De Cochim, aos quinze dias de Dezembro de 1512
De início, Zobeida e Giauhare eram a sua única companhia, além das escravas cafres cujo linguajar mal entendia; mais tarde, já a viver na fortaleza, fizera amizade com algumas gentias, esposas ou amásias dos oficiais e mercadores, as quais já sabiam falar português o bastante para poderem praticar e até mexericar sobre a vida da colónia e dos seus moradores, gabando-se do seu poder sobre os estrangeiros vindos do outro lado do mundo.
– Quantos amantes tens na tua terra? Há lá míngua de mulheres ou sois vós que não sabeis agradar aos homens? – perguntavam-lhe, galhofeiras, enquanto enrolavam em folhas de bétele a noz de areca e cal, que mascavam para se sentirem bem dispostas e com bom hálito. Iria tomava apenas um pouco quando as visitava, para não as ofender, porque aquela droga que homens e mulheres mastigavam desde manhã até à noite, sem cessar, fazia-lhes os dentes pretos. – Os portugueses vêm famintos de amor e, por isso, apesar de vencerem os nossos homens pela força das suas armas, são sempre vencidos pela doçura das nossas – e riam-se ainda mais, fazendo rolar os olhos e a língua em azougados e lascivos trejeitos.
Havia alguma razão no que diziam. Além de usarem as numerosas escravas – compradas ou ganhas em combates na terra ou no mar – como concubinas e barregãs, os portugueses perdiam-se de amores por essas mulheres formosas e galantes, alvas ou pardas, que se vestiam da cinta para baixo com panos de seda ou algodão, segundo a sua qualidade, e da cinta para cima andavam nuas, ataviadas de colares, pulseiras e anéis de ouro e pedraria. Iria invejava-as. Eram mulheres muito isentas38 e senhoras dos seus corpos, pelo menos as das castas superiores, porque as de baixa condição eram mais desprezadas e maltratadas do que os mais vis escravos, não podendo sequer cruzar-se no caminho, olhar, falar e ainda menos tocar em qualquer pessoa das castas superiores à sua, sob pena de morte.
Como tinham a virgindade por coisa infame e vil, causadora da condenação eterna se morressem em tal estado, entregavam-se aos homens por dez réis de mel coado, sendo educadas na arte de agradar aos amantes. As próprias mães vinham à povoação vender as meninas virgens para grande deleite dos portugueses, que as achavam mais lustrosas e prestimosas em os satisfazer do que as suas conterrâneas. Por mais que D. Francisco de Almeida tivesse mandado os meirinhos prender os matalotes e soldados que dormiam com as mulheres da terra, não houvera penas nem castigos que os dissuadissem de ter conversação com elas.
Afonso de Albuquerque pusera freio àquela desvergonha, ao promover o casamento das gentias e mouras cativas, tornadas cristãs, com os portugueses que desejassem ficar na Índia, dando às noivas um dote e aos noivos terras e ofícios, a fim de terem filhos e criarem raízes nas terras conquistadas. Uma medida que escandalizara os fidalgos e a gente principal da Índia e do reino.
Quando o governador partira à conquista de Goa, António intrigara com os capitães para lhe danar a empresa e não lhe enviara as naus e homens de reforço que ele pedira; também não fizera as obras na fortaleza como lhe ordenara e usara esses materiais em seu próprio proveito. De regresso a Cochim, Albuquerque punira-o com dureza, multando-o e cortando-lhe um ano de soldo, porém, como el-rei D. Manuel o protegia e lhe dava poderes, crendo nas coisas que ele e o feitor lhe escreviam, António continuava a opor-se-lhe em tudo o que podia.
Iria lembrava-se de como eles também tinham festejado a sua morte, quando umas bruxas gentias lhes asseguraram que a armada fora destroçada e o governador morto com todos os seus capitães, durante o assalto a Malaca. Em vez de missa, requiem e procissão pela salvação da sua alma, apressaram-se a saquear e derrubar as casas onde morava, queimando-lhe uma nau em que tinha toda a sua fazenda.
Após a conquista de Goa e de Malaca, com a fuga e morte dos mouros, ficaram muitas mulheres. O governador anunciou que daria os palmares e as herdades abandonadas aos portugueses que se casassem com as mouras e as canarins que se fizessem cristãs, às quais concederia um dote de dezoito mil reais para ajuda da casa. Os que nada tinham de seu, nem no reino nem na Índia, aceitaram a oferta com tamanho alvoroço que o Terríbil não tivera mãos a medir com os pedidos.
Ainda nessa manhã, depois da missa, no largo da igreja onde se juntava a melhor gente de Cochim, António e o seu bando tinham achincalhado uma vez mais Afonso de Albuquerque a esse propósito.
– Os casamentos foram celebrados nas casas do governador e, como os noivos eram sem conto, os ofícios fizeram-se aos magotes, dia e noite. Ora ouvi esta cousa de pasmar: uma noite em que Afonso de Albuquerque presidia ao casório de um bando de doze ou mais casais, os parentes das noivas eram tantos que as tochas não chegavam para alumiar os noivos e acompanhantes no regresso a casa, pelo que os cortejos se misturaram e confundiram de tal modo que os maridos perderam as esposas no meio da multidão. E como a escuridão não os deixava ver o que buscavam, na confusão trocaram as mulheres e só viram o erro da troca na manhã do dia seguinte. – E António concluíra o seu relato, com muitas gargalhadas, limpando os olhos das lágrimas de gozo, no que era acompanhado pelos oficiais seus amigos: – Então, desfizeram o enleio, tomando cada um a que recebera por mulher, ficando o negócio da honra tal por tal!
– E agora quer que façamos o mesmo em Cochim, com este registo – acrescentara o escrivão da fortaleza, desdobrando um papel de timbre oficial e lendo em voz alta:
Per este me praz e hei por bem em nome d’elRei nosso senhor fazer mercê a Nuno Freire e a Filipa d’Albuquerque, sua mulher, em dote e em casamento, de uma horta com seu chão e assento em que faça umas casas, do qual pagará o dízimo a Deus quando for ordenado, e pera sua guarda e lembrança de quem isto houver de ver lhe mandei passar este assinado de minha mão, e será este registado no livro da câmara desta cidade.
– Vede como ele dá o seu próprio nome a estas cristãs-novas e chama genros aos maridos e filhas às esposas! – insistira António, por entre o coro de gargalhadas dos mofadores. – Diz que são casados pelo mandamento de Afonso de Albuquerque! Onde já se viu outra tal doudice num governador do reino?
Iria mantinha-se apartada do grupo dos homens, segurando o filho pela mão e tendo a seu lado Zobeida e Giauhare, que ela fizera baptizar, no mesmo dia que Diogo, com os nomes de Joana e Isabel. Naquele momento, e como sempre que apareciam na igreja ou no mercado, as moças eram o centro da atenção de todos os homens. De gentil porte e honesto parecer, muito belas e tão alvas como ela, em nada se pareciam com as cativas impúberes, tímidas e assustadas que António furtara em Mombaça. Viu os olhares cobiçosos que os companheiros do seu homem lançavam às moças e ouviu Lourenço Moreno dizer em tom brejeiro:
– Guarda bem aquelas tuas formosas bichas39, não vá ele tomar-tas! São pra teu uso ou vais pô-las no mercado? Se o fizeres, eu quero participar na almoeda40.
António olhara na sua direcção e, como quem queria ser ouvido por ela, respondera, alteando a voz para se sobrepor aos risos da companhia:
– Aquelas bichas não são para venda, são do serviço da Iria e do filho.
Manuel Paçanha retomara o assunto dos casamentos:
– Amigar-se com escravas e gentias é cousa natural e necessária à nossa gente, um amparo para quem vive fora de Portugal, anos a fio, apartado da família e em constante perigo de vida; porém, casar-se na igreja e com a bênção do Estado com essas bichas, ainda que alvas e gentis, e ter delas filhos lídimos é um destempero, um desvario que na verdade só lembraria a esse doudo.
– Sabeis a razão que ele dá para tamanho desatino? – perguntara o feitor Diogo Pereira, um dos mais venenosos mexeriqueiros de Cochim. – Diz que quer arrancar as cepas da má casta dos mouros de Goa para plantar novas cepas católicas, que com pregação e armas conquistem todo o Oriente!
– Nunca os portugueses poderão defender e sustentar Goa, sem nela despenderem todos os recursos da Índia – acudira Mendonça. – Hidalcão41, que é o maior e mais valente príncipe mouro destas terras, há-de tê-la sempre cercada, pelo que, para se não perder, as nossas armadas estarão empregues apenas na sua defensão, sem poderem atender a outros serviços de muito maior sustância.
– Razão tinha D. Francisco de Almeida, que Deus guarde em sua santa glória, para não lhe entregar a Índia, temendo que ele a deitasse a perder, como na verdade o faz – concluíra Real, sem esconder a satisfação que aquela prática lhe causara.
Iria ficara com o coração apertado de angústia, ao ouvir os doestos de Lourenço Moreno sobre as moças e fizera um tremendo esforço para engolir as lágrimas, de receio pela sua sorte. Nos últimos tempos tornara-se evidente a mudança de António no trato com Joana e Isabel, sobretudo no modo como as olhava, nos mimos que lhes fazia e elas recebiam constrangidas.
Afonso de Albuquerque mostrava-se tão bom e generoso para com as cativas cristãs que as suas amigas naturais de Cochim, assim como os criados e as escravas, os tendeiros, os mercadores, mais os artesãos e obreiras de todos os mesteres, não falavam de outra coisa senão desses casamentos. Apenas as nobres brâmanes e naires, devido aos seus grandes escrúpulos religiosos e por só lhes ser permitido casar dentro das suas castas, os repudiavam como uma infâmia que as desonraria. Muitos outros gentios, em particular as gentes de Goa e Malaca, sentiam-se felizes em oferecer as filhas aos portugueses, vendo como o governador as honrava, casando-as em sua casa, dando-lhes dotes em terras, fazendas, dinheiro e jóias que elas antes não possuíam, passando os seus parentes a gozar de uma vida segura e com privilégios que mais ninguém tinha na terra.
Aos portugueses bisonhos, degredados, sem eira nem beira, dos primeiros tempos, sucederam outros noivos de melhor e mais limpa geração, até já não se estranhar a alguns nobres e fidalgos o casamento com donzelas gentias da mesma condição ou mesmo de maior nobreza e riqueza. A razão disto fora a esperteza do governador que, por sua vez, jogara uma boa cartada contra os seus difamadores, ao escolher os melhores homens casados para vereadores, almotacéis, juízes, alcaides e demais ofícios da governação de Goa, cargos que eram sempre cobiçados e muito rogados por todos os que vinham para a Índia.
No auge dessa guerra, Iria foi apanhada entre dois fogos, e obrigada a uma escolha que mudaria, uma vez mais, o rumo da sua vida.
– Para duas malgas de azeite poreis a mesma quantidade de açúcar peneirado, meia malga de vinho branco e outra meia d’aguardente, dois ovos inteiros e três malgas de farinha com uma pitada de sal e uma colher de canela.
– Vinho e aguardente em biscoutos, madrinha?! – admirou-se Joana.
– Vamos ficar bêbadas! – riu-se Isabel, a mais moça e azougada das duas.
– Por isso, os biscoutos se chamam borrachões. A minha mãe fazia-os muitas vezes por serem os preferidos do meu pai – contou Iria, sentindo um aperto de saudade, mas logo dominou a emoção, acrescentando: – O vosso padrinho trouxe-nos esta saca de farinha de trigo, que cá se não cultiva, recomendando-me que só a usasse para fazer o pãozinho branco de que sente muito a falta.
– E se o senhor António se enfada e nos pune por furto? – perguntou Isabel assustada.
– Em provando os biscoutos, o vosso padrinho há-de perdoar-me o roubo – sossegou-as Iria. – E o mesmo se passará quando os fizerdes a vossos maridos, para que vos tenham mais amor.
Olhou-as com carinho, ouvindo-as rir, a disfarçar o rubor pela alusão ao casamento. Eram suas afilhadas, criara-as com amor de mãe e elas pagavam-lhe na mesma moeda, dedicando-se também de alma e coração ao pequeno Diogo, a quem mimavam como a um irmão mais novo; só com António guardavam uma reserva muito semelhante a medo ou ressentimento.
– Peneira a farinha para a bacia, com a joeira de seda, Joana, e faz-lhe uma presa no meio.
A moça obedeceu e Iria admirou os gestos delicados e precisos com que ela cumpria todas as tarefas. Rogara muitas vezes a António que lhes desse a alforria, porém ele respondera-lhe sempre que, em devido tempo, haveria de o fazer. Esse tempo era chegado e ela já não podia adiar aquela situação. Joana e Isabel estavam em idade de casar e eram pretendidas por dois sobrinhos do mercador Surendra Advani, um gentio rico, de boa casta e muito influente na terra, que tinha tratos com a fortaleza.
Elas conheciam-nos, tinham-se enamorado deles e Iria dera-lhes a sua bênção, contente por as moças ficarem assim protegidas da cobiça e dos abusos dos companheiros de António que lhe rondavam a casa como lobos famintos prontos a saltarem sobre as ovelhas indefesas. Passariam a fazer parte dos casados de Afonso de Albuquerque, usufruindo dos dotes e privilégios que ele lhes concedia, negócio muito do agrado de Advani, que fizera a proposta a António, assegurando-lhe que os moços estavam decididos a fazerem-se cristãos para se poderem casar com as suas afilhadas.
– Agora botai-lhe dentro o açúcar bem peneirado e o resto dos adubos com o acrescento desfeito numa pouca d’água – ordenou, quando Joana acabou de peneirar a farinha e Isabel escavou um buraco no topo do monte de pó branco.
Isabel mediu o açúcar e vazou-o na presa de farinha, alargando a cova, de modo a receber os ingredientes líquidos que Joana deitava com cuidado. As moças, além de modestas e gentis, eram muito prendadas, em nada ficando atrás das parentas que Iria deixara no reino, pois haviam aprendido a nova religião e olvidado quase por completo o seu passado de mouras. Sabiam bordar, cozinhar e, apesar do escárnio de António e do escândalo do vigário, tinham aprendido a ler e a escrever, junto com Diogo, coisa rara naquele lugar, mesmo entre os homens.
– Adi um par de ovos para os borrachões ficarem mais douradinhos – recomendou. Isabel apressou-se a obedecer. – Agora misturai tudo e sovai a massa muito bem, como se faz ao pão, até se poder tender com o canudo42.
As moças lançaram-se ao trabalho, com grande alvoroço, amassando a mistura a quatro mãos, com frouxos de riso e momices, quando a massa pegadiça se colava aos dedos ou a farinha saltava pelo ar num sobressalto de poeira. Em casa, sobretudo quando fazia muito calor e trabalhavam na cozinha, vestiam-se como as gentias com panos brancos, leves e transparentes, que revelavam mais do que a modéstia permitia, as cores e formas dos corpos que cobriam. Essa liberdade de que gozavam as malabares era uma das coisas que Iria mais amava naquele mundo, apesar de sentir desassossego, ao seguir com os olhos os movimentos das suas protegidas, graciosas como jovens palmeiras ondulando ao sabor da brisa, sem se aperceberem do perigo que corriam.
Como receava, António não mostrara contentamento pela proposta do mercador, apesar de ser uma boa aliança para favorecer os negócios que ele fazia em proveito próprio e prejuízo da Fazenda Real. Embora sem a recusar, mostrara-se evasivo, dizendo que as moças eram cativas de guerra e, além disso, muito novas para casar, porém, a sós com Iria, dera vazão à sua raiva e saíra porta fora vociferando, era só o que me faltava, dar pérolas a porcos, para mais favorecendo ao doudo do governador. Passara aquele dia ocupado com as obras das casas que mandara fazer à revelia de Afonso de Albuquerque, as quais já por mais de uma vez tinham sido o pomo da discórdia e do confronto entre ambos.
Iria percebera que ele queria ir morar para lá com as suas cativas e que na nova casa não haveria lugar para ela. Por fortuna, ao volver vitorioso de Malaca em Julho desse mesmo ano, o governador, furioso com os abusos de António, tomara-lhe as casas para nelas fazer o hospital dos soldados e ela respirara de alívio, mas redobrara de vigilância, nunca deixando as moças fora da sua vista, para assim desencorajar qualquer tentativa de furto ou violação pelos que lhes punham cerco.
António deixara de a procurar como mulher, preferindo fornicar com as escravas da fortaleza, passando muitas noites fora de casa. Iria já não duvidava das suas intenções para com Joana e Isabel, todo aceso de desejo e de ciúmes pela cobiça dos seus companheiros de chacotada, que o acirravam com propostas para a compra ou apenas o usufruto das moças. Jamais lhes daria a alforria e a única pessoa que o poderia fazer em vez dele era Afonso de Albuquerque.
Decidida a agir, antes de ser demasiado tarde, depois de falar com Surendra Advani, que lhe assegurara a sua amizade, protecção e ajuda para levar a cabo aquela empresa, Iria escrevera uma carta ao governador, rogando-lhe a mercê de conceder a alforria às suas afilhadas – criadas por ela no amor de Cristo, porém cativas do seu pior inimigo – e apadrinhar-lhes o casamento com aqueles moços cristãos da terra, livrando-as do mal que as esperava.
– Benzei a massa como haveis feito à do pão e deixai-a pousar um pouco – ordenou, com a voz embargada.
Fizeram o sinal da cruz sobre a bola de massa que repousava no alguidar, murmurando em uníssono:
– Pão de Deus,/ Pão de S. Vicente,/ Deus te acrescente/ e dê pão pra muita gente.
– Untai os tabuleiros com azeite, que o forno já está quente. Daqui a pouco já podeis tender a massa e cortá-la em pedaços do tamanho e grossura de um dedo. Não vos olvideis de os picar com um espeto para não fazerem bolhas. Isabel.
Calou-se ao ver o ar assustado das afilhadas e virou a cabeça. Junto da porta, meio encoberto pelas sombras, achava-se António, de rosto vermelho, como afrontado, a olhá-las fixamente e Iria sentiu o coração gelar, não de ciúme, porque já não o amava, mas de dor e medo pela sorte das duas moças. Vendo-se descoberto, António retirou-se, sem dizer palavra, e saiu de casa.
Iria apressou-as a terminar os biscoitos e, enquanto metiam e tiravam os tabuleiros do forno, começou a prepará-las para a aventura em que se jogaria o seu futuro, senão a vida. Teria de agir, nessa mesma noite, conforme havia concertado com Advani e os sobrinhos Akhil e Rajiv, quando recebera as cartas de alforria das moças, entregues em segredo na sua mão, por um criado fiel do governador. Fora previdente em tratar com antecedência de tudo o que necessitava para pôr em prática o ardil que afastaria António do seu caminho, faltando-lhe apenas enviar recado ao tio dos noivos, que lhes asseguraria a assistência de D. Afonso de Albuquerque.
António chegara a casa ao anoitecer, depois de umas horas passadas a beber com o seu bando e a ouvir-lhe os doestos. Desta vez custara-lhe mais sofrer a chacota e as perguntas sobre as bichas, em que idade as desflorara e como lograva fodê-las, com Iria sempre a vigiá-las como um dragão. Jamais lhes diria que não chegara sequer a prová-las e a custo inventara umas bazófias de bordel para os contentar e salvar a face. Trazia gravada na alma, a ferro quente, a imagem das duas moças reclinadas na mesa da cozinha, dos seus formosos corpos, cujas formas a luz desenhava na transparência dos panos, excitando-lhe os sentidos. Há muito que as desejava em ânsias, bastava vê-las para sentir as veias em fogo e só a presença de Iria o impedira de tomar posse daquilo que era seu por direito, conquistado com a sua lança, como uma promessa de futuro prazer e lucro.
Nessa noite colheria o prémio há muito desejado, nem que para isso tivesse de expulsar de casa Iria e o seu rebento, que ele nunca haveria de perfilhar, para não empecer as suas legítimas aspirações a casar com viúva rica ou donzela fidalga e de bom dote, quando volvesse ao reino. O medo ou asco que causava às cativas, em vez de o desencorajar, mais lhe acirrava o desejo e, ao vê-las com a madrinha à sua espera, para lhe servirem a ceia, saboreou com antecipação o momento em que tomaria a cada uma a flor da sua virgindade, com a violência e a dor de um estupro, para que as bichas, mimadas por Iria, conhecessem o seu verdadeiro lugar e soubessem quem era o seu dono. Seriam as suas escravas de prazer durante o resto do tempo de serviço em Cochim, para usar e abusar até se saciar delas e, antes de partir para o reino, trataria de as vender pelo melhor preço aos que agora lhas requeriam.
Comeu com apetite a ceia que elas lhe serviam com muito acatamento e boa cara, embora estranhasse não ver por perto qualquer outra moça ou escravo. Joana e Isabel estavam, tal como Iria, vestidas ao modo de Portugal em vez dos panos transparentes que, de manhã, lhe tinham posto o sexo intumescido como o de um garanhão em cio à vista das éguas.
Desnudá-las, arrancando-lhes ou fazendo-as despir, uma a uma, as peças de roupa, poderia ser um jogo assaz estimulante e, só de imaginá-lo, sentiu que se lhe entesava a verga, o que lhe deu umas ganas irresistíveis de rir. A comida sabia-lhe bem e, embora procurasse beber com alguma moderação, porque a noite prometia ser longa e trabalhosa, as endemoninhadas moças, como se lhe adivinhassem os desejos, enchiam-lhe sem cessar o pichel de vinho. Soltou uma sonora risada e o sobressalto que causou às três mulheres provocou-lhe novas gargalhadas.
Sentia-se leve e feliz, sensações há muito esquecidas que a antecipação do prazer aguçara, despertando-lhe o riso. Gracejou com elas, riu-se das suas brejeirices e do rubor das moças, contente por Iria sorrir em vez de lhe ralhar pelo destempero. Não conseguia parar de gargalhar como um doido, o som do seu riso embalava-o, causando-lhe uma indesejada sonolência. Com os olhos a cerrarem-se, apesar dos esforços para os manter abertos, riu-se ainda mais quando Iria e as afilhadas o tomaram em braços e o arrastaram para o leito, enquanto ele as apalpava à toa, incapaz de dizer a quem pertencia a mama ou a nádega que beliscava, rindo sempre até perder a consciência.
– Bendita datura43! – exclamou Iria em surdina, suspirando de alívio, quando o viu deitado no leito. – O pó das suas sementes surtiu o efeito que Advani me descreveu.
– Não haverá perigo? – perguntou Joana assustada, apesar da respiração compassada e dos sonoros roncos, indicadores de um sono profundo.
– Pusemos a erva na comida e no vinho – sussurrou Isabel.
Iria apressou-se a sossegá-las:
– Juraram-me que esta erva apenas causa riso e um sono tão pesado que os que a tomam quando acordam não se lembram de nada do que se passou antes. Eu já tinha ouvido falar dela às nossas amigas gentias, porque as casadas de cá usam-na muito. – Acabou de ajeitar a cama e acrescentou: – Deixemo-lo dormir sossegadinho. Ide buscar os vossos pertences e despertar Diogo, porque os nossos salvadores não tardam aí para nos resgatar.
Tinham preparado a fuga durante a ausência de António, embora em contínuo sobressalto no temor de serem surpreendidas a qualquer momento por uma das suas entradas intempestivas que deitaria tudo a perder. De afastar os escravos se encarregara Mandeep, uma matrona gentia que Surendra Advani pusera a seu serviço e ela apresentara a António como necessária para as acompanhar e guardar nas suas saídas.
Iria pensou no mercador, nos riscos que corria ao ajudá-las e o seu coração encheu-se de gratidão. Ou de um outro sentimento que ela não ousava admitir, mas que a fazia ruborizar-se na sua presença, como uma donzela inocente, quando os seus olhos pousavam nela cheios de doçura. Tinham falado algumas vezes, sem ajuda dos intérpretes, porque tanto ela como as moças dominavam bem a língua corrente do Malabar. Surendra era pouco mais velho do que António e, tendo perdido a esposa havia cinco anos, não voltara a casar.
Tinham acabado de vestir os trajos masculinos que Iria tirara de uma arca, quando Mandeep veio avisá-las de que os seus salvadores as esperavam. Cobriram os cabelos com chapéus e gorras, agarraram nos emburilhos com o fato e disseram a Diogo que iam folgar numa chacotada, como ele podia ver pelos seus disfarces, mas às escondidas e sem ruído, a fim de não serem descobertos e tomados pelos bandos rivais.
Abandonaram a casa sem pena nem saudade. A noite sem lua oferecia alguma protecção e Iria só os viu quando Mandeep lhe assinalou o lugar onde se escondiam. Sentiu uma onda de calor a humedecê-la, quando reconheceu Surendra com os sobrinhos, que traziam dois soldados armados, enviados como reforço por Albuquerque. As casas do governador, onde teriam pousada e protecção, ficavam do outro lado da fortaleza.
– Correis grande risco – disse-lhe Iria, em voz baixa, ao modo de saudação. – António Real é muito rancoroso e vingativo.
– Tinha de vir com eles – disse-lhe o malabar com a voz quente e terna como uma carícia que lhe punha um formigueiro no corpo. – Não estaria sossegado em casa sabendo-vos em perigo.
– Partamos, sem demora – comandou um dos soldados, impaciente com as saudações trocadas entre os noivos. – As moças ainda não estão a salvo.
Puseram-se a caminho, sem se esconderem demasiado para não dar azo a suspeitas de malfeitoria; se os vissem passar assim em grupo, tomá-los-iam por um bando de amigos que saíam da casa de alguém, depois de uma boa ceia.
Surendra seguia ao lado de Iria e ela sentia-se segura na sua companhia.
– O casamento terá lugar amanhã de manhã na capela – informou o mercador –, em presença do senhor governador que servirá de testemunha. Será celebrado pelo seu capelão, pois D. Afonso de Albuquerque não confia no vigário.
Tinha razão em desconfiar de Diogo Pereira, que se pusera da parte de António, para contrariar os desígnios do governador. Chegaram a salvo ao seu novo porto de abrigo e Iria sorriu de alívio: com a protecção de Albuquerque e da sua nova família, as moças estariam finalmente a salvo dos predadores.
Quanto a ela e ao filho, logo se veria. Não pensava deixar Cochim, onde se sentia melhor do que em Portugal. A vida e o trabalho não a assustavam e conseguira juntar algum dinheiro nos sete anos que vivera como mulher do capitão da fortaleza. Sabia que podia contar com a ajuda de Surendra para se meter em negócios de tratos, de que conhecia todos os meandros e a gente certa para tudo o que necessitasse.
Haveria de criar o filho em Cochim, providenciar-lhe-ia uma boa educação, de modo a que Diogo pudesse subir na vida. Com a bênção de Afonso de Albuquerque, Iria alcançara também a sua alforria e encetava uma nova vida, ao entrar com um sorriso de confiança na torre que abria as pesadas portas para a acolher.
38 Livres, independentes.
39 Meninas escravas de várias raças, que se compravam ou cativavam nas guerras.
40 Leilão em hasta pública.
41 Ãdil Shãh, o Hidalcão das crónicas portuguesas era o sultão de Bijãpur, na Índia.
42 O rolo da massa.
43 Deutroa em alguns cronistas, uma planta cujas sementes em pó fazem dormir.
DIU
Estando o sultão de Cambaia [Madrefaxa, avô do sultão Bahadur] um dia sentado à porta da tenda, passando um milhano voando pelo ar, deu uma tolhedura, a qual lhe caiu na cabeça, e como os Mouros tenham muito respeito a qualquer leviandade destas, reduzindo-as a futuros efeitos, este rei, muito agastado, bradou, dizendo: Não haverá quem mate aquele milhano? Ninguém pôs nisso cuidado, por quão longe a dita ave já ia, senão um tártaro de nação que no exército ganhava seu soldo, por nome Melequeliaz, o qual ouvindo o que el-rei dizia, conquanto já viu o milhano mui afastado, confiado em sua força e destreza, pôs uma frecha no arco, atirou-lhe, e tão bem a guiou que veio o milhano ao chão atravessado na frecha. Muito satisfez a el-rei o tiro, por se haver por livre de algum mau prognóstico, que dali podia inferir; e, agradecendo ao tártaro a diligência que pôs em o servir . E desejando-lhe fazer mercê, sendo-lhe do dito Melequeliaz pedida aquela ilha de Diu, com sua povoação, não somente lhe deu o que lhe pedia, mas também houve por bem que na terra firme houvesse duas ou três léguas, quanto se estendia a mesma ilha.
(O Primeiro Cerco de Diu, por Lopo de Sousa Coutinho que nele tomou parte)
IV
Enquanto não conheceres o Inferno, o Paraíso não será bastante bom para ti
(árabe)
No fim deste ano de 1534, veio el-rei Humaium Padixá, filho de Baber Padixá, – queira Deus iluminar a câmara de ambos! – já rei de Deli, sobre o Guzerate, destruiu algumas das suas cidades, e desbaratou Bahadur Shāh. Este, receoso de Humaium, mandou pedir auxílio aos franges, que se apressaram a dar-lho, depois que por um tratado de paz lhes foram cedidos alguns portos, como Baçaim, Bombaim e outros mais, de que tomaram logo posse com todas as povoações e terras em roda.
Os franges auferiram grandes vantagens destas possessões, e engrandeceram o seu poderio, sobretudo com a posse de Diu, onde dominaram com toda a autoridade, recebendo metade dos impostos, a qual eles enobreceram e fortificaram. Os franges havia muito que cobiçavam a sua posse, e tentaram-no por diferentes vezes no tempo de Melique Iaz e no de seus filhos, mas sem êxito, graças a Allah todo poderoso.
Porém, quando a vontade deles se encontrou com a vontade de Allah, não lhes foi difícil; depois Allah glorioso e excelso entregou nas suas mãos a força, e eles mataram [Bahadur] e deitaram o seu corpo ao mar. Certamente nós pertencemos a Allah e a ele havemos de volver! A vontade de Allah é o destino decretado por ele! A sua morte foi a treze de Fevereiro do ano de 1536. E depois da morte d’el-rei Bahadur Sh-ah eles senhorearam completamente Diu, porque assi o determinou Allah todo poderoso e omnisciente, cujos decretos são inevitáveis e a sua vontade invencível.
(O Mimo do Campeão da Fé, de Zinadim, manuscrito do séc. XVI)
– É Diu! Por fim chegámos! – brada Bento Castanho.
Fernão acerca-se do homem que lhe matara enfado da navegação com as suas histórias e sorri com a ideia de que talvez um dia se venha a cruzar com Diogo Botelho Pereira, em qualquer porto dos sete mares por onde os portugueses navegavam, pois ouvira dizer que ele se achava de novo na Índia.
– O mar anda tão afumado esta noite – resmunga o mestre – que mal se enxerga a costa!
O capitão Jorge Fernandes Taborda dá ordem para chegar a nau bem a terra, a fim de saber algumas notícias, porque homem prevenido vale por dois e havia demasiados rumores da presença da armada dos turcos. Fernão lamenta a chegada da noite que o impede de ver Diu do lado do mar. Fora o primeiro porto da Índia que pisara, no ano de trinta e sete, e gostara logo da cidade, cercada por muralhas e fosso que a ligavam à imponente fortaleza de S. Tomé, a mais forte e inexpugnável de todas as fortificações que se fizeram na Índia.
Construída na ponta de Diu – cortada da terra firme por um rio de água salgada, formando uma ilha de duas léguas de comprimento e meia légua na parte mais larga –, a fortaleza estava protegida do lado do poente por recifes que não permitiam a passagem de navios; do levante, tinha um bom porto para a entrada de grandes naus de carga e de guerra, em frente do qual ficava a fortaleza de Baçaim, para lhe dar apoio em caso de necessidade.
De forma triangular, as muralhas estendiam-se até ao cimo da colina e de novo seguindo a direito até ao rio, por três grandes baluartes44 e duas torres, com a entrada de rosto para a cidade. Desse lado mais vulnerável, os muros com peitoril estavam protegidos por uma funda cava e, da banda do mar, a defesa era assegurada pela própria natureza, com uma penedia altíssima e escarpada. Dentro da fortaleza havia casas para seiscentos homens, uma igreja do orago de S. Tomé e duas cisternas cobertas.
Ao longo da costa avistam-se inúmeros fogos e, de tempos a tempos, sons de artilharia que põem em sobressalto tripulantes e passageiros.
– Amainai o traquete – ordena o capitão, depois de tomar conselho dos seus oficiais e gente principal. – Pairaremos com pouca vela e ao amanhecer saberemos o que se passa.
O resto da noite esfuma-se depressa e em desassossego, ninguém consegue dormir, de olhar preso no vulto da fortaleza que, no alvorecer, se torna a cada instante mais visível e nítido. Está cercada por uma multidão de galés e outros navios de velas latinas.
– É armada do reino, comandada pelo vizo-rei D. Garcia de Noronha! – alvitra alguém.
Em Ormuz, Fernão tivera notícia da chegada do vizo-rei da Índia, sobrinho do grande Afonso de Albuquerque.
– Não me parece – contraria o capitão. – Será talvez o governador Nuno da Cunha, vindo de Goa para fazer pazes com Mahmud, o novo sultão de Cambaia pela morte de Bahadur.
– Hão-de ser as fustas do Samorim de Calecut, sob o comando de Patih Marakkar, a cercar a nossa gente.
– O Samorim não tem destas galés! – exclama Bento Castanho, olhando para a barra, ansioso. – O que estais a ver é a armada dos rumes.
– Os turcos? – grita, assustada, a mulher do mercador de Cochim.
– Olhai! Que esquife é aquele?
O pequeno barco acercava-se tão veloz quanto lhe permitiam a corrente e a força que o homem imprimia aos remos. Com a roupa em farrapos, manchado de sangue e enfarruscado, parece um fugitivo negro, da casta dos intocáveis e da nau apontam-lhe os arcabuzes.
– Sou português! – brada o homem, mas os soldados não baixam as armas, e ele acrescenta impaciente: – Sou Tristão Gomes, bombardeiro. Os rumes tomaram a cidade e puseram cerco à fortaleza.
O nome parece familiar a Fernão, embora não reconheça o homem assim farrusco, nem sequer quando ajuda Bento Castanho, igualmente muito interessado nele, a içá-lo para a Cisne, porém, antes que chegue à fala com o capitão, os vigias dão o alarme. Cinco galés com grandes velas ou arrimões, em vez das bordadas mais pequenas, tinham largado do porto a todo o pano, com as suas bandeiras e os longos estandartes quarteados de verde e roxo a ondular, já bem visíveis na luz do sol que se erguia.
– São turcos – grita o bombardeiro – da Armada do Mar Roxo, comandada pelo capado Soleimão Baxá, que vieram ajudar os exércitos de Coja Çofar e d’el-rei de Cambaia. Ao todo, mais de vinte e cinco mil homens contra os nossos oitocentos, dos quais a maioria já está morta ou ferida, não havendo agora oitenta homens capazes de pegar em armas. Capitão, tendes de ir a Goa dar aviso ao vizo-rei. Se ele não vier já em socorro de Diu, perderá a fortaleza com a gente que a defende. No assalto ao baluarte, os fideputas deram-me por morto, mas o pelouro só me feriu e eu logrei fugir durante a noute. Como já não podia passar para a fortaleza, roubei este esquife a ver se apanhava algum catur45 dos nossos, que por vezes vêm espiar.
As galés avançam direitas à nau, que não é adversário para tamanho poder, e Jorge Fernandes manda logo desferir a vela grande para fazer a volta do mar:
– Rumo a Chaul, que o vento começou de se levantar. Fazei prestes e roguemos a Deus para que estas malditas não nos cacem.
A perseguição foi encarniçada e durou até ao anoitecer, estando a nau algumas vezes ao alcance das bombardas turcas e em grande perigo; por fim, com a mudança do vento, as galés desistiram e voltaram para Diu. Um coro de vivas, aplausos e barretes lançados ao ar saudaram o capitão e os hábeis matalotes a quem deviam a vida.
– Ufa! Vinham açulados que nem cinco cães a um osso.
– Safámo-nos desta vez, Deus seja louvado!
Ajoelhados na coberta, tripulantes e passageiros agradecem aos céus a sua salvação, rezando em coro um Padre-nosso e uma Salve-rainha. Dispersam-se em seguida para irem comer uma ceia que, embora parca, parece a todos um manjar de príncipe, por terem passado o dia em jejum, a medir com o olhar aflito a distância das galés perseguidoras, enquanto prestavam ajuda aos matalotes nas suas tarefas, rezando a todos os santos da sua devoção para os livrarem dos inimigos.
Nessa noite toda a gente, excepto os oficiais e matalotes de serviço, se há-de sentar na coberta para ouvir as notícias de Diu, que o bombardeiro Tristão Gomes se prestara a dar-lhes. Durante a perseguição dos rumes, Bento Castanho tomara o fugitivo resgatado a seu cargo e Fernão, embora se tivesse lembrado de como o conhecera no passado ano, nessa mesma fortaleza, estivera todo o dia ocupado nas lides das velas e cordoalha, sempre com o credo na boca, a imaginar-se outra vez cativo dos mouros, sem tempo sequer para se coçar, quanto mais para conversar.
Nas navegações que fizera até esse dia, nunca perdera as tertúlias de desenfadamento, que eram a melhor escola de vida para quem queria vencer na Índia, por nelas se ouvirem quer histórias de gentes e lugares quer as últimas novidades (por vezes velhas já de meses) ou ainda a leitura de algum livro de viagens sobre as Ilhas Afortunadas. Nessa noite, em particular, anseia pelo serão, para saber o que aconteceu aos seus companheiros da Frol de la Mar, com quem viera do reino para a Índia e que tinham ficado de serviço à fortaleza.
Gostara muito de António da Silveira, o capitão que os recebera assaz contente pelo reforço de gente de armas, gastando largamente da sua fazenda a dar de comer a mais de setecentos homens, a quem pagava, além dos mantimentos, soldos em dinheiro com outras mercês e esmolas. Por estas razões quase todos os que vieram nas três naus d’el-rei – Frol de la Mar, Santa Bárbara e Galega – se quedaram com ele de sua própria vontade, apesar da suspeita de cerco dos rumes. Sentira-se tentado a fazer o mesmo, mas, na mira de enriquecer depressa, acabara por embarcar na fusta Silveira, enviada em missão de espionagem ao mar Roxo, que o lançara na escravatura e quase lhe custara a vida.
As três naus haviam ido para Goa, apenas com os seus oficiais e a gente do mar e depois de carregadas partiram para o reino com a São Pedro, feita na Índia, que levava a el-rei o Tiro de Diu, o célebre basilisco46 que o Rumecão47, capitão-mor da armada do turco, trouxera com outros quinze do Suez, no ano de mil quinhentos e trinta e quatro, para ajudar o sultão Bahadur contra os portugueses. O nome de Bahadur parecia persegui-lo desde o dia em que desembarcara na Índia. Ainda chegara a perguntar a Bento Castanho se sabia como fora morto o sultão, pois havia muitas histórias a circular e todas se contradiziam. Respondera-lhe que presenciara a sua morte e a contaria, nessa noite, se o assunto viesse à baila, embora não gostasse de falar de tal sucesso, por ser uma história pouco abonadora da honra e palavra dos portugueses.
– Como Bahadur era muito traiçoeiro e fementido, o governador Nuno da Cunha não honrou o contrato assinado entre ambos – desabafara em voz baixa –, permitindo que os nossos o matassem durante uma visita que ele fez à sua nau! Desse ruim modo pagou as grandes mercês que el-rei lhe fez ao dar-lhe lugar para construir as fortalezas de Diu e Baçaim, em troca de quase nada, pois só pôde contar com a ajuda de Martim Afonso de Sousa e dos seus quinhentos portugueses, para defender o reino dos inimigos. Assi ganhamos ódio e má fama na Índia! – concluíra, afastando-se cabisbaixo.
Nessa noite nem o capitão falta ao serão e até os matalotes de serviço procuram poiso que lhes permita ouvir o que tem para contar o bombardeiro, natural de Sesimbra, que sobrevivera a um assalto dos turcos.
– No dia quatro de Setembro passado, na fortaleza, todos sentimos como certa a morte, ao ver chegar a armada dos rumes, de mais de setenta navios muito bem armados de basiliscos e outras bombardas, com muitas máquinas de guerra e um exército de gente escolhida que tanto serve nos barcos como combate em terra. Por sorte, estávamos preparados para os receber, porque eu tinha chegado duas semanas antes e dera ao capitão António da Silveira a certeza da sua vinda, do número de navios e de gente que ele trazia.
– Como o soube vossa mercê?
– Eu estava no Cairo, cativo do cossairo Barbaroxa, quando ouviu dizer que Bahadur enviara a sua esposa favorita a Constantinopla, com um grande presente de ouro e jóias para o grão-turco48, a pedir ajuda contra os portugueses que lhe queriam tomar o reino; após ela, chegou um embaixador do novo sultão Mahmud a requerer o envio do socorro prometido, desta vez para vingar a morte de Bahadur e expulsar-nos da Índia. Soleimão, o Magnífico, como lhe chama a sua gente que o venera, determinou mandar à Índia a sua poderosa Armada do Mar Roxo sob o comando de Soleimão Baxá, em cuja galé eu ia como remeiro. Durante a tomada de Adem pelo capado, fugi para Baçorá, de onde passei a Diu e avisei o capitão.
– Como é esse Soleimão Baxá?
– O governador do Cairo tem setenta anos e é um janízaro natural de Moreia, feito eunuco para servir de criado e porteiro da câmara do sultão Cahalí, pai do presente grão-turco. É curto de estatura e tão gordo que parece ter menos de latitude que de longitude, com uma imensa papada que lhe cai sobre os peitos e uma pança que não o deixa ver os pés; quando se assenta, só se pode alevantar com ajuda de quatro pajens. – Deixou serenar os risos e prosseguiu: – É muito cobiçoso de glória e de dinheiro, fez mil tiranias aos moradores do Cairo e de outros lugares para prover a sua armada de todo o necessário. Em Adem entrou à traição, fingindo ter muitos doentes para tratamento, mas metendo na cidade cerca de quinhentos dos seus melhores soldados com as armas escondidas, para que, ao seu sinal, assaltassem as casas d’el-rei que os acolhera e que ele enforcou na sua nau depois de tomar a cidade. É cruel, fementido e ladrão, como nenhum outro. Depois de ordenar o saque de Adem, pôs-se a uma das portas a fazer busca a todos os homens que iam para as naus carregados com o roubo e tomou-lhes o dinheiro, jóias e quaisquer outras cousas de valor, deixando-lhes apenas o fato!
Um murmúrio percorreu a assistência, num arrepio de medo. Estaria reservado a Diu o triste destino de Adem, a cidade tão cobiçada por Afonso de Albuquerque que, por mais de uma vez, tentara ingloriamente conquistá-la?
– Sempre é verdade que o cerco de Diu e a guerra dos rumes são represálias pela morte do sultão Bahadur? – pergunta alguém.
– Sem dúvida – aquiesce Tristão Gomes. – O renegado italiano Coja Çofar, um dos moradores mais ricos de Diu e homem de confiança de Bahadur, foi ferido no ataque ao sultão e não perdoou ao governador Nuno da Cunha a conquista da sua cidade, sendo quem mais trabalha para nos perder. Devia tê-lo morto juntamente com o sultão, pois quem seu inimigo poupa, nas mãos lhe vem a cair! Foi a Ahmadabad, no sertão do reino de Guzarate, onde reside a corte e, com o aval da mãe de Bahadur e dos três regentes de Mahmud Sh-ah, o novo sultão de Cambaia que é ainda criança, criou um exército de dezanove mil homens de pé e de cavalo, comandados pelo regente Alucão, a que se vieram juntar os seis mil e quinhentos rumes da armada de Soleimão Baxá, para combaterem os oitocentos portugueses, dos quais só duzentos estavam bem armados!
– Virgem Maria! Como poderão resistir a um tal poder?
– Até há dias, defendemo-la com a ajuda de Deus e da grande coragem e saber de António da Silveira Meneses, o melhor capitão da Índia, que reforçou quanto pôde as nossas defesas! Coja Çofar deu o primeiro assalto ao baluarte da Vila dos Rumes, que lhe foi defendido por Francisco Pacheco com catorze homens, mais o troço do capitão que acudiu a socorrê-los. De seguida, os exércitos de Alucão acometeram os passos de Gonçalo Falcão, António Veiga e Francisco Gouveia, enquanto Çofar lançava a sua gente contra Lopo de Sousa Coutinho. E aqueles homens pelejaram com as tripas numa das mãos e a espada na outra! Mas, agora, já não deve haver mais do que oitenta homens capazes de tomarem armas, por isso, se não vier depressa o socorro da armada, não poderão resistir por muitos mais dias. Os baluartes da Vila dos Rumes e os da ilha foram tomados, e tivemos a pouca sorte de perder o grosso da nossa artilharia. Como só se pode chegar à fortaleza pelo lado do mar, não pude voltar para lá, depois do ataque à minha tranqueira– Por que razão mataram Bahadur? – pergunta o capitão Taborda, com um tom de censura na voz. – Mostrou ser nosso amigo, ao consentir que construíssemos no seu reino as fortalezas de Diu e Baçaim, com as suas vilas e cidades.
– Nessa história perdemos muito da nossa honra e boa fama na Índia – anui Bento Castanho, com amargura. – É motivo de vergonha para todos nós, embora houvesse boas razões para o governador e o capitão de Diu desejarem a morte do sultão.
– Contai-nos o que se passou, se o sabeis de fonte segura – roga Fernão, aproveitando a ocasião e a curiosidade dos presentes, para ouvir o que há muito buscava saber. – Assi entenderemos melhor o que está a acontecer na fortaleza.
Vendo que a assistência aprova o alvitre, Castanho troca um olhar com Tristão Gomes que lhe faz um gesto de assentimento.
– Eu estava ao serviço em Diu, nesse tempo, e tudo presenciei – confirma. – Como já aqui contei, depois que Martim Afonso de Sousa logrou permissão d’el-rei para fazer a fortaleza, o governador Nuno da Cunha deu pressa à sua construção, sobretudo a parte dos baluartes e demais fortificações, que acabámos em seis meses. Trabalhávamos como condenados, por sorte apenas sofremos pequenos acidentes e os feridos foram tratados pelo físico Garcia de Orta, trazido do reino pelo capitão-mor. De início, Bahadur visitava amiúde as obras e parecia encantado com tudo o que via, mas, quando reparou na grossa artilharia com que tínhamos armado a fortaleza, não ficou nada satisfeito, apesar de lhe ter sido dito que era para sua protecção e do reino.
Por ser homem de natural inconstante, traiçoeiro e cruel, julgava os outros por si, sendo por isso muito desconfiado, com medo de que o quisessem matar e tomar-lhe o trono, como ele fizera aos seus irmãos para ficar senhor de Cambaia. E, nesse preciso ano de trinta e seis, fartos de matar e saquear, os inimigos mogores retiraram-se para as suas terras com o rico espólio que tinham roubado, deixando-lhe o reino livre. Bahadur achou então que já não precisava da nossa ajuda e como cobiçava a fortaleza, determinou matar o governador com todos os portugueses a que pudesse lançar mão.
Nuno da Cunha soube logo da revolta de Bahadur pelo Acedecão49 que lhe mandou entregar em Goa um presente de vacas, carneiros, galinhas e manteiga e, no maior segredo, um anel com um olho-de-gato de muito preço e um recado que lhe escrevera de sua própria mão:
Foi-me dito que quereis ir depressa a Diu, pelo que vos mando este presente de refresco; mas eu vos rogo que andeis muito devagar e olheis por onde ides, que para isso vos mando um olho, por terdes dois e haverdes mister de três.
Assim prevenido, Nuno da Cunha enviou Diogo de Mesquita a Cambaia, onde estivera preso alguns anos e aprendera bem a língua, sendo muito estimado de Bahadur por lhe ter prestado bons serviços na guerra contra os mogores. Com o pretexto de informar o sultão da visita do governador, a sua verdadeira missão consistia em descobrir o que ele preparava contra os portugueses.
Mesquita soube pelos seus amigos de Cambaia que el-rei só falava em reconquistar a fortaleza de Diu e matar todos os cristãos. Um ódio confirmado pelo próprio Bahadur, a quem fizera desatar a língua com um vinho que lhe dera de presente.
Por ele soubemos das cartas que o sultão tinha escrito ao Nizamaluco50, ao Hidalcão e ao samorim de Calecut, seus aliados, queixando-se de que o havíamos enganado e lhe faltaram com o prometido socorro na guerra; na cidade, éramos mais nocivos que os mogores, porque roubávamos e matávamos os seus mercadores, ofendendo-o constantemente, pelo que determinava fazer-nos guerra sem tréguas, até nos acabar de todo. Rogava-lhes, em nome do profeta Mafamede, que fizessem o mesmo em todos os lugares onde os portugueses tivessem fortalezas.
44 O baluarte era uma obra defensiva, situada nas esquinas das muralhas e avançada em relação à estrutura principal de uma fortificação.
45 Muito parecido com o tone, é um pequeno barco a remos, como o bergantim, comprido, pontiagudo nos dois extremos, e fechado por cima, à vela ou com dez a vinte remos, que serve na pesca e na pirataria.
46 Grande canhão de bronze, construído em 1533 para o sultão Bahadur, e que hoje se pode ver no Museu Militar, em Lisboa.
47 Nome dado pelos portugueses a Mustafa Rumi Khan, o general turco comandante do exército do sultão Bahadur, desde 1527.
48 Soleimão I, o Magnífico, sultão otomano.
49 Asad Kha-n, dignitário de Adil Sha-h (Hidalcão), uma espécie de condestável do reino.
50 Buran Niz-am Mulk, sultão de Ahmadnagar.
Quando o gavião está seguro nas piós, quem o solta às vezes se arrepende
(português)
Canto I, de O Primeiro Cerco de Diu51
VII. Cambaia, reino grande e populoso,
Nas partes d’Oriente situado
Em riquezas e em armas poderoso,
Foi de sultão Bahadur senhoreado:
Príncipe mau, cruel, despiedoso,
Dos naturais e estranhos pouco amado,
Antes sempre em maior ódio crescia,
Cousa assaz natural na tirania.
XI. O sexo feminil, cuja fraqueza
Resiste mais que os duros peitos fortes,
Não pôde resistir a esta braveza,
Que se mantinha só de humanas mortes;
Pois também fez sentir sua crueza
Àquelas, cujas duras, tristes sortes
Com firme e conjugal nó lhe juntaram,
Que com seu próprio sangue desataram.
XIX. Este jugo cruel, d’homem alheio
Com que tratava ao que é estranho, e o que é sujeito
O pôs em tal cuidado, em tal receio
Que se velava mais do mais aceito,
O que tem de mercês e honras mais cheio
Lhe vem depois a ser o mais suspeito,
Porque a mortífera honra e a dignidade
Motivo é d’ódio, mais que d’amizade.
XXII. Nem somente do ferro temor sente,
Que a peçonha também lhe dá cuidados,
Isto lhe faz banhar continuamente
D’humano sangue, o bosque, o monte, o prado,
Porque ante ele nenhum era inocente
Que só numa suspeita era culpado,
Mas nem assi alcança o que procura,
Que nem com tantas mortes se assegura.
Nesse mesmo dia, Manuel de Sousa, o capitão de Diu, começou a reforçar a defensão da fortaleza, recomendando a todos que estivéssemos sempre prestes para o que desse e viesse. E o primeiro conflito não tardou a rebentar.
Só a duras penas tolerávamos a soberba dos mouros e turcos que viviam na cidade de Diu, os quais, seguros de não gozarmos do favor do sultão, cada vez que topavam connosco, faziam grande surriada e tratavam-nos como se fossemos cativos, cuspindo-nos e cobrindo-nos de injúrias. Já não saíamos sós da fortaleza porque, se apanhavam um de nós por ruas escusas, espancavam-no até o deixarem como morto. Manuel de Sousa não queria guerra e recomendava-nos muito para não respondermos às provocações nem retribuirmos as ofensas e nós obedecíamos, mas andávamos agravados e em sanha.
Um dia em que fui com nove companheiros montar guarda aos escravos que iam buscar água para encher a cisterna e lenha que havia mister armazenar, para o caso de nos porem cerco à fortaleza, cruzámo-nos com um bando de mouros arruaceiros e um deles fez menção de me dar uma bofetada. Eu que, mal os vira, tinha sacado disfarçadamente o punhal da bainha, enterrei-lho no peito, impedindo a agressão. Os parceiros do morto desataram numa grande berraria de “Mata! Mata!” e a bradar por socorro, fazendo acudir de todas as partes muitos mouros com pedras, espadas e punhais, que nos caíram em cima, matando três dos meus companheiros, apesar de nos defendermos com unhas e dentes.
Vendo que não podíamos levar a melhor a tantos adversários, por já estarmos muito feridos, pusemo-nos em fuga para a fortaleza, abandonando os mortos e arrastando connosco os mais feridos. Como não conseguíamos correr muito, desesperávamos já de nos salvar, tendo aqueles cães a morderem-nos os calcanhares, mas os vigias da fortaleza deram-se conta da perseguição e fizeram soar o alarme, com que todos se armaram para nos acudir. O capitão não os deixou acometer os mouros e saiu só com os trinta alabardeiros da sua escolta, desarmado, para que vissem que não ia pelejar e, dando-nos pancadas com uma cana que trazia nas mãos, nos meteu dentro da fortaleza.
O Rao Medim, capitão da terra, que também acudira à revolta, fez recolher os mouros para a cidade, onde eles satisfizeram a sua vingança matando cinco portugueses que estavam a fazer tratos e nada sabiam do motim. Manuel de Sousa queixou-se destas mortes, mas Bahadur riu-se dele, dizendo-lhe que a culpa era nossa, porque roubávamos e fazíamos muitos danos na cidade, segundo lhe contava o Rao, e não puniu os assassinos nem os entregou à nossa justiça.
Ao cair da noite, Manuel de Sousa recebeu um bilhete, escrito na língua da terra, a avisá-lo de que o sultão só esperava por um descuido ou imprevidência dos portugueses para assaltar e tomar a fortaleza. Mandara fazer muitas armas e construíra mais de quarenta fustas para nos combater, embora dissesse a quem o queria ouvir que era por causa da guerra com os mogores. O recado não vinha assinado e quando o capitão quis conhecer quem o trouxera, para recompensar o mensageiro e saber quem o mandava, foi-lhe dito que um rapazola embuçado o metera nas mãos do porteiro que assomara ao postigo e desaparecera numa corrida. Manuel de Sousa não esperou pela manhã para reunir conselho e disse-nos:
– Vou escrever ao governador para lhe pedir que venha com a armada para Diu, porque Bahadur está a preparar uma revolta. Só vendo a nossa força, perderá a soberba e se aquietará. Este amigo que nos avisa do perigo não é outro senão Coja Çofar, que tudo sabe por ser da privança d’el-rei, mas não quer dar a cara por temer a sua vingança.
Por ser de natural brando e crédulo e não desejar a guerra, o capitão confiava no renegado italiano, o qual com grande dissimulação jogava com um pau de dois bicos, fingindo espiar-nos para estar nas graças de Bahadur e espiando el-rei para agradar a Manuel de Sousa, embora descobrisse quer a um quer a outro apenas o que poderia reverter mais tarde em seu próprio benefício. Assim, o sagaz espião informava o capitão das armas e, sobretudo, das fustas de guerra que o sultão construía – e nós já sabíamos, porque as víamos competir umas com as outras nos rios em treinos de batalha, embora el-rei dissesse que era para seu desenfadamento – e, por outro lado, aconselhava Bahadur a mostrar-se nosso amigo e a fazer-nos muitas mercês, contando para isso com a mãe d’el-rei que recomendava ao filho que esperasse até conseguir matar o governador, por ser ele e não o capitão a cabeça dos portugueses. Com Nuno da Cunha morto, facilmente seríamos desbaratados e a fortaleza tomada sem trabalho.
El-rei decidiu seguir-lhes os conselhos e passou a convidar o capitão para comer com ele nos paços, nos seus aposentos privados, servidos pelas suas mulheres e concubinas; mandava chamar os portugueses para fazerem demonstrações de luta ou para tangerem e cantarem à nossa maneira, dando cabaias luxuosas por prémio aos vencedores. Visitava com igual frequência a fortaleza, acompanhado apenas dos seus criados, para mostrar como confiava em nós, comendo e bebendo com Manuel de Sousa e os seus oficiais, o que a todos espantava, por se saber que tinha tanto medo de ser morto com peçonha, que preparava e cozinhava a sua comida com as próprias mãos.
Sendo homem acelerado e petitoso, de espírito mudável como um zingamocho, uma noite, quando estávamos já todos recolhidos na fortaleza, veio bater-nos ao postigo, perdido de bêbado, acompanhado apenas por uma pequena escolta com tochas para lhe alumiar o caminho. À pressa, Manuel de Sousa mandou tocar as trombetas e, como andávamos em alerta de guerra, acorremos todos prontamente, vestidos e armados, ao terreiro da fortaleza. Perfilámo-nos, ordenados em duas alas, com muitos brandões acesos, formando uma rua por onde el-rei havia de passar, interrogando-nos sobre o que viria ele fazer à fortaleza àquela hora da noite.
– Isto cheira-me a cilada! Não terá el-rei o seu exército à nossa porta, à espera do seu sinal para acometer a fortaleza?
– E arriscar-se a ser morto ou ficar nosso refém? Bahadur não é assi tão louco.
– Espero que não venha com talante de ir correr por cima das nossas ameias e torres mais altas! É assaz doudo pra fazer leviandades destas, tão pouco pertencentes a rei!
– É bem capaz de nos convidar pra essa folia, como costuma fazer aos embaixadores estrangeiros pra mostrar coragem. E eu vou-me escusar, inda que me chame covarde. Era só o que me faltava, andar a pular no alto das ameias: se tenho de morrer que seja a combater.
O capitão foi em pessoa abrir-lhe o postigo e nós calámo-nos quando Bahadur entrou só com três homens e quatro pajens, mandando o resto da sua companhia ficar fora da fortaleza. Cambaleava e ria-se muito, contudo, ao ver os novecentos portugueses armados, cujas armas resplandeciam na claridade dos archotes, assustou-se e perguntou agastado:
– Porque se armam os portugueses para me receberem, sendo eu irmão d’el-rei de Portugal?
– Não estranhe, Vossa Alteza – dissimulou o capitão, contando com a sua vaidade –, os portugueses armam-se sempre para receber com muita honra os reis que entram nas fortalezas d’el rei de Portugal.
Bahadur tomou-o pela mão, rindo-se muito, e pediu:
– Capitão, dá-me de comer, que trago fome.
Entrou na casa em que pousava Manuel de Sousa e, deitando-se num esquife52, recostou-se nas almofadas e gabou com voz avinhada, por entre soluços:
– Tens umas belas casas, capitão!
– As casas, toda a fortaleza, eu e os demais portugueses são pertença de Vossa Alteza – disse-lhe Manuel de Sousa, que já me mandara trazer-lhes de comer e de beber.
– Bofé, amigo – repontou Bahadur com sanha –, esta fortaleza não é minha, mas d’el-rei teu senhor, e as casas são tuas!
Falou em português, pois já sabia bem a nossa língua, mostrando-se de novo irrequieto, às voltas no leito improvisado, como afrontado do vinho. De repente, pareceu esquecer-se do lugar em que estava e começou a murmurar frases sem sentido, com voz entaramelada, ora cantando, ora falando na sua língua:
– Portugueses ladrões! É dar-lhes, dar-lhes! Matar! Matar!
Os da sua comitiva estavam estarrecidos com o seu despropósito e falavam muito alto de modo a abafar-lhe a fala, para que nenhum de nós percebesse o que ele dizia, mas vendo que Bahadur se não calava, procuraram dissimular com risos e motejos:
– Não deveis fazer caso do que diz el-rei! Quando bebe, fica sempre assi, tão fora de seu siso que até diz doestos contra a sua mãe.
No entanto, não ousavam interrompê-lo e el-rei parecia não ter vontade de se calar.
– Capitão – bradou, semicerrando os olhos, erguendo o púcaro vazio para que lho enchessem –, se quiseres eu serei teu cativo e te encherei esta fortaleza de dinheiro pelo meu resgate, se não me fizeres mal.
Era uma provocação e os seus acompanhantes empalideceram ainda mais, decerto temerosos por Bahadur nos estar a meter na cabeça ideias tão tentadoras como perigosas.
– Senhor – retorquiu Manuel de Sousa, com voz risonha, temendo ver surgir algum conflito da parte da nossa gente –, esta fortaleza pertence-te e aqui somos todos teus cativos.
João Santiago, um renegado que lhe servia de língua, procurava amansá-lo, mas el-rei cuspia-lhe quando ele lhe falava, arrancando muitos risos forçados e zombarias à assistência. Alguns dos nossos que sabiam a língua tinham percebido tudo o que Bahadur dissera e chamaram o capitão à parte, de modo a Santiago não os ouvir:
– Capitão, não descureis as ameaças d’el-rei, porque é costume os bêbados falarem o que têm no coração.
– Cuidai bem nisto, que depois de perdida a boa ocasião vem tarde o arrependimento.
Manuel de Sousa entendeu que o instavam a matar Bahadur com todos os da sua companhia, mas aconselhado por mim e por outros da sua privança não consentiu, por ser traição e desonra para os portugueses, matá-lo naquele estado e dentro da fortaleza que o acolhera.
– Os portugueses já fizeram outras faltas e quebras de palavra na Índia, que nunca foram estranhadas porque os seus reis e grandes senhores o fazem entre si constantemente – ripostaram os do partido contrário.
– Calai-vos todos – ordenou o capitão em voz alta e com merencoria –, porque el-rei quer dormir!
Valeu-nos Deus, não permitindo que o matássemos, porque o Rao Medim, vendo como Bahadur viera ter connosco, bêbado e sem a sua guarda, seguira-o em segredo com muita gente armada e montara apertada vigilância a toda a volta da fortaleza, prestes para acometer ao primeiro som de rebuliço e luta. Contudo, por volta da meia-noite, Bahadur sossegou e foi-se em boa hora para os seus paços, amparado pela sua gente e o Rao, ao vê-lo sair de boa saúde e abraçado aos seus pajens, recolheu-se com a sua gente sem ser visto por el-rei nem pelos vigias da fortaleza.
No dia seguinte, tendo cozido a bebedeira, o sultão negou ter ido à fortaleza, estranhando muito que lhe dissessem o contrário. Coja Çofar, que nada sabia desta aventura, temendo que el-rei tivesse falado demais e dito algo de comprometedor para as suas ambições, mandou um criado avisar Manuel de Sousa para ter cuidado, porque, de noite, andara muita gente armada a rondar-lhe a fortaleza.
Na noite seguinte, passando já do quarto da prima53, de novo se agitaram os ânimos dos portugueses, com outra visita misteriosa. Da parte de fora da fortaleza, por baixo da varanda das casas do capitão, veio ter o mesmo embuçado que dera o aviso da traição de Bahadur a Manuel de Sousa e pôs-se a chamar por ele, dizendo que lhe queria falar. O vigia da muralha foi com um língua acordar o capitão, que assomou à varanda. O encoberto falou-lhe na língua da terra, com uma voz fina, como a de uma mulher ou de um capado, como os que estavam de guarda aos paços de Bahadur.
– Sabes, capitão, que pela manhã serás chamado por el-rei para te matar, pelo que não deves ir, escusando-te com estares enfermo. Bahadur já convocou os seus oficiais para te fazerem uma espera e, depois de te matarem, virão acometer a fortaleza. Para veres que a isto não me move interesse, mas apenas o teu bem, nunca saberás meu nome. Fica-te em boa hora.
Desapareceu tão silenciosamente como chegara, por entre sombras, onde o capitão julgou distinguir outro vulto corpulento. Sabia que o seu anjo da guarda não podia ser Coja Çofar ou o Rao, como de início pensara, mas não fazia a menor ideia de quem lhe poderia querer tamanho bem, que arrostasse com tal perigo de vida a fim de o salvar.
Na manhã seguinte confirmaram-se os avisos da véspera, quando chegou um emissário com recado d’el-rei para que o capitão o fosse ver dentro dos seus paços.
– Albarde-se o burro à vontade do dono – murmurou Manuel de Sousa, decidido a entrar no jogo e foi apresentar-se a el-rei, sem armas, só com uma pequena comitiva.
Bahadur que já mudara de tenção, com a sua natural inconstância, ou achara desonroso matá-lo no seu paço assim desarmado e em visita de amizade, convidou-o para comer com ele nos seus aposentos, servidos pelas suas favoritas. Quando a concubina que el-rei lhe destinara para o servir lhe deitou água de um gomil nas mãos e lhe deu uma toalha para as enxugar, Manuel de Sousa achou preso nela um bilhete que se apressou a guardar sem que ninguém visse.
– Um relógio passou/ e outro começou./ Bendito seja/ o nome de Jesus/ mais a sua santa mãe/ que por nós rogue também/ e da morte nos proteja.
A melopeia cantada pelo grumete faz sobressaltar toda a gente e o mestre da nau que ouvia a história, embora atento ao serviço da sua gente, diz sorrindo, mas com autoridade:
– Será melhor deixar o resto para amanhã, Bento Castanho, que já passa um relógio do quarto da modorra, a minha gente há mister dormir e eu vejo que não arreda pé, desejosa de vos ouvir.
Soam alguns protestos, mas também bocejos. O veterano de Cochim e Diu desculpa-se, envergonhado:
– Tendes razão, deixei-me levar pelas recordações que tenho ainda mui vivas e nem deixei o bombardeiro Tristão Gomes botar faladura. Perdoai-me.
– Não há que perdoar! – brada Fernão Mendes Pinto, ainda arrepiado do relato. – Ficámos a conhecer as razões que levaram à morte de Bahadur, embora não saibamos o modo como morreu.
– Amanhã o contarei, se vossas mercês ainda me quiserem escutar.
51 Poema épico de Francisco de Andrade, publicado em 1589.
52 Canapé, divã.
53 Primeiro turno de vela, das oito horas à meia-noite.
Não há árvore que o vento não tenha sacudido
(hindu)
A Quarta-feira de Cinza, em amanhecendo, se fez toda a armada à vela e foi demandar o porto. El-rei [Bahadur] neste tempo andava monteando na terra firme às gazelas, e assi como a armada vinha seguindo sua viagem, assi ele pela terra se vinha chegando sua viagem para a cidade; e, sendo já a dita armada dentro do porto, chegou um criado d’el-rei em uma fusta a dar boa-vinda ao governador e trazer-lhe parte da caça que aquele dia ele fizera, a qual era dezoito gazelas, e a cada uma faltava a carne da metade de uma perna, sem lhe ser tirada a pele; e assi mais muitas galinhas, todas sem cabeça.
Estas demonstrações e abusos, como sejam naturais nos Mouros e em eles costumem prognosticar seus desejos e determinações, foram de todos os que no galeão vinham com atenção olhadas e praticadas. O governador recebeu o presente e mandou sua resposta a el-rei, e que, se não viera tão mal disposto, que logo o fora ver; porém, que como a enfermidade lhe desse lugar, o faria.
(O Primeiro Cerco de Diu, de Lopo de Sousa Coutinho)
Viajantes, soldados e tripulantes não quiseram esperar pela noite para escutar o resto da história de Bahadur e conhecer de que modo se dera a sua morte. Ao fim da manhã, deixara de soprar bafo de vento e a Cisne ficara ao pairo, com a mezena54 baixa, ao som das águas, quase imóvel, dando pouco serviço aos matalotes. Apesar do calor denso e húmido, o céu mantinha-se um tanto afumado, o que impossibilitara o piloto de tomar a altura do sol ao meio-dia, mas permitia a muita gente estar na coberta, sem ter de lutar por um dos raros lugares à sombra ou sujeitar-se a sofrer a mordedura de fogo nos lombos.
Fernão vê Bento Castanho e Tristão Gomes, apoiados contra a bordadura da nau, entretidos em animada prática, como se fossem velhos companheiros e não ousa intrometer-se, embora esteja em ânsias para conhecer o resto da história. Os ouvintes da véspera e outros novos, decerto com a curiosidade aguçada pelos comentários dos primeiros, vão-se acercando dos dois homens, tomando lugar onde lhes parece que melhor os poderão escutar. Em menos de um credo, forma-se uma assembleia tão numerosa como para assistir a um entremez ou ao suplício de um assassino.
– O bilhete que Manuel de Sousa recebeu era. da concubina do sultão? – pergunta a esposa do mercador de Aveiro, mal esmoreceu o ruído das saudações e das conversas.
Apesar da sua curiosidade em conhecer quem seria o misterioso protector do capitão dos portugueses e de ter pensado nele mais de uma vez, desde a noite anterior, Fernão está mais interessado em saber como se deu a morte de Bahadur e o que estava a passar-se em Diu por causa disso. Castanho fora muito prolixo e cheio de minudências no seu relato, a continuar assim, se Tristão Gomes for um narrador do mesmo jaez, chegarão a Chaul sem saber como termina a história.
– Manuel de Sousa nunca descobriu de quem era o recado, embora nós o soubéssemos depois. Não trazia nome, mas vinha escrito na língua da terra com a mesma letra dos anteriores, a avisar o capitão de que, quando chegasse o nosso governador, Bahadur iria convidá-lo e aos principais fidalgos para um banquete na quinta do Melique, nos arredores de Diu, onde el-rei costumava tomar pousada com as suas mulheres para se desenfadar. Aí trataria de os prender a todos e logo tomaria a fortaleza, tendo já a sua armada no mar prestes para combater a nossa e tomar vingança. Jurara dar os fidalgos portugueses como escravos aos seus cabos de guerra e mandar o governador, metido numa jaula de ferro, de presente ao grão-turco, no Cairo.
Quem quer que fosse o seu informador, sempre provara ser verdadeiro e o que lhe dizia era a confirmação da deslealdade de Bahadur, porém, Manuel de Sousa começava a exasperar-se por receber tantos e tão desvairados avisos sobre a má-fé do sultão e das teias de traição que ele tecia à nossa volta. Preveniam-no os seus oficiais, avisavam-no Coja Çofar e o Rao da cidade, assim como Diogo de Mesquita e o governador e, por fim, aquele amigo misterioso que, com risco de uma morte terrível se fosse descoberto, se atrevia a vir de noite à fortaleza ou a violar a clausura do harém do próprio sultão para lhe dar aviso.
– Por quem me tomam todos, afinal? Crêem-me assi tão néscio que não conheça a traição de Bahadur? Cuidarão que sou brando e fraco, porque dissimulo com el-rei, à espera do momento propício para o prender? Tão mau capitão serei eu, para que me não dêem algum crédito?
Hesitava ainda no que deveria fazer e a carta do Nuno de Cunha fora a gota de água que fizera transbordar a sua sanha, pois o governador, além de o avisar que desconfiasse do sultão, lhe ordenava que o prendesse assim que ele entrasse na fortaleza. E, se gente armada viesse acometer a fortaleza para soltar Bahadur, o capitão deveria mostrá-lo das ameias carregado de ferros e, se ele os incitasse à guerra, que ali mesmo o enforcasse à vista de todos. Embora não o confessasse, Manuel de Sousa maldizia da sua vida por não ter prendido o sultão naquela noite em que viera visitá-lo a proferir ameaças, como lhe exigiam os seus oficiais e os fidalgos, que por isso o recriminavam e apodavam de fraco. Tivera escrúpulos em exercer violência contra um homem que se entregava à sua hospitalidade, desarmado, confiante e. bêbado; se o fizesse, a sua honra ficaria para sempre manchada.
No dia catorze de Fevereiro do ano passado, que foi quarta-feira de Cinzas, a armada do governador entrou no porto de Diu. Nuno da Cunha preparara uma armadilha a Bahadur, fingindo-se doente para se desculpar de não o ir visitar, de modo a que o sultão o fosse ver à fortaleza, como fizera outrora. Ali o prenderia e levaria para Goa, onde o teria com todas as honras, mas a bom recado.
Uma fusta acostou ao galeão com um criado d’el-rei para lhe dar o presente de boas-vindas do seu senhor, de dezoito gazelas despedaçadas e galinhas sem cabeça. Nuno da Cunha entendeu que aquela oferta era de guerra e não de paz, mas aceitou o presente, com muitos agradecimentos, em voz fraca e alquebrada, rogando ao mensageiro que o escusasse ante el-rei e lhe dissesse que o iria visitar mal a sua doença lho permitisse.
Quando o mensageiro lhe deu a notícia, nos paços da cidade, Bahadur mandou recado a Manuel de Sousa, para que o levasse sem demora ao galeão a visitar o governador que vinha muito doente. O capitão, desconcertado com a sua afoiteza ou desvario, obedeceu, mandando avisar com muita urgência Nuno da Cunha que se preparasse para a real visita. O governador ficou igualmente engodilhado e, à pressa, convocou os oficiais e fidalgos da armada para virem vestidos com as suas melhores galas fazer o recebimento a el-rei no seu galeão, cuja tolda mandou cobrir com ricas alcatifas e coxins, dando ordens para que em todos os navios se hasteassem muitas bandeiras e estandartes.
Duzentos homens armados, dos quais setenta eram fidalgos principais, fizeram alardo no convés para saudar o sultão, porém, a pergunta que andava no ar era: – Vamos matar Bahadur? Vamos matar o traidor? Uns diziam que era essa a sorte que merecia o fementido, outros declaravam que vinha em visita de paz e cortesia, pelo que seria grande infâmia e ignomínia matarem-no ali.
Bahadur chegou numa pequena fusta, sem nenhuma pompa, vestido com um pano verde e uma touca preta, com um cris55 de ouro à cinta, como símbolo de realeza, porque as suas armas – um terçado e o arco com o coldre das flechas – eram transportadas por dois formosos moços que lhe serviam de pajens. Acompanhavam-no Manuel de Sousa e treze dos principais senhores do reino, entre os quais Coja Çofar com o seu genro, um portentoso janízaro que tinha a alcunha de Tigre do Mundo, por ser um grande lutador em muitas armas. Mais atrás vinham quatro fustas com os seus criados e oficiais.
O cortejo passou por entre toda a armada que o saudou com muitas salvas de artilharia, grandes aclamações, apitos e fanfarras de festa. Nuno da Cunha esperava-o ao portelo, de cabeça descoberta, vestindo uma loba aberta de chamalote, como quem se levanta da cama. Ao ver tanta gente armada, Bahadur empalideceu, como se só naquele instante se tivesse apercebido de que o governador sabia da sua traição e que ele se viera meter na boca do lobo.
– Se eu soubera quão maltratado estáveis pela enfermidade – disse, dominando o receio e tratando de assegurar a hospitalidade que lhe devia o governador –, eu vos mandara dizer para vos não levantardes da cama, mas já que assi foi, vamo-nos assentar na vossa câmara.
Agarrou-o por um braço e encaminhou-se para o castelo da popa, saudando alguns fidalgos que conhecia. Todos olhavam para Nuno da Cunha à espera do sinal para se lançarem sobre o sultão, porém, o governador desviou o olhar e levou el-rei para a sua câmara, juntamente com Langarcão, Aminacem, Coja Çofar, o Tigre do Mundo, o língua João Santiago e um dos pajens. A desconfiança e o medo haviam-se instalado no bando e durante a meia hora que estiveram dentro da câmara pouco falaram, ansiosos por se verem fora do galeão.
Manuel de Sousa, sabendo que Nuno da Cunha queria prender el-rei e não tivera tempo de concertar com ele o modo de o fazer, mandou o pajem do governador ir até à varanda da câmara perguntar-lhe à orelha o que devia fazer, o que o pajem cumpriu sem custo, pondo-se de joelhos por trás do seu senhor, que estava perto da varanda, para lhe dar o recado em segredo. Isto levantou suspeitas a Bahadur que levou a mão ao cris e o língua João de Santiago, que estava entre ambos, disse à pressa:
– Senhor, não ouçais recados, vede el-rei que vos fala!
Nuno da Cunha afastou o pajem com a mão, sem o ouvir, mas já Bahadur se erguia para se retirar, e o governador, apoiando-se no ombro de um dos seus capitães para mostrar quão fraco estava, acompanhou-o até ele embarcar com a sua comitiva, com grande sanha dos fidalgos que o queriam matar. O sultão entrou na sua fusta a gritar à chusma que remasse depressa para terra, partindo logo sem dar sequer tempo a Manuel de Sousa de embarcar com ele. O capitão meteu-se num catur, acompanhado pelo seu pajem e por Diogo de Mesquita, seguindo no seu encalço. No galeão toda gente mirava o governador à espera de uma explicação por tê-lo deixado partir a salvo.
– Vós que me olhais – disse-lhes agastado – metei-vos nessas fustas que estão a bordo e acompanhai el-rei. Fazei o que Manuel de Sousa vos disser.
Era o sinal esperado. O governador não quisera a infâmia de matar no seu navio o rei da terra que o visitava, desarmado e em roupagens de paz, porém no mar a situação era outra. Ainda o eco das suas palavras não se esbatera e já todos embarcavam onde calhava. Por sorte, meti-me na fusta de Lopo de Sousa Coutinho que tinha bons remadores e a quem ele esforçava para se porem a par do catur do capitão de Diu que, todavia, chegou primeiro ao barco de Bahadur.
– Dize a Sua Alteza – bradou Manuel de Sousa em alta voz a Santiago – que se passe a este meu catur, pois o governador manda que se vá à fortaleza.
– Que doudice é essa, Manuel de Sousa? – repontou o língua com azedume. – A um príncipe tamanho se há-de falar tal cousa? Passai-vos vós cá e dizei-lho – voltando-se para Bahadur preveniu-o: – Estes te querem matar, meu senhor.
De súbito vimos Manuel de Sousa cair ao mar e atrás dele lançar-se o seu pajem para o ajudar, ao mesmo tempo que Lopo de Sousa mandava chegar a nossa fusta ao catur, para onde saltou, indo ajudar Diogo de Mesquita a recolher o capitão e o moço. Bahadur parecia contristado e fazia sinal com a mão a Manuel de Sousa chamando-o para o seu barco, para onde foi içado. Pedro Álvares de Almeida, António Correia, querendo ajudar, saltaram com ímpeto para a proa onde estava el-rei que se assustou e deu uma ordem aos seus homens. Diogo de Mesquita, que estava com Lopo de Sousa da banda da popa, entendeu a fala do sultão e gritou para os companheiros:
– Vão matar-nos!
O Tigre do Mundo, fazendo jus ao seu nome saltou sobre o desprevenido Manuel de Sousa e enterrou-lhe um cris nas costas, lançando-o morto ao mar. Mesquita agarrou Bahadur por um braço e deu-lhe uma cutilada com a espada, ferindo-o ligeiramente.
– Matem-nos! Matem-nos! – bradou el-rei, sem se defender.
Os guzarates Langarcão e Aminacem, com alguns criados de Bahadur, arremeteram contra ele e contra Lopo de Sousa e António Correia que se tinham posto a seu lado, de espadas desembainhadas, ao mesmo tempo que na proa outros mouros matavam Pedro Álvares de Almeida que ficara sozinho e atiravam o seu corpo ao mar.
Eu nada pude fazer para os ajudar porque os nossos remeiros estavam tão assustados que se afastaram do barco antes de eu poder saltar para dentro, apesar das minhas ameaças para que se acercassem. E o mesmo se passou com os das outras fustas, porque o pajem turco, portador do arco e do arcaz com as flechas d’el-rei, começou a disparar com tão boa pontaria que não perdeu um só tiro, matando e ferindo muita gente na primeira fusta, de modo que os remeiros das restantes só se chegaram ao barco quando o moço ficou sem flechas e foi morto de um tiro de arcabuz. As fustas que traziam os criados do sultão davam combate às nossas, com grande fereza.
Assim, impedidos de os socorrer e em sanha contra as chusmas covardes, víamos Diogo de Mesquita, Lopo de Sousa Coutinho e António Correia, já muito feridos, a lutarem contra os mouros com grande valentia, embora sem esperança de vencer. Deus compadeceu-se deles, porque, cansados de lutar e desesperados por não os conseguirem matar, os homens do sultão lançaram-se todos à uma sobre eles e atiraram-nos ao mar, de onde logrei recolhê-los meio-mortos.
Logo que ficou desembaraçado dos portugueses e vendo-se rodeado de mortos e feridos que não o poderiam defender, o sultão ordenou aos remeiros que o levassem depressa para terra ou seriam todos mortos pelos inimigos desejosos de se vingarem. Esperava salvação dos três navios da sua frota, cheios de turcos bem armados, que avançavam a grande força de remos, vindo meter-se entre as nossas fustas e a sua, para o protegerem, porém, viu cortada a fuga para a cidade por um catur dos nossos que lhe acertou no barco com um tiro de berço, matando-lhe alguns remeiros. O sultão lançou-se ao mar, procurando nadar para terra, mas como a corrente não lho permitiu, decidiu entregar-se nas nossas mãos a fim de salvar a vida.
Quanto ao que se passou a seguir, ninguém, mouro ou português, o soube bem contar. Há quem diga que el-rei se pegou ao remo de uma das nossas fustas a gritar Bahadur! Bahadur!, mas, o remador, vendo-lhe o cris de ouro à cinta, julgou que era um dos mouros ricos da sua comitiva e matou-o com um chuço, lançando-se à água para lhe tirar o punhal, antes de o corpo se afundar e só por ele é que se soube da sua morte. Outros disseram que Tristão de Paiva, um fidalgo de boa condição, capitão do catur que viera da fortaleza, tentara salvá-lo, mas os seus homens traziam tais desejos de vingança que não obedeceram, com a cobiça de lhe roubarem o cris, um feriu-o no rosto com um chuço, outros golpearam-no até o matarem e ele se soltar do barco desaparecendo nas águas.
Ao saberem da morte do sultão, os moradores da cidade começaram a fugir com o que podiam transportar, em tamanha desordem que muitos perderam a vida espezinhados nas portas das muralhas ou caindo delas ao tentarem descer por cordas e escadas. Nuno da Cunha mandou ir à sua presença Coja Çofar, o único sobrevivente da comitiva real, que ficara ferido e fora entregue aos cuidados de Garcia de Orta, o físico de Martim Afonso de Sousa.
– A morte d’el-rei foi merecida, porque nos fez traição – justificou, mostrando-se assaz magoado. – Quanto a vós, Coja Çofar, não deveis temer qualquer castigo, dano ou perda dos vossos bens. Volvei à cidade e sossegai os seus moradores, porque deles não hei razão de queixa e pesa-me muito que tenham medo aos portugueses. Dizei-lhes que nenhum mal receberão de nós, antes os defenderemos de quem os ofender. Como sois homem de grande crédito, dar-vos-ão ouvidos e eu vos farei governador da cidade.
Nuno da Cunha desconhecia, tal como o desventurado Manuel de Sousa e todos nós, quão fementido era Coja Çofar, uma verdadeira serpente que escondia o seu veneno no peito, enquanto tramava a perdição dos portugueses em Diu e outros lugares da Índia. Só o soubemos demasiadamente tarde, quando ele fugiu de noite com todas as suas mulheres e fortuna, recrutando muita gente armada. Juntou-se ao exército do novo rei de Cambaia, para servir de reforço à grande armada de Soleimão Baxá, a quem aconselhou que, antes de conquistar Goa, fosse tomar a fortaleza de Diu. Tanto quanto pude saber, foram estas as causas da vinda da armada dos rumes. Todavia, desse cerco donde salvámos Tristão Gomes, sei tanto como vós. Ele nos contará decerto o que por lá se está a passar.
Bento Castanho terminara o seu conto, mas a assistência não mostrava desejo de arredar pé e ir dormir.
– Vossa mercê contou esta história à maravilha, mas deixou um mistério por descobrir – lamenta-se a mulher do mercador, com um sorriso de desculpa.
– Qual? – pergunta o narrador em tom de zombaria. – Juro-vos que contei a história com toda a minudência e não me pesa a consciência de vos ter encoberto cousa alguma. Diga-me vossa mercê a sua queixa, para eu me poder redimir, emendando a falta.
– Vossa mercê disse que o capitão Manuel de Sousa nunca chegou a saber quem era o misterioso amigo que lhe dava avisos das traições de Bahadur, mas disse também que o havíeis descoberto. Não nos quereis revelar quem era?
Bento Castanho solta uma gargalhada bem-disposta.
– Tendes razão, por vossa vida! Como pude olvidar-me de um caso tão singular? Descobrimos quem era o nosso anjo da guarda nas casas d’el-rei, onde fomos com o governador para lhe confiscarmos o tesouro. Demasiado tarde, pois a sua mãe, as mulheres e as concubinas já tinham fugido de Diu e posto a salvo tudo o que havia de valor nos seus paços; aí achámos o Tiro de Diu, o celebrado basilisco do Turco. Então, chegou-se a Nuno da Cunha uma mulher ainda moça e formosíssima, acompanhada de um escravo eunuco de grande arcabouço, pedindo para lhe falar. Disse-lhe que era portuguesa e cristã e que, com grande risco da sua vida, avisara por mais de uma vez o capitão da fortaleza dos perigos e ciladas de Bahadur, a quem odiava por ter feito dela sua escrava e a ter dado por esposa ao língua João de Santiago. O governador levou-a para a fortaleza, concedendo-lhe muitas mercês, em paga da sua lealdade. Sempre a ouvi nomear por a Marquesa, não lhe conheci outro nome. E, deste modo, fica desfeito o mistério. Amanhã, se vos aprouver, Tristão Gomes tomará o meu lugar e fará o seu conto do cerco de Diu.
Aplausos e assobios premeiam o esforçado narrador e a assistência retira-se para preparar a comida e fazer as tarefas que lhes destinem para a noite, porque o vento começara de novo a soprar.
54 Vela que se enverga na carangueja (o pau que sobe além do mastro, preso à parte superior da vela) do mastro de ré em ocasião de mau tempo.
55 Cris ou cris – uma adaga característica da Malásia-Indonésia, que é ao mesmo tempo uma arma e um objecto espiritual ou simbólico, cuja essência pode influenciar a vida de quem a possui, podendo mesmo torná-lo invencível.
Um mosquito pode fazer sangrar o olho de um leão
(árabe)
Carta de D. João de Castro a el-rei D. João III:
A guarda e fortaleza com que V. A. há de sustentar e acrescentar o seu estado e ter a Índia pacífica, é uma grossa e bem aparelhada armada e três mil homens disciplinados na guerra que possam entrar nela quando cumprir; e desta maneira e não de outra alguma estará a Índia segura de nossos contrários.
Não será fora de propósito dizer-lhe a que achámos e ao presente está em esta sua terra. As galés e galeotas são tão velhas e mal reparadas que nenhuma delas é para atravessar este golfão e este mal é o menor que nelas há . Os outros navios são poucos, e esses alquebrados e quase podres; parece-me que ou a ralé dos governadores não era esta ou eram tão valentes que sem armada queriam triunfar dos Turcos.
É grande o número de portugueses que nestas partes andam, porque de Sofala até à China, não há cousa que deles não seja trilhada; mas os que andamos em seu serviço somos poucos e mal ordenados, e, a meu juízo, cumprindo ao Vizo-Rei dar uma batalha a turcos, não poderá juntar dous mil homens. Daqui parece o sono e relaxamento de seu serviço que houve na Índia, pois há tantos anos que paga V. A. dezassete mil homens não tendo em seu serviço dous mil, nem falando em outros tantos que podem estar de guarda de suas fortalezas. Além de muitas onzenas, roubos, perdimento de vergonha, destruição da fazenda de V. A. nela achei muitos homens a que foram pagos vinte e trinta mil cruzados de soldos comprados a quinze e vinte por cento, e daqui para baixo infinitos.
Goa, ano de mil quinhentos e trinta e oito
Não pôde Tristão Gomes satisfazer a curiosidade dos companheiros de viagem porque nessa manhã chegam à vista da embocadura do rio Kundalika, no reino de Daquem ou Decão, por onde navegam duas milhas até à cidade de Chaul, com um grande porto de muito trato. Protegida da parte de terra firme, a Oriente, pelas altíssimas e agrestes serranias do Gate, a cidade estende-se para norte, a partir da larga enseada do rio, sendo muito mais comprida do que larga, recortada por formosas praias de aprazíveis palmares, com casas cobertas de palha. Na sua frente, ergue-se o morro de Chaul56, um monte escarpado, alto e redondo, coberto de espesso arvoredo, por onde correm muitos arroios de água, cobiçado por todos os governadores da Índia para a construção de uma fortaleza que defenderia a barra do rio, a qual substituiria com grande vantagem a antiga construção de Diogo Lopes de Sequeira, já a precisar de melhorias.
Terra fértil, de muito bom clima, cria muito gado e produz, além do algodão, grande quantidade de arroz e outros cereais, vegetais de todas as sortes e plantas medicinais e de cheiro, que são levados para Diu, Baçaim, Bombaim, Goa e costa do Malabar e recebe em troca produtos de todos os portos do Índico, sobretudo cavalos do mar Roxo e Ormuz, a sua maior fonte de riqueza. O porto tem pouco movimento de zambucos57 e de naus, por ainda não ser o tempo bom para a navegação, que é de Dezembro a Março.
– Falámos, há algumas noites, de D. Lourenço, o filho do vizo-rei D. Francisco de Almeida – lembra Bento Castanho a Fernão, enquanto observam as manobras da Cisne. – Foi morto neste rio, na grande batalha naval de Chaul, no ano de mil quinhentos e oito, quando aqui veio com a sua esquadra de oito navios e foi acometido pela armada turca de doze galeões e galés de alto bordo e quarenta fustas, comandada por Mir Hussein com a ajuda de Meliquiaz, capitão de Diu, que então era nosso inimigo.
– Como morreu?
– A nau capitânia ficou presa nos bancos de areia e foi arrombada pela artilharia e tomada pelos inimigos, enquanto as restantes naus fugiam vergonhosamente. D. Lourenço, com as pernas partidas por um pelouro, pediu que o atassem ao mastro e continuou a comandar os seus homens até morrer. O seu corpo desapareceu nas águas e nunca foi encontrado, por isso, este rio é muito venerado pela nossa gente da Índia. No ano seguinte, o vizo-rei vingou a morte do filho na grande batalha de Diu em que desbaratou as armadas conjuntas de Mir Hussein, Meliquiaz e do Samorim de Calecut, com as duas frotas de Tristão da Cunha e de Afonso de Albuquerque. Cumpriu a sua jura de que quem o frangão comeu há-de comer o galo ou pagá-lo.
Fica em silêncio, como quem ora. Fernão não o perturba, perdido já na contemplação da nova terra que não tardará a pisar, se a Cisne for capaz de entrar por aquele boqueirão estreito e temeroso, devido a uma grande restinga58 que sai da praia, onde se ergue a cidade, e quase cinge o rio; as manobras da nau cortam-no de tanto medo que sente a pele arrepiar-se.
– O capitão de Chaul tem de me enviar a Goa – diz Tristão Gomes, chegando-se a eles. – O vizo-rei deve saber o que se está a passar em Diu, antes que seja demasiado tarde. Por este andar, vai perder a fortaleza com toda a nossa gente.
Por fim, lançam ferro no porto e Jorge Fernandes Taborda, para a sua visita ao capitão Simão Guedes, decide levar consigo os principais mercadores, assim como Bento Castanho, Tristão Gomes e Fernão Mendes Pinto, por causa das suas histórias singulares e dos testemunhos que podem dar da movimentação dos rumes, quer no mar Roxo, quer em Diu.
Chaul-de-Baixo é a cidade dos portugueses, situada na foz do rio, com o forte de S. Dinis construído no ano de mil quinhentos e vinte e um, com permissão de Nizamaluco que desejava a ajuda dos portugueses contra a gente de Dabul sujeita ao Hidalcão. Em Chaul-de-Cima, reside a população moura e gentia sujeita ao sultão de Ahmadnagar.
Seguem com uma pequena escolta pela margem norte do rio e Fernão pode ver como a cidade é populosa, apesar de ter perdido muito da sua importância para lugares como Goa, pois cruza-se com mercadores mouros de desvairadas nações e grande número de gentios brancos e pardos, por vezes quase negros. Andam descalços e de cabeça descoberta, uns trajados com camisas mouriscas, outros apenas com os seus panos de beatilha ou beirame – os melhores algodões da Índia –, que trazem em volta das espáduas e ancas ou só a tapar-lhes as vergonhas; as mulheres usam os mesmos panos brancos ou de belas cores, de modo a deixarem os seios nus. Há também muita gente armada de espadas, escudos, arcos e lanças de cana ou madeira.
A fortaleza de Santa Maria do Castelo, quadrada, feita em alvenaria de pedra, pode alojar cento e vinte homens dentro das suas muralhas. Antes de irem às casas do capitão, entram na pequena igreja de Nossa Senhora do Mar, a fim de lhe darem graças por os ter salvado dos turcos e trazido a bom porto.
Simão Guedes recebe-os com efusivas saudações, oferecendo-lhes refresco e pedindo-lhes um relato dos sucessos da viagem, das últimas novidades e da razão da sua vinda a Chaul. Contam-lhe como escaparam por milagre às galés turcas, depois de recolherem o companheiro que fugira do cerco.
– Tendes muita razão em dar graças a Deus por vos haver livrado de tamanho perigo – reconhece o capitão, impressionado com o que ouviu.
A seu lado, acha-se Pedro Vaz, um parente que ele enviara a Diu e lhe trouxera as primeiras novas do cerco. Tristão Gomes lembra-se que ele se recusara a ficar na fortaleza, apesar dos rogos de António da Silveira para que o ajudasse. Aproveita para lhe dar uma lição:
– O capitão está cercado pelos rumes e foi abandonado por muitos que tinham por dever de honra e de estado socorrê-lo – sente prazer em ver que o visado da sua encoberta censura ficou com as faces vermelhas. – Silveira fartou-se de pedir socorro a Goa, todavia, o vizo-rei, apesar de ter jurado que já ia a caminho com a armada, ainda não apareceu. Preciso de ir ter com ele, para lhe rogar que vá salvar a nossa gente!
– D. Garcia de Noronha é um fidalgo valente, que tomou parte nas conquistas de Goa e Calecut – replica Guedes, com um trejeito de mágoa –, porém, como ele mesmo diz, por ser muito velho, pobre e ter muitos filhos, não veio agora à Índia buscar trabalhos, mas sim riqueza e proveito. Mal chegou, desentendeu-se com Nuno da Cunha, depois de ele lhe ter recusado dinheiro da fazenda para prover a armada, dizendo-lhe que não o tinha. Por sua vez, como o vizo-rei não aceitou a sua oferta para ir acometer Diu com a gente que estava prestes, o governador pediu-lhe licença para ir para o reino, mas ele recusou-se a dar-lhe sequer uma nau, apesar de ter cento e setenta navios surtos no cais. Foi cousa nunca vista, negar-se ao governador da Índia, depois de dez anos de serviço, aquilo que não se recusa ao soldado mais bisonho, que é o seu regresso à pátria! Diz-se que D. Garcia desconfiou que Nuno da Cunha levava consigo a arca do dinheiro e enviou o piloto e mestre cartógrafo Diogo Botelho Pereira para lhe espiar as cartas e outros documentos, a fim de os mostrar a el-rei se neles achasse indícios de roubos ou faltas.
O nome do filho de Iria Pereira faz sobressaltar Fernão e Bento Castanho, que se olham anojados. Durante os serões na nau, ouvindo as histórias da vida da mãe e da grande viagem que fizera numa fusta para o reino, Fernão ganhara admiração e estima pelo moço, custando-lhe saber que ele se prestara a tão odiosa tarefa, só para se vingar do governador que, alguns anos antes, não lhe perdoara ter ido dar ao rei, sem sua licença, a notícia da construção da fortaleza de Diu.
– Já é sina nossa, estes desentendimentos entre os vizo-reis e os governadores! E quem sofre somos nós, os que andamos ao serviço da Coroa. Ainda havemos de perder a Índia por causa destes desaguisados! – desabafa Taborda.
– Como, segundo também nos disse, achou os cofres vazios – prossegue o capitão de Chaul –, o vizo-rei mandou pedir a todas as cidades e fortalezas um empréstimo tanto de dinheiro como de escravos para remeiros das galés porque os da terra fugiam, prometendo pagar tudo depois de livrar Diu do cerco. Como esta empresa é para o bem de todos os portugueses da Índia e salvação de suas casas e famílias, ninguém recusou o pedido, tendo D. Garcia reunido grandes somas de dinheiro.
– O Acedecão, senhor das terras comarcãs de Goa – acrescenta o feitor –, para estar nas boas graças do governador mandou-lhe um presente de mil vacas, mil carneiros, muita manteiga, trigo e arroz para sustento dos homens, assegurando-lhe a paz de Goa.
Tristão Gomes protesta indignado:
– Mais uma razão para não se entender as suas demoras em acudir a Diu.
– Diz-se que tem falta de gente – informa o feitor –, por isso enviou cartas de chamamento a todos os homens que soubessem servir-se das armas.
– Na sua armada vieram três mil homens! – exclama Castanho, surpreendido. – Tantas vezes vencemos batalhas e conquistámos reinos com muito menos gente.
– Apenas oitocentos desses reinóis são fidalgos, cavaleiros ou homens de criação das casas reais – contrapõe o capitão Guedes, com um riso amargo –, os restantes são gente bisonha, de quinhentos réis de soldo, criminosos, maltrapilhos e moços sem barba. Quando mais necessitamos de gente sabedora das cousas da Índia, calejada da guerra, trocam o governador e mandam-nos gente que nunca empunhou uma espada, sem préstimo para nada, quanto mais para combater.
O feitor tira uma carta de um estojo e agita-a no ar:
– A gente mais antiga da Índia, que queria combater sob as ordens de Nuno da Cunha, está muito agastada com esta mudança. Escreveram-me a contar a fala que Martim Afonso de Sousa fez ao vizo-rei quando este se queixou de não achar homens que quisessem ir na armada. Ouvi, que vale a pena. – Desdobra a folha e lê: – Senhor, os homens da Índia são já enfadados de sempre servir com muitos trabalhos e grande pobreza, de que vêm a morrer no hospital, os que não morrem no mar ou na guerra. E quando esperam mercê de satisfação, então se vai o governador com que serviram, e tornam a começar a servir de novo com o governador que vem; e assi são velhos no serviço e novos no merecer. Pelo que, senhor, não se espante vossa senhoria achar os homens enfadados, e a culpa não a deite aos capitães e fidalgos, porque esta é a verdade. – Conclui, com um sorriso, vendo os seus acenos de concordância: – Pelo menos Martim Afonso de Sousa conseguiu que D. Garcia pagasse os soldos adiantados e distribuísse alguns cargos e mercês pelos veteranos.
– Então, de que está ele à espera para acudir a Diu com a armada? – grita Tristão Gomes, exasperado. – Há mais de vinte dias, desde a resposta desafiadora que António da Silveira mandou a Soleimão Baxá, que os turcos dão pesada bateria à fortaleza, com cem peças de artilharia, cinco espalhafatos59 e nove basiliscos60 com tiros da maior grossura. Quando eu fiquei como morto na tranqueira de fora, dentro da fortaleza havia menos de oitenta homens sãos para a defenderem, já sem pólvora para as bombardas e sem pelouros para os arcabuzes. Pergunto-me se Silveira não estará já morto e a fortaleza tomada.
Exclamações de mágoa saíram de muitas bocas no final da fala de Gomes. A casa do capitão enchera-se de oficiais, fidalgos e mercadores, ávidos de ouvirem novas de Diu, onde tinham amigos e parentes. Em silêncio, fizeram uma prece para que Deus não abandonasse os sitiados nas mãos dos infiéis.
– António da Silveira escreveu ao capado uma carta de desafio? – pergunta-lhe o capitão Guedes, abismado. – Sabeis o que lhe dizia para assi o exasperar a ponto de querer arrasar a fortaleza?
Apesar da sua aflição pela sorte dos companheiros, Tristão Gomes solta uma gargalhada de puro gozo e conta-lhe o episódio com evidente orgulho:
– Ele leu-nos a carta enviada pelo baxá, depois da rendição do baluarte da Vila dos Rumes e escreveu a sua resposta diante de todos nós, dizendo-lhe que não se rendia a um paneleiro, sem colhões. Chorámos de tanta risa! Deixou-nos a todos com maior ânimo para o combate. Como podia esquecer-me das suas palavras? O capado intimava-o a render-se.
Acudi com todos os que não estavam de atalaia ao baluarte de Gaspar de Sousa, para ver o mensageiro. Com muitas exclamações de espanto, reconhecemos António Faleiro naquele homem de barbas rapadas, trajado como um rume, com calções, jaqueta de grã, cabaia turca de brocadilho e uma touca na cabeça. Vinha em liberdade, embora com alguns rumes a guardá-lo, com uma carta de Francisco Pacheco, ditada pelo poderoso Soleimão Baxá, para o capitão António da Silveira. Com uma grande surriada de risos, chistes e zombarias saudámos a sua transfiguração:
– Inda há pouco te rendeste, covarde, e já te fizeste mouro?
– Lá diz o ditado que uma má ovelha deita o rebanho a perder!
– Nunca m’enganaste, fodilhão renegado, sempre de amizade com os mouros da cidade, a falar a sua língua e a gabar-lhes os costumes deleitosos!
– Já te caparam, paneleiro? Vais guardar o harém do baxá?
– Soleimão Baxá fez-nos a todos muita honra e deu-nos ricas cabaias – bradou Faleiro, empertigando-se, fingindo não dar pelos doestos. – Perdoará a todos, se o capitão entregar a fortaleza, de contrário, quando a tomar pela força, não poupará a vida a ninguém. – Acrescentou sobranceiro: – Dai-me logo resposta porque Francisco Pacheco está em casa de Coja Çofar e quer tornar logo, pois se acha indisposto.
Estávamos convictos de que Faleiro fora o causador da rendição do baluarte, por há muito ter amizade e conversação com os mouros, decerto persuadindo com as suas manhas Francisco Pacheco, cujo ânimo fraco ele bem conhecia, a depor as armas e a entregar-se; se o capitão Gaspar de Sousa não nos tivesse impedido, o traidor teria sido ali mesmo crivado de tiros e de setas.
Deitámos-lhe um fio para ele atar a carta, mas, um dos turcos, por pirraça, prendeu-a numa flecha, que pôs no arco, despedindo-a pelo ar, em graciosa curva. A seta passou sibilando rente ao rosto de António da Silveira, que acabara de entrar no cubelo, indo cravar-se numa trave de madeira, por trás da sua cabeça. Sem pestanejar, o capitão partiu-a pelo cabo, desenrolou a carta e, vendo que ali estavam os seus principais combatentes, leu-a em voz alta. Finda a leitura, deixou-nos dar vazão à ira até as nossas pragas e doestos abrandarem, pediu que lhe trouxessem papel, penas e tinta, sentando-se a uma pequena mesa para escrever a sua resposta de modo a todos ouvirem o que mandava dizer ao capado.
Em benefício do seu leitor mais curioso e apreciador do pormenor e do anedótico de uma história, a narradora do tempo presente transcreve no capítulo seguinte a carta com a respectiva resposta, mau grado as vernáculas expressões nelas contidas, assegurando que se trata de documentos verídicos registados em crónicas coevas ou guardados em Arquivos das Bibliotecas Nacionais.
56 Este monte, quase inacessível, foi conquistado pelos portugueses em 1594, tendo sido construído um complexo sistema de fortificações, adaptado ao terreno, com uma couraça e vários baluartes, sobranceiro à povoação e ao porto. Chaul foi entregue aos maratas em 1740.
57 Zambuco, tal como o pangaio, era uma embarcação pequena, de madeira leve, com o tabuado atado só com cairo ou fio de palma, sem pregos ou juntura de metal, de fundo chato por causa dos baixios, com velas de esteira ou a remos.
58 Restinga é uma acumulação de areia e seixos que forma uma barra à entrada de uma baía.
59 Peça de artilharia que lançava pedras em redor, fazendo grande esborralhada no inimigo.
60 Grande canhão, de cerca de quatro toneladas, que atirava pelouros (balas) de ferro de quase quarenta quilogramas.
VIII
Os senhores amam a traição, mas ao traidor não
(português)
Carta de Francisco Pacheco a António da Silveira, Capitão de Diu, ditada por Soleimão Baxá:
Senhor, nós nos entregámos ao grão Soleimão Baxá com seu seguro chapado d’ouro, que nos deixariam ir livres para a fortaleza; e como nos saímos nos disseram que primeiro lhe devíamos ir fazer a salema61, e nos levaram à sua galé . Disse que era contente, como tomasse a fortaleza que logo nos daria embarcação para a Índia, e que se a não tomasse, que então nos deixaria ir para ela, como dizia em seu seguro.
Ele diz que lhe entregueis a fortaleza, com a pólvora e artilharia e suas munições e as armas, e que largará a todos, que com suas fazendas se vão livremente para a Índia; e que se isto não quiserdes fazer, por mar e por terra vos combaterá, e tomará, e vivos esfolará; e que isto poderá mui bem fazer, porque tem para isso bela gente e artilharia, e hoje se tirou fora um basilisco, e tirará quantos quiser. Haja nisto bom conselho, porque tudo o que quiser fará.
Resposta do Capitão António da Silveira a Soleimão Baxá:
Muito honrado capitão Baxá
Bem vi as palavras de tua carta, e do capitão do baluarte, que tens cativo por traição e mentira de tua palavra, afirmada com tua chapa; o que fizeste porque não és homem, pois não tens colhões, que és como mulher mentirosa e de pouco saber. Como me cometes que faça contigo concerto, pois diante meus olhos fizeste traição e falsidade?
Pelo que te não tenho em nenhuma conta . E sabe por certo que aqui estão portugueses acostumados a matar muitos mouros, e que têm por capitão António da Silveira, que tem um par de colhões mais fortes que os pelouros dos seus basiliscos, que não há medo nenhum a quem não tem colhões nem verdade.
O curral diante de ti está, com tal gado que já lhe tens medo e cometes concerto para fazer traição; o qual concerto inda que o eu quisesse fazer, aqui estão tais cavaleiros, que me deitariam no mar, e eles lho defenderiam .
E não sejas mais ousado a me escrever semelhantes cousas, porque a todos os que vierem com teu recado, mandarei espedaçar às bombardadas.
António da Silveira sente que está a perder o ânimo e isso será o fim de Diu, porque ele é o arrimo daquele bando de maltrapilhos esquálidos, escalavrados, famintos, de bocas apodrecidas a cheirarem como fossas, pernas inchadas que mal se sustêm de pé e mãos intumescidas, sem unhas, incapazes de brandir uma espada ou disparar um arcabuz. Danada peste, este mal de Angola62. Chamavam-lhe mal de Angola porque nas viagens para a Índia surgia por alturas de Angola, a dizimar as tripulações, causada pela falta de água e alimentos frescos. A água da cisterna está corrupta, há muito que não se come senão arroz bichoso e pão tão duro que os doentes, com as dores das gengivas, o não podem tragar, nem molhado.
Há vinte e cinco dias que sofrem os intensos ataques dos rumes, pois a sua carta deve ter despertado os maiores desejos de vingança de Soleimão Baxá, cuja sabida crueldade não conhece freio. No entanto, entre a sua gente, ela fora uma espécie de lufada de vigor, de valentia, pois, mal soa um alerta na fortaleza, acodem todos aos seus postos, homens e mulheres, sem uma queixa, sem um protesto, para fazerem cousas de maravilhar, como um dos enfermos da maldita doença que, vendo-se sem pelouros para o seu arcabuz, arrancou um dente que abanava e usou-o num tiro com que matou um turco.
O sacrifício das mulheres, então, deixa-o maravilhado, por vezes mesmo à beira das lágrimas, como o da viúva Bárbara Fernandes, que perdeu o filho mais velho no baluarte da Vila dos Rumes, tendo já ajudado o mais novo a morrer no próprio dia em que chegara a armada dos turcos. Sem nada poder fazer para lhe valer, vira-a suster as entranhas do moço de vinte anos que se esvaía em sangue no seu colo, enquanto o embalava, sem lágrimas, murmurando-lhe doces palavras de conforto.
Avista-a na atalaia, junto às outras mulheres, tanto casadas como solteiras, velhas e novas, com morriões63 enfiados nas cabeças, cobertas até à cinta com outras peças de couraças tiradas aos mortos, de lanças em riste, a mostrarem-se de quando em vez do alto do baluarte ou das ameias e buracos das bombardas, para que os inimigos as tomem por soldados e não se apercebam de que os portugueses são apenas aquele punhado de valentes que lhes fazem frente, recusando render-se.
Mais à frente está Isabel da Veiga, a formosa esposa do fidalgo Manuel de Vasconcelos, que a quis pôr a salvo da cobiça dos turcos, enviando-a, no início do cerco, para junto de seu pai, em Goa, numa fusta que ia, com os enfermos e feridos, levar o pedido de socorro ao vizo-rei. Enquanto o feitor da fortaleza quisera embarcar a todo o custo com o seu dinheiro (no que fora impedido por toda a guarnição que exigia o soldo que ele não pagava), Isabel recusara-se a partir.
– Que Deus não permita, senhor meu esposo, que eu me vá, donde vós ficais! – dissera-lhe diante de todos, com o gentil rosto banhado de lágrimas, esquecida da sua habitual sisudez e discrição. – Se haveis visto em mim alguma fraqueza ou descuido em vosso serviço, dizei-mo, por vossa vida, que eu me emendarei, mas não creio merecer esta áspera pena de me apartardes de vós. Enganais-vos, senhor, se cuidais que ficarei segura longe destes estrondos e perigos, porque em vossa companhia doces me são tais temores, enquanto que em Goa me matarão os pensamentos dos males e desastres a que estareis exposto. Rogo-vos, pois, que me não mateis com tal remédio e mandeis antes nossa filha para junto do avô.
O marido cedera, comovido, e Isabel começara a tomar parte nos trabalhos da fortaleza, ajudada pela velha Ana Fernandes, esposa do físico Fernão Lourenço, não tardando a arrastar atrás de si as restantes mulheres. Além de fazerem o comer para todos os homens e de cuidarem dos feridos, acarretavam em alcofas, debaixo de fogo, pedras, terra ou o que fosse necessário para as reparações da fortaleza.
Ana Fernandes era como uma mãe para todos os combatentes, socorrendo os doentes com toda a fazenda de sua casa, quer com panos para as ataduras, quer com as suas conservas e outros comeres. Com um bordão e um terço na mão, fazia todas as noites as suas rondas pelas muralhas, encorajando os homens a defenderem a sua vida e as dos companheiros. Nos combates, quando os pelouros choviam dentro da fortaleza, em vez de se esconder punha-se ao muro de arcabuz assestado, raramente perdendo um tiro. O seu exemplo fazia com que os homens redobrassem de valor e nenhum diante dela se atrevia a mostrar fraqueza ou covardia.
António da Silveira sabe que não poderão resistir por muito mais tempo ao cerco, que dia a dia se aperta em torno deles como um garrote. Desesperou já do socorro da armada, tantas vezes prometido pelo vizo-rei e nunca cumprido. Morrerá a lutar, porque nunca se renderá nem entregará a fortaleza, enquanto no seu corpo houver um sopro de vida. Viera para a Índia em busca de glória, mas também de fortuna, no entanto acabara por gastar tudo o que tinha de seu, dando mesa e pagando os soldos aos seus homens, e quando o dinheiro se acabara, passara a pagar-lhes com a prata lavrada – trazida do reino como reserva para alguma aflição – que fizera cortar e repartir por eles. Estava assim mais pobre do que quando chegara e, quanto à glória, se lhe reconhecessem alguma, decerto já não estaria vivo para se poder gozar dela. Mas não se arrependia.
Fizera milagres para defender Diu com tão pouca gente e tão mal guarnecida. Poderia ter feito mais, se pudesse contar com alguns fidalgos e cavaleiros que tinham desertado, alguns apenas por capricho ou amuos de fidalguia ofendida, como Fernão de Morais, que se fora para Goa, porque o vizo-rei lhe não escrevera a cumprimentá-lo. Fora uma feia desculpa, de quem prezava mais o proveito do que a honra, e ele agastara-se, porque precisava de capitães experimentados na guerra, despedindo-o com azedume: Ide-vos, em boa hora, porque eu, nesta fortaleza, me contento com somente os que folgam de aqui estar. Outros seguiram-lhe o exemplo, como o seu amigo Francisco Pacheco e António Faleiro, gente com fraco coração para sofrer o perigo, os primeiros a renderem-se.
A fortaleza estava bem protegida. Mal tivera notícia da ameaça turca, reforçara tranqueiras, cavas, muros e baluartes, terminando à pressa a cisterna que enchera com mil pipas de água trazida dos poços da cidade. Quando o exército de Alucão e Coja Çofar chegaram com os seus dezanove mil homens, defendera enquanto pudera os baluartes da cidade e a ilha, apenas com algumas dezenas de homens, muitos deles bisonhos que mal sabiam manejar uma lança.
Com a vinda de Soleimão Baxá, no dia quatro de Setembro, vira-se perdido, mas uma violenta tempestade forçara o capado a levar os navios, que vinham muito destroçados, para Madrafabat, a poucas léguas de Diu, onde perdera quatro embarcações de carga. Durante a segunda vela dessa noite, surgira no céu uma grande trave de fogo cintilante, que correra da banda da cidade para se ir desfazer sobre a armada turca, o que parecera um bom presságio, para mais, tendo os rumes ficado vinte dias fora de Diu a reparar os navios, dando algum alívio aos sitiados.
A má sorte não cessara de os perseguir, encarniçada, castigando-os com as mais mofinas pragas. Primeiro, houvera um incêndio dentro da fortaleza, que queimara umas sessenta casas cheias de fazenda, dando grande ânimo aos mouros, que o viram da cidade, por crerem que lhes tinham ardido as munições. Os assaltos e bombardeamentos recrudesceram, matando-lhes muita gente e não lhes dando descanso.
Seguira-se a perda irreparável da artilharia de terra, quando decidira largar os baluartes da cidade e da ilha e mandara fustas e galeotas, de noite pelo rio, a recolher as bombardas e munições, para reforço da fortaleza; os homens assustados com a tormenta e com os tiros dos turcos fugiram para terra, deixando os seus capitães sozinhos, abandonando os barcos com todas as armas aos inimigos, que as recolheram sem trabalho. Apenas Lopo de Sousa Coutinho, apesar de ferido, lograra trazer a sua barcaça com as armas e a pólvora, porque, prevendo a fuga dos seus homens, soltara os batéis, forçando-os assim a combater e a remar para se salvarem.
Para piorar a situação, os bombardeiros usaram pólvora velha, de espingarda, imprópria para a artilharia, rebentaram com dois basiliscos do baluarte da Barra matando o condestável com outros três homens e ferindo muitos com gravidade. Por fim, chegara a fome, por não virem os barcos com provisões e, em consequência da míngua de alimentos, agravada pelo cansaço, surgira a danada pestilência.
Apesar de tudo, com a ajuda de Deus, tinham conseguido algumas vitórias, uma das principais fora a destruição de uma máquina de guerra turca, alta como uma torre, montada sobre uma barcaça, feita em madeira e cheia de salitre, enxofre, rama seca, esterco, para ser lançada a arder contra o baluarte, que acometeriam com segurança, a coberto da fumarada. Durante a noite, o capitão-mor do mar Francisco Gouveia fora com Bartolomeu Fernandes e Bastião Dias em duas fustas pelo rio assaltá-la, apesar da chuva de pelouros da bateria inimiga, deram conta do recado, deitando fogo por vários lados à barcaça, lançando os mouros que a guardavam à água e abrasando a máquina diabólica.
Uma coragem em tudo contrária à de Francisco Pacheco, o capitão do baluarte da Vila dos Rumes, que se entregara aos turcos, quando com algum esforço poderia ter defendido por mais tempo a sua posição. Como fizera, aliás, com apenas catorze homens, no primeiro ataque de Coja Çofar com três mil homens de pé e quatro mil cavaleiros, às fortificações ainda por acabar. Defendera a entrada no baluarte, com tanto vigor que lhe dera tempo para ir em sua ajuda. Coja Çofar, ferido na mão por uma bala, retirara-se e, tendo aprendido a lição, passara a respeitar os seus adversários.
António da Silveira não se achava com direito de recriminar Pacheco, pois não pudera ir em seu socorro, como ele lhe tinha rogado na carta que António Faleiro trouxera à fortaleza, com licença dos rumes. Queixava-se de lhe faltar tudo para sua defesa e provisão, de tal modo que o próprio Coja Çofar se condoera deles, aconselhando-lhes a rendição, com a promessa de que, se abandonassem o baluarte e todas as suas armas, levando apenas o que tinham vestido, Soleimão Baxá os deixaria ir para a fortaleza.
Embora Lopo de Sousa Coutinho, em presença de outros oficiais, o instasse a não crer no que lhe dizia António Faleiro nem na carta do seu capitão, porque, dois dias antes, quando fora levar-lhes munições e oferecer ajuda, Francisco Pacheco, que agora jurava estar prestes a finar-se, não o deixara subir ao baluarte, dizendo-lhe, com voz muito sã, que estava bem provido de tudo e mandara-o embora. São mais de setenta portugueses, com muitos escravos, meu capitão! Quase tanta gente como a que aqui tendes ainda capaz de pegar em armas!, protestara, indignado. Alguém acrescentara: Entre os escravos mouros, diz-se que Pacheco foi duas ou três noites falar com os capitães turcos. A ser verdade, já concertou a rendição!.
Apesar destas más suspeitas, não pudera ordenar aos do baluarte que morressem, estando ele a salvo na fortaleza. Dissera-lhes que fizessem o que Deus lhes aconselhasse, mas que não se fiassem nas promessas faladas ou escritas daqueles inimigos, que eram falsos e fementidos, não guardando verdade a ninguém, nem sequer aos seus parentes.
Sentira (e ainda sente ao recordar a cena) o sangue subir-lhe ao rosto, de raiva e vergonha, quando vira ser hasteada no castelo do baluarte a bandeira turca, embora não pudesse saber, naquele momento, que quatrocentos janízaros, cobiçosos do saque, desrespeitando as tréguas, tinham subido por escadas de madeira e pelos escombros dos muros caídos, para tomarem posse do baluarte, derrubando logo as bandeiras portuguesas com a cruz de Cristo, para hastearem a vermelha com as insígnias do grão-turco.
Vira as lágrimas correrem pelos rostos dos defensores da fortaleza, homens e mulheres, que das trinchas dos muros observavam com ele o sinal da capitulação. Fora como se aquelas lágrimas, todavia invisíveis aos que se rendiam, houvessem dado rebate ao velho João Pires que, escandalizado de ver a bandeira lançada ao chão, ajudado por outros cinco homens, arreara a turca, lançando-a para fora do baluarte, e levantara de novo a portuguesa. Na fortaleza, embora não pudessem ver o que se passava, haviam saudado o subir do estandarte de Cristo com muitos gritos, aplausos e encorajamentos, que esmoreceram ao vê-lo de pronto substituído pelo do Crescente. Por três vezes se repetira aquele jogo, até que os portugueses foram mortos e os turcos, enraivecidos pelo confronto, cortaram-lhes as cabeças, lançando os corpos da torre para o mar.
No mesmo instante em que os corpos entraram na água, sendo maré cheia, por estranho acaso, o mar pareceu refrear o seu curso. Em vez de subir baixou, trazendo-os em contracorrente até à porta da couraça, na fortaleza, onde os mandara recolher e levar à igreja, em solene cortejo, como mártires. Por virem descabeçados, fizera-os expor em caixões, com guarda de honra, a fim de serem reconhecidos de amigos ou parentes por alguns sinais que tivessem. Toda a gente da fortaleza os viera ver, para lhes prestar homenagem.
Estava presente quando Bárbara Fernandes passara diante dos ataúdes. Ouvira o gemido, logo sufocado, que ela soltara ao ver o terceiro corpo. É o meu filho! Reconhecê-lo-ia entre mil!, bradara para os que estavam junto dela, A sua voz não tremera, antes soara vibrante como se o orgulho pela bravura do filho lhe sustivesse o ânimo, mitigando a dor da sua perda. Apesar de moço, Luís preferira morrer a render-se. António da Silveira acercara-se de Bárbara que se mantinha muito direita, sem lágrimas, mas de mãos enclavinhadas na borda do ataúde. Tomara-lhe a mão direita, enfarruscada e calejada pelo trabalho, beijando-lha com a mesma devoção e acatamento que faria à rainha de Portugal. A mulher soltara então o seu pranto e o capitão de Diu apertara-a nos braços, com a mesma ternura dos filhos que perdera.
Os seis mártires foram enterrados todos juntos na mesma sepultura diante do altar-mor. Naquela noite, Bárbara vira cinco estrelas a cintilar, como um clarão de fogo, sobre o baluarte em que o filho morrera com os seus companheiros de martírio, e dera rebate para que todos testemunhassem o sinal milagroso de que Deus os recebera no Paraíso.
61 Saudação.
62 Escorbuto.
63 Capacetes, cascos.
IX
Os homens são alcatruzes do mundo: pelos sãos vem a ordem e pelos quebrados se vai a virtude
(português)
Carta do Governador Nuno da Cunha ao Vizo-Rei D. Garcia de Noronha:
Senhor, ainda que [Vossa Senhoria] se faça prestes com tanta pressa quanto pode, vejo eu lançar mão de tantos navios, que serão causa de tardardes muito, e também de espalhardes a gente, artilharia e munições, donde ficareis mais fraco. E parece-me a mi, que se poderão escolher entre todas estas velas oitenta mui boas, que para cinco mil homens, que V. S. poderá levar, esta Armada bastava, porque iria ela mui cheia de gente e mui bem aparelhada para tudo o que cumprisse. E eu sei, segundo as novas dos que vêem a vossa Armada, de quão mal aparelhada ela está.
Se V. S. tão cedo não pode ir, por alguns negócios ou impedimentos que terá, pode tomar quinze ou vinte fustas e catures, com um homem principal que vá neles por Capitão e capitães para os outros navios, entre homens que saibam da guerra e valentes cavaleiros que aqui há, com muitas panelas de pólvora e espingardas, não duvido eu que, indo estes navios, que podem levar trezentos ou quatrocentos homens, que dando nas galés [dos Rumes] de noite ou antemanhã, que lhes não fiquem meia dúzia nas mãos, tomadas ou queimadas. E assi podem ir em companhia destes, três ou quatro fustas grandes de chatins64, carregadas de biscouto e pólvora, para que em estes dando, na volta possam estas passar, e entrar em Diu, e dar-lhes o que levarem. Esta gente e Armada não desfaz na vossa, porque lá a tem diante e estão prestes. Este, Senhor, é o meu parecer, que V. S. quis que lhe desse por escrito.
Goa, aos quinze dias de Outubro, do ano de mil quinhentos e trinta e oito
Tal como António da Silveira previra, rendido o baluarte, os rumes faltaram à palavra dada. Em vez de deixarem ir os portugueses em liberdade para a fortaleza, levaram-nos em almadias, desarmados e debaixo de escolta, a Soleimão Baxá que os dera aos seus capitães para escravos remeiros das galés. O capado não lhe perdoara a afronta da sua carta e vingara-se em Francisco Pacheco e nos sessenta cativos, cortando-lhes os narizes e as orelhas que mandou salgar para enviar ao grão-turco, como prova do seu bom desempenho naquela conquista. Assim lho fizera saber por mensageiro, para atemorizar os sitiados.
A partir daí fora o jogo do rato e do gato. Se os turcos davam bateria a um baluarte, ele mandava fazer outro por trás do antigo, de modo que, quando este ruía, já o novo estava de pé a impedir-lhes a entrada; os mouros de Coja Çofar vinham picar os muros ou cavar minas por baixo da fortaleza, Lopo de Sousa Coutinho ou Manuel de Vasconcelos, mal os sentiam, acudiam com os seus homens à cava, com contraminas, a rebatê-los com piques e espadas; se os rumes vinham de noite com escadas para escalar as fortificações, eram recebidos com panelas de pólvora e óleo a arder que os abrasavam.
Como os portugueses matavam muitos dos que vinham picar os muros, os turcos fizeram umas grandes balas de algodão – fardos forrados de couro – e uns cavalos de madeira com rodas, igualmente acobertados de couro, com seteiras dos lados, para se acercarem da cava da fortaleza e do baluarte de S. Tomé, a fim de derrubarem os muros. Iam assim tão protegidos que os sitiados nem os viam, no entanto, da fortaleza lançavam-lhes lenha a arder, ola acesa com manteiga e outras invenções de fogo e pólvora, que queimavam muitos cavalos sem, todavia, atingirem as grandes balas de couro que estavam junto do fosso da muralha, a servir-lhes de tranqueiras onde se recolhiam.
António da Silveira mandou então Gaspar de Sousa esconder-se na cava com oitenta homens durante a noite, para de manhã as destruírem com materiais que levavam. O que ele fez, pondo-lhes fogo e matando mais de cinquenta inimigos, antes de ser morto com outros cinco homens, durante a retirada, apesar da protecção dos que faziam fogo da fortaleza. Sousa mandara recolher os seus homens e voltara para trás a buscar três soldados gentios que se tinham atrasado. Rodeado por uma vaga de inimigos, recusara-se a fugir, fazendo grande destruição nos que o atacavam, até lhe jarretearem as pernas e cair morto, arrancando lágrimas de dor aos que na fortaleza tentavam ajudá-lo com tiros de mosquete e besta.
O capitão sentia-se responsável por cada morte, embora desse o exemplo, pondo-se sempre nos lugares de maior perigo ou de vela, dormindo apenas por breves intervalos de tempo, quando a artilharia se calava. Vira morrer demasiada gente de grande valor, como Tristão Gomes, o bombardeiro que fugira da armada do capado para lhe vir dar aviso da sua vinda, acabando por tombar numa tranqueira inimiga. Os feridos e queimados não cessavam de crescer, jazendo pelo chão entre os escombros, sendo os mais graves recolhidos na única casa que se mantinha de pé, a do físico Fernão Lourenço e de sua esposa Ana Fernandes que lhe servia de enfermeira.
Era a trindade negra da guerra, fome e doença, em todo o seu rigor! A fortaleza parecia uma velha ruína, com os muros derrubados por todas as partes, os baluartes juncados de peças de artilharia rebentadas. Em finais de Outubro, acontecera um pequeno milagre, com a chegada de quatro catures com vinte e oito homens, enviados pelo vizo-rei, os quais, mostrando-se muito honrados em partilharem da sua sorte, por eles serem um exemplo de coragem para todas as fortalezas da Índia, deram aos sitiados um grande alento, ainda que a vinda de D. Garcia com a armada continuasse a ser uma incógnita ou o milagre maior no qual já ninguém acreditava.
Com as provisões que lhes trouxeram os recém-chegados, as mulheres ganharam nova vida, a amassar pão, a fazer rosquilhas, cozinhando até arroz com manteiga ou jagra, o açúcar mascavado de palmeira. Levavam a comida em cestas e panelas ao capitão, que com elas percorria as estâncias, repartindo-a com a sua própria mão, por todos os homens, que comiam no mesmo lugar que defendiam, por então não ser tempo de se sentarem à mesa em grandes comezainas, mas de dar a comer aos rumes o pão que o diabo amassou.
Os dois assaltos de Mahamed Khan com a sua armada ao baluarte do mar saldaram-se por duas vergonhosas derrotas e morte do temível capitão com centenas dos seus homens e os turcos não podiam esquecer a surriada com que os portugueses haviam saudado a sua retirada, escalavrados das pedras e mascavados do fogo das panelas de pólvora. Vendo o baluarte que fora defendido por Gaspar de Sousa, arrasado até ao entulho, todo desabrigado, tendo por defesa apenas uma parede que dava pelos peitos dos homens que se acobertavam por trás dele, os turcos saíram das estâncias e acometeram-no por dois lados com grande determinação de o conquistar para entrar na fortaleza; mas retiraram-se com pesadas baixas porque a resistência dos sitiados não abrandou durante o resto do dia até ao dia seguinte, matando e ferindo muitos.
Isabel da Veiga e Ana Fernandes, arrimadas ao seu bordão, andavam pelo baluarte no meio dos homens a dar-lhes ânimo, sem um estremecimento sob a chuva de pelouros e flechas que lhes assobiavam aos ouvidos.
– Ah, filhos, aqui tendes quem vos há-de dar a vitória! – gritava a velha senhora erguendo no ar um crucifixo. – Pelejai, cavaleiros de Cristo, esforçados capitães e soldados da Fé, que d’Ele vos há-de vir todo o socorro!
– Ponde os olhos nesta Cruz – secundava Isabel, com idêntico fervor –, que nela está a salvação.
Em trajos de homem, Catarina Moreira brandia o chuço nas mãos e chamava os três soldados que, exaustos, se tinham sentado no chão, apoiados contra o muro, de olhos cerrados.
– A eles! A eles, senhores, que são infiéis e vós sereis vence.
Virara-se para trás e o tiro de arcabuz que a apanhou pelas costas, cortou-lhe a palavra e derrubou-a. Os três soldados gritaram em uníssono, erguendo-se para a socorrer, mas já ela se punha em pé, ajudada por Isabel da Veiga:
– Não é nada – sossegou-a e foi-se curar.
Envergonhados, os soldados juntaram-se aos companheiros que se preparavam para enfrentar a morte. Tal como aquela mulher que, de espada à cinta e capacete na cabeça, viera pôr-se ao muro, no mesmo lugar deixado por Catarina a carregar o mosquete com gestos preciosos. Conhecida apenas como A Marquesa, era ainda galante e de bom parecer, apesar de ter passado dos trinta anos, os homens achavam-na assaz tentadora, talvez devido ao seu passado turbulento, misterioso. Ninguém ignorava que ela era a viúva de João Santiago, o língua renegado morto com o sultão Bahadur, o que não abonara em seu favor.
– Senhores, agora vereis quão pouco prestam estes perros, pois eu vivi entre eles e aqui me vedes a esperá-los sem medo.
Lançava um desafio aos homens, zombando da sua passada condição de escrava ou concubina, e os que a ouviram aprumaram-se, agastados, aprestando as armas. Muitos tinham tentado conquistar-lhe as boas graças, mas a todos rejeitara de modo tão cru que nenhum se atrevera a insistir. Talvez por isso, as mulheres de Diu que, de início, tinham mexericado sobre o seu passado, tratando-a com desprezo, ou afastando-se dela, agora pareciam estimá-la e até admirá-la. A sua pasmosa história correra da fortaleza à cidade dos portugueses, embora nunca confirmada pela própria.
Fora feita cativa na flor da idade por mouros, no ano de mil quinhentos e vinte e três, na galé de Bastião de Noronha, oferecida a Carcandacão, então rei de Diu. Falara sempre castelhano, escondendo a sua condição de portuguesa e nunca revelara o nome da família. Um escravo dissera que, na galé, ouvira nomearem-na por Marquesa, e o título passou a nome, pois lhe assentava como uma luva, dado o ânimo altivo, intrépido e rebelde com que enfrentava a adversidade. El-rei de Cambaia guardou-a no seu harém durante cinco anos, sem que ela renegasse a sua fé, acabando por dá-la em casamento ao português Estevão Dias Brigas, piloto e capitão de quarenta e oito corsários franceses, cujo navio arribara às costas de Diu no ano de vinte e oito. A fim de salvarem as vidas todos se tinham convertido à Lei de Mafamede, engajando-se na armada real. Agradado da valentia e engenho de Brigas, Carcandacão fizera-o capitão ofertando-lhe A Marquesa como prémio. Ela aceitara o casamento, mas recusara teimosamente fazer-se moura.
Pouco tempo estivera casada, porque o marido morrera durante as guerras de sucessão no Guzerate, e ela fora feita novamente cativa e enviada para o harém de Bahadur, o príncipe vencedor. Depois da conquista de Mandu, no ano de trinta e três, em sinal de regozijo, dera-lhe alforria junto com outras escravas e concubinas, concedendo também aos portugueses permissão para construírem a fortaleza em Diu. Fora então que o governador Nuno da Cunha mandara Diogo de Mesquita com Simão Ferreira a Diu, para tratarem do seu encontro com Bahadur, os quais levavam como língua João de Santiago, o aventureiro mais astuto, fascinante, dissimulado e sem escrúpulos que alguma vez o Diabo pôs no mundo. Bahadur dera-lhe casas, rendas de vinte mil pardaus e oferecera-lhe por esposa a cobiçada Marquesa.
Recordava-o sempre com um misto de asco e de anseio, que a faziam estremecer. Sendo uma fraca figura, cujo rosto, marcado pelo mal de Lázaro, repugnava à primeira vista, João de Santiago, com os seus modos insinuantes, falinhas mansas e perfeito domínio das línguas da terra, caíra logo nas graças de Bahadur, como aliás acontecera com outros reis gentios ou mouros, com os capitães e governadores portugueses. Tratara-a como uma rainha ou deusa e ela estava-lhe grata por se ver livre do harém.
De certo modo, A Marquesa identificava-se com a sua luta para sobreviver, se bem que não estivesse pronta, como ele, a fazê-lo a qualquer preço. Natural do norte de África, Santiago fora cativado em menino, durante uma razia feita por portugueses à sua aldeia, transportado para Lisboa onde, depois de baptizado, fora vendido como escravo a um calafate que o levara para Goa, ensinando-lhe o seu mester. O amo, ao morrer, deixara-o forro e com algum dinheiro para dar começo à sua vida.
O moço que, além do português e do árabe, aprendera a falar as línguas guzarates e malabares, não tivera dificuldade em fazer-se negociante de pedras preciosas em Canará. Fingindo-se adorador de Shiva, tornara-se valido do rajá, até o poder lhe subir à cabeça e fazer tamanhos desmandos que el-rei o condenara à morte. Fugira então para Ormuz, onde, tendo-se mostrado como mouro zeloso na sua Lei, voltara a ser bafejado pela Fortuna, mas repetira os mesmos erros, caindo de novo em desgraça. Fora salvo da morte, in extremis, pelo capitão Diogo de Melo que, como ele se mostrara sempre o melhor dos cristãos, o ajudara a fugir para Goa.
Em Diu começara nova ascensão ao serviço do governador. Para ela o aceitar por esposo, Santiago prometera-lhe que desta vez não faria nada que arrostasse com o desagrado e o castigo do sultão ou dos portugueses. Não cumprira a promessa, porque no ano anterior, durante a escaramuça em que o Bahadur fora morto, vendo-se sem o seu protector mouro, procurara acolher-se à fortaleza para se salvar como cristão, mas os portugueses, que o desprezavam por renegado e traidor, mataram-no à pedrada.
A Marquesa, de novo viúva, fora resgatada nos paços do sultão pelo governador Nuno da Cunha que, ao tomar conhecimento dos avisos que ela dera secretamente a Manuel de Sousa sobre a traição que Bahadur preparava, lhe mandara entregar todos os bens e fazenda do marido, trazendo-a com muita honra para a fortaleza, a fim de a embarcar para Goa, mercê que ela recusara.
Ali gozava de uma liberdade que não teria na capital da Índia, onde voltaria a sentir o desprezo dos reinóis, que não deixariam de ver nela uma barregã, concubina de mouros e gentios. As donas e donzelas de qualidade nunca a receberiam em suas casas (onde viviam tão encerradas e cativas como quaisquer mouras de um serralho), pois todas jurariam que antes haveriam de morrer pelas suas próprias mãos, a sofrerem a sua horrenda sorte. Ela não o fizera, preferindo a vida sem honra ao martírio, e não se arrependera da escolha.
Enquanto escrava, não rendera o seu espírito e essa ousada rebeldia conquistara-lhe tanto a admiração como o favor dos homens de quem fora cativa, que lhe pediam conselho sobre os negócios dos franges; como esposa do capitão corsário ou do língua renegado, fora tão livre como qualquer homem. Quando a horda dos rumes e mouros entrasse na fortaleza, não se deixaria apanhar viva, desta vez escolheria morrer com o gosto na boca daquela liberdade sentida em todo o seu corpo, como o mais belo dos cânticos. Apoiou a arma carregada ao muro e ficou à espera.
Era impossível resistir ao novo assalto que os turcos preparavam, tendo apenas a separá-los aquela frágil parede. Então, alguém bradou alto: Trazei lenha! Muita lenha. Fazei prestes!. Acudiram logo Isabel da Veiga e Ana Fernandes com a sua hoste de moças e matronas, como formigas diligentes, transportando à cabeça ou nas mãos cestas cheias de lenha, palha e outros materiais inflamáveis. Descarregados os madeiros sobre a parede que era muito larga, atearam um fogo intenso, cujas labaredas fizeram fugir os turcos. Remédio milagroso, que aplicaram durante doze dias, alimentando a fogueira sem cessar, de modo que nunca o inimigo logrou acercar-se de novo a esta passagem, muito menos atravessá-la.
António da Silveira mandara que lhe apanhassem dois turcos com vida para se informar do estado do exército e das intenções do capado. Soube por eles que os seus mortos passavam de oitocentos, os feridos eram mais de mil e que Soleimão Baxá queria fazer um último assalto com toda a sua gente à fortaleza a fim de a tomar antes da vinda da armada do vizo-rei que todos temiam. Satisfeito, o capitão mandara meter os cativos numa casa com guardas, dando ordens para que, nessa noite, os lançassem ao mar.
A notícia de que o baxá jurara não levantar o cerco enquanto não tomasse a fortaleza e matasse toda a gente correu célere entre os sitiados, chegando aos ouvidos das mulheres que andavam a trabalhar perto da casa onde se guardavam os prisioneiros. Maria Pita, muito arrenegada, chegando-se à porta, perguntou a um soldado que vinha a sair:
– São lá, os rumes? Que morte lhes vai dar o capitão?
O homem, sentindo-lhe a raiva na voz, disse por zombaria:
– Estão lá dentro, dona, mas não vão morrer, porque o capitão mandou-os soltar. São livres de volver ao seu arraial, quando lhes aprouver.
– Era o que mais faltava! – bradou Maria Pita, de olhos acesos de fúria. Empurrando o soldado, irrompeu pela casa dentro, como doida, estacando diante de Francisco Gouveia que, por ter lutado no mais aceso do baluarte, sofrera queimaduras no rosto, nas mãos, nos pés e em quase todo o corpo, estava tão negro de pólvora e desfigurado que ela não o reconheceu. Sem se comover com o estado lastimoso do infeliz, berrou-lhe com ódio: – Ah! Perro inimigo! Crês tu que vais sair vivo daqui? Juro-te que hás-de morrer às minhas mãos, junto com o outro cão infiel.
Num rompante, ergueu a gamela que trazia nas mãos para lhe dar com ela na cabeça. Francisco, apesar de muito fraco, conseguiu evitar o golpe, dizendo-lhe aflito:
– Os rumes estão na casa de dentro, dona, sossegai!
– Ah, cão, que me queres enganar! Olhai como o fideputa espevita o português! De nada te há-de valer a esperteza, vilão, pois te hei-de fender os cornos com esta gamela.
Ergueu de novo a bacia e só não a quebrou na cabeça do desgraçado que já não tinha forças para a afastar, porque os guardas dos turcos, acudindo à berraria, lha tiraram das mãos.
– Olhai que matais a Francisco Gouveia, dona! – disseram-lhe, a rir, vendo a sua confusão.
Sem, todavia, abrandar a ira, a mulher saiu porta fora chamando aos gritos pelas companheiras para irem falar com António da Silveira. Antes que o capitão pudesse perguntar a razão de tal ajuntamento, Maria Pita lançou-lhe o desafio, fremente de indignação:
– Como mandais vós, Senhor, dar vida a uns inimigos que tanto têm trabalhado por nos beber o sangue? Sabei que eu e estas minhas companheiras, que temos tido no cerco o mesmo quinhão de trabalho e perigo que os homens, o não consentimos, pois, antes que os liberteis, os haveremos de espedaçar com as nossas mãos. Por isso, senhor capitão, mandai que nos entreguem os rumes.
António da Silveira ficara por momentos mudo de espanto, acabando por soltar uma grande gargalhada, como há muito não tinha memória. Até as mulheres estavam do seu lado, prontas a lutar contra os turcos e a tirar-lhes a vida se necessário fosse! Agradeceu-lhes o cuidado, aquietando-as com a promessa de que os inimigos seriam justiçados65.
Dentro do galeão, de onde nunca saíra, Soleimão Baxá raivara de ver como quatro barcos tinham furado o cerco da sua armada e a sua ira virara-se contra Coja Çofar que o aconselhara a conquistar Diu, com a promessa de que a fortaleza lhe cairia nas mãos com um ou dois combates. Afinal, na maldita empresa perdera muitíssima gente, quebrando-lhe a fúria da armada, antes de se poder encontrar com o vizo-rei português, cuja vinda não tardaria e a quem ele estava a dar tempo para se fazer mais forte. Começava a sentir o desgaste dos seus homens, mas nunca pensara que um punhado de franges pudesse resistir por tanto tempo e matar-lhe tanta gente. Esta campanha era como a peregrinação a Meca: quem disser que é fácil, blasfema; quem disser que é trabalhosa, blasfema.
Se não conquistasse Diu, teria grande dificuldade em se justificar ante o sultão Kanuni Soleimão, o Legislador, por não ter cumprido o seu regimento, cujas ordens eram quebrar a armada dos franges, as suas forças do mar. Por outro lado, as provisões começavam a escassear, porque as gentes das terras em redor lhes haviam ganhado ódio, pelas manhas e abusos que os seus homens cometiam, roubando-os ou tomando-lhes as mulheres, de modo que já não lhes traziam mantimentos, preferindo dá-los aos portugueses.
A vinda do vizo-rei com uma fortíssima armada de cento e cinquenta velas com seis mil homens era já uma certeza, vira-a na carta enviada ao cão do Coja Çofar por um dos seus espiões em Baçaim, mas neste momento, já não estava preparado para enfrentá-lo. Por isso, nessa manhã, iria tentar a conquista da fortaleza, num último assalto com toda a sua gente. Se Allah, por alguma desconhecida razão, não lhe permitisse vencer, abandonaria o cerco e regressaria ao Cairo.
Precisava de dar largas à sua fúria, satisfazer a sua vingança e dar um lição aos guzarates, embora não pudesse cortar a cabeça a Coja Çofar ou a Alucão, como desejava, porque, se o fizesse, ele e os seus homens seriam massacrados por um exército cinco vezes superior ao seu, como desforra pela morte dos seus oficiais. Na falta deles mandou descabeçar António Faleiro, que não soubera dar-lhe informações precisas sobre a vinda do vizo-rei, nem sobre a gente ou o armamento que havia na fortaleza.
Coja Çofar e Alucão ficaram aliviados por verem a ira do capado cair sobre a cabeça do português e não nas suas; o seu enfadamento e os sinais de querer abandonar o cerco vinham ao encontro dos desejos da corte de Ahmadabad. A rainha e os regentes do rei-menino de Cambaia, depois de conhecerem a cobiça de Soleimão Baxá, a brutalidade do seu exército e o modo arrogante como desprezava ou desacatava Alucão e os seus oficiais, temiam que as intenções do turco não fossem tanto de os auxiliar contra os portugueses, mas de subjugar o reino e todo o Guzerate. Ansiavam por se verem livres da presença dos indesejáveis aliados, preferindo até os portugueses como o menor dos dois males; se não conseguissem conquistar Diu para el-rei de Cambaia, concertariam a paz com o vizo-rei, porque os franges se contentavam com as fortalezas nas ilhas e portos, sem desejos de conquista da terra firme.
Çofar forjara aquela carta para assustar Soleimão Baxá e lograra o seu intento, porque o capado começara a preparar a sua retirada. Deste modo, a fortaleza que estava quase totalmente destruída, seria conquistada pelos seus homens, sem recurso ao exército de Alucão, um feito que lhe haveria de trazer de novo o favor d’el-rei de Cambaia e da rainha sua avó, que ele havia perdido quando se aliara aos portugueses, depois da morte de Bahadur, aceitando o governo da cidade de Diu.
As galés a remos da armada do capado passaram além do baluarte do mar e foram surgir com as proas viradas para terra, no lugar onde costumavam fazer aguada. A pequena frota de António da Silva, que aguardava uma ocasião de furar o cerco e entrar em Diu, descarregou as suas baterias sobre os primeiros navios. O alarme soou na fortaleza e os sitiados, como não podiam saber de quem eram os tiros, creram que os turcos se preparavam para desembarcar toda a sua gente, a fim de os virem acometer num decisivo combate. António da Silveira sentiu o desespero dos seus homens e, chegando-se ao baluarte onde havia maior ajuntamento, falou-lhes com alegria:
– Senhores, espanta-me ver-vos tristes, quando Deus nos mostra a Sua estima, porque, sendo nós tão poucos, numa fortaleza com tantas portas abertas, as temos defendido contra uma multidão de inimigos que a cada assalto vieram com forças dobradas e nós levámos cada vez menos tempo a malferi-los e desbaratá-los! Com que coração, pois, nos virão ora acometer? Se Nosso Senhor nos quiser levar para Si, morreremos mártires por sua santa fé, ganhando fama por combatermos pela nossa Lei e o nosso rei. Rogo-vos que não mostreis tristeza, mas alegria, cantando, gritando, apupando os nossos inimigos, para que cuidem no mal que os espera.
O capitão parecia inspirado por uma força misteriosa que não o deixava desanimar, nem mesmo nos momentos de maior perigo ou nas situações mais desesperadas, em que era sempre o primeiro a enfrentar os adversários, acorrendo a todos os combates, sem um momento de repouso. Foi com ânimo novo que os homens se prepararam para a batalha final e para a morte, pois não seria possível resistir ao poder dos rumes e dos mouros.
Envergaram os melhores trajos que tinham, ouviram missa na igreja em ruínas, confessaram-se, comungaram e fizeram voto de castidade. As mulheres vestiram as couraças e os capacetes dos soldados mortos, armaram-se de lanças e piques, indo juntar-se aos homens nos postos de batalha. António da Silveira mandou pôr muitas bandeiras por todas as estâncias e fez tanger uma grande matinada de trombetas, pífaros e tambores, como em dia de vitória.
Quando o eclipse lançou o seu negrume sobre a terra e o mar, rumes e mouros estremeceram de pavor, lembrando-se de uma antiga profecia: a fortaleza de Diu parecia erguer-se das suas ruínas, avantajando-se como um castelo de sombras pronto a engolir os que ousavam acometê-la.
64 Mercadores.
65 Diogo de Couto, Década Quinta da Ásia.
GOA
Carta de Afonso d’Albuquerque a el-Rei D. Manuel:
Na tomada de Goa e desbarato de suas estâncias e entrada da fortaleza Nosso Senhor fez muito por nós, porque quis que acabássemos um feito tão grande e melhor do que nós poderíamos pedir; ali faleceram passante de trezentos turcos
Depois queimei a cidade e trouxe tudo à espada, e por quatro dias continuadamente a vossa gente fez sangue neles; por onde quer que os podíamos achar, não se dava vida a nenhum mouro, e enchiam as mesquitas deles e punham-lhes fogo: aos lavradores da terra e brâmanes mandei que não matassem. Achámos por conta serem mortas seis mil almas, mouros e mouras, e dos seus peões archeiros, muitos deles faleceram: foi, Senhor, um feito mui grande, bem pelejado e bem acabado, e afora ser Goa uma tão grande cousa e tão principal, ainda se cá não tomou vingança da traição e maldade que os mouros fizessem a Vossa Alteza e a vossas gentes, senão este, o qual soará em toda a parte, e com este temor e espanto fará vir grandes cousas à vossa obediência, sem as conquistardes.
Alguns gentios, homens principais, a que os turcos têm tomado suas terras, sabendo a destruição de Goa, desceram da serra onde estão recolhidos, e vieram em minha ajuda e tomaram os passos e caminhos, e todos os mouros que escaparam de Goa trouxeram à espada, e não deram vida a nenhuma criatura. Roubaram grande haver, porque tomaram todo o dinheiro do pagamento dos soldos que escapou de Goa; nenhuma sepultura nem edifício de mouros não deixo em pé; os que agora tomo vivos mando-os assar: tomaram aqui um arrenegado, e mandei-o queimar.
Goa aos 22 dias de Dezembro de 1510
X
Três coisas são inconstantes: a mulher, o vento e a riqueza
(hindu)
Artigo XXXV, que fala da gente deste reino e de seu sofrimento.
As gentes deste reino de Goa por nenhum tormento não confessarão cousa que façam. Sofrem grandemente e soem ser atormentados de diversos tormentos. Antes morrem que confessar o que determinam calar. E as mulheres de Goa são generosas no vestir, as que dançam e volteiam o fazem com melhor maneira que todalas destas partes. E costuma-se neste reino toda mulher de gentio queimar-se por morte de seu marido. Entre si têm todos isto em preço; os parentes dela ficam desonrados quando se não querem queimar. As que de má mente recebem o sacrifício ou se não querem queimar ficam públicas fornicárias e ganham para as despesas e fábricas dos templos donde são freguesas, no qual ofício morrem. Estes gentios têm uma só mulher por ordenança, e muitos brâmanes prometem castidade e sustêm-na sempre. Nos outros portos de Goa se carrega muito arroz, sal, bétele, areca. E todolos rios têm povoações arredadas d’água, com temor, e os que desta são seguros navegam e os que não, perdem-se e estão da mão do Sabaio, com capitães que recolhem as rendas da terra. E deles põem gente de guarnição de cavalo, porque têm continuamente guerra com as terras de Narsinga66.
(Suma Oriental, de Tomé Pires)
Foi no dia vinte e cinco de Novembro, do ano de mil quinhentos e dez, dia de Santa Catarina, que Afonso de Albuquerque, com a ajuda do corsário Timoja, tomou Goa pela segunda vez às forças de Hidalcão. Cobiçara-a desde o momento em que a vira, por ser bem construída, fortificada e se achar em lugar privilegiado das derrotas comerciais. As muralhas antigas não são muito altas, mas estão rodeadas por uma profunda cava e a ilha tem outros lugares fortes, como um castelo em Bardês, junto da embocadura do rio, que a protege dos inimigos de terra firme.
A cidade e os seus populosos arrabaldes ocupam a ilha de Goa, separada de terra firme apenas por um braço de mar; o rio Mandovi, com mais de três léguas de extensão, entra do lado norte da cidade, contorna a ilha, em forma de meia-lua, indo desaguar no braço de mar a sul. Na posse dos portugueses, depressa substituiu Cochim, enquanto entreposto de todas as mercadorias e produtos do Oriente, tornando-se numa grandiosa metrópole, capital do Senhorio da Índia portuguesa, residência dos vizo-reis, governadores, arcebispos e conselheiros, assento da chancelaria régia, o coração do seu império.
Dos arrabaldes acede-se à cidade pela porta dupla da muralha, chamada dos Bacais ou negociantes de cereais, no lugar da igreja de Nossa Senhora da Serra; outro dos acessos principais é o portão que leva à grandiosa praça com o seu tanque de cantaria e ao palácio do Sabaio Adil Sh-ah, com os seus magníficos salões e largos alpendres com colunas de madeira lavrada. Fernão gosta desta Goa Dourada, de ruas alinhadas com graciosas casas ao modo português – de um só sobrado por causa do calor, com jardins e pomares nas traseiras –, edifícios majestosos, formosas praças, belas tapadas de palmares, cobrindo várias colinas e vales. O porto é excelente, com o mercado, os edifícios da alfândega e do arsenal a darem os nomes às duas principais portas da muralha. É aqui que ele mais gosta de estar, a ver o movimento dos barcos e das gentes que chegam ou partem à aventura.
A cidade é um caldo de desvairadas raças, que lhe trazem à memória imagens de Lisboa, dos seus passeios pelo Rossio, Terreiro do Paço ou Ribeira, em que se cruzava com bandos de mercadores, séquitos de embaixadores e visitantes de muitos mundos. Aqui, são os portugueses a gente mais estranha entre gentios oriundos de vários reinos da Índia, assim como negros de remotos lugares de África, mouros, judeus, arménios, chins, jaus e muitos outros de que não saberia dizer a proveniência, quanto mais a religião, a seita ou o credo que professam aqui com toda a liberdade.
Hoje a azáfama parece maior, com magotes de povo a confluirem para o rio e, sem todavia lhe entender a causa, sente uma agitação no ar, como em ocasião de festa. Apesar da sua curiosidade, teme meter-se em grandes ajuntamentos, pois saíra há dois dias do hospital e, embora estivesse curado dos ferimentos que o tinham deixado às portas da morte, sofria ainda de vagados e fraqueza no corpo.
Ao cabo de mais de ano e meio no Oriente – e de algumas viagens em que sofrera perigos terríveis, duros trabalhos, ferimentos graves e até a escravidão –, achava-se pior do que quando chegara, feito um desgraçado sem eira nem beira, de bolsa vazia, igual a tantos outros enjeitados da sorte que enxameavam a Índia, vivendo da caridade alheia. Até parecia uma maldição, como se os Fados gostassem de se divertir à sua custa, alimentando-lhe os sonhos e a ambição com miragens de fortuna, para de seguida lhe encherem o caminho de obstáculos, empurrando-o para novos perigos ou desgraças. Tão cedo não poderia chamar para junto de si os irmãos Álvaro e António, conforme lhes prometera, a fim de criarem um negócio de família.
Brados e correrias do rapazio que enxameia o porto fazem-no virar a cabeça para ver a causa do reboliço. É o cortejo de um criminoso que vai ser justiçado e Fernão estranha que o castigo lhe seja dado no rio em vez de no pelourinho da cidade, a menos que a pena seja de morte por afogamento ou estraçalhado pelos crocodilos que infestam o rio.
O meirinho, seguido pelo escrivão, traz uma escolta de oito homens de chuças e quatro de espadas, como se receasse algum tumulto. Avançam, abrindo alas por entre a multidão que os rodeia, movida pela curiosidade, apertando-os e dificultando-lhes o passo, por isso, Fernão, de onde está, não consegue ver o criminoso. Fecha o cortejo uma pequena carroça coberta, seguida por um magote de mulheres gentias, umas trajadas à portuguesa, outras ao modo das suas terras, servas, escravas, mas também vendedeiras, aguadeiras e obreiras de vários mesteres. Os mariolas67 e o rapazio do porto juntam-se-lhes, numa grande surriada ao preso.
– Caso novo, nunca acontecido depois que se descobriu a Índia!
– Merece castigo exemplar, para meter medo a quem quiser fazer o mesmo. Não ides ver?
São dois portugueses, oficiais do porto e Fernão reconhece o que o interpela, por já o ter visto no hospital a tratar-se do mal de Vénus.
– Sim, se permitis que vos acompanhe – diz, levantando-se do caixote para os seguir. – O condenado é português? Que crime cometeu?
O cortejo acerca-se, fazendo afastar a multidão para ambos os lados, no movimento da onda que faz um navio impelido pelo vento. Os gritos e apupos impedem-no de ouvir a resposta do seu interlocutor, por isso solta uma exclamação de espanto ao ver que o criminoso é uma mulher gentia, de idade madura, conquanto formosa e de bom corpo. Trajada ao modo de Portugal, avança entre dois guardas, com algum esforço devido ao colar e corrente de ferro que lhe tolhe os passos, sem todavia parecer assustada nem arrependida, antes vai de cabeça erguida com um sorriso nos lábios, desafiador, sem se desviar das pedras nem das pancadas com que os mais atrevidos, furando por entre os guardas, logram atingi-la.
– Puta assassina, vais morrer como perra infiel que és.
– À fogueira! Queimai a renegada!
– Adúltera. Barregã do demo.
– Em Goa, os gentios são julgados e condenados pela nossa justiça e não pela do seu povo? – estranha Fernão, ofegante, estugando o passo para acompanhar os dois homens que se juntam à cauda da procissão que engrossa, à medida que se aproximam do cais. Insiste: – Sabeis que crime cometeu a mulher?
Sabem e contam-lhe a história.
A mulher era uma canarim cristã, casada com um português estabelecido em Goa. Contudo, nem o baptismo nem os ensinamentos da Santa Madre Igreja têm poder para contrariar a natureza das filhas destas terras, que são luxuriosas, salazes em extremo, devido à quentura do clima, aos comeres adubados com muitas especiarias quentes como as pimentas, além do bétele que mascam continuamente com uma calda de areca e cal, que lhes faz a língua vermelha e os dentes pretos, mas lhes acrescenta de sobremaneira a volúpia.
Portanto, muitas destas casadas cristãs continuam a praticar os costumes gentios, embora em segredo, mantendo além do marido um ou dois amantes para se satisfazerem. Nem a certeza de que, se cometerem adultério, os maridos as podem matar impunemente, para vingarem a desonra, lhes causa temor ou as tolhe de o fazerem, pois juram que não há melhor, nem mais honrada morte do que morrer sacrificada ao amor. Assim pensava esta canarim, cuja luxúria a levou ao crime, causando a sua perda.
Na Relação nem fora preciso dar-lhe tratos para lhe arrancar a confissão, respondera de bom grado às perguntas, contando todo o malefício que urdira, com tamanha desfaçatez e sem-remorso que escandalizara os inquiridores do processo. O marido não a tratava mal, afirmara, disso não havia que reclamar, mas há muito que fornicava as escravas, o que de início não lhe causara desgosto, por ser a conversação com mais de um parceiro coisa natural e sã, desde que continuasse a folgar e dormir com a esposa, porém, ele deixara de fazer caso dela.
À mingua de carinho, sendo de natureza ardente, buscara consolação no moço canarim que prestava serviço em sua casa. Temendo que as escravas a denunciassem e o marido matasse o amante tão caro ao seu coração (a própria morte não lhe metia medo, o perigo tornava-a ainda mais ardente, fazendo do adultério uma paixão mais nobre), decidira livrar-se do esposo. Acrescentara, para maior escândalo do juiz, que as leis portuguesas foram uma das razões que a levaram ao crime, por serem muito mais benéficas para as mulheres viúvas do que as leis gentias, pois não só lhes permitiam herdar os bens do marido como as deixavam livres para se casarem de novo, em vez de serem queimadas vivas juntamente com o morto.
Induzira o esposo a ir com o canarim, à terra firme, cortar lenha para vender. Dera instruções ao amante de como haveria de matar o amo, no mato, para que o corpo não fosse encontrado, prometendo casar com ele se lhe trouxesse uma prova da sua morte. Sem suspeitar da cilada, o marido fora sozinho com ele para os bosques, onde trabalhara toda a manhã no corte das árvores e, depois de comerem, deitara-se numa manta a fazer a sesta. Quando o vira ferrado no sono, o criado desferira-lhe um grande golpe na cabeça com o machado e vários no corpo, matando-o. Seguindo as instruções que a amante lhe dera, despira-o e queimara as roupas na fogueira em que fizera a comida, para que não o reconhecessem, guardando apenas a camisa ensanguentada como prova do seu feito.
O canarim confessara ao juiz que, quando a mulher vira a camisa, se alegrara muito com a certeza da morte do esposo e, depois de a queimar, fizera uma ceia ao modo de festa, levara-o para o natatório onde o lavara e perfumara, como se fora a primeira noite do seu casamento. Cearam ambos, folgando com muitos prazeres, em que ela era muito imaginosa; ardente de paixão, fizera-o repetir os pormenores da matança, beijando-o muito, dizendo-lhe que ele tinha vingado o seu coração.
– Sendo cristã, não posso casar com um gentio – murmurara-lhe por entre beijos. – Para poder estar contigo à minha vontade, tens de te fazer cristão. Sairás a ganhar.
Obedecera e, após algumas lições de catecismo, aprendidas as orações obrigatórias, fora baptizado pelo padre que casara o amo, passando a viver publicamente com a viúva, luzindo com muita galanteria os melhores fatos do morto, que ela lhe oferecera. Tamanho desaforo despertara suspeitas nos vizinhos que, estranhando a ausência do marido, decidiram fazer uma devassa, inquirindo e apertando com as escravas negras da casa, as quais acabaram por contar o crime dos dois amantes. Denunciados à justiça, o meirinho viera com a sua quadrilha prendê-los.
– Se o teu marido te tratava bem, porque o fizeste matar? – perguntara-lhe o promotor, durante a inquirição.
– Por folgar meu coração – respondera com um tom de orgulho que agastara o juiz e o levara a dar-lhe uma condenação exemplar, com uma pena de morte nunca antes vista.
Por sentença da Relação, a punição tem hoje lugar no cais da cidade, onde o cortejo se imobiliza quando o meirinho ergue a vara da justiça que traz na mão, como símbolo da sua autoridade. No silêncio que se faz súbito, o escrivão lê o pregão:
Justiça que ElRei nosso senhor manda fazer, que esta mulher morra de morte natural antre brutos animais, por matar seu marido, e adulterar com gentio fora de nossa santa fé, e seu delito confessar à justiça denodadamente, sem temor nem acatamento.
A uma ordem do meirinho, os guardas despem a mulher, cujo voluptuoso corpo nu, de um tom dourado de canela, arranca uma chuva de doestos e chistes brejeiros aos matalotes e calafates dos estaleiros, que tinham acudido a ver o entremez. Da carroça são trazidas para o lugar da execução uma grande pipa e cinco gaiolas com um cão, um gato, um galo, um bugio e uma cobra, num grande estardalhaço de saltos e coro de latidos, miados, cucuricos, guinchos e silvos, que o rapazio acirra com paus e espetos, provocando grandes risadas à assistência.
O carrasco dá um pequeno pano à mulher para tapar as vergonhas e, ajudado pelos guardas, mete-a dentro da pipa, juntamente com os animais que tiraram das gaiolas, selando-lhe logo a tampa onde foram feitos alguns buracos para resfolgo.
Embora tivesse assistido na sua vida a muitas mortes cruéis, Fernão sente o mareio subir-lhe à boca, ao ver o bárbaro castigo. A mulher, que até àquele momento não soltara um ai, grita agora com tamanho desespero que os seus uivos lancinantes se sobrepõem aos sons dos bichos que se guerreiam dentro da pipa, sobre o seu corpo, arranhando, picando, mordendo, esgaçando.
Aplaudidos por um coro de vaias e apupos, os guardas rolam a pipa ululante até ao batel que os remadores levam para o meio do rio, onde a largam, ficando por momentos a vê-la ir barra fora com a maré.
Despedindo-se dos companheiros ocasionais, Fernão afasta-se, dirigindo-se às tendas de Malcozinhado, para o mata-bicho, pois o estômago ronca-lhe de fome, mau grado o mareio. Nelas se come barato, em comparação com as tavernas do centro da cidade, sobretudo as da rua Direita, a mais rica e cara de Goa. Aqui vêm desaguar aventureiros, matalotes, soldados de fortuna, mercadores de poucos cabedais e menos escrúpulos, dispostos a embarcar em qualquer viagem de cabotagem ou de corso, que lhes traga algum proveito. A bodega está cheia de gente, mas ele não reconhece ninguém naquela multidão de homens que definham em Goa, como ele, à espera de um lance de boa sorte.
Enquanto come o caldo, não consegue deixar de pensar na mulher que acaba de ser executada. Ainda estaria viva, a sofrer ou, se a pipa não fosse estanque, teria a água posto um fim breve e misericordioso ao seu tormento? Ficaria a fazer parte das histórias dos casados de Goa, que haviam começado com Afonso de Albuquerque e lhe tinham causado tantos dissabores, sobretudo quando quisera proteger as gentias e mouras cativas, depois da conquista da cidade, chegando a enforcar um nobre português por sua causa. Fora assim.
66 Vijayanagara, a Cidade do Triunfo, fundada em 1326, deu o seu nome ao mais importante reino hindu do Decão. Importante base militar, o seu rei era Ashyuta Rãya (1530-1542).
67 Homens sem emprego ou profissão certa, cujos serviços se alugavam para carregar pesos, fazer recados e biscates.
XI
Não há como a mulher para fazer do homem quanto quer
(português)
Cartas de Afonso d’Albuquerque a el-Rei D. Manuel:
Aqui se tomaram algumas mouras, mulheres alvas e de bom parecer, e alguns homens limpos e de bem quiseram casar com elas e ficar aqui nesta terra, e me pediram fazenda, e eu os casei com elas e lhe[s] dei o casamento ordenado por Vossa Alteza, e a cada um seu cavalo e casas e terras e gado, aquilo que arrazoadamente me parecia bem: haverá aí quatrocentas e cinquenta almas; estas cativas e estas mulheres que casam tornam a suas casas e desenterram suas jóias e suas fazendas e suas arrecadas de ouro e aljôfar e rubis, e colares e manilhas, contas, e tudo lhe[s] deixo a elas e a seus maridos: os bens e as terras das mesquitas deixo à Igreja da invocação de Santa Catarina, em cujo dia nos Nosso Senhor deu a vitória pelos merecimentos dela, a qual igreja mando fazer dentro na fortaleza na cerca grande.
Escrita em Goa aos 22 dias de Dezembro de 1510
O feito dos casados vai muito avante, porque casam muitos homens de bem e muitos oficiais ferreiros e carpinteiros, torneiros e bombardeiros, e alguns alemães são cá casados; e creio, senhor, que se [eu] não partira de Goa, casariam aquele ano mais de quinhentas pessoas. Haverá em Cananor e Cochim cem casados, e em Goa perto de duzentos; e estão tantos criados de vossalteza e dos duques e condes de Portugal em Goa para casar, que o não pudera crer vossalteza. E por cartas sou avisado dos casados, em como, sem minha licença, são muitas mulheres tiradas de Goa por alguns homens que as tinham, porque eu nunca dei mulher a nenhuma pessoa, senão com condição que se a quisesse casar, que lhe daria alguma cousa por ela, e que ninguém as não tirasse de Goa sem minha licença.
Cochim, primeiro dia de Abril de mil quinhentos e doze
– Senhor, Timoja meteu nos navios da armada muitas mulheres cativas, esposas e filhas dos muçulmanos. Devias mandá-las recolher e guardar a bom recado, porque, como têm seus parentes na terra firme, poderão servir-te de seguro a moeda de troca, se quiseres concertar pazes com o Hidalcão.
Embora conhecesse a rivalidade entre o mouro Kwaja Beg (Cojebequi para os portugueses) e o hindu Timoja, a quem entregara respectivamente os assuntos dos muçulmanos e os dos gentios da cidade de Goa, Afonso de Albuquerque tivera de fazer um grande esforço para não deixar transparecer a sua ira. Estava grato a Timoja, que por duas vezes o ajudara a conquistar Goa, porém, decidido a libertar a ilha de todos os seguidores de Mafamede para a fazer cristã, ordenara-lhe que matasse todos os mouros, com suas mulheres e filhos, sem poupar a vida a ninguém. O corsário desobedecera-lhe, decerto cobiçoso das jóias e ouro que eles lhe tinham dado para se salvarem.
Por outro lado, agora que lhe passara a fúria contra Hidalcão, dava razão a Cojebequi e graças a Deus por as mulheres terem sido poupadas, sobretudo as mais nobres e ricas, que ele poderia usar contra qualquer tentativa de revolta dos moradores da cidade.
– Muito te agradeço o aviso. Farei como dizes, mas não fales disso a mais ninguém – recomendara-lhe.
Mandara chamar Timoja em privado, mostrando-se muito pesaroso por, durante todo aquele tempo, ele não o ter lembrado das mulheres que tomara e metera nas naus, fazendo com que os seus homens cometessem grandes pecados por dormirem com mouras. Daí que Deus os castigasse com as fomes, trabalhos e mortes que estavam a assolar a armada. O corsário, muito corrido, desculpara-se, assegurando-lhe com desfaçatez que fora ele que o mandara recolher as mulheres nos navios.
– Entreguei-as aos mestres, aos pilotos e a outros homens, como alvíssaras pela conquista, dado que não lhes permitimos o saque da cidade. Muitas delas já são cristãs.
– Vai buscá-las a todas e traz-mas aqui – ordenara-lhe.
De seguida fora queixar-se aos fidalgos e aos clérigos, recriminando-os por nada lhe terem dito sobre a presença das mouras nas naus.
– Senhor governador – respondera-lhe frei Domingos de Sousa, vigário da sua capitânia, em tom prazenteiro –, asseguro-vos que nesta armada nunca um cristão se tornou mouro por querer bem a uma moura, mas elas que se fizeram cristãs por amor aos portugueses, que as tratam muito melhor que os da sua Lei. Se os homens pecaram com elas, ao fazê-las cristãs, ficaram com os pecados perdoados, por ganharem uma alma para Deus.
Quase se arrependera da ordem que dera a Timoja, quando ele lhe trouxe um enxame de mulheres, das quais só uma centena das mais formosas, por serem mais honradas ou principais, se havia recusado a renegar a sua religião. Resolvera parte da delicada situação, dando alforria a todas as cativas que se tinham tornado cristãs, a quem mandara escrever os seus nomes e os dos homens com quem viviam, para se saber que não eram escravas, mas suas protegidas, seguras de que ele pediria contas aos seus companheiros, se fossem maltratadas.
Muitos dos matalotes e soldados que amavam verdadeiramente estas mulheres, mal ouviram dizer que tinham de as entregar ao governador, temendo perdê-las, apressaram-se a casar com elas, vindo pedir-lhe as esposas, com muitas lágrimas. Certificara-se de que não se tratava de manhas para terem uma escrava, fazendo com que, diante dele, as recebessem de novo por esposas.
– Ora, senhor governador, receberem por duas vezes o sacramento?! – escandalizara-se o vigário. – Um tal matrimónio não é mandamento da Igreja.
– Serão então casados segundo o mandamento d’Afonso de Albuquerque – atalhara risonho, mas num tom que não admitia qualquer recusa.
Quanto às mouras que recusaram a conversão, mandara levá-las à sua nau, alojando-as na câmara do leme, que à pressa fizera alargar e fechar de todos os lados, onde dispunham de uma varanda de mar para poderem tomar ar e fazerem as suas necessidades. Por temer abusos e desobediências daqueles a quem estas mulheres tinha sido tomadas, metera dentro do indesejado harém, para sua guarda, o eunuco Cojambar que ele cativara em Ormuz e lhe era muito fiel. Era ele que vinha receber a comida para as mulheres, entregue por um pequeno postigo feito para esse propósito.
Pelos seus espias soubera que, em todos os navios da armada, estes homens ressabiados o maldiziam, levantando-lhe falsos testemunhos e acusando-o de lhes ter tomado as mouras às revoadas, não para as casar como dizia, mas para dormir e pecar com elas. Os piores eram o cavaleiro Rui Dias, que morria de amores pela sua cativa, e os seus amigos Francisco de Sá , Simão de Andrade e Jorge Fogaça, contudo, não julgara possível que se atrevessem a desrespeitá-lo na sua própria nau.
– Não foi esta a primeira noite, meu senhor – dissera-lhe o capado, em segredo. – São quatro homens que vêm dormir com as mulheres.
– Quem são eles?
– Não os conheço, meu senhor, não são desta tua nau.
Do mal o menos, que não eram os seus homens! Seriam seguramente os que lhe mordiam a honra e lhe lançavam lama. Embora fremindo de ira, não se precipitara a anunciar castigo aos rufiões, pois queria apanhá-los com a boca na botija e fazer deles um exemplo de justiça.
– Se os sentires de novo, não deixes que se apercebam de que os vistes, nem faças nada. Não fales disto a ninguém e, se vierem, só a mim o dirás.
Vieram, e ele mandara o seu contramestre pôr-se num batel com oito grumetes de vigia à popa da nau, com o pretexto de impedir que os homens, pelos trabalhos e fome que passavam na armada, desertassem para os mouros.
– Ora, se algum homem entrar ou sair da varanda das mulheres, deveis fingir que dormis, porque não quero escândalo público, mas procurai vê-lo bem, para o poderdes reconhecer mais tarde.
Nessa noite a lua parecia uma luminária redonda pendurada no céu, contudo o perigo acirrava os ardores de Rui Dias, dando-lhe ainda maiores ganas de desafiar o tirânico governador, que se arrogara o direito de lhe roubar os despojos da conquista, ganhos com tanto esforço pela sua espada. Não podia casar-se com uma moura, por não lho permitirem os deveres para com a sua família, e Afonso de Albuquerque não lha entregaria de outro modo. Nem todos os esquifes da armada, porém, lograriam impedi-lo de ver Nazima, de lhe beijar os lábios macios que se lhe entregavam com o prazer da saudade, de lhe acariciar o corpo voluptuoso e esbelto de ânfora, arrancando-lhe suspiros e gemidos que ela afogava na garganta, premindo a sua boca contra o peito dele, para não serem ouvidos pelo capado. Moura encantada, que o enfeitiçara, a ponto de já nenhuma coisa fazer sentido ou ter sabor, além do gosto da sua boca, do aroma do seu corpo, do brilho dos seus olhos cujo negrume era apenas igualado ao da longa cabeleira acetinada. Tinha-a encastoada na sua pele, como o rubi sangrento no punho da sua espada.
– És louco! – bradou-lhe Jorge Fogaça, capitão da nau Flor da Rosa, a mais próxima da capitânia. – Com esta lua, os que estão à espreita no esquife de certeza te hão-de ver. Se fores apanhado ou tão-só reconhecido, Albuquerque não deixará a tua desobediência sem castigo, desejoso como anda de se vingar de nós.
O batel vigilante mostrara aos quatro amantes que o governador já tinha conhecimento das suas visitas ao harém das mouras, o que, sem lhes esfriar a paixão, lhes refreara os ânimos de arrostarem com a ira do Terríbil, levando-os a desistir das visitas ao ninho das suas amadas. Menos Rui Dias que, pelo contrário, redobrara de ardume e impetuosidade.
– Irei a nado, ninguém me verá – retorquiu teimoso. – Desta tua nau até à capitaina é um passeio. – Acrescentou, a modo de desculpa: – Morro de saudade de Nazima, Jorge, não vou passar outra noite sem a ver. Ela está à minha espera.
– Ainda me metes em trabalhos. – disse-lhe o capitão, resignado.
Lançou-se à água e nadou silenciosamente em direcção à proa do navio do governador. Da banda da popa, podia ver com toda a clareza o esquife com os seus oito remadores e o timoneiro, iluminados pelo luar. Os homens permaneciam imóveis, dormindo.
Tocou no casco, colando-se ao madeirame, seguiu lentamente até ao leme, por onde subiu, furtivo como um ladrão; chegado ao cimo, ergueu a tábua levadiça muito sua conhecida por onde passou e, saltando para dentro da varanda, penetrou na câmara seguro de encontrar Nazima à sua espera. Se aquele amor era pecaminoso, ele era sem dúvida um pecador impenitente, disposto a pagar com o inferno na outra vida o paraíso que achara na terra.
Afonso de Albuquerque viu que todos os que havia sido convocados estavam a postos, esperando as suas ordens: na água o batel com o mestre e os marinheiros, na tolda Duarte de Sousa com os principais fidalgos da sua companhia, armados para o combate, se necessário fosse. Do chapitéu da nau, podia ver tudo o que se passava na Flor da Rosa, onde o esquife com o meirinho Fernão de Lis e os seus oito alabardeiros acabava de acostar.
Na devassa que fizera com o secretário Lourenço de Paiva, o ouvidor Pêro de Alpoim apurara que o visitante nocturno das mouras, denunciado pelo contramestre, fora Rui Dias. Albuquerque ficara muito anojado por não poder castigar também os seus companheiros de aventuras, mas, como ninguém os vira entrar na câmara, os três rufiões tinham sido ilibados. A sentença fora lavrada nos autos, com o seguinte pregão:
Justiça que manda fazer el-rei nosso senhor, por sentença do governador, em Rui Dias, por delito de pecado de dormir com moura, cometido na nau capitânia, com atrevimento atraiçoado, manda que morra na forca de morte natural para sempre.
O meirinho levava ordens para prender Rui Dias e enforcá-lo de imediato num mastro da Flor da Rosa. Bastante apreensivo com aquela incumbência, Fernão de Lis subiu a bordo com os alabardeiros e os quatro peões que levava por carrascos. Viu Rui Dias na tolda a jogar às távolas com o capitão Jorge Fogaça.
– Estai preso da parte d’el-rei! – ordenou-lhe, agarrando-o por um braço.
O peão cafre atou-lhe de imediato um palanco ao pescoço e os outros três guindaram-no ao mastro, onde morreu enforcado. O acto, de tão inesperado e rápido, deixou toda a gente petrificada de espanto, sem que ninguém esboçasse sequer um gesto para os deter. Porém, vendo Rui Dias a estrebuchar pendurado na verga, o capitão Fogaça desembainhou a espada e correu para lhe cortar o cabo. Foi o sinal para que os da nau acordassem do seu estupor e tomassem as armas.
– Bernardim, acode-me que enforcam a Rui Dias! – chamava o capitão, em altos brados para a nau de Bernardim Freire que emparelhava com a sua.
O amigo acudiu logo no esquife, com Francisco de Sá e os irmãos Simão e Fernão Peres de Andrada, todos armados e a gritarem:
– Não consintas em tal, Fogaça! Não lho consintas!
– Largai as armas, em nome d’el-rei! Cessai o tumulto, por el-rei e Jesus Cristo! – clamava Fernão de Lis, vendo-se acossado de todos os lados, temendo pela sua vida.
– O governador! Chamai o governador! – berravam a plenos pulmões os alabardeiros vendo-se em minoria face aos matalotes e soldados, que apertavam o cerco, de armas nas mãos, a fitarem-nos enraivecidos.
Albuquerque, empunhando o estandarte real, meteu-se no batel com os fidalgos e muita gente armada indo dar voz de prisão aos capitães revoltados. Tirou-lhes as capitânias das naus, que entregou a gente de sua confiança, pondo os cabecilhas a ferros, debaixo da coberta do seu navio para neles ter maior vigia68.
68 Lendas da Índia, tomo II, parte I, capítulo XVI, de Gaspar Correia.
XII
A sorte é como uma mulher, que quer quando não queremos e que não quer, quando queremos
(português)
Era a cidade de Goa situada neste rio de Goa Velha, em que entrou o Timoja, a qual cidade despovoou, e se tornou a povoar a cidade onde agora é, e isto porque o rio cá tinha melhor fundo e melhor varadeiro para as naus dos mercadores, que acrescentaram muito à nobreza da cidade, porque por toda a ilha de Goa em roda tinha muitos esteiros e várzeas alagadiças, que se cobriam com a maré, e em alguns lugares, que havia passagem da terra firme para Goa, tinham os mouros torres e muralhas que tolhiam a passagem, em que tinham piães e guardas; e porque não passassem a nado, as gentes que matavam as deitavam no rio, em que havia muitos lagartos que andavam encarniçados, que às vezes soçobravam as almadias por comer a gente, e tomavam os que se estavam lavando na borda do rio. E por caso do rio de Goa, a Velha, muito espraiar, e os mercadores não poderem varar as suas naus, por isso se passaram ao outro rio, que era bom, em que se fez a cidade, e ficou o nome de Goa Velha ao outro rio.
(Lendas da Índia, de Gaspar Correia)
Fernão Mendes Pinto ajeita a capa, sentindo com agrado o toque do bom pano e mergulha na animação da rua Direita, que divide a cidade em duas e é mostruário da riqueza e fausto da Goa Dourada, que finalmente pudera conhecer com algum ripanço. Indo de norte para sul, podem ver-se os belos edifícios da Santa Casa da Misericórdia, da igreja de Nossa Senhora da Serra e da Casa do Senado. Por trás das janelas das casas ricas, construídas ao modo de Portugal, assomam donas e donzelas de boas famílias até onde o recato lhes permite serem vistas; em outras, meio abertas ou escancaradas, mostram-se mulheres e moças muito louçãs, brancas, pardas e negras, lançando chistes e risos ou acenando aos que as cortejam.
A meio da compridíssima rua, ergue-se o vulto imponente da igreja de Santa Catarina, elevada nesse ano a catedral de Goa, no local onde Afonso de Albuquerque lhe dedicara a sua conquista. Mais abaixo, a praça do Pelourinho, no cruzamento de seis ruas, tem um grande bazar, em cujos claustros há quarenta e oito boticas, que de dia vendem toda a sorte de legumes e outros comeres e de noite se faz a baratilha, uma venda de objectos roubados.
Escuta os chamamentos dos barbeiros sangradores, sentados às portas das suas casas ou das tendas, à espera dos fregueses, os pregões das doceiras e aguadeiras que percorrem as ruas, umas com bacias ou cestas de doces cobertos com panos mimosamente bordados, outras com os cântaros de água fresca da fonte. Nas lojas dos ourives, os tabuleiros refulgem com o ouro e as pedras preciosas de jóias magníficas, rivalizando com o brilho das sedas, dos cetins, dos brocados bordados a fio de ouro, prata e aljofre. Por trás da igreja de Nossa Senhora da Luz ergue-se ameaçadora a forca de pedra.
O leilão, que é o acontecimento mais importante da cidade, tem lugar na rua Direita todas as manhãs, das sete às nove horas por causa do calor, durante o ano inteiro, excepto aos domingos e dias santos. Um ajuntamento só ultrapassado pelos recebimentos dos vizo-reis e governadores da Índia, segundo lhe asseguraram e ele não duvida quando acotovela a imensa multidão de portugueses, de naturais da terra e de gente não só dos reinos vizinhos como de todas as nações do Oriente, que o engolem como uma impetuosa onda.
A rua Direita é, por isso, o local escolhido pelos moradores da cidade para se fazer alarde da riqueza e do poder, reais ou fingidos. Fidalgos, gente nobre ou baixa, mercadores ricos ou aventureiros sem eira nem beira, vêm cortejar as barregãs, as mestiças amancebadas com homens ricos, as escravas forras, muito fogosas, que fazem gala em ter o maior número de amantes. Aqui merca-se toda a sorte de produtos: especiarias, drogas, cavalos árabes e persas, escravos de trabalho e de prazer; também se compram os serviços das cativas que os seus senhores põem a render, vendendo além dos doces os seus corpos de mais apetitosos e exóticos sabores.
Tanto os homens como as mulheres exibem as suas melhores galas, arrastando o passo com muita pompa, acompanhados por um séquito de escravos, comprados ou alugados, tantos quanto lhes permitem as bolsas: um moço na frente, empunhando um grande sombreiro ou toldo por cima da cabeça do amo ou ama, outros para lhes levarem a espada, o leque, o jarro de água, o missal, a almofada para os pés e o banco para se sentarem.
Parece uma dança de galos, a troca de infinitas cortesias e reverências entre os homens ou destes para as damas, cada vez que se cruzam com conhecidos, inclinando o corpo, com a perna estendida, o chapéu a roçar o chão, balbuciando um Beijo-vos as mãos, cheio de presunção. Não se vêem donas, muito menos donzelas, portuguesas de boas famílias, que essas só saem para ir à igreja ou para visitar uma amiga, sempre embiocadas, metidas em cadeirinhas ou liteiras tapadas; o resto do tempo permanecem, como em Portugal, fechadas em casa a sete chaves, por estes maridos, pais ou irmãos zelosos que se pavoneiam na rua Direita, em busca de conversação com escravas, mulheres públicas ou adúlteras.
Os gritos dos pregoeiros a anunciarem as mercadorias de Cambaia, Bengala, Pérsia, China e outros infindos reinos, sobrepõem-se à vozearia da multidão dos compradores ou dos que, como ele, apenas vêm passear e mirar. Adornados como ricas cortesãs, com cadeias de ouro, anéis e outras jóias, atraem todas as atenções os pregoeiros dos produtos de luxo, como sedas, perfumes, pedras preciosas, tapeçarias, porcelanas, enfim, tudo o que o desejo cobice e o dinheiro, a prata ou o ouro possam comprar.
Pára a ver a almoeda da Provedoria dos Defuntos e Ausentes que licita os bens dos que morreram ou desapareceram no mar, cujos proventos ajudarão as suas viúvas e órfãos a regressarem ao reino. Acha tudo muito caro e, embora sinta que a sua má sorte está a mudar, prefere poupar o dinheiro do soldo que lhe adiantou o capitão Pêro de Faria.
O mercado dos escravos está ainda muito concorrido e ele retarda o passo, sem se dar conta, a ver a moça java de corpo esbelto, quase nua, que está a ser leiloada. A lembrança da sua própria venda e servidão no mar Roxo causam-lhe uma dor pungente, fazendo-o acelerar o passo rua abaixo, a caminho do cais, perseguido pelas penosas recordações que procurava em vão esquecer. Quando se vira livre da escravatura em Ormuz, embarcara na nau de Jorge Fernandes Taborda a caminho de Goa, crendo que a Fortuna por fim lhe sorria permitindo-lhe recomeçar a vida; em vez disso, navegara novamente direito ao perigo, escapando por um triz de ser morto ou cativado pelos rumes que cercavam Diu.
A sua má sorte não ficara por aí. Pouco depois de terem saído de Chaul, onde se haviam acolhido, fora arrastado para novas desventuras, quando a nau de Taborda se cruzara com as três fustas de Fernão de Morais – outro que não quisera ficar em Diu a socorrer António da Silveira no cerco –, enviado a Dabul pelo vizo-rei com a missão de queimar uma galé turca que estava a carregar mantimentos por mandado de Soleimão Baxá. Morais, que não obedecera a António da Silveira, forçara Taborda a ceder-lhe doze homens para o ajudarem no assalto e ele, que era sempre o mais enjeitado, fizera parte do lote.
Por fortuna, Morais já não achara o navio inimigo em Dabul e regressara a Goa, em cujo porto Gonçalo Vaz Coutinho, o capitão da cidade, estava prestes a partir com cinco fustas para Onor, com a missão de exigir à rainha a entrega de uma outra galé turca da armada do capado, que arribara às suas costas desgarrada pela tempestade. Fernão, que vestia ainda as roupas dadas por esmola em Ormuz e continuava sem um real no bolso, aceitara sem hesitação o convite para embarcar na dita frota, que lhe fizera o capitão de uma das fustas, seu amigo, pagando-lhe logo cinco cruzados de soldo, para o ajudar. Os soldados da sua equipagem apetrecharam-no com sobras das suas couraças e armas, de tal modo que Fernão se parecia a um estafermo feito de bocados, como os que eram usados para treino dos cavaleiros nos exércitos e armadas.
Partira antes mesmo de poder ver a cidade, tal como lhe sucedera com Diu, e dois dias mais tarde, ainda mal refeito da viagem a Dabul, entravam no porto de Onor com grande estrondo de artilharia e fanfarra de guerra, para espantar e atemorizar os naturais, assim como aos turcos se ainda lá estivessem. Onor era a terra do corsário Timoja, que se fizera amigo dos portugueses no tempo de D. Francisco de Almeida, ajudando D. Afonso de Albuquerque a conquistar Goa. Todavia, como aquele momento era de conflito não tivera ocasião de colher informações dessas histórias passadas. E a desgraça não se fizera esperar.
Vendo que a rainha se escusava a queimar a galé porque, segundo lhes mandara dizer, vinha armada com grossa artilharia contra a qual ela não tinha poder de fogo, Gonçalo Coutinho decidira acometer e conquistar o dito navio em vez de o abrasar, para o levar como troféu a D. Garcia de Noronha. Fora imprudente em não ter tomado em conta os avisos da soberana, de que os rumes estavam muito bem armados, entrincheirados no rio onde tinham a galé, e saíra-se mal. Na feroz batalha que travaram, embora tivessem matado muitos inimigos, os cem portugueses foram desbaratados e obrigados a fugir para as fustas, debaixo de pesado fogo, transportando em braços os quinze mortos, entre os quais o filho do capitão, mais os cinquenta e quatro homens feridos e queimados com gravidade.
Cheio de paixão pela perda do filho e dos seus homens, o capitão quisera castigar a rainha, contudo, persuadido pelas suas súplicas e protestos de amizade, assinara novo concerto de paz, regressando a Goa. Em Onor ficara Jorge Nogueira para se certificar de que Sua Alteza cumpriria a promessa de queimar a maldita galé e expulsar os turcos do seu reino.
Absorto nos seus pensamentos, Fernão choca com um fanchono todo taful, que franze o sobrolho, levando a mão à espada escandalizado pelo desrespeito, por fim se apazigua com as suas juras e desculpas pela distração e ofensa involuntária. Suspira de alívio e segue a caminho do porto, retomando o fio à meada das suas memórias.
Escapara à morte, no confronto com os rumes em Onor, mas ficara muito ferido e continuava sem um real de ganho, visto que não tinham tomado a galé, portanto, não houvera saque para recompensar as tripulações e os soldados. À chegada a Goa, enviaram-no com outros feridos graves para o Hospital Real, fundado no ano de mil quinhentos e vinte e considerado por todos os estrangeiros que o visitavam como o maior e mais importante hospital do Oriente, um dos melhores do mundo. Ali jazera entre a vida e a morte, sendo salvo in extremis, nada mais, nada menos do que pelo doutor Garcia de Orta, o físico do capitão-mor Martim Afonso de Sousa, que ali prestava cuidados aos soldados e matalotes pobres.
Durante a convalescença, Fernão contara-lhe as suas desventuras e o doutor, apercebendo-se da sua curiosidade por mezinhas e curas, fizera-se seu amigo, permitindo que ele o acompanhasse nas rondas pelas enfermarias, ensinando-lhe os usos de muitas drogas e ervas, à mistura com gostosas histórias.
– Quando, depois de lhe dar a fortaleza de Diu, o sultão Bahadur pediu ao governador D. Nuno da Cunha que lhe desse ajuda contra os mogores seus inimigos – confiara-lhe, um dia, com um sorriso divertido –, o senhor Martim Afonso de Sousa ofereceu-se para comandar quinhentos homens de cavalo, que o quisessem acompanhar, assegurando que esses bastariam para o socorrer. Todos os fidalgos da armada se ofereceram para o acompanhar, de modo que o capitão pôde escolher os melhores e eu fui com eles, para cuidar dos feridos, que sempre os há nas guerras.
Cavalgámos por terra firme, atravessando toda a península do Guzarate, em constantes brigas com os bandos de mogores, que se retiravam para Deli e andavam a roubar os camponeses e a violar as mulheres. Então Martim Afonso adoeceu e el-rei, que o estimava muito, chamou-me e perguntou-me como havia de curar o capitão daquelas febres69.
– Primeiro sangrá-lo-ei, meu Senhor – disse-lhe com muito acatamento –, e logo lhe darei xarope de sumo de limões, romãs e açúcar. E tomará também uma purga com maná e ruibarbo.
Eram as mezinhas que trazia comigo, porque não havia outras no seu arraial que eu conhecesse. Bahadur, porém, abanou a cabeça, reprovador:
– Os portugueses não sabem curar febres tão bem como os guzarates, que não as curam com outra cousa, senão com não comer.
Longe de mim porfiar com el-rei que, embora não fosse letrado, era muito voluntarioso e o maior rei que havia naquela terra.
– Vossa Alteza diz bem! – retorqui, mostrando admiração pelo seu saber. – Há três dias que não dou de comer ao capitão. Por isso o quero xaropar e dar-lhe a comer uma dieta subtil.
– Quatro dias é muito pouco – insistiu o casmurro –, há mester estar ao menos vinte dias sem comer cousa alguma. Reconheço que os portugueses são muito bons físicos nas outras enfermidades, mas nas febres, os guzarates são melhores.
Eu calei-me, que outra cousa não podia fazer, e fingi obedecer, mas às escondidas sangrei Martim Afonso de Sousa e dei-lhe a comer galinhas, não sendo necessário purgá-lo, pois depressa ficou curado.
Fernão rira-se da história, jurara-lhe que folgara muito mais em ser tratado com a sua dieta de galinha e os seus xaropes do que com a receita de Bahadur, que por certo o mataria. O ilustre físico mostrava desejos de fazer dele aprendiz de boticário, porém, o padre Manuel, que assistia aos doentes e lhe quisera dar a extrema-unção quando o vira no pico da febre, aconselhara-o a ir sem demora oferecer-se ao fidalgo Pêro de Faria, que estava provido da capitania de Malaca e dava mesa a todos os que quisessem entrar para o seu serviço e acompanhá-lo, quando fosse ocupar o seu posto. Fernão agradecera o conselho, agarrando a oportunidade com ambas as mãos.
Malaca era agora melhor do que qualquer outro lugar da Índia para se buscar fortuna, quer em viagens de trato – desde que a Coroa portuguesa abdicara do monopólio das especiarias e concedia licenças a particulares –, quer no corso, a andar às presas. Se o capitão o aceitasse, ele seria o homem mais afortunado do mundo! Para se enriquecer no Oriente, era necessário pertencer a uma dessas redes de parentesco e amizade dos principais servidores da Coroa, em particular, dos capitães das fortalezas.
Pêro de Faria era um veterano das campanhas da Índia, companheiro de Afonso de Albuquerque, com provas dadas nas conquistas de Goa e Malaca, da qual já tinha sido capitão durante um ano, em mil quinhentos e vinte e oito. Segundo ele mesmo dizia, sendo filho do comendador Álvaro de Faria e de uma moura de Safim, pela morte do pai e por ter ruins parentes, entrara para o serviço d’el-rei D. Manuel com moradia de bastardo, uma tença que ficava em nada, mal lhe dando para comer. Por isso viera para a Índia, onde fizera fortuna e se casara com uma gentia, de quem tinha quatro filhos, dois varões – o primogénito, Álvaro como o avô, já nomeado pelo pai para capitão-mor do mar de Malaca, e Manuel que também servia na armada – e duas moças, Leonor, esposa do fidalgo D. Pedro de Eça, e Guiomar que acabava de casar em segundas núpcias com o filho do governador Diogo Lopes de Sequeira.
Graças às recomendações dos seus dois protectores, o capitão não só o aceitara no serviço da sua gente de confiança, como prometera fazer-lhe todos os favores que pudesse, durante a sua capitania em Malaca, começando por o deixar ir na nau de trato que queria enviar à China assim que fosse provido do cargo.
Fernão teria preferido ficar em Goa, mas não achara protector que lhe assegurasse um posto na administração da cidade, o que só se conseguia com muitas peitas ou padrinhos mais poderosos e influentes do que os seus. Assim, hoje é a sua despedida de Goa, pois vai embarcar na nau de Pêro de Faria, que quer ter tudo prestes para partir mal chegue a ordem de D. Garcia de Noronha.
Desemboca finalmente no porto, onde a sua vista se perde num mar coalhado de velas. Os barcos de mercadorias mal têm lugar para descarregar os seus produtos, por causa dos cento e setenta navios da armada, que esperam ou desesperam pela ordem do vizo-rei para irem em socorro de Diu. Vê vir na sua direcção, quase correndo, o doutor Garcia de Orta, com o criado na sua peugada, a balançar o sombreiro como uma palmeira ao vento.
– Diu está livre! – grita-lhe esbaforido. – Os rumes abandonaram o cerco e el-rei de Cambaia pediu a paz!
– Então já não vamos a Diu? – pergunta, aliviado. – Se já não temos de pelejar com os rumes.
– D. Garcia de Noronha quer governar o mundo em seco! – retorque o físico, agastado. – Manda agora a armada a Diu para reconstruir a fortaleza, cuja destruição deveria ter impedido! Ouvis quão poucos tiros de salva lançam os navios? Os fidalgos não querem festejar a vitória que não lhes pertence e amaldiçoam o vizo-rei por os ter impedido de ganhar a honra de vencer a armada dos rumes. Para mais, D. Garcia gaba-se de ter feito fugir os rumes com medo da sua armada, como lhe disse António Silva numa carta. Mas os homens do catur que trouxeram a missiva contaram outra história: António Silva mentia com quantos dentes tinha na boca, porque não ousara ir a Diu, nem sequer chegara à vista das galés. A armada do turco retirou-se porque António da Silveira e o seu punhado de valentes lhe mataram muitíssima gente nos combates! – Orta riu-se, malicioso: – A história é já sabida por toda a armada e todos sentem grande prazer em zombar do Silva para danar o vizo-rei, que lhe deu muitos louvores e o despachou logo com as novas para o reino.
– Os fidalgos e capitães doeram-se muito por D. Garcia de Noronha não ter permitido que Nuno da Cunha os comandasse num ataque a Soleimão Baxá e, como se isso não bastasse, por ter recusado ao governador um navio para volver ao reino!
– Ah, portugueses, portugueses! Quão invejosos ou quão pouco amigos sois das honras dos outros! – desabafa o médico e, com um aceno distraído, desaparece no meio da multidão.
Fernão fita durante alguns instantes o largo sombreiro balouçante que parece pairar sobre as cabeças dos passantes, mas logo desvia os olhos para a armada. Tem de se apresentar sem demora a Pêro de Faria, já que a sua vida e o seu futuro dependem agora desse valente capitão.
69 Colóquios dos Simples e Drogas da Índia, de Garcia de Orta.
XIII
A honra é a bússola do homem de bem
(português)
O Primeiro Cerco de Diu, Canto XX
LXXXVII. Sendo esta noite à Lua então negada,
Por interposição da opaca terra,
A participação da luz usada
Que o Sol de natureza em si encerra,
De todo se mostrou quase eclipsada
Com que mais se escurece a noite e cerra,
E quiçá que este mau e usado agouro
A partida apressar fez mais ao Mouro.
LXXXVIII. Esta noite também aquela gente
Que de Cojaçofar segue o estandarte,
Fazendo que a Cidade a chama ardente
Sinta primeiro n’uma e n’outra parte,
Também danificada e descontente
Antes de ser manhã, dali se parte,
E o lugar com grão medo desampara
Que com grã confiança antes tomara.
LXXXIX. Também nesta mesma hora dentro colhe
Com grã silêncio o ferro a imiga frota,
A vela um brando vento em si recolhe,
E lá do Roxo Mar segue a derrota.
Porém dos que feridos leva, escolhe
Os mais fracos primeiro, e em terra os bota