embuste, uma fanfarronice dos homens do mar?
Amri adiantara-se ao pai e esclarecera extasiado:
– Não, não é uma fantasia, Pulo Mas é bem real! Fica a mais de duzentas léguas a sudeste de Barus. A meio desta derrota começa uma corda de baixios, restingas e recifes de muito perigo, o caminho para a ilha é pelos canais que há entre eles, os quais são muito estreitos e, por serem de areia, mudam a cada ano com a revolução que lá fazem as águas no Inverno83.
– É um ilha grandíssima, de serras e palmares – prosseguira o pai. – A sua gente é muito diferente da nossa, preta e de cabelos crespos. Dão muito ouro em troca de panos da Índia azuis e vermelhos, mas ninguém sabe como vivem, porque eles fazem o resgate à beira da praia e não consentem que se veja onde moram.
– Vai de cá muita gente a essa ilha? – perguntara, procurando manter a voz firme e serena, apesar do coração lhe querer saltar do peito.
– Não – respondera o pai. – São raros os mercadores que lá vão, por ser uma viagem muito longa, difícil e a boa monção não durar senão três meses, além de só se poder navegar em embarcações pequenas, por causa dos baixios e restingas, onde muitos naufragaram e perderam a vida. Em vinte velas que lá vão, tornam cinco, por isso quem lá foi e regressou, já lá não vai de novo. Deste modo, poucos conhecem a sua derrota. Feita a aguada, o teu parente despediu-se d’el-rei e de nós e prosseguiu viagem. Julgámos que não o volveríamos a ver, porém ele surgiu em Barus no ano seguinte, embora não lograsse desembarcar.
O resto da viagem era bem conhecida. Pacheco contornara a ilha, que fizera cartear com muito pormenor, cruzando o canal de Polimbam, entre Samatra e Java, para a costa do norte que percorreu, indo ter a Malaca com a sua carga e as boas novas. Soube então que o bergantim de Francisco de Sequeira naufragara nas costas do reino de Daya, com a morte de toda a gente, menos de um escravo canarim, que fora por terra até Pacem, onde desde mil quinhentos e quinze havia uma igreja e uma feitoria permanente de portugueses, para lhes dar conta do desastre.
Quanto à segunda viagem de Diogo Pacheco, Fernão preferira deixar para outra ocasião, a fim de não se mostrar demasiado ansioso, embora ardesse de curiosidade quando Salwi deixara escapar a menção aos mistérios que rodearam a nova passagem por Barus e os sucessos que, segundo ele, só os mortos poderiam contar.
Que quereria ele dizer com esses mistérios? Fernão aliciara o língua para que procurasse saber, entre a gente mais velha dos parentes ou dos criados de Salwi, se mais alguém conhecia aqueles sucessos que, pela sua novidade e estranheza, decerto fariam parte das histórias da família e seriam contadas nas reuniões e festas do clã. O homem fora diligente e topara com um verdadeiro milagre: a ama de Amri, viúva de um bata que fora com Diogo Pacheco na sua segunda viagem. A mulher tinha fama de feiticeira e, em troca de uma peça de pano de Cambaia, dispusera-se a falar com o morto, para saber o que na verdade se passara.
Fernão estava disposto a seguir todas as pistas e a ouvir todos os que conhecessem aquela história, mesmo o relato de um morto, a fim de saber mais do que aquilo que Pêro de Faria lhe contara – quase nada:
No regresso a Malaca, enquanto esperava pela monção para empreender nova viagem à Ilha do Ouro, Diogo Pacheco participara com os seus irmãos na grande batalha e tomada da fortaleza de Pago, construída e defendida por dois mil soldados do rei expulso, Muhammad, que se refugiara em Bintão e continuava a fazer guerra aos portugueses, a fim de recuperar a sua cidade e o reino.
Voltara a Samatra, no ano seguinte, com um jurupango, para navegar em águas menos profundas, e outro bergantim. À sua chegada a Barus, a fim de renovarem os tratados de amizade com o rei e aguardarem pelo início da monção de sudeste, uma armada de cinco navios guzerates, que estava surta no porto, em vez de fugir como os achens do ano anterior, fiada na diferença de número, acometera as embarcações portuguesas. O jurupango e o bergantim conseguiram fugir das bombardas inimigas, porém um temporal colhera-os de seguida e arrastara-os para muito longe em louca correria sobre as águas, para não mais serem vistos.
– Pode dizer-se que Diogo Pacheco foi o primeiro português a morrer neste descobrimento da Ilha do Ouro, pelo menos que se saiba. – E acrescentara, rindo-se: – Não quero que te aconteça o mesmo! Colhe todas informações e notícias que puderes, contudo sê discreto no modo como o fizeres, para que não te conheçam por espia e te matem, pois nem o cargo de embaixador os deterá.
Era um conselho sábio e ele faria bem em segui-lo, contudo a sua curiosidade intrometida sobrepunha-se muitas vezes à prudência avisada.
81 Camelo é um canhão curto e grosso que dispara balas de pedra de oito a quinze quilogramas. Meia espera é um canhão com cerca de dois metros de comprimento que dispara balas de ferro de cerca de três quilogramas de peso.
82 Os elches (do árabe elj) eram os cristãos que renegavam a sua fé e se convertiam ao islamismo.
83 Esta descrição da Ilha do Ouro, registada pelos cronistas portugueses, antes de 1520, coincide perfeitamente com a costa de Kimberley, no noroeste da Austrália e só o poderiam saber se lá tivessem ido. Timor fora visitado e registado em 1512-14. É impossível que os portugueses não conhecessem também as costas norte e noroeste da Austrália, a partir dessa data, tendo já explorado as ilhas de Banda e Molucas.
IV
Uma jornada de mil milhas começa com um único passo
(malaio)
Mito da criação do mundo em Samatra
No início só havia Debati Hasi Asi, Deus Supremo que criou o Céu com um imenso Mar por baixo; a Terra e os homens ainda não tinham sido criados. No Céu, dividido em sete níveis, viviam os deuses e o Mar era a morada de Naga Padoha, o poderoso dragão dos Infernos. Foi o deus Mula Djadi Na Bolon (O Começo do Devir) que criou tudo o que existe, com a ajuda de duas andorinhas mensageiras. Mula Djadi tinha três filhos – Batara Guru, Mangalabulan e Soripada, nascidos dos ovos de uma galinha que ele fecundou –, aos quais deu por esposas as suas três filhas. Os três casais divinos foram os pais da humanidade.
Foi Boru Deak Parudjar, a filha de Batara Guru, que criou Samatra. Para fugir ao futuro marido, o horrendo lagarto filho de Mangalabulan, ela desceu por um fio dos Céus e refugiou-se no Mundo do Meio, que não passava de um deserto de água, onde ficou a viver. Mula Djadi compadeceu-se da infelicidade da neta e enviou-lhe uma das suas aves mensageiras com um punhado de terra para ela viver.
A Deusa estendeu a terra sobre o mar como uma manta larga e comprida. Naga Padoha, o dragão dos Infernos que vivia na água, quando sentiu o peso da terra sobre a cabeça, rugiu de fúria e tentou sacudi-la, rodando e retorcendo o corpo. A terra encharcada e amolecida pela água quase foi destruída. Auxiliada por Mula Djadi, Parudjar logrou vencer o dragão, prendendo-o a um bloco de ferro; sempre que Naga Padoha agita as correntes, causa um tremor de terra no mundo.
O filho de Mangalabulan tomou uma forma mais bela e Parudjar desposou-o. Desta união nasceu um casal de gémeos que ficaram na Terra e se uniram para criar a humanidade. É deles que descendem os batas.
Fernão e o língua seguem o rapazola que os leva ao pequeno pagode onde os espera a feiticeira bata, para invocar a alma do marido e fazer-lhe perguntas. O português sente um arrepio de medo, por tal coisa lhe parecer obra do demónio, pecaminosas superstições em que são useiros e vezeiros os gentios destas terras do Oriente, capazes de lhe porem em perigo a cristianíssima alma. Vai ter dificuldade em justificar a Pêro de Faria os custos que desembolsara para tão diabólica cerimónia, no entanto, apesar destes perigos, não conseguira resistir à curiosidade de saber o mistério que a mulher guardara consigo durante tantos anos.
Ela contara ao língua que, ao verem os navios de Diogo Pacheco com as bandeiras portuguesas a acercarem-se do porto, os mouros das naus de Cambaia avisaram o governador contra aqueles cristãos, que não queriam mercadejar pacificamente, mas tão-só apoderar-se do reino, como haviam feito a Malaca e outras terras, com terríveis massacres dos seus povos. Convencido e temeroso, o governador mandara sair as embarcações de guerra com os seus guerreiros, mas o marido dela, que se fizera amigo de Pacheco na visita anterior, metera-se numa almadia para ir ao bergantim preveni-lo do perigo e, com medo de ser morto pela sua gente, embarcara com ele.
O bata fora um dos sobreviventes que regressara a casa e Fernão ansiava saber se ele teria contado à mulher a mesma história dos jaus de Malaca: a tempestade levara-os para bem longe de Barus, ao longo da corda de ilhas para lá de Java e Timor, até uma grande ilha desconhecida, montanhosa e verdejante, que parecia corresponder à descrição que dela haviam feito os batas que lá tinham ido.
Diogo Pacheco passara com outros portugueses da tripulação para o jurupango, que era de menor calado e casco mais raso, a fim de a explorar, porém o vento mudara bruscamente, o mar embravecera, atirando com o barco contra os rochedos, ao mesmo tempo que uma multidão de gente negra de cabelos crespos, armada de arcos, clavas e paus tostados, acudia à praia, lançando setas contra a embarcação encalhada. O bergantim não lhes pudera valer, porque os ventos arrastaram-no para o largo onde decerto se perdera.
Na ilha, durante o ataque dos negros, alguns matalotes e gente da chusma conseguiram fugir num batel e rumaram para as ilhas de Banda, onde foram recolhidos por um navio português e levados a Malaca. Por eles se soube da perdição de Diogo Pacheco que foi registada nos relatórios oficiais.
Ter-se-ia passado assim aquele descobrimento, que parecia amaldiçoado, condenando à perdição os que ousavam tocar as suas praias? Ou o dito relato encobriria algum crime de traição dos jaus e malaios, como tantos outros que enchiam vários livros de registos da fortaleza? Não será decerto por meio daquele diabólico ritual que o irá descobrir, mas não tardará a confirmá-lo, porque o guia pára diante de uma graciosa cabana de madeira, a cuja porta assoma uma anciã de rosto enrugado, pequena e frágil, a recebê-los.
Fernão entra para o único aposento térreo, sombrio, apenas iluminado pela luz exterior coada através das junções da madeira, com máscaras de animais nas paredes e um totem com figuras humanas a um canto. No lado oposto, sentam-se dois músicos, um com o surdam ou flauta de bambu, e o outro com um gamelan, o conjunto de instrumentos – marimbas, ferros, címbalos, gongos e tambores – muito comum naqueles reinos. Porém, o que mais desperta a sua atenção é um boneco de madeira, de tamanho natural, de pé sobre um pedestal.
– É Si Gale Gale – diz-lhe o língua em resposta ao seu olhar perplexo –, um títere que vai encarnar o begu ou alma da morte do marido, que foi libertada quando ele morreu e o seu tendi ou alma da vida desapareceu. Ele traz as roupas do morto, para que a sua begu entre nele sem medo. Foi por esta razão que surgiu, não se sabe quando, o primeiro destes títeres, em Palau Samosir, onde vivia um casal que se amava muito, mas não tinha filhos. O homem morreu de repente e a esposa sentiu-se tão só que esculpiu um bonifrate de madeira com a figura e o rosto do marido, para lhe fazer companhia. Sempre que a solidão a atormentava, a viúva contratava um dalang, um titereiro, para fazer o boneco dançar e um dukun para falar com a alma do marido através do títere. Desde então, é deste modo que os batas continuam a comunicar com as almas dos antepassados que, segundo as suas crenças, vivem nas árvores, nos rios ou nas montanhas. Neste caso, o dukun é a viúva que sabe desta arte, embora tenha um assistente para a socorrer.
Fernão sente-se desacorçoado e agastado com o despropósito daquela superstição, não lhe faltava mais nada senão estar a falar com um boneco, como se fosse o defunto bata! Tem vontade de zarpar dali para fora, sem dizer água vai, mas teme as consequências se ofender aquela gente num ritual que envolve almas de outro mundo. Senta-se onde lhe indicam e aguarda em silêncio.
Por trás do pedestal do fantoche há uma grande caixa ou biombo onde se enfia o dalang, desaparecendo da vista de Fernão. A flauta faz-se ouvir, suave e plangente como um lamento. A viúva fala para o bonifrate, com doçura insistente. O tocador do gamelan faz soar os tambores numa cadência monótona e a flauta torna-se mais aguda, pungente.
– A dukun está a chamar o begu do marido e a rogar-lhe que entre no Si Gale Gale.
Com um estremecimento que parece despertá-lo para a vida o boneco move a cabeça e abre os olhos e, como se obedecesse a uma ordem irrecusável, os pés começam a mover-se ao ritmo da música e os braços erguem-se num requebro gracioso de dança. Os olhos miram em redor e a língua aflora entre os lábios como a saborear a vida.
– Parece mesmo humano e vivo! – exclama Fernão, arrepiado.
– O tendi e o begu dos mortos amam o som do surdam.
A flauta intensifica o seu canto, alteando e prolongando os sons, como se quisesse abafar a voz múltipla e vibrante do gamelan. A viúva, que não parara de murmurar em tom de reza, começa a sofrer análoga transformação. Os seus olhos fixos e vítreos parecem cegos, a voz enrouquece e engrossa, saindo em palavras soltas, como se sufocasse. O assistente sorve um bochecho de água de rosas e cospe-lha no rosto. A mulher começa a contorcer o corpo acompanhando a dança cada vez mais viva do bonifrate, que move as mãos de dedos compridos e longas unhas, desenhando gestos de dor e ternura, símbolos e palavras que ficaram por dizer. Por fim, o títere pára de dançar, inclina-se para a viúva e estende-lhe as mãos de dedos trémulos. A flauta cala-se, só os tambores se ouvem numa batida espaçada sempre igual. A dukun fica imóvel também, o assistente cospe-lhe um novo borrifo de água na cara que parece despertá-la e ela fala numa voz que não é sua.
– É o begu do marido – diz o intérprete, numa voz cortada de medo. – Quer saber por que o chamaram.
– Pergunta-lhe o que sucedeu aos portugueses na Ilha do Ouro – pede Fernão, pálido e assustado, sem talante de zombar. Não fala em Diogo Pacheco, porque nem o língua nem o assistente saberiam pronunciar-lhe o nome.
O intérprete obedece e o assistente repete a frase, em voz alta, à mulher. Os olhos do bonifrate giram, em aflição, lágrimas grossas correm-lhe pelas faces de madeira e as mãos de dedos afilados sobem até ao rosto, com se quisessem esconder a vergonha ou o remorso.
– O boneco está a chorar! – murmura Fernão, estarrecido.
A viúva contorce-se em grande sofrimento, revirando os olhos nas órbitas, o assistente borrifa-lhe mais uma vez o rosto; ela imobiliza-se e começa a falar com uma voz de homem que parece sair não dela mas do bonifrate, num longo arrazoado que o língua com voz estrangulada se apressa a trasladar:
– O begu não tem descanso por causa da traição que, em vida, o homem cometeu contra o português seu amigo.
Tal como os jaus contaram em Malaca, os dois navios haviam sido levados juntos pelo vento, como se tivessem asas, até Timor, e dois dias mais tarde tiveram vista de uma grande ilha desconhecida84, a que Diogo Pacheco dera o nome de Pago, em memória da conquista da fortaleza do rei de Bintão pelos portugueses; porém, quando se preparavam para surgir, nova mudança dos ventos fizera naufragar o jurupango contra os recifes. A partir daí, a história que Fernão ouve na estranha voz da mulher é outra.
Pacheco ia no comando do bergantim quando se dera o desastre e vira consternado um bando de negros, armados de lanças de pontas de arpão e clavas de madeira, protegidos por pequenos escudos redondos, lançarem um ataque à embarcação encalhada e impossibilitada de recorrer às bombardas para se defender. Disparara a sua artilharia, mas apesar do primeiro susto que os fizera fugir, ao ouvirem os estrondos e o derrube das árvores mais próximas, os cafres tinham carregado de novo sobre o navio, posicionando-se de modo a ficarem fora das vistas do bergantim.
Fora então que Pacheco fizera baixar os dois batéis, indo no primeiro com a maioria dos portugueses armados com arcabuzes e bestas, seguido pelo dos casados malaios, os jaus e o bata. À medida que avançavam para a praia podiam ver que os negros eram muito distintos dos de África e estavam nus, ornados com colares e pulseiras de conchas, um osso atravessado no nariz e escaras no rosto, com pintas brancas e um círculo em volta de cada olho. Tinham bons corpos, que cobriam de uma espessa camada de barro, pintados com riscas brancas, largas ou estreitas, nas pernas e braços, manchas vermelhas nas costas e peito.
O capitão disparara o pequeno canhão que levavam no esquife, fazendo alguns mortos e pondo outros em fuga, todavia, mal desembarcaram na praia, os cafres voltaram em maior número, homens e mulheres, arremessando-lhes lanças de longe, muito certeiras, por meio de um pau-lançador85, assim como também pedras e uns paus curvos e chatos que, se não derrubavam os adversários, voltavam pelo ar às mãos dos que os tinham lançado.
Vendo o número de atacantes, Pacheco fizera sinal ao segundo esquife, para que lhes acudisse, contudo os malaios, assustados com o que viam na praia, lançaram fora o único português que estava com eles e regressaram ao bergantim, soltando-lhe as velas e zarpando para Malaca.
Tendo deixando os companheiros entregues à sua sorte, nunca chegaram a saber se algum deles se salvara ou se haviam sido todos mortos. Pelo caminho forjaram a sua história de fuga e salvação, para não serem acusados e condenados como desertores ou por crime de traição.
A propósito do episódio sobrenatural, e tendo sempre em mente o apuramento da verdade, ousa a narradora arrancar o seu leitor à cena vivida por Fernão para, no capítulo seguinte, como num passe de magia que só a imaginação permite, o transportar a esse novo espaço invocado por artes demoníacas de um bonifrate possesso, a fim de lhe dar outro relato dos mesmos sucessos, registados pelos xamãs e homens velhos da Terra Australis em pinturas, canções e mimos que ainda hoje se podem observar nas cavernas e nas danças aborígenes. Após esta curta viagem no tempo, se retomará o fio à meada do relato da embaixada de Fernão ao reino dos Batas.
84 Presumivelmente a actual Sir Graham Moore Island, à entrada de Napier Broome Bay, segundo Peter Trickett, em Para Além de Capricórnio.
85 Woomera ou wommera é um atirador de lanças.
V
Pode ver-se passarem as nuvens, mas não os pensamentos
(maori)
Alchera ou Alcheringa (O Sonho ou a Era do Sonho):
No alvorecer dos tempos, a Terra era uma imensa planície, de onde se ergueram os Seres Sonhadores que aí dormiam, tomando formas de plantas e árvores, rochas, lagos e poços ou animais como o canguru, a serpente e o falcão.
A Era do Sonho terminou quando os Seres Sonhadores deixaram a superfície da Terra, mas o seu rasto permaneceu nela. E deixaram principalmente os Wandjina, Espíritos Ancestrais, senhores da chuva e do trovão, para trazerem à vida os seres humanos, as plantas e os animais, assim como as leis, o fogo e as armas, para ajudar o povo a viver na terra.
Graças aos rituais e cerimónias sagradas das tribos, ensinadas pelos Espíritos Ancestrais, a ligação dos homens com a Época do Sonho é continuamente renovada, tornando presente esse tempo primordial.
O povo é, pois, descendente dos Seres Sonhadores, que não morrem, vivendo sempre em diferentes formas. Na morte dos humanos o espírito sobrevive. O passado vive deste modo ligado ao presente e é muito real.
(Mito aborígene da Terra Australis)
Na gruta das pinturas dos wandjina, o Curandeiro desperta do seu Sonho causado pela erva que lhe permite comunicar com os Espíritos Ancestrais para pedir conselho e ajuda. Olha o grupo de cabeças redondas, com o seu halo ocre, os rostos brancos sem boca, os grandes olhos sombrios como poços sem fundo que o atemorizam sempre, contudo, tanto elas como Ungut, a Serpente Arco-Íris, não parecem perturbadas.
Não viera ali para pedir chuva ou caça abundante. A sombra do Curandeiro, separada do corpo durante o Sono, fora por ele enviada a Wallandanga, a grande Serpente Nebulosa de Estrelas por onde caminham os seres celestes, enquanto a Mulher-Sol com a sua tocha terrível e o Homem-Lua com o seu pálido facho iluminam a Terra. A sua sombra deambulara pelas regiões do Céu, onde os heróis vivem como estrelas, graças às proezas que cometeram na terra, porém não achara quem pudesse defender o seu povo dos wandjina que tomavam a forma de homens brancos, como as sombras dos mortos, com peles de crocodilo e tartaruga. O Curandeiro mandara a sua sombra ao Mundo Subterrâneo pedir ajuda aos Espíritos dos Antepassados, porque os wandjina maléficos vinham do mundo dos mortos para, mais uma vez, destruírem a harmonia do seu mundo.
A primeira visita dos altos e corpulentos Homens-Crocodilo à Ilha causara temor e estranheza ao povo, contudo, ao verem entre eles gente da raça dos pescadores de pérolas e de pepinos do mar, das ilhas do norte onde mora a Mãe de todas as coisas, os caçadores tinham-se acercado dos visitantes, para os conhecerem e tocarem nos seus estranhos corpos. Trocaram o ouro e as carapaças das tartarugas pelos panos vermelhos e azuis que eles traziam e ofereceram-lhes as mais belas mulheres da tribo em sinal de boas-vindas.
Então, o wandjina de longa veste que parecia ser o seu curandeiro – com o alto da cabeça rapado como um halo e um amuleto feito com dois paus cruzados – e também o chefe recusaram as mulheres, afrontando todo o clã ao infringir o tabu sagrado da hospitalidade e mostrando desse modo como as suas intenções eram maléficas. O povo retirara-se para o alto da colina e os guerreiros brandiram as lanças ameaçadoras, com gritos de Warra! Warra!, para que se fossem da sua terra. Por fim, partiram e o Curandeiro, que era seu pai, pintara na parede da gruta o wandjina estrangeiro da longa veste ocre, com poderes de xamã.
Passadas muitas luas, os espíritos maléficos vieram de novo do mundo dos mortos e quiseram pisar a ilha sagrada dos seus totens e isso o Curandeiro não pudera consentir e convocara os homens para a guerra. Uma tremenda batalha fora travada na praia e, apesar dos raios mortíferos dos paus de fogo e dos estranhos arcos que lançavam grossos dardos em vez de setas, o povo tinha vencido os Homens-Crocodilo, pagando a vitória com muitas vidas. Os mais valentes dos wandjina invasores foram comidos pelos guerreiros vencedores, para que a sua força e valentia passassem a fazer parte da tribo e a tornassem mais forte. Só a um pouparam a vida, por ser o chefe, que se distinguia pela falta dos dentes da frente.
De tempos a tempos tinham sidos avistados os pássaros de madeira gigantes com as asas brancas abertas ao vento, trazendo no seu bojo os espíritos brancos e ele temia que, se os wandjina tutelares os não protegessem, pudesse haver no céu uma nova Aurora pintada com o sangue derramado da sua gente numa feroz batalha. Como a do tempo da sua juventude, quando esses espíritos maléficos usaram contra o povo paus-de-fogo que explodiam em relâmpagos e trovões, dardejando raios que arrasavam tudo à sua volta. O Curandeiro roga aos wandjina tutelares que lhe enviem, numa estrela cadente, um pau-de-fogo gigante semelhante aos que nessa batalha tinham recolhido do pássaro de madeira e da sua piroga gigante e transportado para a ilha sagrada como totens da tribo, em honra da sua vitória.
Agora vêm mais uma vez inquietá-los e o curandeiros dos clãs de terra firme da ponta do recife pintaram na gruta dos wandjina da sua tribo imagens dos pássaros de madeira com asas brancas que trazem de novo sobre as águas os espíritos brancos do mundo dos mortos. E ele preparara-se cuidadosamente para a luta, lançando mão aos mais poderosos rituais encantatórios para proteger o seu povo.
Hoje terão lugar as últimas e mais importantes cerimónias de iniciação dos mancebos da tribo para a sua passagem à idade viril e das raparigas à puberdade a fim de receberem homem, para as quais se vinham preparando há muitas luas. O Curandeiro não pode permitir que os espíritos maléficos ensombrem a cerimónia, por isso escolhera um lugar secreto onde preparara a grande fogueira para limpar e purificar todos os neófitos com o seu fumo. Usara as duas matracas sagradas oferecidas pelos Espíritos Ancestrais, que pertenciam à sua família de Curandeiros há muitas gerações, para que a cegarrega estrepitosa dos seus sons expulsasse as forças maléficas do lugar. Fariam a dança da vitória do povo contra os wandjina de pele de crocodilo e tartaruga, com os seus paus-de-fogo de ferro e lança-dardos de estranha forma. Quanto ao resto, dependeria da protecção dos wandjina tutelares.
O canto e a dança iriam trazer consolo às raparigas que, após o seu primeiro sangue, haviam recebido as escaras da puberdade; porém, nem o pensamento de serem finalmente desfloradas pelos parentes, livres para se deitarem com qualquer moço que desejem para marido, as deixa esquecer as dores terríveis causadas pelas incisões da faca de pedra nas nádegas, agravadas pela areia que lhes tinham lançado nos lanhos para fazer as escaras maiores e mais belas. A provação por que passam serve para as ensinar a sofrer a dor com coragem, por isso, a muito custo contêm as lágrimas e os gemidos. O verdadeiro consolo vem-lhes do pensamento de quão mais atrozes são os rituais de iniciação a que se submetem os rapazes, no lugar secreto que elas não podem conhecer.
Do remoto campo sagrado não lhes chegarão gritos nem choros dos neófitos, que sofrem sem um gemido as dores do ritual da sua passagem ao mundo dos homens. Já todos têm as escaras no peito, ombros, braços e nádegas a cicatrizarem, mas ainda assaz dolorosas, contudo a nova dor do sexo aberto abafa qualquer outro sofrimento. No centro da clareira o último dos rapazes está deitado de costas sobre os corpos do pai, do tio e do irmão. Em menino já fora circuncidado, trazendo amarrado aos cabelos a pele do prepúcio, pele maléfica em forma de asas de morcego que o oferecia à morte. Agora fará o ritual da sua confirmação.
O Curandeiro levanta-lhe o pénis e faz-lhe por baixo uma incisão com o estilete de pedra, rasgando a pele a todo o comprimento e com ela o canal da urina, pondo a descoberto a massa de carne vermelha e sangrenta; o neófito estremece violentamente, aperta o bumerangue que tem na mão até os dedos ficarem brancos, para suster a dor, mas não solta um som. O pénis aberto é comprimido contra uma pedra, para o fazer mais leve e mais belo.
Os parentes ajudam-no a erguer-se e levam-no até à fogueira purificadora para que o sangue escorra até ao fogo e cinzas quentes são lançadas sobre a ferida, que depois será tratada com gordura de emu. O mancebo junta-se aos que como ele se tornaram homens e vão partir sós para viverem nos matos, sem poderem comer serpentes, opossuns ou lagartos, até as feridas sararem por completo.
Isto fizeram os wandjina pela primeira vez abrindo e soltando o seu pénis para com ele poderem lançar relâmpagos e coriscos de fogo. Assim o jovem iniciado poderá fulminar os seus inimigos com o raio e fazer o fogo que alimenta a vida.
No recinto da praia, purificado pelo fumo da fogueira, o tocador sopra no comprido tubo do didjeridu um longo lamento, as mulheres e as crianças cantam em voz baixa, fazendo música com dois paus ou bumerangues e marcando o ritmo ora com palmadas nas coxas, ora agitando folhas de árvores para simularem a passagem do vento nas penas da emu ou o restolhar de um animal assustado. Música, palavras e movimentos que fazem parte do Corroboree de canções e danças que contam as batalhas para conhecimento das gerações vindouras, recebidos pelos Criadores de Canções nos seus contactos com o Mundo Subterrâneo. O combate da praia já faz parte da gesta do povo e também da herança do Curandeiro, como todos os mistérios e ritos que remontam aos Espíritos Ancestrais da Era do Sonho e foram ensinados a sucessivas gerações de Curandeiros e enriquecidos pelos Criadores de Canções a cada novo sucesso digno de ser lembrado e celebrado.
Os guerreiros e caçadores alinham-se de frente para o mar, armados de lanças e escudos, os corpos cobertos por pinturas brancas, com penas coladas à pele, em intrincados padrões de guerra. Como um só homem, batem com os pés no chão, gritando os seus insultos aos inimigos, segundo o ritual ensinado pelo Curandeiro; os mais valentes avançam um a um, fazem o elogio da sua bravura, enumerando as suas proezas e lançando desafios às duas grandes canoas que se acercam, vindas do recife.
Cada embarcação traz à proa um grosso tubo feito de casca de árvore, figurando o pau-de-fogo dos wandjina invasores, os seus trinta ocupantes cantam e remam vigorosamente para a praia, onde desembarcam de um salto, puxando as canoas para terra. Vestem couraças feitas de casca de árvore, que lhes cobrem a cabeça, o peito e as coxas86 como peles de crocodilo e de tartaruga, vêm armados com espadas compridas de madeira e lançadores de dardos. O chefe dos guerreiros da praia e o cabeça dos wandjina invasores travam um diálogo cantado, para saber quem são, de onde vêm e o que pretendem.
O didjeridu solta o som grave e ameaçador do trovão, as matracas estralejam, as mulheres batem com as conchas em uníssono: são os estrondos dos paus-de-fogo das proas das canoas que desferem os seus raios e desencadeiam a batalha. Os guerreiros atiram uma chuva de lanças sobre os Homens-Crocodilo que despedem os seus dardos e carregam sobre eles agitando as espadas. Os guerreiros tombam, os wandjina também, atravessados pelas lanças. Os estrondos sucedem-se, muitos guerreiros caem sem vida e os Espíritos Brancos cantam vitória. Há combates singulares, com cânticos de morte ou de glória. O coro entoa as peripécias da batalha e a valentia dos heróis para animar os guerreiros que, com renovado ímpeto, lutam encarniçados até o último invasor ser vencido. Na praia pejada de mortos, os vencedores festejam o seu triunfo.
86 Imitavam os elmos e as couraças (e também as espadas e bestas que lançavam virotões) dos portugueses, na descrição da dança observada por H. V. Horne, em 1909, na ilha onde mais tarde se acharam os canhões do século XVI com o escudo de Portugal, transcrita em Para além do Capricórnio, de Peter Trickett.
VI
Não penses que não há crocodilos, só porque a água está calma
(malaio)
Lenda da origem das guerras entre os reinos de Bata e de Achem:
Uma manhã, el-rei de Achem avistou, a Este, uma luz azul muito brilhante e os seus espiões disseram-lhe que era o fulgor da bela princesa Puteri Ijo, filha d’el-rei de Deli Tua, das terras altas dos Karo. O impetuoso senhor de Achem, enamorado dela, mesmo sem a ver, enviou-lhe um emissário com o seu pedido de casamento e um riquíssimo presente. Como a princesa o recusasse, cheio de paixão, el-rei decidiu subjugá-la pela força das armas e invadiu-lhe o reino.
Os exércitos travaram uma crua batalha, sendo a vitória do primeiro combate dos dois poderosos irmãos de Puteri Ijo, um canhão e uma monstruosa serpente. Contudo, o enamorado rei de Achem recorreu a um ardil e lançou moedas de prata em lugar de pelouros contra as hostes de Deli Tua; maravilhados, os soldados abandonaram os seus postos de batalha e correram a apanhar o inesperado tesouro. Só o canhão, irmão de Puteri Ijo, continuou a lutar até o seu corpo ficar abraseado e sedento; então bebeu água e rebentou.
Derrotado o exército, o irmão-serpente refugiou-se no mar e Puteri Ijo ficou cativa dos achens e seria levada num navio para o reino do futuro esposo. Pediu para ir dentro de uma caixa de vidro e que cada família de Achem deixasse de oferta, no porto de desembarque, uma mancheia de cimpa – a mistura de farinha de arroz e açúcar de cana – e um ovo de galinha.
Ao desembarcar, vendo as pilhas de ovos e de cimpa, a princesa mirou o mar e murmurou umas palavras. Uma inesperada tempestade resolveu o céu e as águas dando passagem à monstruosa serpente que rastejou para junto da irmã e engoliu todas as ofertas. Então, Puteri Ijo montou no seu dorso e ambos mergulharam nas ondas para não mais serem vistos.
(A história de Puteri Ijo, conto de tradição oral)
O rei dos Batas regressara ao reino muito triste pelo mau sucesso daquela guerra e da grande mortandade feita pelo inimigo no seu exército, afora outros tantos feridos e queimados das bombardas e minas. No entanto, o resultado deveria ter sido diferente, visto que no primeiro dia de batalha obtivera uma vitória retumbante sobre os achens cujo exército pusera em fuga.
No dia seguinte, vendo que os inimigos tinham levantado o arraial, decidira seguir a vitória e, depois de enviar para casa todos os feridos que não estavam em condições de pelejar, prosseguira para a cidade muralhada onde se abrigara Alaudin, o rei de Achem, com o que restava do seu exército. Queimara duas grandes povoações e ainda quatro naus com dois galeões turcos que estavam varados em terra, lançando-se em seguida ao assalto dos muros da cidade com oitenta escadas, à escala vista, apesar da artilharia com que o inimigo varejava o rio de Penacão. Tomara os primeiros bastiões das defesas, dando morte a todos os que achara dentro, com poucas perdas dos seus homens.
Durante vinte e três dias tivera a cidade cercada, mas os batas, muito ufanos das vitórias do início, julgavam-se invencíveis e atacavam a cidade sem ordem nem acerto, pelo que não tardaram a cair numa cilada que lhes armaram os achens, com uma falsa saída, atraindo-os a uma mina que haviam preparado com muita pólvora e à qual deram fogo. A explosão atirara pelo ar o capitão bata com trezentos dos seus homens, feitos todos em pedaços, com um estrondo e fumaça tão espantosa que parecia um retrato do inferno, segundo contavam os sobreviventes.
O rei de Achem saíra logo em pessoa da cidade com mais de cinco mil amoucos87 que acometeram os batas, com um ímpeto de possessos dispostos a vencer ou morrer e, a coberto do fumo da pólvora, fizeram o exército de Timorraja bater em retirada para o morro de Minacaleu, deixando atrás de si o campo coalhado de mortos.
A esperança da vitória, se alguma ainda tivera, recebeu o golpe final com a chegada ao rio de Penacão da armada dos achens, de oitenta e seis navios, que regressava de Tenassarim aonde fora fazer guerra ao rei do Sião. Aconselhado pelos seus oficiais e ministros, Timorraja abandonara Achem e regressara a Panaju, onde desfizera o seu exército e partira numa pequena lanchara pelo rio acima, acompanhado somente por três homens da sua confiança, em busca de refúgio para a sua humilhação e dor, no pagode de Guinasseroo, o Deus da Tristeza, onde permanecera catorze dias encerrado, para expiação das suas culpas.
De regresso a Panaju, mandara chamar Fernão, que estava no jurupango com Coja Ale, para saber se a venda das mercadorias fora feita a seu contento.
– O meu Xabandar assegurou-me que a fazenda do capitão de Malaca foi bem negociada. Dizei-me se alguém vos ficou a dever alguma cousa, que eu vo-lo mandarei logo pagar porque não quero que à custa da minha honra se pragueje em Malaca dos mercadores de Panaju, por não terem verdade no que tratam, nem rei que os constranja a pagarem o que devem.
– Graças às mercês e favores que Vossa Alteza nos fez – responde-lhe Fernão, com os gestos de cortesia dos batas que já cumpre sem falhas –, os mercadores pagaram tudo o que nos deviam. – E com grande proveito, como esperava Pêro de Faria, pensa para si mesmo, acrescentando, para confortar o rei, uma daquelas promessas próprias de embaixador de um grande reino: – O capitão de Malaca em breve vos pagará a mercê vingando-vos de Alaudin e restituindo-vos as terras tomadas pelos achens.
Timorraja olha-o nos olhos, esboçando um sorriso amargo:
– Ah, português, português, rogo-te que não me tomes por tão néscio que creia nas vossas promessas! Como poderá socorrer-me quem em trinta anos se não pôde vingar a si? Nem o vosso rei, nem os seus governadores conseguiram castigar este inimigo, quando vos tomou quer a fortaleza de Pacem, quer a galé que ia para as Molucas, as três naus em Quedá, um galeão de Malaca, quatro fustas com duas naus que vinham de Bengala e outras muitas embarcações que agora me não vêm à memória, em que me afirmaram terem os achens morto mais de mil portugueses, afora a presa riquíssima que tomaram nelas, sobretudo de armas que usaram para me destruir. Daí, português, eu ter muito poucas esperanças nas vossas palavras, basta-me ficar como fico, com três filhos mortos e a maior parte do meu reino tomada, e vós na vossa Malaca não muito seguros88.
Fernão sente o sangue subir-lhe ao rosto, de vergonha e embaraço, com o remoque certeiro de Timorraja, incapaz de esboçar qualquer protesto ou justificação, jurando no seu íntimo que não voltará a falar-lhe de socorro e ainda menos a fazer-lhe promessas em nome de Pêro de Faria ou de quem quer que seja, sabendo de antemão que não serão cumpridas.
– Se já nada mais tens a fazer aqui, não percas tempo em partir, pois a monção está no fim e poderás achar no golfão grandes calmarias que te levem a Pacém, donde te Deus guarde, porque te afirmo que, se por mofina sorte lá fores ter, vivo te haverão de comer os achens aos bocados, o próprio rei mais que todos, porque jurou ao seu Mafamede, da casa de Meca, beber o turvo sangue estrangeiro dos malditos cafres sem lei, do cabo do mundo, usurpadores de reinos alheios nas terras da Índia e ilhas do mar, pois é assim que ele vos nomeia. Diz de minha parte ao capitão de Malaca, que vigie bem este inimigo achem, porque em nenhuma outra cousa imagina, senão em como vos há-de lançar fora da Índia e meter nela o turco. Isso lho escrevi também nesta carta de resposta à sua embaixada.
A carta vai acompanhada de um riquíssimo presente para Pêro de Faria e, ao despedir Fernão com todas as honras, Timorraja oferece-lhe dois cates89 de ouro e um pequeno terçado com embutidos preciosos no punho. O embaixador Aquarem Dabolai vai acompanhá-lo com escolta de honra até ao jurupango, onde o espera Coja Ale, que logo manda levantar ferro e seguir para a povoação de Batu Rendang, onde tinham esperado pelo chamado do rei.
À chegada, Fernão travara amizade com o rajá do povoado e tem esperança de poder empregar uma parte do seu ouro na compra de benjoim ou pimenta, a melhor preço do que em Panaju, o que lhe permitirá fazer bons tratos em Malaca ou no Sião. Além disso, deseja saborear de novo um naco de búfalo do rio como o que então comera, cozinhado lentamente em leite de coco com especiarias, acompanhado de arroz, que lhe fizera chupar os dedos deliciado.
O chefe tinha-lhe contado uma história sobre o nome do seu povo e a razão para os telhados das casas terem a forma dos cornos de um búfalo, curvos no meio, de pontas reviradas para o céu nos dois lados. Os minangkabau, cujo nome significa búfalo vencedor, eram assim chamados por causa de uma famosa batalha entre o seu povo e as forças do império Majapahit.
Quando os dois exércitos se achavam frente a frente, para não haver grande derramamento de sangue das duas partes, foi decidido que uma luta de morte entre dois búfalos ditaria o resultado da contenda. O príncipe do Majapahit escolheu um verdadeiro touro de combate, enorme e feroz, enquanto a tribo dos minangkabau apresentou uma cria de búfalo esfaimada, a cujos minúsculos cornos tinham atado lâminas aceradas de punhais. Assim que soltaram os animais, o vitelo faminto correu em direcção ao gigantesco búfalo para mamar, tomando os testículos por úberes. O grande macho não lhe prestou atenção, à espera de um adversário condigno e a cria, ao enfiar-lhe a cabeça por entre as pernas à procura de leite, espetou-lhe as facas na barriga e esventrou-o. Desse modo, os minangkabau saíram vitoriosos da guerra.
Chegam a Batu Rendang em boa hora, porque no dia seguinte vai haver celebrações no povoado, para festejarem senão a vitória pelo menos o regresso a casa dos homens que tinham combatido os achens. Fernão sabe por experiência que, em Samatra como nas aldeias de Portugal, não se fazem festas sem abundantes comezainas e vinho generoso, que no presente caso será rendang de búfalo regado com tampoy, o vinho feito de um fruto de casca grossa cor de canela. O rajá, sabendo da nova visita do embaixador de Malaca, há-de convidá-lo para comer a seu lado e assistir a todas as celebrações.
Batu Rendang sofrera algumas mudanças, decerto por medo dos achens, que constituíam agora uma real ameaça. A povoação está rodeada por uma cerca muito alta e forte, com portões que só se abrem para dar passagem a carroças e gado, tendo os aldeões de subir por uma escada móvel de canas e descer por outra, para entrarem ou saírem do recinto. Os portões abrem-se, todavia, para dar passagem ao embaixador Fernão Mendes Pinto e, quando ele entra, seguido de Coja Ale e do língua, o rajá vem ao seu encontro para o receber com as devidas cortesias e tomar o saguate ao seu hóspede.
O festim tem lugar na praça principal, numa espaçosa clareira com inúmeras esteiras de uma espécie de juncos ou caniços muito macios que parecem feitos de pano ou lã. Fernão vê um grande braseiro junto de uma estaca, onde será atada a rês que será sangrada e talhada em partes para serem assadas nas brasas, como é de uso naquelas partes. As mulheres dispõem vasilhas de arroz fumegante e recipientes que o língua lhe diz serem de um molho de suco de limas, sal e pimenta vermelha.
É um ajuntamento de toda a população de Batu Rendang, embora as mulheres se mantenham afastadas e o chefe conduz os hóspedes ao lugar de honra onde estão sentados os anciãos e homens principais com insígnias de chefes de outras tribos ou clãs. Sente-se um frémito de excitação na assistência, sobretudo dos guerreiros em trajos de combate, no modo como falam, movem os corpos ou agitam os crises e Fernão alvoroça-se também, com a ideia de assistir a um combate entre os homens ou destes com o búfalo, tão ao gosto dos jaus.
De súbito, faz-se silêncio, a multidão arreda-se para dar passagem aos guardas que conduzem um guerreiro achem, cativado na guerra pelos valentes soldados de Batu Rendang.
– Ninguém pagou o seu resgate – diz-lhe o língua, enquanto o prisioneiro é atado de pé à estaca. – Foi condenado à morte.
O guerreiro que o capturou avança, empunhando o cris e diz à assistência que o cativo é um infame, um covarde que matou à traição alguns dos melhores combatentes do seu clã, uma fera que não merece o nome de homem.
Todos os minangkabau sacam os crises, gritando por vingança e alguns guerreiros atiram-lhe lanças que o ferem em várias partes do corpo, sem lhe arrancarem um grito. O rajá acerca-se do prisioneiro, com o seu punhal desembainhado e corta-lhe um pedaço de carne do peito, que leva à boca, bebendo com prazer o sangue que dele escorre; depois, molha-o na salmoura, passa-o pelas brasas e come-o, vindo sentar-se no chão, sobre os tapetes de junco, entre Fernão e Coja Ale, ambos pálidos e mareados de morte.
É o sinal para que todos se lancem sobre o cativo, cortando-lhe pedaços de carne que comem crus ou assam na fogueira. Os gritos que a vítima solta, por fim, não os fazem parar, durando o tempo de três Ave Marias e dois credos, até ficar desacordado e morrer, descarnado até ao osso.
Algumas mulheres acercam-se do rajá, transportando vasilhas de arroz cozido onde foi misturado o sangue do guerreiro e uma travessa com as principais iguarias para honrar os seus convidados – o seu coração, nariz, orelhas, palmas das mãos e solas dos pés.
87 Do malaio amuk, que significa loucura furiosa, cólera, relacionado com práticas de magia e crença na invulnerabilidade às armas inimigas.
88 Peregrinação, capítulo XVII.
89 O cate chinês corresponde a cerca de seiscentos gramas.
LIVRO IV
MAR DA CHINA
CATAIO
Das mais cousas que vimos.
Destas grandezas que se acham em cidades particulares deste império da China, se pode bem coligir qual será a grandeza dele todo junto, mas para que ela fique inda mais clara, não deixarei de dizer (se o meu testemunho é digno de fé) que nos vinte e um anos que duraram os meus infortúnios, em que por vários acidentes de trabalhos que me sucediam, atravessei muita parte da Ásia, como nesta minha peregrinação se pode bem ver, em algumas partes vi grandíssimas abundâncias de diversíssimos mantimentos que não há nesta nossa Europa, mas em verdade afirmo, que não digo eu o que há em cada uma delas, mas nem o que há em todas juntas vem à comparação com o que há disto na China somente. E a este modo são todas as mais cousas de
que a natureza a dotou, assi na salubridade e temperamento dos ares, como na polícia, na riqueza, no estado, nos aparatos, e nas grandezas das suas cousas, e para dar lustro a tudo isto, há também nela uma tamanha observância da justiça, e um governo tão igual e tão excelente, que a todas as outras terras pode fazer inveja, e a terra a que faltar esta parte, todas as outras que tiver, por mais alevantadas e grandiosas que sejam, ficam escuras e sem lustro.
(Peregrinação, capítulo XCIX)
I
Podemos escolher o que semear, mas somos obrigados a colher aquilo que plantámos
(chinês)
Da Carta dos Tanigores de Nanquim90 aos seus Irmãos de Pequim:
Nós, servos desta santa casa, na quinta prisão do Nanquim, fazemos saber a vossas pessoas o seguinte:
Os nove estrangeiros que esta carta vos darão são homens de terras muito apartadas, cujas fazendas e corpos o mar consumiu com seu bravo ímpeto, que de noventa e cinco que eram, só esses coitados lançou na praia dos ilhéus de Tautaa. E vindo com as suas carnes chagadas, pedindo esmola de lugar em lugar, foram presos sem razão nem justiça, pelo Chumbim de Taypor e mandados a esta prisão, onde os condenaram a pena de açoutes de que logo se fez neles execução, como no processo da sua sentença vai tratado. E querendo-lhes mais, por desordenada crueldade, cortar ambos os dedos polegares das mãos, nos pediram ajuda com infinitas lágrimas.
Acudindo nós a tanto desamparo, nos queixámos logo à Mesa dos Vinte e Quatro da Austera Vida, os quais, com zelo santo, se ajuntaram todos na Casa do Remédio dos Pobres. Pelo que revogando a sua primeira sentença, remeteram a causa à vossa cidade de Pequim, com emenda na segunda tenção, pelo qual vos pedimos que em tudo olheis ao que convém a estes nove estrangeiros, por que não se perca a sua justiça, o que para nós todos será vergonhosa infâmia. E também os ajudeis com vossas esmolas e cubrais suas carnes, para que não pereçam ao desamparo.
(Peregrinação, capítulo LXXXVII)
Foi provavelmente no Outono de mil quinhentos e quarenta ou quarenta e um, que Fernão Mendes Pinto entrou no porto da grande cidade de Pequim.
Mais difícil, mas não impossível, seria o ano de quarenta e dois, porque, no instante desta narração, o tempo real dos acontecimentos já se esbateu há muito na névoa do Passado, tanto para o protagonista que os registou vinte anos depois de os ter vivido, como com mais razão para a presente narradora, volvidos quinhentos anos.
Talvez a imprecisão temporal se tenha ficado a dever aos muitos meses de contínuo sofrimento a que os nove portugueses, sobreviventes do naufrágio, estiveram sujeitos no tronco de Nanquim, onde perderam toda a noção da passagem do tempo, com os dias a sucederem-se sempre iguais. Assim, a narradora pede ao seu leitor que dele se abstraia também para que, com maior liberdade, possa seguir as peripécias deste relato.
Pinto mal pode crer que atravessou, de sul a norte, o Celeste Império – a celebrada Cataio que Cristóvão Colombo julgou erradamente ter descoberto quando aportou às Antilhas –, uma nação tão vasta que ir e vir da falda do mar até à corte do Filho do Céu leva mais de cinco meses de caminho por terra. Por essa razão, e também por haver muitos salteadores de estradas, a maior parte das viagens faz-se através da imensa rede de rios e canais, em paraus91 ou juncos ligeiros como aquele em que tinham navegado.
Os náufragos vão remetidos ao tribunal do aytao dos aytaos, o intendente dos mares em Pequim, para apelação da sentença e da execução da pena a que foram condenados em Taypor, cidade onde os prenderam por vagabundagem. Em Nanquim não se tinham livrado das vergastadas, contudo, graças à carta dos tanigores, os Irmãos da Misericórdia que os socorreram na enfermaria do tronco, guardam uma ténue esperança de escapar à amputação dos dedos, se a sua apelação for atendida.
Durante a longa viagem pelo rio Batampina92, haviam gozado de alguma liberdade, porque o chifuu, o alcaide que comandava o junco, como trazia a mulher prenhe e muito fraca, fizera uma navegação vagarosa com paragens em muitos lugares, nos quais lhes dera permissão de desembarcar, sempre escoltados por guardas, para irem pedir esmola e ganharem o seu sustento.
A viagem fora um passeio de desenfadamento, comparada com o que os aguarda agora no cais, com todo o aparato da justiça imperial, conjurando de novo o pesadelo dos cárceres de Taypor e Nanquim onde vários companheiros perderam a vida, consumidos de piolhos e prostração ou esvaídos em sangue dos açoites, de que os sobreviventes traziam ainda nas nádegas e nas pernas o bordado a ponto cheio das suas roxas cicatrizes.
Desembarcam primeiro os trinta prisioneiros chins, presos de três em três, com cangas ao pescoço, algemas nos pulsos e umas correntes muito compridas que se fecham nos grilhões dos tornozelos. Como os estrangeiros vêm condenados por vagabundagem e furto, crimes sujeitos a pena de morte, um lauteaa ou mandarim, trajado com a comprida túnica de seda preta e mangas largas, própria do cargo, aguarda-os sentado na sua liteira, com uma escolta de soldados e o transporte destinado a criminosos do seu jaez.
Cuidava Fernão que o pior dos castigos, sofridos durante a sua desgraçada odisseia, fora a canga que ainda lhe dobra a cerviz, uma pesada tábua de um palmo de largo, fendida em duas partes de modo a formar numa das pontas um buraco redondo onde à justa cabe o pescoço do preso. Fechados os dois pedaços, a tábua ficava um palmo acima do cachaço, por trás da cabeça, com a parte dianteira a cair sobre o peito, descendo até aos joelhos, impedindo o condenado de dormir e também de comer, por ter as mãos presas por baixo dela. Na parte frontal tem escrito em letras grandes o pregão dos crimes e respectivas sentenças dos folangji, os bárbaros estrangeiros.
Este suplício, todavia, não se pode comparar à nova ignomínia a que os submetem os guardas, enfiando cada um deles, com muitos brados e algumas chibatadas, dentro de sua gaiola de canas de bambu pouco mais larga do que o hóspede, forçando-o a agachar-se sobre um pequeno banco de ripas, com a cabeça fora do alçapão. As tampas, ao cerrarem-se de cada banda, deixam um buraco no meio para o pescoço, de tal modo que o preso não pode bulir daquela posição, virar a cabeça ou metê-la para dentro para comer e, se quiser fazer as suas necessidades, tem no fundo um buraco para se aliviar à vista de todos. Enfiada cada gaiola numa vara comprida que dois homens tomam aos ombros, o mandarim fecha as cortinas da cadeira e dá ordem de partida aos seus quatro carregadores.
– Huuph! Huuph! Dai lugar! Guarda ao lauteaa! – bradam os oficiais, um bom espaço à frente e de cada lado da rua, anunciando a passagem para afastar os transeuntes.
Os escrivães e outros ministros da justiça rodeiam a cadeira, esfalfando-se para acompanhar o trote dos carregadores, fazendo balançar os penachos de pavão e as fitas vermelhas com grandes borlas nas pontas dos toucados; atrás, em passo de corrida, seguem os guardas com os prisioneiros a pé, metidos numa corrente e, na cauda do cortejo, os portadores com as gaiolas dos folangji mais os seus guardiães.
Apesar da misérrima condição a que os Fados o condenaram, Fernão pasma com tudo o que os seus olhos vêem, quase esquecido dos solavancos, causados pela andadura rápida dos portadores, que ameaçam afogá-lo. Imagens prodigiosas de gentes e de espaços vêm sobrepor-se às das sevícias sofridas no tronco de Nanquim e também do naufrágio da panoura a remos em que andara no corso sob as ordens de António de Faria, cujo junco desaparecera sem deixar rasto. Fernão perdera todos os seus bens, uma fortuna considerável ganha com assaz de perigo e trabalhos, em cujo cômputo entrava a Noiva Roubada. Uma pérola sem preço que ele amara com paixão e mágoa, cuja recordação o atormenta sem descanso, deixando-o por vezes como um semivivo, entorpecido por uma dor maior que a dos tormentos do cárcere.
Ali, as novidades que se lhe oferecem são tantas e tão variadas que não deixam lugar para nenhuma outra coisa. Beijing ou Pequim, cabeça da província de Xutianfu, merece o nome de Metrópole da Monarquia do Mundo pela sua abastança e civilização, sem igual entre as capitais da Europa ou do Oriente, como Fernão pode observar da sua gaiola. Nanquim, de onde vêm, outrora considerada a maior cidade do mundo, já não pode competir em importância e grandeza com esta imensa urbe, em cujo âmago vive o rei da China.
As ruas por onde segue o infausto cortejo são todas direitas, sem lombos nem torturas, as principais mais largas do que a rua Nova dos Mercadores dos Ferros, em Lisboa, de uma légua de comprido, bem empedradas e pavimentadas, ladeadas por formosa casaria térrea. Nos seus extremos erguem-se os pailós, uns portais semelhantes a arcos de triunfo, com sino de vigia e portas de madeira muito bem ornamentadas, pintadas de vermelho, amarelo e azul, fechadas à noite por um capitão com os seus quadrilheiros, a fim de se preservar a ordem e protecção dos moradores.
Os homens que com eles se cruzam são alvos, de bons corpos, sem barba, com os cabelos longos como os das mulheres, atados no alto da cabeça com um nó atravessado por um prego delgado ou metidos em toucados com forma de cone ou em barretes altos, redondos, de duas abas como asas. A gente comum traja camisa ou túnica de cor e a de mais qualidade usa por cima das túnicas pelotes compridos, pregueados, de mangas muito largas e calçam botas ou sapatos de couro.
As mulheres, que fogem espavoridas à passagem do cortejo, ficando a espreitá-los dos vãos das portas, por trás das árvores ou das colunas dos pailós, são do povo, porque as ricas ou as nobres só saem em cadeiras, levadas em varas por quatro ou mais criados, todas fechadas e cobertas de cortinas, tendo de cada lado uma pequena janela de rede, de modo a poderem ver para fora sem serem vistas.
Bandos de monges de cabeças rapadas, vestidos com panos brancos, tocam cascavéis e recolhem esmolas de comida. A vista dos folangji causa o maior espanto e, logo que passa o andor do lauteaa, a gente acerca-se o mais que pode para mirar as estranhas criaturas de terras remotas e ler as inscrições das cangas. Uns acenam-lhes com amabilidade, outros insultam-nos, atirando-lhes pedras e sujidades ou apupando-os com desprezo.
– Achais-vos mais formosos do que nós? – brada de súbito Jorge Mendes, que de tudo faz chiste, mesmo nas situações mais gravosas. – Por minha fé, que assim desbarbados, salvo por esses míseros cabelinhos nas maçãs da barba ou no bebedouro, os olhinhos pequenos com os lagrimais afastados dos narizes amassados, mais pareceis da parentela do diabo do que criaturas feitas à imagem de Deus.
Fernão ouve-lhe a voz de falsa humildade a burlar-se dos algozes, proferindo doestos como quem reza.
– Cala-te aí, fumoso – brada-lhe no mesmo tom de ladainha –, que já nos meteste em maus lençóis com as tuas chalaças!
– Ui! Cabrões amarelos! Ide sacudir a puta que vos pariu!
Ouve-o lançar os palavrões e, por pouco não faz o mesmo, quando os carregadores chocalham as gaiolas, à laia de aviso, para os fazerem calar. Com as vistas toldadas e quase afogado pelo choque das canas contra o pescoço, solta um gemido lastimoso de – Ai, ai! Pobre de mim!, para os apaziguar.
Os chistes de Jorge já lhes tinham custado alto preço em chicotadas, quando os fizera rir de duas estátuas monstruosas dos deuses do inferno. Três bonzos escandalizados da chacota foram queixar-se ao chifuu, que os mandara atar de pés e mãos e açoitar com cordas dobradas até sangrarem; desde então nunca mais se riram de coisa que vissem, porém aquele desavergonhado parece não ter emenda.
Quando a mulher do chifuu perdeu o filho e a vida durante o parto, na cidade de Iunquinilau, nos cinco dias que passaram a celebrar as exéquias, o viúvo dera de comer e de vestir aos folangji por alma da esposa, libertara-os do castigo do remo e deixara-os ir a terra sempre que quiseram, sem colares de ferro nem algemas, supremo alívio que eles pagaram em orações pelo eterno descanso da defunta que os protegera enquanto pudera.
Mau grado as dores dos ossos e o medo que o atanaza, Fernão procura memorizar todas aquelas novidades, para mais tarde as pôr em papel, como é seu costume, um vício que o impele a escrever, sempre que as circunstâncias lho permitem. Nos troncos de Taypor e Nanquim, quando por duas vezes os tinham despojado dos escassos bens que possuíam, sentira-se o mais afortunado dos presos, por os ladrões terem descartado os preciosos papéis das suas notas como coisa mesquinha e sem valia.
Com a grande quantidade de gente que naquela terra sabia ler e escrever, mesmo no tronco não tivera dificuldade em arranjar penas, tinta e papel, porque tanto os carcereiros como muitos presos lhos davam de boamente a troco das histórias com que, num mau arrazoado em língua chim, procurava satisfazer-lhes a curiosidade sobre os folangji brancos, de grandes narizes e olhos redondos, nunca antes vistos naquelas paragens.
Um solavanco mais brusco arranca-o às suas divagações para a situação de réu de crime grave, parecendo-lhe bem improvável esse futuro como escrevinhador de crónicas, com o reino de Portugal no outro lado do mundo e ele prestes a morrer descabeçado ou de outra pior morte, na China. Para afastar os negros pensamentos, porque, apesar de não ser homem de grande coragem, a sua curiosidade sempre foi maior do que o medo, perde-se de novo na observação do formigueiro humano com que se cruzam, movendo a cabeça, qual galo pescoçado, o mais que lhe permite o buraco da gaiola.
É-lhe contudo difícil não estabelecer comparações com acontecimentos da sua vida passada e os grilhões que lhe pesam no corpo lembram-lhe outros, lançados por corsários mouros e gentios, quer no longínquo mar Roxo, quando fora pela primeira vez vendido como escravo em Mocaa, quer em Pegu, ao serviço do capitão de Malaca, Pêro de Faria. Arrependera-se mil vezes por ter embarcado na perigosa aventura do corso com António de Faria, porém, quando se vira sem um vintém de seu e com mais de quinhentos cruzados de dívidas, depois do roubo do pirata Coja Acem, não achara outro remédio para a sua penúria senão andar às presas para alcançar alguns proventos. Assim se fizera bom conhecedor dos meandros das derrotas comerciais dos mouros de que os portugueses se haviam apropriado, visitando os lugares que eram escalas obrigatórias nas viagens de cabotagem, resgatando os seus produtos e levando-os de uns portos para os outros, com grossos lucros.
Agora, se bem que nas piores condições, desvendava os segredos da misteriosa e cobiçada Cataio, de onde provinha o almíscar, o ruibarbo, a pedra-ume, as sedas, cetins e damascos mais belos, as porcelanas e os móveis preciosos, pacientemente trabalhados como jóias. Só nesta viagem de Nanquim a Pequim, navegara cento e oitenta léguas pelo grande rio Batampina, maravilhando-se com a fertilidade dos campos, com a riqueza das cidades ou a infinda quantidade de engenhos de açúcar, de lagares de vinhos ou de azeites, agrupados por ruas de duas a três léguas de comprido.
O seu espírito crítico mantém-lhe os pés assentes na terra e Fernão duvida se terá coragem para pôr em letra de imprensa o relato das suas viagens. Teme a invejice dos portugueses, um povo propenso como nenhum outro à murmuração contra os que sobressaem da mediana condição. As calúnias são como setas agudas e brasas acesas para ferir as honras ou abrasar as famas. Terá de precaver-se, para não fazer dúvida a quem o ler, nem dar matéria aos murmuradores, sempre encarniçados a julgar as coisas conforme o pouco que viram e os seus curtos e rasteiros entendimentos alcançam.
O aventureiro estava a ser profeta em causa própria sem o saber, como a presente narradora poderá testemunhar ao leitor. Muito embora, após o seu regresso à pátria e até ao fim dos seus dias, fosse respeitado e consultado sobre as coisas do Oriente pelos mais reputados cronistas do seu tempo e a sua obra tivesse servido de guia a outros viajantes portugueses e estrangeiros durante mais de cem anos, nos séculos seguintes vingaram a dúvida e o cepticismo dos murmuradores invejosos sobre a sua extraordinária Peregrinação e Fernão Mendes Pinto foi rotulado de mentiroso e fantasioso, acusado de falar do que jamais vira e votado ao esquecimento.
Denunciada a injustiça, retomemos a nossa narrativa no momento em que a deixámos.
Com um coro de gritos, o cortejo pára de súbito diante das portas da prisão de Gofanjauserca e Fernão sente de novo o aperto do medo a sufocá-lo. O chifuu deixa-os com o lauteaa e segue para a pilanga do aytao ou tribunal da relação, a fim de entregar aos Doze Conchalys da Mesa do Crime – os desembargadores e juízes de apelação com alçada suprema –, o processo da sentença dos nove estrangeiros, o qual vem fechado com doze sinetes de lacre. Chegavam ao fim da sua jornada e as portas do Inferno abriam-se diante deles com a promessa de infindos tormentos e apenas a esperança da morte como libertação.
90 Enseada de Nanquim foi o nome dado pelos europeus a Hangzhouwan (baía de Hangzhou) e ao Donghai (mar de Este/mar Oriental).
91 Pequena embarcação de guerra ou de mercadorias, comparada pelos europeus à galeota e à fusta.
92 Na Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, Batampina compreende uma parte do rio Yang-tsé e o Pequim-Hangzhou ou Grande Canal (Dayunhe ou Jinghang).
II
Vale mais fazer o bem a quem está perto do que queimar incenso à distância
(chinês)
Da sentença do Anchasi de Nanquim, enviada a Pequim:
Visto o processo das culpas, em que se prova haver dos réus ruins indícios, que estes, por sua parte, não contrariaram em sua defesa cousa alguma e como ao que tinham dito se não podia dar crédito, foi ordenado que por então sejam publicamente açoutados nas nádegas, para que com este castigo emendem suas vidas, e que também lhes cortem os dedos polegares das mãos, com as quais por claras suspeitas se pode bem coligir terem eles feito roubos e males criminosos, merecedores de pena maior, pelo que se apela, por parte da justiça, para o tribunal do aytao da Batampina, a cuja alçada compete.
(Peregrinação, capítulo LXXX)
Os presos são logo conduzidos ao pátio das execuções onde, juntamente com outros condenados, os fazem deitar de bruços, de pernas estendidas e mãos atadas atrás das costas, para receberem os trinta açoites com canas de bambu nas curvas das pernas, por ainda não estarem saradas as cicatrizes das nádegas, obra das flagelações anteriores.
Dois algozes, postos de cada lado dos condenados, levantam a cana com ambas as mãos e fustigam-nos, um na perna direita, o outro na esquerda, com grande crueza. Fazem em voz alta a contagem, sem se perturbarem com as súplicas, choros e gritos que se vão transformando em uivos de bicho estripado, para aos poucos se fazerem roncos de agonia e silenciarem, à medida que os réus dos maiores crimes, com penas de mais de cinquenta açoites, perdem os sentidos ou a vida.
Há sentenças até de cem açoites, cuja morte é certa, a menos que o condenado possa untar as mãos aos carrascos e guardas, sem os mandarins o saberem, ou aos próprios mandarins, caso o preso seja de grande qualidade com muita fazenda para pagar peitas em prata ou ouro. Nenhum dos nove portugueses é isentado do castigo e Fernão grita, chora e suplica como os demais. Enquanto os algozes fazem a carniçaria, os lauteaas presentes se desenfadam, em animada cavaqueira, comendo, bebendo e esgaravatando os dentes, tão à sua guisa como se estivessem a ouvir música numa casa de chá ou taverna d’el-rei.
Findas as punições, o pátio parece um açougue, com o lajedo coberto de sangue; os portugueses, como não se podem ter de pé, são levados de rojo por uma perna até à enfermaria da prisão e lançados sobre esteiras no chão. Também ali os Irmãos da Misericórdia servem de enfermeiros, aplicando nas chagas lavatórios, mezinhas e uns pós milagrosos que mitigam de imediato as dores.
Nessa noite, mais aliviados do sofrimento mas sem conseguirem dormir, praticam em voz baixa, mantendo-se muito juntos para se confortarem e não serem roubados das esmolas dadas pelos tanigores de Nanquim.
– Temos de concertar muito bem a nossa história – recomenda Cristóvão Borralho. – Se nos desviarmos do que dissemos aos chaens de Taypor e Nanquim, a nossa vida não valerá dez réis de mel coado.
– A nossa sorte depende do Fernão Mendes e do Borralho que falam este linguajar que se me emperra na boca – lembra Álvaro de Melo, acrescentando para os dois visados: – Tratai de defender bem a nossa causa, companheiros.
– Sossegai, pois, como nos tangerem, assi bailaremos.
Cristóvão mostra uma tranquilidade que está longe de sentir e Fernão faz-lhe um sinal cúmplice. São amigos de longa data, unidos por essa fraternidade que a ameaça constante da morte torna indissolúvel. Tinham-se conhecido em Patane, no Sião, e andavam juntos há alguns anos pelos mares da China, quer em missões a mando do capitão de Malaca, quer como soldados mercenários ao serviço dos reis gentios ou ainda na veniaga e no corso com aventureiros da nobreza, como António de Faria, sendo o próprio Cristóvão Borralho um cavaleiro-fidalgo da casa d’el-rei. Navegando meses a fio com as chusmas chins e jaus, tinham aprendido a falar as línguas dos naturais, o que era uma verdadeira dádiva nas presentes circunstâncias.
– Se os mandarins não sentem amor nem piedade pelas suas gentes, muito menos se compadecerão de cossairos93 estrangeiros – reconhece Jorge Mendes. – O povo é mais mal tratado por eles do que pelos diabos do inferno! Por tudo e por nada são metidos em cadeias, açoutados e postos a tormentos das maneiras mais cruéis.
– Por isso esta gente é tão sujeita e medrosa que não ousa falar e menos ainda desobedecer aos seus senhores – apoia Valentim de Alpoim, um veterano das campanhas da Índia. – Sempre os ouvem de joelhos, com a cabeça no chão e o rosto na terra, como se os mandarins fossem relâmpagos que os pudessem fulminar.
– A nós, desculpam-nos por sermos estrangeiros e nunca nos castigaram por não fazermos as cortesias que lhes são devidas – acode Fernão. – Não há dúvida que são cruéis nos castigos, no entanto condenam à morte muito menos do que os nossos juízes. Também não são tão leves no mentir como os nossos e raros aceitam peitas. Fazem justiça tanto aos pobres como aos ricos, até o mais miserável dos homens pode ser ouvido e defender-se, com a ajuda dos Irmãos da Misericórdia. Como aconteceu connosco!
– Justos, eles? Quantas vezes já nos deram açoutes, apesar da apelação da sentença? – berra Joaquim Pereira, de ânimo insofrido e quezilento, sempre disposto a contrariar qualquer partido e a armar querelas. – E dizes tu que não mentem? Bem trapaceiro foi o chaem de Taypor que fabricou as nossas culpas, arrolando testemunhas falsas, além de nos ter roubado tudo quanto tínhamos, que já era bem pouco!
– Ouvimos as queixas dos presos chins, nossos companheiros – retoma Vicente –, de como são esbulhados das suas terras pelo poder dos mandarins e dos capados94 da corte. Se não tem que comer, nem meios de ganhar a vida, como pode esta gente sentir amor pelo rei e seus ministros? Daí que tantos fujam para as montanhas, fazendo-se ladrões ou alevantados contra os seus senhores.
Vicente Morosa, outro veterano de muitas campanhas e homem sisudo que não fala à toa, solta uma risada:
– Quanto às nossas culpas, fabricadas ou não, as acusações até são justas. Meta cada um a mão no peito que achará de que prestar contas. Que andámos nós a fazer nos mares da China, às ordens do capitão António de Faria, senão corso, assaltos, roubos, violações e matanças de gente inocente, quer nos seus barcos quer nos povoados costeiros?
– Para mais em companhia de Quiay Panjão, um cossairo chim! – aquiesce Borralho – Depois da nossa vitória sobre o maldito Coja Acem e da queima do seu hospital, ganhámos tão má fama nas costas de Liampó que, mal tinham rascunho da nossa chegada, as povoações se despejavam de moradores, os quais, com a pressa de fugir, deixavam as suas casas com todo o recheio das fazendas e mantimentos.
– .Que António de Faria mandava recolher e carregar nos juncos – interrompe-o Jorge –, pois já sabia que não encontraríamos naqueles portos quem nos quisesse vender sequer um grão de arroz.
– Deus nos guarde de aparecer algum dos seus capitães ou mercadores com um dos muitos cartazes de salvo-conduto que ele lhes mandou passar, como se fora o governador ou o capitão de Malaca! Se o aytao almirante tiver sequer rascunho dessa arrogância.
– Essa foi de mestre! – bradou Jorge. – Os chins estavam tão cheios de medo que vieram pedir os cartazes e ainda por cima pagaram por eles. Ainda me lembro do teor deles:
Cartaz de Seguro que António de Faria passou aos
Chins, na Cochinchina, em reconhecimento de lhe serem tributários:
Seguro, debaixo da minha verdade, ao Necodá Foão95, para que possa navegar livremente por toda a costa da China, sem ser agravado de nenhum dos meus, com tanto que onde vir portugueses os trate como irmãos.
Outorgado na Ilha de Ainão, no mês de Setembro, do ano de mil quinhentos e quarenta e dois.
António de Faria, Capitão da Armada d’ElRei de Portugal96.
Coja Acem! Fora com grande crueza que António de Faria festejara a sua vitória sobre o odiado corsário que jurara perseguir sem descanso e matar todos os portugueses que passassem ao alcance dos seus navios. O capitão buscara-o com igual determinação, pelos mares da China, e vencera-o em fera batalha, com perda de muitas vidas. Findo o combate, desembarcara na ilha para enterrar os mortos, muitos dos quais portugueses. O desgosto acirrara-lhe a sede de vingança e ao ver, na aldeia saqueada pelo corsário, um templo que servia de hospital a noventa e seis dos seus homens, mandara lançar-lhe fogo por seis ou sete lados, sem atender aos pedidos de misericórdia dos enfermos. Não se dá vida a quem matou tantos cristãos!, bradara enfurecido.
O templo era todo de madeira breada, com tecto de folhas secas de palmeira, de modo que em menos de um credo se fez num braseiro infernal, com labaredas que tudo devoravam. Fernão recordava-se dos gritos horríveis dos acamados e também da cruel morte daqueles que procuravam fugir às chamas, lançando-se pelas frestas que a casa tinha por cima, para virem cravar-se nas lanças e chuças com que os recebiam no ar os portugueses do bando de Faria e os chins de Quiay Panjão, que também queriam vingar a morte dos moradores da aldeia, seus conterrâneos97.
– Quanto a mim, leva a primazia a todas as nossas malfeitorias – lembra Borralho, arrancando Fernão aos seus pensamentos – a profanação das sepulturas da ermida da ilha de Calempluy98, que destruímos para pilhar as jóias de prata e ouro nelas enterradas. Apesar de serem jazigos gentios, fizemos sacrilégio ao desacatar os mortos.
– Cousa de pouca monta – chasqueia Jorge –, visto ser nossa tenção furtar os tesouros dos túmulos dos dezassete reis da China sepultados nessa ilha!
Fernão murmura, com laivos de remorso ou medo:
– Cuido que o desaparecimento da panoura. da galeota do capitão Faria com toda a sua gente, assim como o naufrágio da nossa foram castigos de Deus por esses desmandos e crueldades. Se escapámos com vida foi decerto para expiarmos a nossa culpa com os tremendos trabalhos que temos sofrido nesta terra.
– Longe vá o agouro, homem! – Álvaro de Melo persigna-se. – Eu não tomei parte na pilhagem, por ser o meu quarto de serviço.
– Nanja eu, que estava mareado – acrescenta Gaspar de Meireles.
– Todavia haveis recebido o vosso quinhão do saque, portanto estais também sujeitos ao esconjuro do ermitão! – atiça-os Jorge, com um esgar de zombaria. – Depois de esmechado, unta-lhe o casco.
Joaquim Pereira replica com voz trémula:
– Que outra cousa era de esperar dessa empresa senão desastre? E não foi por falta de avisos, sinais e agouros de desgraça, que desprezámos pela ganância do prémio prometido pelo cabrão do cossairo Similau99 que tão bem nos soube enganar.
– Juro, pelo céu que nos cobre, eu mesmo lhe daria cruel morte naquela noute, na enseada de Nanquim – brada Álvaro de Melo, em voz alta, quase esquecido do lugar onde se acha –, se esse tredo não tivesse fugido do barco para terra. O fideputa cagou-se de medo com o juramento que Faria fez, com a mão nas barbas, de lhe dar morte às punhaladas, por nos meter a todos em tão perigosa aventura e tardar mais de oitenta dias a achar Calempluy.
– Após ele, fugiram trinta e dous dos quarenta e seis chins que levávamos – lembra Fernão, com um suspiro. – Nós bem queríamos volver a Liampó100, porque estávamos em grande perigo depois da fuga da chusma e do Similau, que era o piloto, mas Faria recusou.
– Uns pescadores disseram-lhe que a ilha ficava a poucas léguas do lugar onde nos achávamos – torna Álvaro. – Contai-nos o que haveis feito por lá, Fernão, pois alguns de nós não chegámos sequer a pôr os pés em terra. Sabeis bem contar histórias que nos ajudam a esquecer as dores e os grilhões.
Dores, tem-nas Fernão, bem grandes, mas também acha alívio nesses contos de desgraças e glórias que dão prazer aos companheiros, por isso, aquiesce de boamente ao pedido.
– Posto que tamanho tesouro não deixaria de estar com muita vigia e guarda, houve conselho, assentando-se que o capitão iria primeiro no seu junco rodear a ilha toda por fora, a ver as suas entradas e impedimentos ao desembarque.
– Dessa parte sabemos nós – impacienta-se Gaspar. – Conta o que viste em terra.
– A ilha era um formoso santuário, toda fechada em roda com uma fileira de monstros em ferro, de mãos dadas como se dançassem e o bosque de laranjeiras anãs com as trezentas e sessenta ermidas de que nos falara o tredo do Similau. Um quarto de légua mais acima, sobre um teso, erguiam-se os sete templos com as suas frontarias todas cozidas a ouro de alto a baixo, a cousa mais maravilhosa que vi em toda a minha vida. Houve quem dissesse que tínhamos achado a Ilha do Ouro.
Borralho, sem se conter, toma-lhe a palavra:
– Os espias não viram guardas ou soldados nas ruas, no entanto, desconfiando da fartura, Faria desembarcou com quarenta soldados e vinte escravos, mais o chim que já havia estado na ilha.
– Ouvi dizer que toparam apenas com um ermitão de mais de cem anos de idade, que mal se podia ter nas pernas e ficou tão fora de si que caiu de focinhos ao chão, a tremer de pés e mãos – zomba Gaspar.
– Assi foi, porém, mal recobrou o uso da palavra, teve ânimo para nos amaldiçoar e lançar pragas, quando nos viu a quebrar as campas e revolver os ossos dos defuntos para lhes roubar as jóias! – lembra Valentim, com uma risada. – Apodou-nos de ministros da noite, cães esfaimados aos quais nem toda a prata do mundo poderia fartar. O capitão jurou-lhe que o fazíamos por necessidade daquela esmola, pois tínhamos naufragado e perdido toda a nossa fazenda, que não podia impedir aquela má obra dos seus homens porque eles o matariam, mas prometia pagar-lhe tudo mais tarde. A promessa sossegou-o um tanto, até Faria lhe perguntar quantos homens guardavam os túmulos dos reis da China e o velho perceber que era nossa tenção pilhá-los.
Jorge interrompe, num tom escarninho, a disfarçar alguma amargura:
– O capitão cometeu o erro fatal de o deixar livre na ermida, por ele mal poder andar. Foi tropeçar em cuidados: assi que saímos dali para tornar ao barco a preparar o assalto às outras ermidas e aos túmulos dos reis, o velho foi a rastejar de pés e mãos até à capela mais próxima, cujo ermitão deu o alarme. Em menos de uma hora, começou o martelar dos sinos e, por cima da cerca do Pagode dos Reis, surgiu uma carreira de fogos de aviso. António do Faria ainda desembarcou de madrugada com alguns homens, mas o perigo era muito, forçando-o a bater em retirada, depenando as barbas e dando-se muitas bofetadas de raiva por ter perdido, por seu descuido, tamanha riqueza como aquela.
– Escapámos por milagre do rio e dos perigos de terra – desabafa Valentim – para nos perdermos no mar, a nós e a toda a prata que furtámos com tamanho trabalho!
– Falai baixo, homens de Deus. – geme Francisco Diogo Zeimoto, muito fraco da perda de sangue. Estivera tanto tempo desacordado que já o tinham dado por morto. – Olhai, se nos denunciam.
– Quem? Quantos portugueses crês tu que esta gente viu? – retorque Borralho. – Só aqui estiveram os da embaixada de Tomé Pires, há mais de vinte anos, e mataram-nos a todos. Ou já te olvidaste do que nos contou Inês de Leiria?
Inês de Leiria! Fernão deixa de ouvir os companheiros, esquecendo as dores e o cárcere, quando o seu pensamento o transporta de novo à pequena cidade de Sampitay onde, na viagem pelo rio Batampina, ficaram cinco dias por causa da mulher do chifuu.
93 Corsários.
94 Eunucos que disputavam o poder aos mandarins, os burocratas e letrados da administração chinesa.
95 Fulano.
96 Peregrinação, capítulo LII.
97 Peregrinação, capítulo LX.
98 Ilha de Putuo Shan, no mar da China.
99 Zin Zilao, famoso pirata chinês que foi o primeiro investidor em Liampó/Ningbo, entre 1538 e 1542.
100 Liampoo – Ningbo (China).
III
Não se vanglorie o grande, nem se queixe o pequeno: ondas são que com o tempo crescem e manguam
(português)
Sobre a primeira embaixada dos folangji:
No início de Kia-tsing (1522), o reino dos Folangji enviou um embaixador para oferecer o tributo.
Essas gentes gostavam de comer criancinhas. Dizia-se que, no seu país, só o rei as podia comer; os ministros e os que estão abaixo deles não o podiam fazer. Nesse tempo, os folangji compraram secretamente crianças com mais de dez anos e comeram-nas; compravam cada criança por cem moedas de ouro aos moços vadios do Kouang que as raptavam.
O seu modo de proceder consistia em ferver água numa grande panela e quando ela começava a fervilhar, metiam a criança numa gaiola de ferro, suspendiam-na por cima da panela e escaldavam-na ao vapor, para lhe extrair o suor. Logo que ela perdia todo o suor, tiravam-na da gaiola e com uma escova de ferro raspavam-lhe a pele escaldada. A criança continuava viva. Então matavam-na, abriam-lhe o ventre, retiravam-lhe os intestinos e o estômago, coziam-na ao vapor e comiam-na. Durante dois ou três anos, as crianças raptadas tornaram-se cada vez mais numerosas. Sofria-se com isso tanto perto como longe. O aytao Wang Hong quis expulsar os folangji com tropas.
(T’ien-hia kiun-kouo li-ping chou101)
Vinham há onze dias presos de pés e mãos aos remos, com os corpos chagados das correadas que tinham recebido, por se terem rido das estátuas dos deuses dos Infernos. O chifuu fora forçado a parar em Sampitay por causa da mulher que precisava de cuidados médicos e dera licença a Fernão, Borralho e Zeimoto – os que melhor falavam a língua chim – para irem pedir esmola pelas ruas da cidade.
Saíram do junco, despedidos pelo coro de murmurações invejosas dos restantes companheiros, apesar de irem carregados com grilhões nas mãos e nos pés, escoltados por quatro upos com alabardas, semelhantes aos beleguins portugueses, a quem teriam de dar por paga metade do que recolhessem.
Cobiçosos dos lucros, os guardas levavam-nos pelas principais ruas da cidade, onde atraíam grandes ajuntamentos de curiosos. Os chins, apesar de desprezarem os pedintes, tachando-os de ladrões e preguiçosos, espantavam-se com o aspecto dos folangji acorrentados, mas, vendo que falavam a língua da terra, davam-lhes roupa, dinheiro e mantimentos com grande largueza, fazendo-lhes muitas perguntas, como nessa manhã em que se dessedentavam na fonte da grande praça de Sampitay:
– Sois de que reino?
– Que terra é a vossa? Como se chama o vosso povo?
Respondiam-lhes, mantendo a sua história, enfeitando o relato com tantas cores quantas lhes permitia o seu domínio da língua, para comprazerem a assistência e conseguirem esmolas mais generosas.
– Somos mercadores da Índia e sofremos um naufrágio nas costas de Nanquim.
– Já fomos ricos, mas perdemos tudo.
– Fomos falsamente acusados de ladrões pelo chumbim de Taypor.
Quando a multidão dispersou, uma mulher ainda moça deu-lhes dois mazes, a moeda de Malaca de cinquenta réis, dizendo:
– Não devíeis fazer viagens compridas, onde Deus permite fazer as vidas tão curtas. O melhor é trabalhar a terra, já que Deus foi servido de nos fazer de terra.
Agradeceram-lhe ao modo de Portugal, desbarretando-se e ela sorriu enlevada. Fernão achou-a bonita, quase parecida com as mulheres portuguesas, no modo como falava ou naquilo que dizia e o seu coração apertou-se de tristeza. Reparou que estava vestida como uma dona de qualidade, embora não tivesse os pés enfaixados. Chegando-se mais, a moça arregaçou a manga do jubão de cetim roxo e mostrou no braço nu uma cruz gravada a ferro quente.
– Algum de vós conhece este sinal, a que os cristãos chamam cruz? Já ouvistes falar nela?
– Sim, em nome de Jesus Cristo! – bradaram os portugueses, em uníssono.
Com lágrimas nos olhos, puseram os joelhos em terra, com a mesma devoção que teriam numa igreja, por aquela cruz lhes parecer um sinal ou um milagre de Deus. Mais certos ficaram ainda da intervenção divina, quando ela deu um grito de júbilo e, erguendo as mãos ao alto, disse na portuguesa língua:
– Padre nosso que estás nos Céus, santificado seja o Teu nome.
– Sois portuguesa? – perguntou Fernão, tal como os companheiros, duvidoso do que ouvira, tanto mais que ela tornou logo a falar chim.
– De português só sei estas palavras. Dizei-me, por vossas vidas, se sois cristãos.
– Somos cristãos portugueses, juramos por esta vossa cruz que falamos verdade – assegurou-lhe Borralho.
Os três, tomando-lhe o braço com muita reverência, beijaram a tatuagem e recitaram em coro o Padre Nosso, para ela ver que não mentiam. O entremez atraíra gente curiosa que ela afastou com bons modos mas firmemente.
– Vinde, cristãos do cabo do mundo, com esta vossa irmã na fé de Cristo – rogou-lhes, quando ficaram de novo sós, acrescentando, com um sorriso: – Quiçá serei parenta de algum de vós por parte do pai que me gerou neste desterro. Chamo-me Inês de Leiria, sou filha de um português chamado Tomé Pires. Ouvistes falar dele?
– O boticário Tomé Pires é vosso pai?
– Cuidei que o embaixador tinha sido morto pelos chins, com todos os da sua comitiva.
– Vosso pai inda é vivo?
Não saíam do pasmo. Quem poderia imaginar uma tal história? Quando a ouvissem, os seus companheiros iriam achar que eles estavam a contar inzonas para os enganar.
– Não – disse Inês, com tristeza. – Vinde a minha casa, para eu vos dar de comer e vos contar a sua desgraçada vida.
Os upos recusaram, ameaçadores:
– Ide pedir esmola pela cidade, como vos foi mandado pelo chifuu, senão volveremos já ao barco.
– Não perdereis nada das esmolas, porque eu vos darei remédio – sossegou-os a filha de Tomé Pires, conhecendo as razões da sua recusa.
Meteu-lhes nas mãos dois taéis102 de prata para os amansar e os guardas, sem mais protestos, escoltaram-nos até à casa da sua anfitriã que os sentou à mesa e lhes serviu comida em quantidade e qualidade como há muito não comiam.
– O meu pai contou-me muitas vezes como veio por embaixador d’el-rei de Portugal ao Filho do Céu, sendo de início muito bem recebido – começou Inês, quando os viu saciados e capazes de atenderem a algo mais do que ao prato de comida. – Contudo, por obra dos abusos que um capitão português fizera entretanto em Cantão, os mandarins disseram que ele não era embaixador mas sim um espia. Prenderam-no com os doze homens da sua companhia. – quebrou-se-lhe a voz e as lágrimas correram-lhe pelo rosto. Fez um esforço para as conter e prosseguiu: – Deram-lhes muitos tratos para os fazerem confessar, de que logo morreram cinco; os restantes foram executados ou pereceram nos troncos, comidos de piolhos e maleitas, salvo o embaixador e um tal Vasco Calvo, ambos condenados ao desterro, apartados um do outro. O meu pai morreu há três anos, Calvo ainda vive e é conhecido por Alcochete, de onde é natural, tal como eu recebi o nome de Leiria, a terra dos meus avós.
Não logrou suster as lágrimas, a que os condenados juntaram as suas, dizendo-lhe palavras de conforto, maravilhados com este encontro que lhes fizera conhecer o desgraçado fim da primeira embaixada de uma nação do Ocidente ao reino da China. Fernão assobiou entredentes, lembrando-se de uma estranha coincidência:
– Andávamos no. trato da pimenta – emendara a tempo a palavra corso, ao aperceber-se de que quase se denunciara como corsário –, ao serviço do fidalgo António de Faria, quando tivemos notícia de cinco portugueses cativos em Nouday. O nosso capitão enviou um presente ao mandarim com uma petição para o resgate dos homens, porém ele recusou-se a entregá-los e ainda nos insultou com muita soberba. Acometemos o lugar, a fim de libertar os cativos pela força das armas e o mandarim veio dar-nos combate luzindo uma couraça roxa com cravação dourada, à moda antiga, que pertencera a vosso pai.
– De verdade? Que lhe sucedeu? – perguntou Inês, com os olhos muito abertos e o pranto interrompido.
– O mandarim foi morto e Nouday saqueada e incendiada.
– E a couraça, foi destruída? – havia ansiedade na voz da mulher.
– O capitão Faria guardou-a para si quando soube de quem era. Temo que se tenha perdido com ele e o seu junco, desaparecidos sem deixar rasto durante a tempestade que nos fez naufragar na enseada de Nanquim.
Após uns momentos de silêncio, a filha do embaixador ergueu-se, limpou os olhos e disse-lhes, com um sorriso de gratidão:
– O meu pai guardou algumas cópias das cartas que ele e os companheiros escreveram, durante a sua prisão. Há uma, de um amigo a quem ele muito estimava, que decerto vos prazerá ler.
Foi buscar uma bonita caixa lacada, de onde tirou, com os cuidados de quem guardava uma herança preciosa, umas folhas dobradas, amarelecidas pelo tempo. Passaram-nas de mão em mão num silêncio comovido.
– Esta é de Cristóvão Vieira! – bradou Fernão, depois de ler por alto o manuscrito que lhe coubera em sorte e vendo a assinatura. – Conta os passos dados por Tomé Pires com os do seu séquito, no início dos contactos, assim como o miolo das intrigas dos mandarins contra eles, que causaram a animosidade do Filho do Céu.
Começou a ler em voz alta a longa carta que não só contava a história da malograda embaixada, como fazia uma descrição pormenorizada da China, das suas magnificências e fraquezas. Era mais do que um lamento de prisioneiro ou uma súplica para virem libertá-los, era um apelo ao governador para que enviasse uma armada, em nome d’el-rei de Portugal, à conquista daquele imenso império, mostrando-lhe como seria empresa fácil para os portugueses, visto os chins não serem bons de peleja nem terem grandes defesas nos portos e nas cidades.
– As respostas às cartas não chegaram e os prisioneiros morreram – acrescentou Inês, quando Fernão terminou a leitura. – O meu pai veio desterrado para esta cidade, onde conheceu e casou com a minha mãe, que tinha alguma cousa de seu e se fez cristã. Converteram muitos amigos e vizinhos à fé de Cristo.
A chegada dos upos pôs fim ao encontro e os portugueses despediram-se da sua anfitriã com os olhos marejados de lágrimas. Inês entregou aos guardas um presente para a esposa do chifuu, com uma carta onde lhe rogava que intercedesse junto do marido para que os nove condenados pudessem ficar em sua casa durante os dias que passassem em Sampitay.
Conseguido o seu favor, no dia seguinte agasalhou-os a todos com grande conforto e os presos sentiram-se como se estivessem em Portugal, apesar de falarem chim com a sua anfitriã, os criados e os visitantes. Na casa havia um oratório com uma cruz de pau dourada, ladeada por dois castiçais e uma lanterna de prata, onde os nove portugueses se ajoelharam em oração de graças, na primeira noite em que ali pousaram.
– Devido ao trabalho dos meus pais, há agora mais de trezentos cristãos na cidade e todos os domingos nos juntamos para pregarmos a nossa doutrina. Já lhes mandei recado da vossa presença e amanhã teremos aqui reunião, pois desejam muito fazer-vos perguntas, se estiverdes dispostos a satisfazê-los, posto que, afora Tomé Pires, nunca conheceram outros cristãos.
– Não somos clérigos, mas procuraremos responder o melhor que soubermos – promete Borralho.
Vieram todos. Passado o alvoroço da novidade e do relato da sua história, os portugueses responderam às perguntas que, tanto os homens como as mulheres e até os meninos, lhes fizeram. Era já noite quando foram todos postar-se de joelhos diante da cruz, no oratório, para dar graças a Deus por aquele encontro. Os chins, com as mãos e os olhos erguidos ao céu, disseram em coro:
– Senhor Jesu Cristo, verdadeiro Filho de Deus, concebido pelo Espírito Santo no ventre da Virgem Santa Maria, para salvação dos pecadores, perdoa os nossos pecados para que mereçamos ver a Tua face na glória do Teu reino, onde estás assentado à destra do mui alto Padre nosso que está nos céus, santificado seja o Seu nome. Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, ámen.
Beijaram a cruz, abraçando-se uns aos outros. Fernão e Cristóvão entreolharam-se pasmados e só não riram porque se sentiam comovidos com a fé daquela comunidade de cristãos no fim do mundo.
– Estas criaturas de Deus não conhecem qualquer oração nem os ritos da nossa Igreja! – murmurou Fernão.
– Podíamos ensinar-lhes algumas preces – alvitrou Borralho, no mesmo tom. – Assim agradecíamos à moça e também a Deus a mercê de a ter posto no nosso caminho.
Despedidos os últimos visitantes, Inês voltou para junto dos seus hóspedes, com um sorriso de felicidade que parecia iluminar-lhe o rosto de feições suaves, tornando-a muito bela. Os portugueses sentiram no ventre e na alma um desejo pela mulher a feri-los como lume.
– Conheceis outras preces, além da que ouvimos há pouco? – perguntou-lhe Fernão, respirando fundo para libertar o nó da garganta.
– Meu pai deixou-me muitas orações escritas, mas foram furtadas pelo meu povo, por isso não sabemos dizer outra, além da que ouvistes – lamentou-se, olhando-os como a pedir perdão.
– Que é muito boa – apressou-se Borralho a consolá-la, numa voz doce como o amigo nunca lhe tinha ouvido –, porém, se vossa mercê quiser, antes de nos irmos de cá, podemos deixar-vos outras para diferentes funções.
– Fazei-o, por esse Deus a Quem tanto devemos – rogou-lhes, de mãos postas e olhos brilhantes.
Durante a sua curta estadia na casa do embaixador, Fernão e Cristóvão, acolitados pelos companheiros, fizeram sete vezes doutrina aos cristãos chins, enchendo-os de um novo ânimo para a sua fé. Inês escreveu num caderno, em letra da China, o Pater Noster, a Ave Maria, o Credo, a Salve Regina, os Dez Mandamentos e muitas outras orações que os dois amigos lhe ditaram.
Toda a comunidade cristã viera assistir à partida dos portugueses, dando-lhes cinquenta taéis de esmola, à despedida, e Inês entregara outros cinquenta a Fernão, às escondidas, rogando-lhe que a encomendasse a Nosso Senhor.
Na véspera, a filha do embaixador visitara a mulher do chifuu (que parecia de melhor saúde e a recebera com muita cortesia) para lhe oferecer um rico presente, em troca da sua protecção para os folangji, assegurando-lhe que eram homens de bem, merecedores de piedade. A mulher, encantada com a oferta, prometera-lhe fazer com que o marido usasse de caridade para com eles e lhes desse bom trato durante o resto da viagem.
A lembrança dos taéis de prata traz de novo Fernão à dura realidade do cárcere de Gofanjauserca, onde jazem. Apalpa o cinto de pano preso ao corpo por baixo da cabaia, mirando em redor, na pálida claridade das candeias, a ver se nenhum estranho se acercou de Borralho e de Zeimoto que guardam as outras duas partes da sua fortuna, que poderá representar a diferença entre a vida e a morte, se os tronqueiros e os escrivães de Pequim forem tão fáceis de peitar como os de Taypor ou Nanquim. Sossegado, adormece apesar dos lanhos em carne viva lhe morderem o corpo como perros raivosos, a cada movimento.
101 Tratado de Geografia Económica da China, do filósofo Kou Yen-wou (1613-1681).
102 Tael ou onça de prata usada como dinheiro na China. Designava também a onça, medida de peso chinesa.
IV
Ser pedra é fácil, o difícil é ser vidraça
(chinês)
Da petição dos folangji, escrita pelos tanigores, ao chaem da Justiça para revogação da sentença:
Por nenhum caso podem ser condenados em pena de sangue, visto não haver testemunhas dignas de fé que os vissem claramente roubar o alheio, nem serem achados com armas nenhumas, como é defeso pela lei do Primeiro Livro, senão nus e descalços como pobres perdidos que verdadeiramente são, pelo qual parece que a sua pobreza e desamparo são mais dignos de um piedoso respeito que daquele rigor com que os primeiros Ministros do Braço da Ira tinham executado neles a pena dos açoutes e que da sua culpa ou inocência só os deuses eram claros juízes, da parte dos quais lhe requeriam uma e duas e muitas vezes que olhasse aquelas cousas que lhe eram ditas e requeridas com seu claro juízo, sem respeitos nenhuns mundanos, perturbadores do fiel da balança.
(Peregrinação, capítulo CI)
Despertam manhã cedo com o rebuliço causado na enfermaria pela entrada do conchaly que vem interrogá-los, um privilégio de que usufruem por serem estrangeiros e a recobrar dos ferimentos, mal podendo manter-se de pé. Como um só homem, os presos chins baqueiam de joelhos, com as mãos erguidas e o rosto de rojo no chão; os portugueses imitam-nos, conforme podem, cerrando os lábios para abafarem os gemidos.
O mandarim da Justiça vem acolitado por dois escrivães e sete upos, cuja vista faz os presos gatinharem às arrecuas, como carochas assustadas, para o mais longe que lhes permite a sala apinhada. Acostumados ao terror que provocam, os oficiais passam, altivos, sem olhar a turba rastejante e param diante dos fan jen, que tremem como se tivessem sezões. O lauteaa senta-se numa banqueta coberta com um pano de seda vermelha que os guardas se apressaram a armar no espaço deixado livre pelos condenados.
– Eu, como um dos Doze Conchalys da Mesa do Crime – declama em tom presunçoso, ameaçador –, pela autoridade que tenho do aytao da Batampina, supremo presidente da Casa dos Trinta e Dois da Gente Estrangeira, em cujo peito se encerra o segredo do Leão Coroado no Trono do Mundo103, vos admoesto e mando da sua parte que me digais que gente sois, em que terra nascestes, se tendes rei que, por obrigação do seu cargo, se incline aos pobres e lhes guarde inteiramente sua justiça, como se faz aqui.
Sempre de joelhos, Fernão faz-lhe a reverência do kotao, batendo com a testa três vezes no chão, antes de alinhavar um intróito, adubado com algumas lágrimas e as melhores palavras que o tempo, a repetição ou a necessidade de salvar a vida lhe ensinaram. É mister que a mentira soe a verdade, pois se os chins tiverem sequer rascunho da sua tentativa de pilhar os túmulos dos seus reis e de outras malfeitorias de corso, serão irremediavelmente condenados aos maiores tormentos e pena de morte.
– Somos mercadores do reino de Sião, naturais de uma terra que se chama Malaca, não somos ladrões – continua Borralho, de corpo curvado e olhos baixos. – Quando navegávamos para o porto de Liampó, faz mais de um ano, perdemo-nos com o tufão e naufragámos na enseada de Sambor e Fanjus, nos ilhéus de Tautaa, onde só dezoito demos à costa, apenas com os farrapos que trazíamos nos corpos. Andámos peregrinando, pedindo esmola de porta em porta para sustentar as nossas vidas, até chegarmos à cidade de Nanquim, a fim de nos engajarmos como remeiros nas lanteias104 e seguirmos para Cantão, onde os nossos naturais, com licença do aytao, fazem sua veniaga debaixo do seguro e verdade do Filho do Céu, o Leão Coroado no Trono do Mundo. Desses dezoito náufragos, pereceram nove com as desgraças e trabalhos que nos sucederam pelo caminho, em particular, nos troncos de Taypor e Nanquim.
Embora os réus não se apresentem diante deste alto dignitário do reino com a compostura devida, cometendo faltas de cortesia imperdoáveis a qualquer chim, para mais acusando a justiça dos seus oficiais, o conchaly sofre-lhes com paciência os erros, desculpando-os por serem estrangeiros pobres e sem polícia105.
– Tendo chegado a Taypor, dois meses após o nosso naufrágio – retoma Fernão, animado pelo zelo com que o oficial os ouve –, um chumbim viu-nos a pedir esmola e, desconfiando de nós sem razão, fez-nos uma devassa. Com falsos testemunhos nos condenou por ladrões, pondo-nos vinte e seis dias no tronco, com grilhões nos pés, cormas nas mãos e colares nos pescoços, onde jazemos atormentados por muitos açoutes, piolhos e fome, de que morreu a metade dos nossos companheiros, tão inocentes como nós. Não satisfeito, quis castigar-nos com a pena de morte e remeteu-nos à Relação do chaem de Nanquim onde, por seu dito, nos condenaram a novo açoutamento com corte dos polegares, sem nunca nos ouvirem. Por sermos pobres e não termos nesta terra ninguém que por nós fale, com estas lágrimas rogamos aos Vinte e Quatro da Austera Vida que, por zelo do Céu, hajam dó do nosso desamparo e, vendo quanta sem razão nos foi feita, nos façam justiça.
Vendo as lágrimas a correrem pelos rostos dos estrangeiros, o conchaly guarda alguns momentos de silêncio, concluindo em tom menos severo:
– Não há mister dizer mais. O Céu o sabe! Basta ser pobre para que isto corra por outra via diferente da que correu até agora. Dou-vos espaço de cinco dias, conforme à lei do Terceiro Livro, para que os vossos procuradores possam requerer justiça. Aconselho-vos a fazerem uma petição aos tanigores da Casa de Gofilem-Guaxi, para que eles tomem cargo da vossa defesa.
Agradecem-lhe ao modo chim, cerrando o punho da mão esquerda, cobrindo-a com a palma da direita, levando-as juntas ao peito muitas vezes, inclinando a cabeça e o corpo, repetindo a cada momento a palavra chim, para indicar que o têm metido na alma ou no coração. Borralho mostra-lhe a carta selada com três sinetes de lacre verde.
– Trazemos esta carta dos tanigores da Casa de Quiay Hinarel para os de cá, pois em Nanquim houveram piedade de nós e da nossa desgraça, dando-nos de vestir e de comer porque tudo perdemos no naufrágio e até as roupas que trazíamos nos corpos nos roubaram na prisão.
Para seu espanto, o mandarim dá-lhes um tael de esmola.
– Guardai muito bem o que é vosso dos moradores desta prisão, porque têm mais por ofício roubarem o alheio do que repartirem do seu com os necessitados. O Céu o sabe.
O Céu o sabe é a sentença correspondente ao português Deus o sabe, que os chins repetem a cada instante e com a qual o mandarim põe fim ao encontro. Sem outra palavra ou gesto, ergue-se do banco que os upos se apressam a recolher e sai da enfermaria para o edifício do tronco onde vai fazer audiência.
Ainda mal sarados das feridas, algemados, com grilhões nos pés e canga ao pescoço, os portugueses são levados da enfermaria para um dos oito cárceres do pátio onde, a partir de agora, passarão as noites. É uma casa muito grande e comprida, com dois estrados móveis de madeira que vão da porta até ao fundo, cada um com uma grossa corrente e pesadas cadeias, formando uma coxia larga no meio.
Os tronqueiros deitam-nos de costas no estrado, põem a cada um sua cadeia, por sobre o peito, prendendo-a numa argola entre dois condenados, cujos pés são acorrentados aos troncos que correm ao longo da quadra; por último, lançam-lhes por cima uma grade de madeira muito forte, como capoeira, pelo que de noite não se podem mover e, quanto a dormir, só quando a exaustão ou o hábito os moldam a tão desumana condição.
Decorridos sete dias, quando já desesperavam de ajuda, quatro tanigores vêm visitá-los. A entrada dos Irmãos da Misericórdia faz com que todos os condenados se lancem de joelhos, dizendo em voz entoada:
– Bendito seja este dia em que os deuses nos visitam pelas mãos de seus servos. O Céu o sabe.
A que eles respondem, com semblante grave e modesto:
– E a sua mão poderosa e divina, que fabricou a formosura da noite, vos tenha em si como têm aqueles que sempre choram os males do povo. O Céu o sabe.
Param diante dos folangji, parecendo desconcertados pelo seu aspecto.
– Que homens sois? – perguntam com modos corteses. – Por que causa fazeis mais sentimento em estardes presos do que os outros?
Recontam a história e pedem-lhes socorro com muitas lágrimas que, pelo traquejo adquirido com as inúmeras repetições, lhes são cada vez mais fáceis de verter de modo convincente, como actores consumados. Borralho entrega-lhes a carta dos seus confrades de Quiay Hinarel, que o mais velho dos quatro toma com muitas cerimónias de cortesia e mete no seio, dizendo à laia de despedida:
– Louvado seja o que tudo criou, pois se quer servir de pecadores da terra como nós, para as suas boas obras, pagando-nos em bênçãos com tanta multiplicação como as gotas que as nuvens do Céu têm lançado em toda a terra. Logo que o vosso caso se apresente na mesa do remédio dos pobres, vos daremos resposta.
Dão-lhes cobertores e algum dinheiro, prosseguindo com a sua visita. Alguns dias mais tarde, dois deles voltam a visitá-los para os interrogarem minuciosamente; mostram levar muito a peito a sua defesa, mandando chamar o escrivão que tem a apelação dos seus confrades para se informarem dela e pedir-lhe conselho sobre o modo como devem requerer justiça para os estrangeiros. Todavia, muita areia escorrerá nas ampulhetas da Casa da Judicatura do Crime até os réus chegarem ao fim do seu processo.
Ao contrário das prisões portuguesas, nas dos chins há muito para ver e fazer, se os presos tiverem meios de fortuna ou saibam um mester de alguma utilidade. Em Portugal são meros edifícios com um conjunto de calabouços ou masmorras pequenas, onde os prisioneiros jazem até ao final das suas penas; na China são maiores do que vilas ou até cidades, como esta onde se acham os portugueses, rodeada por uma cerca de pedra com três portas fortemente vigiadas, que uma grande vala interior separa de uma segunda cerca de madeira muito forte, onde ficam as casas dos lauteaas que governam o tronco, com formosos aposentos, pátios lajeados e jardins com tanques de peixes, assim como hortas e pomares.
Várias portas dão acesso à cerca de madeira onde ficam os edifícios da prisão, sendo o dos condenados a penas menores tão vasto que tem ruas e praças, onde os presos alugam camas a quem possa pagar e vendem comida e tudo o que os parentes lhes trazem de fora para ganharem ali a sua vida.
Fugir desta prisão é tarefa impossível por estar fortemente guardada, tanto de fora como de dentro, pelos parthianguons ou pu-t’ing que fazem várias vezes a contagem dos presos, durante a noite. Todas as manhãs, embaçados e tolhidos de torpor, os portugueses dão graças a Deus quando os guardas vêm soltá-los e os deixam sair para o pátio a estirar as pernas.
No entanto, para os folangji, a ansiedade da espera e a incerteza da sua salvação ou perdição tornam-se dia a dia mais insuportáveis, não só pelas terríveis condições em que vivem, mas sobretudo pelo espectáculo aterrador das penas infligidas aos prisioneiros chins, a que foram forçados a assistir, um mês depois da sua entrada no tronco, e por pouco não os fizera perder o siso.
103 Um dos títulos do imperador.
104 Lanteia, do chinês lingting (ling t’ing), pequena embarcação, movida a remos e com a proa decorada com a figura de um dragão, usada no transporte de passageiros e também de mercadorias.
105 Civilização.
V
Todas as flores do futuro estão nas sementes de hoje
(chinês)
Traslado dos Artigos do Promotor da Justiça contra os folangji:
E provarei, por testemunhas de vista, assim naturais como estrangeiras, que estes nove réus são públicos ladrões, roubadores das fazendas alheias e não mercadores, como dizem, porque se tivessem vindo de bom título à costa de Ta Ming106 e com tenção de pagarem os direitos ao rei nas suas alfândegas, se teriam metido nos portos onde elas estão. Mas porque andavam como corsários, de ilha em ilha, permitira o Céu que se perdessem e fossem presos pelos ministros da nossa justiça para colherem o fruto de suas más obras, que era a pena de morte que por elas mereciam, conforme à lei do Segundo Livro em que isto especificadamente se declara.
E ainda que o mesmo direito os relevasse da pena de morte, todavia por serem estrangeiros, e gente sem lei, em que não havia claro conhecimento de Deus, para por seu amor ou temor deixarem de se ocupar em muitos perversos exercícios, isso só bastava para que ao menos fossem condenados a lhes cortarem as mãos e os narizes e os degradarem para sempre para os lugares de Ponxileytay, onde é costume lançarem-se os de seu ofício, pelo que requeiro que me recebam estes artigos a que espero dar prova no termo que me seja assinado.
(Peregrinação, capítulo CI)
O conchaly que primeiro os ouvira na enfermaria, nesse mesmo dia condenara a penas de cem açoites com canas grossas e a outras cruéis mortes vinte e sete ladrões que tinham sido apanhados com a boca na botija, ou seja, com o furto nas mãos, pelo que não houvera apelação nem Irmãos da Misericórdia que lhes valessem, sendo o castigo marcado para dali a um mês.
O terror começara na véspera da execução, como se todos os diabos do inferno andassem à solta pela casa do tronco nessa noite, com o rebuliço que fizeram os condenados ao ouvirem o som dos sinos anunciar o castigo. Pertenciam ao lote de presos que tinham vindo no junco do chifuu e Fernão sentira um grande alívio por não ver entre eles o velho poeta Lin Dan, um letrado caído em desgraça que lhe ensinara muitas coisas sobre a China durante a viagem e continuava a ajudá-lo no cárcere.
Os que puderam deitar mão a um pedaço de corda para se enforcarem andavam às punhadas com outros que lhos queriam tirar para morrerem primeiro e assim poderem escapar ao suplício. Sete deles o fizeram à vez e com muito trabalho por ser a corda curta, apenas o bastante para enfiarem o pescoço e se atarem a um pau que meteram na parede. Como o pau estava baixo, estiravam-se todos até sufocarem, no que demoravam assaz de tempo, se os que estavam na fila para morrer não os ajudassem fazendo peso no corpo.
De manhã, os guardas vieram recolher os corpos dos suicidas e conduzir os vinte sentenciados restantes, cujo castigo seria público para servir de exemplo aos outros presos. A sentença foi executada com tamanha desumanidade que, de tão assombrados e cortados de medo, os nove portugueses julgaram ensandecer.
– É este o fim que nos espera? – bradava Fernão, pálido como um morto, por entre arrancos de vómito azedo. – O promotor de acusação pede para todos nós a pena de mutilação e morte e vós vistes como a executaram no capitão dos ladrões.
– Cortaram-lhe mais de mil fatias e ainda estava vivo quando o cravaram na cruz! – gemeu Gaspar de Meireles, de olhos esbugalhados, a tremer de tal modo que não se tinha de pé. – Abriram-no como a um porco para lhe tirarem a fressura que deram a comer aos cães.
Álvaro de Melo reprimiu o mareio, envergonhado da sua fraqueza, procurando dar firmeza à voz:
– Não tiveram melhor sorte os seis desgraçados a quem os algozes deceparam as naturas para lhas meterem na boca antes de lhes cortarem a cabeça e lhes fazerem o corpo em sete pedaços!
Os tronqueiros atiraram os mortos para as latrinas, onde estiveram três dias a servirem de repasto aos ratos e a muitos presos que nada tinham de seu e andavam mortos de fome. Ao fim desse tempo, os parthianguons, vigiados por um oficial da justiça com os seus escrivães, retiraram da imunda cloaca os corpos, que ainda estavam inteiros, levando-os arrastados por uma corda até uma porta do tronco que abria para o exterior. Deram a cada um três pancadas na cabeça com um pau ferrado, certificando-se assim de que nenhum deles se fingia de morto para escapar do cárcere. Os escrivães fizeram o registo da saída num livro de assentos e os cadáveres foram lançados num monturo no campo.
– Só sairemos daqui como aqueles – murmurara Gaspar, rompendo em soluços, quando vira levar os corpos destroçados.
– Ficámos debaixo da maldição do santo homem de Calempluy – teimara Fernão, com a voz embargada. – Ele jurou que a terra, o ar, os ventos, as águas, as gentes, os gados, os peixes, as aves, as plantas, tudo o mais que hoje é criado nos haveria de empecer e morder sem piedade.
– Cose-me essa boca, Fernão Mendes, não alembres maus agouros! – bradara Zeimoto, que procurava consolar o músico: – Quero crer que estes tanigores nos hão-de valer tanto como os de Nanquim.
– Se tratam com tal crueza os seus salteadores de estradas – duvidara Melo –, nem quero pensar no que nos farão se souberem da Noiva Roubada, para já não falar no que fizemos, depois do nosso naufrágio na ilha dos Ladrões107, quando fugimos com a lanteia, abandonando os trinta chins na ilha deserta.
– Eram eles ou nós! – protestara Joaquim. – Jazíamos há já quinze dias na maldita ilha, meio mortos de fome, se não fora o cervo que o tigre matou. Pelo menos salvámos o menino que estava no barco.
– O menino – contrapusera Cristóvão –, furtámo-lo à sua gente e pesam-me na consciência as suas lágrimas e rogos para o deixarmos ir a nado para a praia, onde víamos o pai a chorar de aflição. Parece-me ouvir ainda a acusação que nos fez de darmos graças a Deus com as mãos sujas dos nossos crimes! Pelo passado se julga o futuro.
Fernão sentira na boca um gosto amargo de mareio, ao ouvir Melo mencionar a formosíssima Chu Huyen, que eles haviam raptado na baía de Tilaumera, na Cochinchina108. Não logrou suster as lágrimas que lhe correram pelo rosto tão grossas como as de Meireles.
– Em qualquer terra de cristãos, se fossem tomados homens como nós, desconhecidos, mal sabendo a língua e de quem gente grada como o chumbim de Taypor fizesse tão graves acusações, seriam logo justiçados sem sequer serem ouvidos.
Jorge rira-se escarninho:
– É certo, Valentim, que os mandarins grandes da justiça não aceitam peitas. a menos que elas compensem o risco! Quanto aos mais pequenos, sejam oficiais, escrivães, tronqueiros, guardas, vigias ou os algozes que aplicam os castigos, não há um só que não espere que lhe untem as mãos. Se não os tivéssemos peitado com alguns taéis de prata, já teríamos decerto morrido dos açoutes em Taypor, Nanquim ou ainda neste tronco.
Ficaram por momentos em silêncio, recordando os muitos mortos que tinham deixado para trás. As moedas de prata, amaciando os carrascos, haviam contribuído para o milagre de estarem vivos, pois os açoites tinham sido ministrados com menos fereza e em menor quantidade do que a sentença requeria. Ali mesmo, na prisão de Gofanjauserca, o tael que o conchaly lhes dera servira para negociar com o tronqueiro a liberdade de andarem no pátio e na cerca sem canga nem ferros, até à hora de recolher aos bailéus para a primeira contagem da noite feita pelo lauteaa com os seus escrivães.
Os tanigores tinham conseguido a revogação da sentença do tribunal de Nanquim, pelos Doze Conchalys da Mesa do Crime, porém o mandarim arguidor requereu contra os réus, retomando a acusação de corsários e ladrões do mar, a qual foi novamente contestada pelos procuradores da Mesa do Remédio dos Pobres.
Nestas idas e vindas, entre alegações, artigos de contraditório e novas alegações, correram seis meses, uma eternidade para quem vivia com o credo na boca temendo ver surgir algum sobrevivente das abordagens e saques de António de Faria, para os denunciar. Até Jorge Mendes perdeu o seu humor faceto, mantendo-se em melancólico silêncio como os demais companheiros.
A presença dos estranhos folangji, graças decerto às demandas dos tanigores feitas em seu favor, chegara aos ouvidos da gente nobre e rica de Pequim e alguns grandes senhores que nunca tinham visto portugueses, movidos pela curiosidade, usaram de influências, presentes e dinheiro para amiúde os tirarem do tronco, levando-os de visita a suas casas, para os verem e saberem das suas terras e costumes.
Para os cativos, estas saídas eram tomadas como um milagre da Divina Providência que, por serem cristãos devotos, os protegia sempre em terras de gentios pagãos e idólatras, apesar dos seus crimes. Por falarem bem a língua, Fernão, Borralho, Zeimoto, assim como Gaspar que sabia tanger e cantar, eram invariavelmente escolhidos pelos parthianguons e pelos tanigores, tornando-se tal mercê fojo de invejas e ódios da parte dos preteridos. Embora partilhassem com os restantes companheiros a comida e bebida que lhes davam os seus benfeitores, não logravam apaziguá-los nem evitar os seus remoques raivosos e a inimizade tão nociva à sua causa nas presentes circunstâncias. Contudo, se os insultos e a malquerença eram o preço que tinham de pagar pelas horas de prazer que passavam fora da prisão em requintada companhia, os quatro eleitos estavam dispostos a sofrê-los com resignação e boa cara.
Os nobres chins recebiam-nos com as suas mulheres, parentes e outra gente lustrosa, com grandes honras, como se também eles fossem grandes, sentando-os à sua mesa, a comer e a beber, despedindo-os por fim com muitos presentes. A sua curiosidade parecia insaciável e os portugueses esforçavam-se por satisfazer-lha, ajudando-se uns aos outros na busca das palavras para o melhor relato das suas desventuras, cada vez mais fabulosas, pelo contributo da poderosa imaginação de Fernão Mendes, cujo engenho se ia aguçando com a experiência.
Sentiam na pele e na alma a doce presença das donas e donzelas a espreitarem por trás do pano da porta que separava os aposentos interiores das mulheres dos exteriores com saída para a rua, onde viviam os homens. Quando se mostravam, vinham quase sempre de rosto tapado por um véu, a menos que tivessem permissão do marido ou pai para se descobrirem, liberdade concedida talvez por eles serem estrangeiros e uma raridade nunca antes vista. Faziam-lhes mesuras ao modo das mulheres portuguesas ou dobravam-se em três zumbaias109 juntas e apressuradas, sempre com gentis sorrisos, olhos baixos e uma frase de boas-vindas; Gaspar cantava-lhes versos com uma voz tão enamorada e saudosa, que só tinha igual nos sons plangentes que arrancava a um instrumento semelhante a uma viola, com assaz desafinação, mas cujo som parecia encantar as suas anfitriãs.
As mais moças eram em geral muito alvas e formosas, com narizes bem feitos, os olhos alcoforados110 a sobressaírem nos rostos cobertos de alvaiade, com arrebique vermelho nos lábios e nas faces. Amargurado pela recordação constante da Noiva Roubada, Fernão revivia o momento em que pela primeira vez lhe contemplara o rosto de porcelana, onde brilhavam uns olhos amendoados, tão negros como os longos cabelos de azeviche. Então, para se consolar, refugiava-se na bebida e na comida, como o estômago lhe exigia com sonoros roncos de bicho esfaimado.
Bebiam e comiam tudo o que os seus anfitriões lhes punham na frente, mesmo as iguarias mais insólitas, pois, como diz a sábia voz do povo, asno que tem fome a manjedoura come, dando graças a Deus pela generosidade dos idólatras, prometendo-Lhe grandes esmolas, se Ele lhes concedesse a graça de volverem sãos e salvos a Malaca.
106 Tamen, na Peregrinação, ou Grande Ming, como os chineses denominavam a China.
107 A ilha dos Ladrões era o pequeno arquipélago Wanshan qundao que fica a poucas milhas da ilha de Lantao ou Dayu dao (sudeste de Macau) e servia de abrigo aos piratas que infestavam os mares da China. Também era chamada Laowan shan ou ilha do Velho Wan, um famoso corsário conhecido dos portugueses.
108 Tilaumera é um rio da Cochinchina. No século XVI, os portugueses davam o nome de Cochinchina às terras do litoral de Tonquim e Anam, portanto, o norte do actual Vietname.
109 Vénias chinesas.
110 Orlados de escuro, natural ou artificialmente.
VI
Nunca acendas um fogo que não possas apagar
(chinês)
Despacho do chaem contra o promotor da justiça:
Antes de sentenciar esta causa, condeno o promotor da justiça em vinte taéis de prata, para o remédio destes estrangeiros, visto não provar cousa alguma do que contra eles veio dizendo, e por esta primeira vez seja suspenso do seu ofício até o Tutão prover nisso, e seja avisado que daqui por diante não articule por tão má maneira, nem por palavras tão desconcertadas, so pena de pela segunda vez ser castigado conforme ao direito determinado pelos chaens que está aceitado na casa do Filho do Sol Leão Coroado no Trono do Mundo. E sendo satisfeito a isto em termo de três dias primeiros seguintes, me torne a esta mesa com as mais razões que ambas as partes por si quiserem apontar.
(Peregrinação, capítulo CI)
Face ao protesto dos tanigores, o chaem exigira ao conchaly acusador que apresentasse as suas testemunhas no prazo dos seis dias de ordenação, de contrário não lhe aceitaria os artigos da sua acusação por serem difamatórios, conforme protestava a defesa. Findo o prazo, defesa e acusação foram de novo chamadas à sua presença; exasperado por não ter descoberto qualquer testemunha, o promotor fez um arrazoado contra os nove réus tão infamante e com palavras tão descorteses que o chaem se afrontou do desconcerto, as mandou riscar dos autos, emitindo o despacho acima transcrito, admoestando-o e condenando-o a multa.
No dia seguinte, sendo manhã clara, os quatro tanigores depois de distribuírem comida, roupas e dinheiro pelos reclusos mandaram chamar os estrangeiros à enfermaria para lhes darem conta da sessão com o acusador e incentivá-los a terem fé numa sentença favorável. Recebem com modéstia os agradecimentos dos seus protegidos e dão-lhes colchas para se cobrirem de noite, por já fazer muito frio na província de Pequim.
– Pedi tudo o que precisais, porque nós.
Interrompe-os a chegada do escrivão do processo com uma cópia do despacho do chaem e os vinte taéis de prata da indemnização do lauteaa promotor, documento que requere a assinatura de todos. Os portugueses agradecem-lhe com muita cortesia, pedindo-lhe para tomar o que quiser daquele dinheiro, oferta que ele recusa com veemência.
– Não troco eu por tão pouco o merecimento que posso ter aos olhos de Deus por vosso respeito. O Céu o sabe! – diz, parecendo mais assustado do que agastado, temendo decerto ser acusado de receber peitas.
A visita do escrivão e a inesperada riqueza que ele lhes trouxera reanimaram-lhes a esperança de que não estaria longe a conclusão do processo, no entanto, passaram mais vinte e um dias sem outra novidade senão o escândalo dos tanigores com a insistência dos réus para que intercedessem junto do chaem para ele lhes dar despacho.
Quando chega a almejada manhã do julgamento, dois chumbins da Justiça – os meirinhos da execução do crime –, acompanhados por vinte upos armados de alabardas e chuços, vêm buscá-los à prisão para os levarem ao tribunal. Lançam-lhes algemas, grilhões nos pés, canga ao pescoço e, amarrando-os todos juntos num feixe, com uma corrente de ferro muito comprida, conduzem-nos aos tropeções para o Caladigão ou Casa de Audiências e Execução dos Condenados Estrangeiros.
Os réus tremem de pavor e em alguns passos do caminho caem de joelhos, abraçados uns aos outros, pedindo misericórdia em grande agonia. Estas demonstrações de emoção dos folangji, tidas por impróprias ou vergonhosas, causam espanto tanto nos upos como nos transeuntes com quem se cruzam e o rapazio, que corre atrás do cortejo, não os poupa às vaias, cuspidelas e pedradas.
Quando entram no pátio do Caladigão já ali se encontra muita gente do povo com requerimentos, mirando de soslaio os Vinte e Quatro Ministros do Braço da Ira, os algozes que aplicam os castigos e se perfilam diante de um pailó de cantaria, encimado por dois leões de prata e fechado por pesados portões de madeira muito bem lavrada.
Um sino tange, as portas abrem-se e a multidão entra de rompante para uma sala semelhante a uma nave de igreja, coberta de pinturas representando os vários castigos e penas de morte infligidas pela Justiça aos condenados, segundo os crimes indicados nos letreiros. Os dois chumbins guiam os estrangeiros até outra câmara, que atravessa a anterior como um cruzeiro de catedral, toda revestida a ouro.
Ocupa o centro do salão uma tribuna de sete degraus, com um dossel de damasco, cercada por três ordens de grades. Nos três primeiros degraus perfilam-se oito porteiros empunhando maças de prata e sessenta alabardeiros mogores, sentados sobre os joelhos, formam duas fileiras, imóveis como estátuas, vigiados por dois gigantes, de pé, com espadas a tiracolo e grandes alabardas nas mãos.
Sentado numa cadeira de prata, sob o dossel, o chaem segura na mão uma vara de marfim de três palmos, à maneira de ceptro. Vestido até aos pés de cetim roxo, tem ao pescoço uma espécie de escapulário com uma chapa de ouro no meio, onde está gravada uma balança direita e a legenda Peso, Conta e Medida e outros caracteres que Fernão desconhece. Cobre-lhe a cabeça um barrete redondo de varetas esmaltadas de verde e roxo, terminando no cocuruto pelo símbolo do imperador, um leão de ouro sentado sobre uma bola.
Ladeiam a cadeira do juiz dois meninos formosíssimos, de cabelos compridos como donzelas, trançados com uma fita de ouro e grossas pérolas. O da direita, trajado de cetim branco e com um colar de pérolas de três voltas ao pescoço, tem o cotovelo encostado à cadeira do chaem e segura na mão uma insígnia. O da esquerda, vestido de cetim carmesim, tem a manga direita arregaçada para mostrar o braço tinto de vermelhão, como a espada nua que segura na mão e a coroa em forma de mitra de bispo que traz na cabeça, com lâminas vermelhas como lancetas a sangrar. São tão belos que os portugueses não logram apartar os olhos deles.
– Até parece que o demo nos quer atentar a alma com o pecado nefando.
– Há tanto tempo sem mulher. cagava-me para o pecado, se lhes pudesse saltar em cima!
Fernão ouve nas suas costas as vozes abafadas que ousam pôr em palavras o desejo pecaminoso que os invade a todos e que ele procura sufocar, esforçando-se por escutar o tanigor que lhes explica também em surdina as coisas que vêem e os procedimentos que devem ter durante as cerimónias para não causarem escândalo com a sua rudeza:
– O menino da direita simboliza a Misericórdia e o da esquerda a Justiça, porque o chaem julga no lugar da pessoa do imperador, o qual representa Deus na terra, por isso tem de ser justo e misericordioso, para não ser apodado de tirano sem lei, usurpador da insígnia que traz na mão.