– Nós gostaríamos de nos estabelecer aqui para fazer tratos.
Ao que o rei de Pegu respondeu:
– Eu tenho muitos inimigos. Os Shans atacam-nos constantemente. Se combaterdes ao nosso lado, para derrotar o inimigo, eu darei permissão para vos estabelecerdes aqui.
[Quando os Shans atacaram Pegu, os portugueses rechaçaram-nos com as suas armas e artilharia, fazendo o inimigo bater em retirada].
Então, o capitão português fez um pedido a el-rei:
– Dai-nos apenas um pedaço de terra que uma pele de búfalo possa abarcar que com ela nos satisfaremos.
O rei de Pegu deu-lhes a pele e a permissão para tomarem o terreno que pediam. O capitão mandou cortar a pele em tiras finíssimas [e ligá-las umas às outras como uma corda], de modo a poder cercar um extenso território no Sirião.
– As casas que ficam no terreno circundado pela corda têm de ser desmanteladas e transferidas – ordenou aos moradores. – Este lugar pertence ao território que el-rei nos concedeu.
Os desalojados bradaram contra a expulsão:
– Os Portugueses prometeram tomar um terreno do tamanho de uma pele de búfalo, mas cortando-a em tiras finas tomaram muitas terras!
O rei de Pegu respondeu-lhes:
– Nós prometemos dar aos Portugueses um pedaço de terra medida pela pele de um búfalo. Eles procederam com sabedoria, não há nada a dizer da sua conduta. Estes homens ajudaram os nossos guerreiros a combater o inimigo e concertámos com eles uma paz duradoura. Deixemos que se estabeleçam. Assim se construiu nesse território uma cidade portuguesa.
(Da crónica bramaa Potugui Yazawin192)
António Correia fizera tudo para que o tratado fosse assinado e o seu esforço fora recompensado: el-rei acedera a concertar as pazes com os portugueses. Pessanha regressara, cheio de empáfia, transportado num castelo de elefante, trazendo consigo dois representantes reais, o rolim-mor, cabeça dos seus religiosos, e o Cemim Bolegão.
As reuniões com os delegados correram sem incidentes e em boa harmonia, os capítulos do acordo foram redigidos a contento de ambas as partes e o tratado ia ser finalmente assinado em cerimónia soleníssima no templo da cidade que se enchera de gente. Martavão estava em festa e, como os seus artífices eram muito bons construtores de paraus e juncos, fizeram-se grandes corridas no rio, com barcos a remos, todos pintados e enfeitados, para grande comprazimento dos portugueses.
– A cidade engalanou-se com toda a pompa – veio dizer-lhe o espia que Correia enviara ao templo, para não ser apanhado de surpresa por qualquer ardil de última hora. – As mulheres luzem os seus panos e jóias mais belos, o pagode reluz de ouro e pedraria, até os livros sagrados para fazerem os juramentos são dourados. O sacerdote já vos espera com o ministro.
O embaixador percebeu que os pegus esperavam deslumbrá-lo com o fausto e a riqueza da parafernália usada no ritual.
– Já tive ocasião de ver alguns desses livros nos templos e em casa do governador. São preciosos. Não temos nenhuma Bíblia nem missal com iluminuras que se lhes possa comparar – lamentou-se, vendo o simples breviário nas mãos do capelão da nau, que o iria acompanhar na função de rolim.
Os pegus escreviam da esquerda para a direita, como na Europa, gravando com estilete de ferro em folhas de palma e em placas de bambu finas como papel, chapeadas e envernizadas, com a superfície revestida de folha de ouro com iluminuras nas margens a vermelho e verde e letras a brilhante.
– Não posso fazer o juramento sobre esse livro, meu padre – decidiu numa voz que não admitia réplica –, porque haveria de parecer de pouca valia aos gentios, como se não nos importasse a nossa religião. Temos aí outra obra que servirá melhor a este propósito.
Desembarcaram com grande aparato, trajados com as suas melhores galas e exibindo espadas e punhais de cerimónia com os punhos dourados, os dos mais nobres, cravejados de pedras preciosas. Abriam o cortejo dois capitães que transportavam, à maneira de relicário, uma almofada de brocado dourado, onde repousava um grande livro coberto por um pano de veludo carmesim; a seguir ia o embaixador, de chapéu emplumado e vestido como para uma audiência com o Papa, ladeado pelo capelão, de sobrepeliz branca, com uma cruz de prata nas mãos; por último, formando uma lustrosa comitiva, os oficiais, os mercadores principais e um corpo de guardas armados.
No templo havia uma gigantesca estátua de Buda deitado, com um braço por cima do rosto. Diante dela, no chão, tinham estendido um espesso tapete onde fizeram sentar o embaixador com o padre, junto do rolim-mor e do Cemim Bolegão que já os esperavam. O ministro tirou de uma caixa de marfim a folha de ouro batido onde vinham escritas as capitulações, que um dos seus oficiais leu em voz alta, em língua mon, por duas vezes para ser entendido pela assistência, tendo António Correia dado a sua folha também de ouro escrita em português. Assinadas ambas pelo ministro e pelo embaixador, procedeu-se ao juramento, feito com muita reverência, ouvido pela assistência com tal acatamento e silêncio, que deixaram os portugueses pasmados com a sua devoção.
O rolim leu no magnífico livro, trabalhado a folha de ouro, a lenda da origem de Pegu que o língua trasladou do seguinte modo:
O reino de Pegu, na língua dos seus naturais, é Pachou, nome que nos tempos antigos tomou da sua principal cidade e significa Engano, por causa de um ardil a que recorreu um príncipe da Casta do Sol, a fim de vencer um desafio lançado por um rei inimigo que veio com uma grande armada conquistar o próspero Reino do Norte.
O invasor tinha desembarcado com um poderoso exército e avançava, conquistando e destruindo as povoações e as gentes que encontrava no seu caminho. O rei da Casta do Sol saiu ao seu encontro e travou com ele algumas batalhas que causaram grandes perdas em ambos os exércitos. Chegaram a um tal empacho que, cansado da mortandade, o rei estrangeiro mandou desafiar o de Pegu para um combate singular, fiado na sua corpulência de gigante e força colossal.
Aceitou o repto o filho do rei, que era um moço guerreiro de vinte anos, muito valente, experimentado nas armas, além de ter sido criado com dureza nos montes, avezado a matar com a sua espada tigres e outras alimárias ferozes.
O duelo teve lugar numa campina deserta, no sítio onde hoje é a cidade de Pegu, e o combate durou um grande espaço, com os dois adversários ferindo-se de parte a parte com muita braveza. O príncipe sentiu a fadiga do seu braço, enquanto a força do adversário não parecia diminuir e temeu pela sorte do seu reino. Como cada qual faz a guerra conforme pode, o príncipe bradou:
– Ah falso, que trazes gente contigo para te favorecer!
O rei estrangeiro, cuidando que os seus homens acudiam a socorrê-lo, virou o rosto para trás a fim de os impedir. O príncipe, que esperava por esse momento de distracção, desferiu-lhe uma violenta estocada na barriga, de que logo caiu morto. Valera no confronto mais o jeito do que a força e, com esta astuciosa vitória se acabou a guerra. Em memória daquela batalha e da indústria e valentia do seu filho, el-rei fez erguer na campina uma muito formosa cidade, com o nome de Pachou ou Engano.
Acabada a leitura, o rolim queimou uns papéis amarelos perfumados, com inscrições, sobre cujas cinzas o ministro pôs as mãos, dizendo:
– Em nome d’el-rei juro que tudo o que aqui foi assentado é firme e valioso.
Chegara a vez de o embaixador do reino de Portugal prestar o seu. O capelão tomou o livro da almofada e levou-o para junto do Rolim, abrindo-o à sorte para António Correia ler. Era a única obra de folha de papel inteira que tinham na nau, um cancioneiro de trovas de fidalgos e pessoas principais que Garcia de Resende, o escrivão da puridade d’el-rei D. João II, tinha mandado imprimir e servia nas viagens para desenfadamento da tripulação, sendo lido aos serões ou por ocasião de alguma festa, pelo capelão ou por quem o soubesse fazer.
Como aquele povo só guardava juramento enquanto lhe convinha o negócio, depois da leitura que o rolim fizera da lenda como se fora um texto sagrado, o Cancioneiro Geral até vinha a propósito. O embaixador pôs os olhos na página aberta e começou a ler a trova de Luís da Silveira, o conde de Sortelha:
Vaidade das vaidades
e tudo é vaidade,
assi passam as vontades
com’às cousas da vontade.
Tudo se já desejou
e tudo s’avorreceu
e tudo se já ganhou
e tudo se já perdeu.
E o homem que mais tem
do trabalho a que se dá?
a geração vai e vem,
a terra sempr’assi está.
As cousas naquesta vida
todas s’entregam per conto,
que se cá dê mor medida,
tudo lá tem seu desconto.
O poeta glosava a sentença de Salomão, no Eclesiastes, Vaidade das vaidades, e tudo é vaidade, contudo, à medida que ia lendo as palavras da trova, o embaixador sentia um arrepio de medo supersticioso a trespassar-lhe o corpo. Não fora talvez por acaso que o livro se abrira naquela precisa página, pois o poema soava-lhe aos ouvidos como um aviso ou uma censura por estar a fazer uma farsa daquele juramento. Esforçou-se para que a voz não tremesse, prosseguindo com a leitura:
O sisudo e o sandeu
tudo vi que tinha fim,
e disse então entre mim:
– Que me presta o saber meu?
Ignorantes e prudentes
todos têm ūa medida,
na morte nem nesta vida
não nos vejo diferentes.
Assi que neste presente
bons nem maus não se conhecem
e a todos igualmente
bens e males acontecem.
Daqui nacem confusões,
nacem descontentamentos,
perdensas, opiniões,
abaixam-se os pensamentos.
Um suor frio corria da testa de António Correia, parecendo-lhe estas palavras tão poderosas como se estivesse a jurar sobre as da Bíblia. Leu a última estrofe, com uma voz a ressumar de emoção que não logrou conter, enquanto prometia a si próprio, a fim de apaziguar o bater assustado do coração, que cumpriria o seu juramento com custo da sua vida, porque não podia invocar a Deus com falsidade e enganos, mesmo em negócios com gentios de outra fé:
O justo, o sabedor
e o mais cheio de fé
nenhum não sabe se é
dino d’ódio se d’amor.
Quantos isto faz perder,
porqu’a quem a fé não dura
encomenda-s’à ventura
e deixa de merecer.
Palavras proféticas, as do poeta, decerto inspiradas por esse sopro divino que dizem ser o alento dos vates. O silêncio que se fizera no templo era quase religioso, talvez devido à emoção com que lera os versos e que encontrara eco no coração dos pegus. No coração de alguns mouros mercadores que estavam presentes ao acto do juramento, a paixão era outra, de puro ódio, por medo de perderem os grandes lucros que tinham com os tratos das suas fazendas se os portugueses começassem a vir a Pegu. E logo juraram fazer quebrar as pazes assinadas pelos seus inimigos.
Enquanto António Correia carregava os dois juncos com mantimentos para Malaca e a sua nau com outras mercadorias para levar a Ormuz, a gente principal de Martavão convidava diariamente os portugueses para banquetes que ofereciam em sua honra, com o que todos folgavam. O piloto e o mestre da nau eram os que mais vezes iam a terra, para se proverem do necessário ao conserto das velas e afins, comendo sempre em casa de um abastado comerciante com quem tinham travado amizade.
Os mouros que os espiavam, ao saberem disso, usaram de muita indústria para aliciar um criado do dito mercador, a quem pagaram grossas peitas para que, nas vésperas da partida dos portugueses, quando os hóspedes do amo fossem lá cear, como fora aprazado, lhes pusesse peçonha na comida.
A traição foi levada a cabo com êxito, o piloto e o mestre morreram em poucas horas, depois de terem ingerido a comida que o moço lhes adubara com um forte veneno. Correia ficara consternado com as mortes, sentindo no entanto algum alívio quando soube que o crime fora a mando dos guzarates e não dos pegus, porque o senhor na casa onde os oficiais tinham comido deu tormentos aos criados que confessaram a traição. Sem o seu piloto, experimentado na derrota para Ormuz, seria o mesmo que navegar às cegas, por isso o capitão decidiu seguir para Malaca com pilotos da terra que costumavam fazer a viagem.
Apesar de todas as contrariedades e dos altíssimos gastos em peitas e odiaas, o embaixador estava satisfeito por poder assegurar ao governador Diogo Lopes de Sequeira, seu tio, que tinha cumprido a missão, selando em folhas de ouro um acordo de paz e comércio entre os reinos de Pegu e Portugal, que haveria de perdurar por muitos anos.
192 Adaptado de uma tradução de Maria Ana Marques Guedes O estabelecimento português no Sirião segundo uma crónica birmane, revista Oceanos, n.º 32, 1997.
III
Comer em casa do judeu e do gentio, mas dormir em casa do português
(oriental)
Carta de D. João de Castro a El-Rei D. João III:
Os capitães das fortalezas, oficiais, lascarins e toda a mais gente da Índia vivem tão mal e têm cobrado tamanha soltura em vícios, desobediência e toda a maneira de serviço de Deus e de V. A. que é cousa de muito recear e temer de vir parar em algum grande desacatamento e motim; [de] tudo isto a meu ver é causa a maneira de vossa justiça, porque se há parte no mundo onde se haja mister ser bem rigoroso e de improviso é na Índia. E, sendo assim, é ela cá tão larga, fraca e espaçosa que nenhuma pessoa tem medo de pecar por causa das muitas colheitas e esperanças que tem nas delongas dos processos, rogos de religiosos e necessidades que sempre há de gente e armadas.
Como quer que um homem mata outro, ou é alevantado ou faz outras cousas desta qualidade, vem dizendo que tem ordens, ou que é frade e fez profissão em Castela, e as testemunhas que dão a má prova umas dizem que estão na tórrida zona e outras debaixo dos pólos [e] cedo alegarão que fizeram profissão na Rússia ou em terra dos Georgianos; de maneira que, para se acabarem de fazer as diligências, primeiro dará uma volta a oitava esfera; e com isto e outros processos longos e infinitos se não pode cá fazer nenhuma justiça dos culpados, e vêm a fugirem os presos das cadeias ou a morrerem de velhice de sua morte natural; do que segue viver cada um a seu prazer, sem ter medo nem acatamento da justiça.
Ano de mil quinhentos e quarenta e sete
Bem instruído e documentado sobre o Martavão e o seu rival Pegu, Fernão Mendes Pinto embarcara no junco de um chim muçulmano, residente em Malaca, que tinha grandes negócios com os mercadores malaios e tâmiles. Tinham percorrido toda a costa sem maus encontros, embora com algumas aventuras inesperadas: a descoberta de centenas de corpos de guerreiros mortos, de mãos atadas, numa ilha onde tinham ido fazer aguada, decerto usada como lugar de suplício de criminosos e corsários; o encontro com três portugueses num batel à deriva, vítimas de um assalto; e o socorro prestado a um rei cristão daquelas ilhas para retomar o reino usurpado. Só não tinham topado rasto da armada de Lançarote.
Não contara encontrar o Martavão em guerra, todavia, à entrada no porto, os estrondos da artilharia soaram-lhe como um mau agouro e os seus receios não tardaram a confirmar-se. O rei Chaubainhaa estava confinado com a família e as suas gentes mais leais dentro das muralhas da cidade, cercada pelo poderoso exército de cento e trinta mil homens do rei de Bramaa193, conquistador de Pegu e dos feudos ou reinos vizinhos.
Assim, a má fortuna persistia em persegui-lo, pois não só chegara em pleno cerco, como se achava no lado do invasor, portanto, a sua missão estava irremediavelmente comprometida. Achou prudente regressar nessa mesma noite a Malaca, depois de entregar as cartas que trazia para João Caeiro, o amigo de Pêro de Faria.
Foi encontrá-lo nas tranqueiras, em frente da cidade, como capitão-mor dos setecentos portugueses arcabuzeiros e bombardeiros ao serviço do tirano Tabinshwethi. Outrora feitor em Pegu, seguindo uma prática corrente entre os capitães das fortalezas e demais oficiais ao serviço da Coroa, João Caeiro empreendera à sua conta muitos tratos de mercadorias, cujos lucros o tinham feito tão rico que até emprestava dinheiro ao Estado da Índia. Antes da guerra, tivera o cargo de chefe do povoado dos portugueses residentes no Martavão, onde vivia com uma formosa escrava gentia de quem tinha dois filhos.
– Ficareis mais seguros aqui connosco – aconselhara-o –, do que no mar onde sereis, no mais certo, tomados pelo inimigo.
Com ele estava Lançarote Guerreiro, o cavaleiro fidalgo da casa d’el-rei, que exercera o cargo de almoxarife de Cochim até ao dia em que achara mais proveitoso passar a alevantado, abandonando o serviço da Coroa para andar no corso às presas, primeiro junto ao mar Roxo, depois no golfo de Bengala, cujos saques o haviam enriquecido e aos seus homens. Embora corsário, tinha como ponto de honra respeitar sempre os cartazes de salvo-conduto passados pelas autoridades portuguesas aos mercadores gentios e só atacava os inimigos muçulmanos, fazendo verdadeira razia nos navios turcos, achens e malabares. A sua armada estava sediada em Tenassarim, sob a protecção do rei de Mergui, a quem pagava grandes tributos sobre as presas.
– Um capitão solteiro e mancebo não tem resguardo aos males que faz, porque na Índia se purgam com mui poucas orações – comentara Pêro de Faria, como a desculpá-lo, quando pedira a Fernão que o fosse procurar e lhe contara a sua história. – Esta terra acaba sempre por agasalhar e favorecer os homens solteiros e mancebos como ele. e como tu!
Com razão o dissera, pois com Lançarote estavam os outros capitães alevantados ou desertores a quem o capitão de Malaca escrevera cartas para que o fossem socorrer: António Gomes, Pêro Ferreira, Cosme Bernardes, Gonçalo Falcão, Gonçalo Vaz Coutinho e Diogo Soares. Filhos segundogénitos de famílias nobres que buscavam honra e proveito, por meio das armas, nas conquistas do Oriente, mais difíceis de obter ao serviço do Estado da Índia do que no corso ou nas armadas dos reis gentios e mesmo muçulmanos, que lhes apreciavam a valentia e a lealdade. Méritos atestados pelo provérbio mouro que corria por esses reinos: Comer em casa do judeu e do gentio, mas dormir em casa do português, seguros de não serem atraiçoados e assassinados durante o sono.
Fernão entregara-lhes as cartas de Faria, sublinhara a necessidade de ajuda a Malaca pelo perigo em que se achava, sujeita a ser acometida de um lado pelo rei de Bintão e do outro pela armada de cento e trinta navios do sultão de Achem.
– A armada dos achens já não oferece perigo – dissera Gonçalo Coutinho –, pois foi desbaratada em Tenassarim e tão depressa não fará mal seja a quem for.
João Caeiro acrescentara, depois de ouvir os outros capitães:
– Embora estejamos sempre prontos para servir el-rei, nosso senhor, como o pior perigo passou, não há mister ir agora a Malaca, arriscando-nos a desaprazer a Tabinshwethi que nos paga este serviço.
– Rogo-vos, então, que me passeis um instrumento de tudo o que me dizeis, para me darem crédito em Malaca de que levei a cabo a minha missão – pedira-lhe Fernão que pretendia ir-se embora logo que surgisse ocasião.
Passados quarenta dias ainda permanece no arraial, cansado de ouvir as histórias dos sete meses de cerco, das vidas e façanhas dos sitiadores. O rei de Bramaa assaltara a cidade por cinco vezes, sem lograr conquistá-la, porque a artilharia dos alevantados portugueses, embora superior a tudo o que até então se vira naqueles reinos, era fraca, quase inútil contra as altas muralhas e anteparas. Da banda de terra, a cidade estava rodeada por uma funda cava, cheia de água e de estrepes, que dificultava os assaltos; do lado do mar era defendida por sete navios portugueses, bem armados com cem homens sob o comando de Paulo Seixas, um aventureiro leal ao senhor de Martavão.
Os sitiados tinham repelido todos os ataques, causando grandes perdas aos assaltantes, embora tudo faltasse dentro das muralhas, desde alimentos ou munições aos próprios defensores, que eram menos de cinco mil homens, porque já muitos tinham desertado ou morrido do ferro e da fome.
Era pela fome e pela traição que Tabinshwethi os queria render, cortando-lhes o acesso aos mantimentos, peitando os seus comandantes e ministros com ouro ou promessas de feudos e cargos, sendo prática corrente entre os sawbwas ou governantes das cidades e reinos daquela região, na sua contínua luta pelo poder, vir o ganho pessoal sempre primeiro do que a lealdade ao seu rei ou à própria família. Exemplo disso era o governador da cidade vizinha de Moulmein, cunhado de Chaubainhaa e, tal como ele, da mesma raça dos mons de Pegu, que o rei de Bramaa aliciara para o seu partido, prometendo fazê-lo senhor de Martavão, se ele não prestasse auxílio à cidade.
Fernão está contente por se achar do lado dos vencedores, embora sinta pena dos sitiados e do seu rei, com quem viera fazer aliança em nome do capitão de Malaca. Por estranha coincidência ou talvez por sentir algum remorso da traição, lembra-se do embaixador António Correia que, um quarto de século antes, ali assinara um tratado de paz com o rei de Pegu, que era também senhor do Martavão. Um trabalhoso acordo conseguido graças à sua diplomacia que soubera aplainar as dificuldades e sanar diferenças, conforme lhe contara Pêro de Faria, quando preparava a sua missão. A perder tempo não se ganha dinheiro, pensa, lamentando que esta sua viagem tenha redundado em fracasso, mas não pode partir agora que o porto está debaixo do fogo dos navios de Seixas.
O cerco arrasta-se sem fim à vista e os comandantes dos bramaas, dos talaings, dos shans, dos mons e das demais raças que formam o exército dos sitiantes vêem-se metidos em grandes atribulações com as deserções dos soldados e marinheiros. Por medo, cansaço ou saudades da terra e da família, ao menor alvoroço no arraial, não só alguns mas todos os soldados de uma hoste ou mesmo da companhia tomavam o seu fato e, pés para que vos quero, desapareciam do arraial, deixando os seus oficiais a contas com a fúria d’el-rei.
O tungoo Tabinshwethi não era senhor de deixar os culpados sem punição, responsabilizando os chefes pelos erros ou covardia dos seus homens. Para manter a disciplina ordenava castigos tão atrozes à menor falta que, por fim, tanto os oficiais como os soldados bisonhos preferiam arriscar a morte em combate a sofrer a sua ira. Os castigos para qualquer fuga, deserção ou traição estendiam-se também a toda a família do faltoso que, na sua terra, era encerrada numa cabana de madeira e queimada viva. Kyoahteng Noarahtâ, o comandante-mor e seu cunhado, nomeado pelo honroso título de Bayin-naung, secundava-o, porque a sua grande experiência de guerreiro lhe ensinara que, mesmo quando é grande a diferença de número entre os adversários, mais do que o número conta o espírito numa batalha.
Perdido por cem, perdido por mil!, resigna-se Fernão como sempre que se defronta com situações ou acontecimentos cuja solução não depende da sua vontade. Pouco há a fazer no cerco e, como os capitães da armada de Lançarote Guerreiro o recebem com muita amizade, por lhes ter levado as cartas de Pêro de Faria, aproveita para conhecer as histórias das suas vidas, que eram todas de espantar. Forneciam-lhe um manancial de informações sobre muitos povos e terras daquele vasto mundo, onde poderia fazer lucrativos tratos, sem ter de pagar o quinto à Coroa portuguesa, porque esses lugares, devido à distância a que se achavam, estavam fora da alçada do governador e dos capitães de Goa ou de Malaca.
Fora sempre assim, desde a governação de Lopo Soares de Albergaria, o sucessor de Afonso de Albuquerque, que permitira a grande soltura da classe nobre, já de si indisciplinada, arrogante e pouco inclinada a acatar ordens, que viera para a Índia em busca de honra nos feitos militares e de proveito nos postos das capitanias, quer de terra quer de mar. Sendo os cargos escassos e a gente muita, quando a recompensa oficial tardava ou não havia vaga, até fidalgos da estirpe de Lançarote acabavam por desertar com as suas naus ou juncos para andarem ao salto das embarcações de mouros e gentios, longe das derrotas da carreira da Índia e da vigilância da Coroa.
Das histórias destes aventureiros corsários, nenhuma levava a palma à de Gonçalo Vaz Coutinho, homem fidalgo que gozava entre os seus da fama de guerreiro destemido e esforçado. O próprio a contara uma noite, na sua nau, quando se juntaram para cear e desenfadar-se com umas canadas de vinho, que nunca faltava nas martabanas, os grandes potes de cerâmica do Martavão que serviam de barris para transporte de líquidos e outras mercadorias.
– Prenderam-me no tronco de Goa por um caso de que não vale a pena falar – começou, rindo-se dos protestos dos companheiros. – Ali se achavam outros mancebos de sangue na guelra, como eu, acusados de grandes crimes.
Como era um desperdício que gente valente como aquela estivesse ali sem fazer nada, em vez de andar à caça de presas nestes mares infestados de barcos mouros, dei-lhes conta das minhas razões, confiando-lhes que tinha um plano de fuga para todos os que quisessem acompanhar-me. Nenhum quis ficar para trás.
– Contai comigo! Tudo é preferível ao baraço e ao cutelo. Não é certo que o governador nos conceda o perdão.
– Tão pouco quero ser degredado para o reino, mais pobre do que de lá saí e carregado de ferros, para grande vergonha da minha família.
– O tronqueiro, embora cafre, é honrado, não recebe peitas – disse o preso mais antigo, conhecedor das manhas do tronco –, já o tentei com ouro, sem efeito. Tem grande vigilância sobre o escravo jau que nos aferrolha e deita as correntes. Que podemos fazer?
– Por ora nada – sosseguei-os –, mais tarde iremos precisar de ajuda, no exterior, de homens valentes, amigos ou parentes, com quem possamos contar.
– Descansai, que desses não haverá míngua.
– Então deixai o negócio por minha conta.
Eu tinha uma escrava moça, muito formosa e mandei-lhe recado para que viesse todos os dias trazer-me a comida ao tronco e cuidar do que houvesse mister para me dar algum conforto. Como eu esperava, o jau não tirava os olhos dela, a babar-se de desejo. Animei-a a corresponder-lhe, dizendo-lhe que a nossa salvação dependia dela e daqueles amores, prometendo-lhe alforria se fosse bem sucedida.
O jau era bem apessoado e a cachopa dedicou-se de alma e coração à tarefa de o seduzir, não tardando o moço a quedar doido por ela. Quando o teve bem fisgado, depois de dormir algumas vezes com ele, pediu-lhe que me soltasse e aos outros presos, que eu os levaria também para onde fossem livres e ela seria sua para sempre. O escravo ficou tão assustado que a moça julgou o negócio perdido, porém ele apenas tinha dúvidas se eu cumpriria a palavra e o levaria também na fuga.
Quando nessa noite nos veio prender as correntes, fiz-lhe os mais solenes juramentos de que tudo o que a sua amada lhe dissera era pura verdade. Ficou mais sossegado e disposto a fazer o que lhe pedíamos, pelo grande amor que tinha à moça, para ele o melhor prémio da arriscada empresa. Começou então a passar as chaves das portas, uma a uma, a um amigo meu, que as mandava moldar e as devolvia com as cópias, tudo feito com tanto aviso e tão depressa que o tronqueiro não desconfiou da tramóia. Enquanto se faziam as chaves, os nossos amigos de Goa compraram uma grande manchua e deixaram-na fora de água, na ribeira do Mandouim, coberta de palha, com os remos metidos na terra por baixo dela, por dissimulação.
Em todo aquele tempo o jau manteve-nos nas correntes, porque todas as noites vinha com ele um filho do tronqueiro inspeccionar à luz da candeia os ferros de todos os presos. O dia acordado para a fuga foi um domingo de manhã, em que o tronqueiro ia à missa e, em seguida, a um leilão. O moço escravo preparou a diversão, tirando as lanças e chuços que estavam nos cabides, cheios de bolor, mandando os escravos negros limparem-nos fora de casa.
Vendo toda a criadagem ocupada, entrou nos cárceres e com as chaves novas abriu todas as portas aos presos. Avisados da fuga, dias antes, andavam os nossos amigos pela fortaleza e também junto da porta da cidade que ia dar à ribeira, onde já nos esperavam os negros remadores. E nós saímos todos mansamente dos cárceres, tomando as lanças e os chuços que os negros do tronqueiro limpavam no pátio.
– Filhos! – bradei-lhes. – Vinde connosco para terra firme e sereis livres.
Os negros deram saltos de alegria e juntaram-se ao nosso grupo. Seguimos por entre o muro e a barbacã, sem dar nas vistas, até chegarmos à porta da Ribeira, onde nos ouviu um dos filhos do tronqueiro que deu o alarme, ajudado pela mãe e pelas irmãs, a soltarem brados de Aqui d’el-rei! Acudam que fogem os presos da cadeia!
Acudiram os soldados do capitão, com espadas e lanças para nos deterem, logo contrariados pelos nossos amigos e parentes que terçaram armas com eles. Repicaram os sinos, dando o alarme que fez acorrer o capitão da fortaleza, Dom João de Eça, com uma lança nas mãos, à porta que dava para o cais, onde já se travava uma grande briga em que andavam metidos muitos amigos nossos com lanças, a fingir que nos iam prender, para nos ajudarem a fugir.
– A que d’el-rei! A que d’el-rei! – bradava o tronqueiro, vindo do mercado a correr para o cais.
Era tanta a revolta, os repiques e as gentes, que o capitão da fortaleza se atrapalhou com a lança, caindo do cavalo e o governador, D. Estêvão da Gama, cuidando que os mouros atacavam a cidade, veio com grande pressa ao cais com a sua gente.
Chegou demasiado tarde, porque já tínhamos embarcado na manchua e remávamos o mais rijamente que podíamos. Como éramos muitos, os que não tinham ferros seguiam a nado ou à toa do barco, agarrados aos cabos. Salvámo-nos todos e nenhum foi preso de novo.
– E a moça e o jau?
– Sim, que foi feito deles? – pergunta Fernão a rir, pouco crente em amores de gentias.
– O prometido é devido! – responde o homiziado. – Dei alforria à moça e eles juntaram os trapinhos, com a minha bênção. Se não fossem eles, talvez não estivesse aqui hoje a contar-vos esta história.
193 Mran-Mâ, uma província do sudeste da Birmânia.
IV
Não se deve mergulhar a perna antes de conhecer a profundidade
(tâmil)
Carta d’el-rei do Martavão aos portugueses:
Esforçado e leal capitão dos Portugueses, por mercê do grande Rei do cabo do mundo, leão forte e de bramido espantoso, eu, o mal afortunado Cō Bañâ, príncipe que fui e já não sou desta cativa cidade, te faço saber por palavras ditas da minha boca na firmeza fiel de minha verdade, que eu me rendo desta hora para sempre por vassalo e súbdito do grande Rei Português, senhor soberano de meus filhos e meu, com reconhecença de páreas, e de tributo rico qual ordenar a sua vontade, pelo que te requeiro da sua parte que tanto que Paulo de Seixas te der esta minha carta, sem fazeres nenhuma detença, te venhas logo com essas naus por junto do baluarte do cais da Varela, onde me acharás em pé esperando por ti para logo sem outro conselho me entregar em tua verdade com todo o tesouro que tenho comigo de pedraria e ouro, e da metade dele faço livremente serviço a el Rei de Portugal, com tanto que me conceda licença que à custa do que me fica, faça no seu reino ou nas fortalezas da Índia dous mil Portugueses a que prometo dar grossos soldos, para com eles me restituir no que agora me é forçado largar, por minha grande desaventura.
E quanto a ti e aos mais que estão contigo, que forem em ajuda de me eu salvar, prometo na fé da minha verdade, de partir tão largamente com todos que se hajam por muito satisfeitos.
(Peregrinação, capítulo CXLVIII-CL)
Chaubainhaa ia finalmente render-se e todo o arraial dos bramaas estava em alvoroço para assistir à sua entrega. O senhor do Martavão por três vezes tentara negociar a rendição e salvar-se com a família e o seu tesouro, em troca de um resgate de muito ouro, mas Tabinshwethi não aceitara as suas condições. Desesperado, enviara ao arraial dos portugueses uma carta com um pedido de socorro pela mão de Paulo de Seixas, que o servia com grande lealdade. Fernão achava-se na tenda de Caeiro quando o emissário chegara muito em segredo, vestido como um homem de Pegu, para não ser caçado pelos bramaas. O capitão lera a missiva e mandara logo chamar a conselho, com grandes avisos de discrição, a gente de melhor nome que tinha em sua companhia.
– Não há mister dizer-vos quão proveitoso é este negócio para o serviço de Deus e d’el-rei, nosso senhor – concluíra, depois de lhes dar conta do conteúdo da carta.
– O tesouro de Chaubainhaa é tão grande como o pintam?
– E as suas promessas são verdadeiras ou só as faz para se livrar deste apuro?
A desconfiança dos portugueses na palavra dos governantes daqueles reinos fundava-se na experiência de ver como repetidamente os maiores aliados se atraiçoavam e mudavam de campo, sempre de olho no lado vencedor, não respeitando sequer os laços de parentesco de pais, filhos ou irmãos, desde que pudessem ganhar algo com a traição. Não era verdade o anexim de que almocreve cavaleiro não ganha dinheiro: lucros e proveitos faziam parte da linguagem comum a mercadores e homens de armas portugueses, sendo quase impossível destrinçá-los na Índia, porque ora andavam a defender as fortalezas e a fazer patrulhas no mar, ora se achavam a tratar de mercadorias nos portos dos vários reinos.
– El-rei é leal e sempre honrou os seus compromissos – respondera Paulo de Seixas, que prestara juramento para que todos vissem que falava verdade. – Quanto à sua riqueza, eu vi com estes meus olhos os vinte e seis caixotes do tesouro do anterior rei de Pegu, assim como uma casa cheia até ao tecto de barras e pães de ouro, com as quais se encherão várias naus grandes.
Tamanha riqueza ateara a cobiça de muitos e parecera a alguns uma dessas fábulas ou lendas a que os naturais daqueles reinos eram muito afeitos. Quando os ânimos serenaram, atendendo à magnitude do negócio, João Caeiro mandara sair o emissário, a fim de discutirem à puridade e darem o seu conselho.
Fernão, que ficara na tenda a pedido do capitão, embora afastado e sem participar na discussão, não duvidava de que tudo fariam para salvar Chaubainhaa, com a sua família e o tesouro, cujo prémio seria uma dádiva dos céus para os cofres da Fazenda Real sempre tão exauridos que nem dinheiro havia para pagar os soldos aos homens que serviam nas fortalezas e nas armadas do Estado da Índia.
Esquecera-se o bom Fernão da natureza e índole dos portugueses de que tantas vezes se queixava, por serem invejosos, preferindo danar um negócio necessário ao bem comum, a verem alguém lucrar ou ganhar fama com ele. De onde estava podia ouvir as falas de um grupo de seis homens que pareciam ter muito má vontade ao capitão e se aproveitavam da agitação geral para concertarem entre si a oposição:
– Se este negócio lhe correr bem, como tudo indica, o João Caeiro fica com a fama e o proveito que deveriam ser de todos nós!
– Quedará com tamanho nome e honra, que el-rei o há-de fazer marquês ou pelo menos governador da Índia e, a nós, nada.
O mais velho, que parecia ser o chefe daqueles ministros do demónio, alçou a voz para se fazer ouvir de toda a junta:
– Se correr mal, como também pode suceder, e Tabinshwethi descobrir a nossa traição, perderemos todos os nossos bens e também as cabeças porque ele as mandará cortar sem piedade. Não contem comigo para isso.
O capitão tentara falar, porém logo outro do bando o ameaçara:
– Se insistirdes nesta traição ao rei de Bramaa, nós lha denunciaremos, para não pagarmos pelas vossas culpas.
O medo calara as vozes a favor da ajuda aos sitiados e Caeiro fora forçado a escrever uma resposta ao senhor do Martavão, dando-lhe umas fracas desculpas por não lhe poder acudir. Paulo de Seixas regressara à cidade com a carta, muito indignado e entristecido com o resultado da sua demanda junto dos compatriotas.
– Ah, portugueses, portugueses! – lamentara-se Chaubainhaa com grande paixão, quando ele lhe entregou a missiva. – Quão mal pagastes ao desaventurado de mim o muito que por vós fiz tantas vezes, parecendo-me que assi fazia tesouro da vossa amizade, para que como leais me valêsseis numa tamanha necessidade como esta em que me vejo. Eu não queria mais que vida para meus filhos, enriquecer o vosso rei e ter-vos comigo em minha terra, de que vós todos houvéreis de ser principais.
Despedira-se de Paulo Seixas, dando-lhe como recompensa as jóias que trazia e mandando embarcar na capitânia a esposa talaing e os dois filhos do capitão, que esperavam por ele junto da família real. Seixas continuou, todavia, com a sua frota a defender a cidade que, assim protegida, não podia ser entrada.
Um comandante talaing, natural da cidade de Pegu, mais conhecedor das batalhas marítimas do que Tabinshwethi, subiu o rio e fez inúmeras jangadas de bambu de duas espécies: umas com torres de madeira, montadas sobre cadafalsos, mais altas do que as muralhas da cidade, cheias de soldados, e outras carregadas de palha e madeiros a que lançou fogo e, aproveitando a corrente, fez deslizar rio abaixo com chamas altíssimas para embaterem nos navios e abrasá-los.
Seixas não tinha suficientes batéis nem homens para irem desviar as jangadas de fogo, por isso deu sinal de retirada e a capitânia com os dois navios mais afastados de terra procuraram a salvação na fuga para o alto mar, escapando incólumes, enquanto os quatro juncos restantes eram consumidos pelo fogo ou tomados pelos soldados das jangadas das torres que já podiam chegar às muralhas, permitindo o assalto dos bramaas à cidade.
Abandonado à sua sorte pela maioria das suas gentes, o senhor de Martavão hasteara uma bandeira branca no baluarte da muralha e enviara uma carta ao invasor que lhe respondera com juramentos de lhe dar um estado para governar com muitas terras e rendas.
Tabinshwethi rejubilava com a queda do último reduto do reino de Pegu, que ainda estava fora do seu jugo, conseguida após sete meses de grandes trabalhos e pesadas perdas, esperando saciar a sua vingança nos vencidos. Trouxera para junto das muralhas a sua estância de oitenta e seis magníficas tendas de campo, o arraial soara com o estrépito das hostes de elefantes de guerra e do alardo dos milhares de cavaleiros, gente a pé e estrangeiros, todos com seus capitães, segundo a ordem das suas capitanias. Bayin-naung, o mestre de campo, dispôs o corpo dos setecentos portugueses diante da porta da cidade por onde iria sair Chaubainhaa.
Os olhos perdem-se num mar de gente, sem horizonte à vista, colorido pelo arco-íris das bandeiras, guiões, gualdrapas e cobertas dos elefantes e cavalos, com miríades de cintilações de prata e ouro arrancadas aos ricos jaezes, às lâminas e punhos das armas. As armaduras dos estrangeiros contrastam com os corpos quase nus dos bramaas de longos cabelos negros, cujos trajos de guerra são as tatuagens sagradas, gravadas a tinta azul com ferro quente, a cobrir-lhes todo o corpo, dos ombros aos joelhos, para os fazer invencíveis.
A fanfarra de incontáveis instrumentos é ensurdecedora e desencoraja qualquer conversação. O tiro de bombarda anuncia a abertura das portas da cidade por onde sai o corpo da guarda, de alguns milhares de homens, com trezentos elefantes, que o vencedor enviara na véspera para escoltar a família real, seguidos por bramaas nobres que os vieram receber. Após eles, surge el-rei com o rolim-mor que serve de intermediário aos dois soberanos e, em três palanquins, os quatro filhos de Chaubainhaa e a esposa, irmã mais nova do rei de Pegu deposto por Tabinshwethi pouco tempo antes. As liteiras vêm no meio de quarenta moças, filhas dos fidalgos do Martavão, com os rostos desfeitos em lágrimas, rodeadas por um cordão de sacerdotes descalços, com as cabeças rapadas, a rezarem e a consolarem o triste rebanho. Fecham o cortejo dos vencidos, algumas companhias de arcabuzeiros, alabardeiros, piqueiros e, por último, um batalhão de cavaleiros.
Chaubainhaa traz vestida uma cabaia comprida de veludo preto e tem os cabelos, as barbas e as sobrancelhas rapados; com um baraço ao pescoço, monta um pequeno elefante sem atavios, em sinal de pobreza e humildade, como quem já despreza os bens deste mundo e está prestes a meter-se num convento. Esta humilhação pública da família real causa uma dor tão profunda nas gentes do Martavão, aglomeradas às portas da cidade, que as mulheres soltam grandes gritos, dão bofetadas no próprio rosto e ferem-se com pedras na cabeça.
A rainha, com a comoção que lhe causa o pranto do povo, sofre um vagado e tomba desacordada nos braços das aias que choram e pedem clemência. Ao ouvir os gritos das mulheres, Chaubainhaa desce à pressa do elefante para socorrer a esposa e sossegar os filhos que a abraçam soluçando.
– Oh, deuses inclementes! – exclama amargurado. – Porque castigais estes inocentes que nunca pecaram! É esta a vossa divina justiça?
– A rainha morreu! – bradam na assistência os que se acham mais perto da cena. – Nhay Canatoo acaba de morrer!
O coro de gritos e lamentações da multidão propaga-se como um rastilho aceso e as mulheres fazem o seu luto arrancando os cabelos às mancheias ou rasgando o rosto com as unhas.
El-rei pede água, esparge o rosto da esposa para a fazer recobrar ânimo e, quando ela abre os olhos, ajuda-a a erguer-se com palavras de carinho e de esperança. Alçado de novo para o lombo do elefante, o cortejo retoma o andamento, para ser de novo interrompido alguns passos mais à frente, quando el-rei quase perde o juízo ao passar diante dos portugueses, perfilados em muito boa ordem. Chaubainhaa pára o elefante, ao ver João Caeiro, gritando-lhe bem alto para que a multidão o ouça:
– Portugueses fementidos, que pagastes com traição o bem que sempre vos fiz! Tenho esta minha rendição por menos dor e afronta do que ver diante de meus olhos gente tão ingrata como vós. – E, virando a cabeça para trás para mostrar como a sua vista lhe causava asco, roga: – Ou me matem aqui já ou os tirem dali, porque não hei-de passar mais adiante!
Esconde o rosto no cachaço do animal e o capitão da guarda chama João Caeiro e grita-lhe do alto do seu elefante:
– Despeja já o caminho, porque não é lícito que gente tão má como vós trilhe a terra que possa dar fruto. Que os deuses perdoem a quem meteu na cabeça a el-rei que podíeis prestar para alguma cousa. Rapai as barbas, para que se não engane a gente convosco e servir-nos-eis de mulheres por nosso dinheiro.
Os bramaas da guarda expulsam os setecentos portugueses do alardo, para sua grande vergonha e humilhação, el-rei prossegue no seu elefante até à estância das tendas onde o espera, com pompa e alto estado, o seu conquistador a cujos pés se humilha, pedindo clemência para a esposa e os filhos.
Depois da rendição, Tabinshwethi manteve as portas da cidade cerradas e guardadas por bramaas fiéis, para arrecadar o tesouro dos reis do Martavão, antes de permitir aos seus homens e aliados o saque à escala franca, conforme lhes prometera. Quando por fim soa o tiro de bombarda, dando sinal para a pilhagem, uma multidão aguilhoada pela espera e a cobiça do roubo, lança-se contra as portas da cidade como um enxame de gafanhotos famintos, entupindo as entradas, empurrando-se, esmagando-se e espezinhando os que caem, para serem os primeiros a deitar a mão às riquezas.
O saque durou três dias, num cenário de cruel mortandade, sendo superior a tudo o que até então os bramaas tinham ganho nas suas conquistas: relicários, objectos de culto e ídolos de ouro, prata e pedraria dos templos; caixotes com as peças de seda e porcelanas da China; martabanas cheias de pimenta e drogas, achadas nos gudões e casas dos mercadores de muitas nações. Por ordem do conquistador, as varelas mais santas, as casas do rei, dos nobres e da gente mais rica foram arrasadas e queimadas, assim como as dos pobres, até nada restar da bela e rica Martavão.
Após o saque, o tirano mandou erguer dezenas de cadafalsos no alto de uma colina, que se podia ver da cidade. Uma procissão, semelhante a um saimento, sobe o outeiro com monges de muitas seitas, esquadrões de soldados a pé com os seus comandantes, os principais cavaleiros bramaas e os elefantes de guerra escoltam a rainha Nhay Canatoo com os quatro filhinhos e, presas a quatro e quatro, as suas cento e quarenta aias – todas esposas e filhas da gente principal do reino. Tabinshwethi faltara ao juramento que dera a Chaubainhaa e mandava executar aquela crueldade por vingança e pela má inclinação que sempre teve contra as mulheres.
No recinto da forca, arautos a cavalo lêem o pregão para uma assistência silenciosa:
– Ouçam e vejam as gentes do mundo a criminosa justiça que manda fazer o deus vivo, Senhor da Verdade, rei soberano das nossas cabeças, que quer e lhe praz que morram todas estas cento e quarenta mulheres entregues ao elemento do ar, porque este seu conselho, seus maridos e pais se levantaram com esta cidade e mataram nela doze mil bramaas do reino de Tungoo.
– São todas moças e tão formosas. Que lástima!
– Como pode, o tirano? – indigna-se Fernão. – Pardeus! Muitas delas são quase crianças, podiam lá conspirar contra el-rei dos bramaas!
Na forca mais alta serão penduradas pelos pés, para sofrerem o martírio de uma longa agonia, a rainha e as quarenta açafatas do seu séquito, filhas dos mais nobres fidalgos do reino; a seu lado, há uma forca mais pequena para o mesmo suplício dos dois príncipes e das duas princesas, crianças de poucos anos, a cuja vista os cativos sobreviventes de Martavão soltam os mais sentidos prantos, esquecidos da sua própria miséria. As outras vinte forcas estão destinadas às cem donas e donzelas restantes.
Vendo a rainha encostada a uma aia, como morta, uma formosa moça brada-lhe de entre o primeiro grupo que os algozes conduzem ao patíbulo:
– Senhora, já que por tuas cativas nos embarcamos contigo nestas tristes casas da morte, consola-nos com a vista da tua presença, para que partamos com menos dor.
– Não vos partais já, irmãs minhas! – roga Nhay Canatoo, às que lhe estão mais próximas. – Ajudai-me a levar os meus filhinhos.
Chaubainhaa, para maior castigo, é forçado a assistir à execução antes de lhe ser dada a morte por afogamento, pois nem mesmo o tirano bramaa ousava desafiar a lei e as suas divindades com o derramamento de sangue real; o senhor de Martavão é lançado vivo ao rio, com uma pedra ao pescoço, acompanhado pelos fidalgos que lhe eram leais.
Com a conquista de Martavão, Tabinshwethi satisfizera a sua vingança e alcançara o domínio absoluto do vasto reino de Pegu. Estabeleceu postos militares em lugares estratégicos na região para vigiar os seus inimigos, sobretudo o reino do Sião, e deixando como governador Sa-kyay, o seu mordomo-mor, partira para a capital Pegu a fim de festejar o seu triunfo.
Nessa mesma noite, Fernão vê-se rodeado por soldados bramaas que vêm prendê-lo com pregão de traidor, pela carta que ele trouxera do capitão de Malaca para Chaubainhaa, a oferecer-lhe socorro contra o rei tungoo. Com amargura, enquanto é conduzido ao tronco para enfrentar a pena de morte dada aos traidores, o prisioneiro descobre que foi denunciado a Sa-kyay por um português amigo de Pêro de Faria, a quem o capitão recomendara numa missiva que ajudasse o seu embaixador em caso de necessidade.
Não só sofre de novo as agruras da prisão, como mais uma vez se vê espoliado de todos os seus bens pela ganância do governador que se apodera dos juncos e das fazendas, depois de ter condenado à morte e justiçado o Nakoda Mahmmude e as suas equipagens de chins e malaios. Fernão não duvida de que o aguarda o mesmo destino, porque Sa-kyay não o pode deixar vivo para testemunhar o roubo que fez, às escondidas de Tabinshwethi.
Como teria de justificar perante el-rei a morte do estrangeiro, o governador forjara uns libelos cheios de falsas acusações de traição. Procura arrancar-lhe a confissão pública dos mesmos, com perguntas feitas durante terríveis tratos que lhe mandava dar na picota, de muitos açoites e pingos de fogo com canudos de lacre. Sabendo que a morte é certa, Fernão brada, por entre gritos lancinantes de dor, à multidão que assiste ao seu tormento:
– Acusam-me falsamente para me roubarem a fazenda. O capitão João Caeiro, que está em Pegu, o há-de dizer a el-rei para que castigue os culpados.
Ao ouvi-lo Sa-kyay empalidece de medo, porque se Tabinshwethi vier a saber que ele matara o português para lhe tomar os cem mil cruzados que o capitão de Malaca enviara a Chaubainhaa, pedir-lhe-á contas desse dinheiro e, mesmo que lho entregue todo, ganancioso como é o tirano, há-de exigir-lhe muito mais, causando a sua ruína e a desgraça da sua família.
A sentença de morte é revogada, sendo o réu condenado ao confisco de toda a sua fazenda e enviado para Pegu, em ferros, como cativo d’el-rei.
V
Escapar ao tigre para ser comido pelo crocodilo
(siamês)
Há também costumes tais
em Pegu, que homens competem,
a qual deles terá mais
em seus membros genitais
cascavéis, onde os metem,
a sua carne cortando;
e por tempo se soldando
ficam dentro entremetidos:
dizem que são mais queridos
das fêmeas assi usando.
E moças vão prometer
a ídolos virgindade,
e se vão oferecer,
e por si mesmas corromper
em sinal de castidade,
em umas lájeas polidas,
muito limpas, mui luzidas,
em um corno mui polido,
que no meio está metido,
se rompem nele subidas.
(Miscellanea, de Garcia de Resende)
Tabinshwethi queria aproveitar a sua boa fortuna para acometer e conquistar o reino de Avaa aos shans, mas para isso teria de tomar a cidade de Prome, que estava bem fortificada e defendida por bombardas e tranqueiras. A sua estratégia seria a mesma que usara no Martavão, montando-lhe apertado cerco para a render pela fome.
Sem permitir aos soldados que voltassem para as suas terras, preparou o seu exército repartindo-o em dois corpos, indo com o mais numeroso pelo rio Irãwadi acima, na sua armada de seroos, os navios de guerra em forma de animais, cujas proas eram cabeças de cavalos, patos, crocodilos, elefantes, dragões e tubarões, assim como incontáveis tee-lees, as demolidoras embarcações de madeira de teca, rasas, movidas a remos curtos por mais de cinquenta remadores, com proas muito fortes onde ia montado um pilão, semelhante a uma mão de almofariz, seguro por fortes correias. O som vibrante dos tambores marcava o compasso dos remos e o ritmo das canções de guerra entoadas por milhares de homens. Por terra, ao longo da margem oriental do rio, seguia o comandante-mor Bayin-naung com o segundo troço do exército e os elefantes de guerra.
O rei de Prome estava sujeito ao rei de Avaa, com cuja filha casara e a quem pagava tributos. Tendo conhecimento das manobras de Tabinshwethi, o sogro veio com os chefes shans das tribos do Norte em socorro do genro. Também o rei de Arracão, que temia e odiava o desapiedado conquistador tungoo, se apressara a responder ao pedido de socorro feito pela irmã do seu aliado de Prome, enviara-lhe uma frota pelo rio e um batalhão por uma passagem das montanhas, de modo a apanhar o inimigo entre dois fogos.
Os batedores de Bayin-naung foram os primeiros a descobrir as forças dos talaing, que lhes cortavam o caminho do outro lado do rio, a algumas milhas de distância de Prome. Um murmúrio de revolta e de medo percorreu as fileiras do exército ao verem que o adversário era em muito maior número.
Sabendo como os homens estavam exaustos das campanhas anteriores e fartos da crueldade de Tabinshwethi, o general temeu a deserção em massa dos seus homens e tratou de os ocupar com o corte das árvores e a construção das jangadas para atravessarem o rio, mantendo-os sob apertada vigilância, castigando a menor falta ou sinal de fraqueza.
A mensagem do cunhado chegou quando já quase todo o exército tinha passado para a outra margem. O rei de Bramaa ordenava-lhe que, se encontrasse o inimigo, não atacasse e esperasse por ele. Bayin-naung pensou que o nervosismo da espera acabaria por destruir o pouco ânimo das tropas e ele teria ainda mais dificuldades em suster a debandada no momento do ataque. Chamou um jovem oficial, seu parente, e enviou-o a Tabinshwethi com a informação de que já tinha travado combate e vencido o inimigo.
– Anunciaste uma vitória, antes sequer de termos começado a batalha – disse-lhe o seu lugar-tenente, estarrecido, embora sabendo que o general era muito estimado pelo rei, por ser filho da sua velha ama, seu companheiro de infância e de todas as campanhas, além de marido da sua irmã. – Temos tudo a nosso desfavor e a derrota quase certa. Imaginas o castigo que nos dará el-rei?
– Se perdermos é porque morremos aqui. E ninguém pode punir os mortos – respondeu Bayin-naung e, vendo que já todos haviam atravessado o rio, deu ordem para destruírem as jangadas.
Ouviu-se um murmúrio angustiado dos homens que o lugar-tenente pôs em palavras:
– Os inimigos são dez para um. Sem as jangadas ninguém logrará sair vivo daqui.
– Sem dúvida – retorquiu o general, acrescentando em alta voz para os homens: – Amigos, agora temos de vencer!
Sem possibilidade de fuga, os seus homens lançaram-se num combate de morte, fazendo fugir os adversários que foram acolher-se dentro das muralhas de Prome. Como alguns anos antes, Tabinshwethi tinha tentado conquistar esta cidade e falhado, para vencer, desta vez, Bayin-naung resolveu recorrer à astúcia e à armada dos alevantados portugueses sob o comando de João Caeiro, com os seus arcabuzes e artilharia ligeira em que eram invencíveis.
Quando as tribos do Norte, chefiadas pelo sawbwa de Avaa, desceram pelo rio como um enxame de abelhas de ferrões aguçados em socorro dos sitiados, Bayin-naung avançou com o seu exército um dia de marcha para norte e confiou a sorte da batalha aos arcabuzeiros portugueses que as derrotaram numa emboscada, pondo-as em fuga.
Ao mesmo tempo, o general forjou uma carta em nome do rei de Prome que mandou entregar às tropas de Arracão, que vinham por terra através de uma passagem nas montanhas, levando-os a cair noutra emboscada, vencendo-os e forçando-os à retirada. A frota de socorro que avançava pela costa, quando soube da derrota da infantaria, também regressou à sua terra.
Diante de todo o exército reunido, Tabinshwethi tirou os preciosos anéis dos seus dedos para os oferecer a Bayin-naung, em reconhecimento de tão magníficas vitórias, mandando entregar-lhe três camadas de almofadas para nelas se reclinar, como convinha ao seu alto estado e novo título de Ainshêmeng ou Príncipe Coroado.
Cinco meses durou o cerco à cidade de Prome, defendida pela rainha regente, uma mulher moça e de ânimo varonil, mãe do rei de treze anos. Assolados pela fome e doença, os sitiados foram desertando às centenas e, por fim, alguns traidores peitados por Tabinshwethi abriram os portões da cidade, deixando-a à mercê do impaciente tirano e da sua soldadesca que a saquearam sem piedade.
Da varanda do palácio o rei de Bramaa podia contemplar a praça onde fora supliciada a gente nobre que não tinha desertado, fiel ao rei e à sua mãe. Estava repleta de soldados que festejavam a vitória e ele ordenou-lhes que trouxessem os corpos das duas mil crianças mortas durante o saque, os cortassem em pedaços e os dessem a comer aos elefantes de combate que berravam de fome.
À semelhança do que fizera no Martavão, o tirano exerceu as maiores sevícias sobre as donas e donzelas da corte, antes de lhes dar cruel morte. Eram vítimas de escol para saciar a sua vingança, mas nenhuma como a rainha lhe dera esse particular gozo em humilhar e causar dor a uma mulher, porque esta filha do rei de Avaa o desprezara em tempos, tal como havia feito a do Martavão, preterindo-o a favor de outros reis, por ele não ser então um príncipe de grande estado. Sentiu na alma o mesmo vexame de outrora, à vista da sua beleza, do seu ar altivo, apesar de a terem lançado a seus pés, vencida e à sua mercê.
– Como se atreve esta escrava a usar jóias do tesouro de Prome que me pertencem? – bradou, arrancando risos aos senhores principais que o acompanhavam e enchiam a sala do trono, ávidos de divertimento. Deixou que o alvoroço serenasse e ordenou: – Despe-te, cróia, barregã!
Fez-se silêncio na sala, mesmo os mais ébrios de vinho e de sangue não ousaram rir ou proferir obscenidades. A mulher ergueu a cabeça e olhou o tirano, mas não esboçou qualquer gesto para lhe obedecer. Tabinshwethi leu-lhe nos olhos o desprezo e a repugnância de quem olha para uma criatura imunda e o vexame deu lugar a um ódio cego que o entonteceu de mareio.
– Desnudai a escrava! – gritou com voz rouca aos guardas que tinham assaltado o harém e trazido as mulheres à sua presença.
Ergueram-na do chão com brutalidade, arrancaram-lhes as pulseiras, os anéis e os brincos, depois os panos, um a um, lançando-os aos pés do conquistador como troféus de guerra. O verdugo ansiava pelos gritos, lágrimas e súplicas da sua vítima, que lhe apaziguariam o orgulho ferido, mas a mulher parecia uma estátua inanimada, um desses ídolos de marfim de que ele se apoderava quando saqueava os templos das cidades conquistadas.
Era de porcelana fina o rosto pálido onde brilhavam os negros olhos secos de lágrimas e sem expressão; era de delicado marfim o belíssimo corpo onde os panos de seda e brocado, rasgados com violência, haviam imprimido marcas como veios e se revelava numa esplêndida nudez, a que a maternidade conferira o fulgor da sensualidade na redondez firme dos seios, na curva opulenta das ancas e das nádegas.
No pesado silêncio da sala do trono apenas se ouviam as respirações opressas ou ofegantes dos homens, de olhos presos ao corpo da rainha, espiando com avidez o arrepio da pele, o fremir das ancas e das coxas, o balancear das nádegas e dos seios, leve ou brusco, segundo o impulso que os verdugos imprimiam aos seus gestos. Não havia um só dos nobres senhores bramaas, talaings ou estrangeiros, que não estivesse disposto a trocar o seu espólio do saque da cidade por aquela mulher. Se Tabinshwethi a quisesse dar em alvíssaras, haveria de ser ferozmente disputada, contudo, o senhor de Bramaa tinha outros desígnios quanto ao destino da rainha e das princesas, suas açafatas.
– Não vales sequer para puta do mais baixo dos meus oficiais – lançou-lhe a injúria com violência e decretou a sentença que fez estremecer de horror os portugueses: – Levai-a com as outras cróias do seu séquito para o pátio, entregai-as aos meus soldados. É o prémio que lhes dou pela sua valentia e esforço que nos alcançaram a vitória.
– Nas guerras são sempre as mulheres e as crianças quem mais sofre – murmurou João Caeiro com pena.
– E este bárbaro leva a palma a todos os tiranos – respondeu Gonçalo Coutinho, apesar de não ser inocente, no campo da violência. – Se a paga não fosse tão boa, já há muito que me fora.
Os gritos de júbilo da soldadesca, quando a rainha e as princesas lhes foram entregues nuas para nelas cevarem a sua luxúria, atraíram Tabinshwethi à janela para receber as aclamações e ali se quedou algum tempo, com os seus principais, rindo-se e fazendo apostas sobre os jogos brutais que os homens praticavam com as cativas.
Quando o último dos homens penetrou a rainha já desacordada e, satisfeito a largou semimorta no chão, os carrascos, por ordem d’el-rei, acabaram de a matar, rasgando-lhe as carnes a golpes de chicote. O corpo retalhado foi atado ao do rei, seu filho, antes de o lançarem vivo ao rio com uma pedra atada ao pescoço.
Cumprida a vingança, o tirano preparou o seu regresso à capital. Para o transporte da sua poderosa máquina de guerra, tinha mandado construir uma grande estrada para carroças, desde Pegu até Prome, por onde agora regressava em triunfo, a fim de ser solenemente coroado rei dos reis, segundo os antigos ritos talaing e bramaa. Conhecedor da profecia de que nenhum rei com um nó nos cabelos, ao modo dos bramaas, poderia reinar sobre os pegus, cortou o cabelo da feição dos talaings, todo à volta da cabeça, com um tufo redondo no alto, escolhendo por coroa o diadema dos reis pegus.
Deste modo prestava homenagem aos dois principais pagodes da cidade e assegurava, se não a fidelidade pelo menos a boa vontade dos mons de Pegu e dos bramaas de Tungoo, o seu reino natal, de onde partira com a idade de quinze anos para a conquista e unificação de todos os reinos da Alta e Baixa Birmânia, que se achavam nas mãos dos restantes sawaws – os governadores ou reis, como preferiam ser chamados –, sobretudo os da raça shan do norte, sempre desunidos e cujo reino mais forte era Avaa, que ele já tinha na sua mira para futura conquista.
No cárcere de Pegu, ainda mal refeito dos tratos que recebera no Martavão, a mando do mordomo-mor Sa-kyay, para não se deixar cair no desespero, Fernão repetia para consigo que a paciência é unguento para todas as chagas e agradecia aos céus a graça de ainda estar vivo.
Embora já não alimentasse esperanças de receber ajuda de João Caeiro ou de qualquer dos seus homens, sentira novo ânimo quando ouvira os sons de festa da entrada régia, secundados pelo tilintar, repicar e tinir mavioso dos guizos e campainhas que os pegus, seus companheiros de cela, traziam metidos no órgão da virilidade. Sendo eles muitos, conjugavam-se em concerto de carrilhão, tangidos ao ritmo das danças e pulos alvoroçados pela expectativa do perdão geral que Tabinshwethi haveria de conceder à conta do seu triunfo. A partir desse dia, Fernão começara a bajular os carcereiros com promessas de recompensa, se lograsse sair em liberdade, como não deixaria de suceder, logo que o capitão Caeiro soubesse do mal-entendido que ocorrera no Martavão e da sua prisão.
O aventureiro mal podia imaginar que a roda da Fortuna começava a girar, para mais uma vez o lançar numa perigosa aventura, em que, como criado do embaixador do rei tirano, juntamente com outros sete cativos portugueses, entre os quais se achava Gaspar de Meireles, seu antigo companheiro de peregrinação pela China, iria percorrer as terras daquele sertão nunca antes pisadas por um europeu, até ao misterioso reino do Calaminham, sito bem cerca do Tecto do Mundo ou do Paraíso Terreal.
Odisseia já referida no Sexto Mar, devendo a narradora lembrar ao seu leitor que a viagem a Sunda, no mar de Java, teve lugar entre estes episódios de Pegu e os de Sião que se seguem, esperando não ser tachada de redundante, nem acusada de cansar o leitor com tantos sobressaltos narrativos, quando mais não deseja do que dar-lhe a conhecer as andanças deste nosso incansável viajante.
MALACA
(Olho do Sol)
[A cidade de Malaca, apesar de não ter nada de seu, tem todalas cousas que há no mundo.] Posta e situada em começo de muitas monções e cabo de muitas monções, e as terras da banda da Índia que são Cambaia, toda a Índia, toda Bengala, o reino de Pegu, têm necessidade das mercadorias que vêm da China e da Cauchinchina, Sião, Léquios, os Luções de Burneo, o cravo de Maluco, e de maças e noz de Banda, e de sândalo de Timor, e assi o ouro dos rios de Menancabo e de Java e de Candia, e os que destas partes vêm, têm necessidade das mercadorias que das outras partes ditas vêm, e quanto uns vêm com uma monção, não podem ir para as outras partes com aquela monção, e por isso [Malaca] é grande, e chave de tudo, onde todos fazem escápola194.
(Carta de D. Jorge de Albuquerque a el-rei D. Manuel.
Escrita em Malaca a 8 de Janeiro de 1515)
194 Escala.
VI
Onde houver uma agulha, sempre haverá linha
(malaio)
Carta do Irmão Francisco Xavier aos seus confrades da Europa:
Encontrei em Malaca um mercador português que vinha de uma terra de grande trato, a qual se chama China. Este mercador disse-me que lhe perguntou um homem chinês muito honrado, que vinha da corte do rei, muitas coisas, entre as quais lhe perguntou se os cristãos comiam carne de porco. Respondeu-lhe o mercador português que sim, e lhe disse por que lhe perguntava aquilo. Respondeu o chinês que, na sua terra, há muita gente entre umas montanhas, apartada da outra gente, a qual não come carne de porco e guarda muitas festas195. Não sei que gente é esta: se são cristãos que guardam a lei velha e nova, como fazem os do Preste João, ou se são as tribos dos judeus, que não se sabe deles. Porque eles não são mouros, como todos dizem.
De Malaca, vão todos os anos muitos navios de portugueses aos portos da China. Eu tenho encomendado a muitos, para que saibam dessa gente, pedindo-lhes que se informem muito das cerimónias e costumes que entre eles se guardam, para por elas se poder saber se são cristãos ou judeus. Muitos dizem que S. Tomé Apóstolo foi à China e que fez muitos cristãos; e que a Igreja da Grécia, antes de os portugueses senhorearem a Índia, mandava bispos para que ensinassem e baptizassem os cristãos que S. Tomé e seus discípulos nessas partes fizeram.
Havia mês e meio que o padre Francisco Xavier chegara a Malaca, para aguardar a monção que o levaria a Macassar, nas ilhas Celebes, nome dado pelos portugueses às Sulawesi, a fim de pregar a palavra de Cristo que haveria de arrancar às suas idolatrias aqueles gentios que andavam sempre em guerra uns com os outros, ensinando-os a viver em paz. O anterior capitão da fortaleza enviara para a ilha o padre Vicente Viegas, provisor e chantre da sé de Malaca, por isso, o vigário D. Afonso Martins aconselhara-o a esperar pelo seu regresso para decidir, segundo as informações que ele lhe desse, da sua ida para lá ou para Amboíno, uma das Molucas que necessitava urgentemente de padres.
Recusara o convite do vigário e de Simão de Melo, o novo capitão de Malaca, para tomar pousada em suas casas, escolhendo para morada o hospital dos Pobres, a fim de estar mais próximo dos necessitados, pois não faltavam obras pias em que ocupar o seu tempo. Aos domingos pregava na sé, a igreja matriz de Nossa Senhora da Assunção, mandada construir por Afonso de Albuquerque logo após a conquista da cidade, no ano de mil quinhentos e onze, no extremo noroeste das muralhas da fortaleza, perto do rio, aonde acorriam muitos fiéis para o ouvir. E todos os dias, durante mais de uma hora, ensinava as orações aos meninos, filhos de portugueses e de outros cristãos.
Visitava também o hospital da Irmandade da Misericórdia ou hospital Real, sito no lado oposto da sé, no entanto era o hospital dos Pobres que lhe tomava mais tempo e cuidados, a confortar e confessar os doentes, a dizer-lhes missa e a dar-lhes a comunhão. Não tinha mãos a medir com as confissões e afligia-se com a falta de tempo, temendo não chegar para todos os pedidos, embora não recusasse ninguém, pela necessidade em que aquela gente se achava de salvação.
O que vira, à chegada a Malaca, mostrara-lhe como era verdadeiramente urgente a presença moralizadora dos jesuítas naquelas paragens, pois até os padres e frades levavam ali – ainda mais do que em Goa, por se acharem mais longe da alçada do governador e do patriarcado – uma vida de vício, quase não se distinguindo dos comuns pecadores.
A cidade tinha o maior movimento de mercadorias que jamais vira em qualquer porto da Europa, com um vaivém ininterrupto de embarcações, quer de naus e grandes juncos para as longas derrotas das boas monções, quer dos mais desvairados tipos de barcos gentios que faziam o comércio de cabotagem entre as ilhas, aproveitando os ventos e os caminhos de mar tradicionais. A Malaca vinham ter os mais belos, luxuriosos e ricos produtos, incluindo escravas, de todas as partes do Oriente para ostentação, gozo e prazer de uma gente ainda mais licenciosa do que a da capital do Estado da Índia.
Os portugueses e os casados brancos eram a gente principal de Malaca, distinta dos cristãos da terra, os gentios baptizados, muito mais numerosos. Os portugueses compravam verdadeiros rebanhos de escravas, para seu próprio prazer ou para porem a render os seus encantos, se não tivessem meios de fortuna, sendo o caso mais escandaloso o de um homem que possuía um harém de vinte e quatro bichas, moças cativas de diferentes raças, com as quais vivia em descarada mancebia. As crianças mestiças, escravas ou livres, não tinham conto. Portanto, não eram só os gentios de Malaca e outras terras da Índia que careciam de orientação espiritual, havia muito trabalho a fazer entre os soldados, os mercadores e os moradores.
Um missão adequada à muito jovem Companhia de Jesus, de que ele fora um dos fundadores, quando, poucos anos antes, juntamente com Inácio de Loyola e alguns companheiros de estudos de Paris, havia feito os votos de castidade, pobreza e missionação. E, para não se dispersarem pelas ordens existentes, perdendo-se pelo mundo, haviam criado a nova ordem religiosa.
A bula do Papa Paulo III confirmara a Companhia de Jesus, no dia vinte sete de Setembro do ano da graça do senhor de mil quinhentos e quarenta. Para os diligentes irmãos que, ardiam de fervor e espírito de cruzada – talvez por serem, na sua maioria, provenientes de famílias de antiga nobreza e cavalaria –, o passo seguinte consistira em embarcar para a Índia em missão de evangelização.
Ele fora dos primeiros a partir, porém, ao desembarcar em Goa, sofrera uma grande desilusão, ao ver como as confrarias de franciscanos, de dominicanos e até de padres seculares se haviam adiantado a fundar igrejas, conventos, misericórdias e hospitais, tal como já haviam feito em Ormuz, Cochim e muitos outros lugares do Oriente, com a protecção e ajuda da Coroa portuguesa. A cidade parecera-lhe toda de cristãos, graças ao importante mosteiro de frades de S. Francisco, à formosa sé com muitos cónegos e a numerosas igrejas.
Consolara-o o pensamento de que nos vastos territórios ainda há pouco descobertos, como as Celebes, as Molucas, a China ou o Japão, a Companhia de Jesus haveria de encontrar terreno fértil para a sua sementeira e colher bons frutos, sem tropeçar a cada passo nos semeadores de outras confissões. Segundo apurara, as gentes da Celebes eram facilmente convertidas à Lei de Cristo, por não terem pagodes, nem templos e a sua única religião consistir em adorar o sol. Ou pela razão mais terrena do interesse que tinham nos tratos com os portugueses, os quais, depois da tomada de Malaca, haviam feito uma povoação em Macassar, lhes tinham ensinado a usar pesos e medidas e a fazer pólvora para combaterem os seus inimigos, entre outras coisas de grande proveito. Provava-o a conversão de dois reis da ilha com muitos dos seus súbditos, conseguida por obra dos irmãos franciscanos e de padres como Vicente Viegas.
Tais informações haviam espevitado o já de si bem ardente zelo missionário de Francisco Xavier, decidindo-o a empreender a viagem de mil léguas, desde Goa até Macassar. Estudara e prepara-se bem para aquela empresa e presentemente ocupava-se em sacar as orações do latim para linguagem que na ilha se pudesse entender, como contava nas cartas para os seus confrades, assegurando-lhes que era cousa mui trabalhosa não saber a língua.
Por isso mesmo lhe custava tanto sofrer, com humildade e resignação próprias de um sacerdote, aquele revés que o forçava a renunciar ao seu sonho, porque, se fossem verdadeiras as notícias do escândalo que rebentara em Macassar, o futuro da evangelização dos gentios ficaria para sempre comprometido. Ainda não ouvira a explicação do reverendíssimo Chantre (supondo que ele lha daria), porém os mexericos e enredos que corriam à boca cheia por Malaca não agouravam nada de bom.
Segundo conseguira apurar, sem fazer demasiadas perguntas, o padre Vicente Viegas baptizara o rei e a rainha de Supa, com os nomes de D. João Tubinanga e D. Arcângela de Linta, a princesa sua filha, D. Helena Vessiva, com outros membros da família real, assim como muita gente da nobreza e do povo. Fora difícil arranjar padrinhos para tamanha multidão de conversos e D. João de Herédia Aquaviva fora escolhido para apadrinhar el-rei, por ser o mais nobre dos cristãos-velhos ali presentes.
O moço fidalgo pertencia à família de D. Filipe de Herédia, conde de Fuentes, um nobre aragonês que se mantivera fiel ao partido da infanta D. Joana e do rei seu tio, D. Afonso V de Portugal, na luta pelo trono de Castela contra a usurpadora Isabel, a Católica, que saíra vencedora da contenda. D. Filipe, temendo represálias, seguira a despojada Beltraneja e o seu real paladino a Portugal, onde passara a viver com toda a sua família.
Além de fidalgo de boa cepa, D. João de Herédia era um moço valente, bem apessoado e galante, atributos de sobejo para despertar as mais ardentes paixões nas nativas da ilha, a cuja natureza sensual e propensão para a luxúria nem o baptismo purificador lograva pôr freio. A formosa filha d’el-rei de Supa não fora excepção.
D. Helena Vessiva enamorara-se de D. João, com toda a pujança dos seus quinze anos e a fogosidade da sua raça, enfeitiçando por sua vez o moço, de tal modo que o levara ao extremo de cometer uma loucura, que poderia causar uma guerra entre os macassares e os portugueses: quando o junco que transportara os missionários para a ilha estava pronto para retornar a Malaca, D. João escondera a princesa com muito segredo no seu reservado e trouxera-a consigo.
Tendo já algum conhecimento do carácter dos povos orientais – mesmo dos bárbaros que ainda guardavam rituais de canibalismo, como os povos da Celebes –, o irmão Francisco Xavier sabia como lhes custava perder a face ou deixar por vingar ofensas à sua honra, por isso imaginava facilmente que o grande escândalo e a vergonha infligida a el-rei de Macassar e aos seus parentes tão cedo não permitiriam a presença de padres ou de mercadores portugueses na sua terra.
Suspirou com mágoa, sem todavia se dar por derrotado. Nessa noite haveria de saber a história com toda a minudência da boca do próprio capitão da fortaleza que, conhecendo o seu interesse em ter informações daquelas terras, o convidara para a ceia, onde também estaria Fernão Mendes Pinto, um mercador muito abastado e aventureiro, que fora dos primeiros portugueses a visitar a China e o Japão.
Se não pudesse ir para Macassar, partiria para Amboíno, uma das ilhas Molucas onde os jesuítas queriam lançar ferro, porque seria então da vontade de Deus destinar-lhe essa missão. Tinha também muito interesse em ouvir o que esse tal Fernão Mendes tinha para contar, porque, como andava com os seus dois irmãos nos tratos de mercadorias naqueles mares, conhecia por experiência todos os portos e lugares gentios, livres do domínio muçulmano.
Na fortaleza, só se fala do novo cerco de Diu. Coja Çofar, o renegado italiano ao serviço de Mahmud Sh-ah, sultão de Cambaia, a quem se ficara a dever o primeiro cerco àquela fortaleza, não esquecera a humilhação da derrota que lhe infligira António da Silveira com o seu punhado de valentes. Voltara disposto a vingar-se e a conquistá-la, cercando-a com um exército de guzerates, turcos e abexins, ainda mais poderoso do que o anterior, sujeitando-a a constantes assaltos. O capitão de Diu, D. João de Mascarenhas, tal como Silveira, apesar de ter uma guarnição com pouquíssima gente, lograra até então rechaçar todos os seus ataques, causando pesadíssimas baixas aos inimigos, inclusive a do próprio renegado.
– Apesar da morte de Coja Çofar e dos sucessivos desastres, os turcos e guzerates mantêm o cerco – conta o capitão da frota de patrulha que trouxe as últimas notícias. – Não creio que os nossos possam resistir por muito mais tempo.
– Os muros, baluartes e outras defesas da fortaleza foram todos reparados e fortificados, depois do primeiro cerco, disso posso assegurar-vos, pois fiz parte dos que trabalharam na sua reconstrução – lembra Fernão Mendes Pinto.
Francisco Xavier ouve-o com atenção, estudando-lhe o rosto e as entoações de voz, procurando conhecer o homem por trás do aventureiro em busca de fortuna. Pertencia ao círculo de confiança de Pêro de Faria e apresentara-se na fortaleza em companhia de João Fernandes de Ilher, em cuja casa pousava, e dos seus dois irmãos, António e Álvaro Mendes, vindos do reino a seu chamado, para ali se estabelecerem.
– As últimas novas que dela nos chegaram foi da sua destruição iminente.
– Este governador não há-de tardar a socorrer a fortaleza, ao contrário do que fez D. Garcia de Noronha que, com as suas delongas, chegou lá já depois de António da Silveira ter corrido com os exércitos reunidos de Coja Çofar e do capado Soleimão Baxá! – assegura Simão de Melo, o capitão de Malaca. – D. João de Castro jurou não ter descanso enquanto não vingar a morte do seu filho mais novo, D. Fernando, e de todos os valentes que com ele pereceram.
– À semelhança do que fez D. Francisco de Almeida, ao vingar o seu filho Lourenço, na espantosa batalha no mar de Diu, no ano de mil quinhentos e nove, em que desbaratou por completo a armada dos rumes – compara o vigário D. Afonso Martins –, D. João de Castro tem prestes uma forte armada que, embora não se possa comparar com as forças de Mahmud, não me espanta que faça o mesmo que o vizo-rei.
Fernão ouve-os, de coração apertado, lembrando os amigos que fizera na fortaleza, alguns dos quais talvez já tivessem perdido a vida. Por quanto mais tempo se iria manter Diu na posse dos portugueses? Uma fortaleza alcantilada numa ponta de terra, no próprio coração das nações inimigas, um porto privilegiado para vigiar e dominar o comércio naqueles mares. Pouco tempo decerto. Tal como Goa. Não seria possível a Portugal, com tão pouca gente – a maioria mais interessada em enriquecer os próprios bolsos do que os cofres do reino –, manter um império com tal envergadura, espalhado pelo mundo. Talvez Diu se livrasse do cerco, mas, como se costuma dizer, não há duas sem três e à terceira haveria de cair nas mãos dos rumes e mouros. Assim como Goa.
Enganava-se Fernão, soube-o mais tarde, e melhor do que ele sabe o leitor dos tempos presentes que Goa, Damão e Diu foram dos portugueses durante mais de quatro séculos. Pouco tempo passado sobre esta conversa, quando a situação dos sitiados chegara à mesma sufocante opressão e desespero do primeiro cerco, D. João de Castro surgiu com os seus reforços e travou ferocíssima batalha, obtendo, apesar da tremenda diferença numérica, uma retumbante vitória sobre as forças dos rumes comandadas por Rumecão, o filho de Coja Çofar.
Durante a ceia na fortaleza e com a ajuda de um bom vinho acabado de chegar do reino, as conversas tornaram-se mais prazerosas e brejeiras, apesar da presença do vigário e do padre Francisco Xavier, que, por fim, ficou a conhecer em pormenor a história de D. João de Herédia e de D. Helena Vessiva, cujo casamento teria lugar muito em breve, na própria sé de Malaca, por exigência do chantre Vicente Viegas, a fim de minorar o escândalo e os danos nas relações entre os reinos de Portugal e de Supa, que a leviandade do moço havia causado.
– Como é que ninguém se apercebeu de que ele levava a princesa roubada? Podiam ter sido todos mortos! – exclama o vigário, escandalizado.
– D. Helena é formosíssima e ele, dada a sua própria juventude, não soube resistir aos seus encantos – contrapõe um capitão, amigo do moço, como a desculpá-lo.
Simão de Melo é o único dos presentes a não se rir, pois compete-lhe resolver o espinhoso problema que está longe de ser uma brincadeira.
– Como o noivo é de boa fidalguia, com o tempo e algumas remessas de presentes, espero que D. João Tubinanga perdoe a ofensa e aceite o casamento da filha como se fora concertado pela família, em vez de pôr os reis das restantes ilhas, seus aliados, em pé de guerra contra Malaca. – E acrescenta num tom ainda mais severo para o amigo de João de Herédia: – É mister que esse casamento se faça bem depressa, porque ele não pode viver amancebado com a princesa como se ela fora uma bicha escrava.
– Esperemos também que el-rei se acolha de novo ao seio da Igreja – volve D. Afonso Martins – e permita aos padres, isentos de culpas na fuga dos amantes, pregarem de novo nas ilhas para fazerem cristãos.
O padre Francisco Xavier, conhecendo bem o orgulho dos fidalgos aragoneses e portugueses, acredita que aquele matrimónio será mais facilmente aceite pelos pais da noiva do que pelos do noivo, de modo que não se espantará se o casal, proscrito na Celebes tenha de ficar a viver em Malaca ou em Goa, para sempre.
– Não há português que consiga resistir ao sortilégio das mulheres do Oriente – diz Fernão Mendes Pinto, com uma risada. – Enfeitiçam-nos e quase nos fazem perder a alma.
Apesar do tom alegre, o padre Francisco sente amargura na voz do mercador. O aventureiro faz rir toda a gente com as suas facécias sobre os maus fados que toda a vida o têm perseguido com naufrágios, guerras e desgraças sem fim.
– Não só tive de lutar nas forças do tirano bramaa contra o infeliz Chaubainhaa de Martavão, como ainda fui dado por escravo, com sete companheiros, ao embaixador que o maldito carniceiro enviou ao rei de Calaminham! Felizmente que o nosso amo era um bom homem e admirava muito os portugueses, de modo que nos trouxe sempre no seu séquito como seus oficiais.
– Como é e onde fica esse reino de Calaminham? – pergunta-lhe o padre Francisco, ávido de conhecer nações gentias onde possa lançar as sementes do cristianismo.
– O império de Calaminham tem mais de trezentas léguas, assi de largo como de comprido. Vimos muitas cidades populosas e ricas, até chegar a Timplão196, a metrópole onde reside o imperador com toda a sua corte. Está situada ao longo de um grande rio chamado Pituy, por onde navegam infinitas embarcações de remo. É cercada toda em roda de dous terraplenos de cantaria muito forte, com cavas largas por fora e, em todas as portas, tem castelos com torres muito altas. Disseram-nos uns mercadores que a conheciam bem que tinha quatrocentos mil fogos, de casas de um a dous sobrados, sendo as mais ricas de mercadores e da gente nobre. As dos senhores principais estão separadas, dentro de cercas muito grandes, com terreiros para os seus passatempos e arcos nas entradas, ao modo da China, com jardins, pomares e tanques de água muito acomodados aos gostos e delícias da vida a que aquela gente é muito inclinada.
O aventureiro causa viva impressão ao jesuíta, com as suas descrições dos lugares que visitara, embora tenha alguma dificuldade em distinguir a verdade da fantasia nos sucessos extraordinários que ele narra, quer das suas viagens ao serviço de Pêro de Faria, quer nas incursões de corso pelas costas da China, a que a necessidade o obrigara.
– Chamei os manos, quando a Fortuna me sorria e me achei com meios de poder fazer com eles uma parceria para os tratos de Pegu e Sião. Porém, ainda as minhas cartas não lhes tinham chegado às mãos e já eu perdera num naufrágio tudo quanto amealhara e empatara nas mercadorias que o mar engoliu.
– Prouve a Deus salvar-vos a vida.
– Sem dúvida, reverendo padre Francisco! Embora tantos desastres, como os que eu tenho sofrido, só possam ser castigos de Deus pelos meus muitos pecados, a Divina Providência tem-me salvado sempre no último instante, senão há muito que não estaria entre os vivos. Já fui tantas vezes cativo e vendido que lhes perdi o conto!
Ouvem-se exclamações de pasmo e incredulidade e alguns frouxos de riso. Por momentos, o padre interroga-se se o mercador não será um mero soldado de fortuna, um daqueles fanfarrões que ganham a vida com a espada ou o mosquete e a animar os serões dos seus patronos, contando patranhas sobre as suas vidas mesquinhas para as engrandecer. No entanto, nos seus olhos há uma expressão de inteligência, franqueza e calor humano que não deixa ninguém indiferente. Apercebendo-se do riso e da dúvida, Fernão franze o rosto numa careta de ironia, encolhendo os ombros como quem já espera a descrença e a ignora:
– Descredes do que digo? Então é porque vistes muito pouco destes mares e não conheceis senão o que está diante dos vossos narizes! Quando volvíamos de Calaminham com o embaixador de Bramaa, depois de cumprida a missão, logrei fugir de Pegu para Chatigão, no reino de Bengala, graças à ajuda do capitão de uma galeota e daí embarquei para Goa noutra fusta de um mercador português. Ambos são testemunhas dos meus males. Em Goa prestei contas a Pêro de Faria da embaixada a que me havia mandado, o qual, apiedado da minha miséria e em paga dos meus passados serviços, me enviou num dos seus juncos destinado a Java, onde voltei a ser arrastado para uma longa guerra. Ganhei uma fortuna, vindo a sofrer um dos mais terríveis naufrágios da minha vida, nos mares da Ilha do Ouro. Não topei com ela, só com alguns dos seus naturais, perdi de novo tudo o que havia ganhado, fui feito mais uma vez cativo e vendido.
O jesuíta ouvira dizer que Fernão Mendes fora também um dos três descobridores da ignota terra dos japões e, depois de o conhecer, sente que aquele encontro lhe vai ser muito proveitoso. Há-de falar com ele, à puridade, com maior sossego, para lhe fazer perguntas e pedir que lhe escreva uma informação pormenorizada sobre a terra e os costumes, tanto dos japões como dos chins, o que não lhe deve ser difícil, visto ele se comprazer na escrita e ter tomado muitas notas de tudo o que ouviu, viu e experimentou. Talvez até lhe possa servir de guia nesse arquipélago onde nasce o sol.
Estes mercadores e corsários que andam nos tratos por conta própria ou dos seus protectores, portanto, fora da alçada da Coroa, poderiam ser facilmente aliciados por el-rei com algum cargo ou posto menor, levando-os a gastar o que têm e até a morrer a seu serviço e do reino. Haveria de recomendar a Sua Alteza que fizesse mercê a este Fernão Mendes e aos seus irmãos de os receber como seus moços de câmara, se o ajudassem.
Na presente ocasião, porém, todas as informações que ele lhe possa dar de Java e das ilhas que se estendem até às Molucas, serão muito bem-vindas.
– Não nos quereis contar esse vosso naufrágio? – roga-lhe.
– Se ninguém se opuser, contarei, apesar da paixão que ainda me causam as lembranças do que passei e dos amigos que perdi. – Hesita por momentos e acrescenta com ironia: – Além de correr o risco de ser tachado mais uma vez de mentiroso.
195 Pode tratar-se de cristãos nestorianos, que habitariam nos montes a Oeste de Pequim, a um dia de caminho da cidade.
196 Luang Prabang.
VII
Quem boceja a pescar não apanha peixe
(maori)
Martim Afonso de Sousa [deu a capitania da expedição] a um Jerónimo de Figueiredo, fidalgo do Duque de Bragança, que no ano de 1542 partiu de Goa com duas fustas e uma caravela em que levava oitenta soldados e oficiais da mareação, e não teve efeito a sua ida [à Ilha do Ouro] porque parece, segundo o que despois se viu, que desejando ele de ser rico mais depressa do que o esperava ser pela via que levava, se passou à costa de Tanauçarim, onde tomou algumas naus que vinham do estreito de Meca, de Adem, de Alcosser, de Judá, e de outros lugares da costa da Pérsia, e por se lá dar mal com os soldados, e não partir com eles do que tomara, conforme ao que de direito lhes vinha, se levantaram contra ele, e depois de outras muitas cousas, que me pareceu razão não se escreverem, o ataram de pés e de mãos, e o levaram à ilha Ceilão, onde o lançaram em terra no porto de Galé, e a caravela e fustas levaram ao Governador Dom João de Castro, que lhes deu perdão do que tinham feito, por irem d’Armada com ele a Diu a socorro de Dom João Mascarenhas, que então estava cercado dos Capitães delRei de Cambaia, e de então pera cá se não tratou mais deste descobrimento, que tão proveitoso parece que será para o bem comum destes reinos, se Nosso Senhor fosse servido que esta ilha [do Ouro] se viesse a descobrir.
(Peregrinação, capítulo XX)
Tinham viajado para a China em conserva com os quatro navios de portugueses que também carregavam pimenta em Banten, porém Chincheu estava em grande desassossego com revoltas do povo e a armada do aytao a patrulhar as costas por causa dos wokou, os corsários japões que assolavam as suas costas. Na impossibilidade de fazerem os seus tratos, decidiram rumar a Chabaquee, acabando por saltar da panela para o fogo, como soe dizer-se, porque ali estavam surtos mais de cem juncos que os acometeram, tomando três dos cinco navios, com a morte de muita gente das tripulações, incluindo alguns portugueses.
Escaparam ao ataque o junco de Martim Esteves onde ia Fernão e o de um mercador de Cochim, ajudados por ventos que os empurraram para sudeste, livrando-os dos seus perseguidores, mas lançando-os num mar por onde nunca tinham navegado. Não lhes durou muito tempo a bonança, porque logo lhes saltou um temporal medonho que apartou os dois navios para não mais se encontrarem. O vento soprava tão rijo de escarcéu e ondas cruzadas que não podiam socorrer-se das velas, com o junco ora a correr em árvore seca, ora pairando de través, com medo das restingas e baixios, de que era basto aquele mar desconhecido coalhado de pequenas ilhas e ilhéus desertos, por onde navegaram durante mais de um mês, sem acharem baía, praia ou enseada segura onde pudessem aportar.
Quando o junco abriu um rombo e alagou a primeira coberta, foram forçados a alijar toda a fazenda ao mar e Fernão, desesperado por mais uma vez ter perdido a fortuna arduamente conquistada, sentiu-se esmagado por um sentimento de culpa que o vinha há muito tempo atormentando: a certeza de ser um réprobo, um excomungado, cujo pecado ou má estrela condenavam também à perdição os companheiros de viagem.
Quase todos os navios em que viajara haviam naufragado ou sido aprisionados por corsários e mouros inimigos, com morte e sofrimento de muita gente. Acreditava piamente que era vítima de uma qualquer maldição, feitiço ou mau olhado que alguém lhe lançara, decerto invejoso da protecção de Pêro de Faria, das missões a que ele o enviara e lhe tinham trazido momentânea fortuna. Um enguiço cruel e desmedido que o poupava sempre à morte para, todavia, o atormentar de remorsos, matando-lhe os companheiros, os amigos e até a mulher que mais amara. Já se fizera benzer por padres, homens santos e feiticeiras, sem resultado. Imprecado! Anatematizado, sem remédio.
Sentiu o embate antes de ouvir o aziago estrondo da embarcação contra uma restinga de pedras e a quebrar-se em quatro partes. Os seus piores receios confirmavam-se, com a perdição do barco e de muitas vidas. Com os olhos cheios de lágrimas benzeu-se e murmurou três vezes como lhe recomendara o padre: Dois to deitaram,/ Três to hão-de tirar:/ As três Divinas pessoas/ Da Santíssima Trindade.
Não adiantara. Afogaram-se sessenta e duas pessoas que caíram ao mar, muitas mais morreram na luta feroz travada entre os vinte e oito portugueses sobreviventes com os quarenta escravos e marinheiros chins, pela posse de uma jangada que estes fizeram e, armados com os seus machados, quiseram impedir a entrada ao seu capitão Martim Esteves e restantes folangjis.
A jangada era uma esperança remota de salvação, no entanto a ânsia de salvarem a própria vida dava forças e fereza de bicho acossado aos náufragos que, naquele instante, seriam capazes de sacrificar mãe, pai ou filho, sem hesitação. Durante a navegação tempestuosa, o desespero e o medo da morte tinham unido portugueses e gentios, senhores e escravos numa amizade que fora o arrimo de todos. Após o desastre, o instinto da sobrevivência varrera das suas almas quaisquer resquícios de humanidade e os amigos por quem, dias antes, diziam estar dispostos a morrer, eram agora inimigos mortais e seus algozes, que teriam de matar para poderem viver. Os portugueses, chefiados por Rui de Moura, lançaram-se de espadas desembainhadas contra os que se preparavam para soltar a jangada.
A rixa foi breve e crudelíssima, terminando com a morte de todos os chins e de vinte portugueses, naquele funesto sábado, dia de Natal. Fernão via repetir-se o seu fadário de naufrágio com morte de quase toda a gente e ele salvando-se com sete companheiros, para sofrer um novo calvário, uma via sacra de fome, sede, cativeiro e maus tratos. Oito era o seu número mágico, mas de uma magia negra, demoníaca, fatídica também para os que não morressem no instante do desastre.
Oito foram os cativos de Dragut no mar Roxo, oito também os de Calaminham, que se perderam no mundo ou morreram; no naufrágio da China, tinham-se salvo nove, mantendo-se vivos até ao momento em que Jorge Mendes os deixara e o amaldiçoado bando de oito fora arrastado para novos trabalhos.
Fernão mirava com horror as trinta e oito pessoas que seguiam com ele na jangada, sabendo de antemão que trinta delas estavam condenadas a morrer por sua causa, por isso seria tão culpado da sua morte como se as matasse com as suas próprias mãos.
Esgotada a água de beber e os mantimentos, os náufragos foram morrendo uns após outros, primeiro as crianças, em seguida as mulheres e os velhos. Os sobreviventes não passavam de animais, uma alcateia de lobos famintos, metidos na água quase até ao pescoço, agarrando-se com unhas e dentes à jangada de troncos. Andavam à deriva há tantos dias que lhes tinham perdido a conta, vogando ao sabor das águas e dos ventos, com uma colcha a servir de vela, sem uma agulha de marear para lhes indicar o norte. Sem forças para gritarem, chorarem ou rezarem, jaziam num silêncio alheado de mortos-vivos, guiados apenas pelo instinto de sobrevivência de bichos, forçados pela fome a comerem os da sua própria espécie, partilhando a carne e o sangue de um cafre que morrera.
Os seis portugueses juraram, por entre lágrimas, preferirem morrer a comer qualquer cristão, tendo de lutar contra o restante bando de famintos, para lançarem ao mar os corpos intocados dos dois portugueses que morreram. Quatro dias mais se alimentaram de limos e, quando já desesperavam da vida, avistaram terra, porém, com a comoção e o alvoroço da salvação, quatro dos quinze sobreviventes morreram.
Dos trinta e oito náufragos da jangada, apenas os sete portugueses e quatro moços, seus criados, desembarcaram na praia de uma formosa angra, onde se ajoelharam a dar graças a Deus por tê-los livrado dos perigos do mar e rogando-Lhe que velasse por eles na terra desconhecida, uma imensa ilha a que não alcançavam os contornos e parecia desabitada.
Acharam muito marisco pelas rochas e alguns estranhos animais que nunca haviam visto, os quais não pareciam assustados e se deixaram caçar à mão, matando-lhes a fome de muitos dias. Seguiram o rasto dos animais que os levou até um esteiro de água doce, que vinha desaguar no mar, onde finalmente saciaram a sede que os enlouquecia.
Um dos moços tinha uma pederneira para fazer fogo, permitindo-lhes cozinhar a caça e protegerem-se dos bichos, embora dormissem de noite no cimo das árvores, amarrados. Ali se deixaram ficar uns dias, sem saber o que fazer, nem que caminho tomar para achar gente, se por acaso a houvesse.
A barca que descia o rio, carregada de madeira, pareceu-lhes uma miragem, mas logo reconheceram que estavam salvos, quando os nove homens que nela vinham se lançaram à água como se tivessem visto um bando de demónios em figura de gente. Sete dos recém-chegados eram jaus, Fernão e Rui de Moura falaram-lhes algumas frases na língua dos mercadores, sossegando-os e eles acercaram-se para lhes fazerem perguntas. Os dois negros nus, de cabelos frisados como lã, eram parecidos com os da Guiné, embora mais pardos, empunhavam lanças com pontas de pedra e mostravam-se desconfiados, mantendo-se a uma distância segura.
– Levai-nos convosco para qualquer povoação – rogaram ao jau que parecia comandar o grupo, aguçando-lhe a cobiça, característica da sua raça –, onde nos podereis vender como vossos cativos a gente que nos leve a Malaca, porque somos mercadores ricos e lá lhes darão muito dinheiro por nós ou quanta fazenda quiserem.
Pareceram apiedar-se dos náufragos e acederam a levá-los, todavia, para sua segurança, teriam de lhes dar as armas. Os portugueses entreolharam-se em mudo conselho, hesitando em meterem-se indefesos nas suas mãos, mas não tinham escolha. Relutantemente, entregaram os mosquetes e arcabuzes, fiados na sua palavra e na protecção da Divina Providência, que mais uma vez virou o rosto, distraída.
Na posse das armas, os traiçoeiros jaus chegaram com a barcaça mais perto, fazendo sinal para que se lançassem à água e nadassem para ela. Dois moços e um português obedeceram, mas não chegaram sequer a meio do caminho, acabando na boca de monstruosos lagartos que os desfizeram em pedaços e os engoliram, deixando apenas um remoinho de sangue na água. Os jaus riam e aplaudiam, zombando do pavor dos oito náufragos que se achavam na margem do rio e por nenhuma coisa do mundo entrariam dentro de água.
– Vem cá! Vem cá! – bradaram-lhes os dois cafres nus. – Água! Água!
Fernão pensou que o medo lhe fazia ouvir vozes, pois os negros estavam a falar em português! Atolados na vasa, os oito infelizes mal se podiam mover e os dois cafres saltaram em terra com três jaus para lhes atarem as mãos, levando-os de rastos para a barcaça. Quando os dois negros se acercaram dele, Fernão arregalou os olhos de espanto, vendo que ambos traziam fios ao pescoço, um com uma medalha e o outro com uma cruz de ouro. O da medalha inclinou-se para o prender e Fernão viu a inscrição que tinha gravada. Soltou um grito ao reconhecer o nome de um dos descobridores da Ilha do Ouro, que havia desaparecido sem deixar rasto.
SIÃO
Quando o Ser Supremo viu que era chegado o tempo do seu advento, escolheu o lugar e a mulher que haveria de o dar à luz e na cidade de Kapilavastu, na noite de lua cheia do solstício de Verão, a virtuosa Maha Maya, mulher do rajá, teve um sonho pertur-bador:
Os quatro arcanjos Guardiães do Mundo apareceram na sua câmara e transportaram-na no seu leito pelos ares até às montanhas dos Himalaias e depositaram-na sob a Grande Árvore Sāla, de sete léguas de altura, na Planície Carmesim. As suas rainhas levaram a mulher adormecida até ao lago Anotatta onde a banharam para a libertar de toda a mácula humana vestiram-lhe um trajo celestial, ungiram-na com óleos e perfumes, coroando-a com flores.
Na Colina de Prata erguia-se a bela mansão dourada, em cuja câmara principal as rainhas haviam preparado um leito, com a cabeceira virada a Oriente, onde deitaram Maha Maya sempre adormecida.
O futuro Buda, com a forma de um soberbo elefante branco desceu da Colina de Ouro, não longe dali. Segurava uma flor de lótus branca na tromba e, soltando um portentoso bramido, entrou na mansão dourada, dirigindo-se ao leito de Maha Maya, à roda do qual deu três voltas, curvando-se diante dela em obediência. Depois, tocou-lhe com toda a delicadeza no lado direito, que se abriu para o acolher no seu ventre.
No dia seguinte, ao despertar, Maha Maya contou o sonho ao rajá, seu marido. Disseram-lhe os brâmanes: A tua rainha concebeu um filho macho. Se ele escolher a vida laica, há-de ser um Monarca Universal; mas se deixar a sua casa e escolher a vida religiosa, tornar-se-á num Buda, que livrará o mundo dos véus da ignorância e do pecado.
E assim Buda foi concebido no fim do Festival do Solstício de Verão.
VIII
Se vires um elefante cagar, não tentes cagar tanto como ele
(Sião)
Carta do irmão Fernão Mendes aos padres da Companhia de Jesus:
No reino do Sornao197, que se chama Sião, onde fui por duas vezes, estive na cidade de Odiaa198, que é a corte d’el-rei, afirmo-vos que é a maior cousa que nestas partes vi. Esta cidade é como Veneza porque pelas mais das ruas se anda por água. Terá, segundo ouvi dizer a muitos homens, passantes de duzentos mil batéis pequenos e grandes. Se são duzentos mil ou não, eu não no sei, mas eu vi caminho de uma légua pelo rio sem poder romper com batéis, afora muitas feiras que se fazem nos rios, ao redor da cidade, que são como festas dos ídolos. E a cada uma destas feiras vão passante de quinhentos batéis e às vezes passam de mil.
Este rei se chama Precaoçale199 que dizem que quer dizer a segunda pessoa de Deus. Os seus paços não nos pode ver nenhum estrangeiro, senão os embaixadores somente ou quem se vai fazer seu vassalo; por fora são cobertos de estanho e por dentro mui guarnecidos de ouro.
Senta-se El-Rei num trono mui rico, ao redor do qual há umas tábuas de admirável artifício, numa das quais vão bailando donzelas e filhas de senhores principais, e noutra meninos, e noutra mulheres, e ele está no lugar mais alto.
Este rei chama-se Senhor do Alifante Branco, que é a maior dignidade que pode haver entre eles, porque tem um alifante branco, cousa que não se acha nas outras partes. Quando [este alifante] mija, põem-lhe debaixo uma bacia de ouro e com aquelas mijadas lavam o rosto todos os principais senhores do reino do Sião.
O cortejo parece interminável, contudo, sentado juntamente com outros portugueses na cadeira presa ao dorso do elefante, enquanto esperam a sua vez para se incorporarem nele, Fernão Mendes Pinto não se cansa de ver a infinita variedade de invenções dos participantes, os olhos pedindo sempre mais, assombrados com a pompa e a riqueza exibidas pelo Senhor do Elefante Branco. As nove ruas por onde vão desfilar estão engalanadas e embandeiradas como as de Lisboa por ocasião dos torneios ou festas reais; nos canais que recortam a cidade, perfilam-se os barcos de proas trabalhadas em forma de dragões e outros animais míticos, pintados de muitas cores, tendo ao centro pailós ou castelos de madeira dourada, enfeitados com pendões de seda, cheios de gente trajada de vistosos panos.
O aventureiro rejubila por poder desfrutar de um espectáculo que nenhum europeu, além dos portugueses, contemplou, tanto mais que só duas vezes em cada ano el-rei deixa os paços e se mostra com este grande estado aos seus súbditos, que acorrem de todos os lugares do reino para o verem e lhe renderem homenagem. Encenado segundo o regimento do cerimonial da corte, o cortejo é uma exibição de fausto e riqueza, com danças, representações e invenções minuciosamente ensaiadas, para deslumbrar quem as vê.
Hoje, um incontido frenesim de excitação trouxe multidões de siames para os canais e ruas da cidade. Beijam-se segundo o seu costume, esfregando os narizes e exclamando por entre umas fungadelas deliciadas: Muito fragante. Muito fragante!. Os moradores portugueses acham-nos um povo muito afável e belo, sobretudo as crianças e as mulheres, que gozam de grande liberdade, maior do que em qualquer outra terra do Oriente. Sejam baixas ou de posses, andam quase nuas, com um pano solto ou levemente enrolado da cintura até meio da perna e um lenço que lhes cobre parte do peito, deixando um ombro e por vezes um seio à mostra; untam-se com uma mistura de alvaiade ou cal com pó de açafrão, que lhes deixa a pele dourada e muito olorosa. Homens e mulheres comuns usam o cabelo cortado rente dos lados, com um tufo no alto em forma de escova e adornam-se com muitas jóias, de ouro e pedraria de primoroso labor.
Acodem aos magotes, para verem desfilar o mais imponente de todos os cortejos, desde o ano do Cavalo, de mil quinhentos e trinta e quatro, quando Chai Raja fora coroado. Hoje, neste auspicioso dia do ano do Dragão, de mil quinhentos e quarenta e cinco, celebra-se a sua vitória sobre os inimigos de Ayuthya, um falso triunfo, na medida em que o exército tivera pesadas baixas e o próprio rajá fora ferido, todavia, admiti-lo seria perder a face, o que não pode suceder. Além disso, o povo necessita de festa e alegria, porque, durante a sua ausência, a cidade fora pasto de um terrível incêndio que consumira templos, palácios e mais de dez mil casas.
Há muito que Fernão perdeu de vista a cabeça do desfile, composta pelos esquadrões de soldados, precedidos por um corpo de baile de formosas mulheres que lançam flores e águas perfumadas, aos quais se sucederam as ordens de monges de desvairadas seitas – que têm inúmeros pagodes, bralas ou templos, comuns a todos estes reinos, desde Pegu ao Calaminham. De cabeças rapadas, vestidos até aos pés com os panos amarelos que lhes deixam um ombro desnudo, mostram os estandartes e insígnias que o povo reverencia segundo a sua dignidade de grepos, talagrepos, rolins ou outras; para não cometerem o pecado de pôr os pés no chão, os bonzos principais, trajados de cetim verde e com estolas de damasco roxo pelo peito são transportados em palanquins aos ombros de outros sacerdotes, seus inferiores em dignidade. Acompanham-nos bandos de meninos com turíbulos, defumadouros de cheiros muito suaves e muitos instrumentos de música que marcam a cadência da litania com que abençoam a assistência.
Arranca agora o pelotão dos quartãos, quase duas centenas de ginetes, montados em cavalos ajaezados com grande primor, luzindo os seus trajos mais ricos, dos quais cinquenta são portugueses e vêm vestidos como cavaleiros e fidalgos de Portugal, por serem quase todos de boa geração e até da casa d’el-rei. Fernão saúda-os com orgulho e cortesia, por conhecer a maioria deles, que o acolheram muito bem.
Ainda lhe custa a crer que se encontra ali, prestes a desfilar num Triunfo, como um herói, quando não passa de um soldado de fortuna, ou antes sem ela, porque o seu mau Fado não lha deixa medrar. Ficara rico ao serviço do rei de Demaa, na ilha de Java, contudo, perdera toda a sua fazenda em mais outro horrendo naufrágio, a caminho da China – o quarto desde que pusera os pés na Índia. Andara à deriva semanas a fio numa jangada desprovida de tudo, com sete portugueses e alguns moços, forçados a alimentarem-se das carnes de um escravo cafre que morrera e dos limos que colhiam na babugem da água, para sobreviverem.
Tinham-se salvo por milagre, ao avistarem terra por alturas de Timor, mas fora saltar da sertã para o lume, porque, mal encalharam na praia, foram feitos cativos por uns pescadores papuas e vendidos como escravos. Nesse jogo do gato e do rato com que os Fados se divertiam à sua custa, de novo a este revés da fortuna se sucedera um golpe de sorte, e o senhor da ilha resgatara-os e enviara-os para Sunda, onde se achava uma armada de portugueses que os haviam acolhido até ao dia da partida. Sem um real de seu, aceitara o convite para embarcar no junco de dois portugueses que iam fazer tratos em Ayuthya e lhe emprestaram cem cruzados para recomeçar a vida.
Volta a atenção para o desfile das principais estâncias do cortejo, enquadradas pelas hostes dos seis mil guerreiros que compõem a guarda do rei. Um batalhão de duzentos elefantes de guerra avança em passo solene, como soldados bem treinados, ajaezados e aparelhados com cadeiras e castelos de madeira lavrada e pintada, onde se sentam os capitães e senhores do reino, competindo em riqueza e estado. Domingos de Seixas vai entre os príncipes da família real.
Embora tivesse participado nos combates de Pegu, Martavão e também nos deste mesmo reino de Ayuthya, onde vira elefantes de guerra em acção, Fernão sente um arrepio de comoção à passagem das gigantescas alimárias, adestradas pelos seus cornacas para, com as longas presas de marfim reforçadas por lâminas aceradas, esventrarem quem lhes passe ao alcance da fúria, não havendo força capaz de lhes aparar a investida. Passado o terror dos primeiros encontros com eles, nas conquistas da Índia, os portugueses tinham aprendido a enfrentá-los com manha e destreza, facto comprovado não só na tomada de Malaca, como ao serviço de Tabinshwethi e em muitos outros lugares onde os elefantes eram a força principal do exército. Mesmo assim, não ganhara para o susto quando, em plena batalha, uma destas bestas lhe passara a tromba por entre as pernas e o lançara pelo ar como se fora uma laranja; esbarrondara-se no solo com o estrondo de um pelouro e só por milagre (ou por a couraça lhe ter amortecido a pancada) se não esfanicara.
Estava ali por mérito próprio, tendo participado naquela guerra, integrado na hoste dos portugueses comandados pelo lendário Domingos de Seixas, que conhecera durante a sua primeira visita ao Sião, quando chegara a embaixada de Francisco de Castro enviada por Pêro de Faria para confirmar a morte ou resgatar o escrivão que, no ano de vinte e três, fora injustamente preso em Tenasserim com outros portugueses. Durante dezassete anos nada se soubera deles, até el-rei D. João III ordenar aquela embaixada a Ayuthya para a sua libertação, visto interessar mais à Coroa portuguesa a amizade com o reino de Pegu e o poderoso Tabinshwethi, do que com o Sião, cada vez mais fraco e ameaçado pelas nações que o rodeavam – Chiang Mai, Lan Sang e Phnom Pehn.
Pasmaram os embaixadores quando, em vez dos prisioneiros miseráveis que esperavam ver, Seixas lhes surgira como valido de Chai Raja, seu comandante de campo e dos restantes portugueses que viviam como soldados d’el-rei, com grandes soldos e privilégios concedidos por Sua Alteza em troca dos seus serviços. Espantaram-se igualmente os resgatados por essa lembrança tão tardia da parte das autoridades portuguesas e, percebendo o jogo de interesses da Coroa, recusaram-se a partir.
Do alto do seu castelo, vendo o turbilhão de cor, sons, gentes e animais que aos poucos se organizava numa grandiosa coluna muito bem concertada, onde cada figurante parecia conhecer de antemão o lugar que lhe competia, Fernão meditava sobre os estranhos desígnios e rumos que os Fados lhe traçavam, mudando-os a cada passo. Nesse tempo, estava longe de imaginar que, na sua segunda viagem ao Sião, voltaria a encontrar Domingos de Seixas, ainda mais rico e favorecido, servindo sob as suas ordens como mercenário, com outros cento e dezanove portugueses, nos exércitos do Senhor do Elefante Branco contra as forças do tirano Tabinshwethi, que tanto mal lhe causara.
Distrai-se com o alegre som da música dançada por bandos de homens, empunhando armas e simulando combates ou representando farsas, seguidos por ranchos de donzelas muito formosas, nos seus trajos cheios de cor e brilho, com toucados cónicos, em forma de pagodes bordados a ouro, movendo-se suavemente ao sabor da melodia das flautas, guizos e tambores, com passos lentos, gestos graciosos das mãos e do rosto, como quem conta uma história sem palavras.
Duas fieiras de meninas trazem cestos cheios de pétalas de flores que lançam pelo chão como um tapete perfumado, para a passagem do grande Elefante Branco, símbolo do poder do rei do Sião, tão raro entre os da sua espécie que os siames o tomam por uma criatura divina, cujo desaparecimento ou morte pode causar a perdição de Ayuthya. Fernão acha um desatino que reinos de tanta polícia travem crudelíssimas guerras pela posse de uma destas alimárias, apesar da sua raridade, contudo tal conflito existia desde o tempo da formação destas nações. Ele próprio ficara a conhecer a cobiça do tirano Tabinshwethi por estes elefantes, quando estivera com ele em Martavão e em Pegu. O rei de Bramaa, por ser senhor de maiores reinos e de mais gente do que Chai Raja, achava-se com mais direito à posse da venerada criatura e enviara uma grandiosa embaixada ao seu real vizinho a pedir-lhe um ou dois. A recusa zombeteira e a despropósito do senhor de Ayuthya afrontara Tabinshwethi, que jamais perdoava a quem o agravava ou lhe fazia perder a face e só não partira logo a dar-lhe guerra, por estar ocupado com o levantamento de alguns dos seus sawbwas no seu próprio reino – no entanto, os siames não perderiam pela demora.
Ei-lo que surge, rodeado por vinte e quatro criados munidos de sombreiros vermelhos de pé alto para lhe darem sombra! A poderosa alimária de pêlo branco-pérola avança majestosamente como um rei entre os seus vassalos, no meio de duas alas de elefantes, seis de cada lado, em cujos castelos se reclinam as esposas e concubinas de Chai Raja. A multidão baqueia de joelhos, deitando-se, não sobre os calcanhares, ao modo dos chins, mas de lado, com a testa a tocar o chão, mãos postas, erguidas acima da cabeça numa súplica ou agradecimento, abarcando o rei e a sua montada na mesma prece.
Na cadeira chapeada de ouro, semelhante a um trono, com cadeias grossas também de ouro que lhe cingem o torso como cintas, vai sentado com grande esplendor Chai Raja, o Vitorioso, graças ao médico português que lhe cuidou do ferimento e o salvou da morte. A seu lado leva a formosíssima Sri Suda Chan, a consorte favorita a quem satisfaz todos os desejos, e aos pés, em postura submissa, o pequeno príncipe, refém e penhor da vassalagem da rainha Chira Prapha, sua mãe, que favorecera os rebeldes.
Escarranchado no enorme cachaço do elefante, com um terçado de ouro na mão e uma aljava cheia de dinheiro, o pajem do rei lança punhados de moedas ao povo. Fernão avalia a quantidade de ouro que o bicho traz sobre si e pensa, com um misto de raiva e inveja, que bastavam as cadeias de várias voltas do seu imenso pescoço (sem meter no cômputo o enorme globo do mundo que traz suspenso da sua tromba) para fazer dele um homem rico para o resto da sua vida.
– Há alimárias com mais sorte do que gente! – suspira, agarrando-se ao bordo da cadeira que oscila fortemente quando o seu elefante se põe em marcha para se juntar aos trinta grandes senhores do reino que completam o séquito do divino animal. Atrás deles, uma guarda de três mil homens, todos em uniforme de gala e muito bem armados, formam a cauda do cortejo.
Assaltam-no recordações vivas da sua primeira viagem ao Sião, no ano de mil quinhentos e trinta e nove, em que fora vender umas fazendas chinesas de Pêro de Faria a Patane – porto principal da península malaia para os juncos dos tratos da China, visto ser uma derrota mais curta do que a de Malaca. Terminado o negócio, vira chegar António de Faria como embaixador do capitão, para assentar de novo as pazes com el-rei de Patane e agradecer-lhe o bom tratamento dado à gente lusa, embora isso não passasse de um rebuço para tratar com ele dos negócios da mercancia, a coisa que mais importava, não só a Pêro de Faria, como a todos os portugueses da Índia, em particular aos que andavam nos tratos por conta própria, fora da alçada da Coroa. O embaixador trazia uma carta, acompanhada de um belo presente, mandado em nome d’el-rei de Portugal e à custa da Fazenda Real, como sempre fazem os capitães das fortalezas ou das armadas, para colherem os frutos dos tratos em seu próprio proveito ou dos seus amigos.
Despachada a bom contento a embaixada, António de Faria procurara vender uma carga de roupas da Índia, no valor de uns onze mil cruzados, a verdadeira razão que ali o trouxera; porém, esses panos eram de tão má digestão em Patane, que não achara quem lhos comprasse, mesmo a baixo preço. Ouvindo que a cidade de Lugor, cem léguas a norte, era um porto de grande escala, sobretudo para os juncos de Java que resgatavam esses panos por ouro e pedraria, o embaixador tratou de fretar um navio para lá mandar Cristóvão Borralho por feitor da veniaga.
Fernão embarcara com ele, longe de imaginar que aquele encontro com António de Faria e o posterior roubo do navio por Coja Acem seriam um marco, um ponto de viragem na sua peregrinação pelo Oriente mais longínquo, metido na pele de um corsário, com Cristóvão Borralho por seu maior amigo e companheiro de aventuras.
Depois do assalto de Coja Acem, de que escaparam com vida lançando-se ao mar e nadando para terra, Fernão e Cristóvão haviam sido salvos por uma bondosa siame que os levara para sua casa e cuidara deles até se restabelecerem. Fora então que os dois náufragos, sem um real no bolso que não fosse de esmolas, se viram forçados a alistar-se no esquadrão de Domingos de Seixas e a participar nos combates de Chai Raja contra Tabinshwethi que ocupara a província de Chiang Krai, tributária de Ayuthya.
Fernão ficara a conhecer a história do ambicioso rei do Sião, desde a sua tomada do poder, quando, no ano da Serpente de mil quinhentos e trinta e três, um surto de bexigas, trazidas por um navio português ao porto de Kua, assolara o reino e vitimara milhares de siames, entre os quais, o rei Boromma Raja, o quarto deste nome, que deixara como sucessor o seu filho Ratsada, de cinco anos de idade. Para Chai Raja, governador de Pitsanulok e meio irmão do rei morto, fora como se os deuses lhe quisessem oferecer o trono de mão beijada ou o desafiassem a tomá-lo: quatro meses após a coroação do príncipe Ratsada, aproveitando-se do descontentamento provocado pela má regência da rainha, sua mãe, não hesitara em abandonar o governo da província do Norte para vir com o seu exército conquistar o poder.
As hostes de soldados endurecidos nos confrontos com os bramaas da fronteira não acharam resistência na cidade e assaltaram os paços reais que tomaram quase sem luta. Chai Raja assassinara o sobrinho e fizera-se coroar rei de Ayuthya, governando desde então, coadjuvado pelo seu irmão Thien Raja, nas províncias do norte, com constantes sobressaltos de invasões, revoltas e traições, logo esmagadas pelos seus exércitos, reforçados pelo esquadrão de artilheiros e arcabuzeiros portugueses.
Para Fernão, esta segunda viagem ao reino do Sião fora uma desesperada tentativa de fazer algum dinheiro, depois do desastre de Sunda que o deixara de novo na indigência. Os cem cruzados emprestados pelos dois mercadores portugueses que o haviam trazido no seu junco, conseguiriam um bom lucro na compra de mercadorias para os tratos na China, aonde iriam logo que a monção de sudoeste lho consentisse.
Afinal, com a sua costumeira pouca sorte, tudo dera em vaza-barris! Havia já comprado a mercadoria e ultimava os preparativos para a viagem, quando chegara a Ayuthya a notícia de uma grande revolta na cidade fronteiriça de Chiang Mai, do reino de Lan Na, cujos mandarins se tinham dividido em dois partidos sobre o pagamento das páreas de vassalagem devidas ao rei de Bramaa.
Nas últimas pazes que assinara com o rei do Sião, Tabinshwethi impusera como condições que Chai Raja ficasse seu vassalo, lhe desse uma filha sua por esposa e, a cada ano, lhe enviasse um dado número de elefantes de serviço e uma formosa donzela, filha de um dos seus mandarins principais, para o seu harém. O tirano recebera a princesa por mulher e retirara-se para o seu reino, tendo-lhe o sogro pago fielmente as páreas acordadas, todos os anos, até ao presente, em que os mandarins de Chiang Mai se levantaram contra o rei Khet Muang Klao, recusando-se a entregar a moça, quando a embaixada bramaa chegara para a receber.
– Tabinshwethi não gosta de mulheres e trata-as com muita crueza – queixaram-se no conselho d’el-rei.
– Só as quer para escravas. Ou para as dar aos seus favoritos.
– Porque havemos de sujeitar as nossas donzelas a um destino tão funesto?
– Dá-lhe os elefantes, mas não as nossas filhas – teimou o pai da donzela escolhida.
O rei Khet, com medo de quebrar as pazes com o temível Bramaa, insistira em cumprir o tratado, os mandarins descontentes tinham-no assassinado e passado à espada um grande número de gente fiel a Ayuthya. Outra história que corria era a da loucura do rei que levava o reino a perder e, por isso, tivera de ser afastado, mas vá-se lá a saber a verdade!
Chai Raja, muito afrontado com o regicídio dera ordens para armarem um arraial de tendas de campanha na outra margem do rio, onde se alojara para melhor cuidar da preparação do seu exército e mandara lançar pregões por toda a cidade, a convocar os homens para a guerra, sob a ameaça de terríveis castigos aos desobedientes ou desertores, que fizeram estarrecer de medo, tanto os siames como os estrangeiros:
Todo o homem, que por aleijão ou velhice não seja escuso de ir com el-rei a esta guerra, se faça prestes em termo de doze dias, sob pena de morrer queimado com infâmia perpétua a todos seus descendentes, e confiscação de seus bens para a coroa.
As mesmas penas seriam aplicadas a todos os estrangeiros que não saíssem do reino no termo de três dias. Sendo este prazo impossível de cumprir para a maioria da gente, o exército de Chai Raja não tardara a ser engrossado com milhares de soldados e cavaleiros das mais desvairadas nações e raças.
Por serem os portugueses a gente guerreira mais respeitada no Sião, o combracalão ou phra khalang, o ministro encarregue dos negócios marítimos e dos estrangeiros, honrara-os com a sua visita no Ban Portuguet, o campo português de Ayuthya, assente nuns terrenos rodeados por um canal do rio Chao Phraya como uma ilha, concedidos por Ramathibodi II a Duarte Coelho para povoação e morada dos portugueses, confirmados pelos seus sucessores, como recompensa pela ajuda militar dos lusos, quer como soldados quer no ensino das armas que lhes tinham alcançado grandes vitórias. A praça principal, onde ainda se erguia a grande cruz de madeira que Duarte Coelho tinha chantado quando ali viera, trinta anos antes, enchera-se com os residentes e mercadores convocados por Domingos de Seixas, que receberam o combracalão fazendo a zumbaia devida ao seu alto estado, de joelhos e batendo por três vezes com a testa no chão.
– Sua Alteza me manda rogar-vos em seu nome – anunciara, com uma amabilidade pouco usual nos ministros da corte –, por serdes quem sois, que o queirais acompanhar de vossa vontade nesta sua jornada. Chai Raja deseja muito entregar-vos a guarda de sua pessoa, por conhecer que sois mais para isso que todos os outros povos.
Para ajudar à eficácia do seu recado, acrescentara generosas promessas de grandes pagas, mercês, e honras:
– Sereis isentos do pagamento dos tributos sobre todas as mercadorias – lançara, sabendo ser aquela promessa a que mais poder tinha para convencer os estrangeiros e, depois de uma pausa, como se buscasse coragem ou lhe custasse a engolir, acrescentara a custo: – Sua Alteza dá-vos licença para fazerdes igrejas no reino e. está disposto a converter-se à vossa Lei, embora em segredo, para não causar revoltas do povo, em tempos tão conturbados.
Acabada esta fala, partira, deixando os portugueses varados de espanto.
– Chai Raja quer fazer-se cristão? Que sabe ele da nossa Fé?
– Quando el-rei me convoca à sua presença – disse António de Paiva, um dos mercadores mais ricos do Sião, homem fidalgo, letrado e de siso, por quem el-rei mostrava particular amizade, chamando-o amiúde ao palácio – procuro falar-lhe de Cristo e da nossa santa religião que, segundo ele crê, não difere muito dos ensinamentos de Buda. Ele ouviu sempre as minhas palavras com muita aceitação, no entanto, nunca pensei que quisesse abandonar as suas crenças.
– Não duvido de que o diz só para assegurar a nossa participação na guerra. Contudo, Deus escreve direito por linhas tortas.
– Se nem padre há entre nós, como se há-de baptizar el-rei?
– Não podemos desperdiçar a ocasião de trazer para a Cristandade um rei tão poderoso – argumentou Fernão. – Na impossibilidade de mandar vir um padre de Malaca ou Goa, sendo António Paiva tão conhecedor dos preceitos da nossa Igreja, poderá administrar o baptismo a Chai Raja, como se faz às crianças que vão morrer e ainda não receberam o sacramento na igreja ou como já vi fazer aos gentios moribundos que se querem converter.
Custava-lhe a crer, no entanto, que um rei que adorava um deus, representado no seu templo como um ídolo sentado num tamborete, na posição de quem se esforça a fazer câmaras e a esvaziar a tripa, pudesse vir a ser um bom cristão.
Durante algum tempo debateram o melhor modo de fazer a celebração daquele santo sacramento, sem cometerem blasfémia ou heresia, crentes de que, se não se fizesse antes da partida para a guerra, a eterna salvação de Chai Raja ficaria comprometida, quer pela sua morte, se fosse vencido, quer pela sua previsível recusa, se regressasse vitorioso. Contudo, a escolha do momento para a sua conversão dependia dele e nada mais podiam fazer senão cumprir-lhe os desejos, prestando-lhe a ajuda militar requerida.
Da centena e meia de portugueses que estavam em Ayuthya, cento e vinte aceitaram o prestigioso cargo de guarda pessoal d’el-rei, acompanhando-o e protegendo-o em todas as batalhas, com os seus mosquetes e arcabuzes de tiro certeiro, escudando-o com os seus peitos couraçados de aço, contribuindo para a sua vitória e partilhando do seu triunfo.
Os terríveis castigos prometidos aos desertores surtiram o efeito desejado, porque, nos doze dias do termo do pregão, se reunira no campo das tendas um fortíssimo exército de algumas dezenas de milhar de homens e quatro mil elefantes, cujo comando foi entregue a dois turcos e ao português Domingos de Seixas que, à ordem d’el-rei, se puseram a caminho, avançando para a raia do norte, a fim de evitar que Tabin-shwethi ou qualquer outro aliado de Chiang Mai, aproveitando-se do conflito, viesse fazer razias nos campos e povoações do Sião.
A primeira vitória coubera aos revoltosos com ajuda dos bramaas, que atacaram os batalhões da retaguarda, causando-lhes pesadas baixas. Vendo o desastre, Domingos de Seixas elaborara novo plano de combate, que Chai Raja pusera em prática com muito êxito, porque os siames, encorajados pelos portugueses que lutavam a seu lado, se bateram ferozmente com os seus adversários. Por fim, a artilharia do esquadrão português, a cavalaria dos turcos e o batalhão dos elefantes concentraram forças num derradeiro assalto, espalhando a destruição entre as alas dos bramaas, que se retiraram deixando o terreno coalhado de mortos.
Chai Raja quisera festejar a vitória com o castigo da rainha Chira Prapha – a regente de Chiang Mai que se tinha bandeado com os rebeldes –, destruindo e pondo a saque todas as cidades que encontrara no caminho para a capital, que jurara destruir. Todavia, não chegara a disparar um só tiro de arco ou de arcabuz contra a cidade que parecia deserta, porque, no instante em que ia dar a ordem para o ataque, as portas de Chiang Mai abriram-se para dar passagem ao maior e mais formoso cortejo que Fernão vira em toda a sua vida.
Milhares de mulheres, cantando e dançando, traziam nas mãos ou em pequenos andores ou charolas, ricos presentes de flores e perfumes que iam depor aos pés do vencedor. Por último, numa liteira semelhante a um trono, transportada em ombros por vinte hercúleas portadoras, apresentara-se a deslumbrante Chira Prapha, languidamente reclinada, seminua e adornada com preciosas jóias de ouro e pedraria, para se entregar a Chai Raja como o mais magnificente e raro de todos os espólios.
A capital fora poupada em troca de um tributo de sessenta mil ducados portugueses por ano e o príncipe herdeiro, de nove anos de idade, prestara homenagem ao conquistador, que o trouxe como refém para Ayuthya, a fim de o exibir em troféu no seu desfile de triunfo e manter em obediência a rainha sua mãe.
Disto foi testemunha Fernão Mendes Pinto, por felicidade nossa, visto ser graças ao seu relato dos sucessos em que tomou parte activa, bem como dos muitos casos ouvidos a quem os testemunhou que, quinhentos anos mais tarde, a sua narradora lhos pôde apresentar, caro leitor, como se os tivesse vivido, pensado e sentido na pele de cada personagem. Assim o fará no próximo capítulo com a bela e pérfida concubina Sri Suda Chan.
197 Cornau ou Sarnau eram outros nomes do reino do Sião, usados na primeira metade do século XVI.
198 Ayuthia, Ayudhya ou Ayutthaya – nome completo Phra Nakhon Si Ayutthaya – era a antiga capital do Sião, situada numa ilha, 40 milhas a norte de Banguecoque.
199 Phra Chao Chang Pheuak – Senhor do Elefante Branco.
IX
Belo rosto coração de tigre
(Sião)
De cada ninho o macho
Voa para competir,
Buscar comida para a companheira,
velozmente mergulhando e voltejando.
O príncipe viu estas aves.
Sentiu-se só, sofreu com constância,
Mas teve saudade da doce esposa
Quando a solidão se insinuou.
Cada espécie de árvore
Cresceu na vasta floresta.
Disperso o pólen, libertando
celestes, deleitosos perfumes,
Flores desabrocham em grinaldas
Cachos e ramos.
(Dos Contos do Príncipe Sammutakote200)
O leito do canal Pla Mo parece refluir de susto à passagem dos dragões, serpentes, cavalos e outras míticas criaturas de pescoços empinados, fauces escancaradas, com dentes acerados e línguas pendentes de predadores. Nas últimas horas da segunda noite do crescente, emergem das sombras como uma horda de monstros farejando as presas na caçada.
Os cânticos marcam o ritmo dos remos e as chusmas das laulees dos cortesãos e servidores de Khun Worawongsa, esforçam-se por acompanhar as remadoras da barca real, que segue na frente, refulgindo nas chamas trémulas dos archotes e lanternas, ostentando orgulhosamente os estandartes e símbolos da antiga dinastia Uthong, de novo no poder.
No coberto do barco, que se assemelha a um templo ou palacete de madeiras finamente trabalhadas em graciosos minaretes com agulhas douradas, a rainha Sri Suda Chan, descendente dos primeiros reis de Ayuthya, reclinada no seu leito, sente uma opressão no peito, como um mau presságio que não a deixa saborear o momento da vitória e da sua consagração. Nem a presença do rei, seu marido, que joga com o pequeno Sri Sin, nem a filha que esbraceja no colo da ama ou os mexericos e gracejos das suas aias logram dissipar as nuvens sombrias que parecem adensar-se com o raiar da manhã. A imagem do abutre a voar em círculos sobre o palácio não a deixa sossegar.
Já vai a meio o nono mês do ano do Macaco, de mil quinhentos e quarenta e oito, um ano sumamente auspicioso que lhe propiciara a tessitura sem falhas de todos os desígnios, enredos e jogadas perigosas que concebera, permitindo-lhe a consumação das suas ambições do poder e do amor com que sempre sonhara. Assim lho profetizara a bisavó, a mais velha descendente dos Uthong, que vivia encerrada no seu paço, com a lepra a corroer-lhe o corpo e a fazer-lhe mais clarividente o dom da visão.
– Boon Sri é, como tu, do sangue real dos Uthong – dissera-lhe na sua voz enrouquecida de feiticeira – e ambos deviam estar no trono. Mas ele ocupa um miserável posto de curador de ritos e de pagodes e tu, em vez do título de rainha que te é devido, és apenas uma das quatro concubinas principais. Deste modo, os usurpadores Suphannaphum humilham os herdeiros da estirpe dos primeiros reis, quando devia ser um filho vosso a herdar o reino e a restaurar a nossa dinastia.
As palavras da velha princesa foram a chispa que lhe ateara a paixão desmedida por Boon Sri e a levara ao adultério, sem se importar com o risco que corria. Por ele jogara um jogo perigoso em que apostara tudo, incluindo a própria vida, e ganhara. O humilde brâmane curador do pátio exterior dos pagodes, que soubera enfeitiçá-la com a sua beleza e voz admirável, é agora Khun Worawongsa, o novo rei dos reis do Sião, coroado havia quarenta e dois dias, depois de removido o último obstáculo do seu caminho, o rei Yot Fa, o filho que concebera de Chai Raja.
Rodeara-se de parasitas dependentes dos seus favores, a fim de lhe conseguir primeiro a regência e logo a coroação, mas sabe que o trono ainda não está seguro. Embora se tivessem desembaraçado de quase toda a oposição, há muitas famílias nobres das outras três dinastias que a odeiam, acusando-a das mortes de Chai Raja e de Yot Fa, conspirando para a sua perda, chefiados pela ardilosa princesa Suriyothay, da dinastia Sukhothai.
Se esta caçada fosse bem sucedida e Boon Sri tomasse com as suas próprias mãos o divino elefante, símbolo do poder real, conquistaria o título de Senhor do Elefante Branco e com ele a confiança e devoção do povo. Por isso, concordara com a expedição às florestas de Lopburi, apesar dos maus pressentimentos, sobretudo, por esse convite ter partido do príncipe do Camboja, o filho adoptivo de Chai Raja e seu aliado.
O ano do Galo que se avizinha, segundo lhe vaticinara a bisavó, será propício à consolidação dos seus negócios e alianças, contudo não pode descurar os inimigos. Se Boon Sri caçar a sua presa, ela tratará de se desembaraçar sem demora da perigosa Suriyothay que não se poupa a esforços para os derrubar e pôr no trono o seu marido, Phra Thien, o meio irmão de Chai Raja. Ele é o espinho das suas vidas, a sua maior ameaça, apesar de se ter refugiado num templo, fazendo-se monge para escapar à prisão e morte por conspiração no assassínio do rei, de que ela o acusara.
Para seu maior desassossego, os espias tinham-na informado de que Suriyothay recebera a visita do seu parente Khun Phiren, descendente dos reis Sukhothai e comandante do poderoso exército do norte. Faziam parte das crónicas secretas da corte de Ayuthya os seus amores de juventude, contrariados pela família, que forçara Suriyothay a casar com o príncipe Thien. Aquele encontro secreto era a prova de que a sua adversária conspirava contra eles e convocara um poderosíssimo aliado.
A lembrança dos rivais crispa-lhe o rosto de ódio e a sua fiel Prik, a extensão armada do seu braço, sobressalta-se com o fogo negro dos seus olhos. Olhos de serpente, em cujo ano nascera e cujo espírito encarnara, com um fascínio a que nenhum homem, velho ou moço, sábio ou néscio, podia ou desejava resistir. Um poder que, apesar da sua juventude, a fizera sobrepujar-se às quinhentas mulheres do harém real, ascender do anonimato à posição de concubina de primeira ordem e daí a consorte-não-real de Chai Raja, lugar que lhe abrira as portas do poder e de alguma liberdade que ela soubera aproveitar com mestria.
No ano da Cabra, de mil quinhentos e trinta e cinco, a rainha Jitravadee morrera a dar à luz, abrindo o caminho para a sua ascensão ao lugar de consorte favorita. Graças à sua natureza voluptuosa e sabedoria nas artes de sedução (reforçadas pelo nascimento dos filhos Yot Fa e Sri Sin, concebidos por frio cálculo), conseguira grande ascendente sobre o rei e consolidara o seu poder, o que a fazia ser temida, se não respeitada por todos os clãs das três dinastias rivais: Suphannaphum, Sukhothai e Prasat Thong.
Chamara para o seu serviço no palácio apenas gente da casta Uthong, parentes ou aliados, começando pelas mulheres – a governante Prik que daria a vida por ela, as aias, as açafatas, as guerreiras da sua guarda pessoal e das suas casas, as portadoras dos seus palanquins e as remadoras do seu laulee, as servas e escravas – e, aos poucos, fora substituindo por amigos fiéis alguns oficiais e servidores antigos que se demitiam dos seus postos ou morriam inesperadamente.
A sua paixão por Boon Sri fora obra do destino e estava escrita nos céus. Acontecera no ano da Serpente, de mil quinhentos e quarenta e cinco, o signo propício aos amores proibidos, aos escândalos mais danosos e aos negócios escuros, assim como fonte de tumultos, sedições e revoltas que quase sempre levavam a golpes de estado. Durante uma das suas visitas à bisavó, ao atravessarem o pátio exterior das estátuas de Buda, vira um jovem brâmane a oficiar os ritos, escutara a magia do seu canto e o seu coração abrira-se como uma flor tocada pelo sol.
Soubera pela Princesa Velha que ele pertencia à estirpe dos reis Uthong e fora desapossado dos direitos e posição que eram seus por nascimento. De regresso ao palácio, ainda turvada de emoção, jurara diante dos seus pagodes restituir Boon Sri à sua nobre condição. Por sugestão sua, Chai Raja quisera ouvi-lo cantar e ele surgira com todo o fulgor da sua juventude, o corpo escultural quase nu, com a tanga branca de brâmane a cingir-lhe os rins e o sexo, o longo cabelo brilhante e negro como a asa de um corvo a emoldurar o rosto de uma beleza comovente.
Cantara para ela, não para el-rei, ousando olhá-la com os seus olhos de um negro aveludado, apanágio dos homens do seu clã. O cântico sagrado, em vez de lhe apaziguar a alma, incandescera-lhe o corpo insatisfeito, esse corpo que Chai Raja tomava ao capricho da sua vontade, exigindo ser servido sem servir, satisfazendo-se sem a comprazer, retirando-se saciado e deixando-a faminta. A sua condição de concubina real, embora favorita, era a de uma mulher malograda, defraudada dos seus sonhos de amor e de prazer no leito de um homem que não desejava, confinada desde a mais tenra juventude ao harém do palácio, um gineceu a fervilhar de intrigas, invejas e ódios.
Deixavam-na indiferente os sete guizos de ouro que Chai Raja ostentava orgulhosamente no seu membro, como prova da sua virilidade, tendo de recorrer à sua perícia na arte de bem fingir e a todos os artifícios e invenções em que a sua imaginação era fértil, para que o seu corpo se movesse com cadência, ardor e ritmo, segundo os acordes do instrumento de amor de Sua Alteza, para que a desejasse cada vez mais e a procurasse sempre. Escondendo o asco e a rebeldia no prazer simulado dos suspiros e gemidos, na boca sôfrega que não saboreia a doçura da língua, na vagina que se cerra não de gozo mas de raiva, no abandono do corpo que grita insatisfeito.
O amor de Boon Sri fora uma revelação que a levara ao êxtase, a descoberta de um misterioso jardim de delícias até então vedado, embora pressentido em cada gota do seu sangue e desejado por cada partícula do seu corpo. Fogo ateado em incêndio pelo desafio do interdito, o perigo da denúncia, o risco da mutilação e morte infamantes. Almas e corpos executando em perfeita sintonia a dança do amor, pura harmonia de sons nos cascavéis de prata, maviosos de ternura, vibrantes de paixão, leve tinido em tom de suspiro na modorra do repouso, para logo se reacender num crescendo de fanfarra gloriosa até à explosão de todos os sentidos.
No ano da Serpente do ciclo anterior, mil quinhentos e trinta e três, Chai Raja soubera aproveitar-se dos distúrbios das províncias do norte causados pela morte de Boromma Raja e a fraca regência da rainha, para chefiar uma rebelião e apoderar-se do trono pela força, matando o sobrinho.
Doze anos volvidos, cumpria-se o ciclo dos astros e o ominoso signo da Serpente chegara de novo com tumultos nas terras do norte, forçando o rei a partir mais uma vez para Chiang Mai com todos os homens capazes de pegar numa arma, além da sua temível guarda pessoal de portugueses, deixando o reino entregue às mulheres. Nas veias de Sri Suda Chan corria o sangue espesso de reis ambiciosos e, mau grado a sua condição, ansiava pela restauração do poder dos Uthong de que era herdeira. Uma aspiração exacerbada pelo receio de vir a ser preterida por outra favorita, mal Chai Raja se fartasse dela, um destino que se adivinhava próximo. A ausência do rei dera-lhe grande liberdade de acção, fornecendo-lhe ao mesmo tempo pretexto e ocasião para pôr em prática os seus planos.
Fizera transferir Boon Sri para as capelas interiores do palácio, com o título de Khun Jinarat, o venerável cargo de curador das imagens douradas de Buda, em substituição do anterior oficiante que aparecera morto no rio, assassinado por salteadores. Por fim, pudera entregar-se sem peias ao amor que a enfeitiçara como um filtro mágico e a fazia escrava do amante, a ponto de estar disposta a todas as loucuras e crimes para não o perder. Fora então que o destino ditara mais uma vez o curso da sua vida.
Estremece, arrancada às suas recordações por algo exterior e olha em volta, sentindo-se perdida. À entrada do canal Sa Bua, o nevoeiro envolvera tudo numa espécie de fumo espesso que mal permitia ver a um palmo de distância e penetrara até no coberto; na barca, que apenas desliza, reina um silêncio quase absoluto para a timoneira e as remadoras não se distraírem, evitando os obstáculos e o desastre.
Foi o inesperado silêncio que a despertou. Não sabe a razão deste reviver da sua vida passada, senão o peso no peito que parece esmagá-la e de que gostaria de se livrar gritando. Sente-se vulnerável fora do palácio, desprotegida, porém, fugir seria mostrar fraqueza ante o inimigo. Conta com a protecção do cunhado Nai Chan, o Segundo Rei, que virá do lado dos currais, pelo canal, ao encontro da barca real e já não deve tardar a aparecer. O irmão de Boon tinha sido uma peça fundamental para o êxito da sua tomada do poder.
Nesse ano de quarenta e cinco, quando Chai Raja, ausente quatro meses em campanha, regressara ferido a Ayuthya, ela descobrira com desespero a sua prenhez, fruto do adultério. Quando fores ao bosque não te esqueças da catana, dizia o povo. Desafiara tabus, correra riscos e agora, face ao perigo, só lhe restava atacar para se defender, vencer ou morrer. Era tempo de agir, não havia que hesitar.
Boon Sri empalidecera de terror ao saber da sua prenhez, mas ela tranquilizara-o, assegurando-lhe que apenas a sua fiel Prik conhecia o segredo, porque o velho médico que a examinara, ao sair do palácio, por a noite ser muito escura, caíra no canal e afogara-se. Contudo, Chai Raja teria de morrer, antes que a deformação do seu corpo lhe revelasse a gravidez. Se os céus lhes fossem propícios, talvez o ferimento de guerra fosse fatal e o rei morresse em glória, deixando-os livres para lidar com um rei-menino, o seu filho Yot Fa, que lhe obedecia em tudo. De contrário, teriam de forçar a mão ao destino e ela se encarregaria de o fazer.
Chai Raja vinha ainda combalido, mas livre de perigo, graças aos cuidados do médico e astrólogo português que o acompanhava sempre e em quem confiava mais do que nos físicos da sua própria terra. Tivera forças para desfilar no cortejo do Elefante Branco, que celebrara o seu triunfo, porém, quando recolhera ao palácio, sentira-se cansado demais para comer e pedira uma taça de leite. Fora o momento esperado para agir e Prik aproveitara-se da agitação e confusão que a festa trouxera ao palácio, para enganar o provador da comida, trocando a sua taça por outra embebida na peçonha que recebera das mãos da sua bisavó.
O rei tardara cinco dias a morrer, em grande agonia, já no início do ano do Cavalo, de mil quinhentos e quarenta e seis, tempo que empregara a pôr em ordem os negócios do reino para a coroação do filho, concedendo-lhe também o que ela sempre desejara: o título de rainha e regente, até Yot Fa ter idade para assumir o governo do reino. O tremor de terra, que abalara o palácio durante a cerimónia e quase matara o novo rei, em vez de a assustar, fortalecera-lhe a esperança e a ambição, tomando-o como uma premonição do fim da dinastia Suphannabumi. Apenas lhe ensombrara a alegria do triunfo ver a guarda do filho ser entregue, por decreto real, ao seu inimigo Phra Thien, o Príncipe Coroado, ou Segundo Rei.
Uma ameaça de que ela se livrara, mal o rei morrera. As criadas que ela mandara prender sob a acusação de terem envenenado o rei, confessaram sob tortura que o mandante do seu crime fora Phra Thien que conspirava para se apoderar do trono. Equivalia a uma condenação à morte do rival, contudo não fora assaz rápida no seu ataque e o espertalhão refugiara-se no templo, onde ela não lhe podia tocar. E também não era o momento azado de destruir Suriyothai, porque poria em pé de guerra os clãs Sukhothai.
Primeiro tinha de fortalecer a sua posição e, para isso, precisava de um corpo de guarda fiel, que exigira ao conselho dos ministros – um bando de fantoches que ela manobrava a seu bel-prazer –, com a desculpa da protecção de Yot Fa. Encarregara Boon Sri de criar um pequeno exército de cinco mil guerreiros fiéis para os ajudarem a tomar o trono de Ayuthya e a restaurar a dinastia Uthong. Com esta força a protegê-la, destruíra todos os seus adversários, cortando a cabeça aos chefes das principais famílias e destituindo outros dos seus cargos, confiscando-lhes as terras e os bens, que oferecia aos seus partidários. Deste modo, eliminara toda a oposição ao seu casamento com o amante, após o nascimento da filha ou quando o fizera regente do filho, em seu lugar, com o alto título de Khun.
Governaram, durante dois anos, sem grandes sobressaltos, até Yot Fa chegar à idade de treze anos e começar a fugir à sua autoridade, questionando-a, representando uma ameaça maior que tivera de ser removida. Fora a decisão mais terrível que tomara em toda a sua vida, todavia, a sobrevivência da dinastia Uthong obrigava a todos os sacrifícios. Desembaraçara-se de Chai Raja sem pena nem remorso, o regicídio fora, em todos os tempos e em todas as dinastias, o meio mais célere e comum para a tomada do poder, ele também o fizera ao sobrinho Ratsada. Yot Fa, porém, era seu filho e ela amava-o. Pedira à bisavó uma peçonha que o fizesse partir sem dor, como de uma febre própria das crianças e chorara-o com paixão, fazia agora quarenta e cinco dias, pranteava-o ainda em segredo no seu coração.
Os gritos de aviso e o som dos remos levantados em simultâneo libertam-na de novo do seu mundo de sombras e abismos, trazendo-a à superfície da luz que, nesse dia, parece quase tão baça e cinzenta como a sua alma. A barca real desliza pelo canal com um murmúrio roçagante de seda, apenas cortado de quando em quando pelos sons da floresta – grito de ave, guincho de macaco, barrito de elefante –, quase assustadores no meio do denso nevoeiro que os envolve como véus esfiapados de algodão. O marido sai do coberto e ela segue-o, levando o filho pela mão. Como uma cortina que se arreda, a névoa permite ver, mais abaixo no rio, as sombras de três laulees com homens armados.
– Quem vem lá? – brada de novo a capitã da sua guarda de corpo. – Quem sois?
– Quem ousa impedir-me a passagem? – pergunta Khun Worawongsa, com altivez.
– Eu, Khun Phiren! – replica o guerreiro, de pé no barco, de espada desembainhada. – Não esperes socorro do teu irmão, Nai Chan morreu. E tu vais morrer também!
– Traição! – grita o usurpador. – Sinalai à guarda!
Acercam-se da barca real, prontos para a abordagem, ao mesmo tempo que os barcos da comitiva e da guarda do rei a alcançam.
– Remai para a margem – ordena Sri Suda Chan às remadoras, com voz segura. – Protegei o rei!
Os barcos de socorro avançam, metendo-se entre a barca real e a frota dos conspiradores, disparando sobre eles os arcos e os mosquetes. As remadoras da rainha, exímias na sua arte, dão asas à embarcação que depressa atinge a margem. Ao desembarcar, apesar do nevoeiro, vêem avançar no seu encalço, do lado oposto do rio, duas novas embarcações.
– A minha aldeia fica perto – diz Prik. – Lá achareis abrigo e podereis pedir reforços.
– Salvai-vos – diz a capitã – que nós lhes impediremos o desembarque e a perseguição, enquanto houver vida nos nossos corpos.
Guiados pela fiel Prik e protegidos por um pequeno corpo de guardas, Boon Sri, Sri Suda Chan com o filho agarrado à sua mão e a ama com a princesinha ao colo embrenham-se na selva. Emboscados, os mercenários portugueses da companhia de Khun Phiren esperam por aqueles que logrem escapar aos barcos, com ordens de não perdoarem a vida a ninguém – homem, mulher ou criança –, excepto ao príncipe Sri Sin que, por ser do sangue real de Chai Raja, será entregue aos cuidados de Khun Thien.
Uma única descarga de mosquetes basta para pôr fim à vida dos fugitivos, selando para sempre a extinção da dinastia Uthong e Sri Suda Chan morre, amaldiçoando Thien e Suriyothay.
Com a morte da pérfida consorte, a sua narradora terminaria com chave de ouro a sua história e o capítulo, seguindo no rasto de Fernão Mendes Pinto para outras terras ou outros mares.
Todavia hesita e não se decide a sair do Sião, abandonando o seu leitor a contas com os fios ainda por atar desta meada de intrigas e a perguntar-se, sentindo-se logrado: Que sucedeu a Phiren, Thien e Suriyothay? E Tabinshwethi, o Tigre Adormecido, terá desistido da sua cobiçada Ayuthya?.
Falta à narradora coragem para o deixar sozinho em tal aperto, preferindo pecar por excesso do que por penúria. Retomará, então, no próximo capítulo as pontas soltas de tantas vidas cruzadas, segundo o conselho do primeiro narrador destas histórias, que avisava os seus leitores: E deixando também à parte tudo o que mais sucedeu neste reino Siame, direi somente o em que pararam estas cousas todas, que aos curiosos cuido que não deixará de dar gosto.
200 Poema épico siamês, tradução livre do inglês pela autora.
X
Confundir lâminas com lótus
(Sião)
Vede fazer amor a três
o que superiormente reinou:
braços apresando a carne, o corpo tenso
para estreitar e admirar,
desejar, gozar, entreabrir os lábios
para saborear mil gostos
de celestial hidromel
– como um só par, assim
em ardente e bravio abraço.
(Excerto de um poema épico thai, anónimo)
Os corpos do brâmane Boon Sri, da concubina Sri Suda Chan e da filha da sua traição foram decapitados, empalados e abandonados na floresta para repasto das feras. As três cabeças foram levadas para a corte, espetadas em estacas e exibidas ao povo como troféus. Os olhos de Sri Suda Chan, que outrora enfeitiçavam os homens, olharam sem ver o espectáculo que em vida tanto temera – o cortejo triunfal da coroação do príncipe Thien e de Suriyothay, a sua odiada rival.
Como prémio da sua acção na conjura, Khun Phiren foi nomeado Segundo Rei e recebeu por esposa a princesa Sawatdirat, que por estranha coincidência era a viva imagem da rainha sua mãe, aos quinze anos de idade, e, tal como ela, se rendera à coragem e nobreza viril do comandante.
Todavia, fosse por razões históricas, graças a mero acaso ou por força da maldição da concubina, Suriyothay não viveu muito tempo para gozar o fruto das suas próprias intrigas e jogos de poder. Nesse mesmo ano do Galo, de mil quinhentos e quarenta e nove, Tabinshwethi, sempre de olho cobiçoso na nação vizinha, aproveitou-se das suas lutas para a invadir, cercando Ayuthya com trezentos mil homens, três mil cavaleiros estrangeiros e setecentos elefantes.
Na batalha decisiva pela salvação da cidade e do reino, a vitória inclinava-se para o rei de Bramaa, graças a uma força de mais de mil portugueses, comandados por Diogo Soares de Albergaria, o Galego, e a um monstruoso basilisco, a maior peça de artilharia jamais vista naqueles reinos. Suriyothay e a sua filha mais velha, sentindo a derrota iminente, armaram-se com o elmo, a couraça e a alabarda dos príncipes e saíram a campo, com todas as mulheres da sua casa que sabiam lutar, em socorro dos seus homens. Montadas em elefantes de guerra, avançaram para o local onde a batalha era mais acesa e o rei Thien, coberto de sangue e quase sem forças, lutava contra o senhor de Prome, aliado de Tabinshwethi.
O elefante de Thien tombou mortalmente ferido, arrastando-o na queda e Suriyothay viu como o adversário carregava sobre ele para lhe dar o golpe de misericórdia. Sem hesitar, fez o seu elefante avançar e atacou o general inimigo, que julgou ter diante de si um Uparat, o Príncipe Coroado ou Segundo Rei, que devia ser muito jovem porque lutava com denodo e coragem, mas sem experiência de combate. O senhor de Prome ripostou com ímpeto, ansioso por reclamar a sua morte e não lhe foi difícil apanhá-lo com um golpe traiçoeiro de alabarda que o cortou do pescoço até ao peito.
Quase ao mesmo tempo, uma lança atravessou o coração da princesa, que acorrera em socorro da mãe e ambas tombaram em simultâneo dos dorsos dos seus elefantes. Por fim, liberto do animal morto, Thien lançou-se com um grito de paixão sobre o agressor e cravou-lhe a lança na garganta.
A morte de Suriyothay e da princesa inspirou tamanho desejo de vingança nos siames que se lançaram com fúria cega sobre os bramaas e pegus, rechaçando-nos com pesadíssimas baixas. Tabinshwethi, temendo os reforços de Khun Phiren, levantou o cerco, trocando uma retirada segura e dois elefantes sagrados, pelo filho mais velho e o genro de Thien que tomara como reféns.
Não demorou muito a satisfação do tirano bramaa pela posse dos elefantes brancos, porque ninguém nas suas hostes sabia dominar e conduzir as divinas alimárias, de modo que a confusão e os danos causados ao exército em retirada foram mais nefastos do que os sofridos às mãos dos seus adversários. Tabinshwethi não teve outro remédio senão devolver os elefantes e voltar para a sua terra de mãos a abanar.
A Divina Providência ou a persecutória Fortuna pusera mais uma vez Fernão Mendes Pinto no centro da guerra, no Sião. Ali fora de passagem para comprar mercadorias e afinal mercara sarilhos, sendo de novo arrolado nas forças portuguesas de Domingos de Seixas, durante os quatro meses que durou o cerco. O valoroso capitão do Ban Portuguet, o campo português de Ayuthya, nunca recebeu o reconhecimento d’el-rei de Portugal pelos muitos serviços prestados, vindo a morrer como um indigente no hospital dos Pobres em Lisboa.
Por ambos se soube dos sucessos destes conturbados anos e como o destino de Tabinshwethi continuou ligado aos feringhis portugueses, para bem e para mal de seus pecados.
Depois das campanhas do Sião, tendo anexado e unificado os reinos da Birmânia, aos trinta e cinco anos de idade, o tirano estabeleceu com grande fausto a sua corte em Pegu. Mantinha a hoste de guerreiros portugueses, pagos com muito ouro, cujo comandante Diogo Soares, o Galego, era um dos mais poderosos senhores do reino.
Um sobrinho de Soares, tão aventureiro e desprovido de escrúpulos como o tio, homiziou-se e veio pedir-lhe protecção. Fora enviado de Malaca por capitão de uma frota de sete navios, numa expedição punitiva contra o sultão de Achem, porém, tendo sofrido pesada derrota, Álvaro Soares fugira com trezentos homens nos juncos que escaparam aos inimigos e, para não prestar contas do desaire ao capitão da fortaleza, refugiara-se em Martavão, cujo senhor em vez de o acolher no seu exército o mandara sob prisão para a corte de Pegu, onde o tio lhe conseguiu sem custo a libertação e o favor de Tabinshwethi.
Mancebo de muito bom corpo, belo rosto e agradáveis modos, para mais bom cavaleiro e melhor caçador, não tardou a conquistar as boas graças do tirano, adestrando-o na caça com as suas novas armas de fogo, tornando-se no seu favorito e companheiro em todos os prazeres e desenfadamentos. Para mais o favorecer, Tabinshwethi casou-o com uma formosa açafata da casa real e, em retorno, Álvaro ensinava a esposa a cozinhar comidas portuguesas para Sua Alteza degustar e fazia-lhe vinho de uvas e aguardente de frutos com mel, que ele desconhecia e o deliciavam.
O português era presença indispensável junto do trono, para lhe servir os vinhos, que ele bebia sem cessar. Tabinshwethi deixou de atender aos negócios do reino, para viver num estado de permanente embriaguez e grande devassidão, interessado somente em satisfazer a sua luxúria, exacerbada pelo vinho, a que não escapavam as mulheres e filhas dos seus vassalos. Eram famosas as suas orgias com gente licenciosa como Diogo Soares, que não hesitara em raptar uma formosa noiva gentia no dia do seu casamento, matando-lhe o esposo e os parentes que a defendiam, para cevar os seus instintos; a moça enforcara-se para não ser desonrada pelo algoz e a sua história causara grande indignação no reino.
Atento à onda de descontentamento do povo e dos nobres, Bayin-naung decidiu intervir.
– Abusas das mulheres e filhas dos teus vassalos, a tua conduta é imprópria de um rei! – censurou-o num tom severo, embora respeitoso, para não incorrer na sua ira. – Dás ouvidos a intriguistas e aduladores, premiando os falsos e enviando para a morte homens inocentes que te são leais.
Tabinshwethi retorquiu-lhe, com um riso de ébrio:
– Amo a bebida, meu irmão, estou cansado de governar e de combater. Deixa-me fruir os meus prazeres e não me importunes mais com petições. A partir de agora cuidarás por mim dos negócios do reino.
Deixou de aparecer em público, recusando-se até a atender aos alardos do seu exército, tarefa que outrora o enchia de alegria e orgulho. Bayin-naung, que ele designara por herdeiro, governava em seu lugar e, se ele mandava executar gente inocente, ouvia os queixosos e não cumpria as suas ordens. Os principais senhores bramaas, shans e talaings vinham sondá-lo, rogando-lhe que tomasse o trono e exercesse de pleno direito aquilo que fazia por generosidade e justiça, ao contrário d’el-rei que tinha perdido o tino sob o poder do seu valido português.
Bayin-naung, que era leal ao cunhado e o amava como a um irmão mais novo, temendo que os sawbwas conspirassem contra ele e o fizessem assassinar, escolheu para sua protecção uma guarda dos seus melhores oficiais, ao mesmo tempo que procurava apaziguar os ministros:
– Irmãos, devemos lealdade e gratidão a el-rei. Não falemos mais de semelhante assunto, nem o digais a outrem que é traição! Compete-nos aconselhar Sua Majestade e servi-lo bem. Tabinshwethi pode ter cometido alguma falta numa vida anterior, por isso, a sua mente está enferma e ele delira – olhou-os com expressão tranquila e concluiu sorrindo –, mas o reino não há-de perecer, se nós nos mantivermos vigilantes e o defendermos. Voltai sossegados para os vossos feudos.
Alarmado com os primeiros fogos de revolta, o regente tomou providências com rapidez e em segredo, para que o cunhado não pudesse impedi-lo, pagando ao favorito português uma grossa quantia em ouro, acompanhada de uma velada ameaça se não fosse obedecido, e expulsou-o do reino. Contudo, a embriaguez de Tabinshwethi e o seu desatino agravaram-se a tal ponto que o cunhado determinou afastá-lo da corte, para melhor o proteger, aposentando-o com grande estado num palácio, com um belo bosque onde poderia caçar, nos domínios do sawbwa de Sittaung, a cuja protecção o entregou.
Mau grado os seus esforços, não conseguiu estancar os ódios e as conspirações. Os talaings revoltaram-se, por serem forçados a servir durante anos nas intermináveis guerras de Tabinshwethi, conjurando para pôr no trono um nobre monge que foram buscar ao seu mosteiro para chefiar o levantamento. Bayin-naung acudiu a dominar a revolta, sendo a sua ausência aproveitada pelo sawbwa de Sittaung (que pertencia ao mesmo clã dos revoltosos e, farto da tirania e dos desmandos do rei bêbado, se deixara aliciar pelos conspiradores) para perpetrar o regicídio.
Conhecendo o quanto Tabinshwethi sempre desejara possuir um elefante branco, chegando mesmo a provocar uma guerra para conquistar esse símbolo do poder real, anunciou-lhe que uma dessas maravilhosas alimárias fora vista no mais cerrado do bosque. Tal como esperava, o rei preparou-se para a caçada com uma emoção e alvoroço como há muito não sentia e partiu para o bosque, sem se aperceber de que os seus guardas fiéis não iam com ele, afastados pelo sawbwa. Escondidos no bosque esperavam-no os conspiradores talaings que lhe cortaram a cabeça, depois de matarem os criados bramaas, leais a Bayinnaung, que o defendiam.
Sem a protecção de Tabinshwethi, também o poderoso Diogo Soares, o Galego, foi justiçado pela populaça que o apedrejou e desfez em pedaços, acorrendo ao apelo de justiça de um pai a quem ele raptara a filha no dia do casamento, causando a sua morte.
Acompanhámos Fernão Mendes Pinto durante a primeira década da sua peregrinação de vinte anos pelo Oriente, aquela em que mais viagens fez, mais países visitou, mais desastres sofreu, mais fortunas ganhou e perdeu e mais personagens encarnou – espião, embaixador, médico, corsário, mercador, contrabandista e guerreiro mercenário –, que ele narra nos primeiros duzentos capítulos da sua obra.
Apartamo-nos dele aqui, porque esta nossa narrativa já vai longa – sendo o tempo tão curto e a vida tão breve – tanto mais que nos vinte e seis capítulos restantes Fernão vai cantar, não as suas façanhas mas as do padre Francisco Xavier de quem se fez amigo.
Após a morte do fundador da Companhia de Jesus, Fernão Mendes Pinto sentiu uma profunda exaltação religiosa e decidiu abandonar as ambições e prazeres mundanos para se consagrar a Deus. Entrou para a ordem como noviço, despojando-se de todos os seus bens, libertando os seus escravos e doando aos jesuítas a avultada fortuna que finalmente conquistara.
Passado um ano de noviciado, todavia, na sua quarta viagem ao Japão como embaixador ao serviço da Coroa e do padre Mestre Belchior Nunes Barreto, curou-se da crise de misticismo e saiu da Companhia de Jesus, regressando pouco depois ao reino, no ano de mil quinhentos e cinquenta e oito, para casar, criar família e escrever a sua Peregrinação que, no entanto, não foi publicada em sua vida.
Agradecimentos
Em primeiro lugar, gostaria de expressar a minha profunda gratidão às centenas de autores portugueses e estrangeiros que, embora desaparecidos há séculos, foram os meus Mestres, a quem rendo homenagem com os excertos das suas obras inseridos no início de cada capítulo, para que os leitores os possam recordar ou conhecer, pois eles são os gigantes que nos erguem generosamente nos braços, permitindo-nos ver mais alto e mais longe.
Agradeço também aos estudiosos contemporâneos, de várias áreas, cujas obras li, para alargar a perspectiva dada pelos autores coevos de Fernão Mendes Pinto, esclarecer dúvidas ou mesmo corrigir os erros, nomeadamente, aos Professores Rui Manuel Loureiro, por me ter disponibilizado o texto de Jorge Álvares na pesquisa sobre o Japão e Sérgio Capparelli (Brasil), pelos poemas chineses traduzidos que recolhi do seu blogue. Sem esquecer Eduardo Ribeiro (Macau) e Alan Pereira, pelo envio de artigos e sugestões de leituras para alguns dos temas do romance, assim como Eugénio Conceição (Brasil) e Jorge Manuel Gonçalves que leram os rascunhos deste livro e contribuíram com as suas sugestões.
Um enorme agradecimento à competentíssima equipa da Casa das Letras, pelo excelente trabalho de dar às minhas palavras um corpo de textura agradável ao tacto e roupagem atraente para os olhos, com particular referência a Maria João Lourenço pelo seu apoio e amizade. E ao Director Editorial da Leya, João Amaral, por ter acreditado neste romance, quando ainda se achava em construção. A editora Marta Ramires terá para sempre a minha imensa gratidão, pelo muito tempo e trabalho que dedicou a este livro, pelo empenhamento, disponibilidade e paciência com que acolheu as minhas intermináveis correcções e constantes alterações, ajudando-me a melhorá-lo.
Por fim, quero agradecer a Ana Maria Pereira Gonçalves a sua ajuda e a João Pires Ribeiro, o meu marido e primeiro leitor desta obra, pelo companheirismo e espaço que me dá para escrever, assim como pela paciência com que, diariamente e durante anos, me tem ouvido contar as histórias sem fim da saga portuguesa dos Descobrimentos, ajudando-me a escolher as melhores para o Leitor poder agora provar o gosto da canela, do cravo e da pimenta, navegando comigo, numa viagem intemporal pelas perigosas derrotas dos sete mares em busca da Ilha do Ouro e da Terra Incógnita do Oriente.
Deana Barroqueiro
http://deanabarroqueiro.blogspot.com
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