– A família Yaita é muito tradicional – esclarece Zhi. – A casamenteira disse-me que é costume as suas filhas continuarem a viver em casa dos pais até ao nascimento do primeiro filho. O marido pode ir viver com a esposa e trabalhar para eles como um filho adoptivo ou apenas visitá-la algumas noites, regressando a sua casa depois de cada visita.

– Do mal o menos.

– Tereis sempre de lhes prestar alguns serviços, como um bom filho, os quais terão a ver.

– .com o fabrico das armas, não digas mais! – atalha Fernão, resignado.

Bebe o último trago e desce ao reservado a fim de se preparar. Iria receber a futura esposa com um sorriso nos lábios, porque a homem desamorado não se pode ter amor e a moça também fora obrigada àquele casamento, forjado pela ambição da família. Para mais, tinha o dobro da sua idade e uma aparência que costumava assustar os meninos que o viam passar nas ruas de Ak-ogi, embora procurasse atenuar as diferenças quer no trajo quer no corpo, banhando-se tantas vezes quanto eles, aparando as barbas e os cabelos, por saber que tomavam o excesso de pêlo como coisa de bárbaros, sem polícia. A educação e disciplina, tanto dos homens como das mulheres e crianças, dava-lhe uma certa esperança de que, mesmo aterrorizada com a sua vista, a noiva não começaria aos gritos nem saltaria do junco para o mar, embora pudesse sofrer um vagado e cair no chão desacordada.

Desejara com toda a sua alma o casamento com Huyen, a Noiva Roubada, a quem amara com uma desatinada paixão, que perdurara além da sua morte; na China, aceitara o amor da desafortunada Meng, esperando que a amizade com o tempo se fizesse bem-querer, tornando-lhe o desterro menos penoso. Ainda mal refeito da sua perda, impunham-lhe esta noiva que não conhecia, nem desejava, mas não podia recusar.

A chegada da funce que transportava as duas mulheres com os seus criados fê-los acorrer à amurada, para as receber. Foi um momento atribulado, o da sua passagem para o junco, com Zhi e Mota a içarem Fukumi, auxiliados pelos desajeitados servos e Borralho a ajudar a imobilizar o barco para o noivo receber Wakasa nos seus braços.

É leve, graciosa como uma boneca de louça e, antes de a pousar no convés, Fernão sente-lhe o medo no corpo que treme, na respiração entrecortada como se lhe custasse respirar. Condói-se da pobre menina, vítima inocente de uma intriga de ambiciosos, enviada ao junco como uma rês ao açougue ou, pior ainda, como uma condenada sem culpa ao cutelo do carrasco.

Contempla-lhe o rosto pela primeira vez e o abalo que sente é semelhante a um murro no estômago; um vagado enevoa-lhe os olhos, cambaleia como se estivesse bêbado e só com muito esforço logra recompor-se. Apesar do alvaiade que lhe cobre o rosto, dos olhos baixos, por timidez ou modéstia, Wakasa é a viva imagem da Noiva Roubada. Na sua turvação, Fernão pensa se não será o sake que lhe subiu à cabeça ou se, mau grado o devaneio com Meng, a sua paixão por Huyen ainda arde no seu coração como um rescaldo de fogueira, cuja flama a presente situação da noiva forçada veio reacender, como um sopro infernal, ensandecendo-o a ponto de o fazer imaginar fantasmas.

Ninguém se apercebe da sua perturbação, porque nesse momento o capitão acolhe as recém-chegadas com palavras corteses, a que a senhora Fukumi responde apropriadamente, entregando-lhe em seguida os presentes enviados pela família da noiva com o recado de Kiyosada para o Capitão Murashukusha: Se me ensinardes a fundir espingardas, dou-vos em recompensa esta minha humilde filha.

VIII

Mãe, que é casar? Filha, é fiar, parir e chorar

(português)

Genealogia da família Yaita Kiyosada:

O plano [de Kiyosada] resultou bem e ele conheceu o método da sua fabricação. Contudo, apesar de moer o cérebro, não conseguiu dominar a técnica do fechamento do cabo da coronha.

Passados alguns meses, o nanbansen soltou as velas e partiu com a sua filha a bordo. No momento da partida Kiyosada recebeu muitos presentes do nanbanjin.

No ano seguinte, o Kinoe tatsu [o décimo terceiro ou ano do dragão, mil quinhentos e quarenta e quatro], chegou outro nanbansen e ancorou ao largo de Kumano junto de Sakaimura. A bordo vinha Wakasa e pai e filha reuniram-se de novo.

Por felicidade vinha no navio um ferreiro e, com ele por professor, Kiyosada logrou aprender a técnica do fechamento do cabo da coronha.

Nesse tempo, estava lá também Tachibanaya Matasabur-o de Sakai em Izumi que, considerando os teppō uma maravilha, fez Kiyosada seu professor e aprendeu a sua técnica.

Os Senhores consideraram que os dois teppō eram para a glória do Japão. Foram tesouros da família durante anos, mas perderam-se num incêndio.

Fernão Mendes vê-se a viver um pesadelo do qual não consegue despertar. Apenas numa semana conhecera Wakasa, dormira com ela, casara-se e começara a trabalhar com o futuro sogro. Kiyosada fora o causador desse frenesim, como se a noiva estivesse prenhe e o casório fosse um caso de sangria desatada, para prender o pretendente antes que ele pudesse embarcar no junco e fugir.

Sem nenhum escrúpulo, em troca de uma informação que ele não saberia dar-lhe, Kiyosada tinha-lhe metido a filha na cama, à força, indiferente ao seu sofrimento, como se ela fosse uma escrava ou cortesã e não uma donzela inocente. Tão singela e assustada, na primeira noite no junco, que a concubina Oe, deixada por Fukumi para dar amparo à sobrinha, fora deitar-se com eles, decerto cumprindo ordens da matrona.

Pensar nesse episódio, apesar do agastamento que lhe causara a situação, fá-lo sorrir com ironia e alguma vergonha. O muito sake que consumira, para afogar as visões de Huyen que o atormentavam quando olhava para Wakasa, não lhe deixara grandes recordações dos sucessos passados no reservado do junco. Lembrava-se do seu pasmo ao ver a concubina entrar na câmara, cheia de zumbaias, ajoelhar-se ao lado de Wakasa que chorava, sossegá-la com palavras murmuradas, cálidas como afagos, soltar-lhe com sorrisos maliciosos os cingidouros e laços de seda da roupa e, deitando-se a seu lado no leito, guiar a donzela em voluptuosos jogos de Vénus para o seduzir.

De espírito turvado pelo vinho, deixara-se envolver na macieza da rede tecida a quatro mãos sobre o seu corpo, embalado pelos sussurros e suspiros deleitosos. Seduzido pelo calor dos corpos macios – o de Wakasa, esbelto e intocado, o de Oe, voluptuoso e sedento –, acabara por adormecer e sonhar com a Noiva Roubada, sem se dar conta se teria tido conversação com a sua prometida, se com a concubina de Kiyosada ou mesmo com as duas.

Despertara de madrugada, com o choro que Wakasa abafava na manga do quimono. Estavam sós e ele afagara-a com ternura, procurando consolá-la com as poucas palavras de amor que conhecia em língua chim, dos poemas que ouvira em casa do monteo ou nos Jardins das Flores, dizendo-as com voz doce e carinhosa, como se falasse com uma criança, até ela deixar de tremer e corresponder obedientemente às suas carícias. Fernão tomara-a de novo, sem pressas nem violência, beijando-a com a ternura que quisera dar a Huyen e Wakasa, num gesto inesperado, deitara-se sobre o corpo robusto do nanbanjin e abrira-se como uma flor ávida de seiva, sem mostras de medo ou de repulsa.

Não acharam muito que dizer um ao outro, enquanto tomavam o dejejum que a concubina lhes preparara, cheia de sorrisos cúmplices; embora trocassem algumas frases na língua chim, Fernão tinha dificuldade em entender os sons que ela pronunciava e fora com alívio que vira chegar o barco de Fukumi que vinha recolher a sobrinha.

Fernão entregara à casamenteira a carta-do-dia-seguinte que o capitão ditara ao língua e cujo teor ele desconhecia, por lhe ser indiferente, visto as cartas do jogo estarem a descoberto desde o início e ele ter aceitado jogá-lo, conhecendo de antemão o seu desfecho. O peito da nakodo erguera-se num suspiro de alívio e um ligeiro sorriso abrandara por momentos a rigidez do seu rosto.

A missiva fora decerto feita a preceito, mostrando a satisfação do nanbanjin com Wakasa, o seu desejo de casar com ela, porque nessa mesma tarde os pais da noiva convidaram-no para o tokoro-arawashi, a cerimónia em que Kiyosada e Asamia lhe ofereceram os mochi, os bolos de arroz da aprovação paterna ao casamento, aprazado para daí a três dias, data de bom augúrio do seu calendário.

Não tivera tempo para pensar na alhada em que se metera, por ter de aprender uma infinidade de coisas novas que havia mister fazer para não ofender os seus anfitriões, sobretudo o daimyō que se interessara pelo casamento e dera ao seu armeiro um precioso quimono branco para a filha usar durante a cerimónia. Também ele vestira uma espécie de manto e umas calças pretas, largas como saias, o traje dos noivos japões oferecido pelos futuros sogros.

Sente um calafrio a percorrer-lhe a espinha. Jamais poderá referir o seu casamento com uma idólatra, no livro de memórias das suas viagens que há-de escrever depois de regressar a Portugal. Se a sua união feita por um bonzo num templo gentio soar aos ouvidos do Tribunal da Santa Inquisição ficará metido numa camisa-de-onze-varas, de que terá muita dificuldade em se livrar. Fizera os três portugueses jurarem solenemente que jamais o mencionariam a alguém, assegurando-lhes que se Wakasa o seguisse como esposa, ele se encarregaria de a fazer cristã logo que chegassem a Malaca.

O matrimónio também não agradara aos monges japões, que falavam em heresia e ofensa aos bons costumes, mas o seu principal acabara por se dobrar à vontade do daimyō que apadrinhava a união. A cerimónia até fora simples e bonita, com música de flauta, tambor, sinos e bênçãos de incenso. Wakasa estava formosíssima, embora coberta de alvaiade, mal podendo mover-se no pesado quimono branco de seda ricamente bordado, parecendo-se com uma imagem da Virgem Maria no altar de uma catedral.

Da arenga do sacerdote, Fernão nada entendera, mas cumprira com os gestos que lhe tinham ensinado, trocando com a noiva, por três vezes, as taças com sake servidas pelas miko – as acólitas do monge oficiante, vestidas de branco e vermelho –, ofício que repetiram por três vezes, para mostrar a sua gratidão aos deuses, aos pais e aos parentes. Deste modo, o noivo jurara servir o sogro e a sua nova família com o seu trabalho, ou seja, ensinar-lhe o fabrico da pólvora e dos arcabuzes, para sua honra e glória.

O pior da cerimónia fora a leitura do rolo com o seishi ou juramento de fidelidade, de que ele tinha tentado transcrever os sons, tais como o tçuzzu Sōgi lhe ensinara pacientemente, para os pronunciar de forma que se entendessem, mas fora em vão que procurara decorá-lo. Saíra-lhe um arrazoado de grunhidos incompreensível, tão cómico que suscitara risos irreprimíveis a todos os assistentes, incluindo as acólitas mico, tendo o sacerdote de rosto severo autorizado a leitura do texto pelo monge Tadashi Shuza. A cerimónia terminara com a consagração de dois ramos de uma árvore sagrada e ofertas depositadas no altar dos deuses, enquanto os músicos entoavam uma canção para desejar dez mil anos de boa fortuna aos noivos.

A esposa continuava a morar na casa dos pais, onde ele a visitava ou ia passar a noite com ela, regressando sempre ao junco, um arranjo que ia ao encontro dos seus desejos, por medo de quedar de pés e mãos atados à mercê de Kiyosada.

O sogro não perdera tempo, reclamando a sua ajuda no dia seguinte ao casamento, levando-o às suas ferrarias, para lhe mostrar as cópias que fizera dos arcabuzes, atazanando-o com perguntas sobre o fabrico da pólvora e das espingardas. As cópias pareciam perfeitas, porém, ao observá-las com mais atenção, Fernão apercebeu-se de que o problema não estava no parafuso, como podia ver pelos que o armeiro fizera, mas no interior da coronha, onde era necessário fazer um furo em espiral na madeira, único modo de o atarraxar. E para isso não havia ferramentas no Japão, por ser desconhecida aquela arte.

– Como o mosquete se carrega pela boca, a coronha tem de estar apertadamente fechada – explicara-lhe Fernão, acrescentando desolado: – No junco não temos como fazer a ferramenta de que haveis mister.

Kiyosada, embora nada dissesse, parecia ter ficado muito descontente com a sua inépcia, por isso, procurara satisfazê-lo no assunto da pólvora. Juntamente com António da Mota, Zeimoto, Zhi e o bombardeiro chim do junco, lograra fazer a receita da sua composição, embora sem grande fé nos resultados, por não lhes ter sido possível testá-la.

– Aqui tendes a fórmula do my-oyaku – disse-lhe no dia em que fizera a terceira visita à esposa, rogando a Deus que permitisse a Kiyosada fabricá-la, sem fazer saltar pelos ares os paços do senhor de Tanegashima.

O sogro achava-se acompanhado por Sasakawa Koshir-o, o ecónomo do daimyō que deveria aprender a fazer o pó mágico e, se possível, melhorá-lo. Os olhos dos dois homens refulgiram à vista do papel com a receita, como se fora a fórmula mágica para a transformação dos metais em ouro.

– A mistura é composta por sete partes e meia de salitre, uma e meia de carvão e uma de enxofre. Deve ser humedecida com água e triturada num moinho, em seguida, a massa obtida tem de ser prensada, granulada e, por fim, seca.

Sem um momento a perder, os dois homens e os aprendizes lançaram-se ao trabalho. Apesar da alegria de possuir o segredo do my-oyaku, Kiyosada sentia-se muito descontente consigo próprio. O nanbanjin não lhe dera grande ajuda nas teppō, visto desconhecer por completo os segredos do seu fabrico, apenas sabia disparar com elas. Afinal, sacrificara a sua preciosa Wakasa por uma mancheia de nada, pois nem sequer estava seguro de que a fórmula do my-oyaku estivesse certa.

IX

A relva do vizinho está sempre mais verde

(japonês)

Carta do Senhor de Satsuma ao Senhor de Tanegashima:

Eu, Shimazu Tadayoshi, vos faço saber, filho meu, que me certificaram homens que vieram dessa terra que tínheis nessa vossa cidade uns três tenjikujins do cabo do mundo, gente muito apropriada aos Japões, e que vestem seda e cingem espadas, não como mercadores que fazem fazenda, senão como homens amigos de honra, e que pretendem por ela dourar seus nomes, e que de todas as cousas do mundo que lá vão por fora vos têm dado grandes informações, nas quais afirmam em sua verdade que há outra terra muito maior que esta nossa, e de gentes pretas e baças, cousas incríveis ao nosso juízo.

Pelo que vos peço muito, como a filho igual aos meus, que pelo Hizen-dono, por quem mando visitar minha filha, me queirais mandar mostrar um desses três que me lá dizem que tendes pois, como sabeis, mo está pedindo a minha prolongada doença e má disposição, cercada de dores, e de muita tristeza e de grande fastio.

Se tiverem nisto algum pejo, os segurareis na vossa e na minha verdade, que logo sem falta o tornarei a mandar em salvo, e como filho que deseja agradar a seu pai, fazei que me alegre com sua vista, e que me cumpra este desejo, e o mais que nesta deixo de vos dizer, vos dirá o Hizen-dono, pelo qual vos peço que liberalmente partais comigo de boas novas de vossa pessoa e de minha filha, pois sabeis que é ela a sobrancelha do meu olho direito, com cuja vista se alegra meu rosto.

(Peregrinação, capítulo CXXXV)

O poderoso senhor de Satsuma enviara como emissário o seu Hizen-dono ou governador de província, com uma carta para Tokitaka, juntamente com um presente de abanos e um terçado guarnecido a ouro. O daimyō, depois de ler a missiva em respeitoso silêncio, mandara preparar aposentos para agasalhar o embaixador e o seu séquito, despedindo em seguida com boas palavras os mercadores que tinham vindo do mesmo barco prestar-lhe homenagem e trazer-lhe presentes.

Quando a sala ficou despejada de visitantes, o daimyō fez sinal aos portugueses para se acercarem e ordenou ao tçuzzu que lhes trasladasse a carta, cuja substância parecia ter-lhe causado alguma contrariedade, porque ficara de semblante um tanto carregado. Tanegashima era tributária de Satsuma, a mãe e a esposa do Nautoquim pertenciam ao grande clã guerreiro Shimazu, embora de ramos de família distintos que se digladiavam pela posse das províncias de Satsuma e Ōsumi, no sul da ilha de Kyushu. A mãe era filha de Shimazu Tadaoki, chefe dos Satsuma e a mulher era filha de Shimazu Tadayoshi, chefe dos Isaku172, casado com a irmã de Tadaoki. Assim, o senhor de Tanegashima era neto de Shimazu Tadaoki que era também tio da sua mulher, não podendo por isso recusar-se a satisfazer-lhe o pedido.

– Pela grande obrigação que devo ao meu senhor Shimazu Tadayoshi – diz-lhes, quando o monge termina a leitura da carta –, estou tão desejoso de lhe fazer a vontade que dera agora grande parte da minha terra para lhe satisfazer este gosto, sabendo que ele o estimaria muito. Assi, vos rogo muito, Murashukusha e Kirishita, que um de vós vá a Satsuma, porque a Furanchisuku não o hei-de apartar de mim até que de todo me não ensine a atirar como ele.

– Beijamos as mãos de Vossa Alteza pela mercê que nos faz em se querer servir de nós – responde Cristóvão, percebendo que o moço daimyō, embora contrariado, é forçado a obedecer, por razões de vassalagem. – Ordene qual de nós quer que vá, porque esse se irá logo fazer prestes.

O Nautoquim parece aliviado, mas franze as sobrancelhas, enrugando a testa, como se deliberasse sobre uma escolha difícil, dizendo por fim:

– Vá, então, Murashukusha, que é mais alegre e menos sisudo, para desmalenconizar o enfermo. Levará uma teppō de presente ao senhor meu tio e regressará em breve para os braços da sua esposa.

– Uma teppō, Alteza? Não seria melhor guardar segredo de tão precioso objecto?

– Em tempos antigos, o príncipe de Io, embora morresse de desejo de possuir a espada de Kisatsu, não lha pediu. Todavia, Kisatsu adivinhando-lhe a vontade ofereceu-lha. Apesar de Tanegashima ser um pequeno feudo situado na última extremidade da terra, eu não sou tão mesquinho que recuse seja o que for ao senhor de Satsuma, mesmo sem ele mo solicitar.

Os portugueses admiram a generosidade do jovem daimyō ou a sua perspicácia em compreender que já não poderia guardar o segredo das armas, mesmo que quisesse, devido aos muitos rumores que se tinham espalhado pelo arquipélago desde a primeira exibição. Gracejava com os seus conselheiros, trocando ditos e galanterias, quando Hizen-dono regressa da visita à filha do senhor Tadayoshi. Tokitaka anuncia-lhe a ida do tenjikujin e faz-lhe muitas recomendações sobre a sua segurança.

Manda entregar a Fernão duzentos taéis para o caminho, que ele agradece, um pouco mais animado. Não se sente tranquilo a viajar sozinho até uma terra desconhecida, cujo povo nunca vira gente como ele, porém, a premência de Kiyosada para lhe arrancar os segredos que ele não possui ainda o assusta mais. Pede licença ao daimyō para se retirar e vai fazer-se prestes, porque o emissário pretende partir nessa mesma noite.


Neste passo da movimentada odisseia ou peregrinação de Fernão Mendes Pinto, em que o herói faz os seus preparativos para a viagem, aproveita a presente narradora o momento de pausa para, sem grande risco de lhe fazer perder o fio à meada, se justificar perante o leitor quanto à matéria deste capítulo e ao modo como lhe faz a sua narração. Quase quarenta anos depois destes sucessos, escreveu o autor, no seu livro de memórias e experiências, que viajara para o reino do Bungo, quando na verdade esteve no de Satsuma, a cujo daimyō o senhor de Tanegashima se ligava por laços familiares e políticos.

Um engano, como tantos outros achados na sua obra, que se podem atribuir não só ao lapso de tempo de mais de três décadas, decorrido sobre os acontecimentos, como pela imensidade de eventos extraordinários, lugares, visitas, recepções, acidentes e desastres vividos pelo aventureiro, que dariam para preencher sete vidas. Irá ao Bungo, mas só na sua segunda viagem ao Japão.

Com base em outros testemunhos, mormente das crónicas dos reinos visitados por Fernão Mendes Pinto, à distância de cinco séculos, esta sua narradora tem procurado corrigir algumas das discrepâncias ou lapsos; todavia, não tendo achado para esta visita nenhuma outra fonte, recorre em alguns passos da sua narrativa à própria obra do autor, não por plágio, mas para dar o seu testemunho ao leitor que não a leu. Feito o aviso, retomemos a narração já com o aventureiro a meio da sua viagem.


A navegação faz-se com ventos bonançosos, sem incidentes, além de uma paragem na angra de Yamagawa, onde permanecem dois dias de visita ao capitão da cidade, um cunhado do Hizen-dono que estava muito doente. A visita parece dar ânimo ao enfermo que melhora de saúde e os despede com um grande presente de alimentos frescos. Na manhã do terceiro dia, seguem para norte até o porto de Kagoshima, no extremo oposto da magnífica baía enquadrada pelas penínsulas de Satsuma e de Ōsumi, que Fernão considera perfeito para abrigar as grandes naus do trato portuguesas. Numa espécie de ilhéu em frente do porto ergue-se o vulcão de Sakurajima que lança nuvens de grosso fumo e cinzas, trazidas pelo vento até ao barco, enchendo o português de temor

Deixam a funce e seguem a cavalo para casa do Hizen-dono, onde chegam ao meio-dia, sendo o tenjikujin muito bem recebido pela sua mulher e filhos, quando conseguem sair do pasmo que a estranha figura lhes causa. Depois de comerem e descansarem do trabalho do caminho, o governador e os seus parentes preparam-se para a visita a Shimazu Tadayoshi, envergando vestidos de cerimónia, tendo Fernão posto as suas melhores roupas de nanbanjin, por saber que a sua vista irá despertar a curiosidade do rei173 e dos nobres da sua companhia.

O luzido cortejo segue para o palácio, com muita gente a pé, indo a cavalo os principais membros da família, com o Hizen-dono na frente levando a seu lado o tenjikujin, de cuja presença se soube na cidade, fazendo acorrer gente de todas as partes para o ver passar. No palácio são recebidos por um menino de dez anos, filho do daimyō, acompanhado por nobres com uma guarda de seis porteiros de maças. O Hizen-dono, Fernão e toda a comitiva prostram-se a seus pés.

O príncipe dá-lhes as boas-vindas, falando com um siso mais próprio de homem que de menino, apesar do espanto que lhe causa o tenjikujin; manda-os erguer e, seguido pelo seu séquito, conduz o governador e Fernão ao paço real. Nos aposentos privados, o daimyō jaz entrevado numa espécie de camilha, tendo à sua volta as filhas e a esposa principal, sentadas sobre os calcanhares no estrado segundo o seu costume. De cada lado da espaçosa câmara, alinham-se os principais parentes e ministros do reino, de pernas cruzadas sobre os tatami.

Prestam homenagem ao senhor de Satsuma que os recebe com nova cerimónia e, depois de ler a carta de Tokitaka que o governador lhe entrega, faz-lhe algumas perguntas sobre a filha, sempre de olhos postos no tenjikujin. Fernão mantém-se um pouco afastado, tendo atrás de si o tçuzzu Sōgi que o Nautoquim lhe dera em Tanegashima, um letrado muito sabedor que, em voz sussurrada, lhe faz a traslação em língua chim de tudo o que ouvem. A pedido de Tadayoshi, o Hizen-dono chama Fernão, que vem ajoelhar-se no estrado, seguido como uma sombra pelo intérprete. O governador faz a sua apresentação, transmitindo os elogios que o genro fizera ao nanbanjin, acrescentando alguns da sua lavra, pois durante a viagem ganhara-lhe amizade. O português curva o torso numa profunda cortesia, erguendo acima da cabeça a espingarda embrulhada num luxuoso pano bordado, entrega-a em seguida à rainha, dizendo em voz alta: Teppōki.

A esposa do daimyō desembrulha a arma e mostra-a ao marido que não pode mover os braços. Exclamações de surpresa partem da assistência, à vista da arma nanban; por momentos o rosto de Tadayoshi, que se mantinha sereno e impenetrável apesar das dores, deixa transparecer o espanto, franzindo as sobrancelhas e enrugando o rosto.

– Prezaremos este presente como o maior tesouro da nossa família e Tanegashima Tokitaka tem a nossa gratidão para sempre – agradece o daimyō, saudando o enviado: – A tua chegada a esta terra, de que eu sou senhor, seja ante mim tão agradável como a chuva do Céu no meio do campo dos nossos arrozes.

A graciosa saudação, tão diferente de tudo o que Fernão ouvira, mesmo naquela nação de tanta polícia, deixou-o mudo de embaraço.

– Sinto turvação no tenjikujin – continua Tadayoshi, olhando para os senhores que estavam presentes. – Será talvez por ver tanta gente, cousa a que pode estar desacostumado, pelo que será bom deixarmos isto para outro dia, porque se fará mais à casa e não estranhará ver-se no que se agora vê. Também eu desejo muito que ele me faça prestes uma demonstração com esta teppō, estando menos assustado.

Fernão contara com a ajuda de Sōgi, durante a viagem de barco, na preparação de um discurso de agradecimento, para o que desse e viesse, pelo que pode responder ao senhor de Satsuma, sem hesitações no idioma chim, com o língua a fazer a dupla interpretação em alta voz, para que todos ouçam:

– Quanto ao que Vossa Alteza diz de me sentir turvado, vo-lo confesso, mas não por causa da muita gente de que me vejo cercado. Ao ver-me diante dos vossos pés, isso só bastava para eu ficar mudo cem mil anos, se tantos tivera de vida, porque a Vossa Alteza fez Deus em tão alto grau avantajado de todos, para que fosse senhor e os outros fossem servos. E eu, sendo formiga tão pequena em comparação com a vossa grandeza, temi que nem vós me enxergásseis, nem eu soubesse responder às vossas perguntas, tal como podeis ver por esta minha tosca e grosseira resposta.

Fernão mal pode crer no efeito que as suas palavras causam na assistência, ouvindo-os bater as palmas a modo de espanto e soltar exclamações que o intérprete lhe traslada, cúmplice:

– Vede como fala o tenjikujin!

– Não deve ser mercador, porque essa gente só trata em baixeza de comprar e vender!

– Será um bonzo pregador, na sua terra?

– Parece mais um guerreiro. ou homem criado para corsário do mar.

– Calai-vos – diz Tadayoshi, rindo –, porque quero fazer-lhe perguntas. A sua vinda apraz-me tanto, que nem sinto dores e até me apetece comer!

A consorte e as filhas, felizes de o verem assim animado, sorriem ao nanbanjin como a agradecer-lhe o milagre. O daimyō passa cerca de meia hora a fazer-lhe perguntas iguais às que Tokitaka formulara quando vira os portugueses pela primeira vez. Fernão espanta-se da ignorância que os reis, os nobres e o povo do Japão mostram sobre o mundo, como se lhes custasse a crer que pudesse haver outras nações além da sua; mesmo tendo relações com os chins, tomavam a China como mais uma ilha que poderia ser facilmente conquistada como as Ryūkyū ou Léquias. Responde-lhe, como em Tanegashima, encarecendo a grandeza do reino de Portugal ou Pu-Li-Du-Jia, como eles diziam.

Felizmente trazem-lhe de comer, interrompendo o interrogatório. O daimyō faz-lhe sinal para se acercar da camilha com o seu língua, enquanto se esforça, em vão, por engolir pequenos pedaços dos petiscos que as filhas retiram com os pauzinhos dos pratos preparados com o requinte de obras de arte e lhe levam delicadamente à boca.

– Rogo-te de que não te enfades de estares junto de mim, porque folgo de falar contigo. – Baixa a voz, a ponto de Sōgi ter de esticar o pescoço para o ouvir, e prossegue: – Pareces ser homem sabedor e experto em muitas artes. Nessa tua terra do cabo do mundo, não haverá alguma mezinha para esta enfermidade que me traz aleijado e com fastio, pois há dois meses me não apetece cousa alguma.

A proveitosa aprendizagem com o boticário da nau e com o doutor Garcia de Orta, que lhe fora tão útil no seu atribulado cativeiro na China, salvando-lhe a vida e as dos seus companheiros, permite-lhe agora reconhecer os sintomas da doença de Tadayoshi. E, como quem não se aventurou não perdeu nem ganhou, decide arriscar o prognóstico e o respectivo tratamento com o pau-da-china:

– Não sou físico, meu senhor, nem aprendi essa ciência, mas no junco em que vim da China, há um pau cuja água de cozimento cura enfermidades muito maiores que a de Vossa Alteza. Se o tomardes, tereis logo saúde, sem falta nenhuma. – Pede a Deus que lhe perdoe a jactância e o ajude com aquela cura ou ver-se-á metido em palpos de aranha. – É semelhante à raiz das canas comuns, mas vermelho por fora e esbranquiçado por dentro, com certa cor vermelha.

O daimyō folga muito de o ouvir e envia logo um mensageiro ao sobrinho, em Tanegashima, com uma carta de Fernão para Zeimoto a pedir-lhe que lhe mande sem demora uns pedaços de pau-da-china, de que há boa provisão na botica do junco, além de outras ervas necessárias para os minorativos e rectificações da cura.


Tendo referido neste mesmo capítulo a confusão que Fernão Mendes Pinto faz entre o reino de Bungo e o de Satsuma, a narradora não resiste, a propósito deste tema, a levar o seu leitor noutro salto no tempo, até um momento ainda não vivido no presente da sua personagem (porque só terá lugar durante a sua segunda viagem ao Japão, desta feita ao dito reino do Bungo), para lhe contar uma aventura fora de comum que vem a talhe de foice e decerto o divertirá, quando a ler no capítulo seguinte.

172 A esposa de Tokitaka teve duas filhas, mas deixou-o no ano de 1556 quando a concubina do marido deu à luz um filho.

173 Os portugueses davam o nome de reis aos daimyos e de reinos aos seus feudos.

X

Caia sete vezes, mas levante-se oito

(japonês)

Relação de Jorge Álvares174 ao Padre Francisco Xavier, 1546:

Esta terra do Japão treme algumas vezes. É terra de muito enxofre. Há ilhas de fogo que todo o ano deitam fumo. Algumas também fogo. Delas são povoadas, delas não. Pela maior parte todas são ilhas pequenas. É terra esta do Japão muito ventosa e cheia de tormentas. Cada lua nova e cheia há mudamento de tempo. Principalmente no mês de Setembro vem cada ano um vento tão rijo que não há cousa que o espere. Porque dá com os navios em seco três ou quatro braças pela terra dentro, e se estão em terra, às vezes os torna ao mar.

Ao tempo que donde eu estava, a trinta léguas se perderam sessenta e dous navios chins e uma nau portuguesa. Dura só vinte e quatro horas, e começa ao Sul e acaba no Noroeste, correndo por todos os rumos. É vento que é conhecido por uma chuvazinha que vem sempre diante, e com este sinal175 se asseguram os homens da terra.

Fora com um imenso alívio que Fernão se vira livre das guerras dos siames e dos bramaas, nos finais da década de quarenta, para volver a Malaca, de onde embarcara com Jorge Álvares, um capitão mercador natural de Freixo de Espada-à-Cinta, que ia de veniaga para o Japão numa nau de Simão de Melo, capitão da fortaleza.

Após vinte e seis dias de navegação com boa monção, de ventos bonanças, avistaram a ilha de Tanega ou Tanegashima. Fernão, que não queria voltar a pisar a terra do daimyō Tokitaka – por razões que serão dadas mais adiante –, invocou os seus conhecimentos das ilhas para convencer Álvares de que aquele porto não era seguro, se sobreviesse novo temporal. O capitão concordou e rumaram para o reino do Bungo, que ficava cem léguas a Norte, tendo aportado cinco dias mais tarde à cidade de Fucheu176.

A notícia da chegada de um nanbansen, um navio dos bárbaros do Sul, como o que anos antes aferrara à insignificante Tanegashima, enchera Otomo Yoshshige de alvoroço, pela possibilidade de vir a possuir aquilo que mais desejava no mundo: uma teppō e o segredo do seu fabrico. Quando tivera conhecimento da maravilha trazida pelos nanban aos daimyō rivais, os seus espias conseguiram-lhe facilmente a fórmula do my-oyaku, o pó mágico usado na arma de fogo, mas não fora possível descobrir como eram fabricados os prodigiosos objectos. Os armeiros de Tokitaka e do seu sogro Shimazu Tadayoshi tinham feito uma boa quantidade de exemplares para usar na guerra dos seus clãs, mas as armas mostraram-se pouco eficazes por rebentarem após alguns disparos.

Soubera que, por extraordinária sorte ou pela protecção dos espíritos tutelares, um dos nanbanjins era Murashukusha, o mesmo que visitara o Nippon pela primeira vez e dera ou vendera a sua teppō ao senhor de Tanegashima. Corria pelas ilhas uma obscura história sobre o armeiro Yaita que dera a filha em casamento ao tenjikujin em troca do segredo do fabrico das teppō e do my-oyaku e que, por isso, se tinham desavindo e apartado descontentes.

Se assim fosse, Otomo esperava usar o descontentamento do estrangeiro em seu proveito, fazendo-lhe ofertas irresistíveis de tratos comerciais em troca do bendito segredo. Sem demora, enviou-lhes uma pequena embaixada de boas-vindas com presentes de refresco, para convidar Mura-shukusha, o capitão do nanbansen e os seus oficiais a visitarem-no, para falarem da venda das suas fazendas. Rogava àquele que já conhecia os usos da terra que levasse a sua teppō para uma demonstração, como fizera aos senhores de Tanegashima e Satsuma.

Segundo Fernão pôde depreender da mensagem que os enviados do daimyō trouxeram à nau, não existiam laços familiares ou de vassalagem entre o jovem Tokitaka de Tanegashima e Otomo Yoshshige, o poderoso senhor do reino do Bungo, de Higo e de Chikuzen.

– Que belo recebimento, Fernão! Ou devo dizer Murashukusha? – brincou Jorge Álvares, impressionado pela delicadeza dos enviados, com as suas cortesias e zumbaias sem fim, mas também pelo reconhecimento do companheiro e do modo como ele falara em chim com o seu língua. – Ainda bem que vieste connosco! Conhecem o teu nome, ao fim de tanto tempo e num reino onde nunca puseste os pés? Que fizeste tu aos japões, para seres tão reputado nesta terra?

– Oferecemos ao senhor de Tanixumaa um mosquete e um arcabuz, armas que eles nunca tinham visto – respondeu, tentando dominar a emoção causada por recordações que desejava esquecer e a conversa lhe trouxera à memória ainda dolorosas. – Como os seus daimyō andam sempre em guerra uns com os outros, acharam-nas umas armas magníficas e quiseram aprender a fabricá-las. O Ōtomo Yoshshige pensa o mesmo e cobiça um mosquete!

– Se com a oferta de um mosquete e de um arcabuz conseguires que este rei conceda isenção de tributos às nossa fazendas, eu próprio tos darei, dos melhores da armaria da nau, meu amigo.

– Ele vai querer que os seus armeiros aprendam a fabricá-los, podes crer! Da primeira vez não lhes pudemos ensinar porque não tínhamos ferreiro que fabricasse a peça que eles não podiam fazer por não terem utensílios apropriados, o que os deixou bastante descontentes.

– Desta vez tens o nosso ferreiro que lhes ensinará o que quiserem saber. Vou preparar o presente para o daimyō e tu vai fazer tiro ao alvo, como treino para a demonstração, pois não podes fazer má figura ou arruínas o nosso negócio. – Soltou uma gargalhada prazenteira e deixou-o, sem reparar na expressão carregada do seus rosto.


Por fim podia descansar dos trabalhos em que andava metido há mais de um mês, a fazer junto de Ōtomo Yoshshige o mesmo papel de Zeimoto em relação a Tokitaka, com a diferença de que o Senhor do Bungo era um rei muito mais poderoso, portanto, mais sujeito a sofrer conspirações e traições dos seus aliados, que rapidamente podiam passar a perigosos rivais e fazê-lo assassinar pelos seus samurais sem uma hesitação. Por isso se empenhara tanto em conseguir para o seu clã aquilo que considerava ser um segredo bem guardado dos nanbanjins – o fabrico das teppō.

Como Fernão calculara, a sua demonstração de tiro, primeiro aos komanaku, os seus cisnes de papel, em seguida às rolas, pombos e codornizes, de que a terra era bem abastada, maravilhara não só o daimyō, como toda a gente daquele reino, para quem este tiro de fogo era coisa tão nova como fora para os de Tanegashima. Os parentes e aliados de Ōtomo vieram dos seus feudos mais afastados para assistirem às demonstrações de Fernão e dos melhores atiradores da nau, não se cansando de admirarem e encarecerem as maravilhosas teppō.

A oferta das duas armas, em seu nome e no do capitão, assim como os ensinamentos do ferreiro aos seus armeiros que, em pouco tempo, levaram os habilíssimos artífices japões a fabricarem a primeira arma com a coronha perfeitamente fechada, sem risco de rebentamento, criara ao daimyō uma eterna dívida de gratidão que nada parecia capaz de saldar. Com a isenção de tributos e outros benefícios que lhes concedera nos tratos das fazendas, os portugueses tinham vendido tudo o que traziam, até à última peça, incluindo algumas de seu próprio uso, com tanto proveito que estavam todos ricos, com as bolsas recheadas de prata.

O maior admirador dos mosquetes era Hachirō-dono, o segundo filho de Ōtomo, de dezasseis anos, que não deixava Fernão sossegado com insistentes pedidos para que lhe ensinasse a disparar.

– É uma arte que leva anos a aprender, Alteza – escusava-se Fernão, temendo que, com o azar que sempre o perseguia, a arma rebentasse e matasse o rapaz ou tão-só o ferisse, acabando por metê-lo em trabalhos que lhe poderiam custar a vida.

O daimyō, que amava muito o filho, ouviu as suas queixas e intercedeu por ele junto do estrangeiro177:

– Uma alegria espanta mil preocupações, meu amigo. Ensina-o a dar um par de tiros, só para lhe satisfazer o apetite, senão não nos deixará em paz.

– Dous, quatro ou um cento! Quantos Vossa Alteza mandar! – respondera, escondendo a sua preocupação.

– Em breve Hachirō-dono irá ter contigo para a sua lição – dissera o pai.

No resto da semana não dera mais atenção ao assunto, nem o moço voltara a importuná-lo, para grande contentamento de Fernão, decidido a não fazer nada para lhes lembrar a promessa.

Num sábado, em que o português dormia a sesta deitado numa esteira, na casa perto dos paços do daimyō, onde ele lhe dera pousada para melhor o ter à sua disposição, o príncipe apareceu para a lição, com dois moços fidalgos da mesma idade. Vendo-o a dormir e a espingarda pendurada ali mesmo à mão, Hachirō-dono fez sinal aos companheiros para não despertarem o nanbanjin, mandou um deles acender o morrão sem barulho, enquanto carregava o mosquete do modo como o vira fazer mais do que uma vez.

Ao destapar o polvorinho hesitou, por não saber a quantidade exacta de pólvora que Murashukusha costumava meter na arma, porém, não podia perder a face diante dos seus companheiros e, com gestos que pretendeu seguros, encheu o cano com mais de dois palmos de my-oyaku, metendo-lhe em seguida o pelouro que tirou da pequena bolsa junto do polvorinho. Estava pronta a disparar! A admiração que leu nos rostos dos amigos e a sensação de poder que a teppō lhe transmitia inebriaram-no. Pôs a arma ao rosto, apontou para uma cerejeira do jardim, na sua frente, chegou o morrão aceso ao buraco do cano, como fazia o tenjikujin, e disparou.

O mosquete rebentou por três lados, com tamanho estrondo que quase rasgou a fusuma, o painel móvel de papel delicadamente pintado. Um dos estilhaços de madeira da coronha abriu-lhe um lanho na fronte e o gatilho cortou-lhe o dedo polegar da mão direita até ao osso. O príncipe caiu por terra desacordado, banhado em sangue, ao mesmo tempo que Fernão acordava com um berro de susto, erguendo-se de um salto e os dois moços fidalgos fugiam em corrida para o paço, a gritar a plenos pulmões:

– A teppo do nanbanjin matou Hachirō-dono!

– O pau-de-fogo do tenjikujin matou o príncipe!

Os moradores tomaram armas, em grande gritaria e acorreram ao paço, crendo que samurais de outro clã assassinavam Ōtomo e a sua família.

Fernão só se apercebeu da presença do daimyō e da rainha, quando os viu à entrada da sala, rodeados de fidalgos e damas nobres da corte. Estava fora de si, tão pálido e desatinado como os pais do ferido, que estacaram pasmados ao ver o nanbanjin, sentado no chão com os braços em volta do príncipe, cuja cabeça estava deitada no seu regaço, ambos ensopados no sangue que o português conseguira por fim suster com o lenço que lhe atara em volta da ferida da testa e o dedo que ligara com um farrapo arrancado à camisa. A rainha, com o cabelo desalinhado e o rosto coberto de lágrimas vacilou e teve de ser amparada pelas suas damas para não tombar por terra desacordada.

– O nanbanjin matou Hachirō-dono! O tenjikujin assassinou o príncipe! – o sussurro percorria a assistência, ganhava voz, prolongando-se para fora da casa já num grito de muitas gargantas dos que não viam mas adivinhavam a tragédia.

Desembainhando as espadas de fina lâmina – capazes de cortar de um só golpe um véu que esvoaça pelo ar ou separar a cabeça de um tronco, como uma corola da sua haste –, dois samurais arremeteram contra Fernão, que não se moveu, nem pestanejou, alheio a tudo o que não fosse o negrume da sua má sorte, que não lhe concedia tréguas. Estava tão cansado desta implacável perseguição que dava a morte por bem-vinda.

– Não, deixai-o viver! – bradou Ōtomo, incrédulo de que aquele homem fosse o autor de tal crime. Os samurai embainharam as espadas e ataram as mãos de Fernão, arrastando-o para longe do príncipe e lançando-o aos pés do daimyō. – Chamai aqui o seu tçuzzu, que o quero inquirir primeiro, porque suspeito que ele não estará sozinho neste feito. Pode ter recebido peitas dos parentes dos tredos que eu mandei justiçar. Que têm a dizer os companheiros do meu filho?

Temendo que lhes assacassem alguma culpa no acidente, os moços responderam às muitas perguntas sempre com a mesma frase:

– A teppo do nanbanjin matou Hachirō-dono com uns feitiços que tem dentro do cano.

– Senhor, precisas de ouvir mais? Para quê? – gritavam, indignados os cortesãos.

– Faz justiça neste tenjikujin criminoso! Dá-lhe a morte cruel que a merece.

O jurubaça tinha fugido com medo, o que parecia uma admissão de culpa aos olhos de Ōtomo que adivinhava a conspiração dos Mōri e o banho de sangue que um dia haveria de ocorrer nos seus feudos, só Murashukusha parecia não encaixar naquela intriga. O bonzo que tinha cargo da justiça dos crimes, pelo contrário, não duvidava da sua culpa e mandara já chamar dois escrivães para fazerem o assento das perguntas e respostas da sua inquirição. Trouxeram o jurubaça preso, que baqueou de joelhos a tremer diante do daimyō, mal conseguindo falar.

– Sofrerás um castigo exemplar se mentires! – ameaçava-o o bonzo de rosto severíssimo.

O língua jurava por entre lágrimas e soluços que diria com verdade tudo o que soubesse, mas nada sabia, pois não se achava presente no momento do crime; também nunca vira o tenjikujin ter encontros secretos ou às claras com outra gente fora do clã de Ōtomo Yoshiaki.

Quando tocou a vez a Fernão de ser interrogado, fizeram-no ajoelhar-se diante deles e o ministro da Justiça que arregaçou as mangas e falou sem gritar, embora com voz forte, acostumada a ser obedecida:

– Ordeno-te que nos digas em voz alta, para que todos te ouçam, por que razão quiseste matar este bom príncipe, tão moço e inocente, com as feitiçarias da tua maldita teppō?

Fernão continuava sem dar fé do que o rodeava, como ausente da alma. Mais tarde, ao contá-lo a Jorge Álvares, teria dificuldade em lembrar-se daquele julgamento em que se decidia se haveria de viver ou morrer.

– Se não responderes às minhas perguntas – insistiu o bonzo furioso com aquela atitude que tomava por contumácia –, serás condenado à morte de sangue, fogo, água e sopro de vento, para nos ares seres despedaçado como pena de ave morta que se divide em muitas partes.

Não obteve qualquer reacção do estrangeiro, cujos olhos pareciam vazios. Exasperado, o ministro deu-lhe um violento pontapé, para o despertar, bradando-lhe:

– Fala, confessa! Quem te deu peitas? Como se chamam os que te peitaram e onde vivem? Quanto te deram para matar o príncipe? E a Ōtomo Yoshshige, também intentavas matá-lo?

Fosse com a dor do coice que recebera no baixo-ventre ou a voz do bonzo a martelá-lo com perguntas, Fernão pareceu despertar e ousou responder-lhe, embora olhando para o Senhor do Bungo:

– Deus o sabe e a ele tomo por juiz da minha causa.

Contou que dormia e não vira nada do que se passara, senão quando despertara com o estrondo do arrebentamento da arma e vira o príncipe caído no chão coberto de sangue. O bonzo não pareceu satisfeito da resposta nem mostrou acreditar na sua história, ameaçando-o com medonhos castigos se não confessasse o seu crime.

– Peço-vos muito que não choreis – a voz do príncipe era fraca, mas teve a virtude de silenciar toda a gente. Olhava para os pais e, vendo marcas dos desgosto nos rostos pálidos, pareceu contrito e envergonhado. – Não deiteis a ninguém, muito menos a Murashukusha a culpa deste acidente, porque só eu sou culpado. Rogo-vos por minha vida, meu pai e senhor, que o mandeis soltar ou morrerei de remorso.

Ōtomo, com um grande sorriso de alívio, satisfez o pedido de Hachir-o-dono e mandou soltar Fernão. Chamaram duas juntas de bonzos físicas para o tratarem, mas o príncipe recusou-as, ao ouvir-lhes as arengas.

– Tirem-me esses diabos da frente – protestou agastado, impaciente com as dores dos ferimentos. – Tragam-me outros médicos que me não digam que Deus foi servido em eu estar desta maneira!

O daimyō estava desesperado e alguém alvitrou que se chamasse um velho bonzo, muito afamado, da cidade de Fucata. Com voz enfraquecida, mas num tom de grande zombaria, o príncipe respondeu-lhes:

– Belo conselho dais a meu pai, vendo-me assim tão ferido e necessitando de ser curado, para se me estancar o sangue. Quereis então que eu espere por um velho podre, que está a cento e quarenta léguas daqui, de ida e vinda, pelo que levará seguramente um mês a cá chegar?! – Ergueu a mão entrapada e voltou a cabeça com o lenço tinto de sangue para o daimyō, a fim de o comover com o seu rogo: – Meu pai, despejai esta casa e desafrontai Murashukusha, que não ganhou para o susto. Sossegai-o de que nada de mal lhe sucederá. Lembrai-vos de que ele não queria que eu mexesse nas teppō. – Soltou uma breve risada e acrescentou: – Ele me curará como souber, porque antes quero que me mate um homem que tanto tem chorado por mim, como esse coitado, do que o bonzo de Fucata de quase cem anos e sem vista nos olhos!

– Rogo-te que vejas se me podes valer neste perigo em que vejo meu filho – pediu Ōtomo a Fernão, que mal podia crer na súbita reviravolta daqueles sucessos –, porque te juro que quanto me pedires será teu, se mo deres são.

Os bonzos fizeram ouvir um coro de protestos, no entanto, o daimyō não lhes prestou atenção. E o médico, à força, fez valer a sua nova autoridade:

– Vossa Alteza deve mandar sair esta gente toda, porque fazem grande vozearia e o príncipe precisa de repouso, tal como eu necessito de silêncio para o tratar. Em um mês o farei são, se me deixarem sozinho.

Apesar da sua turvação quando vira Hachir-o-dono caído no chão a sangrar, ao ligar-lhe a cabeça com o lenço e o dedo com o trapo, apercebera-se com certo alívio de que as feridas, embora grandes, não pareciam perigosas. O polegar ficara meio pendurado, mas com uma fractura limpa, quanto à ferida da fronte, apesar de comprida, era pouco profunda, estando ambas ao alcance dos cuidados que permitiam as suas habilidades de aprendiz de barbeiro sangrador e físico.

– Prometo que te farei muito rico se deres saúde ao meu filho.

– Vossa Alteza verá com que cuidado o farei – respondera com lágrimas nos olhos.

Levara a cura a bom termo, embora sofresse, como em Satsuma anos antes, a má vontade, perseguição e intrigas dos bonzos médicos, muito zelosos e escandalizados do favor que o daimyō conferia ao nanbanjin.


Com a liberdade de que goza qualquer contador de histórias, na manipulação do tempo na sua narração, a narradora transcreve, em benefício do seu leitor, o que Fernão contou mais tarde ao padre Francisco Xavier, na sua terceira viagem ao Japão, onde ajudou o jesuíta a construir a primeira igreja naquela terra, emprestando-lhe uma pequena fortuna em prata de que ele nunca chegou a reembolsá-lo:

– Preparei tudo o que era necessário para a cura, e comecei logo pela ferida da mão por me parecer a mais perigosa, e lhe dei nela sete pontos, mas se fora curado por mão de cirurgião quiçá que muitos menos lhe bastaram, e na ferida da testa, por ser mais pequena, lhe dei cinco somente, e lhe pus em cima estopadas de ovos, e lhas atei muito bem como algumas vezes vi fazer na Índia. Aos cinco dias lhe cortei os pontos e continuando assi com a minha cura quis Nosso Senhor que dentro em vinte dias ele foi são, sem lhe ficar mais mal que só um pequeno esquecimento no dedo polegar, pelo qual el-rei e todos os senhores dali por diante me fizeram sempre muito gasalhado e muita honra.

Retomemos agora a narrativa principal que deixámos a meio, quando Fernão se prepara para cuidar pela primeira vez da saúde de um daimyō japonês.

174 Não confundir com o navegador do mesmo nome que foi o primeiro a pisar Cantão, em 1513.

175 O centro ou olho do tufão, com rotação em espiral, desloca-se no sentido de traslação com relativa calma, mas os efeitos da baixa pressão caracterizados pela chuva abarcam centenas de quilómetros à volta.

176 Ou Fuchu, actual cidade de Oita.

177 Peregrinação, capítulos CXXXVI e CXXXVII.

XI

As dificuldades são como as montanhas:

só se aplainam quando avançamos sobre elas

(japonês)

Um sangrador de Leirea

me sangrou estoutro dia,

e vedes que me fazia:

andand’a buscar a vea,

foi-me no cu apalpar:

al fodido irá sangrar

sangrador en tal logar!

Este sangrador, amiga,

Traz ūa nova sangria,

Onde m’eu non percebia:

Filhou-me pela barriga,

Começou a sofaldrar:

al fodido irá sangrar

sangrador en tal logar!

E tal sangrador achedes,

Amiga, se vos sangrades:

Quando vos não percatades,

Se lho consentir queredes,

Querrá-vos ele provar:

al fodido irá sangrar

sangrador en tal logar!

Quem tal jogo quer jogar,

Com sa mãe vá joguetear

(João Fernández d’Ardeleiro)

A notícia de que Tadayoshi pedira ao nanbanjin para lhe tratar a doença chegou aos ouvidos dos bonzos médicos que se escandalizaram de tal modo que uma comissão encabeçada pelo seu principal pediu audiência e apresentou-lhe com veemência os seus protestos:

– É um nanbanjin, meu senhor! Um vil mercador, tão sem polícia que come com as mãos!

– Se isto se souber, Vossa Alteza será tida em muito má conta em todo o Japão.

Interrompeu-os, muito agastado, calando-os com o remoque:

– Se em dois anos as vossas mezinhas e rezas nada puderam contra o meu mal, como ousais impedir-me de procurar cura ou alívio em outras mãos e outra ciência?

Fernão foi alojado no paço, para estar mais perto do enfermo, animando-o com as suas histórias, enquanto esperavam pelo remédio, que chegou no dia seguinte. O português sabia que se não conseguisse devolver a saúde ao enfermo, os monges não hesitariam em se vingar da humilhação de terem sido preteridos em favor de um bárbaro e pediriam a sua cabeça, amotinando o povo.

– Como há muito não fazeis câmaras, Alteza, dar-vos-ei uma purga de cozimento de ameixas ou de ruibarbo, que deve surtir o efeito desejado. Senão, meu senhor, terei de vos cristelizar com um cristel de água do pau-da-china, mel rosado, óleo violado e canafístula.

Começou por combater o fastio do enfermo com uma dieta de galinha e carneiro temperados com sal, açafrão e coentro seco, cozidos ou assados segundo requeria o apetite de Tadayoshi, espevitado pela novidade dos cheiros e sabores. Depois do doente bem purgado, Fernão preparou a mezinha. Conhecia as quantidades, o tempo de cozimento, o modo de a ministrar e os seus efeitos, porque a vira fazer muitas vezes, tanto ao boticário da nau, como ao doutor Orta e ainda aos chineses nos navios em que viajara. Numa terra fria como o Japão, havia mister usar o dobro do pau que era usado na Índia, para poder produzir efeito num doente tão grave como o senhor de Satsuma, por isso cozeu, em quatro canadas de água, duas onças da raiz em vez de uma, deixando reduzir o líquido até metade.

– Além da bebida e dos suadouros, o bafo desta mezinha, quando está a cozer, é muito bom para a dor – explicava Fernão, vigiando os criados que faziam chegar o vapor às pernas e aos braços do enfermo que ele fizera transportar para uma rede suspensa, ao modo dos índios do Brasil, que os portugueses usavam para dormir quando viajavam nas naus e juncos.

Não se atrevia a sangrar o doente para libertar humores adustos e freimas salgadas, um procedimento que costumava acompanhar esta cura, por temer que lhe cortassem a cabeça, se o vissem espetar uma lanceta no braço ou na perna do senhor de Satsuma. Vinham-lhe à memória as trovas de escárnio aos sangradores que ouvira nas naus, sempre que alguém adoecia e, sorrindo contrafeito, murmurava para se animar: Quem não arrisca. não petisca! Ministrava-lhe os tratamentos com as suas próprias mãos, desveladamente, ora dando-lhe a beber a mezinha quente para o fazer suar, ora aplicando-a com panos nos membros tolhidos, distraindo o doente com as suas histórias para o fazer comer a sua dieta de frango ou carneiro.

Vivia com o credo na boca, por medo do malogro, para mais tendo-lhe dito Sōgi que os bonzos andavam a intrigar junto dos parentes e dos ministros de Tadayoshi, falando que era blasfémia, grave ofensa aos céus o curativo feito por um bárbaro sem religião. – No saber há igualeza e na ignorância contumácia, respondera-lhe com altivez, a disfarçar o temor. Como mais vale prevenir do que remediar, tratou de se mostrar pio aos olhos dos japões, passando a acompanhar os tratamentos com rezas ou ladainhas contra o quebranto e o mau olhado, como vira fazer às velhas curandeiras de Montemor-o-Velho:

Esconjuro-te, malino,

pela terra e pelos céus

e por teu malvado sino,

mau quebranto te quebrante.

Ou ainda:

Deus te fez,

Deus te criou,

Deus te desolhe

De quem mal te olhou

Se é torto ou excomungado,

Deus te desolhe do seu mau olhado.

Após a primeira semana de cuidados, era visível a melhoria do enfermo, além de outro efeito da mezinha do pau-da-china que era o forte estímulo da carne: o daimyō, sentindo alívio das dores e maior mobilidade dos membros, ansiava pelos jogos de Vénus de que há muito vivia à míngua. Assim, teve conversação com a rainha e duas consortes no mesmo dia, sofrendo uma recaída, para grande consternação de Fernão que o admoestou respeitosamente, alertando-o contra os perigos do coito durante o tratamento:

– A virtude imaginativa ajuda muito à deleitação carnal, Alteza, rogo-vos que eviteis a presença de mulheres até ao fim do tratamento, para não cairdes de novo em tentação e danardes a cura.

– Muitos são os prazeres dos sentidos, mas o mais difícil de resistir é a ilusão do amor – notou o paciente, rindo. – Diz-se que com um cordão feito de cabelo de mulher entrançado até um poderoso elefante pode ser preso facilmente e que os veados no Outono nunca deixam de aparecer ao chamamento de um apito feito de um tamanco que foi calçado por uma rapariga!

Tadayoshi, como tinha ainda bem fresca a lembrança dos sofrimentos passados e depositava toda a sua confiança na sabedoria do nanbanjin, obedeceu-lhe e proibiu a entrada de mulheres nos seus aposentos, incluindo a rainha.

Quando terminava os tratamentos e o real enfermo o dispensava, Fernão desenfadava-se a percorrer a cidade ou a visitar o Hizen-dono e outros grandes senhores do reino que o convidavam, acolhendo-o com muitas honras e ricos presentes. No entanto, um estranho desassossego ia-lhe minando a alma, não o deixando ser contente. Surpreendia-se com o desconcerto dos seus sentimentos, causados pela imagem de Huyen (ou seria Wakasa?) que voltava a persegui-lo como uma assombração e ele sentia-lhe o peso sobre o peito, os lábios rosados que se fechavam sob os seus como um botão de rosa vermelho.

As recomendações feitas ao doente sobre os desejos da carne serviam também ao médico porque, segundo os tratados de medicina do Ocidente, como laboriosamente descrevera a Tadayoshi com a ajuda do tçuzzu, a imaginativa virtude mandava à expulsiva, que deitasse nos companhões178 a semente genital e, quanto mais se imaginava nisso, tanto vinha mais asinha ao membro a semente, de tal modo que o corpo parecia querer explodir. Bem prega frei Tomás. murmurou desalentado; tendo proibido ao doente os jogos de amor, fora incapaz de recusar os serviços da cortesã que ele pusera ao seu serviço.

Para se distrair e ao daimyō dos apetites da carne cada dia mais acesos e das imaginações que esses desejos provocavam em ambos, embora por razões distintas, Fernão preparou demonstrações de tiro da teppō e, apesar de não ser exímio a disparar como Zeimoto, também não deixou os seus créditos por mãos alheias, provocando à gente de Satsuma e aos seus senhores o mesmo espanto que causara aos de Tanegashima. Era para Tanegashima que ele desejava voltar, mais ansioso de se reunir a Wakasa do que alguma vez poderia imaginar.

Passados vinte dias de tratamentos, com grande regozijo da corte, Shimazu Tadayoshi ficou curado. Para mostrar o seu reconhecimento ao tenjikujin, deu-lhe seiscentos taéis de prata, cumulando-o de honrarias. A rainha e as suas filhas presentearam-no com muitas peças de seda, os senhores principais ofereceram-lhe terçados e abanos, de modo que a cura lhe remontou a mais de mil e quinhentos cruzados.

A carta de Zeimoto e Cristóvão não podia ter chegado em momento mais propício. Os amigos instavam-no a regressar quanto antes a Tanegashima, porque o junco já estava reparado, Wang Zhi queria partir para a China e não iria esperar muitos dias por ele. O daimyō autorizou o seu regresso, dando-lhe uma funce de remos, com vinte criados e um homem nobre por seu capitão para o levar a Tanegashima.

Enquanto via Kagoshima a desaparecer no horizonte, o aventureiro imaginava o seu encontro com Wakasa e sorria com ternura. Contudo, a experiência já devia ter ensinado a Fernão Mendes Pinto que os Fados não lhe permitiam ser feliz por muito tempo.

178 Testículos.

XII

Se quiseres conhecer um cavalo, monta-o; se quiseres conhecer uma pessoa, convive com ela

(japonês)

Se vejo a ponte

lançada por voos de pegas

sobre o arco do céu

tornada alva por espessa geada

então a noite está quase no fim

(De Ōtomo no Yakamochi, membro dos Trinta e Seis Imortais da Poesia)

Olho lá ao longe,

Além de todas as flores de cerejeira

E áceres escarlates,

Para aquelas cabanas no porto

Desvanecendo-se no crepúsculo outonal

(Fujiwara Teika)

Poderei viver até

Suspirar por este tempo

Em que sou tão infeliz

E recordá-lo com ternura.

(Fujiwara no kiyosuke)

O ensinamento das Três Obediências a que se devem sujeitar as mulheres, tolhendo-lhes a liberdade de disporem da sua própria vida, martela-lhe os ouvidos e enche-a de revolta: em solteira, deve obediência ao pai ou ao irmão, em casada, ao marido e na velhice ao filho.

Quem lhe dera poder fugir e esconder-se, como as heroínas dos seus amados monogatari, mas não tem meio de escapar, nem lugar para onde ir. Tudo, mesmo a morte, seria preferível a viver na casa flutuante dos nanbanjins, como as concubinas dos corsários wokou. O navio de Murashukusha, o seu marido tenjikujin, não tardará a desenrolar as velas e a partir para o alto mar, em direcção às ilhas distantes e ela terá de o acompanhar, para viverem juntos, apesar de continuarem a ser estranhos.

Breve, fugidio é o seu mundo, onde pisa um caminho sombrio que leva à escuridão; falta-lhe todavia a força de voar, de morrer pelo seppuku, para não ter de cumprir os votos que fizera ao nanbanjin. Pior do que o ódio ou a miséria seria a perda da sua honra, do seu bom nome.

Quando no seu corpo de menina despontaram os primeiros anseios de mulher, muitas noites fechara os olhos para sonhar o amor, criando com os seus dedos inexperientes as carícias de um amante desconhecido, que a deixavam dorida de paixão. A ponte suspensa dos sonhos desfizera-se e a realidade brutal viera tomar posse deles, quando o pai a entregara ao nanbanjin e este lhe rasgara o véu da virgindade, fazendo dela uma mulher.

A concubina Oe, a quem fora igualmente proibido sonhar, compreendera o seu medo e ajudara-a a passar a provação que, afinal, não fora tão penosa quanto temera. Murashukusha, apesar da embriaguez, mostrara-se surpreendentemente delicado e terno, as suas mãos fortes tinham-lhe acariciado os seios como se os beijassem. Ela sentira os mamilos endurecerem como espinhos, um arrepio de prazer a percorrer-lhe o corpo, ateando-lhe um fogo nas veias como jamais havia experimentado nos seus sonhos. Nem sequer nos banhos públicos quando o corpo nu da sua amiga mais amada se colava ao seu com languidez, os seus lábios, doces como pétalas húmidas de orvalho, a beijavam às escondidas por entre nuvens de vapor.

Sentira-lhe o afago dos dedos e da língua na pele, a descobri-la demoradamente, como se a saboreasse em cada curva, a cada reentrância, atardando-se nas axilas de fina seda, descendo ao ventre liso, brincando com o botão do umbigo num fremir de cócegas, abrindo a recatada dobra das virilhas, para chegar ao fruto apetecido, a ameixa rubra a amadurecer em macio ninho de penugem negra.

A surpresa do prazer que marulhava nas suas veias como uma corrente quente, pondo-lhe o corpo em brasa, fora mais forte do que o medo ou o asco, e ela entregara-se não ao nanbanjin mas ao amante tantas vezes sonhado, abrindo-se como a flor da ameixoeira ao primeiro raio de sol que a beija. Sofrera em êxtase o gume e a ferida, cauterizada pelo suave corrimento de sangue e húmus.

Do seu jardim, que o Outono pintou já em cores de fogo, avista a baía, o porto e a praia com as cabanas dos pescadores, desvanecendo-se no crepúsculo que se anuncia. O vento sopra mais forte e a chuva deixou um brilho de luar nos ramos inclinados dos áceres. Com a manga do quimono limpa as gotas das lágrimas que não cessam de correr, na dor antecipada da partida.

Não tardará a sentir a falta do sol e da lua de Tanegashima, a sua terra natal, definhará de saudade da casa dos seus pais, vendo passar os dias, os meses e os anos longe de tudo o que sempre amou.

O seu corpo será levado para longe, mas o seu coração não se sujeitará à triste sorte do cativo, esteja onde estiver, voará em direcção ao sol nascente, para casa, como os pássaros que vê chegar para se recolherem nos ramos da árvore ancestral. Na praia a espuma flutua sobre as ondas, como o desespero na sua alma, sem esperança.

Depois do casamento, o marido visitara-a três vezes e ela despertara nos braços de Murashukusha, com os sentimentos tão emaranhados como os seus longos cabelos. Ele falava-lhe com ternura de amante, dando-lhe por vezes o nome de Huyen, murmurando palavras em língua do Grande Ming que ela nem sempre entendia. Não sabe ler-lhe o coração, vê-o como se o não visse e nada lhe diz com palavras, embora a sua alma seja o leito de um rio por onde correm sensações inconfessáveis.

Um bando de gansos ruidosos voa em direcção ao lago. Segundo diz a concubina Oe, os sentimentos nos corações dos homens são como as folhas das árvores que se espalham com o vento ou como as flores no Outono, cujas cores esmorecem facilmente. Que sucederá a Wakasa, longe da família, num mundo hostil, quando o nanbanjin se cansar dela?

Os crisântemos, os cardos, as campainhas e os amores-perfeitos alinhados nos seus canteiros em doce harmonia não partilham da sua dor. As libélulas volteiam em frenéticas danças orquestradas pelas cigarras e os grilos, indiferentes ao seu desespero.

Do seu diário, escrito ao modo das histórias do Genji, da sublime Murasaki Shikibu, para onde copiara os poemas apropriados a cada sentir da sua alma, havia um, de Yamanoe no Okura, reservado aos dias de alma sombria:

Este nosso mundo

é cheio de horror e pejo.

Apesar de o sentir

não voo para longe

porque não sou ave.

Murashukusha fora enviado por Tokitaka a Satsuma, deixando-a livre por algum tempo para pensar na vida que a espera e num milagre que a possa salvar. Correra ao templo a purificar-se, fizera as suas ofertas, rogara a ajuda dos céus e os augúrios tinham-lhe sido favoráveis.

O pai parecia descontente com os nanbanjins em geral, e com o seu genro em particular, queixando-se da pouca ajuda que lhe prestava no fabrico das teppō e ela ouvira-o confessar à mãe que estava arrependido de a ter oferecido a um nómada estrangeiro, sacrificando a felicidade da filha em troca de quase nada. Haviam obtido o segredo do my-oyaku, o que menos lhe interessava, porque beneficiava muito mais Sasakawa Koshir-o, que já fizera testes e obtivera resultados, ao passo que as suas teppō, continuavam a ter a coronha lassa e a rebentarem depois de alguns disparos.

No junco que trouxera os nanbanjins, os trabalhos tinham terminado, o capitão estava a abastecê-lo de provisões e mercadorias, a fim de partir para apanhar a monção. Murashukusha não tardaria a regressar de Satsuma e Wakasa crê ser o momento asado para convencer o pai, que se sente enganado pelo genro, a salvá-la da infelicidade e do seppuku, que não hesitará em cometer se ele a forçar a seguir o marido.

XIII

Remexe no arbusto e dele sairá uma cobra

(japonês)

Da vaidade e falsa aparência destas virtudes dos japões:

Para ganharem e conservarem a reputação daquela honra, cortesia, modéstia e constância que vimos, nenhuma cousa procuram os japões com mais cuidado que o segredo dos próprios corações; por onde desde o berço se criam em esconder e encobrir o que entendem e desejam, não menos aos amigos que aos grandes inimigos; não mais aos estranhos, que aos próprios pais os filhos; e uns aos outros os parentes, irmãos, mulheres e maridos.

Donde se segue ser todo o seu trato um perpétuo fingimento e viva mentira, sim por não e não por sim, sem direito nem avesso; com tanto artifício e dobreza que, se algum modo vos fica, para atinardes com o que pretendem, é tomar ao revés quanto vos mostram e dizem.

Porque se nas palavras se mostram sofridos e compostos, por se autorizarem, nas obras, por se vingarem, são no extremo levados da ira, arrebatados e atraiçoados. Por maravilha se mata um homem (e matam-se muitos) que não seja entre os abraços (do matador que se contenta) com ficar mais quieto e seguro, acabando de cortar um homem pelo meio, quando se dele mais fiava, do que representava estar pouco antes conversando e comendo ambos.

Fazem-se muitas vezes algozes de si mesmos, encarecendo-lhe tanto qualquer perda na honra, e tão pouco a da vida, que mui levemente rasgam com os punhais as próprias entranhas, por não passarem a menor afronta. E é isto tão ordinário, que até os moços de catorze e quinze anos se matam intrepidamente cada hora no rosto dos pais, só por lho sentirem, e não lho sofrem carregado.

(História da Vida do Padre Francisco Xavier,

de P.e João de Lucena, 1600)

– Quando? Como pôde? – titubeia Fernão. – Ninguém deu por isso?

Em vez das saudações efusivas que esperara de Borralho e Zeimoto, quando lhes aparecera de surpresa, recebera a notícia que o deixara varado de espanto.

– Fê-lo muito escondidamente, quiçá de madrugada – responde Cristóvão, com pesar. – Foi a senhora Oe que encontrou o corpo.

– Uma moça, quase menina, mata-se rasgando o ventre com uma espada e ninguém na casa dá por nada? – repete incrédulo. – Wakasa não gritou quando a lâmina lhe cortou as carnes ou soltou sequer um gemido? Como foi possível? E porquê?

– Não conhecemos o caso com minudência.

– Consta que tinha medo da viagem ou não queria deixar Tanegashima – aventura Zeimoto.

– Eu nunca a forçaria a seguir-me, se não fosse essa a sua vontade!

– O corpo vai ser cremado hoje, no templo de Jionji, segundo a sua Lei – informa Borralho. – Não podiam aguardar mais pela tua vinda. Só te esperavam amanhã ou depois.

– O daimyō de Satsuma deu-me uma funce muito veloz – explica, alheado, para logo inquirir: – Fostes ao velório?

– Não. A família guardou muito segredo – diz Zeimoto e acrescenta com estranheza: – Mesmo Tokitaka crê que a moça morreu de maleita contagiosa, porque o corpo não esteve exposto, nem foi velado pela família.

– Quero ir ao templo já. Quero vê-la – murmura Fernão, afligido por remorsos que lhe põem lágrimas nos olhos.

– Nós vamos contigo – oferece Zeimoto, pensando no azar do amigo que em tão pouco tempo perdera as três mulheres que amara.

A caminho do templo, os dois companheiros guardam silêncio por respeito ao seu recolhimento em pensamentos dolorosos que lhe crispam o rosto. O sobrescrito do homem é a culpa e a sua é bem pesada se, por sua causa, duas formosas moças se matavam com as próprias mãos para não serem obrigadas a viver com ele. Tanto Wakasa como Huyen tinham preferido a morte voluntária à vida forçada a seu lado e Meng, que o amara, desaparecera na voragem dos tártaros, talvez por ele não ter feito um verdadeiro esforço para a proteger e salvar.

Os homens que não sentem são tanto pior que bestas quanto neles degenerou a natureza, mas ele não é uma fera sem entranhas: embora se sentisse humilhado, ferido no seu orgulho de homem pelo ódio e desprezo, primeiro de Huyen e depois de Wakasa, fora sensível ao sofrimento de ambas, tentara mesmo minorá-lo, apesar de também ele ser um peão dos Fados ou da Divina Providência que puseram essas mulheres no seu caminho, para o tentarem e lhe fazerem perder a alma ou o ensandecerem de dor.

Poderia ter evitado a morte das duas moças? E a de Meng? Não desejara o seu mal, mas o seu bem. Se não tivesse resgatado Huyen, como não a podiam devolver à família, acabaria por ser violada e fornicada pela tripulação durante o resto da viagem, depois vendida num mercado de escravas para um qualquer bordel de Liampó, Malaca ou Goa. Ele, pelo contrário, amara-a como a uma deusa, cortejara-a como a uma princesa, procurando conquistá-la com a sua devoção, desejando desposá-la e levá-la para o reino. Em vão ansiara por algumas migalhas do amor que ela votava ao noivo e só por desesperado ciúme a forçara, na esperança de vir a ser amado; por fim, apesar de ferido e humilhado pelo seu ódio, procurara salvá-la da morte com risco da própria vida.

Tão-pouco quisera causar a desgraça de Wakasa, não a roubara de sua casa, não a forçara a um casamento que também lhe desagradava; fora Kiyosada, o seu pai, a sacrificá-la sem remorsos aos seus próprios interesses. Condoído do seu desgosto e maravilhado pelas suas parecenças com Huyen, procurara não repetir os erros que cometera com a Noiva Roubada, usando para com ela de mil gentilezas, devotara-se a causar-lhe prazer, numa inversão de papéis que espantaria decerto qualquer esposa, consorte ou concubina, comum ou de qualidade, naquela terra.

Eram ambos culpados de fingimento e se, como diz o vulgo, entre culpados as culpas criam amor, julgara ter vencido o obstáculo, quando ela lhe correspondera às carícias com um fervor arrebatado de mulher enamorada. Engano seu, porque a amar e a rezar ninguém pode obrigar. Em boa verdade, o rosto de Wakasa mostrara-se sempre como uma folha em branco ou então fora ele que não soubera ler e interpretar os sinais da angústia e do martírio.

Chegam ao templo de Jionji com os últimos fulgores do crepúsculo, momento de melancolia que alumia e destrói, propício ao recolhimento, ao carpir silencioso de amores mortos e desamores. Zeimoto pede ao porteiro para chamar Wang Zhi com o seu intérprete.

– Não esperávamos por vossa mercê tão cedo – diz o capitão corsário, depois de ter expressado a Fernão o seu pesar pela morte funesta da esposa. – Assim poderemos partir logo que as últimas mercadorias sejam embarcadas, dentro de dois ou três dias.

Conhecendo bem os hábitos, maneiras e ganância dos monges japões de tirarem dinheiro às gentes, a pretexto de servirem de intermediários entre este mundo e o Além, Fernão entrega-lhe uma bolsa de taéis de prata.

– Dai-a aos bonzos, para que orem pela minha mulher. Dizei-lhes que quero vê-la, para me despedir dela.

– Não está ninguém da família a velá-la. Acautelai-vos, dizem que morreu de mal pestífero.

Como previra, os monges arrecadam o dinheiro e não põem impedimentos ao seu pedido, conduzindo-o a uma espécie de capela com um altar, onde ardem lamparinas e paus de incenso. O bonzo acende um archote e retira-se, deixando-o só diante do caixão pousado sobre um estrado baixo. Fernão roga ao Deus dos cristãos pela salvação da sua alma, deixando correr as lágrimas sem vergonha nem alívio.

São sempre os mais fracos ou inocentes, sobretudo mulheres, a sofrerem neste mundo os desígnios insondáveis de Deus que ele não pode entender e lhe parecem injustos. As mulheres que haviam dado cor e alento à sua vida tinham morrido de morte violenta, por quererem escapar a um destino tirânico que as subjugava, privando-as da liberdade e do amor. Ele fora, de certo modo, o instrumento da sua perdição, soltando a fúria dos elementos sobre as suas cabeças. D. Joana da Silva, o amor da sua mocidade, morrera pelo ferro que a degolara no seu jardim de delícias, Huyen fora engolida pelas águas no naufrágio, Meng desvanecera-se sem deixar rasto, como fumo espalhado pelo vento e Wakasa não tardaria a ser consumida pelas chamas do fogo purificador.

Recorda-as por entre lágrimas, os rostos confundindo-se, quase esfumados uns, outros vívidos e nítidos como pinturas, mescladas expressões de dor, raiva e desprezo, com vislumbres de ternura esperançosa, de quase-amor, numa amálgama dolorida impossível de destrinçar.

Precisa de ver Wakasa pela última vez, porque ela é o repositório, o espelho de todas as outras. Mete o punhal pela ranhura da tampa do caixão, soltando-a aos poucos dos encaixes, sem achar grande resistência. Teriam preparado a morta como para uma festa, segundo o seu uso, vestindo-lhe um belo quimono, pintando-lhe cuidadosamente o rosto até parecer viva e fresca como uma noiva. A saudade é a companheira dos que não têm companhia e ele quer gravar a imagem pura da donzela para sempre na sua memória, guardá-la no seu coração como um tesouro, para o consolar na adversidade. A tampa salta, Fernão levanta-a, pousando-a delicadamente no solo e, fazendo apelo a toda a sua coragem, olha para dentro do caixão.

Sente o chão fugir-lhe debaixo dos pés e, por momentos, é incapaz de se mover, paralisado de horror. O caixão tem pedras em vez do corpo de Wakasa! A encenação da morte e do enterro não passavam de um embuste de Kiyosada para ludibriar o nanbanjin, seu genro. Cego de raiva, soltando maldições e impropérios, Fernão lança com todas as suas forças o caixão contra a parede. O fragor do rebentamento das madeiras e das pedras faz acorrer em sobressalto os amigos com o corsário.

– Malditos sejam! – grita-lhes Fernão, espumando como um possesso. – Danados sejam todos os Yaita por sete gerações! Quero partir quanto antes desta terra de traidores. Levai-me daqui.


Já por mais de uma vez a narradora alertou o seu leitor para as incongruências, contradições e aparentes erros da história de Fernão Mendes Pinto, não só cometidas pelo próprio, mas por outros que, no decurso dos séculos, meteram nela a sua colherada e contaram o conto aumentando seu ponto. Vem isto a propósito da falsa morte de Wakasa, omitida quer por Fernão no seu livro (talvez por despeito e vergonha de ter sido tão afrontosamente burlado), quer pelos cronistas de Tanegashima que, quiçá para salvarem a face de Kiyosada e da família Yaita, deram a seguinte versão dos ditos sucessos:

Wakasa partira com o capitão para a sua terra, porém, sentindo-se saudosa da pátria, escreveu um poema em língua japoa:

Dias e meses

me acompanham saudades

de Yamato,

lembrando-me sempre

que aí moram meus pais.

Mostrou o poema ao marido que sentiu dó dela. Voltou o capitão no ano seguinte, o décimo terceiro ou ano do dragão (mil quinhentos e quarenta e quatro). O nanbansen ancorou ao largo de Kumano junto de Sakaimura. A bordo vinha Wakasa e pai e filha reuniram-se de novo. Por felicidade, vinha no navio um ferreiro e com ele por professor Kiyosada logrou aprender a técnica do fechamento do cabo da coronha.

Veja, pois, caro leitor, com quantas verdades se faz a História.

XIV

Se é para buscar abrigo, que seja sob uma árvore grande

(japonês)

Carta das mulheres léquias à mãe d’el-rei de das ilhas Ryūkyū:

Pérola santa congelada na ostra maior do mais fundo das águas, estrela esmaltada de raios de fogo, nós, as somenos formigas da tua despensa, aposentadas no esquecido das suas migalhas, filhas e parentas da mulher do Broquem, com todas as mais tuas cativas aqui assinadas te fazemos, senhora, queixume do que os nossos olhos hoje nos mostraram, que foi uma pobre mulher estrangeira, sem semelhança de carne no rosto, alagada toda num charco de sangue, com seus peitos feridos com tão admirável crueza que aos brutos do mato fazia espanto e a toda a gente temor medonho, gritando em vozes tão altas que te afirmamos todas em lei de verdade que se Deus lhe inclina as orelhas por ela ser pobre e desprezada do mundo, [tememos] que grande castigo de fogo e de fome venha sobre nós, pelo que receosas [te rogamos, por respeito à alma del Rei teu marido, que peças] com eficácia grande a el Rei teu filho que se mova por Deus e por ti e por nossos gritos e lágrimas a haver piedade destes estrangeiros e perdoar-lhes toda a culpa que tiver deles, pois, como sabes, [foram acusados] por homens torpes e de mau viver, a que não é lícito inclinarem-se as orelhas.

(Peregrinação, capítulo CXLI)

Pêro de Faria olha-o como se ele fosse uma assombração vinda do outro mundo.

– Julguei-te morto, alma de Deus! Até mandei rezar missa pela tua alma! Que te aconteceu, homem?

Fernão Mendes Pinto não consegue suster as lágrimas quando o capitão de Malaca, seu patrono e benfeitor, o abraça com sincera amizade.

– Inda me custa a crer que estou vivo – responde-lhe, quando consegue falar. – Mas perdi tudo, outra vez. É o meu fadário!

– Vives e isso é que conta! Voltarás a fazer fortuna e talvez não tenhas de esperar muito para começar – anima-o o capitão, com um sorriso. – Senta-te aí a comer e conta-me tudo dessa tua viagem, que logo falaremos de negócios. Naufragaste nas ilhas dos Léquios?

Após sucessivos golpes de sorte, mudados em outros tantos reveses de fortuna, Fernão já não estranha que os Fados ou a Divina Providência o persigam com os seus castigos. Se perdera toda a riqueza que trouxera do Japão (e, por pouco, também a vida), desta vez a culpa fora exclusivamente sua e da sua falta de prudência.

– Na volta da nossa viagem ao Japão, quando o corsário Wang Zhi me desembarcou em Liampó, juntamente com Francisco Diogo Zeimoto e Cristóvão Borralho, caímos na asneira de contar aos moradores portugueses a nossa descoberta das ilhas onde nascia o sol, como eram ricas em prata para tratos com altíssimos lucros.

– O que fostes fazer! – ri-se o capitão. – Nunca vos disseram que o segredo é a alma do negócio?

– Aprendemo-lo à nossa custa! A ganância ensandeceu os moradores, dando causa a uma corrida desenfreada aos barcos e às mercadorias da China, cada um tentando aprestar-se o mais depressa possível, para ser o primeiro a fazer a viagem. Apenas em quinze dias aprestaram-se nove juncos, todos tão mal negociados e apercebidos, que alguns deles nem levavam piloto, só iam os donos que nada sabiam da arte de marear.

– Isso já não é temeridade, é sandice!

– Partiram todos juntos, num domingo de manhã, contra vento, contra monção, contra maré e contra razão, porque de tão contumazes não atendiam a nenhum aviso dos perigos em que se metiam.

– Tamanha sede de lucro pode cegar.

– E eu, que tinha obrigação de ter mais siso, também me deixei ir na onda. Velejámos às cegas durante esse dia e à noite sobreveio-nos uma grande cerração seguida de tempestade em que se afundaram sete juncos com seiscentas pessoas, das quais cento e quarenta eram portugueses honrados e ricos.

As duas embarcações restantes não tardaram a seguir-lhes a sorte, rebentadas contra as restingas das Léquias, com tal violência, que apenas vinte e quatro homens e uma mulher lograram chegar à praia com vida. Neste arquipélago de Ryūkyū repetira-se, quase ponto por ponto, o calvário da China. Os sobreviventes, nus e famintos, foram tomados pela população da comarca de Sipautor, um grande lugar de mais de quinhentos vizinhos, levados presos de três em três para um templo cercado de altas paredes e vigiados por muitos guardas.

Embora ninguém os maltratasse e todos usassem para com eles de muita piedade – assegurando-lhes de que el-rei Sh-o Sei era de natural generoso, muito inclinado aos pobres, pelo que não tinham nada a temer naquela terra –, o facto de estarem presos e a semelhança com o funesto naufrágio que sofrera na China, deixavam Fernão mais desconfiado do que qualquer um dos seus companheiros, sabendo como os gentios podiam ser cruéis e tiranos para com os estrangeiros que lhes vinham dar à costa. A reputação de que gozavam os portugueses naqueles mares não era de molde a tranquilizá-lo, se por desgraça os naturais descobrissem a sua origem.

Não tardaram a ser levados para a cidade de Pongor, a mando do broquem ou governador do reino, tendo os náufragos pernoitado pelo caminho numa prisão-cisterna da vila de Gundexilau, onde estiveram toda a noite metidos num charco, a servirem de pasto a centenas de sanguessugas que os sugaram quase até à última gota de sangue.

Quatro dias depois de ali terem chegado, o broquem convocou-os para uma audiência. Levaram-nos atados de três em três, pelas quatro principais ruas da cidade e Fernão sentira o coração apertar-se com um mau presságio. O governador recebera-os na sala de audiências, sentado numa tribuna, ornada de panos de seda, com dossel de brocado, rodeado por seis porteiros de maças, ajoelhados. Um corpo de alabardeiros, com as alabardas embutidas a ouro, dispostas ao longo das paredes de toda a sala, onde já se achava uma infinidade de gente de várias nações. Prostraram-se a seus pés, com as mãos erguidas ao céu, pedindo misericórdia e ajuda para volverem a Malaca; o broquem ouvira-lhes as queixas e respondera-lhes num tom de comiseração que lhes parecera sincero:

– Tenho tamanha piedade da vossa miséria e dor da vossa pobreza, que vos certifico em boa verdade, e assim ela me valha diante d’el-rei Sh-o Sei, que mais quisera agora ser cada um de vós outros, do que ter este cargo, porque temo muito escandalizar-vos, o que por nenhum caso queria fazer. Porém vos rogo, como a amigos, que vos não espanteis de vos eu fazer algumas perguntas necessárias ao bem da justiça e quanto ao mais que competir a vossa soltura, vós a tereis. Podeis descansar nesta minha promessa!

Recebera os agradecimentos dos prisioneiros, dados não em palavras mas em abundantes lágrimas de gratidão (e também de espanto pela sua bondade), esperando pacientemente até os ver mais sossegados para mandar chamar os escrivães, os dois peretandas ou corregedores da corte e os dez ministros da justiça a fim de lhes fazer a devassa. Vendo o seu tribunal bem ordenado, pusera-se de pé com um terçado nu na mão e como por artes mágicas transformara-se de generoso governante em implacável juiz. Com expressão colérica e voz severíssima, sujeitara-os a uma cerrada inquirição, trasladada no mesmo tom pelo seu jurubaça, para apurar quem eram, de onde vinham, como se chamava a sua nação, qual a razão da sua vinda ao arquipélago de Ryūkyū, quem os trouxera e para onde iam quando se perderam.

– Somos mercadores portugueses, naturais de Malaca – respondera Fernão que os companheiros tinham escolhido para porta-voz, preferindo arriscar parte da verdade, por saber como os léquios temiam os corsários chins e wokou. – Fazemos tratos com a China, por isso embarcámos em Liampó para Tanixumaa, onde já fomos de outras vezes. Perto da ilha do Fogo fomos destroçados por uma terrível tormenta que nos fez varar o junco na restinga da vossa montanha de Taidacão, onde se afogaram sessenta e oito dos nossos companheiros. Aos vinte e quatro que aqui vedes salvou Deus, lançando-nos miraculosamente na vossa praia, tão nus e ensanguentados como as nossas mães nos botaram no mundo. Valeu-nos a caridade, a piedade das donas e donzelas desta vossa terra, que fizeram um peditório pelas ruas de Sipautur para nos vestirem e alimentarem com as suas esmolas.

– A que título possuíeis, no vosso junco, tamanha riqueza em peças de seda quantas o mar deu às gentes que as recolheram na praia e me dizem ser no valor de mais de cem mil taéis de prata?

A voz e o semblante do broquem endureceram, ao acrescentar, alteando a voz para ser ouvido por toda a assistência:

– Não me parece possível que tais riquezas possam ser adquiridas por homens, honestamente, sem roubos e burlas.

A desconfiança do governador devia-se decerto a mexericos dos chins mercadores que via na assistência e Fernão, apercebendo-se do perigo que corriam, apressara-se a refutar a acusação:

– Juro-vos, meu senhor, que não somos ladrões e sim mercadores honestos. O Deus em que cremos não nos permite furtar e matar.

– Como justificas, então, que as vossas gentes, no tempo passado quando tomaram Malaca, por cobiça dos seus tesouros, tenham matado sem piedade muitos dos nossos, de que ainda agora há nesta terra algumas viúvas?

– A causa dessas mortes foi a guerra, meu senhor, não a cobiça de os roubar, porque o não costumamos fazer em parte nenhuma.

– Achais, então, que é falso o que dizem de vós? Negareis que quem conquista não rouba? Quem força não mata? Quem senhoreia não escandaliza? Quem cobiça não furta? Quem oprime não tiraniza? Por todas estas coisas que de vós se afirmam como verdade, parece que Deus, ao largar-vos assim da sua mão, dando licença às ondas do mar que vos afogassem, mostrou bem a inteireza da sua justiça.

Sentira a justeza daquelas recriminações, conhecendo por experiência os métodos empregados pelos portugueses para enriquecer na Índia, sendo raros os que passavam pelo comércio pacífico e honesto com os nativos. Hesitara, sem saber o que dizer, mas o broquem também não lhe dera ocasião a isso, ordenando aos seus peretandas que os levassem de novo à prisão.

– .Onde ficaríamos a aguardar a decisão d’el-rei Sho Sei de nos absolver ou condenar à morte por ladrões.

– Como ousou esse bárbaro gentio dar lições de probidade e honradez aos portugueses? – brada Pêro de Faria, furioso, interrompendo-lhe o relato. – Talvez seja de recomendar ao capitão-mor da nossa armada que lhe dê uma lição, pondo em prática aquilo que ele diz que nós fazemos na Índia.

– Asseguro-vos que tomar a Léquia grande é empresa fácil, bastando para isso dous mil homens, pois a sua gente não é guerreira, nem tem armas. Eu posso fazer-vos o debuxo dela e dar-vos toda a informação necessária sobre os lugares por onde se deve acometer para a conquistar, o que seria cousa de grande proveito para el-rei de Portugal e para os portugueses que labutam na Índia, porque só em tratos as suas três alfândegas rendem conto e meio d’ouro, afora o muito arroz e trigo que cultivam ou as suas riquíssimas minas de prata e cobre.

– Se assim é, podeis crer que o recomendarei ao governador – promete o capitão. – Mas, volvendo à tua história, porque mudou de aviso o broquem, sendo primeiro tão inclinado à piedade para logo vos acusar de ladrões?

– Ele não nos condenou logo e até intercedeu por nós nas cartas que escreveu a el-rei, o qual, para se certificar de que lhe faláramos verdade, mandou ir secretamente à prisão um dos seus espias disfarçado de mercador estrangeiro que, a pretexto de nos socorrer, trataria de averiguar miudamente as razões da nossa ida às suas ilhas.

– Fostes desmascarados!

– Não, porque o segredo foi mal guardado. Uma alma caridosa avisou-nos da sua vinda, de modo que, na sua presença, fingimos ser as mais miseráveis e infelizes criaturas que jamais pisaram a terra. Este fingimento, que já nos tinha valido a piedade do capitão, dos cavaleiros que nos prenderam, dos moradores dos lugares por onde passáramos e das damas honradas de Pongor que nos tinham provido do bom e do melhor, acabou também por convencer o espia da nossa inocência, o qual prometeu interceder por nós junto d’el-rei para que nos libertasse e enviasse a Liampó ou Malaca. Mas de novo o azar nos bateu à porta.

O azar chegara ao porto na figura de um corsário chim que tinha tratos com Sh-o Sei, a quem pagava um tributo de metade das presas tomadas na China, em troca de abrigo e da real protecção.

– O perro odiava os portugueses, porque num recontro com Lançarote Pereira, no porto de Lamau179, lhe haviam queimado três juncos e matado duzentos homens! Quando soube que os presos estrangeiros pertenciam à raça dos seus inimigos e iam ser libertados, tratou de embrulhar o caso com muitas falsidades e aleivosias a nosso respeito. Logrou convencer Sh-o Sei de que perderia muito em breve o reino, porque era nosso costume espiarmos uma terra a pretexto de negócio para depois a tomarmos como ladrões, destruindo toda a coisa que nela achávamos. El-rei creu nele e assinou a sentença de morte, ordenando que nos fizessem em quartos.

– Víbora peçonhenta! Como foi que vos livrastes da morte?

– Escapámos graças a uma petição que fizeram as léquias, mas tudo começou com a mulher do piloto que se salvou do naufrágio.

A portuguesa sobrevivente fora separada do marido e dos filhos e recolhida por piedade em casa da filha do broquem, onde vivia com o maior conforto. Quando, por indiscrição do mensageiro, a notícia da condenação chegou aos ouvidos da dona da casa, Conchanilau, cheia de pena pela sua protegida, contou-lhe o que soubera, a fim de a preparar para a perda do marido e dos filhos.

Ao ouvir a terrível nova, a mulher ficara sem fala e caíra desacordada no chão, como morta, para grande aflição da filha do broquem e da sua tia que viera contar-lhe o segredo. Os seus cuidados trouxeram a infeliz à vida, contudo temeram vê-la expirar de paixão, com o pranto que fazia em altos gritos, surda às palavras de consolo que lhe davam. Pasmadas, sem saberem o que fazer, viram-na rasgar o rosto com as unhas com tal crueza que o sangue lhe corria em fios pelas faces desfeitas e pescoço, alastrando pela cabaia como um lenço escarlate.

Nunca se vira em Ryūkyū uma manifestação de dor como a da portuguesa e a novidade da mutilação correu célere pela cidade, comovendo todas as mulheres, novas e velhas, solteiras, casadas ou viúvas, que acorreram qual tumultuosa onda a casa de Conchanilau, para conhecerem a heroína estrangeira. Vendo o seu lastimoso estado, logo ali decidiram escrever uma carta à rainha-mãe, rogando-lhe pela alma do seu esposo que intercedesse, junto d’el-rei seu filho, a favor dos estrangeiros, dando-lhe conta da injustiça daquela condenação, que levara a mulher portuguesa a derramar o sangue do seu rosto com o desgosto da morte anunciada do marido e dos filhos.

Escrita pela filha do broquem e assinada por cem mulheres das mais honradas da ilha, nessa mesma noite a carta foi levada, pela filha de um poderoso mandarim, a Bintor onde pousava el-rei, entregue por sua própria mão à sua tia Nhay Meicamur, camareira-mor e valida da rainha-mãe, para que a fizesse chegar sem demora a Sua Alteza.

– Perderei a minha honra e crédito ante aquelas que me escolheram, senhora minha tia – suplicou a donzela de joelhos com rosto molhado de lágrimas –, se não lhes levar o perdão d’el-rei para os condenados, até daqui a dois dias.

– Estando em jogo a honra, tua e de nossa família – replicou a tia –, para mais sendo a causa tão justa como dizes e confirmam todas as senhoras principais que assinam a carta, farei tudo para que tornes a Pongor com boas novas. Como o tempo escasseia e os verdugos estão com pressa, quando esta manhã a rainha despertar, eu estarei a seus pés para lhe entregar a vossa petição. Vem comigo.

Muito em segredo, a dama, abriu a porta de um passadiço secreto que só ela conhecia e comunicava com os paços, justo ao lado dos aposentos da rainha. Deixou a sobrinha na antecâmara e foi deitar-se aos pés do leito da sua senhora, embora não tão silenciosamente como era seu costume.

– Que se passa, Nhay Meicamur? – perguntou a rainha, acordando estremunhada. – Deixastes-vos cá esquecer esta noite ou temos novidade?

A camareira pediu-lhe humildemente perdão por a ter despertado e contou-lhe a visita da sobrinha com a petição das damas de Pongor.

– Ela que venha ler-me a carta – ordenou a rainha.

A donzela entrou e lançou-se a seus pés, beijando-lhos com muita gratidão. Obedecendo ao seu pedido, leu a missiva da filha do broquem, com tão grande sentimento que a Sua Alteza, com os olhos cheios de lágrimas, lhe disse:

– Não mais! Pára! Não mais! Não é justo que esses infelizes percam a vida, porque bem basta por castigo a execução que o mar neles fez. Ide ora repousar um pouco e logo que seja manhã, ireis comigo ler esta carta a meu filho.

– Tão bem trabalharam a rainha, a tia e a sobrinha, que a carta foi lida a el-rei Sh-o Sei – conclui Fernão. – No entanto, Sua Alteza recusou-se a receber-nos, dizendo que, por ter o ofício de rei, não lhe era dado ver gente que, conhecendo muito de Deus, usava pouco da sua lei, tendo por costume tomar o alheio. As generosas léquias, pelo contrário, agasalharam-nos em suas casas e proveram-nos de todo o necessário até à nossa partida para Liampó, de onde pude embarcar para Malaca e vir dar-vos conta destas minhas desaventuras.

– Não há dúvida que tens boa lábia para embaixador, para mais, falas bem as línguas destas terras – exclamou Pêro de Faria maravilhado com a sua história. – Servirás o meu propósito melhor do que todos os que por cá andam agora.


O capitão passou o serão a pô-lo ao corrente dos últimos sucessos dos portugueses na Índia, de que andava há muito arredado, por terras do Cataio e do Cipango. A que mais paixão lhe causou foi o martírio de D. Cristóvão da Gama às mãos do rei de Zeila, Ahmed al-Ghazi, o Granhe ou Canhoto.

– Quando soube que a armada dos portugueses estava às portas do mar Roxo, no ano de quarenta e um, a rainha Sabla Vangél mandou o Barnagais ao governador D. Estêvão da Gama, com um urgente pedido de socorro.

– Ela já tinha enviado um dos seus bispos comigo – apressou-se a dizer Fernão – com o mesmo pedido, mas, como ficámos cativos dos mouros e o abexim morreu, perdeu-se o recado e a ajuda. D. Estêvão mandou lá o irmão mais novo?

– D. Cristóvão ofereceu-se e não descansou enquanto não conseguiu o comando da expedição de quatrocentos portugueses, tudo gente honrada e experimentada na guerra, mais duzentos abexins para os assistirem.

– Só quatrocentos? Para combater um exército bem disciplinado de mouros e turcos sob o comando do Canhoto numa jihad contra os cristãos? Espanta-me que não tenham morrido todos no primeiro encontro.

Apesar dos entraves, tinham alcançado espantosas vitórias, segundo contara Miguel Castanhoso, um dos sobreviventes da campanha, primeiro sozinhos, porque os abexins tinham desertado o seu rei aos milhares, fugindo para as montanhas ou passando-se para o lado do invasor, a fim de salvarem a vida e os seus bens.

Com a entrada do ano de quarenta e dois, depois da tomada de uma serra fortemente defendida pelos mouros, as vitórias portuguesas sucederam-se e os abexins começaram a recobrar ânimo, muitos vindo a incorporar-se no pequeno exército de Anaf Sagad, engrossando-o.

Apesar da superioridade numérica, da experiência e qualidades de comandante de Ahmed al-Ghazi, o ardor e valentia de D. Cristóvão (que bastas vezes raiavam a temeridade), conseguiram vencer os batalhões mouros em dois combates, fazendo grande mortandade nos seus homens.

Na terceira batalha, a sorte mudou, porque o rei de Zeila veio sobre eles com todo o seu exército, não lhes dando tempo de se reunirem às forças do Preste que vinham ao seu encontro. Os portugueses foram desbaratados, ficando pelo campo muita gente morta e ferida, tendo o próprio D. Cristóvão levado duas arcabuzadas numa perna e no braço direito, quebrando-lho por cima do cotovelo. Por fim, os turcos invadiram-lhes o arraial e os portugueses sobreviventes foram forçados a fugir para uma serra defendida por gente fiel ao Preste.

Na precipitação da fuga, Miguel Castanhoso, que tinha a seu cargo a protecção de Sabla Vangél, apesar de muito ferido, conseguiu pô-la a bom recado, mas, D. Cristóvão com os catorze fidalgos seus companheiros constantes, perderam-se com a escuridão da noite e tomaram outro caminho.

No seu rasto foram doze turcos de pé e vinte de cavalo, desejosos de o alcançarem, dando com ele num bosque, junto do ribeiro onde se acoutara e os companheiros lhe cuidavam da perna e do braço. Tomaram-nos de surpresa, prenderam-nos com grandes gritos de prazer, levando-os com muito escárnio e pancadas para o arraial de Ahmed al-Ghazi.

Diante da tenda do rei estavam espetadas cento e sessenta cabeças de portugueses, porque o Granhe pagava por cada uma que os seus homens cortassem. Quando D. Cristóvão entrou na tenda, o mouro mandou que lhe trouxessem as dos catorze companheiros e, para mais o magoar, bradava-lhe com grande gáudio dos seus homens:

– Que gente é esta? É com esta ralé que querias tomar a minha terra? Vês agora a tua doudice? Por tão grande atrevimento desejo fazer-te grande honra.

Despiram-no, ataram-lhe as mãos atrás das costas, açoitaram-no cruelmente e com os sapatos dos seus negros deram-lhe bofetadas no rosto. Segundo contou Miguel de Castanhoso:

– E das suas barbas lhe fizeram fazer candeias de cera, e fez-lhe pôr fogo nelas. E com tenazes lhe fez arrancar as pestanas e sobrancelhas. E, depois disto, lhe fez que visitasse todas as tendas dos seus capitães, para seu refrigério. Foram-lhe feitas muitas injúrias, as quais ele sofria com muita paciência, dando muitas graças a Deus por o trazer a tal estado depois de haver conquistado cem léguas de terra para os cristãos, tirando-as aos mouros que lhas tinham tomadas.

– Ahmed al-Ghazi cortou-lhe a cabeça com a sua própria mão – conclui Pêro de Faria, com tristeza, vendo que Fernão tem os olhos marejados de lágrimas. – Dizem que no lugar onde o seu sangue correu, nasceu uma fonte de água cristalina que cura muitas doenças. E esse não foi o único milagre, porque os abexins sentiram tanto o martírio que ele sofreu por sua causa que vieram de todas as partes da Abássia para se juntarem ao exército do Preste e servirem com os cento e vinte portugueses que tinham escapado à chacina. Lançaram-se então sobre os turcos e mouros com ímpeto indomável, desbaratando-os, com a morte do Granhe, e expulsando-os das suas terras ao fim de dez anos de domínio.

– Não morreu em vão o filho do descobridor da Índia, Deus o tenha em sua glória.

179 Ilha de Nan’ao, ao largo de Guangdong (China), um dos lugares de contrabando e tratos entre os portugueses e os piratas (wokou).

LIVRO VI

MAR DE JAVA

JAVA

Em frente da ponta extrema da ilha de Samatra, para sul-sueste, do lado sul da linha equinocial, fica a ilha chamada Java Maior ou Grande Java. Aqui encontra-se um estreito entre Samatra e Java, chamado Estreito de Sunda. Esta ilha começa em sete graus da banda do sul, estendendo-se na direcção leste quarta a sueste, numa extensão de cento e cinquenta léguas. Qual a sua largura ainda não se sabe, pois ainda não foi descoberta, nem os seus habitantes a conhecem. Alguns supõem que é terra firme do país chamado Terra Incógnita, que se estenderia desde as proximidades do Cabo da Boa Esperança até aqui, mas disso até agora não se tem a certeza, pelo que é considerada uma ilha. Continuando pela mesma região e costa, a 25 léguas de Java Maior começa a ilha de Java Menor, ou Pequena Java, e um pouco mais adiante a ilha chamada Timor (onde a madeira de sândalo cresce em grande quantidade), e mil outras ilhas na sua proximidade, sobre as quais ainda nada se sabe em pormenor, embora sejam todas habitadas e férteis em gente e mercadorias, tal como as Javas.

(Itinerário, Viagem ou Navegação de Jan Huygen van Linschoten para as Índias Orientais ou Portuguesas – século XVI)

I

Quem come pimenta fica com a boca a arder

(malaio)

Minha mãe, seja então adeus.

Pela derradeira vez face a face,

tu, mãe, e eu.

Apenas este dia, hoje,

me verás face a face.

Não mais nos falaremos,

a não ser em nossos sonhos,

veremos o rosto um do outro na lua,

sentiremos o corpo um do outro no vento.

(Bujangga Manik)

Perdeu-se para sempre,

ninguém o poderá resgatar,

tão incerto é o paradeiro.

Menos que semente de mostarda

fugidio qual rasto de besouro,

transparente no ar,

como o trilho deslizante da garça.

(Sri Ajnyana)180

Fernão Mendes Pinto navegara de Goa a Java, com um junco de Pêro de Faria, para carregar pimenta, que de seguida levaria para vender na China, contudo, a colheita fora tão escassa nesse ano na ilha e tivera tanta procura, que já não havia que chegasse sequer para carregar um batel. Os portugueses decidiram então ficar em Banten durante o Inverno, a vender as suas fazendas em paz e sossego, até à monção do ano seguinte, que os levaria à China.

Este forçado descanso contrariava os seus sonhos de fortuna, sendo no entanto uma verdadeira bênção depois das agruras sofridas no ano anterior, durante o cativeiro no Martavão e em Pegu ou na viagem ao reino de Calaminham181 com outros sete portugueses, como ele escravos do embaixador do rei de Bramaa. Tabinshwethi queria fazer tratos de paz e aliança com aquele poderoso rei e enviara-lhe uma embaixada com um magnífico presente para que, no ano seguinte, ele fizesse guerra ao Sião, seu vizinho e inimigo. Assim, o tirano ficaria livre para empreender a conquista de Avaa e assenhorear-se de toda a Birmânia.

A viagem fora longa e difícil, embora enriquecedora, tanto para a sua experiência do mundo como para o conhecimento de si mesmo. Calaminham era um reino muito mais poderoso e rico do que os de Pegu, Bramaa, Tanguu, Arracão, com o seu senhorio dividido em quatrocentas partes, cujos símbolos eram elefantes que davam o nome à principal cidade de cada região, da qual dependiam catorze vilas.

Durante os cerca de oito meses daquela verdadeira peregrinação, em que havia pouco para fazer, gastara o tempo em ver, ouvir e perguntar sobre os usos, as leis, os pagodes e sacrifícios que via com grande temor ou espanto, como a celebração do dia dos mortos pelos bhikkhu ou bicos, os monges adoradores de Buda, no templo de Tinagoogoo. A procissão a que assistira fora a maior manifestação de fé, mas também a mais sangrenta, com maior número de sacrifícios de sangue e morte que vira em toda a sua vida, por serem às centenas, senão aos milhares, os fiéis que se flagelavam, cortavam pedaços de carne do próprio corpo e se lançavam debaixo das rodas dos carros que transportavam os seus ídolos para serem esmagados ou cortados ao meio.

As covas de Pak U – aonde acompanhara o embaixador no cumprimento duma promessa pela cura da grave maleita que o acometera – eram outro prodigioso lugar de culto, com vários milhares de estátuas de Buda, de desvairados tamanhos e materiais, fruto da devoção e piedade dos gentios, cuja fé lhe parecera mais firme e sincera que a de muitos cristãos.

Em Timplão182, a capital de Calaminham, o embaixador fora recebido pelo imperador com todas as honras, partilhadas pela sua comitiva de cativos portugueses, que ele estimava acima dos bramaas, provendo-os de bons trajos e de tudo o que necessitavam para a sua escolta, como se fossem homens livres e seus oficiais.

Cumprida a missão, empreenderam a penosa viagem de regresso, tendo sido acometidos, já em terras de Pegu, por um bando de salteadores que lhes roubou o riquíssimo presente enviado pelo imperador a Tabinshwethi, matando-lhes cento e oitenta homens, entre os quais dois dos portugueses, deixando os restantes muito malferidos e o embaixador às portas da morte. O roubo, mais do que a morte dos soldados, causara uma fúria cega ao tirano bramaa, que fizera perseguir o bando de ladrões até os apanhar a todos, recuperando o presente e punindo-os com mortes atrozes, para servirem de exemplo dissuasor.

Apesar de o embaixador os tratar com muita cortesia e generosidade, os seis cativos portugueses aproveitaram-se da guerra que grassava novamente na região para se lançarem numa fuga desesperada através de terras hostis até à costa de Pegu, onde embarcaram para Bengala e depois Goa, graças à generosidade dos capitães portugueses que lhes deram passagem nos seus barcos, salvando-lhes a vida.

Em Goa, achou Pêro de Faria que, tendo terminado o seu segundo mandato como capitão de Malaca viera instalar-se na capital do Estado da Índia com uma grossa fortuna acumulada na sua longa estadia no Oriente, onde se dedicava inteiramente aos tratos das especiarias, com os seus filhos e uma verdadeira rede de parentes e amigos portugueses, gentios ou mouros, visto os negócios e o dinheiro não terem religião. Fernão sempre lhe fora grato, reconhecendo que não poderia ter achado melhor patrono na Índia do que este veterano de mil campanhas. A confirmá-lo, foi recebido por Faria de braços abertos e de novo socorrido na sua indigência, com uma viagem ao reino de Sunda, na ilha de Java, a carregar pimenta para ir vender na China, cujo parte no lucro o haveria de compensar de todas as misérias sofridas.


Ao entrar no mar de Java, a narradora confessa ao seu leitor que foi forçada a glosar, em parte, alguns capítulos da Peregrinação183, por não haver outras fontes sobre estes acontecimentos vividos por Fernão Mendes Pinto. Mas, seria imperdoável não lhe apresentar os episódios que eruditos estudiosos da sua obra reconhecem como verídicos e têm o mérito de completar as crónicas javanesas escritas posteriormente por autores muçulmanos que tendem a deixar no esquecimento as suas violentas jihad de conquista dos reinos e povos gentios.

Por outro lado, os sucessos aqui narrados ocorreram por volta de mil quinhentos e quarenta e seis, entre as duas viagens feitas pelo nosso andarilho à Birmânia e ao Sião, as quais serão relatadas no sétimo e último mar, o de Andaman.

Atendendo a que os acontecimentos de Pegu e Sião, apesar de separados no tempo, perfazem uma unidade coerente, a sua narradora escolheu apresentar-lhe primeiro o mar de Java, por permitir uma melhor compreensão da história, tanto mais que, se até este ponto do romance o seu leitor não o abandonou, foi porque aceitou fazer a viagem que ela lhe propôs, de navegar por entre os escolhos até chegar a bom porto. Advertido o leitor, retomemos a história e vejamos o que fez o nosso aventureiro em Java.


No paseban, a grande praça diante dos paços reais, a arena é uma larga cercadura de altos troncos de bambu, enterrados no solo. Os mercadores portugueses tinham sido convidados a assistir à luta e Fernão acha-se confortavelmente instalado no espaço reservado à gente de qualidade, logo abaixo dos nobres jaus. Quando o búfalo é introduzido na jaula, o povo que se apinha no recinto rompe em gritos e aplausos. Corpulento, com a enorme cabeça provida de cornos longos e curvos como sabres de corsário, o touro escava o solo com as patas e solta um mugido ameaçador, arrancando novas aclamações da multidão que tem no búfalo o símbolo da sua própria força e bravura. Pela abertura oposta entra o tigre, saudado com uma violenta surriada, por encarnar o inimigo, o adversário de Sunda, dentro de Java ou estrangeiro. É um belo animal, de pêlo dourado e focinho estriado de branco e preto, que estaca, travando o ímpeto inicial da sua corrida, hesitante ou assustado pelo som das vaias, os beiços arreganhados a mostrar duas fiadas de dentes acerados. Ao vê-lo, o búfalo escava o solo com mais força e baixa a cabeça, como a preparar a investida, mas não ataca.

Do alto da jaula lançam-lhe borrifos de água a ferver e o animal acusa a dor com um ronco furioso. É o sinal para o salto do tigre, a mostrar como a menor corpulência é compensada pela agilidade do seu corpo e velocidade de ataque. Parece voar e vai encaixar-se entre o cornos do búfalo, o corpo arqueado, com as garras das patas dianteiras a rasgar-lhe dez longas estrias sangrentas no lombo e as traseiras cravadas na barriga. Momentaneamente cego pelo corpo do adversário e desorientado pelos gritos da assistência, o touro recua contra as canas de bambu da cerca e sacode a cabeça para se libertar. Da assistência, os que estão mais próximos incitam-no, chegando-lhe ao corpo molhos de urtigas, por entre as barras de madeira.

O búfalo espinoteia desesperado e, com uma violenta sacudidela da cabeça, lança o tigre contra o solo, espezinhando-o; indiferente aos dentes e garras que lhe esfacelam o focinho, esventra-o com duas cornadas, recebendo uma estrondosa ovação da multidão delirante.

Fernão regressa à sua pousada, maravilhado pela luta a que assistira pela primeira vez. Os combates de animais eram os desenfadamentos mais apreciados pelos jaus e este fora mais impressionante do que os dos galos, os de dois búfalos ou mesmo entre um homem e um búfalo.

Está há quase dois meses em Sunda, uma espécie de ilha de trezentas léguas em redor, separada da grande Java pelo rio Chemano ou Chi Manuk e de Samatra, a Ocidente, por um largo boqueirão a que dá o nome. Ao longo das suas costas, incontáveis ilhas formam um estreito, no qual se acha o porto de Banten Girang, numa enseada de três léguas de largo, onde desagua um rio que divide a cidade ao meio e pode ser navegado por juncos e galés.

Não tivera tempo para estudar a terra nem os povos de Java, como gostava de fazer antes de uma primeira visita a qualquer reino ou lugar e estava um pouco apreensivo, embora saiba que, por mais que se procure conhecer os usos de uma nação, sempre se está sujeito a sofrer surpresas, por vezes abomináveis, como lhe sucedera no reino dos Batas, em Samatra, uns anos antes. Nos curtos períodos que passara em Malaca, onde vivia uma multidão de jaus, ouvira falar da ilha, das suas gentes aguerridas e traiçoeiras, colhendo também durante a viagem algumas informações dos seus companheiros que já tinham tido tratos nestes reinos.

Pêro de Faria, como sempre, conhecia muitas histórias, parecendo não haver empresa ou missão de perigo naqueles mares, no início das conquistas dos portugueses, em que ele não tivesse participado. Contou-lhe que no ano de mil quinhentos e treze, depois da tomada de Malaca por Afonso de Albuquerque, Páte Unuz, governador de Japara, na costa norte de Java, concertara em segredo uma poderosa armada, com dois mil guerreiros jaus e forte artilharia, para expulsar os portugueses da península malaia.

Por sorte, achava-se no porto de Malaca prestes a partir para Goa, o capitão-mor do mar Fernão Peres de Andrada. Um nome que Pinto ouvira nomear por mais de uma vez com grande admiração durante as suas atribuladas deambulações, depois de o ter conhecido em circunstâncias muito pouco honrosas, na sua juventude, como encobridor de adultérios. Ao ver o mar coalhado de velas, o capitão percebera que se tratava do ataque de Páte Unuz, anunciado havia algum tempo pelos seus espias. O jau navegava com muita dissimulação por entre as ilhas do lado de Samatra, para os portugueses pensarem que se tratava de uma frota vinda de Portugal.

Andrada fizera aparelhar sem demora uma armada de dezassete velas e saiu ao seu encontro. O capitão Pêro de Faria adiantara-se logo com a sua galé a remos, correndo quase a par da caravela muito veleira de Jorge Botelho e, em chegando ambos à distância de tiro do grande junco do Unuz, construído como uma fortaleza, bombardearam-no sem cessar, causando-lhe grandes danos e retendo-o até à chegada da frota portuguesa, que acometeu a inimiga com toda a sua artilharia, abalroando-lhe os seus navios e matando-lhe muita gente.

O confronto só cessou com a chegada da noite, quando ambas as armadas foram forçadas a lançar ferro perto de terra. Na manhã seguinte, Páte Unuz, ao ver-se abandonado pelo seu aliado mais forte, batera em retirada, mas Peres de Andrada perseguira-o e desbaratara-o, obrigando-o a fugir para Java. O feito dos portugueses foi tão notável que assombrou e atemorizou aquelas partes do Oriente, pondo fim à guerra com os jaus.

O que trouxera de momento algum alívio a Malaca, permitindo-lhe ocupar-se das outras duas frentes de batalha – os constantes ataques do deposto rei Mahamed, refugiado na ilha de Bintão, e os assaltos aos navios portugueses e à fortaleza pela armada do rei de Achem. Fora também o tempo em que se fizeram as viagens de descobrir às ilhas das especiarias, em particular, à Ilha do Ouro, uma busca que se transformara numa espécie de demanda do graal, intentada e continuada por muitos aventureiros dispostos a arriscarem a vida, em que Fernão ainda pudera participar.

No ano de vinte e um, dera-se uma espécie de milagre, contara-lhe ainda Pêro de Faria, quando o rei de Sunda enviara o príncipe Ratu Samiam, seu filho e herdeiro, por embaixador a Jorge de Albuquerque, então capitão de Malaca – a quem conhecera na primeira visita dos portugueses a Java, no tempo de Afonso de Albuquerque –, com um pedido para que fosse construir uma fortaleza no seu reino, a fim de se poder defender dos constantes ataques da frota do rei muçulmano de Demaa.

Isto interessava particularmente a D. Manuel, que estava em ânsias com a notícia da chegada de Fernão de Magalhães às Molucas e queria impedir a navegação dos castelhanos naqueles mares. El-rei deu ordens a Malaca para que se fizesse sem demora a fortaleza em Sunda. Jorge de Albuquerque, que reconhecia quão importante era ter um posto de vigia e de defesa naquela ilha contra os navios dos achens, enviara Henrique de Leme, com ricos presentes, para fazer um tratado de aliança e ali construir o forte.

O príncipe Samiam, que por morte de seu pai subira ao trono com o título de Prabu Surawisesa, recebera calorosamente o embaixador e o tratado de Sunda Kalapa fora assinado no dia vinte e um de Agosto de mil quinhentos e vinte e dois. El-rei concedia aos portugueses o direito de carregarem toda a pimenta que desejassem, comprometendo-se ainda, em sinal de amizade, a pagar mil sacos da preciosa especiaria em cada ano, a partir do início da construção da fortaleza, em troca de ajuda militar contra o inimigo comum.

Acompanhado pelos seus oficiais de Xabandar e a gente principal do reino, Henrique de Leme escolhera o lugar onde se iria construir a fortaleza. Para celebrar o tratado com grande festa, tanto dos portugueses como dos jaus, assentara um padrão184 de pedra, com as armas e a Esfera d’el-rei de Portugal, na praia que passou a ser denominada nas cartas de marear por Aguada do Padrão, uma formosa terra de coqueiros na boca do rio, em Calapa185. Contudo, estes auspiciosos começos de aliança e amizade foram interrompidos ou adiados por três anos, com a morte do governador, devido aos conflitos e zangas entre os fidalgos portugueses que sempre acontecem a cada mudança de poder na Índia.

Em Java também ocorreram profundas mudanças nesses três anos, com as rebeliões e lutas pela sucessão ao trono, seguida pela violenta tomada de poder dos reis muçulmanos de Demaa, de consequências dramáticas para os portugueses, sobretudo no tempo do ulema a quem chamavam santo, o imã Sunan Gunung Jati, pai do presente rei Hasanudin que recebia agora os cristãos portugueses com maior benevolência, desde que servissem os seus interesses.

Fernão esquecera muitos pormenores e até os nomes de alguns dos intervenientes nessas histórias antigas, de pouco préstimo para os seus negócios do momento, sem suspeitar de que muito em breve voltaria a ouvir falar delas, em circunstâncias tão estranhas como difíceis de crer, por serem quase da esfera dos milagres.

180 Bujangga Manik – poema sundanês do séc. XV-XVI (literatura do período clássico anterior ao islamismo. Sri Ajnyana – poema alegórico sundanês clássico.

181 Calaminhão, presumivelmente Lan Sang, o reino do Lao (Peregrinação, capítulos CXLIV a CLXXI).

182 Talvez Luang Prabang, a capital do reino do Lao, Siang Dong ou Siang Thong.

183 Peregrinação, capítulos CLXXII a CLXXVIII.

184 Este padrão encontra-se no Museu Nacional da Indonésia, em Jacarta.

185 Ou Kalapa, actual Jacarta.

II

Honra e proveito não cabem em saco estreito

(português)

Em Penaruqua, cidade de Java, estava uma irmã del-rei, casada com um seu capitão-geral de muita idade; ele falecido, a mulher ficou moça formosa. Vendo-se sem marido, quis cumprir o costume antigo, que é as fidalgas queimarem-se.

O povo, nobres e irmão quiseram ir-lhe à mão, e porque estava em Balambuam, mandou o príncipe e um infante com os principais do lugar. Nada puderam aproveitar nisto; chegou o rei a lhe rogar com muita eficácia, dizendo que o marido passado era mais emprestado que dotado, pela desconformidade da idade, que lhe daria outro em fidalguia, nobreza, valia, qual ela quisesse e lhe pertencia e outras cousas, não sem lágrimas dele e companhia.

Respondeu que como queria que ela começasse erro que para outras, de menos estado, seria mui vituperado, que nunca Deus quisesse que ela fizesse cousa que, sendo seu irmão de tão alta geração, ficasse infamação.

Visto, el-rei, sua determinação, se tornou a Balambuam; ela e criadas, ataviadas, com tangeres, cantares, festas e prazeres, com as vidas acabaram suas jornadas: não havia oito dias que isto passara à nossa chegada.

Reinos há cá, cidades, vilas que, como se vêem vencidos, matam-se velhos, mulheres e meninas para não serem cativos, forçadas, corrompidas, maltratadas dos inimigos.

(Tratado das Ilhas Molucas, de António Galvão, século XVI)

– Têm tamanha cagança – avisara-o o capitão – que cuidam estar acima de qualquer outro povo. Se por acaso estiveres sentado sobre um poial ou de pé em lugar mais alto, quando um jau for a passar por ti, trata logo de descer do teu poiso até ele passar, ou és um homem morto, porque ele não consentirá seja a quem for, muito menos a um estrangeiro, a ousadia de cuidar que pode ficar mais alto que ele. Por essa razão não têm casas com sobrado superior para não terem ninguém a viver por cima da sua cabeça, a qual trazem descoberta e não consentem nela qualquer peso ou carga, ainda que por isso os matem. E muito menos deixam que alguém lhes toque na cabeça, tomando tal gesto por uma ofensa mortal.

Ficara a saber que o povo de Java prezava ao extremo as cortesias e zumbaias, a que todos obedeciam, dos mais baixos para os que lhes estão logo acima, numa interminável cadeia de preito e menagem até à pessoa do rei. Tem procedido sempre com muito acatamento, de modo a não causar melindres, porque à menor ofensa à sua honra, os jaus fazem-se amoucos para se vingarem, matando às crisadas num acesso de frenesim não só a quem os ofendeu, mas a todos aqueles a que possam lançar mão, antes de serem presos ou mortos.

Passados quase dois meses de ali estar a fazer pacificamente as suas mercancias, não lhes achara grande fundamentação para a dita prosápia, antes pelo contrário, parecera-lhe uma nação de pouca polícia, sendo as habitações da gente comum humildes cabanas, feitas de canas de bambu entretecidas e cobertas de barro, com tectos de folhas de palma, sem janelas, com uma entrada baixa por onde passa a luz, de um ou dois aposentos para toda a família e algumas galinhas, além de uma varanda um pouco mais alta, onde as mulheres fazem os seus trabalhos de fiar, tecer, amassar e cozer.

A chegada de Niyai Pombaya, a Irmã Mais Velha, uma mulher de sessenta anos de idade, viúva do supremo imã Kiyai Pembayun, enviada por Trenggana, o imperador de toda a ilha de Jaoa, Angenia, Bali, e Madura, com todas as mais ilhas deste arcipélago – os títulos que o tirano mouro atribuíra a si próprio – veio estilhaçar a paz e os negócios dos portugueses.

O reino gentio de Sunda ou Banten, outrora aliado dos portugueses, fora subjugado no ano de vinte e sete com grande violência e mortandade, por Trenggana, o sultão muçulmano de Demaa, na costa norte de Java Central, sendo agora seu vassalo. No entanto, apesar da mudança de poder e de religião, o rajá Hasanudin consentia que a sua gente fizesse tratos comerciais com os portugueses, de modo que eram frequentes as viagens de Goa ou de Malaca a Banten para resgatar pimenta, como fora o intento de Fernão.

Estando sujeito ao Pangeran de Demaa, com cuja filha casara, o rajá quis ir em pessoa, com grandes mostras de cortesia, receber a embaixadora Niyai Pombaya ao seu calaluz, um pequeno mas rápido barco a remos muito comum nos mares de Java, que atracara ao cais. A ostentação e pompa do seu cortejo fizeram pasmar Fernão e os restantes portugueses.

Todos os caminhos do percurso real, desde os paços ao cais, tinham de cada lado incontáveis estandartes e bandeiras a esvoaçarem ao vento, intervalados por páyungs ou pára-sóis de três fieiras, de seda franjada, ornamentados com ouro, assim como grande número de gamelans com os músicos a tangerem com todo o vigor a panóplia dos seus instrumentos. Uma fila interminável de lanceiros com os seus trajos de guerra, de cuja faixa de cintura de várias voltas pendiam a espada e três crises, um de cada lado e o terceiro atrás, exibiam-se em atitude de combate.

Nenhum pormenor fora descurado para mostrar a riqueza e o alto estado do rei, a começar pelo páyung cor de ouro que só ele pode usar, erguido bem alto por um portador na frente do cortejo. Numa carreta puxada a cavalos, em forma de leito, com um belo trabalho de marcenaria, vem Hasanudin, nu da cintura para cima, com o torso e os braços cobertos por um pó amarelo brilhante. Ornado com muitas jóias, traz um pano de seda a envolver-lhe as ancas, caindo em pregas, apertado por uma faixa de cintura, onde brilha o punho trabalhado do cris de ouro. A seu lado repousa o escudo, com incrustações de pedras preciosas, mais por vaidade do que para se proteger dos ataques traiçoeiros de um qualquer amouco ou rival que lhe cobice o trono, porque para o defender tem a sua poderosa hoste de lanceiros, os wáhos. Seguem-no oito portadores das imagens do elefante sagrado e do touro e um segundo grupo de palafreneiros que conduz quatro cavalos ricamente ajaezados.

Atrás da carroça vão os nobres com as insígnias do poder real, umas figuras douradas de um palmo de altura, representando um elefante, uma serpente, um touro, um veado e um galo de combate. Seguem-nos os carregadores de utensílios do serviço de Hasanudin, como o dámpar, o banco de ouro ou prata com almofada de veludo onde se senta, a caixa do bétele e o pote para cuspir, a bolsa com uma erva misturada com anfiam ou ópio186, que ali se fuma para avivar os espíritos, o seu cachimbo, o tapete, as salvas e recipientes da herança muito venerada da família real, e ainda dois cavalos de sela com os seus moços tratadores, quatro baús levados em ombros por dois homens, respectivamente com as roupas do rajá, as armas pessoais, os jaezes dos seus cavalos, as provisões e tudo o mais que o soberano possa vir a precisar, estando fora do palácio.

À passagem do cortejo, todos baqueiam, fazendo o dódok, sentados nos calcanhares, de mãos postas, erguidas até à testa, em sinal de acatamento e obediência. Apinham-se no cais, a uma distância conveniente, ávidos de verem o espectáculo dos cumprimentos reais, mas também de saberem a razão da visita da emissária do poderoso Pangeran Trenggana, que sempre é prenúncio de sacrifícios para o povo.

Hasanudin desce da sua carroça e os chefes vêm fazer-lhe a saudação de obediência, beijar-lhe o joelho, o peito do pé ou a sola do sapato, segundo a diferença de estado de cada um. O rajá dirige-se em seguida ao calaluz para saudar e conduzir Niyai Pombaya aos seus paços, onde pousará com a rainha, sua esposa. Durante o tempo que a embaixadora permanecer no reino, a fim de mais a honrar, el-rei ocupará outros aposentos, afastados dos das mulheres.

Fernão admira a importância e o respeito que são dados naquelas terras às mulheres, a quem os reis confiam as embaixadas dos negócios mais delicados, quando se requer paz e concórdia entre os reinos, tão diferente do uso português.

– É um costume antiquíssimo nestes reinos os sultões escolherem donas viúvas ou casadas para as suas embaixadas – explica-lhe o jau que lhe serve de língua, rindo-se da sua perplexidade. – As mulheres, graças à sua branda natureza, ganham o respeito da parte contrária e são capazes de levar a bom termo as missões mais difíceis, porque têm mais afabilidade, autoridade e paciência do que os homens, que são secos e, por isso, muito menos agradáveis ao trato.

– Que atributos tem de ter essa mulher para ser embaixadora? Pode ser qualquer dona ou donzela?

– Para que possa fazer o negócio bem feito, ela tem de ser esposa legítima, mãe de filhos criados ao peito ou viúva honesta. Não pode ser solteira nem demasiado formosa, porque perderá a honra ao sair de casa e, por ser mais motivo de desinquietação nas cousas em que se requer concerto, que de as trazer ao fim da paz e concórdia que se pretende. Que quererá ela d’el-rei?

Mais uma vez não se enganara a arraia miúda, sujeita como sempre à vontade dos poderosos, a que não podem resistir. A ordem, disfarçada de recado, era uma convocação para a guerra: No termo de mês e meio, o sultão Hasanudin deverá ir com o seu exército encontrar-se com o Pangeran Trenggana, na cidade de Japara, onde o imperador se está a fazer prestes para ir acometer a cidade de Panarukan, do reino gentio de Blambangan, no nordeste de Java.

Depois da partida do cortejo, de regresso ao paço real, com el-rei a cavalo e Niyai Pombaya posta na carroça, com as cortinas corridas, a multidão dispersa sem alegria, falando baixo como a medo, sobretudo as mulheres do povo que choram. Fernão fica a observá-los, captando-lhes as expressões e reacções a uma notícia que lhes trouxe uma ameaça de dor e morte.

Os homens são atarracados, grossetes, de peitos largos, rostos grandes, as barbas peladas, tal como os demais pêlos do corpo, por vaidade e galanteria; tosquiam a cabeça por baixo, deixando um tufo de cabelos levantados no alto, como a crista dos seus galos de combate. Os ricos e principais da terra usam um pano largo de algodão pintado ou de seda, até meio da coxa, os de baixa condição cobrem-se com um pano branco de algodão, atado à volta da cintura, que passam por entre as pernas e prendem atrás, muito mal entrouxado. Sempre com o seu inseparável cris à cintura ou às costas, de punho ricamente trabalhado e lâmina ondulada como uma cobra, feita para esgaçar a carne do inimigo e causar feridas muito difíceis de sarar, a que também acrescentam peçonha.

As mulheres untam o rosto e o corpo com uma mistura de óleo perfumado e um pó amarelo, para os fazerem macios, tingem os dentes de negro como as de Samatra e metem pesados ornamentos nos lóbulos das orelhas, estirando-os como compridos fios de carne, com o cabelo longo, brilhante de óleo, preso num carrapito por paus de madeira, prata ou ouro. Usam um pano em volta do corpo, atado acima dos seios que cai até abaixo do joelhos ou pelos tornozelos.

As de mais qualidade não se mostram fora de casa e, quando saem, vão dentro de um norimon, uma espécie de gaiola ou jaula de topo cónico, com uma argola por onde passa um bambu grosso que é levado ao ombro por dois escravos; a gaiola é toda tapada à volta para que não se veja quem lá vai dentro, escoltada por eunucos, de que há grande quantidade na terra para estes serviços, por serem os jaus muito ciosos. Um homem pode ter todas as mulheres e concubinas que consiga manter, todavia, sendo tanto eles como elas muito ciumentos e vingativos, a paixão que mais frequentemente os leva ao crime é o ciúme, em que se fazem amoucos.

As fazendas dos navios portugueses tinham grande aceitação entre os comerciantes da terra. Traziam tecidos de algodão para serem vendidos por sapecas ou caxas, umas pequenas moedas de cobre chinesas, de pouca valia, furadas no meio e enfiadas em baraços ao modo de colares, às duzentas, quinhentas ou mil. Passavam então a Bima, na Sumbawa, uma das muitas ilhas de Sunda, para resgatarem com essas caxas, arroz ou panos de algodão de pior qualidade que iam trocar a Banda e às Molucas por noz, maça e cravo e, às vezes, em Timor, por sândalo. Nesta viagem demorava-se oito vezes mais do que numa derrota directa, mas conseguia-se um lucro muitíssimo maior.

Fernão sorri, lembrando-se da triste figura que fizera, ao procurar saber se era verdade o que ouvira contar sobre uma árvore que tinha dentro do seu tronco uma verga de ferro de tanta virtude que nenhuma arma podia ferir quem trouxesse uma lasca dela junto da sua carne; se era por a usarem que os jaus se mostravam tão destemidos guerreiros que, conquanto lhes pusessem uma lança nas barrigas, eles se enfiavam por ela sem receio algum, até chegarem ao adversário para o matarem primeiro. A primeira vez que o língua traduziu a sua pergunta, a um bando de jaus, foram tantos os risos e as zombarias que Fernão, de tão corrido e humilhado, não se atrevera a continuar com a sua inquirição sobre a árvore milagrosa. Ou se tratava de um mito ou os maganos faziam segredo dela, para que nenhuma nação estrangeira lhes roubasse a vantagem da invencibilidade, reproduzindo a árvore fora de Java para seu próprio proveito.

Quando a multidão dispersa, Fernão regressa à sua pousada, um pouco apreensivo quanto aos sucessos que se adivinham, com os portugueses ali presos pelas monções, impossibilitados de passarem a Malaca ou seguirem para a China como pretendiam, para venderem os produtos que tinham resgatado na ilha.

Finda a concertação do negócio com o sultão que a trouxera a Banten, Niyai Pombaya partiu para o porto de Japara, a dar conta da sua missão ao Pangeran, deixando Hasanudin a preparar o seu exército e armada para, no mais breve tempo, se ir juntar ao sogro.

186 Ao anfiam chamam os árabes ofiom e afiom, da palavra grega opio, feito das lágrimas das dormideiras.

III

Seja o primeiro para um banquete e o último para uma batalha

(tâmil)

Bráta Yúdha – A Guerra Santa ou Guerra de Woe187:

XCVII. À cabeça do cortejo toma lugar Bíma, o audaz, o bravo;/ Fremindo impaciente pelo combate, e desdenhoso do adversário,/ Permanece de pé, girando o seu gáda no ar por divertimento./ Afeito a conquistar, tanto no mar como nas montanhas, elefantes e leões tornaram-se o seu espólio.

XCVIII. Na sua fúria ele é tão poderoso como o elefante da floresta:/ E, agora, em marcha, anseia pelo chefe hostil, e lança o seu desafio;/ A sua voz, como o rugir do leão, é ouvida por todos,/ O som retumba através dos três mundos.

XCIX. Atrás dele segue Arjúna, sentado num esplêndido carro de variegado ouro, e abrigado por um páyung dourado,/ Flamejante como uma montanha ardente e ameaçando com a destruição Astína e os seus príncipes./ O seu estandarte, o macaco, ondula alto nos céus, fustigando as nuvens, na sua corrida;/ E como o seu séquito brilha e refulge, relâmpagos cintilam com o trovão em presságio de vitória.

C. Junto de Palgúna vem Aria Nakúla, com Sedéwa, num carro verde de precioso lavor./ Semelhantes em beleza a duas divindades do céu, vão sedentos do ataque aos jovens de Astína,/ Resplendecem de fulgor. O pendão flutua no ar como uma nuvem negra ameaçando chuva, e espalhando pétalas olorosas de flores./ Prontos para o combate, como o trovão antes do clarão do relâmpago; em marcha, o som assemelha-se ao zumbido das abelhas em busca de comida.

CI. Lentamente seguem Aria Utára, com Soíta, também montados num carro de guerra;/ Depois, Drásta Driúmna e Drypádi, com Sikándi junto dela;/ Com incontáveis carros, elefantes e cavalos, avança a cavalaria, enchendo todo o espaço:/ Todos animados em espírito, como peixes reanimados por súbita chuvada.

CII. E eis que surge Drupádi, reclinada numa liteira de ouro, e resguardada por um páyung de penas de pavão:/ Era como a imagem dourada de uma deusa, com o longo cabelo solto e livre ondeando ao vento./ Ela não o prendeu: deixa-o esvoaçar como uma nuvem ameaçadora, à espera do momento da chuva de sangue;/ Fiel ao voto de só apanhar a cabeleira e atá-la num nó, depois de se banhar no sangue do inimigo.

CIV. Então avança Krésna no seu carro dourado e abrigado por um páyung branco;/ Chefiando com prazer a retaguarda com os príncipes mais velhos e a hoste real./ Perto vêm o seu chákra e os príncipes do seu séquito montados em elefantes brancos;/ O grito dos elefantes ergue-se claro e alto, unindo-se à fanfarra de sons saídos de todas as hostes.

O rajá de Sunda fora recebido com todas as honras pelo sogro, à chegada a Japara com a sua frota, na qual vinham quarenta portugueses a quem pedira publicamente e com muito empenho que o acompanhassem naquela empresa, como artilheiros, em troca de grandes benefícios nas suas fazendas. As suas mercadorias ficariam isentas de tributos, cada português receberia cem cruzados pela campanha e outros trezentos seriam dados aos herdeiros de todos os que tivessem a honra de morrer nas suas fileiras.

O pagamento era muito generoso, para mais tendo o pedido a força de uma ordem, de modo que apenas ficaram com o junco o capitão Martim Esteves com cinco portugueses, que se escusaram por razões de doença e por haver necessidade de não deixar o navio desamparado. Fernão fora apanhado na rede, sem possibilidade de escapar mesmo se quisesse, consolando-se com a ideia do negócio vantajoso do soldo e dos benefícios da alfândega que lhe trariam a fortuna desejada, desde que se não deixasse matar, sendo a sobrevivência um exercício em que ele se tornara exímio.

Tinham chegado a Panarukan aos onze dias de Fevereiro de mil quinhentos e quarenta e seis. Trenggana viera no navio do rei de Pasuruan ou Passervão, o almirante da sua fortíssima armada, porém, como o rio era muito assoreado e só permitia a navegação de embarcações de pequeno calado, fizera desembarcar toda a sua gente num lugar a duas léguas de distância e enviara uma hoste nos barcos a remos para queimar todos os navios que estivessem no porto, o que fora feito sem grandes perdas de gente. Hasanudin, com o posto de general, seguira para Panarukan por terra com o exército, reforçado pelos contingentes de Bornéu, vassalo de Demaa, e de Achem, para assentar o arraial em lugar vantajoso.

Durante dois dias, os capitães do Pangeran com os seus homens, seguindo as indicações dos mercenários turcos e portugueses, cercaram a cidade com valos muito altos, terraplenos fortificados de fortes vigas, para suportarem as grossas peças de artilharia, dispostas de modo a baterem os pontos mais fracos das defesas dos adversários que, por sua vez, se haviam barricado em bastiões, tranqueiras e taludes providos de fortíssima artilharia.

Os jaus tinham muito boas armas e gozavam da merecida fama de lutarem destemidamente, sendo também bons artilheiros, ensinados por um renegado algarvio, mestre de fundição, enviado pelo rei de Achem, com quem aprenderam igualmente a fazer bombardas, além de espingardas, espingardões e muitos artifícios de fogo. As suas espadas, lanças e adagas eram rijas e fortes, tornando-se quase invencíveis quando se faziam amoucos e saíam para o ataque, dispostos a morrer matando, uma visão arrepiante a que Fernão em breve iria assistir.

Nessa noite, no campo bem vigiado, descansavam e folgavam com música e canções, a que não era alheio o consumo do arac, a sua aguardente, porque o dia seguinte fora aprazado para o primeiro assalto e, se lá entrassem pela força das armas, os portugueses dariam um papo quente188 à cidade, com permissão d’el-rei de Sunda. Eram danças guerreiras, muito bem executadas, a que não se eximiam os nobres da classe mais alta, competindo em pares, como num duelo, nus da cinta para cima e nas pontas dos pés, com os corpos cobertos de pó amarelo, ora meneando o cris e o escudo, ora retesando o arco e soltando a flecha, ou ainda atirando a lança ao ar e apanhando-a com destreza e galhardia, evoluindo com o corpo e os braços em graciosos movimentos ou atitudes, ao som do gámelan. Para Fernão era mais fácil entender a dança do que a língua, porque os jaus falavam diferentes idiomas entre si, mudando conforme a qualidade ou importância daquele com quem falavam.

O campo era um verdadeiro mostruário dos costumes e crenças daquele povo, que a imposição das leis de Mafamede não lograra extirpar. Já em Banten, depois em Japara, assistira às suas artes de adivinhação e astrologia, em que consultavam certas aves, sacrificando animais, cujas carcaças deixavam num espaço aberto. Chocalhavam então os ángklung, uns instrumentos musicais feitos de bambu, e imitavam o grito dos corvos; se as aves não viessem comer ou ficassem a pairar no ar, tinham de fazer mais danças ou sacrifícios para poderem partir. Tanto em Banten como em Japara, os corvos tinham comido a carne do animal sacrificado e partido na direcção de Panarukan, o que fora de bom presságio para a sua campanha. No arraial as adivinhações faziam-se para conhecerem o resultado da guerra, a quem pertenceria a vitória e se sairiam vivos ou mortos do confronto.


Com a liberdade que a ficção concede ao contador de histórias de se passear a seu bel-prazer pelos tempos e lugares da acção, podendo até arrogar-se o dom da ubiquidade a fim de narrar sucessos simultâneos – prática a que o próprio Fernão recorreu neste episódio da sua Peregrinação –, a narradora irá transportar o seu leitor para dentro da cidade de Panarukan e dar-lhe conta, em discurso directo, do estado de alma do rajá sitiado e dos seus súbditos, na antecipação do assalto dos invasores.


– Como pudemos consentir nesta afronta? Trabalharam dous dias inteiros na fortificação do seu arraial sem que ninguém lhes fosse à mão.

– Decerto nos tomam já por covardes que, como fracas mulheres, nos mantemos escondidos em buracos ou resguardados por trás das defesas da cidade, com medo de os defrontar.

– É uma gente vil, que nos quer obrigar a deixar a fé dos nossos antepassados, em que fomos criados por nossos pais, impondo-nos uma nova crença por incitação dos farazes estrangeiros.

– Prometem-nos a salvação tão-só com lavarmos as partes traseiras, não comermos porco e casarmos com sete mulheres. Menos afronta é ser derrotado numa surtida, do que ver el-rei cercado por tal gente!

– Senhor, dá-nos licença para irmos esta noite apalpar o terreno inimigo e lavar a nossa honra. Cremos que a sua gente estará cansada do trabalho e pouco senhora das armas, sem forças para nos fazer rosto, no primeiro ímpeto. que não esperam.

O rajá é tão mancebo como aqueles que lhe falam, cheios de brio e com o sangue em fogo nas veias, a fina flor do seu reino. Sabe-se amado por eles, assim como pela gente mais velha e até pelos estrangeiros que vivem em Panarukan, não só pelas grossas mercês, favores e honras que concede a todos em abundância, mas também pelas boas palavras e modos como os trata, não havendo um único homem, rico ou pobre, no reino que não esteja disposto a aventurar mil vezes a vida por ele.

– Que diz o meu conselho sobre esta saída? – pergunta, desejoso de que a resposta dos mais velhos e prudentes seja favorável ao pedido dos mancebos.

São muitos os pareceres a favor e contra, como sempre sucede quando se confrontam opiniões, partidos ou poderes, mas, atendendo à urgência do negócio e ao perigo que correm de ver o reino tomado, chegam por fim a um consenso:

– Por muito que a fortuna nos seja contrária nessa saída contra os nossos inimigos, será menos desonroso do que aceitar sem luta a ofensa que fazem a Vossa Alteza, querendo assenhorear-se do reino e converter-vos à força à religião de Meca.

– É próprio do leal vassalo morrer pelo seu rei! – bradam os mancebos numa só voz, apertando o punho dos crises, com os olhos a brilharem de fervor guerreiro.

– Não convém dilatar o ataque – aconselha um capitão experimentado nos combates com os mouros. – Sairemos de noite e, com os nossos feitos de armas, mostraremos aos que renegaram a fé dos nossos antepassados o amor que temos ao nosso bom rei. O nosso sangue será a melhor herança que deixaremos aos nossos filhos.


Ainda antes das duas horas da madrugada, o largo terreiro ou paseban, diante dos paços reais, enchera-se de gente armada, ansiosa por participar na expedição nocturna e os quatro capitães escolheram os homens para formarem as suas companhias.

– Ninguém poderá levar a cabo esta empresa melhor do que vós – diz-lhes o moço sultão, alçando a voz para se fazer ouvir por sobre as cabeças inclinadas dos seus guerreiros que, como um só homem, se prostraram no solo ao vê-lo. – O meu coração está convosco. Dentro dele tenho os vossos capitães e a cada um de vós como irmão, por serdes vassalos tão leais que quereis lavar a minha honra com o sangue dos meus inimigos.

Terminada a sua fala que trouxe lágrimas a muitos olhos, tomou um copo de ouro e foi dar de beber por sua mão aos homens que lhe estavam mais cerca, pedindo perdão aos restantes por não o poder fazer a todos, devido ao adiantado da hora e à preparação necessária para o trabalho que os esperava. Cheios de ânimo, os soldados começaram a cuidar da alma e do corpo para se fazerem amoucos, untando-se com minhamundy, um unguento perfumado, enquanto oravam aos seus deuses.

As quatro companhias de guerreiros sedentos de sangue saíram por distintos lados da cidade, em silêncio, e caíram sobre o arraial dos descuidados invasores como uma horda imparável, indiferentes à dor e ao medo, de olhos acesos em fúria, narinas frementes, espadas e lanças volteando em louco frenesim, enterrando os corpos nas lâminas dos surpreendidos adversários, metendo-se por elas para lhes chegarem com as suas e arrastá-los consigo para o reino dos mortos.

Uma hora durou o combate e, por fim, os amoucos de Panarukan retiraram-se vitoriosos para a cidade, com poucas baixas, levando cativos três reis e oito pati, que são como duques, deixando atrás de si o campo do Pangeran de Demaa quase destroçado e juncado de milhares de mortos. Hasanudin foi ferido com três lançadas e só não perdeu a vida nem foi feito prisioneiro porque os quarenta portugueses o defenderam corajosamente, com a morte de catorze companheiros. E o próprio Pangeran esteve à beira da morte, por causa de uma zargunchada que o atravessou de lado a lado e, embora não fosse um golpe mortal, fizera-o cair ao rio, de onde o retiraram mais tarde meio afogado.

Trenggana sacudira o médico que lhe pensava a ferida, mal se apercebendo da dor, com a raiva que sentia pela pesada derrota que lhe manchava a honra. Culpava o genro pelo desaire, visto ser o general do campo responsável pela ordem no arraial.

– Tanta gente morta e ferida no começo do cerco, Hasanudin, sem sequer acometermos a cidade? Tão má vigia puseste no campo que por duas vezes os nossos homens foram desbaratados, antes mesmo de os capitães os poderem pôr em ordem de combate ou até de tomarem as armas!

O sultão de Sunda aceitava os remoques, enfiado e corrido, sentindo-se culpado da muita desordem que houvera em todos.

– Trata de fortificar de novo o arraial, porque te juro sobre este livro do profeta Muhammad que não deixarei o cerco, enquanto não arrasar a cidade e passar toda a gente à espada sem poupar a vida a ninguém.

Diz-se que o homem põe e Deus dispõe, um ditado certeiro no presente caso porque passados três meses, apesar de todos os engenhos de guerra, dos inúmeros assaltos à cidade e de alguns milhares de mortos de ambos os lados, Panarukan continuava de pé, inconquistada.

Os sitiados viam com desespero a grande serra feita de entulho e terra, fortificada com vigas, que em nove dias os inimigos tinham erguido diante da cidade e lhes tapava o horizonte, de onde os bombardeavam constantemente com pesada artilharia, causando-lhes grandes danos.

– Senhor, se nada fizermos, a nossa perdição é certa – disseram os quatro capitães dos amoucos ao sultão de Panarukan. – Dá-nos licença para acometer e destruir aquela serra, como fizemos ao seu arraial, no início do cerco. Vê como os teus soldados se oferecem para vencer ou morrer.

El-rei saiu ao terreiro coberto de amoucos, que o saudaram com um grande grito. Ali estavam todos os que podiam pegar numa lança, espada ou arco, quase nus, com os corpos untados de minhamundy, como remate da sua determinação de morrer pelejando.

– Sois, em verdade, os Tigres do Mundo! – bradou-lhes, cheio de orgulho pela valentia e lealdade dos homens. – O comando desta missão pertence aos vossos quatro capitães, mas desta vez eu também irei convosco, como capitão general.

A ovação dos soldados encheu de ânimo o seu jovem coração e o soberano retirou-se a fim de se preparar para o combate, aprazado para quando nascesse o sol, que daria no rosto dos artilheiros inimigos, ofuscando-os.

O assalto durou o tempo de Fernão rezar dois ou três credos, vendo estarrecido como os amoucos acometiam a fortificação sem medo e com total desprezo da morte, os corpos brilhando sob os raios de sol como uma auréola, desbaratando os turcos e achens que a defendiam. Acudiu Trenggana, em pessoa, com a sua companhia de amoucos, que também os tinha igualmente dispostos a reconquistar a serra de entulho, agora nas mãos dos panarucões, ou a morrer na peleja.

Entrincheirados nela, os sitiados defenderam-na enquanto puderam, causando pesadas baixas ao invasor, embora à custa de muitas vidas e sangue da sua gente. Era hora de vésperas, quando o sultão de Panarukan, que apesar de muito ferido se mantinha no seu posto, deu ordem para lançarem fogo à serra por várias partes e se retirarem para a cidade. As chamas propagaram-se pelo entulho, faxina e vigas da fortificação como por palha, não tardando a chegar aos barris das munições que rebentaram com medonho fragor, transformando a serra num braseiro, que não havia quem o pudesse sofrer a mais de um tiro de besta em redor. Os sitiados tinham vencido de novo Trenggana, o poderoso imperador de Java.

187 Poema épico em káwi, língua clássica de Java.

188 Dar um papo quente – saquear à escala franca um lugar, um navio; ter liberdade de saquear.

IV

Quem caminha por atalhos, nunca lhe faltam trabalhos

(português)

Tratado de paz entre El-Rei D. João III e os habitantes da ilha de Sunda, e auto de posse que se tomou, em nome do dito Rei da mesma ilha (1532):

Em nome de deus, ámen. Saibam quantos este instrumento de fé e certidão de aquisição e filhamento e posse virem, que no ano do nascimento de nosso senhor Jesus Cristo de mil e quinhentos e trinta e dous anos, aos vinte e sete dias de janeiro da dita era na ilha de Sunda e porto d’Agacim , estando aí Lopo Álvares como procurador abastante del Rei nosso senhor, para o caso e auto abaixo declarado , concertou em nome do dito senhor Rei e contratou com o Xabandar da terra e assi com outros mercadores principais e outros moradores e lhes comprou muitos mantimentos da terra e venderam os portugueses muitas roupas e mercadorias que levavam a caxas, moeda da terra, a troco d’ouro e escravos e escravas

Dali se partira a frota e fora surgir ao porto de Panaruca e ali achara homens portugueses com mercadorias, a saber, cravo, noz, maça e roupas, esperando monção para partirem para a cidade de Malaca.

E logo meteu na dita ilha de Sunda e porto de Panaruca um padrão de pedra grande e nele esculpidas as armas do dito senhor Rei em sinal e lembrança de como a dita ilha fora descoberta pelas gentes e vassalos do dito senhor, o qual padrão foi metido por Lopo Álvares, procurador do dito senhor, na primeira volta do rio do dito lugar de Panaruca.

[E disse que assi] adquiria o dito Rei todo o direito, posse e senhorio da ilha de Sunda e assi posse ou quase posse da negociação e trato e comércio da dita ilha e tudo aquilo que por razão de assi ele meter o dito padrão e assi por causa do dito descobrimento o dito senhor pode e deve com direito haver, ter e adquirir por qualquer modo, via e maneira que seja a posse ou quase posse do dito trato, negociação e comércio da dita ilha de Sunda.

Trenggana, apesar dos sucessivos desaires e da mortandade do seu exército, não desistia da conquista da cidade e, fazendo orelhas moucas às palavras dos seus capitães que aconselhavam a retirada, ordenou-lhes que preparassem os seus homens para um novo assalto, seguro de que os sitiados já não teriam forças nem munições para a defenderem, para mais tendo o seu rei sido ferido com gravidade, segundo soara pelo arraial.

O sultão de Sunda ainda não se esquecera dos remoques do sogro, nem da pública humilhação que sofrera, no início do cerco, a que só o desastre do próprio Trenggana, no último ataque dos sitiados à serra de entulho, trouxera algum lenitivo. Não queria correr o risco de novo desastre e não estava tão seguro como ele da fraqueza dos defensores da cidade, os quais já tinham dado bastas provas de estarem dispostos a defendê-la enquanto lhes restasse um sopro de vida.

Pusera soldados de atalaia no local onde os seus espias lhe tinham dito que os sitiados faziam entrar na cidade as provisões que os camponeses lhes traziam às escondidas das suas lavouras e a sua previdência fora recompensada com a tomada de nove homens, que ele mandara pôr a tratos a fim de conseguir as informações para concertar o seu ataque.

Oito deles morreram despedaçados às mãos dos carrascos, que não lhes deram tréguas, procurando arrancar-lhes os segredos das defesas de Panarukan e tudo o que pudesse servir ao senhor de Demaa para levar a cabo a sua conquista. Os resultados tinham sido pouco satisfatórios, porque as vítimas nada sabiam ou eram tão corajosas que preferiam morrer a trair o seu rei. Exasperado, o general vai assistir ao interrogatório do último prisioneiro, para se assegurar de que não morrerá antes de lhe dizer o que precisa de saber.

– Sou português – grita o homem, no dialecto panarucão, ao receber o primeiro trato com pingos de óleo a ferver e repete: – Sou português, nada sei do cerco.

Hasanudin faz cessar os tratos e manda recado ao lugar onde pousam os portugueses, para que venham sem demora à sua presença. Fernão e os vinte e cinco companheiros estão igualmente desesperados com a longa guerra, temendo que os impeça de partir naquela monção, no barco que está surto no cais de Banten há mais de três meses, com a chusma à sua espera. Catorze homens haviam perdido a vida no primeiro assalto e, no último, à serra de entulho, outros vinte tinham sido feridos com muita gravidade, de modo que só restam seis, com ferimentos mais ligeiros, ainda capazes de pegar em armas e acudir, a custo, ao chamado d’el-rei de Sunda.

– Este cativo diz que é português. Vede se fala verdade.

O homem, com cerca de sessenta anos, parece aterrorizado e balbucia palavras incompreensíveis, que não lhes permitem reconhecer a língua, embora os portugueses não tenham dúvidas de que se trata de um europeu e decidem salvá-lo dos tratos e da morte, com uma mentira. Fazem o dódok, sentando-se nos calcanhares, o corpo prostrado e as mãos postas, erguidas até à testa.

– O homem é português, como nós, Alteza – assegura Fernão pela voz do língua. – Fazei-nos mercê da sua vida, pois tudo o que souber da cidade, no-lo dirá de boa vontade, logo que sossegue, sem necessidade de tratos.

Rasteja sobre os calcanhares e joelhos, ao modo dos jaus, e beija-lhe o peito do pé, contente por não ter de lhe beijar a sola do sapato, como a gente do povo.

– Levai-o convosco e tratai de apurar o que sabe, pois o tempo urge.

Os seis portugueses retiram-se, recuando de joelhos, com o cativo a rastejar atrás deles. O homem vai tão fora de si que, durante o caminho, não se conseguem entender em nenhum dos idiomas europeus seus conhecidos.

– Deixai-o em paz. Pode ser que algum dos nossos companheiros fale a sua língua, seja ela qual for – remata Fernão.

Seguem em silêncio até ao lugar onde pousam os feridos, numa tenda que haviam improvisado para lhes dar algum conforto.

– Sois mesmo português? – perguntam de novo, vendo-o já sossegado.

O homem solta as lágrimas que há muito trazia presas no peito.

– Até hoje não sabia nada de vós, senhores e irmãos meus – diz, por fim, quando domina a comoção. – Chamo-me Nuno Rodrigues Taborda e sou português de pai e mãe, natural de Penamacor. Vim do reino no ano de mil quinhentos e nove na armada do marechal D. Fernando Coutinho, na nau S. João, de que era capitão Rui Diaz Pereira. Afonso de Albuquerque, que Deus tenha em glória, conhecendo-me por homem honrado, fez-me mercê da capitânia de um bergantim da sua frota e com ele estive na tomada de Goa e de Malaca, assim como nos combates de Calecut e Ormuz e demais empresas que cometeu. Tomei parte em todos os feitos honrosos que se fizeram também no tempo dos governadores Lopo Soares, Diogo Lopes de Sequeira e de todos os outros até D. Anrique de Meneses.

– Como veio vossa mercê aqui parar? – quer saber Rui de Moura.

– Que fazeis nesses trajos e com insígnias dos gentios? Não sois cristão?

Taborda baixa os olhos e um forte rubor sobe-lhe ao rosto.

– Eu vinha na frota de Francisco de Sá, a quem el-rei mandara fazer a fortaleza em Sunda. O meu bergantim, S. Jorge, naufragou nesta costa, há já vinte e três anos. Dos três portugueses que escapámos e viemos ter a esta terra, hoje só eu estou vivo. Esta gente acolheu-nos bem, mas sempre apertando connosco para nos convertermos à sua Lei; resistimos enquanto pudemos, porém, como a carne é fraca, a fome era grande, a pobreza muito maior e a esperança da liberdade de todo perdida na distância do tempo, cedi por fim aos seus rogos e aceitei a sua religião, vivendo como um eremita e curandeiro, com a protecção do pai deste rei, que me favoreceu sempre. O filho, que é tão bom e generoso como o melhor dos reis cristãos, faz o mesmo, por isso, ontem fui chamado para vir curar dous homens nobres dos principais desta terra e quis Nosso Senhor que me tomassem estes perros mouros. E vós, que fazeis com eles? O rei de Demaa é um tirano mouro que quer impor a Lei de Mafamede a todos os gentios de Java.

Fernão estremece, com o remoque do cativo. De facto, poderia ser mais pecaminoso, aos olhos de Deus, lutar ao lado de muçulmanos intolerantes contra gentios idólatras, ajudando-os a espalhar a sua religião, inimiga figadal da cristã, do que renegar a sua fé pela necessidade de matar a fome ou salvar a própria vida. Sente os fios da memória enredarem-no de novo na teia do tempo. À semelhança do que sucedera com Vasco Calvo, na China, viera encontrar Taborda numa ilha longínqua de um mar quase ignorado. Quantos mais portugueses estariam perdidos neste vastíssimo mundo, vivendo entre raças estranhas, sem esperança de serem resgatados um dia, porque os seus companheiros e os seus chefes os julgam mortos? Esse medo, transporta-o ele consigo, em todas as viagens, como uma ameaça constante que, nos momentos de maior perigo, o faz preferir a morte ao abandono num lugar ignoto, sem retorno.

– Como foi que naufragastes? – pergunta Rui de Moura que parece desconfiar do renegado.

– Que sucedeu a Francisco de Sá? Não se fez nenhuma fortaleza em Sunda!

As perguntas dos companheiros arrancam Fernão aos seus pensamentos, já esquecido da melancolia que ultimamente lhe tem ensombrado a alma. Taborda, tal como Calvo, era um veterano das primeiras campanhas da Índia, ao lado de Pêro de Faria, Fernão de Magalhães, Francisco Serrão, António de Abreu, Fernão Peres de Andrada e outros dessa panóplia de grandes guerreiros e descobridores ao serviço de Afonso de Albuquerque e dos governadores e vizo-reis que lhe sucederam. Presta um ouvido atento à história de Taborda, contada num português de estranho acento, com muitos termos jaus à mistura, para lhe dar informações do que ouvira a Pêro de Faria e ele não podia saber.


Francisco de Sá de Meneses foi enviado por el-rei D. João III, no ano de vinte e seis, com uma armada de seis navios e trezentos homens, a dar início à construção da fortaleza de Kalapa, segundo o tratado assinado quatro anos antes com o rei de Sunda. Os castelhanos andavam a rondar as Molucas e as fortalezas serviam para dar apoio aos navios e homens que patrulhavam aqueles mares, com ordens para afundarem qualquer navio espanhol que apanhassem pela frente, sem fazerem cativos nem reféns.

Pêro de Mascarenhas, o capitão de Malaca que tinha sido escolhido por el-rei para governador da Índia, antes de partir para Goa, decidiu destruir de vez o poder de Mahamed. Com a sua armada, a que se juntou Francisco de Sá com os seis navios, onde eu ia por capitão do bergantim S. Jorge, Mascarenhas foi atacar a ilha de Bintão, o reduto quase invencível onde o sultão derrotado se acoitava. Desbaratou-lhe a frota e o exército, tomando-lhe a ilha, com uma estratégia superior à de Afonso de Albuquerque e sem perder um único homem.

Terminada a conquista de Bintão, Francisco de Sá despediu-se e partiu com a frota para Sunda. O capitão, que tinha escapado incólume, com todos os oficiais e guarnições dos seus navios, aos maiores perigos da batalha, ia meter-se sem o saber em piores trabalhos, à sua chegada a Sunda.

Falatehan, um caciz mouro oriundo de Samatra, viera de Meca para pregar a Lei de Mafamede na ilha de Java, fazendo-o com tanta dissimulação e manhas de santidade que lograra converter o rei de Demaa que lhe dera a filha em casamento. O caciz apoderara-se do reino hindu de Mojopahit, matando o rei que dera licença aos portugueses para a construção da fortaleza e forçando os gentios à conversão. Declarara guerra aos cristãos, não os consentindo na sua terra e lançara uma fatwa, proclamando ser obra santa que faria ganhar o paraíso a quem matasse os portugueses que naufragassem nas suas costas.

Sendo a nossa frota tanto avante como a ilha de Lingga, deu-nos um tempo tão forte que dispersou os navios e, durante muitos dias, soprou-nos como folhas secas a voar sobre as águas. Não podendo pairar, fomos forçados a arribar a estas costas, pois só Duarte Coelho logrou tomar o caminho de Malaca com a sua nau. Uma galé e uma fusta arribaram com muito trabalho ao porto de Sunda, mas o meu S. Jorge deu à costa e os trinta portugueses que se salvaram a nado foram de imediato mortos pelos mouros da terra, com excepção de nós os três que, vendo o massacre, esperámos pela noite agarrados a um madeiro, para podermos sair da água sem sermos vistos.

Francisco de Sá conseguiu juntar os restantes navios e foi lançar ferro no porto de Banten, enviando recado a el-rei, a lembrar-lhe o tratado feito com o seu antecessor e, confirmando a amizade dos portugueses, pedia-lhe permissão para construir a prometida fortaleza. Como ele não consentiu, o capitão mandou desembarcar o seu exército para ocupar a terra e “fazer por força o que ele não queria consentir por vontade”, contudo, a resistência feroz dos mouros forçou-o a retirar-se para Malaca com quatro mortos e muitos feridos.


Quando ele se cala, os companheiros mantêm-se em silêncio durante uns momentos, espantados com a sua história.

– Segundo me disse o capitão Pêro de Faria – recorda Fernão –, só em mil quinhentos e trinta e três voltou a ser enviada uma armada, aqui a Java, sob o comando de Lopo Álvares, com a missão de negociar um novo tratado de paz para o estabelecimento de uma fortaleza, aqui mesmo, em Panarukan, que, não chegou a ser feita.

– Se vossa mercê quiser ir connosco quando volvermos a Sunda – sugere Rui de Moura, em modo de consolação –, daí poderá seguir para Malaca, onde prazerá a Nosso Senhor que acabará a vida a Seu serviço.

– Oh, sim, levai-me convosco, pelo amor de Deus! – brada Taborda, com os olhos marejados de lágrimas, caindo de joelhos, com as mãos postas numa prece. – A cousa que mais desejei, nestes vinte e três anos de exílio, foi viver de novo com cristãos.

Abraçaram-no comovidos e, entre todos, proveram-no de trajos cristãos e mantiveram-no sempre com eles enquanto durou o cerco, convencendo Hasanudin de que o cativo nunca chegara a entrar na cidade e, por isso, desconhecia tudo o que lá se passava. Juntamente com Fernão, Taborda cuidou dos feridos e queimados com tanto desvelo e saber que muitos lhe ficaram a dever a vida. O mesmo haveria de fazer em Malaca, onde terminaria a sua vida santamente, servindo um ano no hospital dos doentes incuráveis.

V

Se partiste para o norte, segue para norte, não vires para leste, oeste ou sul

(jau)

Inscrição numa pedra na antiga língua Java ou Kawi, no ano de 467:

E os poderes das letras, que são quarenta e sete, fixai-as na vossa mente, para que fiquem dentro de vós. Dispô-las-ei de modo a que as possais desenhar com os vossos três dedos; os hábeis poderão fazer belas letras. Não desprezeis a aplicação das letras, dai a cada uma o seu lugar próprio, porque estas letras são utilíssimas nas transações dos povos deste mundo, enquanto nele viverem.

Assim, para as nações do mundo, o uso das letras abre os corações dos homens ignorantes e faz lembrar aos esquecidos. Porque eu dou indicações aos homens que podem escrever, para que o conhecimento que eu guardo no meu peito possa ser conhecido: e ensinei-vos isto, porque esse conhecimento é a essência do corpo e ilumina-o.

Fernão Mendes Pinto e os restantes portugueses maldizem a ganância que os levou a aceitar a proposta do sultão de Sunda para o seguirem na guerra. A monção da China estava a chegar e, apesar dos sucessivos desaires, o Pangeran de Demaa não desistia de tomar a cidade. As poucas informações que os carrascos arrancaram aos cativos bastaram para lhe dar a certeza da vitória: o moço rajá fora ferido, tinham-lhe matado muita gente e achava-se quase sem munições.

Trenggana mandara os seus porteiros de maças e trombetas a cavalo por todo o arraial, com o pregão de que, dentro de nove dias, todos deveriam estar a postos para o assalto final que ele daria a Panarukan, à escala vista com todo o exército. Durante sete dias o campo fervilhou com os preparativos para a investida, fazendo espadas, machados, lanças, artifícios de fogo e minas, construindo escadas e máquinas de guerra para o assalto às trincheiras e muros que protegiam a cidade. Na manhã do sétimo dia, o Pangeran reuniu conselho com os seus oficiais para concertarem o ataque das suas forças.

Trenggana está impaciente com os debates que se prolongam há horas sem que se chegue a acordo de como, onde e quando se fará o cometimento. Desconfia de alguns senhores que entraram na guerra por obrigação de vassalagem e estão desejosos de abandonar o cerco para volverem aos seus reinos e senhorios. Sente a boca seca e pede ao pequeno pajem que lhe dê bétele para mascar, mas o moço que segura nas mãos a caixa com as folhas da planta não obedece, seja por estar desatento ou porque com o ruído das vozes não ouve a ordem.

O imperador volta a percorrer com os olhos os rostos animados pela discussão, procurando divisar a oposição. O genro dissera-lhe que os aliados temiam perder a vida numa guerra inútil porque, mesmo que tomassem a cidade (o que não era certo, diziam), com a mortandade que não deixaria de se fazer, pouca gente restaria, no fim, para ser convertida à Lei de Mafamede, pois era costume dos amoucos de Blambangan matarem-se juntamente com as mulheres, os filhos e todos os parentes e servidores que os quisessem acompanhar, para não se renderem. Assim prevenido, requerera a todos os senhores que lhe dessem o voto por escrito, para os atemorizar e vergar à sua vontade.

Está a arder de ira e, sentindo mau gosto na boca, volta a pedir o bétele, com o mesmo resultado, porque o rapazola só tem ouvidos para as palavras de guerra e planos de ataque que cada um dos capitães defende.

– Dá-me bétele – repete, já impaciente, embora sem zanga.

O pajem sobressalta-se quando um dos rajás lhe puxa o pano da veste e faz sinal para que sirva o Pangeran. O moço ajoelha-se logo aos pés do sultão, estendendo-lhe a caixa, de onde ele tira duas folhas que mete na boca.

– Não me ouviste? És surdo? – repreende-o num tom distraído, tocando-lhe ao de leve na cabeça, de olhos postos no almirante que fala.

No calor da discussão, ninguém se apercebe do incidente, nem do gesto do Pangeran. Ninguém, excepto o pajem que fica a remoer a ofensa. O imperador, com aquele có de desprezo que lhe dera na cabeça, humilhara-o em público e o filho do rajá de Surabayaa, ao desonrar-se desonrara também toda a sua nobre família. Uma mancha que só poderá ser lavada com sangue. Suspira, enche de novo o peito de ar, pronunciando em silêncio uma prece à deusa da vingança e aos espíritos dos seus antepassados.

Acerca-se do Pangeran em jeito de querer dar-lhe de novo o bétele, porém, em vez da taça empunha o seu pequeno cris de prata, que traz por adorno na faixa da cintura, e enterra-lhe a lâmina no coração.

– Eu sou filho de Patem Pandor, sultão de Surabayaa, não sou um cão que ladra de noite pela rua, ao qual se dá um có na cabeça, para o enxotar!

– Kita mati 189– murmura Trenggana, expirando.

Assim morria, de morte inglória e assaz humilhante, às mãos de uma criança de doze anos, o poderoso Pangeran, conquistador e imperador de toda a ilha de Java, Angenia, Bali, Madura e todas as mais ilhas do arquipélago, diante dos sultões e rajás seus vassalos que, paralisados de pasmo, só demasiado tarde se lançaram sobre o pequeno regicida, manietando-o, enquanto outros procuravam em vão socorrer o soberano agonizante.


O campo dos justiçados erguia-se como uma floresta de sessenta e duas tenebrosas árvores, de corpos empalados, com aves rapaces a bicarem-lhes os olhos e as carnes.

– Espetaram-nos vivos em caloetes grossos, que lhes meteram pelo sesso e lhes saíram pelo toutiço – conta Fernão, com voz trémula e ainda arrepiado do que vira, aos companheiros feridos que não tinham podido assistir ao castigo. – Primeiro foi o pajem, que não passava de um menino e vinha muito escorchado dos tratos que lhe deram para saber se matara el-rei a mando de conspiradores. Apesar de ele ter confessado que só quisera vingar a ofensa que o Pangeran lhe fizera ao dar-lhe um có na cabeça em público, os parentes de Trenggana prenderam e justiçaram também o senhor de Surabayaa, seu pai, com os outros três filhos e todos os seus parentes, acabando-lhe com a geração.

– Isto não vai ficar por aqui – avisa Taborda, preocupado, como bom conhecedor da terra e das suas gentes. – Patem Pandor tinha por aliados e vassalos muitos senhorios em toda a Java, assim como nas ilhas de Bali, Madura e Timor, pelo que correm rumores de que vai haver grandes alevantamentos contra o reino de Demaa.

– Agora que o Pangeran morreu, Hasanudin seguramente porá fim ao cerco para volver a Sunda – alvitra Rui de Moura. – Como genro de Trenggana, tem de se acautelar para não ser assassinado ou apanhado em nova guerra.

– E, se ele não quiser ir, teremos de lhe pedir que nos dê permissão de partir para Banten, a fim de apanharmos a monção. Feridos como estamos, de pouco lhe poderemos já servir nesta guerra.

– Não vos quero assustar – avisa-os Taborda –, mas conheço os panarucões e espero a todo o momento que nos caiam em cima com todas as suas forças, num último combate, aproveitando-se da confusão que reina no nosso arraial, primeiro com os castigos e agora com a discussão sobre se hão-de enterrar Trenggana em solo inimigo e idólatra ou transportar o corpo para Demaa e dar-lhe sepultura no seu jazigo. Como a viagem é longa, o corpo corre o risco de se corromper e de a sua alma se perder.

– O corpo não se corromperá se for metido dentro de uma arca cheia de cânfora e de cal, enterrada num grande junco cheio de terra.

– Como sabes isso? – perguntam várias vozes ao mesmo tempo.

– Trabalhei com embalsamadores na minha terra – retorque-lhes rindo, Rui de Moura. – Eu levo o Taborda, para me servir de língua, e vou aconselhar el-rei de Sunda a usar dessa manha, que é cousa segura, infalível para o corpo chegar ao seu destino incorrupto e sem cheiro.

Hasanudin, que tem grande confiança nos seus portugueses, graças à sua autoridade de general do campo e segundo no comando, depressa convence o conselho dos senhores de Demaa, ansiosos por saírem de Panarukan, de que o cristão não os enganava. Assim, podiam levantar o cerco e partir, logo que tratassem do transporte do Pangeran.

A arca com o corpo preparado do modo indicado pelo português – a quem os rajás deram dez mil cruzados de esmola, por alma do morto, deixando-o muito contente e aos companheiros muito invejosos – foi levada para o junco e metida dentro de um grande monte de terra. Hasanudin fez igualmente embarcar a artilharia, as munições e todo o fato que mandara recolher das tendas do imperador, um riquíssimo tesouro que ele não queria deixar para saque dos seus homens e ainda menos dos inimigos, pois, como era costume dos poderosos sultões de Java, também Trenggana partira para aquela conquista com magnificente estado e faustosa recâmara.

Apesar das precauções tomadas para que o levantamento do cerco se fizesse com segredo, silêncio e rapidez, pressentiram os sitiados de Panarukan que os seus inimigos desmanchavam o arraial e se aprestavam para partir. O moço sultão em pessoa decidiu fazer uma surtida com os quatro capitães e os amoucos vitoriosos do combate anterior, para lhes dar uma última lição.

O assalto ao campo fez uma verdadeira razia nos homens desprevenidos, ocupados a carregar as carretas ou no transporte de arcas, almofreixes, trouxas e emborilhos para o embarque nos navios. Meia hora mais tarde, os amoucos, cansados de matar, retiraram-se para a cidade, com poucas baixas, permitindo o embarque dos inimigos em retirada. Nos destroços do arraial jaziam milhares de mortos, jaus e estrangeiros, nobres e gente baixa, sem distinção.

Embarcado no junco que levava o corpo de Trenggana, o ulema Sunan Kudus que o aconselhara a fazer a jihad aos gentios de Panarukan, a fim de os converter à Lei de Mafamede, contemplava com grande perturbação os navios da armada incendiados pelos panarucões. Allah, por estranhos desígnios que o seu fiel servo não entenderia até à hora da sua morte, concedera uma vitória retumbante aos idólatras e uma pesadíssima derrota aos seus crentes que os queriam converter.


Como se não bastasse a mortandade causada pela desastrosa jihad contra Panarukan, após o enterro de Trenggana em Demaa, a revolta e o desejo de vingança dos aliados de Patem Pandor, pela indigna morte que lhe tinham dado e a todos os seus parentes, assim como a luta pela conquista do poder de oito pretendentes do trono, puseram o reino a ferro e fogo.

Os soldados e marinheiros da armada que estava surta no porto, vendo-se sem rei e sem governo, começaram por assaltar e roubar os barcos de mercadorias, passando em seguida ao saque da cidade, não deixando casa por esventrar, matando infinda gente e cativando outra que levaram a vender em diversas partes; por fim, quando já nada restava para roubar, lançaram-lhe fogo, que a consumiu toda até aos alicerces, fugindo nos barcos da armada, sem que o seu almirante tivesse força para os impedir.

Desesperado com a situação do reino e sem mão nos motins, o sultão de Pasuruan, em concerto com Hasanudin e outros rajás seus aliados, embarcaram para Japara onde, em breve tempo, elegeram o Patem Sunan Prawata como Pangeran do reino de Demaa, com grande contentamento do povo, levando-o logo para a capital, com um pequeno exército, para castigar os culpados e pacificar o reino.

Durante estes sucessos, os portugueses sentiram-se um joguete da sorte ou de Hasanudin, que os levava consigo para onde quer que fosse, tanto aos sãos como aos enfermos. Durante os motins, mantiveram-se sempre a salvo no navio do sultão, fortemente defendido, não podendo por isso escusar-se a acompanhá-lo a Japara, nem a fazer a viagem triunfal de regresso a Demaa com o novo Pangeran.

Contudo, vendo que a paz tardava, por causa dos castigos de algumas centenas de saqueadores da cidade que não tinham logrado fugir e foram empalados ou queimados nos barcos onde os prenderam, os portugueses temeram que a violência e a revolta que continuava a grassar na terra não se limitasse às punições dos criminosos.

– Escapámos da primeira revolta, mas a nossa sorte pode mudar – observa Fernão, cansado de estar metido no barco, por não se atrever a andar na cidade.

– Se não partirmos já para Banten – acode Rui de Moura enfrenesiado –, perderemos esta monção e eu não quero passar aqui nem mais uma semana, muito menos outro Inverno!

– Hasanudin tem de nos deixar ir embora! Já cumprimos as nossas obrigações para com ele, à custa de grandes trabalhos, do nosso sangue e da morte de muitos companheiros.

– Tens razão! – concordou Fernão, acrescentando com a sábia prudência que os companheiros já lhe conheciam e quase sempre acatavam: – Todavia, devemos ter muitas cautelas com esse pedido, dar a el-rei boas razões para a nossa ida, fazer de modo que seja ele a mandar-nos embora livremente e satisfeito connosco. para que nos pague aquilo que nos prometeu.

Hasanudin não pôs entraves à partida dos seus portugueses, mostrando-se até muito satisfeito com a sua participação na guerra. Manteve a palavra – de príncipe bem inclinado e largo de condição, como Fernão contaria mais tarde – quitando-lhes os direitos às fazendas, pagando cem cruzados a cada um dos vivos e trezentos aos herdeiros dos catorze que tinham morrido no seu serviço.

Quinze dias depois, partiam de Banten para a China, com o barco cheio de pimenta, em conserva com outros quatro navios de portugueses igualmente carregados.

189 Expressão malaia que quer dizer estou morto, morro.

LIVRO VII

MAR DE ANDAM

PEGU-BRAMAA

Chegámos onde el-rei estava assentado em um muito grande catre, assim mesmo dourado, com muito grande soma de coxins grandes e pequenos todos lavrados e por eles muita pedraria e aljôfar. E chegados diante dele lhe fizemos nossa reverência segundo o costume da terra, que é com as mãos cruzadas sobre os peitos e a cabeça quão baixa possa ser. E el-rei por nos fazer grande honra se assentou na cama direito e se riu para nós; e então lhe amostrámos as armas .

Depois de tudo isto apresentado lhe mostrámos o cavalo que levávamos, que era arábio ruço pombo, em o qual el-rei mandou cavalgar e que o passeassem. E depois de bem passeado, el-rei ficou mui contente dele, porque era formoso e bem arrendado. Isto assim acabado, fomos todos tomados e levados por certos homens fidalgos que nos meteram em uma câmara que debaixo deste cadafalso estava e nos vestiram a cada um sua roupa de brocadilho, feitas à usança da terra, e também nos deram cada um sua touca.

E isto vestido sobre os nossos vestidos que levávamos e com uns cingidouros que nos deram, cingidos por cima, parecíamos bestas mal albardadas.

E assim nos tomaram a levar perante el-rei, o qual desde que nos viu com tão más disposições começou-se de rir, perguntando a esses fidalgos que lhes pareciam os portugueses vestidos à sua arte.

E eu, que não estava muito contente com tal zom

baria, fiz que não atentava nisso e olhei se podia ver alguma cousa do aparato d’el-rei; e contei os homens da guarda que estavam dentro .

(Autor anónimo)

I

Meias verdades são piores do que falsidades

(bengali)

Carta de Garcia de Sá a El-Rei D. Manuel:

O ano passado foi daqui por mandado do capitão-mor Francisco Lampreia e Jorge de Pina a Pegu por embaixadores, e depois partiu daqui António Correia na [nau] Brandoa para Malaca e de lá havia d’ir a Pegu, onde foi e se acharam lá todos, donde vieram desavindos e mal aviados com a gente da terra, e assi [com] guzarates que lá estavam com suas naus. Dizem ser terra muito rica e abastada de todalas riquezas, ouro, almíscar, beijoim, rubis, outras e muitas cousas ricas, aos quais se não quis consentir na terra que se vendesse nada porque têm já sabido se tratarem com nosco que logo serão destruídos, e por este respeito se mostraram pobres e tiranos e de pouco gasalhado, depois que receberam [os portugueses].

É gente de pouco poder, e muita, por que lhe parecia que fazendo o que faziam que lhe não tornássemos lá mais; faça V. Alteza bom fundamento desta terra e aproveite-se cedo dela, antes que se dane com nosco, e de fazer fundamento de pousar gente nela e grandes defesas ainda que já lá vão fustas de João Moreno.

Malaca, 1520

Pêro de Faria dera-lhe a embaixada ao Martavão, de novo como recompensa dos serviços que ele lhe prestara em muitas ocasiões, porque ali teria ocasião de fazer bons tratos e restaurar as suas finanças. Além de assentar pazes com el-rei, deveria também concertar com Sua Alteza fretes regulares de mantimentos para prover a fortaleza de Malaca e, ao mesmo tempo, tratar do seu próprio negócio e proveito.

De caminho, procuraria descobrir o paradeiro da armada de Lançarote Guerreiro – um fidalgo corsário que andava com uma força de cem homens a assaltar barcos mouros no golfo de Bengala – e rogar-lhe que acudisse a Malaca, ameaçada pelo rei de Achem.

– Vamos dar-te todas as informações sobre a terra e os tratados que fizemos com os seus reis, pois necessitamos de renovar os concertos de pazes, visto os seus reis nunca o serem por muito tempo e nem todas as mudanças nos favorecem. Devemos seguir o exemplo de António Correia que conseguiu o melhor dos tratados graças a um poema!

– Um poema português?

Pêro de Faria soltara uma risada.

– Nem mais! Um poema de Luís da Silveira, o conde de Sortelha. Foi cousa muito falada.

– Mas como puderam entendê-lo?

– Não houve mister trasladá-lo! Foi assi.


António Correia chegara a Martavão, a vinte e sete de Setembro do ano de mil quinhentos e dezanove, para concertar pazes com o rei de Pegu por ordem do governador Diogo Lopes de Sequeira, seu tio. Não fora apenas o parentesco a razão da escolha, o enviado destacava-se pelas suas qualidades de capitão e homem notável, capaz de levar a bom termo uma missão. Dera provas da sua prudência quando não se arriscara a ir mais além do porto de Martavão por serem aquelas costas ainda pouco conhecidas dos portugueses, assaz perigosas, devido às numerosas ilhas e ao grande macaréu que tinham os rios dos seus principais portos.

O reino de Pegu, de que faziam parte o porto e terras do Martavão, gozava de uma situação privilegiada, no golfo de Bengala, desde o cabo de Negrais até ao de Tavai, limitado pelos reinos de Arracão, a norte, e Sião a sul. Tinha muita terra plana e fértil graças aos rios Irauadi e Saluém que a recortavam toda, dando-lhe a forma de uma imensa horta regada, ideal para o cultivo de arroz, além da criação de búfalos e outro gado; nas suas florestas dava-se o lacre, caçavam-se os melhores elefantes de trabalho ou de guerra, as suas minas regurgitavam de prata e pedras preciosas, como os sanguíneos rubis.

– Se tudo correr bem, poderemos carregar a nau e os dois juncos com mantimentos de que Malaca está tão precisada – disse para os seus oficiais.

Era a principal razão da sua vinda. O rei de Bintão não desistia de reconquistar Malaca, de onde havia sido expulso por Afonso de Albuquerque; sediado em Pago, que fortificara e armara, mantinha a cidade cercada, por terra e por mar, não permitindo a entrada no porto de qualquer barco que levasse mantimentos ou mercadorias e mandava a sua gente armada fazer constantes assaltos à fortaleza dos portugueses. Quando, dois meses antes, António Correia lá chegara com a sua nau carregada de mantimentos, dera uma ajuda providencial aos sitiados que, famintos e doentes, não ousavam sair do forte para enfrentarem num corpo a corpo um inimigo muito mais numeroso e bem alimentado.

Durante esses dois meses não deixara os seus créditos em mãos alheias e estivera metido nas tranqueiras, fora da fortaleza, comandando os seus arcabuzeiros e besteiros, com algumas peças de artilharia, a conter os assaltos dos sitiadores, comendo e dormindo armado, sem repouso do corpo ou da alma, matando muitos dos assaltantes, sem sofrer perdas dos seus homens. Os inimigos, desencorajados pela sua feroz defesa, tinham afastado o arraial para mais longe e só de tempos a tempos se atreviam a fazer correrias em terra.

Vendo Malaca mais aliviada do perigo, Correia determinara que era tempo de cumprir a ordem do governador que o havia mandado a Pegu assinar o tratado de paz, cujo caminho já deveria estar preparado por Francisco Lampreia e Jorge de Pina, enviados fazia algum tempo a apalpar o terreno e a afastar empecilhos. Já houvera uma feitoria portuguesa no Martavão, mas, três anos antes, um tal Henrique de Leme apresara um barco de mercadorias pegu, provocando a ira dos moradores da cidade que, em retaliação, tinham incendiado a feitoria. Só a muito custo o feitor António Dinis e os restantes portugueses que estavam em terra lograram salvar a pele, fugindo para Malaca.

Correia fizera escala em Pacem para carregar pimenta, em troca dos panos de Cambaia que trouxera de Cochim, por ser essa especiaria a melhor mercadoria para os tratos de lacre e arroz no Martavão, como podia comprovar nesse preciso momento, já no porto, vendo a multidão de barcos que andavam ao frete e iam carregar à cidade de Pegu, que dera o nome ao reino, onde vivia o rei.

Os primeiros contactos com os pegus não foram muito auspiciosos, apesar de os pilotos locais terem acorrido em paraus a remos para rebocarem a nau, onde tinha deflagrado fogo, pelo impetuoso rio Saluém até à barra. Ali esperaram treze dias pela autorização do rei, trazida pelo mandarim Cemim Bolegão, para poderem desembarcar. Por aquelas bandas nada se fazia sem peitas ou odiaas – os presentes oferecidos não só ao rei como aos ministros, a oficiais e a quem quer que mexesse uma palha ao serviço do requerente –, a fim de amaciar vontades, afastar escolhos e acelerar os negócios.

Correia pagou de imediato grossas peitas ao toledão da barra, assim como ao seu filho e ao genro que tinham rebocado a nau; também ao Cemim Bolegão para a autorização de entrar no porto e, por fim, ao toledão ou governador do Martavão e aos xabandares190, seus genros, pelo uso de um gudão ou silo subterrâneo para armazenar as mercadorias, presenteando ainda outros oficiais e criados por vários pequenos serviços. E a procissão ainda ia no adro.

Sempre que desembarcavam para tratar dos negócios da embaixada ou da nau, os portugueses eram rodeados por alcovetos, muito bem trajados, pegadiços como moscas.

– Donde sois? Vindes para tratos de lacre ou de arroz? Quanto tempo ides quedar-vos por cá?

– Haveis mister de esposa que vos cuide, durante a vossa estadia. Vede quão formosas são as nossas mulheres.

Traziam-lhes moças de vários tamanhos, formas ou idades, que os saudavam com muitos sorrisos e meneios provocantes, saracoteando-se de modo a que os panos que lhes cobriam as vergonhas se abrissem na frente e permitissem vislumbrar os seus tesouros mais íntimos, fazendo gala em provocar desejo nos homens com uma descarada promessa de delícias.

Os alcoviteiros apresentavam-nas uma a uma, enunciando os predicados e dons das beldades, a fim de acrescentarem o interesse dos clientes que olhavam embasbacados para o magote de filhas de gente honrada que, com licença de seus pais, vinham oferecer-se seminuas, como vulgares mulheres de partido, para maridar com eles, durante uns dias ou meses, em troca de dinheiro, sem que por isso se sentissem desonradas.

– Fareis o contrato com os pais da moça que mais vos agradar, pelo tempo que aqui estiverdes, e ela vos servirá dia e noite como esposa no barco ou na vossa pousada em terra. Antes de partir, pagar-lhe-eis a quantia acordada.

– Uma esposa a prazo? E se eu quiser tê-la por mulher de novo na próxima viagem?

– Pedi-la-eis e ela vos será dada de novo pelo tempo da vossa estadia.

– E se já tiver casado?

– Virá do mesmo modo.

– E o marido não se anoja?

– Nem que seja o homem mais rico de Pegu, nada dirá. Devo advertir-vos que depois de feita a escolha, não deveis buscar outras mulheres, porque correreis risco de vida.

– E se a moça for virgem? Algumas são bem mocinhas.

– Os pais e os futuros maridos, sobretudo entre a gente nobre, estão dispostos a pagar muito bem a um estrangeiro para que antes da noite de núpcias tire a virgindade à donzela, uma função que repugna aos pegus por ser cousa imunda.

Auspiciosa recepção que prometia um futuro risonho às relações entre gentios e portugueses, todavia comprometida pela traição do grumete Veloso que fugira da nau e, peitado pelos mercadores guzarates – que viam com muito maus olhos a intromissão naquele comércio dos seus maiores rivais e inimigos –, andava a instigar os moradores contra os portugueses. Lampreia e Pina que, embora desavindos, se tinham acolhido à nau para regressarem a Malaca, contaram as atoardas do desertor ouvidas aos pegus seus amigos.

– O filho da puta anda a espalhar na praça que nós não viemos cá para fazer tratos de paz, mas para os espiar. Diz que pretendemos apenas sondar a barra e conhecer a terra, para a nossa armada aí entrar e a conquistar.

– E o governador está a dar ouvidos ao cabrão traidor, porque o aposentou em casa de um filho seu.

– É voz corrente que o toledão nos vai expulsar ou até matar a todos, por espias, para não contarmos em Malaca o que aqui vimos.

O embaixador fervia em sanha. Para sanar o conflito e ganhar a confiança do governador teria de lhe pedir nova audiência, multiplicar os presentes para ele e para os principais mandarins de Martavão e de Pegu. Também teria de peitar o filho do toledão para deitar as mãos ao grumete que haveria de pagar na forca os crimes de deserção e traição, servindo como exemplo de justiça à tripulação. Por tudo isto, a missão iria custar-lhe os olhos da cara, se calhar nem o frete que levaria na torna viagem cobriria a despesa.

– A embaixada não pode correr mal – disse no conselho de oficiais reunido na nau, depois de ter comprado de novo o favor do toledão. – António Pessanha, confio-vos a missão de mensageiro para levardes as cartas a el-rei. Procurai, por vossa vida, cair nas boas graças de sua alteza, para podermos concertar esta paz que é tão necessária aos nossos em Malaca.

– Pelo que sei, esta gente não morre de amores por nós – respondeu o designado, acrescentando em zombaria: – Espero que não cortem a cabeça ao mensageiro.

– Estão agora mais inclinados a favorecerem-nos, pois sabem que lucrarão com os tratos para Malaca – sossegou-o o embaixador. – Convosco irá por escrivão Belchior Carvalho que redigiu esta minha carta e também um pequeno séquito para mais vos autorizar, porque esta gente é muito presunçosa e ama a pompa acima de tudo. Alugaremos um palanquim para vos levar.

– .Com grande prosápia, pois então! Pena é que me não vejam em Alenquer, de onde sou natural, para se morderem de inveja.

O palanquim onde iam refastelados o mensageiro e o escrivão era opulento, pintado de vermelho e ouro, levado em ombros por dez carregadores, seguido por uma comitiva de sete portugueses, além da gente do seu serviço, dos peões de terra para carregarem o fato e as provisões necessárias para a jornada de quarenta léguas pelo sertão.

Em outro palanquim seguia o Cemim Bolegão com o língua, escoltados por um corpo de guerreiros vestidos com couraças acolchoadas, feitas das carapaças duras de uns bichos desconhecidos, armados com lanças de pontas compridas e espadas de ferro morto, muito mais largas do que as portuguesas, metidas em bainhas de madeira; os capacetes e os paveses, da altura de um homem, eram feitos de couros de elefante envernizados.

O embaixador viu-os partir algo apreensivo, apesar das odiaas riquíssimas que mandava ao rei – em que sobressaíam uma tapeçaria de Veneza, pimenta no valor de alguns contos de réis, peças de brocado, drogas, essências e porcelanas da China –, ao toledão barja, que era uma espécie de primeiro-ministro, de cerca de metade da valia do presente real e, embora mais modestas, a outros mandarins influentes.

Pessanha tinha razão nos seus temores, pois a façanha de Henrique de Leme tinha despertado grande temor e os pegus não queriam consentir os feringhis191 nos seus portos. Contudo, se Malaca não podia dispensar a aliança com Pegu, que a provia de alimentos e de ajuda militar em caso de necessidade, o contrário também era verdadeiro, pois este reino tão pouco poderia prosperar sem os portugueses. Tanto os governadores da Índia como os capitães de Malaca estavam muito mais interessados na aliança com o reino de Pegu do que com o de Sião, que começava a ser engolido pelas nações vizinhas.

Os naturais da raça mon ou talaing eram gente fraca para pelejar, mais dada à sensualidade e aos prazeres da vida do que às agruras da guerra. Bons trabalhadores, meãos de corpos, com traços semelhantes aos chins, embora de cor mais baça, tinham os cabelos tosquiados em cercilhos à roda da cabeça como tigela emborcada, ao modo dos antigos clérigos, com os cabelos mais crescidos na moleira. Andavam descalços, cingiam-se com uns panos, como as mulheres, por baixo de umas cabaias curtas e traziam beatilhas nas cabeças com as pontas levantadas para cima como carochas de bispo. As mulheres eram mais brancas do que os homens, as mais nobres e regaladas sobressaíam pela formosura, vestidas com cabaias de linho e seda compridas e transparentes.

Embora não falassem a mesma língua, os pegus diziam que os siames descendiam da sua linhagem, o que não era de estranhar porque usavam do mesmo modo, metidos no instrumento da sua geração entre a carne e a pele, de um até cinco, ou mesmo nove, cascavéis do tamanho de ameixas alvares – os dos fidalgos de ouro ou prata, os da gente baixa de chumbo e fuzileira –, fazendo alegre som por onde quer que fossem, de maviosos tons de tiple, contralto e tenor, os preciosos, mais roufenhos e desafinados os de ouropel e fancaria, um uso que António Correia jamais vira a outro povo das Índias. Derivava este costume, segundo a lenda da sua criação, do ajuntamento de uma mulher com um cão, cuja prole povoara aquela terra que até então fora erma. A mulher e o perro haviam sido os únicos sobreviventes de um junco da China atirado por uma tormenta para aquelas costas e destruído; a mulher tivera então cópula com o cão e parira filhos que depois copularam com ela, gerando novos rebentos que se multiplicaram de contínuo, propagando-se depois pelas terras do Sião.

Os pegus usavam os guizos em memória do cão mítico e a razão das suas mulheres serem mais bem-parecidas do que os homens, segundo elas próprias diziam, devia-se às fêmeas terem saído à primeira mãe e os machos ao perro, o pai primordial. Em Malaca, António Correia preparara-se bem para a sua missão, informando-se dos costumes destes gentios com os malaios e judeus, que lhe tinham contado muitas histórias fantasiosas como a do coito da mulher com o bicho e outras mais credíveis como Pegu e Arracão terem sido povoados por degredados, cujas autoridades impuseram o uso de cascavéis como castigo pelo pecado da sodomia que cometiam.

Sabia igualmente que teria de vencer a desconfiança que os povos daquela região nutriam pelos portugueses, como certeiramente apontara António Pessanha, porque os seus reis já haviam sido vítimas dos ardis, sobretudo quando os feringhis conseguiram terras para nelas construírem as suas feitorias. Correia conhecia bem o modo como os capitães alevantados se tinham socorrido da história fabulosa da fundação de Cartago pela rainha Dido, ao pedirem um pedaço de terra do tamanho de uma pele, para nela se estabelecerem. Haviam-no feito em Pegu e Sião, de modo que por aquelas paragens quando se referiam aos cristãos diziam que pertenciam à aldeia da pele que se estende.

190 Capitães do porto ou oficiais responsáveis pelos visitantes estrangeiros de diferentes nações.

191 Franges, europeus, sobretudo portugueses.

II

Elefantes iguais podem enganar

(tâmil)

O estrangeiro recém-chegado disse:

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