Diante do juiz, sobre uma mesa de prata, está um pequeno escritório redondo contendo um tinteiro e pó para secar a tinta. Ao redor da mesa, sentam-se três meninos, com ricos trajos e cadeias de ouro ao pescoço: os dos lados recebem as petições, o do meio molha a pena na tinta e dá-a ao chaem para ele as assinar. Em baixo, a cada extremo da tribuna, há uma mesa coberta de damasco roxo, com doze lugares, onde se sentam os mandarins do Crime e os do Cível.

– As suas vestes brancas com mangas largas mostram a pureza e largueza da justiça – elucida-os o tanigor.

O conchaly do Cível dá quatro pancadas rápidas num sino, para silenciar a assistência, faz a sua cortesia ao chaem e brada em alta voz:

– Calar e ouvir com prontidão humilde, sob pena do castigo que os chaens determinam dar aos desinquietadores do silêncio da justiça. O Céu o sabe.

Senta-se e o silêncio faz-se mais pesado quando o conchaly do Crime sobe à tribuna e lê vários rolos de processos que os oficiais lhe entregam, gastando na leitura muitas voltas de ampulheta até chegar à publicação da sentença dos estrangeiros.

Obedecendo às instruções do tanigor e dos upos, os nove réus ajoelham-se, sentando-se sobre os calcanhares, com as cabeças inclinadas a tocarem o chão e ambas as mãos erguidas ao céu como quem reza. Oram de verdade, sentindo um suor de gelo a arrepiar-lhes as carnes e a morte na alma, porque a do corpo é já certa e não tardará a ser-lhes anunciada.

No pátio das execuções esperam-nos os Vinte e Quatro Ministros do Braço da Ira para executarem a sentença e eles morrerão longe da pátria, sem ninguém para lhes recordar o nome, reclamar os seus corpos, chorá-los ou dar-lhes sepultura cristã. Deus abandonou-os, anojado pela sua impiedade de ladrões do mar e eles vão acabar as suas vidas na terra dos chins como párias, sem nome nem lei.

Para Fernão, de todas as iniquidades que haviam cometido, o rapto da doce Huyen, dois anos antes, fora a mais cruel, merecedora do maior castigo. Por essa torpeza pede agora perdão a Deus, de pálpebras cerradas e alma iluminada pela imagem da donzela de pele de seda e olhos amendoados que o enche de saudoso desejo, a ponto de o fazer esquecer onde está para volver à baía de Tilaumera, na terra dos cauchins, ao instante em que no junco de António Faria, ainda antes de a ver, se enamorara da formosa moça ao ler as palavras ardentes de paixão que ela escrevera numa carta ao noivo.

VII

Melhor é acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão

(chinês)

Carta da Noiva Roubada:

Se a fraca e mulheril natureza me dera licença para daqui onde fico ir ver a tua face, sem com isso pôr nódoa no meu honesto viver, crê que assi voaria meu corpo, a ir beijar esses teus vagarosos pés, como o esfaimado açor no primeiro ímpeto da sua soltura; mas já, senhor meu, que eu de casa de meu pai até aqui te vim buscar, vem tu daí donde estás a esta embarcação onde eu já não estou, porque só em te ver me posso eu ver, mas com me não veres na escuridão desta noite, não sei se na brancura da manhã me poderás enxergar entre os vivos; meu tio Licorpinau te dirá o que meu coração em si cala, assi porque já não tenho boca para falar, como porque minha alma me não sofre estar tão órfã de tua vista quanto a tua estéril condição o consente, pelo qual te peço que venhas, ou me dês licença que vá, e não me negues este amor que te mereço pelo que sempre te tive, porque Deus por sua justiça, em castigo de tal ingratidão, te não tire o muito que herdaste de teus antigos parentes neste princípio de minha mocidade, em que agora por matrimónio me hás de senhorear até à morte.

A desolada Su King que desespera de te beijar os pés.

(Peregrinação, capítulo XLVII)

O triunfo da armada de António de Faria sobre dois juncos corsários, no rio de Taunaquir111, rendera-lhes quarenta mil taéis de fazenda, mas a batalha fora renhida e a vitória custara-lhes quinze mortos além de muita gente ferida. O próprio capitão-mor escapara por um triz de ser atravessado por uma lança de arremesso, porque Fernão vira o golpe traiçoeiro e desviara-o a tempo, lançando-se sobre ele com risco da própria vida; o capitão prometera-lhe alvíssaras, erguera-se de um salto e prosseguira o combate. Também Cristóvão Borralho só não se perdera com o seu navio porque Faria, após ter desbaratado a chusma do junco que lhe abalroara a capitânia, acudira com os seus homens a socorrê-lo, varejando os inimigos e lançando-os ao mar.

No lado contrário, as perdas foram mais pesadas, com oitenta mortos e outros tantos cativos que recolheram do mar, por necessitarem de equipagens para os juncos. Puseram-nos a tratos, querendo saber se o capitão corsário era vivo ou morto, mas os homens, valentes e emperrados, preferiam morrer a falar, com grande agastamento de Faria que, embora lhes admirasse a bravura, desesperava do resultado.

– Ah, senhor! Ah, senhor! – chamara Borralho, que fora inspeccionar o segundo junco. – Acuda vossa mercê cá, porque temos mais costura do que cuidámos.

Abrira o alçapão da proa e descobrira gente cristã presa com cadeias, colares e algemas que Faria logo mandou soltar e trazer para o convés. Eram cinco meninos, oito moços, duas moças e dois portugueses, quase nus e tão maltratados que um dos portugueses teve de ser levado em braços, desacordado. O capitão proveu-os do necessário antes de lhes fazer perguntas sobre quem eram e como se chamava o ladrão que os cativara.

– O cossairo tem dois nomes, um de cristão e um de gentio – contou-lhes o outro português. – É necodá Xicaulem, um chim que se fez cristão em Malaca, onde foi baptizado com o nome de Francisco de Sá, em honra de seu padrinho Garcia de Sá, capitão da fortaleza, que o casou com uma órfã mestiça, filha de um homem honrado. Porém, o filho da puta não tardou a renegar a nossa fé e a adorar de novo os seus ídolos e deuses, matando a própria mulher por ela recusar fazer-se gentia. Meteu-se a cossairo e anda a dar caça aos barcos dos cristãos, matando todos os portugueses, como fez aos pais destas crianças. Poupou-nos aos dois porque eu sou calafate e o Pedro carpinteiro e este cabrão precisa dos nossos serviços, havendo já quatro anos que nos traz em ferros, fartando-nos de fome e açoutes. Este rio de Taunaquir serve-lhe de refúgio, porque o governador da província tem com ele praçaria e protege-o em troca da terça parte das presas, além de se livrar dos portugueses que não costumam fazer veniaga nestes portos. Se vos acometeu foi por cuidar que éreis mercadores chins e vos achar de bom lanço.

António de Faria ergueu-se de rompante.

– Vem ver se ele está entre os mortos.

Xicaulem não se achava entre os corpos que juncavam os conveses dos dois juncos e o capitão mandou equipar as manchuas, que eram uns barcos de carga de um só mastro com vela quadrada muito usados na costa do Malabar, e foi com o calafate procurá-lo entre os feridos que se debatiam no mar.

– Ali está ele, senhor capitão!

Boiava, quase inconsciente, com uma grande cutilada na cabeça e uma estocada no peito. Foi içado para bordo e arrastado até à proa onde lhe cortaram a cabeça e o fizeram em pedaços.

Com os corsários inimigos agrilhoados aos remos e curados os feridos, Faria mandara recolher as peças de artilharia inimigas – tomadas por Xicaulem nos três navios em que matara cerca de cinquenta portugueses – e distribuíra-as pelos três juncos e a lorcha112; por fim, com muita pena sua e de toda a tripulação, tivera de queimar um dos juncos, por não haver equipagem para ambos e ordenara aos oficiais que, de manhã bem cedo, estivessem a postos com as suas gentes para irem demandar a entrada do rio e a cidade.

Nessa noite, Valentim fizera por precaução uma surtida de batel e apresara uns pescadores, a quem dera presentes para os sossegar, em troca de informações da terra; os homens, gratos pelo bom tratamento, avisaram-no do perigo que a armada corria. Deviam evitar a cidade a todo o custo, porque a população já sabia da morte do necodá Xicaulem e estava em pé de guerra, por conseguinte, mesmo que o capitão lhes desse a fazenda de graça eles não lha receberiam. Tinham-lhe até preparado à entrada do porto duas jangadas carregadas de lenha, barris de alcatrão e fardos de breu, para serem lançadas a arder contra a sua armada, além de duzentos paraus de remo com frecheiros e gente de guerra, dispostos a não deixarem um só deles com vida.

Faria convocou o conselho de oficiais que determinou ser mais seguro abandonar aquelas águas e rumar a leste, para o porto de Mutipinão, um lugar de passagem e reunião das cáfilas que vinham das terras dos Lauhos, Pafuaas e Gueos com muita prata para resgate.


Sempre bordejando a costa com ventos ponteiros, tinham chegado à ponta do morro de Tilaumera, onde a corrente contrária e fortes temporais pela proa os forçaram a lançar ferro a pouco mais de um quarto de légua de terra, retendo-os ali quase duas semanas, amofinados pela imobilidade e escassez de mantimentos.

Fernão achava o oceano Índico muito mais navegável e menos perigoso do que o Atlântico. Desde o mar Roxo até aos das Índias, de Banda ou da China, a costa era toda recortada em grandes penínsulas e golfos, transformando-se a sudeste e leste, com os inúmeros arquipélagos que banhava, em outros tantos mares mediterrâneos onde os navios podiam fazer escala, para reparo, abrigo ou descanso das tripulações. Com a condição de se navegar durante as monções, nas duas metades do ano, alternando a do sudoeste, que nos seis meses de Verão sopra das costas orientais da África por toda a Ásia Meridional, com a do noroeste ou de Inverno, na outra metade, a soprar ao invés da China para a África, determinando ambas o movimento das correntes.

A tarde do décimo terceiro dia esvaía-se mar dentro, em tonalidades de laranja e ouro quente, qual incêndio a lavrar no céu. Fernão já não reparava na beleza da paisagem que, de tão repetida, se tornara monótona, nem se achava sequer com vontade de jogar com os companheiros que, quando perdiam, não só armavam zaragata como eram lestos a puxar da espada ou do punhal. Encostado à amurada, prestava uma orelha distraída à canção melancólica dos corsários presos aos remos.

Vejo no alto a Via Láctea,

Mas aqui o caminho é mais áspero.

Os Bois Sagrados brilham parados;

Eles não nos tiram os fardos da vida.

A Peneira cintila ao sul,

Mas o bem e o mal vêm através da sua luz.

A Pá abre bem a boca

E nada espalha sobre vós.

Pela madrugada as Irmãs Tecelãs adormecem.

Ao escurecer erguem-se novamente;

Mas embora a Brilhante Lançadeira voe,

Elas não tecem nenhuma roupa para os homens113

Os tristes acusavam os astros de indiferença face ao seu cativeiro e Fernão sentiu uma leve mágoa, porém o fadário da escravidão fazia parte do bornal de qualquer marinheiro, soldado ou mercador que ousasse navegar naqueles mares. Nos seis anos que levava na Índia já ele passara mais de uma vez por essa mesma desventura.

Sons de festa rasgaram o preguiçoso silêncio e trouxeram vida às quatro embarcações, arrancando os homens do marasmo e fazendo calar a cantoria da chusma. Acercavam-se quatro lanteias de remo, todas engalanadas, a fazerem uma matinada ensurdecedora com atabaques, bacias e sinos.

– Quem são esses, capitão? – perguntou a António de Faria que acudiu à proa.

– Hão-de ser espias do aytao de Tanauquir que vêm em nossa busca! – E começou a berrar ordens em todas as direcções: – Arriai as amarras. Hasteai os estandartes chins. Desenrolai os toldos das gáveas para lhes dar mostras de muita alegria. Tu, assinala aos outros navios para fazerem como nós. Tende as armas prestes e preparai-vos para tudo o que vier.

As lanteias saudaram os juncos, à charachina, com grande vozearia e estrondo de bombardas, respondendo-lhes Faria na mesma moeda de salvas festivas. Os recém-chegados lançaram ferro perto de terra, a um quarto de légua de distância dos portugueses.

– Que querem os malparidos? Má trama lhes dê Deus!

– São espias, não há dúvida. A armada deles deve ter ficado para trás, mas não há-de tardar a cair-nos em cima.

– Boi na terra alheia, vacas o escornam.

Duas horas se passaram neste desconcerto, sem saberem o que fazer; era já noite cerrada quando uma das lanteias se acercou da capitânia.

– Escondei-vos – ordenou Faria aos portugueses. – Quero que eles vejam só seis ou sete matalotes chins, para não desconfiarem da cilada. Tende muito prestes as panelas de pólvora, porque com elas e às cutiladas havemos de os vencer.

O barco acostou e três homens de aspecto honrado subiram a bordo, confiantes e sorridentes.

– Onde está Pham Toan Thang? Dizei-lhe que é Licorpinau, o irmão do anchaci de Colem, quem o busca – bradou o mais velho, mal pisou o convés, em voz animada que o muito vinho já bebido fazia quase estridente. – Estará o filho do chifuu de Pandoree doente? Porque não vai buscar a noiva que veio como terna amante ao seu encontro? Onde pára esse ingrato, que lhe quero entregar esta carta da minha sobrinha, a formosa Chu Huyen? – Com gestos e esgares de exagerada indignação, erguia no ar um pequeno rolo de papel selado com lacre e fita de seda.

Ao brado de Jesus, Jesus, o santo e senha de Faria quando ordenava qualquer ataque, os matalotes saltaram sobre os desprevenidos visitantes, prenderam-nos e atiraram-nos escotilha abaixo para as pitacas114 das mercadorias. No frenesim da bulha, a carta rolou até aos pés de Fernão que a apanhou; tinha o selo quebrado e a fita soltara-se. Ninguém se apercebeu do incidente, porque o capitão ordenara a abordagem à lanteia dos mensageiros.

– Lê-me o que aqui está escrito – disse ao seu moço chim, entregando-lhe a folha, agastado por não saber ler a língua tão bem como a falava.

Estava longe de imaginar o efeito funesto que essa leitura teria na sua alma. O papel perfumado não era um relatório de espionação, nem ameaça de ataque ou ultimato de rendição, era apenas uma carta de amor, no entanto, as palavras nela contidas causaram-lhe mais estragos do que a pior das ameaças. A voz juvenil do moço materializava-as e Fernão sentia-se vibrar com as entoações de dor, dúvida e ansiedade, como se a carta fosse escrita por uma mulher impetuosa e não por uma donzela quase impúbere.

Palavras de paixão desenhadas a tinta por mão de mestra, entrelaçando sentimentos e desejos como fios de um bordado ou renda, cuja magia perdurava longamente depois da leitura acabada. Uma mulher enamorada da sua ideia ou representação do Amor, disposta a afrontar os perigos do mar, as suas tempestades e corsários, para voar com o ímpeto do esfaimado açor ao encontro do seu amado. Capaz de amar até à morte. Como poderia uma casta donzela sentir essa chama tão sensual, que punha na alma de um homem vivido esse fogo que o abrasava? Afortunado Pham a quem estava destinado tão raro tesouro!

Virgem sem mácula, certificada por uma ou mais parentes velhas do noivo, que lhe teriam feito uma inspecção rigorosa a todos os escaninhos do corpo, como era de uso naquelas terras, sobretudo entre gente de qualidade. Não bastaria a perfeição do rosto ou o comprimento, brilho e macieza da cabeleira que ele desejaria segurar entre os dedos como o manto de uma princesa: a noiva não deveria ter sinais ruins, manchas, feridas ou hemorróidas, nem defeitos na boca, no nariz, nos sovacos, nos pés ou nas partes pudendas, para ser declarada intocada, digna não só do leito do primo, como do próprio Filho do Céu.

Imaginou-se por instantes com mãos sábias a percorrer-lhe o corpo esbelto como um jade burilado, apreçando a pele alva e fina, tão macia ao toque que os dedos do amante ou do esposo haveriam de deslizar por ela como pela seda mais rara; a sopesar-lhe os seios redondos, que se aninhariam nas suas palmas em concha como duas rolas, de bicos róseos a endurecerem num arrepio de pejo; medindo-lhe os quadris delicados, a barriga arredondada e lisa, o umbigo cinzelado com a profundidade de um engaste onde pudesse caber uma pérola de meia polegada; afastando-lhe as coxas esguias para contemplar o triângulo do ventre, doce e cerrado, que escondia o tesouro da sua virgindade e, sentindo-a estremecer de pudor, afastaria os lábios da vagina, expondo a vulva de um vermelho brilhante, sem mácula.

Assim a fantasiava Fernão, sentindo um ódio profundo pelo desconhecido Pham, como nunca experimentara por outrem. O sangue subiu-lhe ao rosto, avermelhando-o como um assomo de raiva e gotas de suor humedeceram-lhe o corpo, num acesso de sezões. Com tal galardão à sua espera, o vilão cauchim em vez de voar ao encontro da noiva, deixava-a entregue à sua sorte, à mercê de corsários violadores e assassinos.

Foi arrancado ao devaneio, em sobressalto, pelo estrondo que fez estremecer o junco como se o tivesse atingido um tiro de bombarda, seguido de correrias, baques na água e gritaria. Os marinheiros tinham atracado a lanteia ao junco, prendendo-lhe um cabo à ponta do mastro e lançavam-lhe de cima algumas panelas de pólvora, atirando com os remadores ao mar, onde ficaram a esbracejar e a bradar que se afogavam se não os fossem recolher. Por ordem do capitão Faria sete matalotes e sete soldados, que tinham descido a tomar o barco, pescaram os náufragos, pondo-os a bom recado para mais tarde os usarem no serviço dos juncos.

– A diligência é mãe da boa ventura: temos de acometer as outras lanteias antes de se darem conta do que fizemos à sua mensageira. Vamos depressa e sem barulho.

Os remadores eram fortes e, se preguiçavam, o chicote lembrava-lhes logo que quem mandava no junco já não era o chim Xicaulem, mas o cristão Faria que os havia desbaratado, de modo que a chusma remava toda à uma, com bom ritmo, em perfeita sincronia. O navio cortava as águas com a ligeireza de uma toninha, seguida de perto, para a força de combate ficar toda junta, pelas restantes embarcações com as chusmas igualmente reforçadas.

O capitão escolheu como primeira presa a lanteia mais ricamente engalanada e fez-lhe uma surriada de artilharia leve, apenas para confundir os defensores, abalroando-a de seguida. Lançaram-se à abordagem, com os montantes, estoques e punhais desembainhados, apoderando-se da embarcação em menos de três credos, sem desferirem um só golpe ou dispararem um tiro, por não acharem soldado ou marinheiro que lhes oferecesse resistência.

Desconfiado, António de Faria mandara-o, com oito soldados, passar revista ao barco, a fim de prevenir emboscadas ou ataques traiçoeiros, se de facto os das lanteias fossem espias do capitão de Tanauquir, disfarçados de inocentes foliões. Fernão descobrira apenas um bando de gente assustada, escondida num compartimento sob a tolda: uma pequena chusma de remadores desarmados, alguns parentes e convidados da noiva, mais umas tantas mulheres que se alugam por dinheiro para tangerem nas festas e cerimónias. Divisara, atrás desta lacrimosa companhia, a silhueta da noiva toda coberta de véus, agachada no chão e meio escondida por dois moços pequenos, muito alvos e formosos, que a abraçavam chorando de terror.

Embora todo o seu ser o impelisse a acercar-se de Chu Huyen, para lhe erguer o véu e contemplar o seu rosto, a fim de satisfazer o desejo insano de a conhecer – um anseio que o impelira a lançar-se à abordagem ao lado de António de Faria, com uma temeridade muito pouco habitual ao seu ânimo de homem prudente que evitava as brigas, ainda que não fugisse delas quando havia mister combater –, retirara-se sem lhe dirigir palavra e fora dar conta do que vira ao capitão. Deixara dois soldados de guarda aos prisioneiros, com a recomendação de não lhes fazerem dano e postara os restantes homens de vigia, de modo a evitar a fuga da embarcação, se acaso os remadores ganhassem ânimo para intentar tal empresa.

– Não demos sequer uma arcabuzada ou lançada! – exclamou Faria, mal o viu assomar à coberta.

Fernão sentiu-lhe o despeito na voz e justificou:

– É o barco da noiva. Não tem gente de peleja, só traz remadores. Os mais são mulheres velhas e alguns homens honrados, segundo os trajos que vestem. Estavam todos escondidos debaixo da tolda, mortos de medo. Deixei-os com guarda.

– Capitão, capitão – bradou o mestre, enfrenesiado –, as outras duas lanteias já fogem, a remo e à vela!

Os olhos de Faria brilharam de excitação, como o caçador que persegue a presa e a vê prestes a escapar. Olhou para Fernão, como se o avaliasse pela primeira vez.

– Fique vossa mercê com os oito homens de guarda a esta lanteia, que eu vou caçar as outras, para que não nos denunciem ou não sairemos deste rio com vida. Assegurai-vos de que essa gente, sobretudo as mulheres, não sofra ofensas dos nossos e apartai as de maior valia para fazerem parte do saque.

Fernão deu graças pelo favor dos céus. Ficar fora de brigas e combates, para mais com o encargo de guardar a cativa, era uma bênção. Sem dúvida que o capitão o favorecia por lhe ter salvado a vida durante a luta com os corsários de Xicaulem.

– Ide com Deus, que eu saberei dar conta do recado.

Teve de gritar as últimas palavras porque Faria saltava já para o seu navio a gritar ordens aos homens para soltarem as amarras e os ganchos. Desenvencilhado da lanteia, o junco lançou-se na caçada aos dois barcos que, à força de remos, velejavam tão velozmente como se fossem perseguidos por monstros infernais.

Enquanto se dirigia ao reservado, a fim de se ocupar da noiva e das restantes mulheres e determinar quais iriam fazer parte do saque a dividir pelos assaltantes, conforme lhe fora ordenado, Fernão rogava a Deus pelo bom resultado da perseguição às lanteias fugitivas, pois, se o capitão as capturasse, o espólio seria abundante e rico, permitindo-lhe talvez aspirar à posse de Huyen como paga dos seus serviços.

Ao vê-la abraçada aos irmãos, na mesma desolada posição em que a deixara, só a muito custo pôde dominar o tropejo do seu coração e disfarçar o enleio perante os guardas e cativos, quando mandou a aia descobrir-lhe o rosto. A velha, resmungando que só o marido tinha o direito de a ver, erguera-lhe o véu de seda e ele contemplara a delicada face oval, de uma brancura de porcelana, o fino arco das sobrancelhas, o nariz pequeno, uma boca de lábios vermelhos, bela como um botão de rosa e, excedendo todos os seus encantos, os olhos amendoados, cujas pupilas negras o fitaram por momentos com esse fogo de que ele a imaginava capaz, embora a chama não fosse de amor mas de ódio.

– Por ti darei a vida e a alma! – murmurou, disposto a tudo para a possuir, mesmo que tivesse de morrer a lutar por ela.

Uma paixão insana que só um velho poeta parecera entender. Muito tempo depois destes sucessos, durante a viagem dos condenados pelo rio Batampina, o letrado Lin Dan pusera-se a divagar sobre a mulher do Oriente e o seu misterioso encanto. Acabrunhado de saudade e remorso, Fernão recordara Huyen como se a tivesse diante dos olhos.

– Há mulheres que provocam paixões à primeira vista, ou antes mesmo de as conhecermos, e que jamais serão esquecidas. Levam os homens a arriscarem tudo o que têm, glória, riqueza e a própria vida, a fim de possuí-las – concluíra o poeta, condoído das suas lágrimas. – Tal é o estranho poder de fascinação que têm certas mulheres: algo de fugitivo, que desafia qualquer explicação.

A Noiva Roubada possuíra esse poder. O encanto de Chu Huyen fora, na sua vida, luz de estrela, chama de fogueira, brilho de pedra preciosa, invisível e sem forma, no entanto sentido por todo o seu corpo como um veneno mortal. Esse sortilégio fizera da cativa cauchim a mulher mais tentadora e inquietante do mundo, cujo corpo possuíra e a quem amara perdidamente, sem todavia chegar sequer a tocar-lhe a alma.


– Alguém nesta casa, na cidade ou no reino tem embargos a esta sentença ou dúvida de se soltarem os nove presos?

Fernão estremeceu, arrancado às suas memórias pela voz do conchaly da Mesa dos Doze, apercebendo-se de que não ouvira a sentença e ficara sem saber se era vivo ou morto.

111 Talvez no actual Vietname, no delta do rio Vermelho.

112 Lorcha – barco asiático, semelhante à lanteia (lanteaa) que usava a técnica portuguesa para a construção do casco, mas com o velame chinês, criando uma embarcação rápida e de fácil manobra, um dos símbolos mais visíveis da presença portuguesa nos mares da China.

113 Poema escrito em 780 a. C. in Shijing, O Livro das Canções.

114 Compartimentos em que se dividia um junco para transporte de mercadorias.

VIII

Quando o sábio aponta para a Lua, o idiota olha para o dedo

(chinês)

Sentença de Pitau Dicalor, chaem no auditório da gente estrangeira:

Como a limpa justiça não aceita razões de partes contrárias sem haver prova clara no que dizem, pareceu-me não ser justo aceitar o libelo do Conchaly da acusação, pois não provava o que nele dizia. E tendo as duas partes, por meu despacho, arrazoado sobre o feito concluso, determinei a minha sentença:

Mando que estes nove estrangeiros sejam absoltos de tudo o que contra eles requereu o Conchaly acusador, sem lhes dar castigo nenhum de pena crime, somente os condeno em um ano de degredo para as obras da Changcheng, a Muralha Comprida, em Quansy, onde trabalharão por seu mantimento. E cumpridos os oito meses do ano, mando ao Chumbim e a todos os oficiais e ministros do seu governo a quem esta minha sentença for apresentada, que logo lhe[s] passem carta segura para que livremente se possam ir a sua terra ou onde for mais sua vontade.

(Peregrinação, capítulo CIII)

Os portugueses dão graças aos Céus pelo milagre de se verem fora do tronco, livres para andarem por Pequim à sua guisa, até ao dia em que terão de se apresentar na prisão do Xinanguibaleu, a do Encerramento dos Degredados, para irem trabalhar na Grande Muralha da China, no troço da fronteira com a Tartária. Por muito duro que seja o castigo tem sabor de prémio, porque os réus, descrentes da salvação, contavam ser degolados no pátio das execuções como carneiros num açougue.

Jamais esqueceriam o momento em que o chaem os absolvera dos crimes. De respiração suspensa, tinham escutado um dos conchalys da Mesa dos Doze perguntar em alta voz à assistência, por cinco vezes, se alguém punha embargos à sentença ou dúvida de se soltarem os presos. Ninguém respondera e os dois meninos que representavam a Justiça e a Misericórdia tocaram-se com as insígnias, dizendo em voz entoada:

– Sejam livres e soltos, conforme a sentença que justamente se deu.

Um upo dera três pancadas no sino e os dois chumbis libertaram-nos de todas as correntes e foram com eles à prisão fazer os assentos no livro da carceragem, ficando os folangji obrigados a partirem para o degredo dali a dois meses, sob pena, em caso de fuga ou desobediência, de quedarem cativos do rei para toda a vida.

Estão livres, contudo, agora que são senhores do seu destino, não sabem para onde ir ou o que fazer. Condoído do seu desamparo, o chifuu do tronco deu-lhes licença para lá dormirem nessa noite, um favor que eles agradecem de joelhos. A prisão é um lugar familiar onde, libertos das peias, poderão aconselhar-se e pensar no futuro. Precisam de se manter unidos e agir como um só homem ou não conseguirão sobreviver naquela terra tão fora dos seus costumes.

De manhã, quando os quatro tanigores vêm visitar os enfermos, os portugueses esperam-nos à porta da enfermaria. Os Irmãos da Misericórdia felicitam-nos pelo bom sucesso do julgamento.

– Que ides fazer com as vossas vidas, agora que sois livres? – pergunta o mais velho. – Lembrai-vos do que haveis penado aqui e tratai de não cometer os mesmos erros; se vos prenderem de novo, já nada nem ninguém vos poderá valer. O Céu o sabe.

– Somos uns pobres mercadores de Malaca, insignes irmãos, não somos ladrões nem salteadores de estradas! – apressa-se a dizer Fernão, deixando que as lágrimas lhe assomem aos olhos. – Só temos a roupa que trazemos vestida e nos foi dada por vós. Assi, desprovidos de tudo numa terra estranha, de que muitos de nós desconhecem até a língua, que poderemos fazer senão viver da caridade das gentes? Aconselhai-nos, bondosos irmãos: se andarmos a pedir esmola pela cidade, poderemos ser novamente presos e condenados por vagabundos ou ladrões?

Os tanigores ouvem-no sem despegarem os olhos do seu rosto, para não se perderem nas palavras mal pronunciadas; parecem condoídos e, quando ele se cala, entreolham-se como em muda conferência.

– Haveis de conseguir melhor mester do que o de esmolar pela cidade! – diz o ancião. – Vinde connosco a casa do capitão Liu Xugang, que é um homem honrado e amigo dos pobres.

O benfeitor é o monteo, o capitão da justiça que dali a dois meses irá levar os condenados para Quansy! O oficial faz muitas cortesias aos tanigores, incluindo os estrangeiros nos sorrisos e vénias:

– Já comestes?

Os chins são tão amantes da comida que a sua saudação de boas-vindas não é perguntar pela saúde do visitante ou do amigo, mas se já comeu ou quer comer!

– Vinde. Comeremos alguma cousa enquanto falamos do que vos traz à minha modesta casa, indigna da vossa presença.

Sem se mostrar, por trás de uma cortina que tapa a porta de separação entre a sala exterior e os quartos interiores destinados às mulheres, a esposa do monteo dá ordens às criadas para lhes servirem pequenos pratos de comida e uma infusão de ervas que os portugueses se esforçam por engolir sem fazerem caretas de desagrado. O anfitrião mostra muito empenho em comprazer os tanigores, prometendo tomar os estrangeiros sob a sua protecção.

– Vou dar-vos o meu amparo e favorecer-vos, por amor dos Céus e destes santos irmãos que mo pedem – diz-lhes, indo buscar um livro de assentos, onde registou os nomes segundo os sons que ouve a Fernão e a Cristóvão. – Pus-vos ao serviço d’el-rei, de hoje em diante, vencereis o vosso mantimento ainda que não sirvais, porque quero que me fique isto à conta de esmola. Enquanto aqui estivermos, podereis agasalhar-vos com a gente da minha guarda, eu vos proverei de tudo o que for necessário ao vosso mester.

Os tanigores agradecem o favor concedido aos seus protegidos, que se lançam a seus pés, dizendo todas as palavras de louvor e gratidão que conhecem nas línguas do Oriente, com algumas lágrimas à mistura, embora sintam mais vontade de cantar do que chorar.

– Não vos olvideis de agradecer ao Céu o bom sucesso que tivestes neste vosso negócio – dizem-lhes os irmãos, à despedida, dando-lhes quatro taéis de prata –, porque pecareis gravemente se lhe desconhecerdes tamanha mercê.


A vida em casa de Liu Xugang é um paraíso. O monteo tem muito prazer na companhia dos folangji, chamando-os para o hitai ou terraço de orvalho, uma varanda assente sobre pilares, com balaustradas de bambu, acobertada por um toldo que a abriga do sol e a mantém fresca. É ali que o capitão e a esposa celebram as festas próprias de cada lua ou mês e, nos restantes dias, se desenfadam com as filhas e a parentela a seu cargo, ora tangendo e cantando, ora pintando e bordando em bastidores. Com elas, Fernão aprende a apreciar o chá, a infusão avermelhada, quente e amarga que os chins oferecem aos seus convidados com um cerimonial de gestos tão solene quanto o dos sacerdotes das missas cantadas.

Como os hóspedes são estrangeiros e os serões se passam dentro de portas, as donas e donzelas da casa não se escondem deles, sendo ouvintes incansáveis das histórias das suas vidas, dos lugares de onde vêm, das viagens que fizeram ou das nações visitadas. É um mundo novo que se abre ante estas mulheres que nunca saíram da cidade porque, para se deslocarem a mais de trinta léguas de suas casas, os chins necessitam de licença dos mandarins, a qual custa caro, nem sempre é concedida ou tarda muito a chegar.

Vendo o interesse de Fernão por tudo o que o rodeia e também pelos livros que Liu Xugang possui, Zhou, a filha mais velha, faz leituras ao serão da Crónica dos Oitenta Reis da China, das Brochas d’O da Vontade do Filho do Sol (de que ele já ouvira alguns textos ao poeta Lin Dan, o seu companheiro de viagem e de ferros pelo rio Batampina) e da Situação de Todos os Lugares Notáveis do Império da China, respondendo às suas perguntas, uma divertida prática a que se junta o monteo para explicar, com grande gosto e paciência, as partes mais difíceis.

– Vou cantar-vos um tzu antigo, um poema musical de Fan Tchong-yen, para alegrar o vosso exílio – diz-lhes Zhou, certa noite, com o doce sorriso que aquece a alma dos exilados.

Celebravam o Duplo Sétimo – o sétimo dia do sétimo mês lunar – em que as meninas, para se tornarem talentosas na arte de bordar, fazem ofertas de frutos e de doces à bodhisattva Guaiyn de mil braços, deusa da misericórdia. A gentil moça toma nas mãos cor de neve o erhu, uma espécie de viola de arco de duas cordas, dedilha-o para avaliar o som e canta:

Insidiosa, todas as noites

A saudade persegue

O espírito do peregrino,

Se não o proteger um suave

Sonho, num sono profundo:

A lua cheia – alto

Pavilhão solitário –

Não te encostes ao balcão!.

E o vinho, no coração despedaçado,

Transforma-se então em lágrimas

Carregadas de mágoas sem fim.

A sua voz, ao mesmo tempo suave e lastimosa, adoça a alma dos desafortunados estrangeiros, desterrados da pátria e da família. A saudade não mata, mas sepulta o coração em vida, pensa Fernão ao ouvi-la com um prazer doloroso, como se nela houvesse incarnado o espírito da sua amada Chu Huyen, quando cantava a sua mágoa pela ausência do noivo a quem fora furtada, enchendo-o de paixão e ciúme.

Acabado o canto, não há um só dos degredados que não tenha os olhos húmidos de lágrimas, por viverem há tanto tempo sem um mimo de mãe, irmã, esposa ou noiva que lhes mitigue o sofrimento. Gaspar de Meireles, cheio de nostalgia, canta-lhes alguns vilancetes, acompanhando-se o melhor que pode com o instrumento chim, em que já tem alguma prática, pelo que todos folgam, aplaudindo muito.

Os portugueses entravam no dia-a-dia da vida de uma família chim, conheciam a sua alma, ideias, tradições e o que viam, ora os maravilhava, ora os assustava ou enchia de asco. Horrorizava-os vê-los comer toda a casta de comida, não fazendo má boca sequer à carne de bichos como a cobra ou o cão; pasmavam com o tamanho dos pés das mulheres nobres, a assomarem sob as suas vestes, calçados de meias brancas, tão diminutos e pontiagudos que parecia milagre poderem andar.

Zhou descrevera-lhe como os pés das meninas, desde a idade de seis ou sete anos, eram enfaixados apertadamente de modo a não poderem crescer, arqueando-os depois, com os dedos dobrados contra a planta do pé até os ossos se quebrarem e tomarem a forma de botões-de-lótus, considerado um grande atributo de beleza que despertava o desejo dos homens. A moça confidenciara-lhe muito orgulhosa que, até quase à idade adulta, sofrera com grande coragem um pungente suplício, quando lhe mudavam as faixas várias vezes ao dia ou dava sequer um passo. E concluíra a lição, contando-lhe a lenda dos botões-de-lótus:

– Em tempos muito recuados, houve um rei, de nome Li Yu, que tinha uma concubina, Yao-niang, a quem amava sobre todas as suas mulheres, não só pela beleza, mas, principalmente, pelo seu talento na dança. Um dia o rei mandou fazer uma flor de lótus da altura de um homem, para a favorita dançar sobre a sua corola e, para o satisfazer, Yao-niang surgiu vestida de seda branca, bordada a fio de prata, resplandecente como um raio de luar. Maravilhado, Li Yu ordenou que lhe apertassem os pés com ligaduras de tecido, para lhes darem a forma das pontas do crescente da lua. Então, a concubina foi posta sobre a flor de lótus e dançou com tanta graciosidade, leveza e requinte que parecia voar. Todas as damas do reino quiseram imitá-la, passando desde então a ligar os pés para lhes dar a forma que temos agora.

Agradecera-lhe o relato da bonita lenda, sem mencionar a versão menos poética que ouvira aos companheiros de armas, de que a verdadeira razão para tão cruel costume era o ciúme dos homens que não se fiavam nas suas mulheres, visto as chins serem por natureza muito luxuriosas e impudicas; com os pés botos do apertado trato, as infelizes ficavam impedidas de sair de casa, pois pouco podiam andar naquele passo saltitante de tímida ave.

IX

Quem não sobe às altas montanhas não conhece a planície

(chinês)

Informação que um homem honrado, que na China esteve cativo, deu ao P. Mestre Belchior, no Colégio de Malaca:

A cidade principal em que está elRei, que é sobre todas a mais populosa e nobre, chama-se Pequim. Dizem os naturais da terra que se põem para se atravessar em direito sete dias de caminho, e treze em derredor: está cercada com três cercas e um rio mui caudaloso; na cerca mais de dentro está elRei.

Contam os homens grandes maravilhas das riquezas e obras das casas Reais, e todos os paços onde elRei está são rodeados com um braço deste rio, que cerca a cidade por fora. Têm as casas, antes que entrem dentro, sete ou oito portas de fortaleza estranha, as quais lhe guardam gigantes mui grandes .

ElRei afirmam que nunca sai daquela cidade, porque nela tem todos os modos de suas recreações e deleites terrenos e todo o que come se cria dos muros para dentro, nem sai elRei nunca às outras duas cercas de fora nem dizem que é visto senão daqueles que o servem dentro naquela cerca mais interior, os quais são todos capados, filhos de homens fidalgos, e como aí entram dentro, não saem até à morte fora dela.

Tem mais elRei oito fidalgos de seu conselho muito letrados e de grande prudência, com os quais despacha todos os negócios do reino, também estes nunca saem fora da terceira cerca por nenhum caso até à morte115.

Fernão aproveitava os momentos de lazer para vaguear pela cidade e ver à sua guisa o que mal pudera enxergar quando nela entrara metido em grilhões como bicho enjaulado. De início saíra para essas explorações com todos os companheiros, porém, não tardara a evitar a sociedade do bando, porque se tinham formado partidos, havendo entre eles constantes quezílias e desordens em público que escandalizavam os chins. Andava apenas com Borralho e Zeimoto que eram homens cordatos, de bom entendimento e como ele ávidos de novidades.

Entre os três, compraram o Aqusendoo, o livrinho que tratava das coisas da China, para lhes servir de cartilha e aperfeiçoarem a leitura dos caracteres, já que escrever se tornava tarefa assaz difícil, por ser a letra dos chins tão contrária à usada na Europa, bem pior do que a árabe ou a hebreia. O livro continha um manancial de informações sobre a terra e a sua gente, ciência preciosa para qualquer nação que quisesse fazer tratos pacíficos ou até assenhorear-se dela. Ao contrário dos restantes companheiros, sabiam que só teriam salvação e possibilidade de voltar a Malaca, se conseguissem compreender bem o espírito dos chins, se adaptassem e assimilassem o seu viver; podiam comprová-lo pelo modo como os guardas do monteo, seus companheiros de armas, mostravam gosto em ajudá-los na leitura e a esclarecer-lhes as dúvidas.

Todavia, apesar do seu evidente desagrado, para não dizer ódio, àquela terra, quando os nove se recolhiam para dormir, de ânimos sossegados pela ceia e amolentados de cansaço, sempre havia alguém que lhes pedia para contarem uma história ou superstição dos gentios.

– Dói-me ver como uma gente de tanta polícia vive na cegueira e ignorância do Deus verdadeiro – diz Valentim de Alpoim que é, de entre todos, o mais pio.

– São muito idólatras e contumazes – admite Cristóvão Borralho. – Duvido que em algum tempo possa haver cristãos chins! Só se Deus fizer outros de novo, porque estes que ao presente há na terra ninguém os há-de converter.

– O maior estorvo é serem sodomitas – interrompe-o Jorge Mendes, faceiro – e não quererem abster-se do pecado nefando, que entre os baixos é muito geral e entre os grandes pouco se estranha.

Todos riem, acenando a sua concordância. Fernão, que é o melhor contador de histórias do bando, começa a desbravar o texto do Aqusendoo:

– Diz aqui que Pan Ku saiu de um ovo para criar o Mundo e a Humanidade e, com um golpe do seu colossal machado, separou os dois princípios ou forças Yin e Yang, criadores de todos os objectos e acontecimentos.

– Um ovo de quê? Que cousa é essa?

– Raios partam se t’entendo! Então, esse deus era homem ou pássaro?

– Parece-me que o Yang tem a ver com o macho e o Yin com a fêmea, como o marido e a mulher num casamento – prossegue Fernão, sem se perturbar com a risota. – O marido é o céu, a mulher a terra: o céu é nobre e ocupa o espaço superior, a terra é baixa e ocupa o espaço inferior. O marido é o sol, a mulher a lua; o sol não tem imperfeições, a lua umas vezes é redonda, outras incompleta. O Yang dá vida às cousas, o Yin junta-se a ele e completa-as. Portanto, as mulheres têm como virtudes próprias a gentileza, a obediência e não campeiam pela força ou pelo raciocínio.

– Não está mal vista essa história! – brada Álvaro de Melo. – O homem nasceu pra mandar e a mulher pra obedecer porque, mesmo com freio, elas são a principal causa da perdição dos homens.

– Inda que imperfeitas e perigosas, sinto-lhes a falta. – suspira Meireles e põe-se a dedilhar a viola, de olhar ausente, como quem sonha.

– E eu, de tanto andar à míngua de mulher, até pareço um capado – recomeça Jorge, com o seu jeito mangador. – Já nem consigo levantar o morto!

– Nesta casa as fêmeas são bastas e nada feias, sobretudo a segunda concubina! – regouga Joaquim Pereira, quando os risos esmorecem. – O pior é que passam o tempo fechadas nas estâncias interiores, como as mouras, sem sequer assomarem às janelas, que também são gradeadas.

Cristóvão Borralho acrescenta:

– Só há uma porta de comunicação para as salas e câmaras exteriores que dão acesso à rua, onde o patrão recebe outros homens. Elas só podem aparecer nessa parte da casa quando o monteo as chama, e mesmo assim vêm sempre com um véu a tapar-lhes o rosto.

– Temos tido sorte – contrapõe Fernão –, porque o capitão Liu Xugang honra-nos com a sua amizade e recebe-nos como íntimos, permitindo que as suas mulheres, as filhas e demais parentas estejam de rostos descobertos na nossa presença.

– Isso é verdade – concorda Morosa, vendo como Fernão parece assustado com o rumo da conversa. – O monteo é um homem generoso, trata-nos como gente livre e honrada; não devemos fazer nada que o possa ofender.

– Eu contentava-me com uma serva ou escrava! – suspira de novo Meireles, como se não os tivesse ouvido. – Mas até essas andam guardadas pelos porteiros quando vão fazer recados ou buscar água para o banho das patroas.

– O fruto proibido é o mais apetecido – torna Pereira, mimando o jeito de quem come um fruto sumarento. – Assim, não é de estranhar que pratiquem a sodomia. Se ao menos pudéssemos espreitar as mulheres no banho.

– Está má hora quedo, pela tua negra vida! – grita Zeimoto, furioso. – Queres perder-nos a todos?

– Nem o penses sequer, bargante! – secunda Vicente. – Não cuspas na mão que te dá a esmola ou terás de te haver comigo.

Um rubor irado cobre o rosto de Pereira, ofendido pelo tom dos companheiros, contudo, vendo que ninguém vem em sua ajuda, solta uma falsa gargalhada, protestando:

– Só Jorge Mendes pode dizer chistes? Mais ninguém tem licença pra gracejar?

– Se queres fornicar – espicaça o visado –, nada melhor do que as putas do bairro das lanternas vermelhas! Dizem que são criadas na arte de servir e dar prazer a um homem. Mal receba a soldada é lá que me pilham! Preciso de ressuscitar o morto.

– E vocês – diz Vicente apontando para Fernão, Zeimoto e Borralho –, desta vez hão-de vir connosco para nos servirem de línguas. Não cuidem que escapam!

– Melhor ainda é a sua história da criação do mundo – Fernão volta a pegar no livro, fingindo não ter ouvido o companheiro, mas aproveitando para pôr um ponto final à querela –, que mostra como hão mister pregadores que lhes ensinem a nossa lei. Ora ouvi: O tal Pangu saído do ovo gerou a Terra e o Céu e, decorridos dezoito mil anos, deitou-se a repousar do esforço. A sua respiração criou o vento, a sua voz o trovão, o olho esquerdo o sol, o direito a lua; o corpo reclinado formou as montanhas, os cabos e as raias do mundo. Das suas veias, o sangue fez-se curso de águas poderosas, os rios correram livremente pelas terras, o seu suor, deslizando pelo corpo, gotejou nos solos em chuva benfazeja; dos seus músculos e nervos formaram-se os campos férteis, os seus ossos transmutaram-se em minerais. Por fim, os seres minúsculos que viviam na sua pele foram levados pelo vento da sua respiração e espalharam-se pelo mundo dando origem aos seres humanos.

– É isso que aí vem ou estais a contar inzonas? Parece uma lengalenga para adormecer meninos!

– Ó Fernão, vou deixar de te chamar Mendes e sim Mentes – brada Gaspar.

– E, em vez de Pinto, passa a ser Minto! – acrescenta Álvaro, rindo também.

– Fernão. Mentes? – pergunta Pereira em tom de escárnio e conclui: – Minto!

– Então surgiram quatro heróis para instruir os homens – prossegue Fernão, imperturbável, apenas alteando a voz para se fazer ouvir no meio das gargalhadas. – You Cao Shi ensinou-os a construir casas de madeira, Sui Ren Shi mostrou-lhes como dominar o fogo, Fu Xi Shi adestrou-os nas práticas da caça, da pesca e da criação de gado, Shen Nong Shi deu-lhes a conhecer as ervas medicinais e o cultivo dos cereais. A estes heróis, seguiram-se os cinco imperadores.

Com a voz abafada pelas pragas, bocejos e roncos, cala-se por fim, resignado à bruteza dos companheiros que não têm como ele o espírito ávido de conhecer o mundo que os cerca, com todos os inconvenientes que a curiosidade pode causar.


Pelo Aqusendoo souberam que os naturais nunca tinham chamado China àquela terra. Tal nome fora invenção dos povos da Índia, onde os portugueses o tinham ouvido pela primeira vez. Em tempos recuados fora chamada Tamen, a nação dos Tamenjis, depois mudara de nome cada vez que uma linhagem de reis substituíra outra, por isso já fora Than (Sem Fim), In (Descanso), Hia (Grande), Ceu (Perfeito), Han (Via Láctea no Céu) e, por último, Ming (Clareza), a do imperador Jiajing.

No ano correspondente a mil cento e treze da era de Cristo, a cidade de Pequim fora vinte e seis vezes acometida pelos seus inimigos, assolada e posta por terra. Por isso, o rei Xixipão levara vinte e três anos a cercá-la de muralhas e cavas para fornecimento de água, tratamento de esgotos, transporte e defesa. Oitenta e dois anos mais tarde, o seu neto Jumbileitai continuara a obra de fortificação, fazendo a segunda cerca e mais cavas. A cidade tomara a forma de um quadrado, com cada lado virado para um dos quatro pontos cardeais, contendo três cercas concêntricas de cinco léguas de largura, oito templos-mosteiros postos nas direcções Norte, Sul, Este e Oeste e nos quatro pontos intermédios, correspondendo aos oito trigramas fundamentais do Yi Jing ou O Livro das Mudanças, com as adivinhações de Confúcio.

Pequim era atravessada em toda a largura e comprimento por mais de cem esteiros, construídos ao longo dos séculos, cruzados por mil e oitocentas pontes com arcos de pedraria muito fortes, colunas e bancos com encosto para os passantes se sentarem a descansar. O centro da urbe era a cerca de Zijincheng, a Cidade Púrpura Proibida, constituída por dezassete palácios de madeira com nove mil salas, onde vivia Jiajing, o Leão Coroado no Trono do Mundo.

Os seus paços correspondiam à constelação Ziwei ou Ursa Menor, e o imperador à Estrela Polar, um ponto central em torno do qual girava o mundo. Na sua qualidade de Filho do Céu, que governava por mandato celestial, Jiajing tinha de celebrar os principais ritos e sacrifícios como mediador entre o mundo terreno e o mundo divino. Era também o comandante supremo dos exércitos e o sumo magistrado que examinava pessoalmente todos os documentos de Estado e os emendava com a tinta vermelha do seu pincel de púrpura que só ele podia usar.

Dizia-se à boca pequena que Jiajing preferia viver fora da Cidade Proibida, deixando a governação do império nas mãos dos eunucos e dos letrados, para se dedicar aos prazeres da carne e à alquimia, em busca do elixir da juventude. No entanto, todas as manhãs, para dar o exemplo aos chefes de família, maridos, filhos e netos, o Filho do Céu ia visitar a mãe, a avó, as imperatrizes e consortes viúvas, as concubinas, suas e dos seus antecessores, levando-lhes mimos de doces e manjares. Para o seu harém contribuíam, de três em três anos, as famílias leais de todas as províncias da China, com as suas filhas de doze a quinze anos de idade, aspirantes à ordem das Xiun ou Mulheres Excelentes, as consortes e concubinas do imperador.

Em Zijincheng só entrava quem fosse convocado por Jiajing e ali viviam para o servirem até à morte, além dos cem mil eunucos e das trinta mil mulheres que eram o coração da sua corte, um corpo de guarda de doze mil homens, quinhentos oficiais da administração e governo com as suas famílias, além de um séquito de mais de duzentos estrangeiros, como mogores, tártaros e cauchins116, para sua protecção, por serem melhores de peleja do que os naturais.

Um profundo fosso com um muro vermelho muito alto separavam a Cidade Púrpura Proibida da Cidade Imperial, a qual se estendia pela segunda cerca, com a sua casaria muito nobre, povoada de infindas gentes que asseguravam a vida e o engrandecimento do império e dos seus senhores, mantendo na ordem e na sujeição os seus timoratos vassalos. Dentro desta cerca, onde estava a casa do monteo, a vida era intensa, com muito comércio e uma multidão a fervilhar de actividade como em colmeia.

Os chins eram muito dados aos prazeres da carne, inclusive ao da sodomia, mas o da gula era o mais desbragado. Fernão perdia-se na contemplação dos edifícios das estalagens, com seus jardins ou matas para passatempos de pescarias e caça. Estavam sempre cheias de gente para ver autos, danças e jogos ou para assistirem a banquetes esplêndidos, que chegavam a durar dez dias, com grande aparato e serviço de moças virgens, formosíssimas e ricamente vestidas. A música e as canções atravessavam os muros, chegando como um eco aos ouvidos dos portugueses:

Em Ch’an An embriago-me ao vento primaveril,

O meu gorro está vermelho de flores

Postas às três pancadas.

Vi a grandeza e o declínio do mundo,

Mas nem por isso eu próprio fiquei

Mais pobre nem mais rico117.

Em cada uma das suas cento e vinte praças nobres se fazia todos os meses uma feira, o que feitas as contas dava quatro por dia em cada ano, pelo que Fernão pôde ver dez ou doze, durante os seus dois meses de liberdade, pasmando com a infinita gente que a elas concorria, a pé ou a cavalo, para comprar quer aos bufarinheiros que vendiam nas suas caixas tudo o que se podia imaginar e seria impossível de descrever em tão poucas palavras quantas as necessárias para que o leitor não perca a sua paciência e repute esta sua narradora de prolixa e mentirosa ou de plagiadora de antigos livros chins, a mesma fama que acompanhou Fernão Mendes Pinto por muitos séculos.

Os livros impressos eram sem conto, vendiam-se muito baratos, por ser a arte de imprimir um ofício antiquíssimo naquela nação, decerto incrementado pelo grande número de escolas e universidades espalhadas pelo império, para formarem os mandarins, pois só estes podiam desempenhar ofícios de governação e aspirar a altos postos. Ninguém era mais respeitado ou honrado no império do que eles, pelas suas letras, sabedoria ou ciência, porque os seus estudos eram muito caros, longos e árduos, com exames dificílimos, cujos erros e reprovações se puniam com duríssimos castigos de açoites.

Fernão fora testemunha dessa relevância, ao integrar a guarda do monteo no cortejo do Xileyxipatou, o senhor de todos os nobres, que ia presidir à graduação dos lauteaas; sendo o mais alto chaem da Justiça, o séquito espelhava a magnificência do seu estado. Os escrivães e oficiais mais baixos abriam caminho, dando muitos brados para o povo se afastar e deixar as ruas livres à sua passagem, sob a ameaça de açoites, como havia feito a gente do chumbim que o conduzira engaiolado do cais à prisão. Fernão sorrira da comparação, vendo como o cortejo, que então o fizera pasmar, só lhe parecera grandioso por ainda pouco ter visto das cerimónias à charachina, pois nem de longe aquele se podia comparar ao deste mandarim.

Após os escrivães, iam quatrocentos upos, brandindo correntes de ferro que rojavam pelo chão com medonho estrondo, mais o corpo da sua guarda composto por trezentos mogores e vinte e quatro porteiros de maça; atrás destes cavalgavam doze peretandas ou corregedores, empunhando bandeiras e outros doze com guarda-sóis de cetim com hastes muito compridas.

Na cauda do cortejo seguia o dignitário Xileyxipatou, sentado num carro triunfal, levando à direita um menino vestido de branco, com as insígnias da misericórdia nas mãos e, à esquerda, outro menino trajado de vermelho, com os símbolos da justiça, ambos montados em cavalos ajaezados e paramentados com as respectivas cores.

Atrás do carro, cavalgando facas brancas com jaezes de prata e gualdrapas de seda, trinta e seis mulheres tangiam e cantavam com vozes muito harmoniosas, seguidas por sessenta oficiais de justiça, a pé com espadas douradas às costas. Fechavam o desfile vinte cavalos, com ricos jaezes, cobertas de brocado, cada um acompanhado por seis alabardeiros e quatro estribeiros.

– É melhor ver por si próprio uma vez do que ouvir cem vezes de outros! – exclamara Fernão, terminada a cerimónia.

115 Este anónimo homem honrado pode ter sido Fernão Mendes Pinto, mais tarde companheiro do jesuíta no Japão.

116 Mogores, do persa Mughal, designava um dos ramos dos mongóis da Ásia Central, ocupado no século XVI na conquista do norte do Indostão; tártaros eram os mongóis da Tartária, assim denominados pelos chineses e portugueses; cauchins eram os naturais da Cochinchina.

117 Excerto de um poema de Lu-Yin (1125-1210).

X

Caça, pesca, guerra e amores, por um prazer dão mil dores.

(português)

Lição de Sunü jing, a Donzela Branca, ao imperador Huangdi118:

Huangdi: Mesmo quando sinto um forte desejo de sexo, a minha haste de jade não se ergue. Fico tão embaraçado que a minha face cobre-se de vergonha e de gotas de suor. Contudo, o meu desejo é tão forte, que recorro à ajuda da minha mão. Que devo fazer?

Sunü: Os homens costumam cometer um erro, enquanto fazem amor. As mulheres conquistam os homens como a água conquista o fogo. Os conhecedores da arte de fazer amor são como aqueles que sabem misturar os cinco sabores para fazerem uma boa refeição, como os conhecedores do modo Yin e Yang que gozam dos cinco prazeres da vida. Um homem deve saber como controlar o seu fluxo, ele não pode apreciar a vida se ignorar a arte do amor. Homens e mulheres são como o Céu e a Terra, cuja eterna natureza jaz na sua unidade.

Huangdi: Que acontecerá se não tivermos sexo?

Sunü: Tal não deve acontecer! Yin e Yang têm de alternar como tudo o mais na natureza. Os seres humanos devem seguir os ritmos do Yin e Yang, tal como seguem as mudanças das estações.

Huangdi: Como se chega à união harmoniosa do Yin e Yang?

Sunü replica: Para um homem o elemento essencial é reter o seu fluxo, para evitar o enfraquecimento da sua força; para uma mulher é o orgasmo. Os que não seguem este método enfraquecem. A função do orgasmo da mulher é manter o equilíbrio das energias, acalmar o coração, fortalecer a vontade e desanuviar a mente. Ao conciliar o orgasmo da mulher com a preservação das energias do homem, ambos experimentarão uma profunda sensação de bem-estar, sem sentir calor e frio, fome ou saciedade, para o corpo desfrutar o seu prazer em paz.

Os chins exerciam um grande fascínio sobre Fernão, Zeimoto e Cristóvão por serem um povo de muita polícia, governado por rígidos preceitos e cerimónias para cada acto das suas vidas, com uma sabedoria ou arte de viver como os portugueses nunca tinham visto em outro povo. Os três amigos esforçavam-se por aprender os seus usos, leis e crenças, a fim de não cometerem actos ofensivos que os levassem de novo à prisão com a pena agravada.

– O Yang é o princípio masculino, activo, diurno, luminoso e quente que governa os homens e Yin o princípio feminino, passivo, nocturno, sombrio e frio, próprio das mulheres – discorre Fernão. – Estes dois princípios opostos determinam todos os fenómenos do universo, todos os processos e situações do mundo, como a subida e a queda, a harmonia e o conflito. É assi, Cristóvão?

– Estás a converter-te à lei dos gentios? – ri-se Zeimoto.

– Vem no nosso livro – contrapõe Borralho – e já concordámos em que nos será útil conhecer as suas crenças. Pelo que eu entendi desse arrazoado, Fernão, ao Yin corresponde a linha quebrada, os números pares e o quadrado que, na sua forma pura, representa a Terra. Ao Yang corresponde a linha contínua, os números ímpares e o círculo, representando o arco do firmamento, o Céu. Os dois princípios são invisíveis, mas revelam-se através de cinco elementos – Água, Fogo, Madeira, Metal e Terra.

– Madeira e Metal não fazem parte dos quatro elementos primordiais, mas sim o Ar! – exclama Zeimoto.

– Para os chins, são cinco elementos que tanto podem destruir-se uns aos outros, como renovar-se: a Madeira destrói a Terra, porque a vegetação esgota o solo e a Terra destrói a Água quando a absorve; esta apaga o Fogo que, por sua vez derrete o Metal, o qual corta a vegetação, destruindo a Madeira. E a Madeira produz Fogo, que com as cinzas cria Terra, a qual, produzindo minérios, dá origem ao Metal, que faz brotar a Água em forma de fluidos que criam a Madeira ao gerarem vegetação.

– Silêncio!

Calam-se porque o saimento da parente do monteo entra agora no cemitério. O capitão favorecia os três degredados, agradado pelo seu esforço e interesse em aprender, tendo por boa obra educá-los como gente civilizada, por isso, decidira levá-los no seu séquito às exéquias da tia.

Durante as cerimónias, os três amigos sentem a dor da saudade e da solidão abater-se sobre eles como um pelouro de basilisco. O silêncio apenas quebrado pela melopeia dos cânticos e pelo sussurro do vento nas árvores, torna mais pungente o medo da morte, mais duro de sofrer naquela paz do que na aflição do naufrágio, com o tétrico quadro das ossadas empilhadas como uma montanha por trás de incontáveis capelas cheias de caveiras até ao tecto, com as estátuas aterradoras do seu culto, como a da serpente enrolada que tem na sua frente o homem com um pelouro na mão em jeito de o lançar.

Representam a Serpe Tragadora e o Muxiparão, o tesoureiro dos mortos, o qual dá o nome ao cemitério e impede a serpente de os levar para a Diyu, a Côncava Funda da Casa do Fumo – o reino governado por Yanluo Wang –, um labirinto sombrio de patamares e câmaras que servem de punição e renovação dos espíritos, preparando-os para a sua reincarnação, porque, quando a serpente morrer, os mortos ressuscitarão e irão morar para sempre na Casa da Lua. É a primeira vez que os três portugueses ouvem falar do Inferno e do Céu dos chins, a menos que tenham entendido mal a arenga dos monges que tratam da cremação do corpo.

Todos os parentes da defunta compram aos sacerdotes do pagode letras de câmbio, para ela ter dinheiro no Céu, assim como algumas caveiras, para que o porteiro do Paraíso, vendo a sua alma acompanhada destes servos, a receba como pessoa de qualidade e a deixe entrar, pois se for sozinha não lhe abrirá as portas.

– Letras de câmbio da terra para o Céu? – murmura Zeimoto, incrédulo.

– Os monges dizem-lhes que sem estes câmbios se não podem salvar por nenhuma via.

– E esta gente, de tanta polícia, crê nestes sacerdotes de Satanás?

– Não vejo grande diferença entre estas letras de câmbio dos gentios e as indulgências que pagamos à nossa Santa Madre Igreja, para os nossos pecados nos serem perdoados – retorque Fernão e cala-se, arrependido do desabafo que, se chegasse aos ouvidos das autoridades portuguesas, lhe poderia trazer dissabores; sossega-o o pensamento de que os amigos jamais o denunciariam por herege ou cristão-novo.

Terminadas as cerimónias, com a libertação de pombas e outros pássaros cativos a fim de ganhar a benevolência dos deuses e a sua permissão para a alma da defunta se libertar da terra e subir aos céus, o monteo entrega no templo a parte do legado da sua parente destinada ao imperador – uma obrigação de todos os que ali têm os seus ossos, que é honrada pelas suas famílias, cujos legados se destinam a alimentar no tronco do Xinanguibaleu os trezentos mil presos que ali vivem encerrados, enquanto não vão cumprir pena de trabalhos forçados na Grande Muralha.

Enquanto as mulheres regressam a casa, o monteo leva toda a companhia masculina a banquetear-se em honra da morta, incluindo os três degredados no seu convite e, durante o festim à charachina, roga-lhes que contem a sua aventura amorosa, para lhes alegrar a tristeza. Os folangji já não estranham que os chins festejem a morte com alegria e, em paga da generosidade do amo, decidem contar-lhes a sua ida ao Mercado dos Cavalos Magros, cada um tratando de embelezar o feito para maior agrado dos ouvintes.

– Quando recebemos a primeira paga do notável e generoso capitão Liu Xugang – começa Fernão, com as costumeiras zumbaias tão do agrado dos chins –, quase perdemos o siso, de tão felizes por estarmos livres e a trabalhar em casa de pessoa de tanta qualidade que nos punha dinheiro no bolso.

– Tendo passado mais de um ano presos, desterrados da nossa nação e das nossas famílias, à espera da morte – acrescenta Borralho –, era mister espairecer e nós os três fomos em busca de um tasco para beber um copo e alegrarmo-nos.

.Andávamos já há algum tempo a percorrer o bairro de tavernas e estalagens da cerca exterior, mirando de fora, sem nos decidirmos a entrar em nenhuma, por medo de sermos roubados ou enganados. Ouvimos falar tanto de um certo Mercado dos Cavalos Magros que o quisemos visitar e perguntámos onde era. A nossa pergunta causou grande riso, decerto por falarmos mal a língua, mas, conhecendo-nos por estrangeiros, logo nos ensinaram como lá chegar, assegurando-nos de que seríamos muito bem recebidos.

A rua assinalada era igual às outras, com tendas de desvairados produtos, tascas e casas de chá, tendo às portas homens e mulheres a chamarem os fregueses. Como íamos honestamente trajados com as roupas oferecidas pelo nosso generoso capitão, mal perguntámos onde podíamos mercar os ditos cavalos magros, fomos agarrados por uma multidão de solícitos vendedores que quase nos despedaçaram. Um gigantesco eunuco levou a melhor sobre a concorrência e arrastou-nos de supetão para dentro de uma casa.

Surpreendeu-nos ver, em vez de uma cavalariça ou picadeiro com as ditas alimárias magras, uma sala bem concertada com mesas, bancos e cadeiras onde se sentavam algumas moças, por sinal, bem gentis. A patroa fez-nos sentar, bateu as palmas e ordenou:

“– Menina, cumprimente Suas Senhorias”.

Uma das meninas ergueu-se do banco e acercou-se com o andar saltitante de pássaro, ao modo das donzelas de qualidade, curvou-se em graciosas vénias, serviu-nos chá e doces com muito primor.

Por duas vezes a matrona bateu as palmas e as duas moças que acudiram ao chamado vieram saracotear-se ante nós, ora virando-se de costas ora de frente, erguendo um pouco a falda da veste para mostrar os pés pequeninos, expondo o rosto à luz para que a víssemos bem e retirando-se em seguida.

Sem saber o que dizer ou fazer, olhávamos uns para os outros, alparvados, percebendo por fim que nos achávamos num mercado para comprar mulher ou concubina. Quando a terceira moça acabou a sua apresentação, levantámo-nos de chofre e saímos a correr, empurrando uma multidão de solicitadores que nos esperavam e nos perseguiram quase até casa.

– Eram bem bonitas, as meninas! – exclama Zeimoto, a concluir a história dos desamores dos folangji, contada a três vozes, para grande gáudio dos convivas que, por diversas vezes, os haviam interrompido com estrondosas gargalhadas e ditos brejeiros.

– Devíeis ter tomado um pouco de âmbar, que é o melhor remédio para uma boa cópula, com homem ou mulher.

– Sem dúvida! Fortalece o ímpeto amoroso, além de aproveitar ao coração, cérebro e estômago.

– Ímpeto e vontade tínhamos sobejos, elas é que não estavam ao alcance das nossas bolsas! – suspira Fernão, aproveitando a pausa em que os convivas limpavam os olhos e rostos das lágrimas causadas pelo riso. – Só tivemos aquele bom recebimento porque a alcoviteira e o capado se deixaram enganar pelas farpelas novas oferecidas pelo nosso generoso e ilustre capitão Liu Xugang.

– Eram bem formosas, lá isso eram!

Os três namorados lusos suspiram ruidosamente fazendo recrudescer os risos e os aplausos dos chins, numa galhofa mais própria da celebração de um casamento do que das exéquias de um parente.

– Se queríeis quebrar o jejum de mulher, não era aí que devíeis ter ido, mas sim ao jardim das flores ou, na falta de melhor, ao bairro das lanternas vermelhas.

118 Sunü jing ou Arte do Quarto de Cama (Clássico da Donzela Branca), um dos mais antigos livros de medicina chineses sobre sexo e sexualidade, dos finais do período Han, 27-260 d. C. Texto traduzido pela autora de uma versão em inglês.

XI

Um homem feliz é como um barco que navega com vento favorável

(chinês)

Do Sunü jing ou Arte do Quarto de Cama (Clássico da Donzela Branca):

Huangdi: Como podemos saber se a mulher está a sentir um orgasmo?

Sunü: Há cinco sinais, cinco desejos e dez movimentos. Podereis sabê-lo observando o processo da sua transformação.

Os cinco sinais da mulher:

1. A sua tez torna-se afogueada. O homem deve acariciá-la gentilmente.

2. Os mamilos endurecem e aparece transpiração no nariz. Então o homem deve penetrá-la devagar.

3. A sua garganta fica seca e ela engole. Agora o homem deve movimentar-se suavemente.

4. A vagina torna-se viscosa. Então a penetração pode ir mais fundo.

5. A sua secreção corre. O homem deverá retirar-se gentilmente.

Os cinco desejos da mulher que pedem resposta:

1. Pensamento: a mulher retém a respiração.

2. Vagina: as suas narinas e boca estão bem abertas.

3. Desassossego: fica excitada e abraça o seu parceiro.

4. Coração: a sua transpiração molha-lhe as roupas.

5. Orgasmo: ela estira o corpo e cerra os olhos.

Os dez movimentos da mulher:

1. Abraça o parceiro de tal modo que os seus genitais se tocam.

2. Estende as coxas de modo a esfregá-las contra o seu parceiro.

3. Expande o ventre para aumentar a excitação.

4. Move as nádegas para estimular o vigor e o prazer.

5. Ergue as pernas para obter maior penetração.

6. Aperta as coxas uma contra a outra para preparar o orgasmo.

7. Vira-se para um lado, a fim de conseguir uma penetração mais profunda, acariciando ao mesmo tempo ambos os lados.

8. Ergue o corpo para mostrar que se está a vir.

9. Estica o corpo para expressar a sua satisfação orgástica.

10. Termina o acto.

Se virdes os sinais acima mencionados, sabereis que a mulher teve o orgasmo.

Sendo uso entre pessoas de qualidade oferecer festas e banquetes, a fim de manter a face, acrescentando a sua honra e estado – as duas coisas que os chins mais prezavam no mundo –, Liu seguia a tradição. Nos dias de festim o monteo alargava a mão e os cordões à bolsa, a fim de receber os seus convidados com representações de farsas e exibições de animais bravios ou com os maiores primores de canto e dança, executados por formosas cortesãs e mulheres de partido contratadas nos mercados do vento e da lua, os seus bordéis, colhendo no fim a paga em louvores dos lisonjeiros e murmurações dos ociosos, para acrescentamento do nome da sua família.

Como os folangji eram a gente mais exótica, bárbara e cómica que havia visto em toda a sua vida, o monteo decidiu incluí-los entre os seus convidados para o banquete da primeira noite da lua cheia, um mês depois da entrada do estranho bando na sua casa. Nenhuma farsa ou ópera da melhor companhia de artistas de Pequim lograria causar nos seus refinados convivas o mesmo grau de diversão e espanto que o mero comportamento dos estrangeiros à mesa, condimentado pelo picante das suas canções e histórias. O capitão apostava a vida em como o seu banquete haveria de ser falado, durante muitas luas, com admiração, despeito e cobiça.

Liu fá-los sentar repartidos pelas mesas dos convivas, postas sem toalha, mas com guardanapos e louça de porcelana fina, a rescenderem de carnes de galinha, adem e porco, assadas ou cozidas, cortadas em pedacinhos, adubadas com muitas especiarias, alho e conservas, verdadeiros manjares dos deuses para a maioria dos famintos folangji que durante um ano tinham vivido de esmolas e do abominável rancho da prisão. Pluma de Fénix, Sino de Prata e Gota de Orvalho – três moças formosíssimas, tanto quanto permitem adivinhar o alvaiade e o arrebique com que pintam todo o rosto – conversam com os hóspedes, servindo-lhes vinho e oferecendo-lhes iguarias.

Tal como o monteo previra, os seus distintos convidados folgam muito com os estrangeiros, mirando-os sem disfarçarem a curiosidade, burlando-se com mil ditos e risos dos seus modos bárbaros, que eles sofrem de bom grado, conquanto possam comer à tripa forra e fartar o estômago.

Desde que pisara a terra da China, Fernão esforçara-se por comer ao seu modo com os dois pauzinhos na mão direita e uma taça de porcelana na esquerda e fazia-o já sem dificuldade, não perdendo um só grão de arroz. Prezava-se de ser cortês e ter boas maneiras, aprendidas na sua juventude ao serviço de homens fidalgos como Francisco de Faria ou, em particular, o Senhor D. Jorge, o Mestre da Ordem de Santiago, tendo assistido inúmeras vezes às refeições da nobreza e observado os seus gestos.

Sabia que o copo e a faca bem limpa deviam estar à esquerda, a fatia do pão à direita do prato, o guardanapo, se lho fornecessem, posto sobre o ombro esquerdo ou no braço. Devia lavar as mãos antes de comer, cortar um pedaço de carne da travessa, tomá-lo com três dedos e pô-lo no prato ou, à falta dele, sobre uma grossa fatia do pão. Não era coisa de gente com polícia ser o primeiro a servir-se, meter as duas mãos dentro da bacia, remexer na carne para escolher o naco mais apetitoso, lançar na travessa comum o pedaço de carne e o osso roídos ou mergulhar no molho o pão mordido.

Tudo isso era próprio de gente bisonha, tal como bufar, estalar os lábios ao comer, lamber os dedos e limpá-los às vestes, tirar comida dos dentes com a faca, cuspir na mesa, assoar-se à toalha, ao chapéu ou à roupa ou soltar peidos, sem se dar sequer ao trabalho de apertar bem as nádegas para os conter ou de tossir para esconder o ruído da explosão.

Para grande gáudio dos convidados chins, é desse modo grosseiro que se estão a comportar quase todos os seus companheiros e Fernão trata de afogar a vergonha no vinho de arroz, regalando-se com os bolos fritos de mel e açúcar ou os doces de escudela de que se serve com uma colher de prata.

Os chins fazem-lhes as costumeiras perguntas sobre os encontros com os corsários, o naufrágio, a prisão e, tal como haviam feito em casa dos grandes senhores, Pinto, Borralho e Zeimoto tomam a seu cargo as despesas da conversa, contando-lhes a sua história que, de tantas vezes repetida, já lhes soa a verdadeira. Os relatos dos combates, molhados com muitas lágrimas, são tão convincentes que os interlocutores, cheios de dó, não suspeitam sequer terem ante si os verdadeiros corsários e não as suas vítimas.

Pluma de Fénix ergue-se, iniciando ao som do erhu e da flauta, tocados pelas companheiras, uma dança lenta, condicionada pelos passos saltitantes, toda feita de gestos esculpidos como os uma estatueta de porcelana. O efeito é tão belo que, quando termina, o silêncio parece ficar suspenso dos seus dedos, antes de romperem os aplausos dos portugueses e dos chins, a quem a bebida copiosa avermelhara os rostos e animara os espíritos.

Gaspar, a pedido do monteo, toca algumas canções portuguesas, sendo acompanhado pelo animado coro dos companheiros, esquecidos das anteriores misérias graças ao bem-estar que lhes causam o vinho, a comida e a presença das mulheres.

Segue-se um jogo de rondós, em que Gota de Orvalho, a azougada tocadora de flauta, faz um verso e o convidado a quem ela se dirige acrescenta logo o segundo, continuado pelos restantes convivas; os que se enganam ou falham, além de sofrerem a troça dos mais talentosos, são obrigados a beberem um copo de vinho a cada engano, castigo que contribui largamente para soltar as línguas e a sensualidade, sobre os hábitos sexuais dos folangji.

– Na vossa terra, os homens só têm uma mulher? – escandaliza-se um mandarim idoso, tio do monteo. – Se um homem possuir sempre a mesma mulher, a essência feminina do Yin torna-se fraca e não aproveita ao homem. O Yang masculino é modelado pelo fogo, o Yin pela água. Tal como a água pode apagar o fogo, o Yin pode diminuir o Yang se o contacto se prolongar durante muito tempo, a essência Yin, absorvida pelo homem, crescerá mais forte do que a sua própria essência, podendo destruí-la. Se um homem quiser permanecer jovem e belo para sempre, deve copular pelo menos com dez mulheres num só dia, mas sem nunca soltar o seu sémen.

– Esposa, pela nossa lei, só podemos ter uma – esclarece Zeimoto, sem todavia perceber o que o homem dizia –, embora muitos homens tenham também mancebas e escravas, mas fora de sua casa, em segredo, para que a consorte legítima não saiba, porque se ela suspeitar, o marido não mais terá sossego.

– O homem e a mulher são as raízes do Yang e do Yin, respectivamente – insiste o mandarim. – O homem tem de ter sempre duas mulheres, porque ao Yang correspondem os números pares, ao Yin os ímpares.

– Como fazeis para que as vossas mulheres e concubinas vivam juntas em tamanha harmonia? – pergunta Fernão.

– Nem sempre assim é, muitas vezes por culpa do marido – esclarece um oficial de patente superior à de Liu Xugang, que o escuta com muito acatamento. – Para conseguir a harmonia e felicidade no meu lar, quando comprei a minha última concubina e a levei para casa, embora me apetecesse fechar-me com ela no quarto de cama três dias seguidos, não o fiz. Dei muito mais atenção à minha esposa e às outras concubinas, para que não se sentissem humilhadas ou preteridas, contudo, sempre que me deitava com qualquer delas para os jogos da nuvens e da chuva, mandava vir a neófita para junto do leito, recomendando-lhe que prestasse muita atenção ao que a sua irmã fazia. Depois das quatro ou cinco primeiras noites passadas com as minhas mulheres, com a donzela a ver, deitei-me pela primeira vez com ela, desflorando-a, na presença da minha mulher e concubinas, para lhes mostrar que não a desejava ou lhe queria mais do que às outras. E assim conquistei a paz.

Soam aplausos e o mandarim felicita-o:

– Foi uma estratégia de mestre, própria de um adepto da Arte do Quarto de Cama. Pena que se tenha proibido a publicação dos tratados taoistas que poderiam ser de grande utilidade e fonte de conhecimento para estes estrangeiros que se mostram ávidos de aceder à nossa requintada civilização.

– Em verdade, deveríamos ter em conta que as mulheres estão sempre em casa, ocupadas com tarefas insignificantes de arroz e sal ou a enfeitarem-se para o esposo, tendo como divertimentos apenas a música, os bordados, os jogos de cartas ou o xadrez. A sua única satisfação e prazer residem nos jogos de nuvens e chuva com o seu senhor.

Voo de Fénix envia um sorriso de gratidão ao jovem letrado que acaba de falar e se ruboriza desvanecido com a atenção da formosa.

– Todo o homem devia conhecer bem a arte do quarto de cama para satisfazer a sua esposa e concubinas. As mulheres insatisfeitas são quezilentas e de difícil trato.

– A mestria do homem nas artes do amor tem mais valor para uma mulher do que a juventude ou a beleza do amante – acrescenta Gota de Orvalho, com provocadora zombaria para o moço letrado, agradecendo com acenos graciosos os calorosos aplausos da assistência.

– Conheceis os nossos Jardins de Flores? – pergunta aos folangji um abastado mercador de seda. – Não há melhor lugar para um homem esquecer as agruras da vida, cousa de que, a meu ver, estais bem necessitados.

– Quem nos dera, pois com tão prolongado jejum, já quase nem sabemos como é feita uma mulher! – Borralho suspira ruidosamente, arrancando grandes gargalhadas. – Porém, esses paraísos estão vedados aos que têm as bolsas vazias.

– Tendes os Barcos de Flores, no rio, embora as mulheres tanka não sejam muito educadas nem requintadas e falem em dialecto – sugere Sino de Prata, a cantora, com uma nota de desprezo na voz. – No entanto, podeis ter aí companhia, desenfadamento e ceia por módico preço.

– Deveis, todavia, tomar alguns cuidados na escolha do lugar e das moças – avisa o mandarim – porque muitas dessas mulheres passam ao homem o veneno da sua ameixa, disfarçando com sinais as manchas amarelas da sua pele. Deveis lavar-vos sempre antes e depois de estar com uma tanka e, antes do coito, untar a haste de jade de geleia ágar-ágar para cobrir feridas, prevenindo infecções.

– O velho está a referir-se ao mal de Cantão – diz Fernão em português para os companheiros.

Era chamado pelos médicos e boticários morbo napolitano e fazia muitas vítimas entre os portugueses da Índia que o tratavam com salsaparrilha e mercúrio, mezinhas assaz dolorosas, de pouco proveito. Sino de Prata, a mais velha das três moças, receita:

– Quando a haste de jade não se ergue, o remédio para a fortalecer é um xarope feito de um composto de cogumelos, folhas de sempre-verde e sementes de salsa, linho-de-cuco e laranja; basta tomar uma pequena colher três vezes ao dia, juntamente com vinho de arroz, para em poucos dias se fazer de novo forte.

– Pó de corno de veado com raiz crua de acónito é mezinha infalível. O general Wu tomava-o e teve um filho já depois dos oitenta!

As gargalhadas dos convivas premeiam a maledicência do militar perito na arte do amor, o qual, vendo o chão juncado de comida em volta dos cinco folangji que não falam nem compreendem a língua, não perde a oportunidade de os aconselhar:

– Voltando aos Barcos de Flores, mesmo nos mais modestos, deveis tratar as mulheres com a maior cortesia, ainda que não vos entendam, mostrando-vos carinhosos nos vossos gestos e falando-lhes com gentileza. Vós que sabeis a nossa língua, referi-vos não por nomes vulgares mas por palavras doces e poéticas às partes secretas das vossas parceiras, para que a vossa haste de jade tenha facilmente acesso à porta de jade ou do palácio de cinábrio, à entrada do quarto da felicidade, para chegar ao coração da flor, à peónia vermelha, ao fosso dourado.

– O pilar do dragão celeste tem de estar em harmonia com a flor da peónia aberta – acrescenta o velho mandarim, quando os risos diminuem, não querendo ficar atrás do guerreiro em assuntos da arte do amor –, por isso deveis conter o vosso ímpeto, para não enfraquecer o Yang, enquanto despertais o Yin da mulher, acariciando-lhe os seios, sugando-lhe os mamilos como uma criança que mama, percorrendo-lhe o corpo com os lábios, a língua ou até uma pena de pavão, avançando sem pressas ao encontro do campo divino, do jardim sombrio, entre as coxas de seda, até que o seu lótus vermelho se abra para receber a vossa haste de jade.

Quando, à hora da quinta pancada do tambor (cerca das três da madrugada), bêbados como cachos, os hóspedes se despedem do seu anfitrião, juram-lhe que aquela festa lunar foi a melhor das suas vidas. Os três portugueses, esgotados pelo esforço de responder às intermináveis perguntas, perturbados pela conversa dos bordéis e das manhas a usar no quarto de cama, já não são capazes de balbuciar sequer um agradecimento ou desejar uma boa noite, a vossas mercês na arrevesada fala; Gaspar Meireles tem os dedos inchados de tocar e está quase sem voz de tanta cantoria.

Liu Xugang fica tão orgulhoso do triunfo do seu banquete que não regateia agradecimentos aos folangji, dando a todos folga no dia seguinte para usarem do seu tempo como melhor lhes aprouver.

– Ide fazer uma visita aos Barcos de Flores – sugere, antes de se recolher, rematando: – Adiantar-vos-ei parte da soldada.

XII

Espere o melhor, prepare-se para o pior e receba o que vier

(chinês)

As mulheres de partido, de nenhuma qualidade as consentem morar dos muros pera dentro. E fora no revalde têm suas ruas próprias em que vivem, fora das quais não podem viver; cousa que a nós faz avesso. Todas as mulheres de partido são cativas, criam-nas pera isso desde meninas, compram-nas às mães e ensinam-nas a tanger viola e outros instrumentos e a cantar. E as que melhor sabem fazer isto, porque ganham mais, valem muito. As que isso não sabem valem menos. Os senhores, ou lhes levam as honras ou lhas vendem; e quando hão-de ser postas nas ruas das mulheres de partido, são escritas por um oficial del Rei em um livro e o senhor é obrigado a acudir cada ano com um tanto a este oficial; elas são obrigadas a responder a seu senhor cada mês com um tanto. Quando são velhas, a poder d’arrebique e alvaiade, as fazem parecer moças. E depois que já não são pera aquele ofício ficam livres de todo e sem nenhuma obrigação nem ao senhor nem a ninguém, e comem então do que ajuntaram.

(Padre Frei Gaspar da Cruz da Ordem de São Domingos)

De manhã, Fernão, Cristóvão e Zeimoto escapam-se da casa do monteo, à sorrelfa, para não terem de passar o dia com o bando, temerosos de que os ares da liberdade e o muito vinho que não deixarão de beber levem os companheiros a cometer desacatos metendo-os em sarilhos.

Os três amigos não ficaram incólumes aos vapores de sensualidade e erotismo da noite anterior, tendo de procurar palavras e imagens de sexo, para trasladar a conversa dos chins aos companheiros. Sobretudo quando os senhores travaram acesa discussão sobre as inumeráveis posições místicas, a fim de determinar quais as mais indicadas para o homem atingir a perfeita e harmoniosa união do seu Yang com o Yin das mulheres, suas ou alheias: para os portugueses, era como se estivessem a ver dentro das suas cabeças um livro dessas gravuras pecaminosas que a Igreja condenava.

Fernão sofrera o festim como um tormento deleitoso, por lhe ter feito reviver os momentos mais acesos da sua paixão por Huyen. A música e o canto das flores contratadas pelo monteo tinham-no transportado ao junco de António de Faria, para contemplar a Noiva Roubada, que parecia acariciar o erhu com os dedos transparentes, e ouvir-lhe na maviosa voz os versos magoados com que cantava o seu amor por outro homem. Assim, fora espairecer, com Borralho e Zeimoto, para os bairros nobres da cidade.

Fazem uma pausa para comer, numa praça com um templo, onde um velho, sentado numa banqueta alta, conta histórias a uma meia centena de homens, mulheres e crianças que o escutam sem arredar pé. Um mendigo pede-lhes esmola e Fernão vê que ele traz um Nenúfar Invertido.

– Tiremos a sorte – diz para os companheiros. – Quero saber o que nos reservam os Fados.

– Contra a boa e a má sorte, só tem poder a morte – sentencia Cristóvão.

– Pergunta se algum dia volveremos a Malaca. – chasqueia Zeimoto.

O Nenúfar Invertido é um anel que o adivinho traz suspenso por uma corda, de onde pendem fitas de seda vermelha com caracteres pintados que faz girar diante dos portugueses. Fernão agarra numa das franjas, parando a girândola, e lê os dois símbolos, procurando interpretá-los. Como a maioria dos caracteres da escrita chinesa, os que lhe couberam em sorte podem ter muitos significados e nem a ajuda do mendigo lhes esclarece a profecia.

– Ficamos libertos e presos? Partimos para volver atrás. que quer isso dizer?

– Um senho de infortúnio e outro de fortuna? Não entendo.

– Deus ainda nos castiga por crermos em adivinhações de gentios!

Os chins eram muito supersticiosos e nada faziam, nem tomavam qualquer decisão importante nas suas vidas sem auscultarem os seus oráculos, jogos da sorte ou adivinhação, consultando os mestres do I-Ching, o misterioso Livro das Mudanças ou o popular Lien-hoa-lo, o Nenúfar Invertido. Vivendo há bastante tempo entre este povo, apesar de afirmarem a sua descrença de cristãos nestas práticas gentias, os portugueses já não eram totalmente isentos da sua influência, pelo que sentem um arrepio de inquietação com o obscuro vaticínio. A fim de desanuviarem os receios e premonições, desafiam-se a passear na mais celebrada rua de Pequim, que desemboca na praça onde se acham, a qual fora muito falada pelos hóspedes do monteo, como um deleitoso jardim, onde se podia fruir do vento, das flores, da neve e da lua.

É um fojo de mulheres belíssimas e privilegiadas, em relação às de partido que pagam tributo, por serem, na sua maioria, mulheres viúvas ou casadas que fugiam aos maus tratos dos maridos e exerciam o seu ofício em casas protegidas pelo governo; ali ninguém lhes pode fazer mal, porque têm seguro do Tutão, a autoridade suprema do reino. Também as há cativas, compradas e criadas desde meninas para agradar aos homens, sendo ensinadas a tanger vários instrumentos, a dançar e a cantar na perfeição, rendendo bom dinheiro aos seus senhores.

Pasmados com o seu requinte e beleza, os portugueses apalpam com dedos inconsoláveis as bolsas com a magra soldada, ansiando por um milagre que não surge, porque, à qualidade destas formosas servas do prazer, corresponde o alto preço dos seus serviços, muito além das posses dos três degredados que se sentem como Tântalo a morrer de fome e sede, rodeados dos mais apetitosos frutos e néctares, todavia incapazes de lhes chegar. Se queriam companhia e conversação com mulheres, não lhes restava outro remédio senão procurá-las nos arrabaldes mais modestos da cerca exterior ou nos barcos das tanka, essas mulheres de partido que estão proibidas de morar dentro da cidade e têm as suas pousadas na cidade flutuante de onde não podem sair.

Foi à entrada do cais das lanternas vermelhas que os seis companheiros os apanharam e não mais os largaram, arrastando-os para os ansiados barcos de flores, a fim de saciarem o prolongado jejum de mimos feminis. Manifestam ruidosamente a alegria pelo dia de folga e pela bolsa onde chocalha a prata que lhes dará acesso ao paraíso descrito pelos ilustres convivas da noite anterior. Com chistes brejeiros, evocam o traslado dessa lição da arte do quarto de cama, feito pelos seus línguas em termos tão ardentes e imagens tão sugestivas que, aliados à presença das cantoras e dançarinas, a uns tinham quitado o sono e a outros povoado os sonhos de imagens sensuais, deixando-os a todos exauridos de forças, pálidos como convalescentes de sezões.

– Precisamos de vossas mercês como línguas – brada Valentim, de olhos brilhantes –, para nos fazermos entender das beldades e termos conversação com elas.

– Não se diz ter conversação com a moça – zomba Gaspar –, mas banhar o corpo com ela ou meter a enguia na cova. Não haveis aprendido nada da lição de ontem?

– Eu não quero falatório – remata Pereira, mal-humorado. – Para mim, vai ser atar e pôr ao fumeiro.

A grande cidade feita de barcos119 tem a mesma ordem, nobreza e concerto da urbe que se ergue em terra, com mais de duas mil ruas de embarcações unidas umas às outras, muito compridas, direitas e fechadas com barcos de ambos os lados, cobertas com toldos de seda, enfeitadas com bandeiras e estandartes. Nas feiras, que duram quinze dias, da lua nova até à lua cheia, a cidade movediça aumenta de tamanho, espraiando-se por uma légua de comprido ao longo da terra e um terço de légua de largo, com mais de vinte mil embarcações. Tanta é a gente que vive pelos rios como a que habita em terra nas vilas e cidades, pelo que, se não estivesse sujeita a muita ordem e governo, se comeria uma à outra.

Por todo o lado, há casas de oração, ao modo de capelas, erguidas em barcaças tão grandes como galés, com toldos revestidos a folha de ouro, para abrigarem os ídolos das suas muitas crenças, onde os sacerdotes fazem as orações e os sacrifícios. Ali, como em terra, se acha toda a sorte de oficiais mecânicos e de comerciantes, repartidos por bairros, sendo os de um trato ou ofício impedidos de negociar ou laborar em outra coisa, sob pena de trinta açoites. Assim, dos criadores de porcos há os que só os podem vender vivos e inteiros; os que apenas negoceiam em leitões; os açougueiros com ofício de matá-los e vendê-los aos arráteis; outros encarregues da chacina e da venda das carnes de fumo, ou os que tratam dos miúdos de tripas, banhas, peles, sangue, fressuras.

Além das artes e ofícios, a cidade flutuante possui todas as comodidades do campo, visto haver barcaças com hortas ou quintais onde criam legumes e frutos. Há bairros de panouras, fechadas de popa e de proa, com redes de canas como capoeiras de três e quatro sobrados, cada um da altura de dois palmos, cheias de galinhas e adens; outras com currais de porcos e de gozos – uns cães pequenos cuja carne os chins muito apreciam quando cozida com cascas de laranja, para lhe secar a humidade e a fazer tesa, quitando-lhe o mau cheiro; outros com grandes tinas de água com peixe vivo, preso com um junco pelos narizes, para o comprador lhe poder ver o tamanho sem o apolegar nem sujar, assim como pipos com cágados, rãs, lontras, cobras, enguias, caracóis e lagartos.

Através deste labirinto de canais, navegava em grande azáfama a vender os seus produtos, uma infinidade de pequenos balões, guedéis e manchuas, que servem de casa aos desprezados pescadores e mercadores tanka, a quem os chins chamam famílias de vermes, os shui shangren ou gente que vive na água. Cruzam-se constantemente com as embarcações militares, muito bem armadas, comandadas por trinta capitães que, com as suas quadrilhas de upos, vigiam e patrulham por fora e por dentro a cidade flutuante, anunciando a sua passagem em altos brados, para desencorajarem os ladrões.

De noite as ruas de barcos são iluminadas por lanternas postas nos mastros e fechadas com cordas que se atravessam de umas às outras, para que ninguém passe depois do toque do sino a recolher; o espectáculo das incontáveis luminárias acesas no rio é a mais formosa vista que se pode imaginar.

Sendo os chins, tanto ricos como pobres, grandes amantes do prazer, nesta urbe fluvial não pode deixar de haver jardins de desenfadamento, casas de chá, estalagens, tabernas, barcaças de malcozinhado e. casas de alegria ou campos de flores, o poético nome dado na terra aos bordéis e lupanares, que proliferam no seus bairros próprios, nas ruelas de fumo (as das flores de mais baixa condição e menor valia), anunciados pelas lanternas vermelhas dos barcos pintados de cores festivas, pelo som de música e de alegres canções, pela presença das arrebicadas moças que nos conveses deixam antever o pescoço nu e parte do seio, procurando atrair uma borboleta ao coração da sua flor ou, numa versão menos poética, caçar uma lebre, com promessas de bons serviços para todos os gostos e todas as bolsas. O bairro agita-se com o vaivém da clientela masculina e os portugueses mergulham nele, tão inebriados como se tivessem passado o dia a beber.

– Não preguei olho toda a noite, tenho as pernas a tremer – protesta Jorge, em tom sério, depois de percorrida a primeira rua. – Credes que hei mister da mezinha de corno de veado?

Vendo passar o estranho bando de foliões, os alcaiotes e as alcovetas convidam com voz e modos comedidos:

– Abri os vossos corações, ilustres visitantes! Sacudi a tristeza, com a música e as cantigas das nossas tangedoras.

– Nobres e excelentes viajantes, vinde tomar um banho e passar a noite na nossa pousada. Vereis as melhores bailadeiras de Pequim.

– Temos vinhos e comida da melhor qualidade, os pêssegos e as ameixas mais saborosas do bairro, veneráveis e insignes estrangeiros – aliciava um turgimão, acentuando as palavras com esgares maliciosos e os portugueses percebem que, ao nomear os frutos, o rasca-piolhos se refere às naturas das mulheres.

Entram de roldão no barco, berrando pelos três línguas que se deixam ficar para trás, vendo o espanto da clientela chim, o susto das moças e a cara fechada do rufia encarregue da vigilância, mais parecendo um corsário wokou do que o estalajadeiro que diz ser. A barcaça é espaçosa, no tombadilho há cadeiras e mesas onde os frequentadores comem e bebem, acompanhados pelas moças, que disfarçam com sorrisos o receio que lhes causam os folangji peludos como macacos, de olhos esbugalhados e grandes narizes.

Como Fernão temia, os seis companheiros já vêm bem bebidos e querem entrar sem mais delongas na coberta inferior onde se acham os aposentos reservados às flores de lótus, no que são contrariados firmemente pelas moças, embora sorridentes e cheias de meiguice, que os puxam para as mesas. Alguma prata entregue à matrona que governa o gineceu e acorrera ao estrupido, abranda-lhes as vontades e o grupo mergulha no fojo acobertado do alcouce.

O espaço está dividido por tabiques em estreitos compartimentos iluminados por candeias de vidro, um com um canapé, os demais com esteiras e travesseiros; completam o mobiliário de cada estância, uma bacia com água e toalhas sobre um banco, uma cadeira para o visitante, uma mesa com perfumes, um pote de geleia ágar-ágar, incenso a arder num pequeno dragão de porcelana e um recipiente de vinho voluptuoso posto num aquecedor. As cortinas que vedam os cubículos permanecem abertas, deixando ver alguns deles ocupados por mulheres tankas, mais trigueiras do que as chins e sem os pés enfaixados.

Das paredes pendem papéis com símbolos de Boa Fortuna e gravuras representando as quatro posições fundamentais com as dezenas de variantes da arte de amar, com os respectivos nomes, como um tratado de medicina. O barco estremece com a surriada dos portugueses, as moças erguem-se assustadas das cadeiras e do chão, logo sossegadas pela matrona, que lhes faz sinal para que se acerquem, ordenando-lhes que preparem o chá.

– Não queremos chá, queremos vinho – berra Álvaro de Melo. – Mǐ jiǔ, báijiǔ, entendes?

Vinho de arroz e aguardente foram as primeiras palavras em língua chim aprendidas pelos portugueses e alguns do bando não tinham ido além destas; no entanto, a mulher faz um aceno de compreensão, dando novas ordens a duas moças que se afadigam em torno dos aquecedores do vinho. As restantes procuram insinuar-se no grupo dos folangji que parecem mais interessados nas imagens do que nas suas pessoas.

– As gravuras têm letreiros. Onde estão os nossos línguas? – clama Valentim.

– Vinde cá fazer-nos o traslado – insiste Pereira, de olhos esbugalhados.

– Não é preciso – protesta Fernão a rir. – Tira-se bem pelo debuxo!

Contudo, para manter a boa disposição do grupo, os três amigos lêem, ajudando-se uns aos outros na tradução das legendas:

– Os macacos lutadores: a haste de jade apunhala o ratinho perfumado; o salto mortal dos dragões: a haste entra morta e sai viva e vigorosa; duas tartarugas cavalgando; a fénix segurando o pinto.

– Ora vede se não é uma mulher grande com um homem pequeno! Mesmo a calhar para vossa mercê, Joaquim Pereira – achincalha Jorge que não perde ocasião de espicaçar o quezilento.

As moças, embora sem perceberem o que os folangji dizem, captam-lhes a excitação e as ânsias, ajudam com gestos maliciosos à tradução, rindo com eles e aplaudindo. Fernão retoma a leitura, para atalhar a resposta de Pereira com a consequente briga:

– Estas dizem, dois patos bravos voando para trás e o coelho lambendo o pêlo, não percebo o que vem a seguir, mas vê-se bem do que tratam; e aqui, a passada dos tigres: o homem avança e recua, oito alancos, cinco vezes.

– Como é essa? Estais a trasladar o que aí diz ou a inventar patranhas?

– Os peixes roçando as escamas – retoma Borralho –, o salto dos cavalos selvagens; esta não sei dizer; as seguintes, dois grous entrelaçando os pescoços e a aranha apanhada na sua própria rede.

– São duas mulheres, e uma delas está pendurada em cordas como num balouço – berra Pereira, apontando para a gravura, vermelho de paixão. – Eu quero essa.

– Não vos enxergais? – brada Álvaro de Melo, com um risada de desdém. – Se nem para uma chegais. Deixai-as para um homem a sério. como eu.

– Filho da puta! Sodomita! Paneleiro!

Rebentara a tormenta no Barco das Flores! Trovejam os palavrões e ondas de maldições rumorejam nas bocas retorcidas pelo ódio; os punhais escondidos nas roupas faiscam nas mãos dos seis homens, ferindo o ar de raios e coriscos, rasgando roupas e carnes; o barco balança como em mar alto sob o choque dos corpos engalfinhados.

– Pesar do Diabo! Rascões! Encomendo-os a Satanás! – murmuram Fernão, Zeimoto e Borralho, enquanto procuram esgueirar-se para fora do coberto, fazendo-se desentendidos, mas já não vão a tempo de escapar. O tumulto da rixa e os gritos espavoridos das mulheres fazem surgir, como por obra de feitiço, uma dúzia de rufiões, empunhando facalhões da feição de sabres ou trinchantes de esfandangar porcos: Fernão e Borralho são levantados no ar e lançados borda fora para o rio, com grande gáudio e aplausos dos clientes, das peónias e flores de lótus nos barcos próximos; Zeimoto é empurrado de novo para dentro e atirado para cima dos companheiros em luta.

Os dois náufragos, lutando para se manterem à tona e subirem para a embarcação, não testemunham as derradeiras peripécias da contenda, contudo não lhes é difícil adivinhar o resultado, quando três bargantes os pescam do rio e levam de arrastão para dentro do reservado. Devem a sua salvação à alcoveta que os indicara ao rufião de facha de corsário como os folangji que melhor falavam a língua.

Só desandâncias é que m’acontecem: a navio roto todos os ventos são contrários! lastima-se Fernão, ao lado de Cristóvão, a escorrer água no sobrado e a tremer como varas verdes, menos do frio do que das lâminas dos matantes que haviam vencido a resistência dos estrangeiros e os mantinham no chão à sua mercê. O acobertado parece ter sido assolado por um tufão, com mesas e cadeiras partidas, vidros estilhaçados, cortinas e panos rasgados, travesseiros esventrados, mostrando as suas entranhas de penugem.

– O barco patrulha não tardará a passar por aqui – diz-lhes o chefe da súcia numa voz fria, ameaçadora. – Se vos entregar, não escapareis aos trinta açoites e tão cedo não saíreis do tronco, pelo menos até pagardes o que me deveis. Destruístes-nos o barco, assustastes as moças e fizestes fugir os nossos clientes, causando-nos um enorme prejuízo. E, se eu não receber já a paga, não saíreis daqui inteiros.

Faz uma pausa, para que pesem as suas palavras e prossegue:

– Por outro lado, atendendo a que sois folangji e desconheceis os nossos usos, se me entregardes as vossas bolsas, deixar-vos-ei ir em boa hora, sem vos fazer qualquer dano. Falai com os vossos companheiros e decidi depressa, antes que passe o barco da patrulha.

Não há contradições nem argumentos entre os portugueses, obrigados pela necessidade a fazer tréguas: estão nas mãos dos facínoras e não podem arriscar-se a ser presos, pois teriam a pena agravada. Resignados, entregam as bolsas ao patrão da barca que, sem dizer palavra, as despeja numa balança de pesar prata e parece satisfeito, despedindo-os com um aceno.

Compõem as vestes rasgadas o melhor que podem e, fazendo apelo à sua dignidade espezinhada, de cabeça erguida, ombros lançados para trás, peito para fora, impantes de sobranceria, abandonam o barco das flores mais pobres e famintos do que quando penavam no tronco de Gofanjauserca.

119 Peregrinação, capítulos XCVIII e XCIX.

XIII

Quem ama mulher casada anda com a vida emprestada

(português)

Do Livro de Linhagens dos Freire d’Andrade:

Manuel Freire, filho 2.º de Nuno Freire e irmão de Rui Freire, o do Olho, foi casado com Grimanesa de Mello, filha de Álvaro Nogueira de Brito, de quem houve Dona Eirea Freire, mulher de Lopo de Brito, e Dona Isabel Freire, mulher de Dom João de Fárão, filho de Dom Sancho de Noronha, 2.º Conde d’Odemira, e outra freira, e bastardos, a Francisco Freire e Rui Freire d’Andrade. Este Manuel Freire é o que mataram à Porta d’Alfofa, em Lisboa, pela filha do regedor Aires da Silva e mulher de Francisco de Faria, com quem dizem que tinha amores. E com ele ia Fernão Peres d’Andrada, que escapou por pés, com o derrubarem primeiro, com ser muito bom cavaleiro e ter bons feitos na Índia120.

– Saímo-nos pior aqui do que no Mercado dos Cavalos Magros! – exclama Zeimoto. – Ficámos a ver navios e sem um real no bolso!

– Consola-te, homem, que estas putas eram feias – desdenha Borralho, despindo a veste molhada que se lhe colava ao corpo, acrescentando mais bizarria às suas figuras desgrenhadas que fazem os chins pararem a mirá-los.

– Corremos um grande risco de vida – acrescenta o prudente Fernão, imitando-o e ficando de tronco nu, como os mariolas que carregam os barcos –, maior do que no mercado das concubinas, pois aqui podiam cortar-nos as goelas e desfazer-se dos nossos corpos sem ninguém o saber. Tivemos muita sorte em só nos tirarem o dinheiro e os punhais aos que iam armados.

Foram os primeiros a entregar as bolsas e saíram antes dos outros, embrenhando-se nas ruas dos barcos, a fim de os despistarem e poderem regressar a casa sozinhos, jurando que não mais volveriam a andar com aquele bando de arruaceiros.

– Cães preados, má gafeira que lhes dê! – amaldiçoa-os Fernão, embora sem raiva, começando a achar graça ao entremez. – Uma boa história dos folangji para fazer rir o monteo e os seus ilustres convidados! Em cousa que meta mulheres, o azar persegue-me.

Cristóvão sorri, julgando que ele se refere à Noiva Roubada:

– Razão têm os matalotes quando dizem que a mulher, o fogo e os mares são três males que causam a perdição.

– E o pobre de mim que o diga! Desde muito cedo, na primeira casa em que servi, me vi enrolado em histórias de amores ardentes que me puseram a vida em risco.

– Conta lá essa, Fernão – roga Zeimoto. – Assim talvez nos salves o serão.

– Tinha eu uns doze ou treze anos e tive de fugir para salvar a vida. Ouvistes decerto falar de D. Joana da Silva, de Francisco Faria e de Manuel Freire?

– A que fez adultério? Estavas ao seu serviço?

– Aos doze anos já lhe fazias o serviço? Começaste cedo!

– Apesar de não ser eu o amante, amava-a como gente grande e por pouco não perdi a vida. Tive de fugir.

– Esse caso foi abafado. Era gente de qualidade.

– Que fizeste, inda tão cachopinho, pra te quererem matar?

– Podes contar-nos o teu segredo, descansado, que ele irá connosco para o túmulo!

Cede, contente por se libertar de um segredo que carrega há quase vinte anos:

– D. Joana era filha de Aires da Silva, o regedor das Justiças da Casa da Suplicação, senhor de Vagos e alcaide de Montemor-o-Velho, de onde eu sou natural, portanto não foi difícil a um dos meus tios, que era influente na terra, pôr-me ao serviço da sua nobre casa.

Agradada dos meus modos de gentil-homem de palmo e meio e da minha esperteza, D. Joana fez de mim o seu fiel pajem. Eu pagava-lhe o privilégio com cega devoção, enamorado da sua beleza, do bondoso sorriso, que não lograva esconder a melancolia dos seus olhos, sobretudo quando se achava só. Apenas na presença dos três filhos parecia esquecer essa paixão que a consumia.

Escutando os mexericos das aias e servas, fiquei a conhecer a história dos seus amores contrariados, do casamento arranjado pelo pai, que a oferecera a Francisco Faria, um homem abaixo da sua condição, em vez de a dar a Manuel Freire, cavaleiro da casa d’el-rei, o eleito do seu coração. Diziam ainda as alcoviteiras que o sogro, Antão de Faria, tratara de mover influências e conseguira afastar o rival do filho para as praças de África, a ver se, com sorte, os mouros o matavam.

Apesar da minha pouca idade, apercebi-me cedo da frieza entre D. Joana e o marido, ressentindo-me da maneira brusca como ele a tratava, deixando-a muitas vezes em lágrimas, que ela procurava disfarçar diante dos criados, mas não na minha presença. Nesses momentos, servia-a com maior diligência, tentando adivinhar-lhe os pensamentos, contando-lhe alguns mexericos e chistes, como se fora um bobo do paço, até a fazer rir. Durante as prolongadas ausências do marido em Palmela, de cujo castelo era alcaide-mor, D. Joana transformava-se em outra mulher, mais parecendo irmã do que mãe dos seus filhos, abarcando-me nessa auréola de carinho. Eu adorava-a a ponto de jurar que daria a vida por ela, o que, por pouco, não aconteceu.

No ano de vinte e três, estava eu há quase um e meio ao seu serviço, a minha ama chamou-me, estando só, para me dizer num sussurro:

– Fernão, sabes que te estimo muito, não sabes?

Senti o rosto a arder e tentei responder-lhe como um gentil-homem:

– Bondade vossa, Senhora. Estarei sempre ao vosso serviço enquanto me quiserdes e para tudo o que desejardes.

– Tudo? – sorriu com agrado e procurou os meus olhos que não se desviaram: – Sabes guardar um segredo?

– Senhora, sim!

– Preciso que me faças um serviço. – deixou de sorrir e hesitou, antes de concluir – arriscado.

Arrepiaram-se-me as carnes, mas volvi-lhe sem hesitar:

– Tudo farei, Senhora, para bem vos servir.

D. Joana afagou-me o rosto com as pontas dos dedos e eu corei de novo como uma donzela.

– Vai ao pavilhão de caça e entrega esta carta a um homem que lá está, mas antes pergunta-lhe como se chama. Só lha darás se o seu nome for Manuel Freire.

O amado da sua mocidade! O cavaleiro d’el-rei não morrera em Arzila, pelo contrário, fizera serviços de monta, casara por sua vez e tinha também três filhos. Que queria ele dela, surgindo assim ao fim de dez anos, perdidos os primores da juventude, casados ambos e com filhos? Nesse tempo, eu era tão moço que não sabia ainda como o amor pode ser insano e maravilhoso, capaz de fazer os amantes renascerem, como a Fénix das cinzas. Isso só haveria de aprender mais tarde.

Cala-se, de voz embargada e os companheiros sabem que ele se refere aos seus amores infelizes com a Noiva Roubada. Esperam em silêncio que ele se recomponha e recomece:

– Enfim, dei conta do recado e, desde esse dia, fiquei refém dos dois amantes, levando e trazendo mensagens como um alcoviteiro, ajudando aos encontros furtivos no pavilhão de caça, encobrindo a ausência da senhora, enganando aias e criadas com manhas que ia aperfeiçoando até me tornar mestre nelas. Contudo, não bastaram para o encobrimento da história.

Nunca cheguei a saber quem nos atraiçoou, porque, conhecendo o meu papel na aventura, todos se calavam mal me viam por perto e ninguém se descosia com chistes ou perguntas, agindo como se de nada desconfiassem.

Nessa noite, D. Joana chegou primeiro ao pavilhão e eu, como sempre, montei guarda do lado de fora, protegido pelas sombras, esquadrinhei a quinta com o olhar, não vendo qualquer movimento suspeito nos jardins, entre as casas dos caseiros ou dos serviçais. Quando Francisco de Faria estava ausente, o paço parecia deserto, sobretudo àquela hora nocturna.

Manuel Freire abriu o portão com a chave que D. Joana lhe enviara com a primeira carta e entrou tranquilo no parque, acolitado pelo primo, Fernão Peres de Andrada, pois não era seguro andar sozinho àquela hora perto da Porta de Alfofa. Ao chegarem às primeiras árvores da quinta, cinco vultos embuçados – ou antes quatro, porque o mandante manteve-se imóvel, à distância – saltaram-lhes em cima, derrubando Peres de Andrada com uma cacetada e ferindo Manuel Freire às cutiladas.

Escondi-me, quase desacordado de terror, vendo fugir o amante malferido, com os quatro meliantes a morder-lhe os calcanhares, porém o amo deu um brado, fazendo o seu fiel mouro deixar a perseguição e voltar para trás, talvez para acabar com o cúmplice do adúltero. Andrada recuperara entretanto os sentidos e, aproveitando-se da distracção do bando que se encarniçava contra o primo, escapara por entre as árvores.

Quanto a mim, não ousava bulir do buraco onde me refugiara, mal vira o ataque traiçoeiro. Então, Francisco de Faria entrou no pavilhão seguido do mouro. Ouvi o choro de D. Joana, cada vez mais forte, que me cortava a alma e o som abafado da voz do marido. Por fim, soou o grito irado:

– Confessai os vossos pecados, se quereis salvar a alma.

Não esperei mais. Não duvidava que D. Joana seria degolada pelo mouro (ouvira-o gabar-se dos muitos que despachara desse modo), a que logo se seguiriam os que haviam tomado parte na traição do adultério.

– Para me salvar – conclui Fernão, de cabeça já desanuviada pelo fresco da noite –, fui forçado a deixar a casa, naquela mesma hora, fugindo com a maior pressa que pude. Indo eu assim desatinado, por pouco não esbarrei na sé com os três fideputa que acabavam de matar a Manuel Freire. Quase borrei os calções, temendo que me conhecessem e segui correndo como quem vê a morte diante dos olhos a cada passo. Só parei no cais da pedra, onde achei uma caravela de Alfama que ia com cavalos e fato de um fidalgo para Setúbal. Como os ares andavam perigosos, não só pelos amores de Alfofa, como também da peste em Lisboa, nela me embarquei. Cuidando escapar do perigo, fui achar outro igual ou pior, nas bandas de Sesimbra, porque nos tomou um cossairo francês, o primeiro dos muitos ladrões do mar com que topei na vida. Mas isso é conto para outra ocasião, que já chegámos a casa, onde nos espera o leito que amanhã é dia de trabalho.

– Quem havia de dizer que o grande Fernão Peres de Andrada andou metido em negócios de adultério e morte!

– Como o mundo é pequeno.

– Muito boa história, Fernão Mendes!


Graças à benevolência do monteo e à curiosidade dos seus amigos, os dois meses e meio de espera para o degredo na Grande Muralha passaram quase sem os portugueses darem por isso. Quando Liu Xugang lhes anunciou a partida, marcada para sábado, treze de Janeiro, a dura realidade caiu-lhes em cima com a contundência de um raio, lançando-os de novo em negro desespero.

120 In Códice 979 da Biblioteca Nacional de Lisboa, fl. 221, As Linhagens de Portugal, de D. António de Lima.

XIV

Quando de cada oito marinheiros, sete são timoneiros, o navio vai a pique

(chinês)

Libelo do Promotor da Justiça de Quansy contra os folangji:

São os presos gente sem temor nem conhecimento de Deus, nem têm mais que confessado com a boca, como podia fazer qualquer animal bruto, se soubesse falar, porque de crer é que homens de uma nação, de um sangue, de uma carne, de uma terra, de um reino, de uma língua e de uma lei que se ferem e matam tanto sem piedade, sem haver causa nem razão para isso, pelo qual, conforme à lei do terceiro livro das brochas d’ouro da vontade do Filho do Céu, por nome Nileterau, os devem desterrar de toda a comunicação da gente como praga contagiosa e peçonhenta e que a sua habitação seja nos montes de Chabaqué, ou Sumbor, ou Lamau, para onde se costuma desterrar os tais como eles, para que lá ouçam bramir de noite as feras silvestres, que são da sua mesma progénie e vil natureza.

(Peregrinação, capítulo CI)

Quando se apresentara ao serviço, em Quansy, Liu Xugang tecera tais palavras de louvor aos nove estrangeiros que o chaem da Grande Muralha ficara cheio de curiosidade em os conhecer e mandara-os ir à sua presença para os interrogar em pessoa sobre as suas vidas, os lugares de onde vinham e se eram gente de peleja.

– Embora não passemos de mercadores, Excelência – responde-lhe Zeimoto, com muito acatamento, secundado por acenos afirmativos de Fernão e de Borralho –, uma vida de infortúnios e maus encontros com os wokou121 adestrou-nos no exercício de várias armas.

O mandarim manda-os escaramuçar entre si com espada e alabarda, mostrando-se muito satisfeito com o que viu:

– Liu Xugang, quero estes folangji na minha guarda de alabardeiros. Leva-os ao capitão, para receberem o equipamento.

Retiram-se com muitos agradecimentos e zumbaias à charachina e o monteo diz-lhes, com agrado:

– Grande favor vos fez o chaem, que tal mercê raras vezes é concedida a um preso! O Céu o sabe. Honrai-o sempre e em breve sereis livres de volver à vossa terra.

Era a liberdade ainda antes de cumprirem a pena e os portugueses não se cansam de dar graças a Deus por os ter protegido naquela provação. A Fortuna sorria-lhes de novo, desta vez com maior liberalidade, pois passariam os seis meses de degredo no ripanço, com pouco trabalho, boa paga e melhor comida, no troço de oitenta alabardeiros de escol que compunham a guarda do chaem.

Nada de partir pedra, acarretar tijolo, fazer cavas e fossos ou carregar entulho para a construção da Muralha que Fernão acha admirável, mas cuja obra custara a vida a centos de milhar de homens, consumidos de febres e exaustão. Quando os guardas não estavam por perto, ouvia-se a canção dos condenados:

Se uma filha te nascer,

afoga-a,

Se um filho te nascer,

não o cries.

Não vês como a Muralha Comprida

Se está a erguer

sobre montanhas de mortos?122

Fernão estranha não ter achado nenhuma descrição da Muralha em Il Milione, o livro de Marco Polo, que lera em casa do Senhor D. Jorge. Mas se o grande viajante não pudera falar dela fora pela simples razão de que, quando visitara a Tartária, a Grande Muralha ainda não estava construída; as defesas de então não passavam de pequenos muros de taipa e terra em volta das aldeias ou vilas. A portentosa obra começara com os primeiros imperadores da dinastia Ming, há pouco mais de cento e cinquenta anos; ninguém sabia quando terminaria.

Os chins chamavam-lhe Wanli Changcheng, a Muralha comprida de dez mil li123, correspondendo cada li ao espaço em que se pode ouvir um brado humano em campo raso, num dia quieto e sereno, portanto, cerca de trezentos passos. Dez li faziam um pu, que são duas milhas e meia, e dez pu um ichã.

A parede era de seis braças de altura e quarenta palmos de largo e, das quatro braças para baixo, havia um entulho a modo de terrapleno, alamborado da face de fora de um betume como argamassa, quase duas vezes mais largo que o mesmo muro, tão forte que nem mil basiliscos o poderiam derrubar. A sua construção e manutenção eram asseguradas pelos degredados, enviados da prisão de Xinaguibaleu, sem outra paga além da comida que comiam.

A Muralha estendia-se por mil léguas de fronteira, de nordeste a sudeste, correndo por planuras e entre as serras de Meiling – que serviam de tranqueiras, todas chanfradas ao picão –, ora subindo por encostas a pique até desaparecer por entre nuvens, ora descendo pelos vales mais fundos até aos rios. Tinha trinta mil torres de dois sobrados, cujas sentinelas, ao mais leve sinal de perigo, davam alarme à guarnição ou faziam avisos com fumo e bandeiras durante o dia ou com fogo em cestas de arame que subiam e baixavam por meio de um aparelho de barras.

A defesa de Wanli Changcheng estava a cargo de cento e sessenta mil homens, distribuídos em toda a sua extensão por trezentas e vinte capitanias, com seus funcionários, oficiais de justiça, upos da guarda dos anchacis – os juízes provinciais –, dos chaens e de outra gente necessária ao seu governo. Shanhaiguan, o primeiro troço da Muralha, era de trezentas e quinze léguas, com cinco entradas pelos rios da Tartária, cada uma guardada por seis mil homens a pé e a cavalo, muitos deles estrangeiros.

Fernão e os companheiros exercem o honrado ofício de alabardeiros há quase um mês, sendo convidados muitas vezes para as casas dos mandarins e gente nobre, que os recebem como em Pequim, com grande agasalho, sentando-os à sua mesa a comer e beber com eles. Com tão boa fortuna os degredados começam a acalentar o sonho do regresso a Cantão, antes de seis meses, de onde poderão partir para Malaca com a ajuda dos compatriotas aí residentes.

Não tardariam a despertar da ilusão, fosse porque o Demónio, invejoso da sua paz, viesse meter o bedelho e semear a discórdia entre os cativos ou tão só porque está na natureza dos portugueses serem muito opiniosos, senhores dos seus narizes, ciosos da sua honra, incapazes de sofrer com paciência e cortesia a opinião dos seus contrários, mesmo sobre frioleiras mesquinhas, passando num piscar de olhos da conversa animada à disputa exaltada, dela aos doestos mais soezes de regateiras, daí às mãos ou às armas, com feridas e mortes.

Nesse dia, nenhum sinal funesto pressagiara desgraça, muito pelo contrário, depois de acompanharem o chaem na sua ronda pela muralha, os nove degredados desenfadavam-se comendo e ouvindo as canções de Gaspar e dos alabardeiros chins, recebidas de parte a parte com muitos aplausos e assobios de apreço. A voz do gordo Pei tremula de emoção com os versos de uma balada que remonta aos primeiros tempos da construção da Grande Muralha:

Tártaros agrilhoados!

Tártaros agrilhoados!

As orelhas furadas,

As caras pisadas,

Às terras dos Han conduzidos.

O Filho do Céu celeste

Condoeu-se da sua sorte

E não lhes deu a morte.

Mandou-os para Sudeste

Aos reinos de Wo e Yueh.

O canto é abafado pelo som da briga que estala entre Joaquim Pereira e Álvaro de Melo, os mais arredados do grupo:

– Os Fonsecas sempre foram do partido d’el-rei que lhes deu grande moradia em suas casas, melhor que a dos Madureiras.

– De modo nenhum! Os Madureiras são fidalgos mais antigos e de melhor geração do que os Fonseca. Estais a rir de quê?

– Dessa atoarda que dizeis! Os Fonsecas remontam ao conde D. Pedro, juntamente com os Soveral.

As vozes elevam-se desabridas, interrompendo a canção do eunuco e o coro dos companheiros, ateando-se como fogo em palha e propagando-se a toda a companhia num incêndio impossível de conter, de funestas consequências.

– Mentis como quem sois! – berra Pereira em sanha. – Os Madureiras sempre tiveram precedência sobre os Fonsecas. Como ousais falar do que desconheceis, bargante malparido?

– Quem sois vós, para dizer tal cousa? – vocifera Melo. – Não passais de um vilão, com fumos de nobreza! Vede com quem falais, cabrão sem nome nem vintém! Quem sois.

– E vós quem sois? Sim, quem sois? Um filho de puta, sem eira nem beira, que anda às sopas dos fidalgos e.

Não termina a frase, porque o seu interlocutor lhe assenta uma estrondosa bofetada que lhe faz saltar o sangue pelas ventas. Pereira tem uma faca na mão e, antes que o possam agarrar, dá uma cutilada no rosto do agressor, arrancando-lhe metade da face. Cego de cólera e dor, Melo desfere-lhe com a alabarda um golpe, que quis mortal, mas por milagre falha a cabeça, decepa-lhe o braço esquerdo, rente ao cotovelo.

Os sete companheiros, que acorreram ao rumor da altercação com o intento de os separar, vêm por sua vez a tomar partido e a travar-se de razões uns com os outros, passando logo dos fideputa, cabrões e quejandos mimos, às cutiladas com tamanha violência e ódio que, em menos de um credo, cinco foram feridos de gravíssimos golpes.

O alarido atrai não só os alabardeiros de serviço, como o chaem em pessoa, com os anchacis da justiça e outros oficiais, crendo que os tártaros assaltavam a Grande Muralha. A sangrenta cena deixa-os tão escandalizados e irados que, sem sequer os ouvir, o mandarim manda que os nove desordeiros, logo que recebam alta do hospital, sejam postos a ferros numa masmorra subterrânea, com um galardão de trinta açoites a cada um, que ainda os sangram mais do que os golpes recebidos durante a zacapela124.

Lazeraram no calabouço quarenta e seis dias em grande sofrimento, vendo como por sua própria culpa se acabara a vida folgada, a esperança de salvação e do regresso ao reino. Estava na massa do sangue dos portugueses essa danosa invejice ao vizinho, agravada da afeição aos seus próprios pareceres de que nada nem ninguém logram afastá-los, nem sequer o risco de tudo perderem naquele degredo em que o que mais relevava era a concórdia do grupo.

O libelo que o lauteaa acusador lavrou dos crimes, comprovados por dezasseis testemunhas, não podia ser mais gravoso: os réus eram comparados a demónios, merecedores do degredo para os lugares habitados apenas por animais ferozes. O julgamento do anchasi da justiça no Pitau Calidão ou tribunal de Quansy decorreu de modo semelhante ao de Nanquim, sendo os réus premiados com novo castigo de trinta açoites que os fizeram amaldiçoar em altos gritos a todos os Fonsecas e Madureiras, mais às putas que os pariram e aos cabrões que os engendraram, por serem a causa da sua miséria.

Levaram-nos para o tronco onde, aliviados dos ferros, acabaram de sarar das feridas, embora sofrendo muita fome e sede, por não terem nada de seu com que pudessem peitar os tronqueiros ou os outros presos. Dois meses mais tarde, quando já só esperavam a morte, viram-se livres da prisão, no dia de Quingming – o Claro e Brilhante, ou do Varrer dos Túmulos –, o centésimo quarto dia depois do solstício de Inverno, cinco de Abril, em que os chins honram os mortos com muitas esmolas aos seus pagodes.

Por serem gente mísera e sem polícia, fan jen de uma nação tão remota, que até então nunca se tivera notícia dela, dos seus usos e da língua que falavam, o chaem reviu a sentença, declarou que os açoites eram castigo suficiente para os seus crimes, mandou-os soltar em nome do Filho do Céu. Pesara na balança da justiça, mais do que a santidade do dia ou o coração misericordioso do lauteaa, a míngua de degredados para trabalhar nas obras da Muralha, quando os espias davam o alarme de movimentos suspeitos nas terras dos tártaros, junto à raia de Quansy, como se preparassem um ataque.

– Já não saíreis daqui no termo dos oito meses da vossa anterior sentença – anunciou-lhes o chaem –, por não serdes merecedores da liberdade. Ficareis cativos para sempre ou até que o Tutão decida soltar-vos. E aquele que de vós faça tumulto nos bazares, se amotine ou tire sangue a alguém, será açoutado até à morte.

Os presos escutaram a sentença, chorando de arrependimento, sem coragem de se encararem ou incapazes de buscar conforto na amizade dos companheiros, cada um recriminando os outros pelo seu infortúnio, num mórbido desespero apenas mitigado pela fortuna de terem escapado mais uma vez à morte. Condenados a uma existência miserável, a que quase não podem chamar vida, haviam passado já por tanto sofrimento e descido tão baixo na humana condição que, como miseráveis insectos a rastejar na terra, se ferravam tenazmente ao instinto de sobreviver.

Presos de três em três, foram levados do tronco para umas ferrarias onde, durante meses, sofreram assaz de trabalhos e necessidades, labutando com as roupas em farrapos, sem um catre onde dormir, comidos de piolhos e mortos de fome. Sobreveio-lhes uma moléstia que abria com uma febre maligna, pestilenta e, cinco ou seis dias depois, tomava-os um sono tão pesado que nem os gritos dos companheiros que os sacudiam conseguiam despertá-los. Só a muito custo abriam as capelas dos olhos, cerrando-as de imediato, jazendo inertes, de costas no chão, numa pesada sonolência e com um estertor semelhante ao da morte. Outras vezes, eram acometidos por uns frenesis que lhes espantavam o sono e, nessas longas vigílias, se lhes falavam, abriam os olhos e respondiam como se estivessem fora do siso.

A enfermidade assemelhava-se ao mal de modorra e Fernão foi o último a apanhá-la. Cuidou dos companheiros, socorrendo-se do que aprendera com os barbeiros e os boticários das naus da Índia e, sobretudo, com Garcia de Orta, o físico do capitão-mor que ele conhecera em Goa. Recordava-se bem do ano de mil quinhentos e vinte e um quando, ainda menino de dez ou onze anos, fora servir para Lisboa onde lavrava uma epidemia da terrível doença que matara muita gente, incluindo el-rei D. Manuel. Se, apesar de ser quem era e de ter recebido os cuidados dos Doutores João Rodrigues de Castelo Branco125 e Garcia Pereira, dois dos melhores físicos do mundo, o rei de Portugal acabara por morrer, só um milagre salvaria do mesmo destino os nove condenados que, já antes da doença, mal se aguentavam nas pernas. Iriam deixar os seus ossos sem sepultura cristã, na terra dos chins.

Fosse por milagre dos Céus ou graças ao engenho e arte do improvisado físico, que soube reconhecer o arbusto do pau-da-china e usou a raiz cozida contra a paralisia e a água da cozedura para suadouros no combate à febre, nenhum deles morreu. Por ser o mal contagioso, os chins soltaram-nos das prisões e, como já estavam livres da morte, apesar de muito fracos, mandaram-nos pedir esmola para se sustentarem.

121 Corsários do mar da China.

122 Excerto de O Prisioneiro de Pei Chu-I (772-846).

123 A Grande Muralha tem mais de cinco mil quilómetros de comprimento. O troço Badaling tem quase oito metros de altura e cinco metros de largura; o troço de Jinshanling tem de cinco a oito metros de altura e seis metros de espessura.

124 Desordem, confusão.

125 Amatus Lusitanus (1511-1568) – um dos médicos portugueses mais célebres do Renascimento. Era cristão-novo e teve de fugir de Portugal por causa da Inquisição.

XV

Quem não sabe suportar contrariedade nunca terá acesso às coisas grandiosas

(chinês)

Carta escrita ao capitão da armada que ali foi negociar a libertação dos sobreviventes da embaixada:

Sejam, senhor, estas cartas mostradas aos senhores capitães-mores, não se encubram, senhor, que se Jorge Álvares amostrara as cartas que levara e de nós souberam, eu confio que não estivéramos aqui nesta cadeia, ou vivos ou mortos. Em dois anos ou o Senhor Governador houvera de mandar, ou de Malaca se houvera de ordenar cousa por onde nos daqui tirarem.

De uma maneira ou doutra que, senhor, vierem, tanto que [a] esse porto chegarem, logo façam os jurubaças126 as cartas, sobre nos não mandem, senhor, matar, pedindo-nos mui altamente que a isso vêm. Assi se causa for vir cousa grande, assi se ponha nesse porto a nos pedir muito rijo. Que estes mandarins de nós, senhor, têm o receio, que sabemos a terra; esse é o respeito porque nos não soltam e nos têm nesta cadeia, sendo a mais forte que há nesta cidade.

Não posso, Senhor, escrever mais largo, porque tenho a mão doente, de chagas que me arrebentaram, e por não ser mais necessário, que Cristóvão Vieira nunca deixa de escrever todalas mais cousas

Servidor de sua mercê

Vasco Calvo

Feita em Outubro, nesta cadeia do Anchaci, no ano de 1536.

Em Quansy os nove condenados não duvidavam de que a sentença de morte seria cumprida, se algum deles perturbasse a paz ou desse azo ao mais pequeno conflito. Enfraquecidos pela doença e a fome, a necessidade forçou-os a fazerem tréguas nos seus ódios, com o juramento solene de viverem daí por diante em concórdia e cristãmente, pois sozinhos não teriam salvação. Revezar-se-iam cada mês no cargo de chefe ou maioral, a quem todos os outros teriam de obedecer, sem nunca poderem escusar-se às suas ordens, sob pena de serem expulsos do grupo e viverem homiziados. Para o juramento ter mais força e ninguém poder dizer que não jurara, as regras foram escritas e assinadas por todos, como um regimento para sua governança, tendo o bando passado a viver num casebre abandonado em fraterna harmonia.

– Assi não nos governamos, vamos morrer à míngua! – desabafa Borralho, tirado às sortes como maioral do primeiro mês. – Ninguém nos dá esmola, seja por receio, seja pela muita esterilidade desta terra. Somos nove, não podemos andar todos juntos a pedir.

– Parecemos um bando de salteadores de estradas, fazemos-lhes medo – concorda Vicente. – As mulheres viram-nos as costas ou fecham as portas, sem nos darem um ceitil.

– Julgo que será de maior proveito se nos dividirmos em pares, cada parelha para sua tarefa, a começar desde já. Fernão e Álvaro irão buscar água, enquanto o Zeimoto faz o comer com o que puder arranjar. Tu, Gaspar, como os chins gostam de te ouvir, vai tanger pela cidade com o Joaquim que, por ser maneta, talvez logre maior esmola. Os restantes venham comigo ao mato catar lenha para nosso gasto e para vender.

Fora uma boa estratégia que não tardara a dar frutos, trazendo alguma melhoria à vida dos degredados e paz ao grupo que amordaçara ou adiara os antigos ressentimentos. Na semana seguinte, a tarefa de apanhar lenha coube a Fernão e Gaspar que se dirigiram para a porta da cidade de acesso à floresta, cruzando-se na rua principal com um cortejo fúnebre de grande pompa e fanfarra de muitos instrumentos. Afastam-se respeitosamente para o deixarem passar, mas o mestre da música reconhece o folangji tangedor e agarra-o por um braço.

– Rogo-te que cantes o mais alto que puderes – diz-lhe, autoritário, metendo-lhe uma viola chim na mão –, para que te ouça este nosso defunto que vai muito triste com a saudade da mulher e dos filhos que muito amava.

Fernão não ousa fazer sequer um gesto para impedir que os festivos carpideiros levem o companheiro a tanger e a cantar, até ao sítio onde vão cremar o morto. Ainda hesita em acompanhá-los, mas como estão muito faltos de torgas para fazer lume, segue para o bosque, onde junta um feixe de lenha tão grande quanto a fraqueza do corpo lhe permite levar às costas.

Regressa ajoujado do peso, com o suor a escorrer-lhe pelo rosto e o corpo, quando ouve alguém escarrar à entrada de uma azinhaga do mato, como se quisesse chamar-lhe a atenção. Olha em sobressalto para o velho que parece esperá-lo e lhe acena com a mão.

– Chamas-me? – pergunta Fernão em língua chim e o velho acena-lhe de novo.

Apesar de estar vestido como homem abastado, com roupas de damasco preto forradas de peles de cordeiro branco, o português não lhe distingue as feições e receia que aquela cena seja negaça de ladrões para lhe tomarem a lenha, o único bem que tem consigo e lhes pode aguçar o apetite. A experiência ensinara-o que aquela gente só não roubava ou enganava quando não lhe davam ocasião para isso.

Pousa o feixe no chão, agarra no varapau que sempre traz consigo para caminhar ou se defender em caso de necessidade e avança em passo decidido para o velho que, sem parar de lhe acenar para que o siga, se mete apressadamente para dentro da azinhaga. Convencido de que o homem é ladrão e se prepara para o assaltar, Fernão arrepia caminho a toda a pressa, põe o feixe às costas e trata de fugir para a estrada de acesso à cidade, onde há sempre gente.

Ouvindo o homem escarrar muito mais alto, olha para trás, no temor de ser perseguido e caçado pelas costas, mas estaca de chofre, deixando tombar o feixe, espantado com o que vê. O velho, de joelhos, segurava nas mãos erguidas uma cruz de prata de um palmo de comprimento, fazendo-lhe ao mesmo tempo trejeitos piedosos e acenos para que se acerque. Ainda hesitante, agarra no cajado e segue-o quando ele entra de novo na azinhaga, parando uns passos mais à frente à sua espera.

Fernão avança até ficar diante dele e vê com surpresa que o homem não é chim. Dá um salto para trás quando ele se lança novamente de joelhos, com as lágrimas a correrem-lhe em fio dos olhos, dizendo por entre soluços:

– Louvado seja Jesus Cristo porque, ao cabo de tanto tempo e em tamanho desterro, permitiu que os meus olhos vissem um cristão de Portugal!

Fernão julga perder o siso de puro terror, ao ouvir a assombração – que outra coisa não pode ser aquela criatura –, a falar em português e brada-lhe com um grito esganiçado, enquanto se persigna enfrenesiado:

– Eu te esconjuro, da parte de Nosso Senhor Jesus Cristo, que me digas quem és!

– Sou Vasco Calvo, irmão meu, para te servir – apresenta-se o homem, dominando o choro e fazendo um gesto apaziguador. – Sou natural de Alcochete, de onde tomei a alcunha por que todos os portugueses me conheciam na Índia. Sei que Inês de Leiria te falou de mim, pois escreveu-me sobre os cativos portugueses que recebera em sua casa quando iam a caminho de Pequim.

Fala com uma alegria ansiosa, como se temesse ver o seu interlocutor desfazer-se em fumo ante os seus olhos. Fernão, já recomposto do susto, ajuda-o a erguer-se, misturando as suas lágrimas às dele.

– Por nossos pecados, porque somos como alimárias selvagens, fizemos zacapela, perdemos o posto de alabardeiros e a esperança de regressar a Malaca ou a Goa. Estivemos muito tempo em ferros e ainda andamos vigiados.

Vasco Calvo acena, como quem já ouviu falar daquele mau sucesso, retomando o seu relato:

– Achei que, se não vos matassem em Pequim, acabaríeis aqui, na construção da Muralha. Vinde comigo, em minha casa poderemos praticar à nossa guisa, ao abrigo dos espias.

– Hoje não vos posso acompanhar porque tenho de levar a lenha aos meus companheiros – escusa-se Fernão. – Mas sentai-vos à minha beira mais uns instantes e contai-me como haveis conhecido Tomé Pires, que eu morro por saber.

– Já passaram mais de vinte anos. – aquiesce o velho. – Eu não fiz parte da armada de Fernão Peres de Andrada que trouxe Tomé Pires, só vim quatro anos mais tarde com o meu irmão Diogo Calvo para fazer veniaga, já o embaixador estava preso com o seu séquito em Cantão. A embaixada começara com bons auspícios, mas acabara em desastre, devido aos desmandos que um dos nossos capitães fez em Cantão.

– O irmão do próprio Fernão de Andrada, segundo ouvi dizer!

– Simão de Andrada acabou por danar o negócio que o irmão e o embaixador tinham deixado bem concertado.

– Que fez ele?

Embora estes sucessos se tivessem passado no tempo em que ainda vivia em Lisboa, mal chegara à Índia, Fernão ouvira as mais desvairadas histórias sobre a malograda embaixada, as quais não passavam de atoardas porque ninguém regressara vivo para contar. Por isso, parece-lhe um prodígio inacreditável topar ali com o último sobrevivente desse trágico sucesso.

– Logo que tomou Malaca, em mil quinhentos e onze, Afonso de Albuquerque enviou cartas ao imperador Zhengde, pelos chins que estavam no porto e, três anos mais tarde, o capitão Jorge Álvares chantou um padrão na ilha de Tamão para comemorar o feito de ser o primeiro europeu a pôr os pés na terra dos chins. Foi lá que, no ano dezassete, aportou a frota de Fernão de Andrada com a nossa embaixada e por pouco não causou um conflito diplomático.

– Como assim? Vossa mercê não disse que o capitão soubera fazer amizade com os chins?

– Foi sem querer. Como a armada portuguesa trazia a primeira embaixada de um reino da Europa a esta terra, os seus oito navios entraram na baía de Tamão com todas as velas desfraldadas, muita festa de bandeiras e grande estrondo de bombardas em saudação. escandalizando os chins. O Tutão que patrulhava a costa com a sua própria armada, tomou aquelas salvas por um acto de guerra e preparou-se para o combate, perseguindo a nossa frota com alguns tiros.

– Os nossos não sabiam que nas costas da China só são permitidos estandartes chins e qualquer disparo é tomado como um acto de guerra? As naus sofreram danos?

– Não, porque o poder de fogo dos chins era fraco. Fernão de Andrada não ripostou e fez tocar as suas fanfarras em som de festa. Por sorte, Duarte Coelho, que chegara a Tamão um mês antes com a sua nau e ficara a ajudar a cidade a defender-se dos cossairos, mandou recado ao almirante chim, de que a frota portuguesa vinha em missão de paz. Fernão Peres, com bons modos e presentes, conseguiu vencer a desconfiança dos mandarins. Em Outubro, antes de regressar ao reino, foi levar o embaixador a Cantão onde Tomé Pires ficou a aguardar a autorização do imperador para se dirigir à corte de Pequim.

Fernão solta uma risada amarga:

– Atendendo ao vagar com que estas cousas de embaixadas e requerimentos correm por cá, muito teria de esperar!

– Fernão de Andrada usou sempre de muita cortesia com os chins e, antes de partir, lançou um pregão na ilha para saber se alguém tinha queixa dos seus homens, pelo que o tiveram em grande estima e os primeiros relatórios dos mandarins foram muito a nosso favor. No ano seguinte, o irmão só fez desmandos, causando tantos ódios e malquerença, que os Tutões nos fecharam os portos, proibindo o comércio connosco.

– Nestes últimos anos já nos consentiam em Cantão. Que dianho fez Simão Peres de tão grave?

– Ele chegou a Tamão em Abril de dezanove, para recolher o embaixador, julgando que concluíra a sua missão, por isso, ficou em sanha ao ver que Tomé Pires não fora sequer chamado à presença do imperador. Como desconhecia os usos dos chins, tomou a demora por desprezo e ofensa imperdoável ao rei D. Manuel e a todos os portugueses. Cheio de prosápia, começou a construir uma feitoria sem autorização, mandou chicotear o mandarim que se opôs e ousou enforcar um marinheiro em terra, quando só o imperador pode decretar a pena de morte.

– Cometeu os maiores crimes que um estrangeiro pode fazer nesta nação! Ninguém o avisou do perigo?

– Ele não tomava conselho de ninguém! Tomé Pires já tinha partido com a sua comitiva para Pequim, no dia vinte e três de Janeiro de mil quinhentos e vinte, portanto antes desses sucessos. O Filho do Céu andava em visita pelo reino e mandara-o ir à sua presença, em Nanquim.

– Ele viu o imperador?

– O embaixador chegou a Nanquim, em Maio, Zhengde recebeu-o com festas e banquetes, enviando-o de seguida para Pequim com a promessa de despacho. Ora, o imperador só voltou para a capital em Fevereiro do ano seguinte quando a embaixada já estava comprometida porque Zhengde tinha recebido cartas dos lauteaas de Cantão e uma do embaixador d’el-rei de Malaca, com muitas queixas contra os portugueses. Por último, tudo se complicou com a sua morte e a subida ao trono de Jiajing que agora governa. Então, já eu fora feito cativo pelos chins, quando os seus juncos de guerra nos começaram a dar caça, mas, como os prisioneiros portugueses só podiam ser condenados à morte pelo rei, acabei também por ser enviado para Pequim e posto no mesmo tronco do embaixador. Foi aí que o vi pela primeira vez.

A tarde declinava, contudo Fernão mal se dá conta da passagem do tempo, preso das palavras de Calvo, de todo esquecido do feixe de lenha ou dos seus companheiros de infortúnio. O homem não fizera parte da embaixada, mas ouvira da boca do próprio embaixador o relato da sua odisseia.

– Todas as tentativas do governador para vos libertar foram vãs – diz-lhe à laia de consolo. – Os mandarins não recebiam os nossos capitães e a armada chim perseguia-nos quer nos mares quer em terra como se fôssemos cossairos.

Vasco Calvo interrompe-o, com amargo ressentimento:

– Muitos dos nossos cativos foram justiçados com mortes terríveis e os sobreviventes desesperaram da vida, encarcerados anos a fio nos troncos. Sabíamos que só seríamos libertados se a nossa armada atacasse Cantão e se assenhoreasse de toda província. Cristóvão Vieira chegou a escrever ao capitão-mor um rascunho da carta que ele deveria enviar aos mandarins, quando a nossa armada entrasse no estuário do rio das Pérolas, com o ultimato para a nossa libertação. Com risco da minha vida, também eu escrevi cartas ao capitão-mor e ao governador, com um plano bem esmiuçado para conquistarem a cidade e província de Cantão, sem grande trabalho e pouco custo, dizendo-lhes como este povo é fraco na guerra e se fecha em casa quando há perigo, obedecendo a quem mais pode.

– Quanto a isso, tendes razão! Os nossos talvez até fossem recebidos de braços abertos pelos milhares de presos dos troncos e pelos que andam a monte por se amotinarem contra os mandarins. Em todos estes anos não vos veio nenhuma resposta do governador da Índia ou d’el-rei?

– Ninguém fez caso de nós. De nada valeram as nossas cartas e o perigo em que nos pusemos para as escrever, pois até os nossos moços para terem o favor dos tronqueiros nos denunciavam.

A sua voz ressuma de amargor e as lágrimas brilham-lhe de novo nos olhos. A tarde chegava ao fim e Fernão despede-se.

– Os meus companheiros decerto folgariam muito em vos ver e ouvir. Como e onde nos poderemos reunir sem perigo? De dia andamos mais à nossa guisa pela cidade ou pelo campo a ganhar o nosso sustento.

– Vinde a minha casa. Vivo modestamente, mas sereis recebidos como família e festejados com uma boa ceia. Vinde todos comer comigo amanhã, para contarmos as nossas histórias, pois também quero conhecer o rol das vossas desventuras.

Dá-lhe as indicações da morada e ajuda-o a pôr o feixe às costas, separando-se à saída do bosque para não levantarem suspeitas, porque apesar de terem decorrido vinte anos, Vasco Calvo ainda não deixara de estar sob suspeita e de gozar de uma liberdade vigiada.

126 Jurabaça (Iurabaça) – intérprete no Extremo Oriente (do malaio-javanês juruba- hasa, mestre de língua)

XVI

Onde houver mel, haverá formigas

(malaio)

[Carta] do rei de Malaca, Mahamed Sh-ah, ao Filho do Céu:

Os folangji ladrões vieram a Malaca com muita gente e tomaram a terra e a destruíram, e mataram muita gente e a roubaram, e outra cativaram, de que o rei que foi de Malaca tem o coração triste e anojado. Com grande medo tomou o selo do rei da China e refugiou-se no Bintão127, donde está; e os seus irmãos e parentes fugiram para outras terras. O embaixador do rei de Portugal que está na terra da China é falso, não vem de verdade, que vem para enganar a terra da China. Para o rei da China fazer mercê ao rei de Malaca, este, com coração enojado, manda presente, pede ajuda e gente para lhe ser tornada sua terra.

Do Lichao Shilu (Crónicas Verídicas da Dinastia Li – Coreia)

No dia Wushu da décima segunda lua (1522), o jurubaça Li Shuo entregou um memorial com informações da corte da China:

A nação dos folangji foi sempre impedida pelo reino de Malaca, de ter contactos com a China. Agora, os folangji, após terem destruído Malaca, vieram pedir o fom128 à China. O Tribunal dos Ritos estudou o caso e deliberou: Não se pode autorizar o pedido de um reino que tomou a liberdade de exterminar outro que foi nomeado pela nossa corte como tributário. O seu pedido de ir em audiência à corte foi recusado. Ficaram hospedados na pousada oficial com o mesmo tratamento e privilégios das outras nações. Essas gentes cuja fisionomia se assemelha à dos japoneses, usam roupas e comem comidas não muito civilizadas. Para os chins, são pessoas nunca dantes vistas.

– Como foi que vos cativaram?

– Vossa mercê esteve em Pequim com Tomé Pires? Como vos foi lá?

– Contai-nos tudo, por vossa vida, que nunca se soube ao certo o que vos aconteceu.

Falam, atropelando-se uns aos outros, com a alegria dos antigos tempos de liberdade e sonhos de fortuna, que renasciam no lar de Vasco Calvo, cuja esposa e filhos os recebiam com amor de mãe e irmãos. Este encontro de portugueses à sombra da Grande Muralha da China parece tão improvável que Fernão o toma por milagre ou feitiço. Era como se o destino, ao tecer as teias das suas mesquinhas existências, houvesse determinado aquela encruzilhada nos caminhos das suas desventuras, para que os nove náufragos ali viessem achar a única pessoa capaz de lhes desvendar o mistério da embaixada que há duas décadas os chins mantinham secreto e os portugueses desesperavam de conhecer.

Contemplando as filhas de Calvo, Ana de dezoito anos e Isabel de quinze (ou Meng e Lijie, respectivamente, porque os nomes portugueses apenas se usavam em casa), moças de gracioso e honesto parecer que os servem com modos de donzelas bem-nascidas, Fernão sente o espinho da saudade cravar-se fundo no seu coração. Os olhos enchem-se-lhe de lágrimas quando ao gentil quadro se vem sobrepor a imagem de Huyen, a cativa cauchim que ficou na memória dos homens de Faria como a Noiva Roubada, mas que para ele fora muito mais do que isso e, embora tente olvidá-la, a sua perda é-lhe insuportável.

Momentos antes, ao ouvi-las tanger e cantar, ora sós, ora a quatro vozes, acompanhadas por Gaspar, um pensamento tentador quase o fizera esquecer os males presentes. O seu patrono Pêro de Faria casara com uma gentia a quem muito amava e lhe dera uma bela prole, não pensava sequer em regressar a Portugal; Tomé Pires e o próprio Calvo desposaram mulheres chins, criaram filhos e alcançaram a paz. Também ele iria viver o resto da sua vida em Quansy, portanto, não seria de estranhar se lhes seguisse o exemplo e tomasse uma daquelas duas moças por esposa, se o pai lha quisesse dar apesar de não possuir nada de seu.

Fecha os olhos aterrado não pela visão do seu futuro ao lado de uma formosa mestiça, mas por se dar conta que está a desistir de regressar a Portugal, ao aceitar com resignação a ideia de ficar para sempre na China. Ergue-se do banco num impulso de fugir para os matos, para gritar os seus medos em solidão, porém, a voz de Calvo prende-o de novo ao lugar.

– Tomé Pires foi boa escolha para embaixador porque, apesar de não ser fidalgo, era um letrado de natural discrição, muito hábil e aprazível a negociar. Sempre curioso em inquirir e saber cousas, acabara de escrever a sua Suma Oriental que, como ele mesmo me disse, era a primeira relação dos lugares do Oriente, portanto, estava bem talhado para levar a cabo a sua missão. A prova maior do seu valor foi que Zhengde, antes de ler as malfadadas cartas, folgou de o ver, fez-lhe muita honra e até jogou com ele às tábulas, estando toda a embaixada presente, a quem mandou banquetear por três vezes com os seus grandes.

– Recebimento deveras espantoso! – exclama Vicente. – Que lástima terem caído em desgraça!

– O Filho do Céu entregava-se mais aos prazeres e vícios do que aos negócios do império, preferindo frequentar os bordéis ou passar meses seguidos no palácio Pao Fang, a Casa do Leopardo, que mandara construir fora da Cidade Púrpura Proibida para dar os seus banquetes e ter conversação com as suas concubinas e favoritos. Quando recebeu a nova do embaixador, preparava-se para fazer uma entrada triunfal na cidade, como comandante dos exércitos que nunca havia chefiado, para festejar como sua a vitória do general Wang Yang-ming sobre uma revolta encabeçada pelo príncipe de Nanquim. A vinda dos estrangeiros seria mais um incenso à sua gloriosa pessoa, por isso decidiu recebê-los, contra o conselho do seu general que não confiava nos folangji e pôs um espião no albergue onde pousavam, para ver como eram as suas armas e copiar os arcabuzes.

Calvo sente, pela primeira vez em muitos anos, o coração aliviado do peso da solidão e do desterro. Poder falar em português a compatriotas que lhe bebem as palavras dá-lhe um novo alento. Com um fundo suspiro de satisfação, retoma o relato:

– Zhengde fez outra cousa de pasmar: entrou nos paraus dos portugueses, mandou abrir todas as arcas, tomou os vestidos que lhe pareceram bem e fez mercê a Tomé Pires, dizendo-lhe que fossem a Pequim que os despachava. Contudo, foi a partir daí que as desgraças começaram, primeiro com a morte de um companheiro durante a travessia das montanhas, depois com as cartas dos mandarins de Cantão e Nanquim, relatando os abusos de Simão de Andrada.

– Então, o principal culpado sempre foi ele! – brada Vicente. – Era de natural muito arrogante, sem cuidar com quem tratava.

– Para piorar o negócio, em Pequim, estava à espera do imperador um enviado d’el-rei de Malaca com uma missiva do seu soberano e sobrinho a pedir socorro para expulsar da sua terra os folangji que lha tinham roubado. Zhengde leu todas estas queixas e acusações, antes de Tomé Pires lhe poder entregar as cartas de Fernão de Andrada e d’el-rei D. Manuel com o seu presente, assim como uma do mandarim de Cantão, escrita quando os lauteaas ainda estavam de bem connosco.

– Tanto os portugueses da embaixada como os que vinham fazer veniaga foram acusados de espionação – lembra Vicente. – Diziam que vínhamos espiar a terra para a tomarmos, como tínhamos feito na Índia e em Malaca, além de sermos tão selvagens que comprávamos e furtávamos crianças, filhos de pessoas honradas, para as comer assadas.

– Calai-vos, por Deus, que estais sempre a interromper! – protesta Borralho, com impaciência. – Vasco Calvo foi testemunha de ver, ouvir e sofrer, deixai-o contar a história miudamente, já que nenhum de nós a sabe tal como se passou!

O anfitrião faz um gesto apaziguador e retoma o relato:

– A partir de então, foi o fim da embaixada! O presente foi tido por mesquinho e as cartas do capitão-mor e d’el-rei de Portugal julgadas falsas e traiçoeiras, porque os seus jurubaças não as leram e, em vez de fazerem uma traslação fiel, escreveram-nas ao estilo destes reinos, mudando a substância delas sem nada dizerem ao capitão-mor ou a Tomé Pires.

No seu traslado diziam que o rei dos folangji vinha oferecer páreas129 ao Filho do Céu, pedir para ser seu vassalo e levar mercadorias ricas para o seu reino, porém, quando os mandarins do Conselho do Imperador abriram as cartas originais, entregues por Tomé Pires, viram que a sua substância era muito diferente. A diferença das cartas e o pedido de concessão de uma casa em Cantão para uma feitoria dos portugueses confirmaram aos mandarins as suspeitas de que tínhamos vindo com falsidade espiar a sua terra e assim o escreveram ao imperador.

Os quatro jurubaças foram descabeçados por terem saído sem licença das terras do império e trazido os perigosos folangji, os seus servidores foram dados como escravos aos mandarins, as suas mulheres vendidas em Cantão como fazenda de traidores. O imperador mandou ainda arrasar a fortaleza de pedra que Simão Peres construíra e o lugar onde viviam os portugueses, defendendo os chins de fazerem tratos connosco e ordenando-lhes que expulsassem todo o estrangeiro que viesse fazer veniaga, sem o seu selo de vassalagem. O embaixador com a sua comitiva foram mantidos sob vigilância, proibidos de se acercarem sequer do palácio para fazerem as cinco mesuras de obediência, zumbaias necessárias para um embaixador ser admitido à sua presença.

Por desgraça, Zhengde morreu sem ter dado despacho à embaixada. Com a sua morte, todos os negócios do império cessaram pelo que nenhuma decisão foi tomada enquanto o seu sucessor não se sentou no trono. Assim, no dia vinte e dois de Maio, sem nunca terem sido recebidos no palácio, Tomé Pires e os seis portugueses que restavam do seu séquito foram enviados para Cantão com toda a sua fazenda, incluindo o presente que o imperador recusara. Chegaram no dia vinte e dois de Dezembro, já sem Francisco de Budoia que morreu pelo caminho, sendo metidos numas casas, onde estiveram durante trinta e três dias muito vigiados, sem poderem sair ou falar com alguém, sobretudo com estrangeiros. Depois da subida ao trono de Jiajing, então com treze anos, confirmou-se a perdição da embaixada por ordem dos mandarins.

Vasco Calvo cala-se, de voz embargada pelas penosas recordações.

– Foi então que vossa mercê se encontrou com os da embaixada? – pergunta Fernão. – Como veio para cá com tamanho risco?

– Em Malaca não se suspeitava de nada, porque os lauteaas de Cantão, ainda em vida de Zhengde, se apressaram a prender todos os portugueses que por lá andavam, para não poderem avisar-nos. Por isso, em Junho desse mesmo ano de vinte e um, eu e o meu irmão Diogo viemos com alguns navios a Tamão, onde nos montaram uma cilada e eu fiquei prisioneiro com outros que desembarcaram.

Cada vez que chegava um dos nossos navios, os mandarins enviavam recado para os portugueses virem a terra fazer veniaga e, mal os incautos punham o pé na praia, logo os prendiam com as suas fazendas. Pela calada da noite, para que os não sentissem, vinham em batéis ao navio, que tomavam às mãos, matando o capitão, os seus oficiais e os mercadores; furtavam as mercadorias, levando os sobreviventes para os troncos, com as cabeças e as naturas dos mortos às costas, como troféus.

Os mandarins dividiam entre si os despojos das naus, bem como as mercadorias, registando uma muito pequena parte do saque para o imperador, como se fora espólio de corsários. Condenavam à morte todos os portugueses, com os seus aliados, os criados malaios ou siameses, vendendo as suas mulheres e filhos como escravos em outras terras, livrando-se assim das testemunhas dos seus roubos e crimes.

Vinte e três portugueses foram justiçados, cortados em pedaços: cabeça, pernas, braços, o tronco dividido ao meio pela barriga e as suas naturas cortadas e metidas na boca; outros foram mortos às frechadas pelas ruas, com muitos tangeres de festa, para que as gentes de Cantão vissem que não podiam fazer tratos com os nossos. Outros ainda morreram à fome e ao frio nas picotas. Foi durante as audiências do julgamento que encontrei Tomé Pires com os da sua comitiva, Cristóvão Vieira e mais três marinheiros de outras prisões. Estes encontros eram o nosso único consolo enquanto esperávamos pela sentença de morte.

A voz quebra-se-lhe de novo e as lágrimas correm-lhe pelo rosto. Embora a mulher e as filhas pouco entendam do longo arrazoado em português, vendo-o assim afligido rompem em pranto, perante o silêncio comovido dos degredados que não acham na sua própria miséria palavras de consolo para lhes dar. Calvo abraça-as e, limpando as lágrimas, conclui:

– Finalmente publicaram a sentença: o embaixador e a sua gente só seriam livres de partir se os portugueses restituíssem Malaca ao seu lídimo rei, a quem a tinham tomado, como mostrava a carta do seu embaixador, o Tuão Hasan Mudelyar.

– Os chins queriam que entregássemos Malaca? Uma conquista que tanto sangue custou aos nossos?

– Uma condição impossível de satisfazer, nem mesmo para vos salvar!

– Nem nós contávamos com isso! – protesta Calvo. – Esperávamos, contudo, que el-rei ou os governadores tomassem em conta as nossas informações sobre o fraco poder de guerra deste povo e nos viessem libertar pela força. Isso não aconteceu, de modo que, após alguns anos de prisão e maus tratos, só eu e Tomé Pires sobrevivemos.

A noite cerrara-se em torno do lar acolhedor, onde durante algumas horas aqueles dez portugueses se esqueceram do degredo e da miséria, reinventando a sua pátria com o regresso ao seio da família para, reunidos à lareira, contarem as suas aventuras. Kexin e as filhas haviam acendido as candeias e a sua presença silenciosa, aliada aos sons familiares da casa – o roçagar dos panos, o tinir das porcelanas, os risos e correrias de crianças, o cacarejo das aves de capoeira – trazia-lhes paz ao coração, mitigando-lhes a saudade.

– Vede como o tempo passou sem nos darmos conta! – alerta Vicente, preocupado, ao ouvir o som do gongo na torre próxima. – Como estrangeiros, degredados, é perigoso andarmos a horas mortas pelos caminhos.

– Tendes razão, é perigoso – concorda Calvo. – Vinde de novo no próximo domingo comer connosco e prosseguiremos com as nossas memórias. Acompanhai-nos ainda a dar graças a Deus por este encontro e por vos ter poupado a vida. Temos de orar em segredo por causa dos parentes da minha mulher, que são gente honrada mas gentia.

A esposa tira uma chave do molho que traz preso ao braço e vai abrir as portas de um oratório, semelhante ao de Inês de Leiria, com um altar onde brilham uma cruz, dois castiçais e uma lamparina, tudo em boa prata. O casal e os quatro filhos ajoelham-se e de mãos erguidas oram num português tão bem pronunciado como se fossem nascidos, criados em Alcochete, a terra de seu pai:

– Verdadeiro Deus, nós pecadores prometemos viver e morrer na nossa santíssima Fé Católica, como bons e verdadeiros cristãos, confessando e crendo na Vossa santa verdade, tudo o que tem e crê a Santa Madre Igreja de Roma, destas nossas almas com Vosso precioso sangue remidas, Vos fazemos preito e menagem, para com elas Vos servirmos toda a vida até na hora da morte Vo-las entregarmos como a Deus e Senhor.

Atrás deles, também de joelhos, os degredados sentem grande turvação, mesmo os de coração mais arisco, por verem em terra tão longínqua, sem conhecimento de Deus, dois meninos e duas donzelas a orarem com tamanho fervor. Com a devoção de quem presencia um milagre, acompanham-nos no Pater Noster, Ave Maria, Credo e Salve Regina.

Passava das três horas da manhã, quando regressaram à cabana, ainda mal refeitos da maravilha.

127 Pahag.

128 Vassalagem com pagamento de tributos à China.

129 Tributo pago por um soberano ou Estado a outro, em reconhecimento de vassalagem.

XVII

As lágrimas crescem nas viúvas e os piolhos nos viúvos

(chinês)

O Sétimo Dia do Sétimo Mês Lunar

No meio da relva os grilos cantam

E as folhas da firmiana caem em sobressalto.

Há agora uma profunda tristeza na terra e no céu.

Nuvens são escadas, a lua é o chão

A passagem [do céu] tem mil pisos aferrolhados.

Mesmo que venham jangadas flutuantes130

E jangadas flutuantes partam,

Não se podem encontrar.

As pegas constroem uma ponte d’estrelas

Para o seu encontro anual.

Penso na infinita emoção da separação e saudade da partida.

Vaqueiro e Tecelã131,

Porque é que na vossa separação

Há momentos de céu claro,

Um instante de chuva,

Um instante de vento?

(Poema de Li Qingzhào, glosando No Rasto do Doce Incenso132)

Hou hsu

Onde há posse haverá perda da posse; onde há concentração, haverá dispersão – é este o princípio constante nas coisas. Alguém perde um arco, outra pessoa encontra um arco. O que há de tão especial nisto?

(Li Qingzhào133)

Tinham saído da casa de Calvo, a espaços, de três em três, caminhando cosidos com os muros e as árvores, sempre com o credo na boca, vendo um upo em cada sombra, só ousando respirar quando se acharam a salvo na cabana. Embora de paredes escalavradas, com o telhado de colmo apodrecido, não se podia comparar à prisão ou às ferrarias onde tinham trabalhado como escravos quase até à morte, consumidos de vérmina e modorra. Ali, era a sua casa, onde viviam como homens livres, apesar das privações.

A madrugada vai alta e Fernão Mendes não consegue conciliar o sono. O que o mantém desperto não é o ressonar dos companheiros, enrolados como ele sobre as esteiras espalhadas no chão de terra batida da única divisão do casebre, nem o restolhar dos ratos e outras bestiolas que usam visitá-los ou são, como eles, moradoras do lugar; nem a fome rotineira, porque nesse dia haviam tirado a barriga de misérias graças à generosidade do compatriota.

Impede-o de dormir um negrume que lhe esmaga a alma, não deixando lugar para a luz das pequenas alegrias que experimentou horas antes na companhia do Alcochete e da sua família. A presença das duas graciosas moças, sobretudo de Meng com o seu rosto de finas linhas, de uma brancura de cera, assim como a menção ao Duplo Sétimo, a festa pagã que celebravam apesar de serem cristãs, avivara-lhe a dor da saudade de Huyen e o fantasma da formosa cauchim viera atormentá-lo, como se, pelo remorso, quisesse levá-lo à loucura ou à morte em expiação dos seus crimes.

Sente-se o mais enjeitado dos homens, um pobre coitado a quem os Fados perseguem com toda a má sorte do mundo, pondo-lhe a vida em constante perigo, com perda de todos os seus bens e, por fim, até do ser que mais amara no mundo. O sonhado Oriente não passava de uma ilusão. Desfeito o engano, restava-lhe a realidade: não passava de um vagamundo sujeito a morrer às mãos dos carrascos chins, como os companheiros de Tomé Pires, ou a ficar preso na Grande Muralha para o resto dos seus dias, à semelhança de Vasco Calvo.

Esmaga-o a solidão do pária, sem pátria, sem lar e sem família. Na sua vida de aventureiro peregrino, Huyen tornara-se o repositório de todos os seus anseios, encarnando o próprio espírito do Oriente: cativa mas indomada, doce como mel, enigmática como uma especiaria e dura como diamante. A donzela de rosto cândido e alma ardente servira-o com a submissão de uma concubina e o desdém de uma rainha. Fernão adorara-a com esse amor sem esperança exalçado pelos trovadores, cuja coita ele não saberia pôr em verso, mas, melhor do que eles, soubera sofrer por quem nunca lhe tivera bem-querer e o vira sempre como o inimigo, o carrasco da sua felicidade.

Resgatara-a por uma verdadeira fortuna, renunciando por amor dela ao seu quinhão no saque das lanteias e também dos juncos do corsário Hinimilau – um chim renegado, matador de portugueses, que eles haviam desbaratado na enseada da Cochinchina e cuja presa rendera quase quarenta mil taéis em peças de seda, cetim e damasco, almíscar e porcelana fina. E mais renderia, se não tivessem sido forçados a queimar um dos juncos, por não haver equipação para o marear, embora António de Faria mandasse recolher do mar dezasseis corsários prestes a afogarem-se, para reforçar as chusmas.

Hinimilau e os quatro oficiais sobreviventes foram justiçados e atirados ao mar, quando Cristóvão Borralho descobriu no porão do junco do capitão os corpos descabeçados dos cristãos cativos, incluindo uma mulher e alguns meninos filhos de portugueses. Aproveitando o regozijo geral e fiado na promessa de alvíssaras que Faria lhe fizera por lhe ter salvado a vida no anterior combate, Fernão fora apresentar-lhe o seu pedido.

– Senhor capitão – dissera, recorrendo ao seu admirável engenho para advogar as causas perdidas ou safar-se dos maiores apertos –, vossa mercê viu já em Mutipinão, quando fizemos os nossos tratos, que não se pode vender ou pedir resgate pela moça e pelos meninos cauchins, porque em toda esta costa dos mares da China nos tomarão por corsários ladrões e, se escaparmos com vida, não mais lograremos vender aqui seja o que for, além de termos todos os aytaos do Filho do Céu e das nações suas tributárias a darem-nos caça com as suas armadas.

– Assi é, de verdade – concordara Faria, olhando-o com estranheza. – A que propósito.

– Tenho apenas um escravo para me servir e preciso de servos, quando volvermos a Malaca, pelo que seria uma grande mercê se me fosse permitido resgatar a Noiva Roubada e os dois meninos seus irmãos, com o meu quinhão do saque.

O capitão soltara uma risada brejeira e, tratando-o por tu como a um camarada de armas, perguntara:

– Desejas assim tanto a moça? Se ela fosse minha, oferecia-ta já, bem como os seus irmãos e a velha que lhes faz companhia, em paga da grande dívida que tenho para contigo. – Fizera um gesto com a mão a atalhar-lhe o protesto, acrescentando com pena: – Contudo, a Noiva Roubada e os outros cativos são parte do esbulho das lanteias de Tilaumera, sendo pertença de todos os que, como tu, participaram no assalto. Assi, terás de a comprar aos nossos companheiros, mas eu prometo sustentar a tua demanda. – E terminara com um trejeito de zombaria: – Não quero uma mulher sem homem na minha armada, porque dará causa a sarilhos pondo ao despique, por mor dela, chins e portugueses. Reza para que nenhum outro dê mais valor à tua flor de lótus que aos taéis de prata ou às peças de seda.

O negócio fora levado a cabo sem grandes embargos, a contento de todos, por reconhecerem a impossibilidade de pedirem resgate ou venderem a filha do anchaci de Colem naquelas paragens e tão cedo não volveriam a Malaca. Fernão cedera-lhes, em troca de Huyen, dos dois irmãos e da parente sua guardiã, o espólio de Tilaumera, acrescentando-lhe ainda uma boa parte do seu quinhão nas futuras partilhas do junco de Hinimilau e uma bolsa de prata que Faria lhe dera de presente.

Perdera de novo uma fortuna e desta vez a culpa não fora dos corsários nem das tempestades ou naufrágios, mas tão-só daquela sua loucura ou cegueira, de que todavia não se arrependia. Pura como jade em fogo, fragrante como lótus na lama, recitara Lin Dan quando ele lhe descrevera Huyen. O velho poeta falara como um oráculo, pois a Noiva Roubada fora para Fernão a verdadeira encarnação do Oriente, a sua miragem de ilhas afortunadas. Possuí-la era apoderar-se dos sabores, dos perfumes e da beleza daquele mundo, percorrer-lhe as linhas e volumes na geografia do corpo, mergulhar nas suas águas para conhecer o caudal dos rios, rasgar-lhe o ventre e sentir a brandura do húmus onde ansiava lançar a sua semente para se fundir com ela.

Contudo, essa comunhão de corpos e almas, mais do que da conjunção favorável dos astros, dependia da participação de duas vontades, a sua – acesa em fogo ainda antes de a ver – e a dela, sem chama, que ele nunca pudera atear com a sua paixão e se fizera cinzenta e fria como um rescaldo de fogueira.

Nas viagens mais longas, os navios transformavam-se em prisões flutuantes, onde se amontoavam dezenas de homens, privados de mulheres e a viverem uns com os outros numa intimidade forçada, durante largos meses, até já não se poderem sofrer, acabando fatalmente por travar lutas de morte por um xique-mique ou a cevar rancores e enfadamentos quer nos inimigos, quer em vítimas inocentes.

A falta de mulheres era o castigo mais duro de suportar, tendo António de Faria proibido os chins da tripulação de levarem a família, como era seu costume – exceptuando o piloto recém-casado que se recusara a embarcar sem a esposa e ele não pudera substituir a tempo –, dizendo-lhes que a sua armada era de guerra e ia em busca do corsário Coja Acem para lhe dar combate, portanto os navios não eram lugar seguro para mulheres e crianças.

Naquelas partes, a sodomia era uma prática corrente a que até alguns portugueses se entregavam sem pejo, sobretudo os que viviam há muito nas prisões do mar, por isso, não só Huyen, mas também os seus dois irmãos, que a igualavam em beleza, corriam grandes riscos de sevícias e, por sua vez, faziam perigar a precária tranquilidade do navio, pois a qualquer momento poderiam desencadear entre os matalotes rixas sangrentas pela sua posse, apesar do defeso que António de Faria lhes impusera de molestarem os cativos ou sequer de se acercarem deles.

O capitão apresentara como razão para o interdito serem mercadoria assaz preciosa, pela qual esperava obter rico resgate da família, desde que nenhuma das peças, em particular a moça, fosse danificada. E dera ordem a Fernão para se ocupar deles, responsabilizando-o pela sua segurança, comando que ele recebera como uma dádiva dos céus e cumprira com o zelo de um mastim de guarda ou do próprio Cérbero, o infernal cão das três cabeças.

Para melhor os resguardar dos olhos cobiçosos, arranjara-lhes um cubículo junto do alojamento do piloto, cuja esposa lhes poderia fazer companhia e dar algum conforto. Com eles se quedara Mi, a irmã mais velha do anchaci de Colem, que se recusara a abandonar os sobrinhos à sua sorte, visto ter sido designada pela família Chu para tratar das cerimónias do compromisso, noivado e casamento de Huyen com o filho do chifuu de Pandoree e zelar para que as negociações se fizessem dentro dos mais altos padrões de cortesia.

Recorrendo à amizade de Borralho que, como feitor da armada, tinha as chaves de todas as pitacas e baús de mercadorias, Fernão devolvera aos cativos alguns pertences de menor valia, para lhes dar um pouco de conforto e mitigar as saudades de casa.

– A tomada das lanteias foi uma necessidade, porque quedámos desprovidos de tudo, depois do ataque dos corsários cauchins que nos roubaram o barco dos mantimentos e toda a nossa fazenda – tratara de se justificar, ao entregar-lhes os presentes. – Se não fizéssemos o mesmo que eles, morreríamos.

Sentira remorsos por lhe mentir como um fideputa mal nascido, evocando a lei do olho por olho, dente por dente, bem ao gosto dos orientais, assim como uma certa ideia de justiça dos céus, por intermédio de Xiwangmu, a deusa da vingança.

– Se fosseis comerciantes honestos, teríeis pedido ajuda, a qual vos seria dada de muito boa vontade pelos nossos, contudo escolhestes assaltar-nos à má-fé, para nos roubar – dissera Mi, com severidade.

– Não sois melhores do que os wokou – a voz melodiosa de Huyen ressumara de desprezo, ferindo-o. – Não passais de meros ladrões do mar, que o meu pai há-de perseguir até vos varrer da face da terra.

– O capitão Faria não é um corsário sanguinário, ninguém molestou os vossos convidados, que foram postos em terra sãos e salvos.

– Se ele é tão generoso como dizes, que fazemos nós aqui? – insistira a voz acusadora por trás do véu. – Por que razão não nos libertou como aos nossos parentes ou me entregou ao meu noivo que vinha receber-me?

Desesperado, por não poder ver-lhe os olhos escondidos pelo véu, Fernão sentira a paixão da sua voz, no arrepio da pele que o desejo dela lhe causava, cada vez mais intenso, por vezes insano. Consolara-os com muitas promessas (que sempre custam pouco e causam bom efeito) de que seriam entregues à família, logo que o capitão achasse um lugar seguro para ferrar a armada e fazer veniaga. Abandonara o cubículo, envergonhado da sua falsidade que, todavia, acabara por lhe conquistar as boas graças dos reféns.

Fizera por ganhar a confiança dos irmãos e da casamenteira com os presentes, a fim de os ter como aliados no árduo caminho para o coração de Huyen. A sua urdidura dava-lhe esperança de ser a teia como ele desejava, porque passara a ser aceite como um protector, recebendo mesmo da inconsolável noiva algumas palavras de gratidão, que o fortificaram para enfrentar as dificuldades que se avizinhavam.

A pretexto de António de Faria lhe ter confiado a guarda dos cativos, passava a maior parte do seu tempo com eles, visto ter pouco que fazer durante a navegação. Na sua presença, os reféns falavam na língua chim para ele os poder entender, pelo que deixara de recorrer ao seu moço como intérprete, quando a velha Mi e os meninos lhe contavam as suas vidas ou ele lhes respondia às perguntas sobre a sua nação e os seus usos. Era-lhe cada vez mais penoso inventar desculpas sempre que eles procuravam saber se já havia notícia do anchaci de Colem e do negócio do seu resgate, ou animá-los com falsas esperanças de liberdade. Outras vezes, sem coragem para enfrentar Huyen e mentir-lhe de novo, deixava-se ficar à entrada do cubículo, sem falar, a ouvir as suas conversas com a esposa do piloto ou a escutar, arrebatado, as canções que ela tocava no erhu que lhe devolvera.

Agora, deitado na esteira da sua cabana, na madrugada insone, Fernão recorda a primeira vez que a ouvira e o efeito devastador da sua voz e da canção que ela escolhera para exprimir a sua paixão pelo noivo perdido:

Só na minha recatada câmara,

A mágoa rasga-me as entranhas com mil golpes.

Eu amo a Primavera, mas a Primavera passa,

As gotas de chuva apressam a queda das flores.

Debruço-me da balaustrada,

Com sentimentos indistintos.

Onde está o meu amado?

O céu funde-se com as plantas fragrantes,

Impede-me de ver a estrada do seu regresso134.

Fora invadido por sentimentos contraditórios que se fundiam numa raiva insana contra a Noiva Roubada que cantava o seu amor por outro homem, indiferente ao sofrimento que lhe infligia com a sua voz a gemer de saudade e amor ardente, intensificada pelos sons pungentes do instrumento.

Fernão revolve-se na esteira e geme, sentindo o corpo a arder, o sexo a intumescer e a pulsar de desejo, como nesse dia distante, quando os ciúmes o cegaram e quisera irromper pela câmara, expulsar os parentes e tomá-la à força no catre, para apagar com o estupro a memória do rival.

Em vez disso, refugiara-se no porão e, deixando-se cair num canto da pitaca mais sombria (o único lugar sem gente na maldita prisão flutuante), buscara alívio para o seu tormento no prazer solitário que o deixara ainda mais prostrado e insatisfeito.

Quisera crer no que dizia a voz do povo, pela boca de Borralho para o consolar, de que com afagos a mula e a mulher sempre fazem o que o homem quer. Como o cão que ama o dono que o maltrata, voltara à companhia de Huyen que, de certo modo, parecia aceitar a sua presença, pois já não interrompia o canto e a música, nem cobria o rosto quando ele entrava na câmara ou baixava os olhos se encontrava o seu olhar, deixando-o mareado de amor.

Fora no dia do Duplo Sétimo do calendário chim, ao ouvi-la cantar a lenda de amor das duas estrelas, que Fernão decidira pedir Huyen ao capitão. Tinha-lhes levado a ceia, nessa noite, quando Bao, a mulher do piloto Qing Hu aparecera com uma oferta de doces.

– Hoje é o Sétimo Dia do Sétimo Mês. – dissera-lhe, vendo a sua expressão de surpresa. – Um dia único no ano!

– Foi um dia igual a tantos outros! – resmungara o mais velho dos dois irmãos.

– Que tem ele de especial? – perguntara o mais moço.

Lágrimas perfeitas como aljôfar rolaram pelo rosto de Huyen, mas a sua voz não acusara mais do que um leve tremor quando falara para os irmãos:

– Em casa, estaríamos a festejar na varanda com os avós, os pais, os tios e os primos, a fazer ofertas à bodhisattva Guayin. Neste dia, em cada ano, tem lugar o encontro de Zhi Nucom Niu Lang, o seu amado. A Donzela Tecelã, filha do imperador dos Céus, e o Vaqueiro amavam-se profundamente, mas o seu amor desagradou ao imperador que os separou, exilando-os, cada um para seu lado da Via Láctea. Todavia, o desespero da Tecelã logrou abrandar a sanha do pai que lhe permite encontrar-se com o seu amado uma vez por ano. É hoje, na noite do Duplo Sétimo, que a Tecelã vai atravessar a Via Láctea por uma ponte formada por um bando de pegas, para se unir ao seu Vaqueiro. – Fez uma pausa e exclamou com um suspiro: – Afortunada Zhi Nu-ū!

Tomou o erhu nas mãos de marfim e moveu o arco de crina de cavalo entre as duas cordas de seda do estranho instrumento que parecia uma mistura de viola e alaúde, com um corpo estreito e alongado a terminar numa pequena caixa de som feita de pele de cobra. Huyen tangia-o como se lhe emprestasse a sua alma, fazendo-o vibrar com todas as emoções de uma mulher enamorada.

Fernão ouvira a história de Vega e Altair e nela reconhecia não a Tecelã a chorar de amor pelo Vaqueiro, mas Huyen a pulsar de paixão e de saudade por se ver apartada do seu amado Pham. De novo o cegara o ciúme com a violência do ódio e, sem uma palavra, abandonara a câmara para ir falar com António de Faria a fim de lhe pedir a cauchim como paga das alvíssaras prometidas.

A ideia de ter Huyen só para si inebriara-o a ponto de não se aperceber de que a perdera, no momento em que a ganhara. Quando soube ter sido comprada pelo folangji que se insinuara no coração dos irmãos e no seu, fingindo-se apiedado da sua sorte apenas para esconder a falsidade dos seus propósitos, a refém passara a vê-lo como o pior dos inimigos. Perdida a esperança de ser resgatada pela família, cobrira o rosto com um pesado véu e não voltara a dirigir-lhe a palavra.

Fernão apaziguara Mi, ao jurar-lhe que Huyen seria sua esposa e não sua escrava, em Malaca, lhes daria a mesma vida que tinham em casa de seus pais, mas, nada que fizera ou dissera lograra amaciar a soberba cauchim. Para seu maior castigo, o ódio de Huyen era um acinte que lhe espevitava o desejo, já de si ardente. Sentia-se possuído por uma força maléfica, que o tomara de assalto abafando todos os sentimentos cristãos e mesmo a sua consciência, até nada mais restar senão aquela febre que o atormentava e só teria alívio quando a fornicasse com igual ódio, comprazendo-se no seu choro de dor e humilhação, soltando o jorro quente do seu sémen no corpo violado.

E fizera-o, com a brutalidade de um violador, sem atender a súplicas ou prantos, obedecendo apenas ao seu instinto, atraído pelo seu corpo como o fogo de Santelmo pelos mastros, percorrendo-lhe a pele de seda com os lábios sôfregos que a arrepiavam de asco. Por fim, Huyen deixara de se debater e de chorar, permanecendo de olhos abertos, sem expressão, enquanto ele a possuía de novo, já sem violência, ferido pela amarga sensação de penetrar o corpo de uma morta. Desde esse dia a cauchim não mais cantara, sorrira ou falara na sua presença e nem sequer os irmãos ou a tia logravam arrancá-la ao quebranto em que se afundara.

Contorce-se na esteira e cerra os olhos porque mesmo na escuridão do casebre não deixa de ver o seu rosto a atormentá-lo. Humilhara-se a seus pés como um mendigo ou um escravo suplicando por compaixão, amando-a com infinita ternura e adoração para se redimir, sem jamais abrandar a sua rigidez de estatueta de marfim. Um corpo inerte a submeter-se aos seus desejos com docilidade, mas cujo espírito estava ausente dos olhos de azeviche que o trespassavam sem o verem.

Nos sete meses e meio que passaram na enseada de Ainão, navegando de rio em rio ou costa a costa, em busca do corsário Coja Acem, sofrera com paixão essa frieza que o levara a desejá-la cada vez mais. O ciúme endoidecia-o, como uma condenação aos infernos, porque o homem é fogo, a mulher estopa, vem o diabo e assopra. Fernão via como os matalotes e os soldados, enfadados com a falta de acção, fartos da vida do mar, o olhavam invejosos, cobiçando-lhe Huyen, tornando-se cada vez mais atrevidos, passando já dos chistes às avançadas, rondando-lhe o cubículo como moscas ao mel.

Com a lua nova de Outubro viera o castigo dos céus, junto à ilha dos Ladrões. O mar começara a empolar-se e o vento de Sueste tomara-os em desabrigado e de travessão à costa, fazendo um escarcéu tão alto, de vagas tão grossas que se buscaram todos os meios de salvação, cortando mastros, desfazendo chapitéus e obras mortas de popa e de proa, alijando o convés para se fazerem lestos, guarnecendo as bombas de novo, baldeando as fazendas ao mar, ajustando calabretes e viradores, cuidando da artilharia grossa que se desencarretara. Nada disto bastara para impedir a destruição de toda a armada135.

Na escuridão profunda, com os corpos enregelados pelo vento que soprava muito rijo e pelas águas cruzadas a cobrirem o barco com vagas altíssimas, os marinheiros já não faziam conta de si, porque o junco não dava pelo leme, antes era levado à vontade dos ventos e das ondas, de uma para outra parte. O mar fervia, os ares assemelhavam-se a uma imagem do juízo final, rasgados por trovões e relâmpagos. Fernão, que tivera de acudir aos trabalhos de salvamento, nem pensava no perigo que corria, mareado de angústia por não poder estar junto de Huyen para a proteger.

Passavam duas horas da meia-noite quando a fúria da tempestade parecera abrandar e Fernão correra para a que era agora a sua câmara de casado. Não chegara lá, porque de súbito dera-lhes um pegão de vento tão rijo que lançara as quatro embarcações juntas, como se fossem madeiros, contra os rochedos da costa, desfazendo-as em pedaços.

Lutando com os destroços, nas águas revoltas, frias como a morte que o rondava, procurara Huyen entre os corpos que se agitavam ou gritavam de terror. Vira-a num relance, agarrada aos dois irmãos que não se mexiam, parecendo desacordados ou mortos. Segurara-se a um madeiro que flutuava e nadara em direcção à cauchim, quase certo da sua salvação. Estavam perto da costa, poderiam chegar à praia se não se despedaçassem nas rochas. Não havia sinais de Mi.

Golpeando os que buscavam agarrar-se à sua tábua, Fernão alcançara-os e bradara-lhe não temas, estou aqui, vou levar-te a salvo para a praia. Os dois meninos estavam mortos, mas ela não parecia disposta a largá-los e o peso dos seus corpos puxava-a para o fundo. Agarra-te ao madeiro, gritara-lhe em ânsias, solta-os, que nada podes fazer por eles.

Sem dizer uma palavra, Huyen olhara-o com tamanha aversão que ele estremecera com um frio maior do que o das águas que o cobriam. Com um impulso, a cauchim afastara-se dele, na direcção oposta à da praia e Fernão, amaldiçoando a sua impotência, vira-a desaparecer puxada pelos dois corpos que se afundavam.

130 Segundo o Livro da Ciência Natural (Bowuehi) escrito por Zhang Hua, da dinastia Jin, nos princípios do mundo a Via Láctea tinha comunicação com o mar e os homens podiam viajar numa grande jangada de madeira e chegar ao Céu, após dez dias ímpares de navegação; aí veriam a Tecelã ocupada no seu tear, no palácio, e o Vaqueiro a guardar o seu gado nas margens do rio Celestial.

131 Niu Lang ( ) ou Vaqueiro é a estrela Altair e Zhi Nu- ( ) ou Donzela Tecelã é Vega.

132 Tradução de uma versão bilingue (chinês-inglês) pela autora.

133 Li Qingzhào ou Li Yi-an (1083-1151) foi uma poetisa chinesa da época da dinastia Song.

134 Glosa de Li Qingzhào ao poema Pintar os lábios de vermelho

135 Peregrinação, capítulo LIII.

XVIII

A glória do conquistador é como a iluminação do incêndio

(português)

Carta de Afonso de Albuquerque a Ruy de Araújo:

Amigo Ruy d’Araújo, vos envio muito saudar.

Bem sabeis quão obrigado sou, e os Capitães, e toda a mais gente desta Armada a morrermos por serviço de Deus, e d’ElRei D. Manuel nosso Senhor, e mais em guerra tão justa. O rei de Malaca se pôs em determinação de me não entregar os cristãos, nem aceitar a paz e amizade, que lhe ofereci da parte do rei de Portugal, pelas quais razões me convém pôr-lhe as mãos sem mais dilação.

Se vos recrescer disto passardes vós trabalho, tomai-o em paciência, porque a mim me convém, pelo que cumpre ao estado do rei de Portugal, ver o cabo a este negócio, e provar suas forças com as dos imigos, e quanto mais tardar, terão eles mais tempo de se fortificarem.

Resposta de Ruy de Araújo a Afonso de Albuquerque:

Senhor, beijo-vos as mãos pelo desejo que tendes em nos salvar, porém que Deus não queira que a Armada do rei de Portugal, nem os seus Portugueses, recebam afronta, nem abatimento, por nos segurarem a vida, porque nós obrigados somos a morrer por serviço de Deus, e de nosso rei

Sabei, Senhor, que o rei [de Malaca] se faz prestes quanto pode, e que os Guzarates são os que andam de dia e de noite ajudando na fortificação das estâncias, e que estes são os principais inimigos, que não podem sofrer fazerem os Portugueses assento na terra.

Se determinais de cometer a Cidade, deveis de o fazer o mais prestes que puderdes, antes que a cidade mais se aperceba, sem mais falar em concerto, nem pedir cristãos, porque sabei certo, que o rei não vo-los há-de dar senão por força, e está tão soberbo com a muita gente estrangeira que tem, que não cuida senão em vos tomar a armada.

O primeiro começo desse cometimento deve ser nas naus dos mouros, por serem quem faz todo o mal, porque estas gentes se prezam mais de uma sutil traição que de todolas cavalarias do mundo. E por tanto, se de Malaca quereis algum bem há de ser com muita crueza de guerra, e tomar nela a mor riqueza junta que há em todo o mundo; com que, assi destruídos de todo, então assentareis o que quiserdes.

E quanto a mim, e a meus companheiros, Senhor, não deixeis de fazer o que cumpra ao serviço do rei de Portugal, porque já estamos oferecidos a Deus para receber martírio de morte.

Embora sujeitos às leis dos chins, os nove degredados continuavam a reger as suas vidas pelo calendário litúrgico cristão, respeitando os seus domingos e dias santos, celebrando a Páscoa e outras solenidades, a fim de se manterem ligados à pátria e preservarem a sua identidade.

Domingo, depois de tomarem banho no rio e de despiolharem uns aos outros os cabelos e barbas, vestiram os seus melhores andrajos – a gente da terra era pobre e a pouca roupa que lhes davam de esmola já tinha gasto o seu tempo de vida nos corpos dos seus donos – e apresentaram-se à porta da casa de Calvo ainda antes do meio-dia, sendo recebidos por toda a família com a calorosa amizade do primeiro dia.

– Até parece que estamos em casa, na nossa terra, e não neste lugar do fim do mundo! – exclama Borralho, de estômago reconfortado pela abundante refeição, sorrindo enlevado para Lijie que lhe serve um vinho de fruta.

Calvo desenrola sobre a mesa um rolo de papéis.

– Aqui tendes o traslado do despacho do Ministério dos Ritos a exigir a entrega da Malaca, que determinou o nosso destino, meu e de Tomé Pires.

– Portugal não podia desistir daquela conquista! – insiste Vicente Morosa. – Os mouros chamam Olho-do-sol a Malaca, porque tal como o astro-rei brilha sobre todas as terras, assim Malaca se ergue sobre as outras cidades e está no centro de todas as derrotas comerciais dos mares da Pestana do Mundo.

Fernão, que acabara de ler o documento, protesta indignado:

– Pêro de Faria, que ainda deve ser o capitão de Malaca, a cujo mando fiz viagens a Aru, Pão e Patane, também tomou parte na sua tomada e ainda fala com dor dos trabalhos que passaram e da gente que morreu.

– Os ossos do grande Albuquerque haviam de se revirar na cova, com a mesma sanha que eu sinto! – corta Vicente. – Tivemos de acometer Malaca por duas vezes, pois não lográmos tomá-la no primeiro assalto. Os mouros e malaios que eram em muito maior número e defenderam-na valentemente! Foi a minha primeira campanha na Índia, inda mal me despontava a barba.

– Estiveste com O Terríbil na tomada de Malaca? Eu também! – exclama Calvo, de olhos brilhantes, tratando-o por tu como a um velho camarada de armas.

– Pelejei ao lado do Fernão Magalhães, que me acautelou contra as traições dos mouros de Malaca. Ele conhecia-lhes as manhas por ter feito parte da primeira expedição de Diogo Lopes Sequeira em mil quinhentos e oito.

– Eu lembro-me bem dele! Magalhães inda vive?

– Não vos chegou rascunho do seu último feito? – estranha Fernão. – Foi cousa de espantar o mundo!

– Como podia? – agasta-se Calvo. – Há mais de vinte anos que estou cativo nesta terra, apartado do resto do mundo!

– Perdoe-me, vossa mercê, que sou um asno chapado! – roga-lhe envergonhado. – Dizia-se no reino que Magalhães ficou muito sofrido por el-rei D. Manuel não lhe ter reconhecido os bons serviços, nem feito qualquer mercê, e por isso renegou da pátria.

– Magalhães era um homem de honra e de bravura sem par – lamentou Calvo, interrompendo-o –, entrou em muitas batalhas na Índia e em África, até foi ferido em Cananor.

– Foi oferecer-se aos reis católicos a cujo mando fez uma formidável viagem à roda do mundo. No regresso, os gentios da ilha de Mactan136 mataram-no em combate e foi o capitão espanhol Juan Sebastián Elcano quem concluiu o feito.

– .Cuja glória poderia ter cabido a Portugal, mas na nossa terra quando na república a monda cresce, os bons não vêm a lume.

– Pois já nesse ano de quinhentos e oito – retomou Calvo –, esse valente avisou o capitão-mor Lopes de Sequeira da conspiração dos mouros de Malaca para o matarem, além de salvar também de uma cilada o primo Francisco Serrão e outros companheiros que tinham desembarcado. A feitoria foi pilhada e incendiada. Entre os portugueses houve nove mortos, dezanove cativos e muitos feridos.

Vicente acrescentou para os companheiros que os ouviam pasmados:

– Foi a entrega desses cativos que Albuquerque veio demandar a Mahamed, três anos mais tarde, em senho de boa amizade embora, por via das dúvidas, sustentasse o seu pedido com uma armada de dezassete navios, mil e duzentos soldados portugueses e outros duzentos malabares! O feitor Rui de Araújo, que era um dos sobreviventes, enviara-lhe cartas de Malaca secretamente, suplicando-lhe que os fosse libertar.

– Araújo insistia muito para que o governador acometesse Malaca com a maior armada que pudesse, a fim de forçar o rei a fazer pazes ou para tomar a cidade, pois, se ele se fosse como viera, perderíamos a face e o respeito dos nossos inimigos, que se alvoraçariam de novo e massacrariam os cativos portugueses. Estas razões decidiram Albuquerque.

– Ele chamou-lhe Leão dos Ladrões do Mar! – exclama Fernão, sentindo-se de novo apanhado nessa teia intrincada que o ligava a um Passado, Ideia ou Empreendimento muito mais grandiosos do que a mera aventura de enriquecer no trato das especiarias ou das sedas.

– Quem? – pergunta Borralho com estranheza, rompendo o silêncio que se fizera.

– O da estátua, no meio do rio! O mausoléu junto à vila de Iunquileu.

– Que estátua? – pergunta Vasco Calvo, impaciente.

– A do Tuão Hasan Mudelyar, o embaixador d’el-rei de Malaca! – Cristóvão recorda-se subitamente da emoção com que haviam lido, naquele lugar remoto, o nome do vizo-rei apesar de vituperado pelos inimigos. – Afinal, o embaixador malaio morreu na China como o nosso Tomé Pires! Cá se fazem, cá se pagam.

Vendo o olhar de desconcerto do seu anfitrião, Fernão esclarece-o:

– Quando vínhamos pelo rio Batampina, vimos um monumento armado sobre quatro colunas de pedra lustrada, com um coruchéu de azulejos de porcelana brancos e pretos. Continha sete pelouros de ferro portugueses e, na frontaria, um letreiro de letras douradas à charachina com os dizeres (se a memória me não falha): Aqui jaz Tuão Hasan Mudelyar, tio do rei de Malaca, a quem a morte levou antes que Deus o vingasse do capitão Albuquerque, leão dos roubos do mar137.

– Nunca vi esse monumento, nem ouvi falar dele!

– As voltas que o mundo dá! – exclama Vicente: – Vossa mercê não se lembra dos seis capitães chins, que estavam no porto de Malaca com os seus juncos bem armados, e foram oferecer-se a Afonso de Albuquerque para o ajudarem na conquista?

– Deveras? – espanta-se Jorge Mendes, rogando-lhes: – Vós, que haveis tomado parte na conquista, falai-nos desse feito do Terríbil, pois foi antes do nosso tempo na Índia.

– Sim, por vossas vidas, contai-nos a tomada de Malaca! – secundam outras vozes.

Vicente troca um olhar de entendimento com Calvo e, sorrindo, diz-lhe:

– Comece vossa mercê que esteve nos dous cometimentos e eu irei metendo a minha colherada nos sucessos em que tomei parte.

– Seja então, meus amigos, mas terei de me socorrer da memória do Vicente, que a minha já começa a variar. A nossa armada chegou a Malaca na tarde do dia um de Julho do ano de mil quinhentos e onze, com todos os navios embandeirados e apavesados, a tanger trombetas, dando salvas de grossa artilharia, que causaram grande terror ao povo, assim como ao rei Mahamed e aos mouros do seu conselho, apesar de já nos esperarem.

Nesse mesmo dia, o mensageiro d’el-rei, veio a bordo da capitânia onde foi recebido por alguns cavaleiros fidalgos, estando Afonso de Albuquerque sentado numa cadeira de espaldar, guarnecida de seda e ouro, com todos os capitães da frota, vestidos de paz e de guerra, sentados segundo a sua qualidade em bancos cobertos de alcatifa. A restante gente de armas fazia guarda de honra, de pé, em boa ordem.

Como sempre que queria atemorizar mouros ou gentios, o governador apresentava-se com grande pompa, quer nos trajos quer nos gestos. A barba muito alva, que ele jurara só cortar em Ormuz sobre o corpo morto de Coja Atar, chegava-lhe abaixo da cintura e ele prendia-a com um nó ao cinto. Tinha um ar tão majestoso que o Tuão lhe fez as suas zumbaias mais cerimoniosas, como se ele fora o imperador da China, dobrando por três vezes o corpo até o rosto tocar nos joelhos. Só então Albuquerque se pôs de pé para o receber com boas palavras, mas logo se tornou a sentar, mandando pôr sobre a alcatifa umas almofadas de seda onde o mouro se acomodou e, deste assento mais baixo, lhe deu a mensagem de Mahamed.

– El-rei meu senhor vos manda perguntar para que é tamanha armada como a que trazeis. Deseja saber se vindes para a guerra ou para a paz, porque ele outra cousa não deseja senão amizade com o rei de Portugal. – E mentia com quantos dentes tinha na boca ao acrescentar, manhoso: – Por essa razão mandou cortar a cabeça ao seu bendara, como castigo pela morte dos cristãos da feitoria, cousa em que ele não teve nenhuma culpa.

Admirávamos o esforço de Albuquerque em conter a sanha e as ganas de atirar o mouro fementido borda fora da Frol de la Mar.

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