– Dizei a Sua Alteza que lhe peço a mercê de me mandar entregar os cativos e pagar toda a fazenda que lhes foi tomada pelo bendara. Então falaremos em pazes.
– El-rei meu senhor promete que quando se concertarem as pazes, vos mandará os cristãos com tudo o mais que vos foi tomado.
– Assi não pode ser! Não hei-de fazer nenhuma concertação antes de ter os cativos com toda a sua fazenda. Não sairemos daqui sem darmos conclusão a este negócio, porque a minha armada não vem buscar carga, vem para fazer guerra aos que não quiserem ter paz connosco.
Mahamed entendeu a ameaça, porque logo começou um vaivém infindável de mensagens sem nenhuma conclusão, uma situação insuportável que Albuquerque sofria com uma paciência de Job, de que ninguém o julgara capaz, para conseguir a libertação do feitor e dos seus homens. O Terríbil entendia bem as causas da desfaçatez do rei: a cidade, de cem mil habitantes, era defendida por fortíssima artilharia, um exército de trinta mil guerreiros, além de uma hoste de elefantes de guerra e uma armada de inúmeros navios bem providos de bombardas de vários tipos. Para Mahamed a desproporção entre a sua força e a dos portugueses era semelhante ao confronto entre um elefante e um moscardo, portanto, quase desprezível.
Araújo sabia de tudo o que se passava no conselho d’el-rei, por Nina Chetu, um mercador seu amigo, e tomava conhecimento dos trabalhos de defesa por outra devotada espia. Os portugueses cativos viviam amancebados com mulheres da terra que, condoídas da sua triste condição os tinham socorrido por caridade, acabando por ganhar vontade àqueles homens de outra religião e raça que as tratavam melhor que os naturais, adorando-as como a deusas e, no leito, tomando-as sempre com uma paixão insaciável, fruto talvez do desespero ou da solidão. E elas tinham-se entregado a esse bem-querer com a devoção inteira e cega, própria da natureza das mulheres malaias, espiando por sua conta os homens de guerra, seus patrícios, para darem aviso aos amantes de tudo o que logravam saber, não estimando perder por eles a vida em tão arriscada empresa.
O feitor recomendava ao governador que se precavesse contra as manhas d’el-rei, pois a traição e a perfídia estavam-lhe na massa do sangue. Naquela terra os monarcas tinham um reinado de pouca duração, sucedendo-se uns aos outros a um ritmo muito mais rápido do que em qualquer outra nação do mundo, por ser uso matarem-se por cobiça, de tal modo que os irmãos não se fiavam uns dos outros. O mesmo faziam as gentes do povo que se matavam com dardos empeçonhados das suas zarabatanas, com que fingiam andar a caçar, lançando-as de tocaia aos inimigos.
Deste modo subira ao trono Mahamed que, para atalhar conspirações e revoltas, se apressara a apunhalar o seu meio-irmão, o legítimo herdeiro Celeimão, assassinando igualmente o seu filho e sucessor por este lhe ter pedido dinheiro para seus gastos, dando ainda a morte sem razão a outros dezassete parentes, de quem recolhera a imensa fazenda, tomando-lhes por mancebas as filhas e esposas de maior preço, que seriam cinquenta. Depois da queda de Malaca, os mouros diziam que os cristãos lhe tinham tomado o reino como castigo dos céus pelos seus grandes pecados.
Nada se fazia naquela terra sem licença sua ou do bendara, todos estavam sujeitos aos terríveis castigos e penas de morte que a sua crueldade determinava, a que apenas escapavam os nobres que podiam escolher a morte pelo cris, às mãos de um parente próximo. A gente baixa era lançada sobre estrepes, cozida em água a ferver, ou assada e comida por uma raça de gentios de Aru ou de Bata, que o rei mandava vir de Samatra para esse fim.
Afonso de Albuquerque escreveu a Araújo, dizendo-lhe que temia acometer Malaca porque poria em grande risco a vida dos cativos, mas a corajosa resposta do feitor ajudou-o na decisão. Convocou os capitães e os fidalgos principais da armada para conselho, leu-lhes as cartas que escrevera ao rei de Malaca e a Araújo, assim como a resposta que recebera do feitor, pedindo-lhes para se pronunciarem sobre se deveria ter mais alguns cumprimentos com o dissimulado rei Mahamed ou, se pelo contrário, deveria assaltar a cidade sem mais demora.
136 Nas Filipinas.
137 Peregrinação, capítulo XC.
XIX
O cão ladra à cauda do elefante
(malaio)
Carta de Afonso d’Albuquerque a Mahamed, rei de Malaca:
ElRei Dom Manuel meu Senhor mandou a este vosso porto um Capitão com certas naus que vinham mais carregadas de mercadorias, que de gente, com desejos que tinha de assentar paz, e amizade convosco; e sobre vosso seguro, e do vosso Bendara, haveis roubado toda a fazenda, e matado, e cativado os Portugueses, como vos já tenho dito, e trabalhastes quanto pudestes por lhe tomar suas naus, se milagrosamente os Nosso Senhor não livrara.
Sabei certo se me logo não mandais entregar os Cristãos, e toda a fazenda, que tendes tomada, vos hei-de destruir, com tomar-vos a vossa Cidade. Se os houvésseis tomado de boa guerra ou por represália, então eu vo-los resgataria pesados a ouro, mas pois os cativastes com traição logo mos haveis de entregar com boa paz, que por isso assentarei convosco.
Porque se o não fizerdes, os Portugueses estão tão doudos que os não posso ter e há na armada irmãos e parentes dos cativos que juram de os tomar resgatados com fogo e sangue; e logo vos querem ir buscar dentro em vossos paços.
Tomo a Deus por Juiz, que vós, e vossos Governadores sereis causa da vossa destruição, pois por conselho dos Guzarates, que são imigos capitais dos Portugueses, não quereis tomar conclusão nenhuma de paz comigo. Pelo que vos digo que hajais bom conselho e me mandeis resposta sem engano de falsidade, porque eu tenho um grande adivinhador, que me deu o rei de Cochim, o qual me descobre todas as traições.
E dou-vos por sinal disto assi ser, mudar o anel de um dedo para o outro138.
Calvo faz uma pausa para beber um trago de vinho e refrescar a boca seca pelo longo relato. Vicente Morosa aproveita o descanso para acrescentar:
– Nas suas rebolarias, o rei Mahamed fazia sair todos os dias do rio uma armada de lancharas139, com muita gente de peleja, que dava uma surriada de artilharia às naus e se tornava a recolher. Albuquerque mandou Fernão de Andrada com dez batéis armados dar-lhes rebate ao longo da ribeira com fogo de berços e falcões.
– O governador precisava de conhecer o poder e modo de defesa de Malaca – retoma Calvo –, ver onde tinha assentado a sua artilharia e quanta gente havia para a defender.
A cidade acordou estremunhada, com os seus moradores a fugirem de casa num grande tumulto, levando os filhos e o fato às costas, tão desatinados de terror que não acertavam por onde iam. A estratégia de Albuquerque deu frutos, pois ele viu que acudia à defesa muito mais gente da povoação dos mercadores, a norte, do que da banda da mesquita, a sul, onde estavam as casas d’el-rei. A ponte que ligava as duas margens da cidade era o lugar mais fortificado, pois ali acudira Mahamed com os seus elefantes e a sua tropa de escol.
A multidão acorreu aos paços, com grandes prantos e clamores. Mahamed, temendo o levantamento do povo, deu-se pressa em soltar os portugueses e enviá-los aos batéis da armada com o recado de que obedeceria ao governador em tudo o que ele lhe mandasse. Rui de Araújo e os companheiros foram embarcados em almadias que remando debaixo de fogo com grande perigo, lograram chegar-se aos pelejadores, com muitos acenos e brados de “Paz! Paz!”.
Os capitães, reconhecendo-os, deram ordens de cessar-fogo, capearam aos navios para que fizessem o mesmo; o tumulto das bombardas cessou nesse instante e os marinheiros, saudando os cativos com grande alegria, recolheram-nos nos batéis para os levarem à Frol de la Mar, a nau capitânia, onde o governador abraçou cada um deles, com lágrimas de alegria, e a Rui de Araújo com particular satisfação:
– Temi muito pelas vossas vidas. Mahamed é fementido e manhoso como uma raposa, por nada vos queria soltar.
– Cuidei que desta vez íamos morrer – respondeu-lhe o feitor, chorando de gratidão. – Os guzarates foram os que mais nos perseguiram, meu senhor, com promessas e tormentos para renegarmos a nossa Fé. Alimentavam a desconfiança d’el-rei contando-lhe os males que, segundo eles, os nossos têm feito por toda a Índia. Se não fora o socorro de Nina Chetu que pagou muitas peitas aos nossos algozes e nos mitigou a fome, nenhum de nós teria escapado com vida.
Albuquerque passou a mão direita pela comprida barba, de uma alvura de neve, segurou-a entre os dedos como um rosário e prometeu-lhes:
– Juro-vos, por estas minhas barbas, que deles tomareis dura vingança, já que não é possível concertar a paz com el-rei.
Visto e sabido tudo o que lhe convinha para a sua empresa, Albuquerque convocou novo conselho, mas, antes de começar a tratar dos negócios da guerra, pediu aos seus oficiais para receberem os capitães chins que lhe vinham agradecer a devolução dos juncos e o salvo-conduto para saírem do porto de Malaca. Os visitantes entraram com os línguas, fazendo as suas zumbaias de cortesia e o governador recebeu-os de pé, com mostras de grande amizade.
– Há muito tempo que o rei de Malaca nos tem retidos – falou o capitão Pulata que chefiava a embaixada – e não nos deixa partir, porque quer usar as nossas gentes nos navios da sua armada, em guerra contra o rei de Daru. Graças à vossa chegada, ficou muito ocupado em fortalecer a cidade, deixando de nos vigiar tão apertadamente, pelo que todos os nossos homens, às escondidas, já recolheram aos juncos. Podes usá-los como soldados ou matalotes e a nós como teus capitães nesta tua empresa.
Ao ouvirem a oferta do chim, os portugueses soltaram exclamações de surpresa e agrado, calando-se quando ele acrescentou:
– Meu senhor, como amigos te dizemos que olhes bem o que vais fazer, porque a cidade está muito fortificada. Devias sujeitá-la pela fome, tolhendo-lhe os mantimentos que lhe vêm de Java, pois de outro modo, sendo vós tão poucos a vitória é muito duvidosa. O rei proveu-se de infindas munições, tem vinte mil homens de armas, naturais da terra e jaus, sendo dez mil deles muito bons de guerra, bem armados de espadas e escudos que lhes deram os guzarates. Conta também com inúmeros frecheiros turcos, rumes, coraçones e persianos, além dos seus elefantes de guerra.
– Fico-vos muito agradecido pelo conselho de boa amizade, e quer tenhamos paz quer guerra com el-rei, quedai seguros de que vos mandarei restituir os juncos que ele vos tomou. Por ora, estamos determinados a cometer este feito tão necessário à nossa honra e, embora o poder d’el-rei de Malaca seja grande, nós não temos medo a nada e já estamos acostumados a pelejar com elefantes.
– Se o tentares, senhor – volveu o chim –, toma muito cuidado no desembarque da tua gente, porque por fora das tranqueiras e pela praia há muitas covas cobertas com palha, armadilhadas com pólvora e estrepes140.
– Rogo-vos muito que espereis mais alguns dias, para assistirdes à tomada de Malaca e levardes notícia a el-rei da China de tudo o que aqui se passar. Folgarei muito, se quiserdes ir todos no meu batel para ver de perto o modo de pelejar dos portugueses, o grande ânimo com que hão-de acometer a cidade.
– Assi faremos. Todavia, pesa-nos que não nos permitas servir-te nesta empresa.
– Se recuso a vossa oferta, que muito me honra, é por medo de vos causar dano, se este feito não nos correr de feição e Mahamed quiser vingar-se. Rogo-vos, todavia, que me empresteis as vossas barcas para o desembarque da minha gente.
– Contai com elas. Pedimos-te também licença para partir e volver à nossa terra, com a promessa de que, se tomares Malaca, volveremos todos aqui, carregados com muitas mercadorias.
Após a saída do estranho bando, Albuquerque deixou de sorrir, ficando por momentos em silêncio, que ninguém ousou interromper.
– Estou muito afrontado com o que aqui se passou. Os chins acham esta nossa empresa duvidosa, por sermos nós poucos e os de Malaca muitos. Para me desafrontar estou determinado a acometer a cidade antes deles partirem para a China e a fazer aqui uma fortaleza que se possa suster no futuro, que é o que mais cumpre ao serviço d’el-rei nosso senhor. Sem a fortaleza, de pouco proveito nos servirá o muito que aventurámos para a tomar. Malaca é a escápula principal deste mundo, aqui vêm os mouros de todas as partes, sobretudo do Cairo e Meca, buscar especiarias, pondo as nossas naus em risco. Olhai todas estas cousas e dizei-me o que devo fazer, porque se vos parecer mal fazer-se a fortaleza, não hei-de aventurar a vida de um grumete por quantos mouros houver em Malaca.
Foi longa a prática dos capitães e dos fidalgos, porque sempre há pareceres contrários entre os portugueses, qualquer que seja o assunto; só com muita paciência ou, por vezes, decidindo à revelia dos seus pareceres é que o governador podia agir. Concordaram, por fim, com algumas reservas, que se acometesse a cidade para a conquistar e fazer a fortaleza. Concluídas as assinaturas, Albuquerque declarou-lhes:
– Atacaremos depois de amanhã, vinte e cinco de Julho, dia de Santiago. – Soltou uma risada e o seu rosto pareceu rejuvenescer: – Haverá melhor dia do que este para dar santiago nos mouros? Ceai, repousai até à meia-noite e esperai que eu vos faça sinal com um tiro de berço, para começarmos a dar-lhes bateria de pelouros grossos. Acometeremos com a preia-mar, às duas da manhã. António de Abreu irá com o junco abalroar a ponte, ajudado por Duarte da Silva numa galé e por Simão Afonso numa caravela. Tomadas as vossas tranqueiras acudireis todos ao meio da ponte, onde vos direi o que haveis de fazer, pois como ainda não vi a cidade, não posso determinar já as nossas acções. Levarei também duas barcas com peças grossas de artilharia para fazerem fogo sobre ambas as partes da angra e guardarem as costas dos nossos homens que estiverem a fazer as tranqueiras.
– Eu desembarcarei do cabo da ponte onde estão a mesquita e as casas d’el-rei – secundou D. João de Lima –, com Gaspar de Paiva, Fernão Peres de Andrada, Sebastião de Miranda, Fernão Gomes de Lemos, Vasco Fernandes Coutinho, com o corpo da gente da armada que nos foi destinado.
– Logo que as estâncias forem entradas, acudiremos ambos ao meio da ponte, para aí nos fazermos fortes. Ou, se vos apartardes, vinde ter aonde virdes a minha bandeira. Rui de Araújo, quando nos virdes pelejar nas tranqueiras, ide com António Fernandes, por ambas as partes da cidade, cada um com vinte rocas de fogo, onde melhor vos parecer, abrasai quanto puderdes. António é um cafre da minha geração e meu homem de confiança, podeis contar com ele para tudo o que vier. Ide descansar e preparar-vos.
Calvo, exausto, faz uma pausa. Ninguém o interrompera com perguntas, presos da sua narrativa e Vicente não achara necessário acrescentar fosse o que fosse, pois, ao contrário do que dissera, o velho mostrara uma memória de cronista para citar nomes, sucessos e datas.
– Estou sem fôlego, mas Vicente pode narrar-vos o primeiro assalto à ponte, em que tomou parte – e acrescenta, sorrindo para Valentim –, ao lado do valoroso Pedro de Alpoim, capitão da nau Santa Catarina e vosso parente.
– Nisso farei muito gosto, mas terá de ser outro dia, que caiu a noite sem darmos conta, tão presos nos teve vossa mercê com a sua história. São horas de volver ao nosso abrigo, que os tempos que correm são de medos e desconfianças e eu não quero ser tomado por um espia dos tártaros.
138 Comentários do Grande Afonso de Albuquerque, parte III, de Brás de Albuquerque.
139 Tipo de embarcação asiática que podia ser usada em combate.
140 Puas e estacas de ferro ou madeira aguçada, cravadas no fundo de covas, usadas para armadilhas de caça e de guerra.
XX
Onde há uma campina farta, há sempre gafanhotos
(malaio)
Malaca Conquistada pelo Grande Afonso d’Albuquerque, livro sétimo
XXXV. Chegados à distância, que podia
Fazer emprego, e efeito rigoroso
Nas imigas naus a artilharia,
Fogo ao salitre dão, que arde espantoso:
Nos ardentes pelouros morte fria
Se envolve, e logo se ouve um lastimoso
Som confuso de gritos, e gemidos
Dos que morrendo estão, e dos feridos.
XXXVI. Bravos os inimigos responderam
Também a artilharia disparando,
E, chegando a bordar, os receberam
Pedras, fundas, e dardos mil tirando.
Cobertos dos escudos remeteram
Os fortes Portugueses e pegando
Em várias partes fogo, num momento
Sobem chamas e fumo pelo vento.
XXXVII. Entrou o medo, confusão, e espanto
Nos Guzarates míseros, cercados
De fogo, e fumo, um lastimoso pranto
Aos ares levantando acobardados:
Vendo seu fim alguns em rigor tanto,
De outro remédio já desesperados,
Saltam por entre as chamas acendidas,
Procurando no mar salvar as vidas.
XXXVIII. Mas já também no mar a imiga forte
Lhes tinha aparelhada morte dura;
Acabam nele às mãos da gente forte,
Que a ferina treição vingar procura:
Preza os imigos já da justa morte,
Dão-lhes o mar, e fogo sepultura:
Movem contra a Cidade os vencedores,
Querendo executar novos rigores.
XXXIX. Bem como o bravo touro, magoado
Do farpão duro, segue ao que o feria,
E apenas morto deixa o moço ousado,
Quando outro logo segue ardendo em ira:
Tal Afonso iracundo, e indinado
Trás de um castigo a dar já outro aspira;
Com a Cidade belicoso cerra,
Fazendo a ferro, e fogo dura guerra.
(Poema heróico de Francisco de Sá de Menezes, 1634)
Os nove degredados não puderam ouvir tão cedo o resto do relato da conquista de Malaca, porque na muralha de Quansy soavam constantes alarmes causados pelos assaltos e incursões dos tártaros da fronteira aos lugarejos dos arredores, para roubarem gado ou cereais, ameaça confirmada pelos movimentos das hordas observados pelos espias que os chins mantinham sobre eles mesmo em tempo de paz. Com a população em sobressalto, os portugueses encontravam mais tarefas para fazer e estiveram ocupados duas semanas, até a cidade sossegar e regressar à mesmice do seu quotidiano.
Quando se apresentam de novo em casa de Vasco Calvo, felizes por poderem levar-lhe presentes de comida, terminada a ceia, não há tempo para cantorias, de tal modo estão ansiosos por ouvir o resto do relato do anfitrião, mas ele cede a vez ao camarada de armas:
– O Vicente melhor vos contará as peripécias do primeiro desembarque em que participou do princípio ao fim. Depois eu vos direi como se passou a peleja com os elefantes.
Ninguém se opõe e o companheiro retoma a história no ponto onde Calvo a deixara:
– Duas horas antes de amanhecer o dia de Santiago, estando já toda a gente metida nos batéis e nas barcas cedidas pelos chins, os capitães foram até à Frol de la Mar, de cuja amurada Frei Domingos de Sousa fez confissão geral e deu a absolvição aos combatentes. O governador mandou soar as trombetas e todos os barcos se dirigiram para terra, sofrendo alguns danos da forte artilharia inimiga, que assentada de cada lado da ponte atirava sem cessar, de modo que toda a praia ficou coberta de fumo e o mar parecia ferver.
Entrincheirados nas estâncias, esperavam-nos muitos mouros bem armados com gente da terra. Era a cilada de que em boa hora Rui de Araújo nos havia prevenido, contando os infiéis que nos fôssemos encravar nos estrepes. Eu e muitos outros que desembarcámos primeiro, ajudados pelos escravos dos capitães, tomámos os paveses que nos escudavam das flechas e, deitando-os no chão, fizemos um passadiço por onde os nossos puderam chegar às tranqueiras, sem tombarem nas covas ou rebentarem as minas. Ao toque de tambores e trombetas, de ambas as partes da ponte, acorreram batalhões de mouros a defenderem a entrada da cidade, uns armados de zarabatanas e arcos com flechas ervadas, outros com escudos, lanças e umas canas compridas de ferros em voltas como línguas de fogo, que nos faziam grandes estragos.
A peleja foi dura, porém apertámos tão fortemente com o inimigo que conseguimos entrar as tranqueiras, onde matámos, entre muitos, o Tuão, seu principal comandante, com dois capitães. Os mouros, vendo-se sem os seus cabeças, lançaram-se ao rio para salvarem a pele, mas os nossos matalotes que estavam nos batéis acudiram logo e acabaram de os matar.
Alguns dos nossos ainda perseguiram outros fugitivos além da ponte, quando da banda da mesquita lhes acudiu Mahamed com o seu filho Aladim e o rei de Pão, que viera a Malaca para o casamento da sua filha com o príncipe. Comandavam os seus elefantes de guerra e forçaram os mouros a tornar às estâncias que haviam abandonado. D. João de Lima, Fernão de Andrada com os da sua companhia, sem temerem os elefantes, lançaram-se contra eles com tão grande ímpeto que se assenhorearam da mesquita, fazendo recuar o rei.
– A partir de agora, amigo Vicente – interrompe Calvo –, posso revezar-vos e contar a batalha com os elefantes.
– Fazei-o em boa hora, que já tenho a gorgomileira seca! Assi, os nossos companheiros conhecerão toda a história, porque do que se passou da banda da mesquita, eu só sei o que ouvi contar.
Os dois veteranos das primeiras conquistas da Índia, tal como Fernão e os restantes companheiros, perdiam a noção do tempo e do lugar onde se achavam, esqueciam as misérias passadas, presentes e futuras, ao evocarem a portentosa empresa de Afonso de Albuquerque, o Terríbil, dos seus capitães, de muitos soldados e marinheiros iguais a eles próprios, que trouxera aos portugueses o domínio de todas as derrotas comerciais do Oriente.
– Pois eu estive lá e fiquei vivo para o contar – riu-se o anfitrião, feliz por reviver a sua aventura: – Tomada a tranqueira com muitas panelas de pólvora, ao ouvirmos D. João de Lima e os capitães bradarem Por Santiago e Portugal!, corremos pela rua principal atrás dos fugitivos, indo dar à mesquita onde se tinham acobertado muitos mouros bem armados, que D. João de Lima só a duras penas logrou pôr em fuga.
Não chegámos a saudar a vitória porque vimos avançar contra nós el-rei Mahamed com a sua tropa de escol e dez elefantes de guerra, com grandes espadas atadas nos dentes e castelos em cima dos lombos cheios de frecheiros.
O esquadrão das alimárias era medonho, ao arremeter contra nós com bramidos de fazer gelar o sangue à gente miúda que começou a recuar, havendo já doze ou quinze homens mortos e muitos feridos. Albuquerque, tendo aviso do que se passava, veio pôr-se com a sua gente na boca da rua e enviou em nosso socorro Fernão de Lemos com os seus homens.
Como não saíamos das tranqueiras da mesquita, Mahamed deu ordem aos cornacas para arremeterem com os elefantes contra os nossos reforços, o que eles fizeram, carregando com grande ímpeto de trombas erguidas, bramindo como feras demoníacas sobre os homens que vinham na dianteira. Fernão de Lemos e Vasco Coutinho, com o ânimo dos valentes que pegam a morte pelos cornos, deixaram-se estar quedos, com as lanças na mão, até poderem visar o elefante d’el-rei e Fernão atirou-lhe uma lançada que falhou os olhos mas acertou em cheio dentro da orelha.
O bicho soltou um bramido de dor e deu meia-volta para fugir, apesar dos esforços do seu cornaca para o fazer avançar, criando grande tumulto em seu redor, ocasião que Coutinho aproveitou para lhe meter uma lançada pela barriga. Ensandecida, a fera colheu o cornaca com a tromba e atirou-o pelos ares, carregando de seguida sobre os outros elefantes, desbaratando-os e criando a desordem entre os nossos inimigos.
Com a nossa ajuda, a falar verdade, porque, nas tranqueiras quando vimos os elefantes lançarem-se sobre o esquadrão de Fernão de Lemos, saímos com D. João de Lima em seu socorro; guardando-nos das suas trombas e presas armadas, começámos a feri-los também. Acossados, os monstros puseram-se em fuga para os estábulos, esmagando quantos malaios e mouros achavam pela frente.
Ao ver a sua montada sem governo, Mahamed saltou em terra, pelejando com bravura, durante algum tempo, até ser ferido numa mão e só não foi feito cativo porque os nossos não o conheceram. O filho logrou resgatá-lo e retiraram-se com o rei de Pão para um outeiro onde estavam as suas casas, seguidos pelas suas gentes para ali se fortificarem. Quando íamos persegui-los, o governador fez soar o aviso para não passarmos além da ponte e tornarmos atrás, às estâncias que tínhamos tomado.
– Albuquerque apercebera-se da grande quantidade de gente da cidade que atacava os nossos – acrescenta Vicente, vendo o seu anfitrião terminar o relato – e receando que acabassem por nos desbaratar, fez-nos recolher a todos à ponte. Eram cerca de duas horas depois do meio-dia, o sol queimava como lume, ninguém tinha comido desde a véspera e estávamos todos exaustos de tanto pelejar e acometer tranqueiras. Afinal, a conquista de Malaca não era tão fácil como Araújo nos tinha prometido, custara-nos muitas vidas.
– E os feridos nem tinham conto! – torna Calvo. – Albuquerque fez cavaleiros aos que mais se haviam avantajado na batalha, passando neste acto algumas horas para deixar descansar as tropas. Vendo que, além das baixas sofridas, havia gente a desertar do seu posto para ir roubar as casas da cidade, mandou tocar para todos se irem embarcar e tornar às naus. Ordenou ainda a Dinis de Melo e a Pedro de Alpoim que fossem com a gente do mar levar aos batéis setenta e duas bombardas que se tinham tomado na ponte, permitindo apenas o embarque das mercadorias que se tinham roubado em duas casas d’el-rei que serviam de armazém. Era quase sol-posto quando o último de nós embarcou, debaixo dos tiros dos inimigos que retomavam as estâncias da ponte, no clarão da mesquita que tínhamos abrasado141.
– Neste feito contámos vinte e oito mortos – lembra Vicente –, quase todos da peçonha dos dardos e flechas, mais de sessenta feridos, de que depois morreram alguns; dos inimigos foram tantos os mortos que lhes perdemos o conto. Alguns capitães obedeceram muito contrariados à ordem de retirar, por acharem errado não se acabar de conquistar a cidade.
141 Comentários do Grande Afonso de Albuquerque, parte III, de Brás de Albuquerque; História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses (1552-1561), de Fernão Lopes de Castanheda.
XXI
Quem pouco viu, muito se maravilha
(chinês)
Da Oração que Camilo Pórcio fez ao Papa Leão X, em louvor da tomada de Malaca:
Já os Portugueses com uma animosa alegria se chegavam ao muro, e a artilharia da banda do mar disparava, quando os da Cidade começaram de enfraquecer, e deixadas suas estâncias (que pouco tempo sustentaram), começaram de fugir: seguindo-os os Portugueses com esforçados corações, e entrando em seu alcance dentro na Cidade, chegaram ao meio dela, onde em uma ponte, que sobre um rio por onde entram navios, que pelo meio da Cidade corre, estava, tinha o Rei feito sua defensa, e posto a força de sua gente; e fortalecendo mais esta estância, recolheu nela os que fugiam; e por o rio se não poder passar a vau pelos Portugueses, se fez forte na ponte. Ali se azedou mais a peleja, todavia os Portugueses favorecidos da esperança, e os imigos cortados do medo das armas Portuguesas, tão rijamente apertaram com os infiéis, que não estimando as armas deles, nem seus alifantes com castelos de frecheiros, nem a dificuldade do vau, com ferro abriram caminho por meio dos imigos, dos quais uns se metiam com desesperação pelas armas Portuguesas, outros se deitavam ao rio pera se salvarem; finalmente em cabo de poucas horas fugiram todos, e o Rei com eles, indo ferido. Foi entrada a Cidade e saqueada, muitos imigos mortos: foi nela achada muita quantidade de ouro e prata, acharam-se nela muitos aparelhos e munições de guerra, entre as quais foram duas mil peças de artilharia; foram tomados sete alifantes costumados à guerra com seus castelos e encaixados deles tecidos de ouro, e muito ricamente guarnecidos, de maneira que não somente os homens, mas os brutos daquele Reino ficaram obedecendo ao Império Português.
Feita no Sacro Palácio, em Roma, no mês de Outubro do ano de mil quinhentos e treze142.
Vicente retoma o desfiar das suas memórias:
– Depois de toda a gente ter recolhido aos navios, os capitães foram nos seus batéis à capitânia perguntar a Albuquerque por que razão não quisera seguir a vitória, quando já tinham tomado as tranqueiras. Sem mostrar zanga no rosto ou na voz, ele deu a todos muitos louvores pelo ânimo que haviam mostrado em combate, dizendo-lhes, se bem me lembro e Calvo me há-de corrigir se me enganar: – Senhores, bem vejo como a vontade de vossos corações e as obras de vossas mãos são dignas de grandes merecimentos. Contudo, muito vos peço por mercê, que vos sofrais e me deixeis ir com esta cousa de pouso em pouso, porque é mui grande para logo arrematar, visto sermos poucos e termos muitos contrairos. Tenhamos confiança na paixão de Nosso Senhor, que por sua misericórdia porá esta cidade em nossas mãos, se houver esta empresa por seu santo serviço. E eu queria que ela fosse o mais barato que pudesse em sangue de portugueses.
– Foi assi mesmo, sem tirar nem pôr! – aplaude Calvo. – Os capitães ficaram comovidos com a resposta do governador, caindo na boa razão e volvendo aos navios a reparar os danos e aparelhar as suas gentes para novo assalto. Vossa mercê lembra-se da troca de recados que então se passou entre el-rei Mahamed e Albuquerque?
Vicente solta uma risada.
– Até teve graça! Mahamed tinha o topete de se mostrar escandalizado por Albuquerque lhe fazer guerra, depois de ele lhe ter entregado os cativos, que eram o pomo da discórdia.
O mouro, como sempre, dissimulava a sua perfídia, para ganhar tempo, enquanto mandava tapar as bocas das ruas que vinham dar à praia, porque a cidade não tinha muralhas, fazendo em todas elas tranqueiras de entulho, com andaimes por dentro para a sua gente pelejar e por fora abriu minas e covas com muitos estrepes para os nossos, como fizera na praia. Albuquerque hesitava em atacar; a nossa gente de armas não passava de mil e duzentos portugueses e duzentos malabares.
Os capitães chins, não vendo conclusão na conquista, vieram à Frol de la Mar pedir ao governador licença para partir.
– Se não formos agora, Alto Senhor, perderemos a monção – falou o capitão Pulata, delegado de todas as suas demandas – e teremos de esperar meses até podermos navegar sem perigo. Com este estado de guerra na cidade, não se consegue comprar quaisquer mantimentos, já nem temos arroz bastante para comer durante a viagem!
– Ide-vos muito embora – disse-lhes o governador, entregando-lhes presentes de despedida. – Lembrai-vos de que me haveis prometido volver aqui com as vossas mercadorias para fazerdes tratos connosco.
– Sendo vós senhores de Malaca, eu vos juro que virão muito mais juncos nossos, com riquezas que vos hão-de espantar.
Albuquerque mandou o feitor da armada dar-lhe arroz com abastança e consentiu que levassem a carga de pimenta que tinham nos seus juncos, embora fosse mercadoria de mouros e só aos mercadores gentios deixasse fazer tratos. Entregou-lhes uma carta para o rei da China e outra para o do Sião, aonde o capitão Pulata ia aferrar na sua cabotagem, enviando com eles, por emissário, um dos companheiros de Rui de Araújo que sabia a língua, a fim de dizer ao rei que queria ter paz com o seu reino, podendo ele enviar gente dos seus portos a povoar Malaca que estava despejada de mouros seus inimigos. Feitas as despedidas, os chins partiram muito satisfeitos com o governador e tendo os portugueses em alta estima.
Ficou reunido o conselho dos capitães os quais fizeram eco das palavras dos chins, dizendo que aquela conquista estava a ser uma empresa muito trabalhosa, assaz demorada; a monção estava a chegar e, como eles haviam dito, ou partiam para Goa ou ficariam presos no porto à mercê d’el-rei de Malaca.
– Tendes de pôr fogo à cidade, meu senhor – aconselhou-o Rui de Araújo –, de contrário só com muito trabalho e grande perda dos nossos, lograreis tomá-la. ou não.
– Se abrasarmos a cidade – contrariou Albuquerque –, toda a sua riqueza se consumirá e a nossa gente terá todo o trabalho sem o proveito do saque.
– Senhor, ainda que se queime Malaca, o melhor dela quedará, pois a sua mor riqueza está dentro dos gudões, umas casas de pedra fortes, em parte feitas debaixo do chão, com tais amparos nas portas que, embora tudo se faça em brasas, o que tiverem dentro não sofrerá qualquer dano.
– Se assi é, Rui de Araújo, estamos conversados! – decidiu o governador. – Amigos, fazei prestes as vossas gentes que vamos conquistar Malaca pela segunda vez e, tal como fizemos em Goa, não abriremos mão dela.
Como a experiência é mãe de todos os saberes, Albuquerque estava determinado a não cometer os erros do primeiro assalto e a dar conclusão àquela conquista, apesar da diferença de número. Apressou-se a enviar ordens aos ferreiros de assentarem as suas forjas para consertarem as armas danificadas ou fazerem novas; ao feitor da armada mandou recolher machados, enxadas e picões para encher pipas de terra e fazer estâncias na ponte, quando tomássemos de novo posse dela, com mantas para as cobrir, a fim de nos servirem de amparo contra os tiros das bombardas inimigas.
Sexta-feira, dez de Agosto, duas horas da antemanhã, desembarcámos da banda da mesquita todos num só corpo, em vez dos dois da primeira arremetida, saudados por estrondosas salvas de artilharia. Repartidas as capitânias conforme fora determinado, com grande grita, estrugido de trombetas e brados de “Santiago, Santiago!”, a que os mouros respondiam com igual arruído tangendo os seus instrumentos de guerra, que foi coisa espantosa de se ouvir. O capelão Álvaro Mergulhão fez uma cruz com a haste de um pique e, pregando-lhe um papel com a imagem do crucifixo, ergueu-a ao alto como a abençoar-nos e nós lançámo-nos com os nossos capitães ao assalto das tranqueiras, sob uma chuva de tiros, como se em cada pau estivessem duas bombardas e em cada bombarda cinco espingardões.
Pelo mar avançava contra a ponte o junco de António de Abreu, que parecia uma torre, com arribadas e seteiras, artilharia à proa e dos lados, contudo os pelouros de chumbo do inimigo eram grossos e passavam ambos os costados, ferindo muita gente. Um tiro de espingardão apanhou o capitão Abreu em cheio nas queixadas, arrancando-lhe parte dos dentes, mas ele não consentiu que o levassem às naus para o curarem, mantendo-se no seu posto. – Posso estar sem forças para pelejar e sem língua para mandar, mas inda me fica vida para não perder o lugar em que fui posto, articulou a custo para Alpoim que fora enviado para o render.
O governador vinha num batel pegado com o junco, trazendo como reforço a galé e a caravela latina que, sendo mais fáceis de manobrar, causavam assaz de estragos aos nossos inimigos. Enquanto os marinheiros lutavam por afastar as jangadas de fogo que os mouros lançavam no rio contra o junco, para o abrasarem, os nossos lanceiros atiravam do cesto da gávea muitos artifícios de fogo e pedras contra a ponte até que a abalroaram com medonho estrondo e destruição. Pasmados com tal obra, os inimigos já não atinavam com o que fazer, divididos entre defender a ponte dos que iam no junco ou impedir a desembarcação de Afonso de Albuquerque. Com a entrada do junco, o governador ficou senhor da ponte, impedindo a gente de Upi, a maior povoação de Malaca, de se comunicar com a povoação d’el-rei, dividindo-lhe assim as gentes.
– E os mouros não vos apertaram entre essas duas forças? – interrompe Gaspar de Meireles, maravilhado.
– Para mais, sendo eles tantos e vós tão poucos e em terra estranha.
Calvo aproveita a interrupção para tomar as rédeas da narrativa:
– António de Abreu, depois de abalroar a ponte, ficou senhor dela, porque os inimigos fugiram temerosos das armas que o junco trazia à proa. Albuquerque mandou os homens da sua ordenança desfazer as tranqueiras, arrancar os paus e estacadas, derrubar os valados com muitas enxadas, que para isso trouxera, abrindo as ruas que el-rei de Malaca fechara com tanto trabalho. Fez construir um reparo em volta de toda a boca da ponte, com uma serventia que vinha dar ao rio e lhe assegurava o serviço de mar; concertou igual protecção na outra entrada da ponte, com batéis grandes em frente a varejarem o rio para os mouros não virem pela água assaltar e ferir os que guardavam as tranqueiras.
Vendo como a nossa gente sofria com o fogo, não só do sol que os abrasava como das frechas que voavam dos terraços das casas vizinhas, ordenou que trouxessem as velas das naus para toldar as estâncias, com o que deu vida a todos143. Depois, deixou-se ficar quedo, com a bandeira real ao alto, tendo junto de si Álvaro Mergulhão com a sua cruz, enquanto Fernão de Lemos tomava a estância de uma rua que vinha ter à ponte e Dinis Fernandes, Jorge Nunes de Lião, Nuno Vaz de Castelo Branco e outros foram com as suas capitânias expulsar os mouros da mesquita.
Albuquerque ansiava por novas de D. João de Lima e dos seus capitães no assalto à tranqueira da banda da mesquita onde, como da primeira vez, se achava o rei com o príncipe seu filho. Apesar de já não terem com eles o rei de Pão para lhes dar ânimo – porque este, assustado pelo nosso primeiro assalto, voltara para o seu reino com a filha, dando ao demo o casamento –, traziam muita gente e elefantes, de modo que nós estávamos a ter trabalhos dobrados. Da ponte, o governador apercebendo-se do nosso aperto, acudiu com toda a sua gente a proteger-nos as costas dos mouros que nos atacavam, vindos da rua principal que ligava a ponte à mesquita.
Vendo a sua gente metida entre dois fogos, Mahamed desamparou as tranqueiras, pondo-se em fuga com os cerca de três mil homens que lhe restavam. Albuquerque deixou de guarda à mesquita os capitães que a tinham conquistado e foi com os seus homens aquartelar-se na ponte para, juntamente com António de Abreu, dirigir os trabalhos de construção de duas tranqueiras fortificadas nos cabos dela, com as pipas cheias de terra, protegidos pela artilharia das duas barcas, que varejavam as costas com tiros cruzados.
Enquanto se faziam as tranqueiras, dos telhados das casas os mouros continuavam a disparar tiros de espingardões ou de artilharia que feriam a nossa gente e o governador enviou Gaspar de Paiva com cem homens pôr fogo à cidade do lado da povoação dos mouros e Simão Martins com outra centena a queimar as casas d’el-rei, para lá da mesquita. Mandou também os irmãos Andrada, Pêro de Alpoim, António de Abreu, D. João de Lima, com outros capitães cujos nomes me não lembram, que fossem com as suas capitanias divididas em duas partes percorrer a cidade a dar a morte a tudo o que tivesse vida.
Mal entraram na cidade, os capitães acharam alguma resistência que venceram sem custo e continuaram a percorrer as ruas, matando toda a gente miúda que topavam pelo caminho, sem poupar a vida a ninguém. Os que se deitavam ao mar, cuidando salvar-se, caíam sob os golpes dos nossos matalotes que andavam nos esquifes a pescá-los. Ainda não tínhamos terminado os trabalhos nas tranqueiras e já o fogo, alastrando dos dois lados com o vento forte, consumia grande parte da cidade.
Com a chegada da noite, a nossa gente recolheu-se, exausta, para comer e dormir em segurança, nos barcos ou nas estâncias que tínhamos fortificado, fazendo quartos de vigia toda a noite, apesar do cansaço, a espaços varejando as ruas e o rio com tiros de peças grossas, para impedir os mouros de construírem novas tranqueiras, queimarem os nossos navios ou matarem-nos durante o sono.
Antes de regressar às estâncias da ponte, onde iria passar a noite, o governador foi visitar o junco que servia de hospital. Sofreu um rude golpe quando viu tantos dos seus capitães feridos, pela muita falta que lhe fariam se intentasse o assalto à povoação onde vivia o rei, aprazado para a manhã seguinte, o que já não poderia ser feito.
– E ainda bem que se não fez – interrompe-o Calvo, com um brado –, pois se tivéssemos entrado de roldão e esbarrondado pela cidade, nesse segundo dia, o resultado teria sido seguramente funesto e hoje talvez Malaca não fosse nossa! Valeram-nos os dez dias que Afonso de Albuquerque gastou a conquistar a cidade, avançando aos poucos, tomando posições, fortalecendo-nos nelas, enquanto íamos matando todo o mouro, malaio ou jau que topávamos pela frente, fosse homem, mulher ou criança, velho ou novo, para que não viesse a cometer traição.
Vicente lembra-lhe, rindo-se:
– O que atacavam as estâncias em que nos aquartelávamos ou nos faziam resistência nas ruas, porque a fome os impelia a assaltar os gudões do arroz, recebiam tanto dano que aos poucos foram esmorecendo o ânimo. Tinham sido também abandonados pelos mercadores e gente estrangeira que vieram pedir seguro ao governador, conforme ele mandara apregoar que lhes daria, assim como aos malaios que, dali em diante, quisessem dar obediência aos portugueses.
– Mahamed não se rendeu! Como foi que o deixaram fugir?
– Sua Alteza adiantou-se-nos – ri-se Calvo. – Avisado por algum espia, não quis esperar que fôssemos acometer a povoação do outeiro onde a família real, os nobres e a gente principal de Malaca tinham as suas casas. Perdera a cidade, mas não iria deixar que lhe tomássemos o seu tesouro, o qual mandou carregar nos alifantes durante a noite e, ao nascer do dia, partiu com o príncipe, os capitães que haviam escapado da batalha, os seus mandarins com as respectivas famílias, a caminho do sertão aonde montaria o seu arraial, à espera de melhores tempos. Acreditava que desejávamos somente roubar a cidade e, terminado o saque, partiríamos com a monção. Então, ele retomaria o seu reino.
– Albuquerque mal teve rascunho da sua fuga, foi-lhe logo no encalço, mandando os capitães com a sua gente na dianteira, porém, quando subimos ao outeiro, já o cortejo dos fugitivos ia tão longe que não o podíamos alcançar. Foi tanta a nossa sanha de os ver fugir que deitámos fogo às casas d’el-rei, do príncipe e dos seus mandarins. Faríamos o mesmo a toda a cidade, se não fosse o defeso do governador e o medo dos castigos com que nos ameaçava, para que se não consumissem as suas riquezas. A fim de nos consolar e premiar pelo que todos tínhamos sofrido com aquela conquista, consentiu a todos que saqueassem a cidade à escala franca, com excepção das casas e fazendas de Nina Chetu e dos demais mercadores gentios de Malaca.
– Fiquemos por aqui, amigo Vicente, pois arrebatámo-nos com as recordações dos nossos feitos e fomos prolixos em demasia, massacrando os nossos pacientes ouvintes com todas as minudências deste sucesso.
– Juro que me quedaria toda a noite a ouvir-vos! – protesta Fernão.
– A Fortuna bafejou-vos! Ficastes ricos – troveja o coro dos proscritos.
– Sem dúvida! Todos enriqueceram, contudo aqueles que embarcaram na Frol de la Mar de Afonso de Albuquerque perderam tudo, muitos deles a vida, no naufrágio da nau, junto a Samatra. O governador salvou-se numa jangada, resgatando do mar apenas uma menina, filha de uma escrava sua, que ele teve nos braços até ser recolhido. Mas isso são outras histórias que só conhecemos de ouvir contar.
A Frol de la Mar! Nos confins da China um bando de portugueses cativos ouvia os testemunhos vivos dos heróis que haviam participado nas primeiras conquistas e viagens de descobrir que deram a Portugal um império na Índia. Contavam factos, falavam de nomes que ilustravam partes obscuras nas buscas e inquirições que Fernão fizera em Samatra, por isso ardia de impaciência para esclarecer a dúvida que lhe martelava a cabeça, trazendo-lhe à memória uma outra conversa que tivera com Pêro de Faria, precisamente em Malaca, no ano de trinta e nove.
– Esse António de Abreu e Francisco Serrão – pergunta, já de pé, pronto para sair – são os mesmos que Afonso de Albuquerque enviou com uma armada em busca da Ilha do Ouro.
– Foram eles, sem dúvida, com Simão Afonso Bisagudo! O governador que estava prestes partir de Malaca, enviou-os a Java e às Molucas, para anunciarem a conquista e concertar pazes com os seus reis, contudo murmurava-se que ele os mandara descobrir a Ilha do Ouro.
– E descobriram-na? – pergunta Borralho.
– Se a descobriram, calaram-se muito bem calados. Falou-se muito dessa viagem, logo seguida de outras, a cada ano.
– Falareis delas outro dia, que já é tarde! – corta Vicente. – Temos agora de tomar ainda mores precauções porque as patrulhas da guarda acham toda a gente suspeita e atiram a matar.
142 Comentários do Grande Afonso de Albuquerque, parte III, de Brás de Albuquerque. O Papa ordenou uma procissão soleníssima e disse missa pontifical, em honra do grande feito português.
143 Da Segunda Década da Ásia, livro sexto, de João de Barros.
XXII
Se és paciente num momento de ira, escaparás a cem dias de tristeza
(chinês)
Do Tratado em que se contam muito por extenso as cousas da China:
Além destes Mogores, correm ao longo da China os Tártaros que é mui grande reino e de muita e inumerável gente. É esta gente vermelha comumumente e não alva, andam nus da cinta para cima, comem carne crua e untam os corpos com o sangue dela, pelo qual comummente são fedorentos e têm mau cheiro. Afirmou-me um china velho que algumas vezes quando eles vinham contra as terras da China, se o vento vinha da parte donde eles vinham, que eram sentidos pelo cheiro; quando vão à guerra levam a carne crua debaixo de si para comerem, comem-na desta maneira e untam-se com o sangue para se fazerem mais fortes e robustos e se provocarem na guerra a crueldade. Pelejam também estes a cavalo com arcos e frechas, e usam de treçados, com estes é contínua a guerra dos Chinas.
Têm os Chinas cem léguas (dizendo outros que serão mais) de muro antre si e eles, onde há sempre guarnições de gente para defesa das entradas dos Tártaros.
(De Frei Gaspar da Cruz para El-Rei D. Sebastião, 1569)
Os portugueses, mesmo os naturais do interior das terras nortenhas, tinham sofrido muito em Quansy com os rigores do frio, trazido pelos grandes nevões que tudo cobriam, deixando apenas à vista alguns troços da muralha. Era uma neve miúda, tão espessa que parecia nevoeiro, impedindo-os de se verem uns aos outros, acompanhada de um vento frio que soprava de rijo, trespassando-lhes os andrajos e as carnes, enregelando-os até aos ossos. Com muito custo caminhavam através do manto branco que em certos sítios lhes chegava aos ombros e peitos, enterrando-se a cada passo, cujo esforço para se libertar os deixava exaustos, banhados de suores frios e a tremer de febre.
Quando a neve endurecia, toda a terra se transformava numa superfície gelada, escorregadia como uma lousa untada, não lhes restava outro remédio senão deitarem-se de bruços e deslizarem com o corpo como se nadassem, durante largos troços do caminho. Deixavam de sentir os pés, mãos e rosto, com o rigor do frio. Joaquim Pereira e Álvaro de Melo por pouco não morreram, quando os pés lhes incharam e apodreceram. Salvou-os Fernão, que aprendera a tratar do escorbuto e lhos queimou com brasas vivas e ferros incandescentes.
Esmorecida a curiosidade pelos folangji, eram raros os convites dos senhores para ouvirem as suas histórias e o trabalho escasseava, disputado pelos chins prisioneiros ou livres, que também viviam miseravelmente naquela região fronteiriça, assolada há mais de um lustro por secas, tempestades de areia e pragas de gafanhotos, que arrastavam atrás de si a fome e as febres. Saíam todos os dias em busca de trabalho, sujeitando-se às tarefas mais humildes, menos os que presumiam de mais honrados e preferiam esmolar pela cidade a fazerem trabalhos que, segundo afirmavam, os rebaixavam por serem indignos da sua fidalga condição.
Após as primeiras visitas do bando, Calvo deixara de os convidar e receber em sua casa, cansado das suas contínuas disputas, a que nem as ameaças de castigo do chaem, nem as juras feitas sobre a cruz haviam posto fim, antes pareciam exacerbar-se com os rigores e maleitas do Inverno que os obrigavam a passar mais tempo juntos. Kexin queixara-se de que eles estavam sob a influência de Lang, a estrela dos brigões, mas o marido sabia que a verdadeira razão era o seu temor de que algo de nefasto pudesse acontecer a Meng ou a Lijie.
Só Vicente, Fernão e Cristóvão eram bem-vindos, estimados como parentes, um por ter sido companheiro de armas de Calvo e os outros dois pela sua boa índole, trato agradável, além de saberem falar a língua quase tão bem como o seu anfitrião. Quando as neves começaram a derreter com a chegada da Primavera, para não sobrecarregarem a família, em paga do bom acolhimento, os três companheiros só aceitavam a hospitalidade da sua mesa em troca de serviços, como ir buscar uma carga de lenha, vender ao mercado os produtos da horta e do galinheiro ou os bordados de Kexin e das filhas.
Para Vicente era evidente o fascínio que Ana-Meng e Isabel-Lijie causavam respectivamente em Fernão e Borralho, parecendo-lhe também que as atenções dos dois companheiros não caíam em saco roto, porque as duas moças mostravam grande prazer na sua companhia, ruborizando-se e rindo muito com os seus galanteios, aceitando encantadas os pequenos presentes que eles lhes traziam. Não era a primeira vez que lhes fazia alusões aos amorios ou lhes lançava alguns chistes brejeiros, mas, nesse dia, decide representar o papel de alcoviteiro e falar-lhes a sério do futuro.
– Com a pena agravada em degredo perpétuo e sendo Quansy tão longe do mar – começa, procurando disfarçar a amargura –, estamos condenados a viver aqui para sempre. Eu já não tenho muito a esperar do futuro, mas vós deveis pedir a Calvo que vos dê as filhas em casamento, para refazerdes as vossas vidas.
A caminho da casa do português, carregados com feixes de lenha, os dois amigos quase largam a carga, ao estacarem de golpe, aturdidos.
– Não mais volver a Portugal? Quereis tirar-nos a esperança que nos mantém vivos? – a voz de Borralho soa como um soluço.
– Se fosse possível a fuga, Calvo não estaria aqui hoje. Ou crês que ele não o tentou?
– Penso nisso muitas vezes – concorda Fernão, com desânimo. – Só um milagre nos poderia tirar daqui e creio que Deus nos abandonou.
– Com os nossos companheiros, sempre engalfinhados uns nos outros, em constantes quezílias e contendas, não há milagre que nos salve. Tendes de vos apartar do resto do bando, antes que seja demasiado tarde. O melhor que podereis fazer é desposar as moças.
– Desposá-las? Mesmo que elas quisessem casar connosco, que temos nós para lhes oferecer? – protesta Borralho, com a imagem do doce rosto de Lijie a encher-lhe a alma.
– Mal ganhamos para comer. Não temos onde cair mortos! – reforça Fernão. – Os pais jamais darão o seu consentimento.
– Eles têm-vos amizade e não duvido de que hão-de preferir para genros dois cristãos, para mais portugueses honrados, a quaisquer chins idólatras, embora mais ricos, que as possam pretender, cousa difícil de acaecer com gente tão avessa aos estrangeiros. Calvo sabe isso, ciente de que podeis ajudá-lo no seu negócio e a proteger a família de perigos como os assaltos dos tártaros. Ele já não é novo, tem duas filhas, moças formosas, e dois filhos pequenos. Sabeis o que os espera.
Meng e Lijie seriam presas de escol para os bárbaros tártaros, a sua beleza e juventude talvez lhes salvassem a vida, mas não as poupariam à escravatura dos seus haréns. Fernão conhecia bem a reputação destes cavaleiros da estepe, verdadeiros demónios saídos do Tártaro, as regiões infernais. No Antigo Testamento estas hordas crudelíssimas e impiedosas de archeiros encarnavam a profecia do Apocalipse, vivendo nas terras encobertas de Gog e Magog, à espera do sinal de Deus para lançarem os seus cavalos a galope sobre a terra, como um furacão, destruindo tudo na sua frente.
Contava-se ainda, sobre estes diabos vermelhos, que Alexandre da Macedónia os perseguira sem tréguas, empurrando-os até aos confins mais sombrios das terras do norte, forçando-os a refugiarem-se dentro de montanhas acessíveis apenas por uma passagem que o magno conquistador selara com uma porta de ferro. Fernão sabia que essas montanhas não eram senão as que agora se achavam ligadas pela Grande Muralha, só não estava seguro de serem elas mais fortes do que a mágica porta de Alexandre para suster o ataque das hordas.
No ano anterior, Altan Khan tinha enviado emissários à fronteira de Datong, a pedir que lhe fossem concedidos privilégios comerciais para trocar os seus cavalos e ovelhas por cereais e tecidos. O imperador recusara e os tártaros, ameaçados pela seca e pela fome que grassava nas suas terras, assaltaram e pilharam inúmeras povoações na raia de Shanxi. Com a Primavera e o degelo, regressara o alarme da presença do ancestral inimigo junto à fronteira, a preparar-se para um assalto em maior força a Quansy. Era constante a comunicação das sentinelas nas torres de vigia da muralha, com bandeiras coloridas ou sinais de fogo, segundo a gravidade da ameaça.
A população tornava-se mais inquieta, a soldadesca, reforçada por novos contingentes, mostrava-se dia a dia mais desconfiada e brutal, vendo um inimigo a cada esquina, prendendo quem ousava andar de noite pelas ruas. Os bonzos e os adivinhos profetizavam desgraça, anunciando que Mercúrio, o astro que regia os bárbaros, aparecera no céu com uma cor vermelha, sinal de que fariam guerra iminente e levariam a vantagem sobre os defensores da cidade. O mau augúrio era reforçado pela presença de Vénus, protectora das hordas que se regulavam por ela, lançando-se ao ataque dos povoados ou cidades quando ela brilhava e retirando-se quando ela empalidecia. Apesar do medo, a população confiava na Changcheng, a Grande Muralha, para a protecção de Quansy e dos seus habitantes contra os ataques dos tártaros, e prosseguia na sua faina de todos os dias.
Vicente não desistira da ideia de os casar com as filhas do seu companheiro de armas, insistindo com ambos sobre as vantagens daquela união, até Fernão e Cristóvão já não terem argumentos para lhe contraporem, porque as longas práticas sobre Meng e Lijie lhes tinham acirrado as vontades, já de si predispostas à admiração da beleza e outros predicados das duas donzelas, sendo-lhes agora quase impossível não pensarem nelas noite e dia.
Sem dar conta das suas demandas aos presumíveis noivos, Vicente levara a peito o seu papel de casamenteiro, tratando de auscultar o ânimo do pai das moças sobre o delicado assunto. Calvo não o desiludira, recebendo o pedido com muito prazer, dando o seu consentimento, com a condição dessas uniões terem o acordo da esposa e serem da vontade das filhas, por não querer fazê-las infelizes com maridos a quem não tivessem afeição. Kexin aprovara o duplo matrimónio, sobretudo porque os pretendentes eram cristãos – requisito mais difícil de achar naquela nação do que agulha em palheiro –, com grande júbilo das filhas que há muito amavam os dois infelizes estrangeiros.
Para Fernão e Cristóvão esse amor fora uma surpresa de que ainda não se tinham refeito. Sabiam-se estimados das moças, mas não contavam ser amados por elas, atribuindo à gentileza e educação próprias de donzelas chins de boas famílias os rubores, os risos, as canções e o prazer que mostravam em vê-los. Passaram a visitá-las na condição de noivos, a trabalhar com Calvo, como Vicente previra, embora fossem dormir à cabana com os restantes companheiros, fazendo a sua parte nas tarefas do grupo, ignorando os remoques e chistes dos invejosos, para não lançarem achas na fogueira do seu descontentamento.
Em tudo isto pensa Fernão, ainda aturdido com a nova situação em que se vê e pela sucessão vertiginosa dos acontecimentos ocorridos nos meses da sua estada em Quansy. Cristóvão, perdido de amores por Lijie, deixara de falar no regresso à pátria, parecendo muito mais interessado em fazer perguntas a Calvo ou à parentela chinesa de Kexin sobre os mesteres que as autoridades da província de Shanxi permitiam exercer aos estrangeiros.
A casa do exilado fervilha de azáfama como uma colmeia zumbidora. O duplo matrimónio terá lugar dentro de dois meses e ambos os noivos, com a ajuda de Vicente, Zeimoto e alguns parentes chins, ajudam o futuro sogro a acrescentar dois pequenos quartos à casa onde passarão a viver. As tias, cunhadas, primas ou sobrinhas de Kexin ocupam-se dos preparativos do casamento e da festa, com as casadas a cuidarem dos presentes de bagatelas, destinados a todos os convidados; moças solteiras vêm ensaiar com as duas noivas as canções e os poemas para os diferentes rituais da cerimónia chim, que será celebrada publicamente pelos monges do templo. Quanto ao casamento cristão, com grande mágoa dos noivas e de seus pais, terá de ser secreto, na privacidade do oratório, onde, por não haver padre para os abençoar, farão os seus votos solenemente diante da cruz com os degredados portugueses como testemunhas.
Do sítio onde está a trabalhar, Fernão ouve a voz de Kexin a dar conselhos às filhas, sentadas a seu lado a bordar as roupas do bragal:
– Lijie, não podes esquecer-te dos deveres que uma esposa tem de cumprir, para ser estimada e bem tratada pelo marido. Não podes preguiçar na cama, como fazes agora, nem ser desmazelada. Tens de te erguer do leito ao primeiro cantar do galo, para lavar as mãos, enxaguar a boca, pentear o cabelo, que deves trazer preso numa rede e coberto com a fita. A tua cabaia tem de estar sempre limpa, brunida e na faixa deves trazer, do lado esquerdo, o pano do pó, o lenço, a faca e a pedra de amolar, o espigão com o espelho de metal para fazer fogo e, do lado direito, a saqueta com a caixa das agulhas, linhas e seda, que são os utensílios próprios de uma mulher diligente. Trata de seguir o exemplo de Meng, que há-de fazer o seu marido muito feliz, porque se persistires nos teus erros, correrás o risco de ser abandonada pelo teu esposo, para tua vergonha e de toda a nossa família.
Ouve os risos de Meng e os protestos da irmã mais nova. A mãe tem razão ao apontar a sua prometida como a esposa perfeita, educada para obedecer, servir e agradar ao marido, que será o centro do seu mundo e da sua vida, adivinhando-lhe as vontades ou mesmo o pensamento, sem nada pedir em troca. Apesar de trabalhar de manhã até à noite para ajudar os pais, Meng parecia uma pintura de livro antigo, com as suas roupas de esmerada limpeza, sem um vinco ou ruga, que lhe acentuavam o donaire e a esbelteza. Talvez não fosse tão bela como a irmã, mas ganhava-lhe em distinção, doçura e sabedoria.
Desde o dia em que o conhecera, Meng achara-o diferente dos companheiros, pressentira o seu sofrimento e compadecera-se dele, decidindo minorar-lhe a tristeza com os seus cuidados; Fernão dera por si a fazer-lhe confidências, contando-lhe como amara Huyen e a perdera num naufrágio. A moça soubera encontrar as palavras certas para o consolar e, embora conhecendo a sua paixão por outra mulher, enamorara-se dele e aceitara-o por marido com alegria. Seria ele capaz de lhe querer com o mesmo ardor que sentira pela sua cauchim? Poderia esquecer o fogo de Huyen, ainda há pouco tão ardente nas suas veias, nos braços deleitosos de Meng, a ponto de não desejar o regresso à pátria? Duvidava.
Contudo, desejava-a. Naquele preciso instante, ao ouvir-lhe o riso, ansiou pelo fim do trabalho, para se ir lavar da poeira das obras, na grande celha protegida por uma cerca de bambu, nas traseiras da casa, onde Meng lhe preparava o banho. Na primeira vez que ela ali o levara, Fernão não suspeitara sequer do que o esperava, esquecido de que a moça, embora sendo filha de um português e cristã, não deixava de ser chinesa, criada e educada como as suas primas ou qualquer outra donzela de Quansy nos usos da sua nação.
Diante da celha de água quente, a noiva pedira-lhe com a maior naturalidade que se despisse e lhe entregasse a roupa, para depois a poder lavar, mostrando-lhe uma veste com uns calções do pai, dobrados sobre o banco, enquanto lançava pétalas de flores na tina e ajeitava os apetrechos do banho. Como ela não arredava pé, Fernão não tivera coragem para lhe desobedecer ou mandá-la embora, com medo de a envergonhar, embora ele mesmo se sentisse corar como uma donzela, enquanto se ia desnudando, escondendo as vergonhas até ao momento de saltar para dentro da tina e se afundar entre as pétalas aromáticas.
A moça viera ajoelhar-se junto dele e, com um pano macio, começara a lavar-lhe as costas, com uma doçura que o amolentava de prazer, tocando-lhe nas cicatrizes das chicotadas com as pontas dos dedos, demoradamente, como se as beijasse; depois, passara-lhe o pano húmido e perfumado pelo rosto e ele cerrara os olhos com volúpia. Meng mergulhara o pano na água e espremera-lho sobre o pescoço e o peito, arrepiando-lhe a pele; e a cicatriz, recebida ao serviço de António de Faria, intumescera e avermelhara-se como se ganhasse vida. Sentira os lábios da noiva poisarem nela, quentes e macios como seda; da cabeça inclinada sobre o seu peito evolara-se um suave aroma de flores, quando a negra cabeleira lhe roçara o queixo. Incapaz de se dominar, Fernão enlaçara-a, estreitando-a contra o seu corpo e beijara-a, sentindo no corpo molhado a paixão com que ela se entregava numa dádiva preciosa. O desterrado chorara de gratidão.
Os sonhos de fortuna que o tinham trazido para a Índia ao cheiro da canela haviam-se gorado, transformando-se num pesadelo sem fim. Ele fora um dos muitos que apostara o seu futuro no Oriente e perdera. Meng era como um porto de abrigo, uma âncora de ternura para a sua desesperada solidão, porque ele já não suportaria por muito mais tempo, sem ensandecer, o desterro naquele fim de mundo. Com o tempo, o carinho que tinha por ela haveria de se mudar em amor.
Tais pensamentos não bastavam para lhe dar tranquilidade ou resignação, antes o faziam joguete de sentimentos contraditórios, que o traziam em ânsias, vendo acercar-se o dia do casamento. Então, a três semanas do enlace, os Fados resolveram interferir de novo e mudar-lhe mais uma vez o curso da vida.
XXIII
Quer a faca caia no melão ou o melão na faca, o melão sofrerá
(chinês)
Carros de Guerra
Os carros de guerra murmuram e matraqueiam
Os cavalos fremem, relincham
Os soldados partem em expedições, arcos e flechas presos ao corpo
Pais, mães, mulheres e crianças correm atrás deles para se despedirem
Na poeira ficou para trás a ponte ao sul de Chabgan
Eles puxam-lhes as roupas, gemem e barram-lhes o caminho
Os seus prantos sobem até às nuvens
Deixar nascer um filho é pura infelicidade
Melhor uma filha
Uma filha pode casar-se com o vizinho do lado
Um filho acaba morto, insepulto, no meio do mato
Senhor, por acaso viu as margens do Oceano azul
Onde, desde tempos antigos, há ossos brancos que ninguém recolhe?
Novas almas se exasperam, velhas almas choram
Debaixo desse céu encoberto, a chuva molha seus gemidos e lamentos144.
(Du Fu)
Começara o quarto da modorra, nessa noite quente de Julho, quando soaram os tiros de aviso, os repiques dos sinos e gongos dos templos, trazendo toda a gente para as ruas. Os sinais de fumo e fogo que se erguem ao céu, em duas torres da muralha, não deixam lugar a dúvidas: os tártaros correm ao assalto da muralha para entrarem em Quansy.
– Vêm da parte donde sopra o vento! Já se lhes sente o fedor do sangue!
– São carniceiros. Não deixam ninguém com vida.
Todos conheciam histórias das suas razias nos lugares fronteiriços que acometiam, há muitos anos. O terror do flagelo que os espera, se o inimigo conseguir penetrar na cidade, parece ensandecer de terror a população e nem a presença do exército que acorrera à muralha ou a formação de cavalaria que se fazia prestes, conseguem sossegá-los. Em todas as casas se ouvem gritos e prantos, pelas ruas corre uma multidão desatinada, alguns quase nus, sem nada levarem de seu, outros carregados com os seus haveres.
– Não há esconderijo seguro! São como furões a caçar coelhos nas luras.
– Livrai-vos das espadas e arcos, se os tendes, porque não lhes podeis fazer frente e tereis morte certa se eles acharem armas em vossas casas.
– Pior é o que fazem às mulheres! Antes lançar-me com as minhas filhas do alto da muralha.
Os degredados portugueses, sem saberem o que fazer, acorrem a pedir conselho a Calvo. A casa está em alvoroço. Meng e Lijie sorriem por entre lágrimas aos noivos, mas a mãe impede-as de irem ao seu encontro, ordenando-lhes que continuem com as suas tarefas.
– O exército tártaro é fortíssimo, disseram-me que são cerca de setenta mil cavaleiros – diz-lhes Calvo, sem disfarçar o receio, parecendo contrariado pela presença dos seus compatriotas. – Não há muralhas que os possam deter e os chins não são adversários à sua altura.
– Que havemos de fazer? – pergunta Borralho, olhando ansioso para Lijie que não cessa de chorar.
Calvo tem lágrimas nos olhos e não responde. Fernão sente o medo a gelar-lhe o sangue.
– Se, como dizeis, eles vão entrar na cidade, tratemos de pôr a vossa esposa e filhos em lugar seguro, quanto antes. Mesmo que não logreis salvar a casa e os bens.
– Os tártaros já estão no pinhal, a légua e meia da cidade! – grita Calvo, de rosto descomposto. – Dentro de duas horas estarão às nossas portas.
As moças redobram o pranto, que se junta ao dos meninos. Os degredados parecem ter perdido o siso, tartameleando, incapazes de falar a propósito.
– Que faremos então? – repete Borralho.
– Por que meio nos poderemos salvar? – pergunta Vicente, o único que mantém o semblante sereno, a voz sossegada.
Calvo olha-os, a todos, como surpreendido de ainda os ver ali, respondendo muito agastado:
– O meio que eu agora, meus irmãos, achava mais certo de nossa salvação, era acharmo-nos entre Lavra e Coruche, ao pé de uma moita, onde me eu já vi muitas vezes. Mas já que não pode isto ser, encomendemo-nos a Deus Nosso Senhor para que nos valha.
Fernão percebe que aquele homem corajoso, veterano de tantas batalhas, só lhes fala assim por estar aterrorizado, não por si, mas pelo que poderá suceder à mulher e aos filhos.
– Temos de sair da cidade, quanto antes, por uma das portas opostas ao arraial dos tártaros – diz-lhe, tentando arrancá-lo ao desespero, embora também ele sinta arrepios de medo por todo o corpo.
– Ajudaremos a carrear o vosso fato – oferece Vicente e os companheiros acenam em concordância –, levaremos o que quiserdes, pois tudo o que temos é o que trazemos no corpo.
Calvo grita-lhes, fora de si:
– Estais porventura cegos, para não verdes o que se está a passar? Há menos de uma hora oferecia eu mil taéis de prata a quem me pusesse em salvo, com a minha mulher e filhos, mas não houve remédio por já todas as portas da cidade estarem fechadas e muito bem guardadas. Isto agora é cada um por si, o salve-se quem puder. Tratai de buscar refúgio onde puderdes, que eu farei o mesmo junto dos parentes da minha esposa. Permita Deus que nos volvamos a encontrar e, se for de Sua vontade, talvez possamos retomar as nossas vidas no ponto em que as deixámos.
Fernão e Cristóvão têm apenas um breve instante para se despedirem das duas moças, cujo choro lhes corta o coração. Na rua, vendo o desatino da multidão, param sem saber para onde ir.
– Que faremos? – é a pergunta em todas as bocas. – Para onde iremos?
– Creio que nos devíamos refugiar no cárcere da muralha. – sugere Fernão, cujo instinto de sobrevivência se sobrepõe a todos os outros sentimentos em situações de perigo.
– No tronco? Ensandeceste?
– Por que razão queres ficar preso?
– Pacientai um pouco e ouvi-me. Na minha primeira viagem ao mar Roxo, fui feito prisioneiro dos turcos, posto a leilão com mais seis companheiros na praça da cidade de Mocaa. Quis Deus que naquele momento estalasse uma disputa entre os soldados e os clérigos pelos direitos da nossa venda, a qual descambou em sangrenta batalha. Quando os vimos a matarem-se uns aos outros pela cidade, nós os sete, que déramos causa à contenda, tomámos por remédio mais certo da nossa salvação tornarmo-nos a meter na masmorra, sem que nenhum ministro da justiça nos levasse. Assim salvámos a vida, porque houve mais de seiscentos mortos de ambos os lados, depois de pilhada meia cidade.
– Não foi mal pensado, não senhor! – exclama Vicente, rompendo o silêncio pasmado dos companheiros. – Se os tártaros invadirem Quansy, será para a saquearem e vão passar toda a gente a fio de espada para depois incendiarem a cidade. No tronco devem estar, como sempre acontece, alguns prisioneiros da sua nação, à espera de serem levados para outras províncias, os compatriotas hão-de ir lá libertá-los. Ora, sendo nós estrangeiros condenados pelos chins, não nos farão dano.
– Se, por outro lado, forem os chins os vencedores – acrescenta Zeimoto – nada de mal nos sucederá, por já não termos a obrigação do cárcere. Poderemos dizer que viemos ajudar na defesa.
– Se não tendes outra ideia melhor, sigamos quanto antes para a prisão, que já se ouvem as bombardas na muralha.
Os tártaros não vinham fazer uma razia num povoado fronteiriço, vinham preparados para conquistar uma cidade muito maior que Quansy, talvez mesmo a própria Pequim, para levarem aquilo que não tinham podido obter por honesto trato: arroz, cereais e panos. Agora, à escala franca, tomariam o que lhes apetecesse ou pudessem transportar nas selas dos seus cavalos sem os atrapalhar em combate, como jóias, ouro e prata.
Eram medonhos de aspecto, cabelos avermelhados, sem barba, tirante alguns pêlos no lábio e no queixo, tão raros que se poderiam contar, de olhos estreitos e vivos, a voz áspera e aguda; o som dos seus passos e o tilintar das setas nas aljavas faziam estarrecer as suas vítimas, que nem tentavam defender-se. Cada guerreiro trazia até dezoito cavalos para ter sempre montada folgada, pronta para as correrias e refregas, mas o seu fato era leve, composto por dois odres de kimiz, o leite de jumenta que preparavam como vinho, umas tiras de carne seca e um pote para cozer a carne. Insensíveis ao cansaço, ao frio ou à fome, podiam passar dois dias e duas noites a cavalo, sem porem o pé em terra, alimentando-se apenas de kimiz ou, na falta dele, sangravam um cavalo, picando-lhe uma veia para lhe beberem o sangue.
Tinham pólvora, máquinas de guerra que catapultavam pelouros de pedra, de ferro e de fogo contra as torres da muralha, duas das quais desabaram em pouco tempo. Indiferentes às setas e panelas de pólvora que lhes lançavam de cima, os soldados entulhavam o fosso junto da muralha com sacos de terra, madeira e feixes de arbustos secos, enquanto outros arvoravam as escadas, subindo por elas como se não temessem a morte, saltando sobre os defensores que, não sendo gente acostumada à guerra como eles, pouca resistência ofereciam.
Os vaivéns de vigas ferradas não tardaram a rebentar as portas e a horda entrou na cidade com o furor dos cavaleiros do apocalipse, matando e destruindo tudo à sua passagem. Com os cabelos ao vento, protegidos por couraças feitas de pedaços de couro duro, armados de arcos e espadas, lanças ou maças, eram cavaleiros formidáveis, cujos cavalos pareciam obedecer-lhes ao pensamento.
O chaem que condenara os portugueses a perpétuo degredo, assim como o monteo Liu Xugang morreram a defender-lhes a entrada, juntamente com outra gente nobre. O maior troço do exército chim protegera, durante algum tempo, a zona mais rica da cidade onde se erguiam as casas dos lauteaas, os edifícios do governo, os seus armazéns de mercadorias, os celeiros, a casa da prata. Entrincheiraram-se à espera da horda que caiu sobre eles como uma praga de gafanhotos.
Galopavam em círculo, ora avançando, ora recuando, disparando os arcos que não falhavam os alvos, indiferentes às setas dos adversários e às suas próprias perdas. Subitamente, pareceram ceder, fugindo desordenados. A infantaria chim cerrou fileiras e a cavalaria, soltando um brado vitorioso, lançou-se atrás deles, seguida pelos peões em correria. Só perceberam o erro demasiado tarde. Os tártaros, simulando a fuga, tinham-nos conduzido a uma cilada, atraindo-os a um lugar mais amplo e exposto, onde se reagruparam num ápice, carregando como um só corpo sobre os perseguidores, dizimando-os.
Alguns mandarins favoreceram os assaltantes, conseguindo salvar a vida com parte dos seus bens. Outros preferiram a morte à vergonha e famílias inteiras lançaram-se do alto da muralha, para não verem os filhos reduzidos à escravatura, as filhas violadas à vista de todos ou, as mais moças e formosas, levadas para escravas e concubinas.
Os moradores que deitaram fogo às casas, para subtrair o espólio aos inimigos, desencadearam a sua ira e os bárbaros das estepes percorreram as ruas a cavalo, de espada desembainhada, com o prazer selvagem de quem participa numa orgia, massacrando todos os homens, mulheres ou crianças que lhes ficavam ao alcance das lâminas; de passagem, arrancavam os infantes de colo dos braços das mães, lançando-os contra os muros e as pedras das ruas. O sangue corria, secando nas paredes e nas calçadas em manchas escuras como ferrugem.
Durante sete dias, vasculharam as casas queimadas ou abandonadas, à procura de ouro, prata e jóias, sujeitando os sobreviventes aos tratos mais cruéis para os obrigarem a revelar os esconderijos dos seus tesouros, destruindo toda a outra fazenda que não podiam levar, para que os seus donos, se tivessem conseguido fugir, ao voltarem para a recuperar, não achassem uma só peça de pano ou de porcelana inteira. Pilharam e destruíram os templos, os mosteiros, matando os monges e as monjas, poupando a vida apenas às mais moças que levavam cativas.
No tronco, todos os presos, incluindo os chins, tinham vivido com grande alvoroço a odisseia da cidade, de que lhes chegavam poucas notícias, tentando perceber o que se estava a passar lá fora. Ao fim do dia, vendo desaparecer os guardas com os carcereiros, souberam quem fora vencido e saudaram a vitória dos assaltantes pela esperança de serem postos em liberdade.
Quando um bando de vinte guerreiros tártaros irrompeu no tronco, foi recebido com grandes festas e muitos brados de alegria. Os libertadores passaram revista aos presos, soltando logo os quinze compatriotas que ali acharam, abraçando-os com muita efusão; os condenados chins não tiveram a mesma sorte, sendo os mais moços levados como cativos e os mais fracos passados à espada. Quanto aos folangji, que deixaram os invasores mudos de surpresa, esperava-os outro destino: só o Mitaquer, nauticor de Lançame, o general que comandava o exército, poderia decidir da sua sorte.
Senhores da cidade, os demónios vermelhos ocuparam-se dos seus mortos, erguendo piras de madeira onde os queimaram, sendo os chefes enterrados com as maiores honras. Os cativos abriram covas largas e fundas onde os corpos foram depositados com as suas couraças, as armas e jóias de ouro ou prata; enterraram junto a cada um deles alguns cativos, homens e mulheres, para os servirem na outra vida, assim como os seus cavalos preferidos, para poderem prosseguir com os seus combates.
Partiram após sete dias de saque e destruição, soltando brados e canções vitoriosas para humilharem os vencidos.
– Os chins são infantes e nós somos cavaleiros. Que pode fazer uma manada de potros, de vitelas contra tigres ou uma alcateia de lobos?
Apesar das baixas sofridas no assalto, o exército parecia ter dobrado de tamanho, acrescido dos milhares de cativos – homens, mulheres e crianças que seguiam como um rebanho os seus senhores –, dos muitos cavalos e gado tomados no saque; carroças carregadas de cereais, panos e porcelanas fechavam o cortejo.
Atrás deles, colunas de fumo negro erguiam-se no ar, como estandartes de luto por uma cidade abrasada, onde nenhuma casa, edifício ou templo sumptuoso permanecia de pé e os corpos dos vencidos apodreciam por toda a parte, insepultos.
144 A partir da tradução de Sérgio Capparelli. Du Fu (712-770) foi um poeta chinês da dinastia Tang.
XXIV
Jamais desesperes nas mais sombrias aflições da tua vida, pois das nuvens mais negras cai uma água limpa e fecundante
(chinês)
As lutas do ano passado
Os bárbaros não semeiam os campos,
o massacre é para eles
o que o plantio é para nós.
Desde os tempos mais recuados
há ossos brancos empilhados
na areia amarela.
Lá, onde os Qin construíram a Grande Muralha
contra os invasores
os filhos dos Han acendem tochas,
que servem de aviso.
Até hoje, nunca acabaram as pelejas.
No campo de batalha os homens cruzam o ferro
num corpo a corpo, sem clemência.
Os cavalos relincham suplicando ao céu
os corvos e os abutres de bicos resistentes
laceram as entranhas humanas
depois voam e deixam-nas penduradas
em árvores secas.
O sangue dos combatentes escurece na relva
e contra isso os generais nada podem fazer.
Lembrem-se, então, que as armas
são os instrumentos do mal
e deveriam ser apenas
o último recurso do homem sábio145.
(Li Bai)
Os tártaros montaram o arraial e fizeram trincheiras à volta do castelo de Nixiamcoo, a dois dias de caminho de Quansy, porque o nauticor de Lançame tinha contas a ajustar com os seus moradores, que na ida lhe haviam armado uma cilada, matando-lhe uma centena de homens146. No entanto, apesar da superioridade numérica do seu exército, da qualidade e experiência dos seus guerreiros e das centenas de escadas que mandara fazer para o assalto, o nauticor não tinha sido bem sucedido, pois em apenas duas horas de combate perdera mais gente do que na investida a Quansy; raivando de humilhação, fora forçado a ordenar a retirada, para cuidar dos feridos e enterrar os mortos.
Por todo o campo correram murmurações de que aquela empresa, de tão pouco proveito com tão alto custo em vidas, era fruto de um capricho do nauticor e não do serviço de Altan Khan, o seu rei. Os capitães, preocupados com os sons de revolta, não quiseram arcar sozinhos com os custos de acometer de novo o castelo e pediram ao nauticor que submetesse a decisão a conselho geral, como determinava o regimento que lhe dera o khan.
O general convocou logo os nobres e oficiais ao campo das tendas onde, sem desmontar do seu cavalo, lhes apresentou as razões para o combate. Os pareceres a favor ou contra foram tantos e tão variados, que a noite chegou sem que se pusessem de acordo, sendo marcada nova reunião para o dia seguinte.
O capitão Tileymay, que tinha a custódia dos folangji, viera sentar-se com três outros oficiais, junto da fogueira que ardia diante da sua tenda, a beber e a praticar sobre o que se passara no conselho. À distância de alguns passos, estava o cercado dos cativos estrangeiros, de modo que se podiam ver e ouvir uns aos outros sem dificuldade. Como as distracções eram poucas, a ansiedade muita e a fome ainda maior, os portugueses espiavam os quatro tártaros, como se estivessem a assistir a um entremez num pátio de comédias.
O capitão mandara vir um odre de kimiz, deitara um pouco numa escudela e lançara-o para o alto, como se o oferecesse aos céus, em seguida, repetira o gesto nas quatro direcções – oriente, ocidente, norte e sul –, depois bebera um trago e só então oferecera a bebida aos seus convidados.
– Deve ser para lhes certificar que o vinho não tem peçonha – observa Zeimoto.
– Quem me dera um trago – geme Jorge. – Estou seco que nem palha de enxerga.
– Beber leite azedo de burra? – reponta Pereira, com uma careta de asco. – Só se estivesse pra morrer de sede.
– O que te há-de acontecer – corta Vicente –, se esse cabrão vermelho continuar por muito mais tempo sem nos dar de beber ou de comer!
Cristóvão e Fernão não falam, alheados do que os rodeia, com os sentidos postos no lugar de onde vêm sons de festa, misturados com prantos e gritos de mulheres. Os vencedores divertem-se com as cativas, muitas delas moças virgens, filhas de gente nobre, que eles têm prazer em torturar e humilhar. Os dois amigos vivem num tormento, ora acalentando a esperança da salvação de Meng e Lijie, ora imaginando-as mortas ou, pior ainda, a sofrerem as sevícias dos bárbaros, nas orgias que têm lugar todas as noites no arraial.
Depois de os ter retirado da prisão, Tileymay mandara pôr-lhes correntes nos pés e pescoço, mantendo-os sempre separados dos outros prisioneiros, de modo que não tinham podido perguntar se alguém sabia do paradeiro de Calvo e da sua família ou tinha visto as duas moças entre as cativas.
Fernão sente-se afundar em desânimo e remorsos, sem forças para sofrer este castigo divino, que se abatia impiedoso sobre a sua cabeça, decerto por ter andando no corso, cometendo ou deixando cometer crimes semelhantes aos dos tártaros que tanto o indignavam agora. Bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz. Como em Nouday, quando entraram vencedores na cidade, para resgatar os cinco portugueses que o mandarim se recusara a entregar.
António de Faria dera licença aos homens para saquearem o lugar à escala franca e o espólio fora riquíssimo, sendo o principal galardão a grande quantidade de donas e donzelas ali tomadas, violadas diante das famílias, arrebanhadas das suas casas, arrastadas para os barcos dos invasores, atadas de quatro em quatro com os morrões dos arcabuzes, chorando e suplicando compaixão aos seus algozes, que riam e cantavam, antegozando a posse de tão apetitosas fêmeas.
Ainda muito ferido pelo desamor de Huyen, trazendo cravado na alma o olhar de aversão que ela lhe lançara antes de morrer, Fernão julgara ver a mesma expressão de asco nos olhos da cativa que lhe coubera em sorte naquele saque. Cheio de raiva, lançara-se sobre a indefesa donzela, cuspindo-lhe insultos soezes, violara-a brutalmente, vingando-se do seu vexame, na dor e humilhação da sua vítima. Cevada a fúria e cheio de remorsos, fugira sem nada levar da casa, nem sequer a sua presa que soluçava nos braços da mãe.
Sobressalta-se, saindo do seu alheamento, ao ouvir falar a língua chim com um estranho acento e faz sinal a Borralho para que preste atenção aos homens da fogueira. O capitão Tileymay afastara-se por momentos com o seu lugar-tenente e o convidado que estava sentado mais perto dos prisioneiros, vendo que eles os observavam, perguntara na língua dos seus inimigos:
– De que nação sois? Como vos cativaram os chins?
– Somos mercadores de Malaca, embora oriundos de uma nação do outro lado do mundo – responde-lhe Jorge. – Os lauteaas prenderam-nos, sob falsas acusações, para nos roubarem as mercadorias e degradaram-nos para Quansy.
– Sois mercadores? Cuidei que éreis guerreiros. Não pelejais na vossa terra como nós na nossa? Se o vosso rei não é inclinado à guerra, não pode ser um grande rei.
– Senhor, sim! – replica Jorge, a tomar-lhe o pulso e entrando na jogada. – El-rei nosso senhor é muito grande, poderoso e rico, todos nós fomos criados e exercitados na guerra, desde muito pequenos.
O tártaro diz para os companheiros:
– Vinde falar com este cativos que me parecem homens de muita valia e siso.
Os três acercam-se curiosos e os portugueses sentem-se como animais raros numa jaula de feira.
– Como se chama a vossa nação? A que distância está daqui?
– Somos do reino de Portugal, o qual dista da cidade de Pequim quase três anos de caminho por mar.
– Quanto? Quanto? – perguntam incrédulos.
– Três anos! – confirma Fernão, incapaz de se manter afastado de qualquer novidade.
– Porque não vindes antes por terra, em vez de vos aventurardes aos trabalhos do mar?
– A terra é muito grande – explica Jorge – há nela reis de diversas nações que o não consentiriam.
– Que vindes buscar a estes lugares? Porque vos aventurais a tamanhos trabalhos?
Jorge e Fernão dão-lhes as suas razões com as mais enfeitadas palavras que lhes ocorrem. Os três oficiais ficam uns instantes como que suspensos e o que primeiro os interpelou, abanando três ou quatro vezes com a cabeça, diz para o mais velho:
– Esta gente, ao vir conquistar terra tão distante da sua pátria, dá claramente a entender que deve haver entre eles muita cobiça e pouca justiça.
– Assim parece – responde-lhe o outro –, porque homens que por indústria e engenho voam por cima das águas todas, para adquirirem o que Deus lhes não deu, ou a pobreza neles é tanta que de todo lhes fez esquecer a sua pátria, ou a cegueira que lhes causa a sua cobiça é tamanha que por ela negam a Deus e a seus pais147.
Riem-se os outros dois com a resposta e motejam um pouco entre si, na sua língua, que nenhum dos portugueses entende.
– Se algum de vós outros – diz-lhes o que aparenta ter maior prestígio –, pelo muito que haveis visto do mundo, souber de algum ardil com que o nauticor possa tomar este castelo, eu vos asseguro que em vez de serdes vós seus cativos, será ele vosso.
– Se ele nos der um assinado seu em nome d’el-rei – responde-lhe o desaforado Mendes, inconsideradamente, perante o pasmo dos companheiros que seguem a prática, mal ousando crer no que ouvem – de nos mandar pôr seguros no mar da ilha de Ainão, donde possamos ir livremente para a nossa terra, quiçá eu lhe faça conquistar o castelo com muito pouco trabalho.
O tártaro escancara os olhos, alvoroçado pela novidade, avisando-o em tom grave:
– Vê bem o que dizes, porque te asseguro que, se isso fizeres, te será concedido tudo o que pedires e muito mais ainda do que podes pedir.
É uma promessa que contém uma ameaça velada. Fernão, apercebendo-se da alhada em que aquele tunante sem juízo os está a meter, brada-lhe alarmado, quando o vê abrir a boca para falar:
– Que fazes, fumoso? Queres matar-nos a todos?
– Muito ventam os teus foles, rascão! – grita-lhe Borralho, com mais ódio aos tártaros do que aos chins, pela perda de Lijie. – Não te abastam os apuros em que estamos metidos?
– Como podes prometer-lhes o impossível, embusteiro!? – berra-lhe Vicente. – Estás a jogar com as nossas vidas.
Embora sem terem compreendido tudo o que ele prometera aos invasores, pelo alarme dos três companheiros, os restantes portugueses percebem que Jorge Mendes acaba de os pôr em grave perigo e soltam os seus protestos em grande berraria, pedindo explicações.
– Bofé, senhores! – responde-lhes o folião, um tanto agastado. – A minha vida, estimo-a agora bem pouco, porque estes bárbaros não nos darão a liberdade sem resgate e nós não temos nada de nosso. Se vivermos, será como seus escravos. Já que assi é, tanto monta morrer hoje, como amanhã. Lembrai-vos do que os vistes fazer em Quansy, por aí julgareis o que nos podem fazer. Eu escolho morrer com honra, a combater.
Sem compreenderem uma só palavra da altercação dos folangji, os tártaros mostram o seu pasmo, com uma delicada repreensão:
– Falar alto e desentoado é mais próprio de mulheres, pois não têm freio na língua nem chave na boca, que de homens que cingem espadas ou tiram com frechas na guerra. Sossegai e, se é isso que vos apoquenta, crede-me quando vos afirmo que se puserdes em efeito o que acabais de prometer, o nauticor vos concederá tudo o que lhe pedirdes.
Apesar do que disse aos companheiros, Jorge Mendes parece embaraçado, como se não esperasse que a sua bazófia chegasse àquele ponto, e tenta arrepiar caminho:
– Em sendo manhã, deixai-me ver muito bem o castelo todo à roda, então vos direi o modo que se poderá ter para o tomar.
– Eu darei conta da vossa promessa ao Mitaquer – conclui o tártaro, satisfeito.
O capitão Tileymay regressa nesse instante e os seus hóspedes despedem-se para recolherem às suas tendas, deixando os prisioneiros mergulhados em desespero, a cobrir o fanfarrão de pragas e maldições.
Jorge Mendes cavalga ao lado do Mitaquer, como seu mestre do campo, com um novo espírito e ufania que os companheiros há muito não lhe viam, principalmente nos dias anteriores, quando parecera corrido pelas suas repreensões e arvoado da cabeça, talvez por só então ter tomado consciência dos apuros em que a sua bravata os metera a todos.
– Que vos parece este perro? – remorde Pereira, a modo de donaire e torcendo os focinhos, como é próprio dos portugueses, incapazes de tolerarem a boa fortuna dos seus vizinhos. – Meteu-nos numa camisa-de-onze-varas e anda como se trouxesse o rei na barriga!
– Vamos ser todos esquartejados, se estes bárbaros não tomarem o castelo – concorda Gaspar.
– E se por milagre o tomarmos, como ele imaginou – acude Melo, com a mesma má natureza, falando mais forte a sua inveja de Mendes do que a sua inimizade por Pereira –, há-de ganhar tamanha valia com os tártaros, que nos haveremos de dar por muito honrados de o servirmos toda a nossa vida.
Nunca o invejoso medrou, nem quem com ele se juntou, pensa Fernão, ao ouvi-los, embora se sinta a morrer de ansiedade, vendo agigantar-se ante os olhos as muralhas do castelo, com milhares de defensores nas torres e ameias engalanadas com os compridos estandartes ou guiões de seda à charachina. Irrita-o a ingratidão dos murmuradores contra Mendes, esquecidos de que fora graças ao seu engenho que estavam livres dos grilhões, eram recebidos com muita honra na tenda do Mitaquer, com quem comiam à tripa forra, tirando a barriga de misérias. Morra Marta morra farta! Se tiver de morrer, sempre é melhor ir de pança cheia e bem trajado, do que faminto e em andrajos.
Não fosse a invejice toldar-lhes os espíritos, os portugueses não poderiam fazer outra coisa senão admirar Jorge que, dois dias antes, tal como prometera ao general, fora com Valentim e Vicente – os mais experientes dos nove nas artes da guerra – e trinta cavaleiros tártaros, dar a volta à fortaleza, à procura dos seus pontos fracos, regressando ao arraial um tanto aliviado com o que vira.
Auxiliado pelos dois companheiros, traçara um plano de ataque que agradara muito ao Mitaquer, o qual logo ali lhe entregara um formão assinado em letras de ouro, onde declarava que daria aos nove folangji liberdade para volverem à sua terra, semelhantes aos seus filhos em honras e rendas de muita prata.
Nesse mesmo dia, o general fizera Jorge seu mestre do campo, por quem tudo e todos se governariam, incumbindo-o de traçar a ordem em que os capitães haveriam de acometer o castelo. O bargante distribuíra postos de comando pelo bando, encarregando-os do corte da faxina para entulhar os fossos, da recolha de cestos, enxadas e pás pelas casas das povoações abandonadas, da construção de trezentas escadas muito fortes e assaz largas para poderem subir por elas três homens ao mesmo tempo. O enfunado governara tão bem o campo que tudo ficara pronto para, na manhã seguinte, se fazer o assalto à fortaleza.
Aproveitando a liberdade, embora vigiada, de que gozavam com a nova situação, sempre que o trabalho o permitira, Fernão e Cristóvão tinham percorrido o campo, visitando todos os lugares onde os tártaros mantinham os prisioneiros, sobretudo as tendas e cercas com as mulheres, sem acharem rasto de Meng e Lijie. De início tinham feito perguntas às cativas, mas as infelizes encolhiam-se a um canto, mudas de terror ou a gemer, como bichos maltratados, outras nem se moviam do lugar onde jaziam, olhando-os com os olhos vazios, como mortas.
Fernão deixa de ouvir as vozes dos invejosos, abafadas pela matinada ensurdecedora dos atabales e outros instrumentos de guerra dando sinal para a investida. – Cada um é artífice da sua ventura, murmura entredentes e concentra-se na difícil tarefa de furtar o corpo à morte, com manhas em que tinha já algum traquejo pelos muitos combates com que a sua má ventura o galardoara.
O exército fora repartido em doze batalhões, por cinco fileiras muito compridas e, na vanguarda, uma contrafileira disposta em meia-lua que cingia todo o campo. Os oito portugueses estão todos juntos na ala comandada pelo companheiro promovido a mestre de campo dos bárbaros invasores.
Cerca de trinta anos mais tarde, Fernão descreveria, com os olhos da memória e em letra impressa, o assalto ao castelo e a espantosa proeza de Jorge que lhes dera a liberdade e de cujo texto a presente narradora transcreve algumas linhas, em proveito do leitor, pois muito melhor do que ela, que só pode narrar imaginando, o fez ele, embora recordando, por o ter vivido:
A primeira salva, que se deram os de fora e os de dentro, foi de muitas frechadas, e de muitos arremessos de zargunchos, e de pedras, e de panelas de cal em pó, e algumas de fogo, em que se gastou quase meia hora, e após esta salva, logo os tártaros sangraram a cava por seis ou sete partes, e entulhando-a com muita presteza com faxina e terra, foram logo as escadas todas juntamente encostadas ao muro, que já ficava muito baixo por causa do entulho. O Jorge Mendes foi o primeiro que subiu pelas escadas, acompanhado de dous dos nossos, que como amoucos iam determinados de morrerem ou fazerem cousa com que se sinalassem, e prouve a Nosso Senhor que lhe sucedeu bem, assi por serem eles os que fizeram esta primeira entrada, como por arvorarem o primeiro guião, de que o Mitaquer com todos os mais que estavam com ele ficaram tão espantados que diziam uns para os outros: se o rei desta gente cercara o Pequim como nós o cercámos, o chim perdera mais depressa a sua honra do que lha nós fizemos perder148.
145 A partir da tradução de Sérgio Capparelli. Li Bai (701-762) foi um dos maiores poetas chineses da dinastia Tang.
146 Peregrinação, capítulo CXVIII.
147 Peregrinação, capítulo CXXII.
148 Peregrinação, capítulo CXIX.
LIVRO V
MAR DO JAPÃO
CIPANGO
No ano de 542, achando-se Diogo de Freitas no reino de Sião, na cidade de Odiá, capitão de um navio, lhe fugiram três portugueses num junco que ia para a China: chamavam-se António da Mota, Francisco Zeimoto e António Peixoto. Indo-se de caminho para tomar porto na cidade de Liampó, que está em trinta e tantos graus de altura, lhes deu tal tormenta à popa que os apartou da terra, e em poucos dias, ao levante, viram uma ilha em trinta e dous graus, a que chamam os Japões, que parecem ser Cipangas e suas riquezas, de que tanto falam as Escrituras; estas também têm ouro e muita prata e outras riquezas.
(Tratado dos Descobrimentos, de António Galvão, 1550)
I
Ao entrar na vila, obedeça aos que nela moram
(japonês)
Da ilha de Zipangu (Cipangu):
Zipangu é uma ilha do levante que está no alto mar a mil e quinhentas milhas. A ilha é muito grande. A gente é alva, de boas maneiras e belas. São idólatras e não estão sujeitos à senhoria de ninguém senão a si próprios. Encontra-se aqui ouro, mas não muito; ninguém aí vai e nenhum mercador leva deste ouro, razão pela qual têm tanto.
O palácio do senhor da ilha é muito grande e coberto de ouro, como entre nós se cobrem de chumbo as igrejas. E todo o espaço das câmaras é coberto de ouro da grossura de bem dois dedos e todas as janelas e paredes e tudo o mais e também as salas: não se podendo dizer o seu valor.
Têm muitas pérolas, as quais são vermelhas, redondas e grandes, mais caras do que as brancas. Também há muitas pedras preciosas, não sendo possível contar a riqueza desta ilha.
Fiquem sabendo que os ídolos destas ilhas e os do Catai são todos de uma maneira uns com cabeça de boi, outros com cabeça de porco e de muitas outras espécies de animais; e há-os com uma cabeça e quatro rostos, ou com quatro cabeças e também com dez; e quantas mais têm, maior esperança e fé têm neles.
Agora vos direi de uma usança desta ilha. Quando alguém prende um homem que se não possa resgatar, convida os seus parentes e companheiros e o faz cozer e dá-o a comer a todos esses; e dizem que é a melhor carne que se pode comer.
(Il Milione, de Marco Polo, livro terceiro, capítulo CXXXVIII)
O junco navegava há vinte e três dias com muito trabalho, balançando ao sabor das ondas e dos ventos endemoninhados, bem avante do arquipélago de Léquios e sem achar uma enseada onde lançar ferro. Pinto, Borralho, Zeimoto e António da Mota iam com o credo na boca, temendo a cada instante ver o navio encalhar nos baixios ou desfazer-se contra as rochas das ilhas e ilhotas daquele mar desconhecido.
Só o capitão Wang Zhi, nomeado entre os portugueses por Samipocheca, parecia ter algum conhecimento daquela derrota, talvez por já ter andado por ali no corso. O seu piloto fora morto na fera batalha travada pelas duas fustas contra os sete navios do corsário ladrão que os desbaratara e forçara a fugir, deixando o sobrinho do capitão entregue à sua sorte, no junco em chamas onde iam os outros cinco companheiros desavindos.
Fernão dava-os por perdidos. Embora não sentisse estima por eles, lamentava deveras a sua perda, visto serem os portugueses tão poucos e tão dispersos por aquelas longínquas paragens, que só teriam salvação se se unissem e amparassem, em vez de se digladiarem em contínuas quezílias, tratando de matar-se uns aos outros ao menor desentendimento. Como sucedera com o seu bando.
Tendo a malícia vista fraca e memória forte, os desacertos ou rivalidades geradas no corso com António de Faria, que haviam fervilhado em lume brando por medo do capitão, foram-se agravando entre os nove náufragos durante o cativeiro na China, até explodirem em ódio e violência que só por milagre os não levaram a todos à morte. Após um curto interregno de paz, a sua libertação pelos tártaros em vez de os unir contribuíra de novo para os separar.
Roídos de inveja de Jorge Mendes, a quem o nauticor Mitaquer cumulara de honrarias por lhe ter conquistado o castelo de Nixiamcoo, os cinco brigões tinham esquecido momentaneamente as suas próprias ofensas e inimizades para se unirem contra Fernão, Borralho e Zeimoto que defendiam o companheiro, a cuja bravura deviam a liberdade, além de outras mercês concedidas por Altan Khan.
O nauticor, muito orgulhoso das suas vitórias sobre a cidade de Quansy e o castelo de Nixiamcoo, determinara levar os portugueses à presença do seu rei, cujo acampamento se encontrava a algumas jornadas de distância. Khan viera decidido a conquistar Pequim, porém, em consequência da seca que há anos assolava as províncias do norte da China, apesar das cidades que pilhara, sofrera grande míngua de mantimentos, de modo que a fome e a peste ameaçavam dizimar-lhe o exército mais depressa do que as armas dos chins, forçando-o à retirada.
Altan Khan recebera portugueses na sua tenda com honras de grandes guerreiros, fizera mercê a cada um deles de dois mil taéis de prata, dera-lhes cavalos e a protecção de uma escolta para os levar em segurança até um porto onde pudessem embarcar para Malaca. Jorge Mendes aceitara o convite para ficar ao seu serviço, pela bela soma de seis mil taéis de soldo, dos quais dera mil aos companheiros, à despedida.
O bando tinha chegado sem nenhum incidente digno de nota a Lampacau, cujo nome significa União das Ondas Brancas149, nas costas da China, onde se juntavam os mercadores e corsários chineses, japoneses e portugueses para fazerem veniaga sem pagarem direitos à Coroa. Ali acharam um junco de Patane e outro de Lugor, do reino do Sião, que iam regressar às suas terras, de onde poderiam conseguir facilmente transporte para Malaca, destino por que ansiavam quase tanto como pela pátria.
No momento de decidirem qual o rumo a tomar, se para Patane ou para Lugor, tal como sucedera na briga da Muralha que tantos dissabores lhes causara, a desventurada natureza dos portugueses dera causa a nova rixa, tão assanhada que o necodá dos tártaros que os escoltara na viagem, apesar de não ser natural de uma nação pacífica, se horrorizara com o seu comportamento.
– Sois bárbaros da pior espécie! Gente baixa e bruta como as feras! Recuso-me a passar mais um instante que seja na vossa companhia. Prefiro que el-rei me mande cortar a cabeça pela desobediência, do que ofender aos céus só por estar junto de vós ou levar carta ou recado vosso a alguém – e virara-lhes as costas, fremindo de indignação.
Ao tomarem conhecimento do caso, os capitães dos dois juncos recusaram-se a recebê-los a bordo e fizeram-se à vela, abandonando-os nos matos, onde viveram durante vinte e seis dias como bichos, passando grandes perigos e miséria, mas sem nunca fazerem as pazes ou prestarem socorro uns aos outros. Só Fernão, Borralho e Zeimoto continuaram unidos, mantendo-se apartados dos restantes.
A salvação chegara-lhes pela mão do corsário chim mais procurado pela armada do aytao de Chincheu, que o perseguira e desbaratara, apresando-lhe vinte e seis velas da sua frota. Wang Zhi lograra fugir apenas com dois juncos, refugiando-se em Lampacau, para restaurar as forças e curar os feridos. Com ele vinha o português António da Mota, conhecido de Zeimoto, que lhes propôs engajarem-se com o corsário, por lhe faltar gente para equipar os dois juncos.
Entre morrer nos matos ou lançar-se no corso e ganhar alguns proventos no saque das presas, enquanto não achassem barco que os levasse a Malaca, não havia que hesitar. Fazendo das tripas coração, engolindo o orgulho, vieram à fala uns com os outros, a fim de assentarem partido com o capitão para que os tomasse como matalotes e soldados de fortuna. Sarados os feridos, deixaram Lampacau vinte dias mais tarde, embarcando os três amigos com o capitão e os restantes companheiros com o sobrinho, posto que entre eles não houvera reconciliação.
A captura de boas presas rendera-lhes um proveitoso espólio, até ao momento em que, rumando Noroeste-Sueste, abaixo do porto de Chaozhou150, na foz do rio do Sal, se dera o mau encontro com os sete navios bem armados do wokou ladrão, que os levara de vencida.
Depois de navegarem três dias sem descanso, para se porem fora do alcance da sua frota, quando já se viam em segurança à vista de terra, colheu-os um vento esgarrão que fazia tais terramotos no mar como se todos os espíritos infernais andassem a revolver as ondas. Nessa mesma noite perderam a costa de vista, cuidando perder também as vidas, acabando por arribar sãos e salvos ao arquipélago de Ryūkyū ou Léquias, um reino independente de mais de cinquenta e cinco ilhas, onde se fazia boa veniaga. Sendo Zhi muito conhecido ali, bem recebido pelo rei, aproveitara a estadia para vender a fazenda, reparar os juncos e dar descanso aos homens.
Nas vésperas da sua partida, os léquios viram aparecer um prodígio no céu, uma formação grossa de diversas cores, tão melancólicas que enchiam as almas de temor; as nuvens, de tão rasteiras, pareciam pousar sobre as cabeças das pessoas, as aves, obedecendo à voz do instinto, levavam os ninhos de cima das árvores para os esconderijos das lapas.
Zhi que desejava percorrer as costas do arquipélago, partira sem querer saber dos avisos dos matalotes mais velhos, nem quando lhe apontaram o olho-de-boi, o sinal do tufão, aconselhando-o a buscar porto de abrigo sem demora. O mar, apesar de estranho, estava sossegado, no entanto, ao contrário do arco celeste que indica bonança, o olho-de-boi é sinal seguro da ira de Deus, a qual não tardara a tombar sobre o junco indefeso e os seus cem ocupantes.
Durara-lhes vinte e quatro horas a luta para se manterem à tona, de madrugada, os ventos ponteiros e as correntes contrárias tinham-nos arrastado, assim perdidos, até ao ponto onde agora se encontravam.
Fernão desperta da sonolência com o grito do avistamento de terra, saudado por grandes brados de alegria, criando novo ânimo na chusma extenuada que faz arribar o junco à costa em busca de uma angra para surgir.
– Olhai, a sul, aquele clarão ao horizonte do mar – brada Zhi.
– É um luzeiro de fogo.
– A ilha é povoada, Deus seja louvado!
– Veremos se é gente de bom trato, porque precisamos de água – diz o capitão. – Pode ser que a povoação tenha um bom surgidouro.
Acham-no a setenta braças da costa e, enquanto procedem às tarefas de amainar velas e lançar ferro, acercam-se duas almadias com seis homens. Muito bem apessoados, corpos fortes, boas feições. Assemelham-se aos chins, embora mais alvos, de olhos pequenos e poucas barbas. Pedem por gestos para subir a bordo e o capitão recebe-os com grande cortesia.
Trocam entre si salvas e zumbaias à charachina, mas os gentios não falam a língua chim e Zhi tão pouco conhece a deles, nem há no junco quem a saiba. Por gestos, os visitantes perguntam-lhe donde vêm e o capitão consegue dizer-lhes que são mercadores, mostrando-lhes algumas sedas e couros que trazem para veniaga.
– Nishimura Koura151, Tanegashima152 – responde Tsurumi, o chefe do grupo, ao gesto interrogativo do capitão que aponta para o cais da povoação. Faz um gesto circular, mais largo, acrescentando: – Nipongi.
Os três portugueses seguem o diálogo de surdos, tentando perceber se os sons e as palavras se assemelham aos da língua chim; os visitantes miram-nos estupefactos, como se estivessem diante de uma aberração da natureza, murmurando Seiban, seiban153.
– Tanixumaa? – repete Pinto, olhando para Cristóvão Borralho e Francisco Zeimoto, a pedir confirmação, mas ambos encolhem os ombros. – Se Tanixumaa é a ilha, Nipongi há-de ser esse tal arcipélago do Japão, de onde vai a prata para Malaca.
Tsurumi fala de novo, procurando dizer não só ao capitão da Grande Ming como àqueles estranhos tenjikujins154 que Tokitaka é o senhor de Tanegashima e eles serão muito bem-vindos para fazerem os seus tratos, se lhe pagarem os direitos devidos
– Chama-se Naotoki, o senhor da ilha? – pergunta Cristóvão, que pouco percebeu do arrazoado, e acrescenta numa súbita inspiração: – Serão estes os japões de que nos falaram os léquios?
Zeimoto solta um assobio de assombro:
– Nipongi é o Cipango de Colombo? No seu globo do mundo, Martinho da Boémia155 dizia que na ilha de Cipango cresce oiro em abundância, toda a sorte de pedraria e pérolas orientais. Será verdade? Os antigos enganaram-se em tantas cousas, como bem temos visto nas nossas viagens.
– Marco Polo disse que Zipangu é uma única ilha – lembrou Fernão –, com tanto ouro que os paços d’el-rei estão cobertos por ele, os seus ídolos têm cabeças de bicho e os seus naturais comem carne humana. – Sente um calafrio, ao lembrar-se da sua aterradora experiência no reino dos Batas. – Parece-me que o veneziano se enganou ou mentiu de propósito sobre muitos lugares que eu já visitei e ele nem sequer deve ter visto de passagem, porque só diz inzonas e invenções. Esta gente parece ser de tanta polícia como os chins, não acredito que sejam comedores de homens.
Recorrendo sempre à linguagem dos sinais, Tsurumi indica-lhes uma calheta abrigada onde poderão surgir, indo as almadias juntamente com o batel, pela proa, para conduzirem o junco a bom porto. Assim guiados, não têm dificuldade em aferrar bem perto de terra, de onde vêm logo muitas almadias a vender alimentos e outros produtos.
– Capitão, deixai-nos ir convosco a terra – roga Fernão, vendo que Zhi se prepara para desembarcar.
– Não podeis ir todos ao mesmo tempo, pois aqui nunca veio ninguém como vós e esta gente não gosta de estrangeiros, mesmo sendo semelhantes na figura, como eu. Vem tu com o Mota, que já me acompanha há mais tempo e pode dizer-te como te deves comportar.
– Vê tudo bem visto, para nos contares como foi lá – lança-lhe Borralho, junto de Zeimoto, à despedida, com risonha inveja.
149 Langbaigang ou Langbaijiao.
150 Na Peregrinação, capítulo CXXXII, é nomeado por Chabaqué; que também poderá ser o porto de Chenghai (China).
151 Cabo Kadokura.
152 Fernão Mendes Pinto chama-lhe Tanixumaa. Actual ilha Tanegashima, de 445 km2, situada a 30º 30’ N. e 131º 0’ E., estende-se por cerca de 35 quilómetros, através do estreito de Ōsumi, a sul de Kyushu.
153 Bárbaros do Ocidente.
154 Estrangeiros, gente da Índia, transformado em chenchicogis, na Peregrinação.
155 Martin Behaim, autor do celebrado globo de Nuremberg, construído no mesmo ano em que Colombo fazia a sua viagem de descobrimento.
II
Pouco se aprende com a vitória, mas muito com a derrota
(japonês)
Teppoki156 ou Relação do Mosquete, de Nanpo Bunshi:
Ao sul de Gushu157, a dezoito ri158 da costa há uma ilha chamada Tanega. Ali têm vivido, há muitas gerações, os meus antepassados. Segundo uma lenda de tempos antigos, o nome de Tanega, Ilha da Semente, derivou do facto de o número de habitantes, apesar da pequenez da ilha, ter crescido e prosperado como sementes que, uma vez plantadas, crescem e produzem inúmeras novas sementes
Há alguns anos, na era Tenbun [1532-1554], no vigésimo quinto dia do oitavo mês, no Outono do ano da Lebre (aos vinte e três dias de Setembro de mil quinhentos e quarenta e três), um grande navio chegou à hora do galo [entre as seis e as oito da tarde] à baía de Nishimura. Ninguém sabia de que nação vinha. Havia cerca de cem pessoas a bordo, cujos traços físicos diferiam dos nossos e cuja língua não se compreendia. Quem os viu achou-os muito estranhos. Entre eles estava um letrado da Grande Ming. O seu nome próprio era Gohō159. Ignoramos o seu nome de família. Era então chefe do lugar de Nishimura um homem chamado Oribenojō, bom conhecedor da sua escrita.
Na praia espera-os o samurai Oribenojō Tokitsura, chefe do lugar de Nishinomura, sujeito aos senhores de Tanegashima. Saúda Wang Zhi com muita cortesia, dando-lhe o nome de Goho, sem conseguir desfitar os rostos dos dois portugueses ou disfarçar o pasmo que lhe causam as suas barbas hirsutas, os grandes narizes e os olhos esbugalhados. Uma multidão de curiosos acotovela-se e empurra-se para os ver, com igual assombro, embora mantendo a distância imposta pelo acatamento devido ao chefe da povoação, rodeado dos parentes e da gente do seu ofício.
Fernão está tão maravilhado como eles, por se achar em terra virgem, entendendo pelas suas manifestações que nunca tinham visto um europeu. Ele é o primeiro ocidental a pisar o solo dos japões e só não se ajoelha em terra para beijar o solo, porque está a ser observado, escrutinado por centenas de olhos e não quer dar um passo em falso ou fazer um gesto errado que dane aquele negócio. Tanto os homens como as mulheres vestem quimões e catabiras, uma espécie de vestidos pintados, largos, com as mangas caídas, que erguem por detrás para não os sujarem no pó ou na lama, o que por vezes lhes deixa o norte a descoberto. As mulheres não usam toucado, trazem os cabelos untados com óleos, para ficarem mais pretos, atados atrás ou enrolados no meio da cabeça com um fio de papel; rapam as sobrancelhas e as testas, cobrem os rostos de alvaiade, por ser a alvura da pele sinal de beleza, mas tingem os dentes de preto.
Terminadas as zumbaias de parte a parte, o samurai – que não fala chim, embora, tal como Zhi, saiba escrever os seus caracteres – desenha com uma cana na areia a frase Não sabemos de que nação é esta gente que trazes a bordo; deixa que o capitão a leia, apaga-a e volta a escrever: Parecem muito estranhos, não parecem?.
Entrega a cana a Zhi que traça no solo: São mercadores dos povos bárbaros do Sudoeste. Compreendem até um certo ponto a distinção entre o senhor e o servidor, mas não creio que tenham conhecimento da Via das Cinco Relações Humanas160 ou de qualquer sistema próprio de um cerimonial cortês. Como assim?, desenha Oribenoj-o, e o corsário rabisca: Quando bebem, não usam taças, comem com os dedos, não com paus, como nós. Mostram as emoções sem qualquer domínio e desconhecem a nossa escrita.
– Ah! – exclama o samurai, mirando as roupas dos dois estrangeiros, em particular os estranhos objectos de madeira com ferro, em forma de tubo comprido, que um traz ao ombro e o outro debaixo do braço. Escreve: Então esses nanbanjins comportam-se como bichos?.
Zhi abana a cabeça com complacência e desenha a frase: São mercadores, acostumados a deambular de lugar para lugar, trocando cousas que têm por aquilo que não têm. Não são assim tão estranhos, em geral, são bastante inofensivos.
Oribenojō sorri, aliviado, como se lhe tirassem um grande peso dos ombros e o corsário debuxa na areia: O nosso barco foi muito maltratado pelo tufão, precisamos de o consertar. O samurai acena em concordância e escreve: Estas águas são pouco fundas, não servem para acolher um grande navio. A treze ri161, na ilha de Tanega, existe o porto de Akogi162, que é morada dos meus antepassados; possui milhares de casas e os habitantes são muito abastados, graças aos tratos com mercadores do norte e sul. Faríeis melhor em navegar para esse porto, onde o mar é profundo e muito tranquilo. Eu levarei aviso ao daimyo Tanegashima Tokitaka, o décimo quarto senhor destas doze ilhas, e a seu pai, Shigetoki163. Esperai pela sua resposta.
Zhi regressa ao junco com os seus homens e Oribenoj-o cavalga mais de trinta e cinco milhas até à residência dos seus senhores, em Ak-ogi, para lhes fazer em pessoa o relatório do extraordinário acontecimento da vinda do Nanseigo ou Estrela do Sul, um grande junco que o povo nomeou já por nanbansen ou navio dos bárbaros do Sul.
Os juncos não podem navegar à volta do cabo sem ajuda, nem subir pela costa ocidental da ilha de Tanegashima, sobretudo na presente estação dos tufões, por isso o senhor Tokitaka, mal recebe a notícia da sua vinda, envia trinta barcos a remos para rebocar o nanbansen até ao seu porto, onde chega dois dias mais tarde, a vinte e sete de Agosto, hora do porco, ou seja, por volta das dez da noite, no tempo em que as ilhas do arquipélago se achavam em estado de guerra, sob o governo do imperador Konara e do shogun Josiharu.
Ainda a ampulheta não esgotara a areia da segunda hora, após a ancoragem na calheta para onde os rebocadores os haviam conduzido, já uma multidão, muito maior do que a de Nishimura Koura, acorrera ao porto. Encostado à bordadura do junco, Fernão segue com grande interesse o movimento e emoção das gentes da terra, que num súbito alvoroço abrem alas, lançando-se de rojo no chão, criando um largo corredor para dar passagem ao jovem daimyō Tokitaka e ao seu numeroso séquito, que se dirigem à praia onde os espera uma formosa funce164 muito embandeirada para os levar ao nanbansen.
Com toda a sua equipagem bem ordenada para lhe prestar homenagem, Wang Zhi acode a recebê-lo, tendo a seu lado O-tama, uma mulher das ilhas de Ryūkyū que lhe serve de tçuzzu ou intérprete para a língua chim e, a curta distância, os portugueses que dissimulam sob a roupa os mosquetes carregados. O capitão e Tokitaka trocam intermináveis cortesias, até o daimyō se certificar de que é seguro subir a bordo, o que logo faz, acompanhado por alguns parentes, gente nobre e mercadores que trazem baús e cofres cheios de prata para fazerem tratos.
São os portugueses que ali o trazem, curioso da novidade, pois o seu olhar colhe os cem ocupantes num rápido relance, indo pousar demoradamente em Pinto, Borralho e Zeimoto, vestidos com as roupas ocidentais nunca antes vistas naquelas paragens. Muito moço, de uns quinze anos de idade, o daimyō tem um rosto afável, olhos vivos e inteligentes que captam todas as particularidades do junco, como mostra com as suas perguntas e comentários a Zhi, enquanto o percorre da popa à proa.
Senta-se, com divertida estranheza, numa cadeira que o capitão lhe preparou na tolda e acena a Tadashi Shuza, um bonzo da seita Nichiren muito versado em textos chins, que vem postar-se atrás dele para lhe fazer a dupla interpretação nos assuntos mais elevados. É, todavia, a léquia O-tama quem traduz a primeira pergunta sobre os nanbanjins, dirigida ao capitão corsário:
– Necodá, vemos na diferença do rosto, barbas e trajos que estes homens não são chins. Onde os achaste? A que título os trazes a esta nossa terra?
– São mercadores, nobre senhor. Uma gente boa. sem nenhuma falta, que achei perdida em Lampacau e recolhi por esmola. Habitam uma terra chamada Malaca, há muitos anos sujeita ao rei de Pu-Li-Du-Jia165, um reino no cabo do mundo onde o sol se põe.
Tokitaka faz um gesto de espanto, dizendo para os do seu séquito:
– Que me matem, se não são estes os tenjikujins referidos nos nossos livros sagrados! Os que vêm voando por cima das águas, para fazerem tratos com os habitantes das terras onde se criam as riquezas do mundo. A profecia consumou-se pois eles visitam a nossa ilha em título de boa amizade.
– Somos chenchicogins? – pergunta Fernão por entre dentes. – Que cousa são, os chenchicogins?
– O língua referiu gente da Índia, estrangeiros.
O daimyō chama-os para mais perto dele e António da Mota junta-se-lhes. Vendo que os nanbanjins falam a língua chim, Tokitaka prossegue com a dupla interpretação:
– Como vos chamais?
Dizem os nomes e o bonzo, muito seguro do seu saber, traslada Francisco Zeimoto em Furanchisuku Chimoro, Cristóvão Borralho em Kirishita Bōryōshukusha, designando António da Mota apenas por Da-Mōta e Fernão Mendes por Murashukusha. Tratando-os por estes nomes, com grande afabilidade, o daimyō faz-lhes muitas perguntas sobre as suas vidas, mostrando ser um governante curioso e inclinado a coisas novas, apesar da sua juventude. Respondem-lhe o melhor que podem, de modo a comprazê-lo, avaliando o gosto que o moço tem naquela prática pelo tempo que gasta com eles. O sol declinava quando Tokitaka dá a conversa por terminada, fazendo-lhes um convite que o língua dirige a Zhi:
– O templo budista de Jionji pertence aos monges de Nichiren Hokku, a principal religião de Akōgi. É assaz grande para alojar os cem membros do teu nanbansen, enquanto estiverem a repará-lo. Podeis ir para lá quando quiserdes.
O daimyō interrompe os agradecimentos efusivos do capitão, para se despedir dos portugueses:
– Furanchisuku, Murashukusha e Kirishita, amanhã ide ver-me a minha casa. Levai-me um grande presente de novas desse grande mundo por onde andastes, das terras que tendes visto, porque vos afirmo que essa só mercadoria comprarei mais a meu gosto que todas as outras.
A pedido de Zhi, Tokitaka ordena a Tadashi Shuza que durma essa noite no junco, a fim de responder às perguntas dos tenjikujins e de os acompanhar na manhã seguinte a sua casa. Fazem-lhe muitas zumbaias, até ele embarcar na sua funce e partir. Mal o barco se afasta, os portugueses levam o bonzo para um coberto, onde o crivam de perguntas sobre o arquipélago e as suas gentes.
– A nossa nação é composta de muitas ilhas, algumas separadas apenas por pequenos golfos ou braços de mar. A principal é Nipongi, Princípio do Sol, porque é a mais oriental, a primeira onde nasce o sol e jaz a cidade de Meaco com a corte e residência do imperador. Esta ilha tem a figura de um leão, de rosto para o nascente, o flanco virado para a terra da China, na província de Mangi, da qual dista cerca de quarenta léguas. O seu cabo é da feição de uma cauda de raposa sobre as grandes ilhas de Ximo e Xicoco. Nipongi está dividida em cinquenta e seis governanças, Ximo tem dez governanças, divididas por quatro senhores, os Iacatas, sendo o de Bungo o mais poderoso. O senhor de Tanegashima governa sobre doze ilhas.
– Sois um povo mui parecido ao do Grande Ming – diz-lhe Fernão, usando o nome que os seus naturais dão à China, crendo tecer-lhe um elogio. – Foram eles os primeiros povoadores destas ilhas?
Shuza franze o sobrolho, contudo domina de imediato a sua irritação, respondendo com voz sossegada embora um pouco tensa:
– As gentes do Grande Ming gostam de se gabar desse feito improvável, afirmando que em tempos remotos, um príncipe de uma das suas mais poderosas famílias conspirou com os seus parentes e aliados para matar o rei e subir ao trono em seu lugar. Descoberta a conspiração, o soberano condenou os conspiradores e os seus descendentes ao exílio perpétuo. O príncipe foi degredado, com toda a sua família e as dos seus aliados, para estas ilhas desabitadas, onde determinou ficar, povoando-as com a gente que levava consigo. Essa lenda foi aceite como verdadeira pelo nosso primeiro rei e, desde então, todos os imperadores descendem dessa família. Mas a verdade é outra, o nosso povo remonta à formação do mundo, como está escrito nos nossos livros sagrados.
– Conta-nos essa história, por tua vida – roga Fernão para se redimir de o ter ofendido.
– O Senhor do Céu e da Terra era um gigante de um tamanho tão descomunal que tinha um pé no alto e outro no baixo. Num acesso de mau humor arremessou uma lança dos céus sobre a ilha de Nipongi, a qual se enfiou pela terra dentro, abrindo um buraco de onde surgiu uma mulher muito formosa. Um dia em que ela se sentou à beira de um rio, um crocodilo saiu da água e, ferrando-a, comunicou-a166 por força; a mulher ficou prenhe daquele sucesso e, no devido tempo, pariu um filho, cuja prole povoou toda a ilha. Ainda hoje existem muitos Cōguis, uns fidalgos da casa d’el-rei, que descendem directamente dessa casta e honram-se tanto disso que trazem nos calções uns rabos dependurados à maneira dos crocodilos.
Como o capitão Zhi não estava presente, Tadashi acrescenta com ironia:
– Esta é a nossa verdadeira origem, contudo os chins não aceitam isto por se acharem superiores à nossa gente, quando nos são bem inferiores. Assi, a maior ofensa que podereis fazer a qualquer japão é chamar-lhe chim. – Solta uma gargalhada e termina: – Creio que o mesmo é válido para a gente do Grande Ming em relação a nós.
– Nós cremos num Deus único e invisível, criador do Universo.
– Um só deus para uma tão grande obra? – estranha o bonzo, rindo-se da ignorância dos tenjikujins, porém domina-se, não querendo humilhá-los e decide dar-lhes a primeira lição de civilização. – Muito antes do gigante de que vos falei, houve três deuses primordiais, invisíveis, que criaram o Universo separado em duas partes, sendo a superior uma vasta planície e a inferior uma massa de líquido tumultuoso. Na Planície do Alto Céu, nasceram posteriormente cinco pares de divindades, sendo o último, o mais importante, formado por Izanagi que quer dizer Aquele Que Convida, e Izanami ou Aquela Que Convida, os quais foram incumbidos de transformar o líquido proceloso em terra firme. Izanagi mergulhou nele a sua lança, as gotas que caíram coalharam para formar a ilha de Onogoro, onde as duas divindades vieram morar para a povoarem, tendo aí o seu primeiro filho Hiro-ko e criando as oito ilhas principais do Nippon.
Shuza vê os estrangeiros entreolharem-se, rindo à socapa, mas não interrompe o seu relato, ciente de que a persuasão é melhor arma para os conquistar.
– Da união do casal nasceram também Ohovata-tsumi, o deus do mar, Shima-Tsu-Hiko, o do vento, Kukuno-chi, o das árvores, Ochoyana tsu-mi, o das montanhas e muitos outros, sendo o último o deus do fogo que, ao nascer incendiou Izanami que morreu queimada. Inconsolável, Izanagi viajou até Yomi, a Terra dos Mortos, para a trazer de novo para a Terra dos Vivos. Todavia, muito zangada, cheia de vergonha do seu corpo queimado e engelhado, Iznami expulsou o esposo para fora de Yomi. Izanagi foi-se lavar num rio para se livrar da sujidade dos mortos; das suas roupas, olhos e nariz nasceram muitas deidades, como a deusa Amaterasu, a luz do céu, ou Susano-o, o deus do mar e das tempestades, banido pelo pai por ser muito rebelde. Assim, a família imperial descende da divina Amaterasu e não de Susano-o, o deus caído em desgraça.
Ia já a meio a hora do cão167, todavia os tenjikujins, em particular aquele a quem chamam Murashukusha, não se cansam de o ouvir, fazendo-lhe perguntas, mesmo quando lhe servem comida, de que ele apenas toma um pouco de arroz e fruta, recusando o resto, por ser homem estudioso, de vida austera, desligado dos mimos do mundo. Por fim, extenuado pelo esforço de ter servido de tçuzu o dia inteiro, enrola-se no cobertor que lhe deram e, deitando-se na esteira, adormece no mesmo instante.
156 Relatório da introdução das armas de fogo no Japão pelos portugueses, escrito para Tanegashima Hisatoki, o filho de Tokitaka, por Nanpo Bunshi (1555-1620), um estudioso de Confúcio, sacerdote do templo de Dairy ji.
157 Província de Ōsumi.
158 Ri – antiga unidade de medida japonesa, equivalente a 3,927 km. A distância de 18 ri corresponderá a cerca de 70 km.
159 Seria o famoso pirata chinês Wu-feng ou Wang Zhi.
160 Tratado do cerimonial de cortesia.
161 Cerca de 51 km.
162 Actual Nishinoomote.
163 Tanegashima Shigetoki (1503-1567) era avô de Hisatoki – o autor do Teppōki – foi o décimo terceiro senhor de Tanegashima que, vencido na guerra, abdicou do senhorio das ilhas em favor do filho Tokitaka (1528-79), de quinze anos, pouco antes da chegada do junco com os portugueses.
164 Pequena embarcação japonesa a remos.
165 Pulidujia foi o nome dado pelos chineses a Portugal, nos primeiros documentos sobre a chegada dos portugueses.
166 Comunicar, no sentido de ter conversação com, significa ter relações sexuais.
167 Cerca das nove horas da noite.
III
O homem comum fala, o sábio escuta, o tolo discute
(japonês)
Carta do P.e Francisco Xavier aos seus companheiros residentes em Goa:
Parece-me que, entre gente infiel, não se encontrará outra que ganhe aos japões. É gente de muito bom trato e, geralmente, boa e não maliciosa. Gente de honra muito de maravilhar: estimam mais a honra que nenhuma outra coisa. É gente pobre, em geral, e a pobreza, entre fidalgos e os que não o são, não a têm por afronta.
É gente de muitas cortesias uns com os outros. Apreciam muito as armas e confiam muito nelas: sempre trazem espadas e punhais; e isto todas as gentes, assim fidalgos como gente baixa; com idade de catorze anos, já trazem espada e punhal.
É gente que não sofre injúrias nenhumas, nem palavras ditas com desprezo. A gente que não é fidalga tem muito acatamento aos fidalgos. E todos os fidalgos se preciam muito de servir ao senhor da terra e são muito sujeitos a ele: isto me parece que fazem, por lhes parecer que, fazendo o contrário, perdem da sua honra; mais que pelo castigo que do senhor receberiam se fizessem o contrário. É gente sóbria no comer, ainda que no beber são algum tanto largos: bebem vinho de arroz, porque não há vinhas nestas partes.
São homens que nunca jogam, porque lhes parece que é grande desonra: pois os que jogam desejam o que não é seu, e daí podem vir a ser ladrões. Juram pouco e, quando juram, é pelo sol. Grande parte da gente sabe ler e escrever . É terra em que há poucos ladrões, e isto pela muita justiça que fazem nos que acham que o são, porque a nenhum dão vida: aborrece-os muito e de grande maneira este vício de furtar. É gente de muito boa vontade, muito conversável e desejosa de saber.
Vosso todo em Cristo, Irmão caríssimo
Francisco
Wang Zhi desembarca com amostras das mercadorias que salvara do ataque do wokou, para as apresentar ao jovem senhor, na mira de obter licença para fazer tratos com os mercadores de Tanegashima. Espera-os na praia um capitão com uma hoste de soldados, para os conduzir a casa do daimyō. A fim de o comprazer e ganhar o seu favor, o capitão leva-lhe um bom presente de peças de seda e outras curiosidades da China, em paga do batel carregado de provisões que, na véspera, ele enviou ao junco para refresco dos tripulantes, cuja vista suscitara um coro de vivas e aplausos.
Sendo costume nas partes do Oriente as embaixadas apresentarem-se com muita ostentação, para ornamento da sua primeira visita o corsário leva no seu séquito, além dos portugueses e do bonzo Tadashi Shuza, os doze chins de melhor presença ou mais autoridade do seu bando, trajados como ricos mercadores. A nova da visita dos tenjikujins espalhara-se, o porto abarrota de gente, assim como as ruas, em cujas árvores se empoleiram crianças irrequietas como pássaros; nas portas, janelas ou mesmo nos telhados apinham-se os curiosos para verem passar o luzido cortejo.
– Todas as casas são feitas de madeira, porque nas nossas ilhas os tremores de terra, tufões e furacões são muito comuns – explica-lhes o bonzo.
Fernão acha-as formosas, muito bem lavradas, com grossas telhas pretas, cozidas e envernizadas, tão rijas que duravam séculos sem se gastarem ou descorarem, segundo lhe diz o monge. São guarnecidas por fora de um estuque feito das conchas de certo marisco, para as fortalecer, dando-lhes uma brancura de neve que as faz resplandecer ao longe, tão aprazíveis à vista que os visitantes sentem o coração alegrar-se.
– Que edifício é esse, Shuza? Parece um palácio. É a casa do Senhor Tokitaka?
– Não, tenjikujin, é um mosteiro como tantos outros, das muitas religiões que existem em todas as ilhas para os bonzos e as biconis. – capta o gesto de incompreensão de Fernão e explica: – as nossas mulheres religiosas.
O mosteiro é um gracioso edifício de dois pisos, com pátios enquadrados por setenta grossas colunas de cedro muito ornamentadas, que eles entrevêem pelos grandes portais de quarenta pés de alto por vinte e cinco de largo, ladeados por duas enormes estátuas de guerreiros com suas maças nas mãos subjugando demónios.
– São como o nosso arcanjo São Miguel – compara Zeimoto.
– A grande maioria das gentes dos mosteiros pertence à nobreza, anda de cabeça e barba rapadas, para mostrar que abandonou o mundo. Os bonzos vivem em celibato, abstêm-se de carne e peixe, comendo apenas arroz, legumes ou ervas. Servem no seu templo, ensinando as crianças que estudam nos mosteiros até à idade de catorze anos.
Cruzam-se sem cessar com religiosos em vestes pretas, roxas, pardas ou amarelas que levam nas mãos fios de contas, como rosários. Durante a sua estadia, Fernão haveria de assistir algumas vezes às suas rezas e cantares em coro, com umas composições muito antigas em que respondiam uns aos outros em verso, com grande repouso e maior aparato, sobretudo à meia-noite e ao nascer do sol, quando cantavam durante uma hora, melhor do que os monges de Portugal ou Espanha às suas matinas.
Tadashi Shuza é um incansável professor, sente prazer em ensinar os tenjikujins, palavra que o escolar Wang Zhi e os próprios bárbaros pronunciam como chenchicogins e ele acaba por adoptar para melhor se fazer entender. Dos quatro estranhos visitantes, Murashukusha é o mais curioso e interessado, fazendo-lhe perguntas num arrazoado em língua do Grande Ming assaz compreensível, parecendo entender bem tudo o que se lhe diz. Resolve continuar a lição e dar aos bárbaros cabeludos algumas noções de religião.
– Ali podeis ver o templo do deus Susanoo, um dos três filhos do divino casal Izanami e Izanagi, procriadores não só da maior parte dos deuses como da natureza no mundo. É o irmão mais novo de Amaterasu, a Grande Deusa que ilumina o céu, cujo trineto foi Jimmu-tennô, o primeiro imperador do Japão. Susanoo foi expulso de Takamagahara, a Planície do Alto Céu, residência dos deuses celestes, por causa das suas selvajarias. Desceu até à província de Izumo, ao país subterrâneo dos limbos, matou a serpente gigante de oito cabeças, salvando a princesa Kushinada e, desposando-a, tornou-se rei do Nenokuni, o País das Raízes. A filha de ambos é Suseri, esposa de Ookuninushi-no-mikoto.
Fernão acaba por perder o fio à meada, emaranhado nos estranhos nomes e na pronunciação diferente daquela que se habituara a ouvir na China. A lenda era bonita, porém aqueles pagãos estão mesmo a precisar de quem lhes venha pregar a verdadeira fé, lhes salve as almas, o que até nem deverá ser muito difícil aos missionários por serem os japões uma gente afável, esperta e de muita polícia.
– O senhor de Tanegashima é ainda muito moço – diz, para mudar de assunto. – Como chegou ele ao poder, se o seu pai, o anterior daimyō ainda está vivo?
O bonzo sorri, apreciando a pergunta.
– Shigetoki foi o décimo terceiro daimyō de Tanegashima, mas sendo mais dado à caça ou aos luxos do que à governação, quis construir um grande palácio, forçando os seus vassalos a um trabalho tão constante e duro que eles se revoltaram e foram queixar-se a Izumu Tokinori, o ministro seu irmão, para que o admoestasse. Shigetoki recusou-se a ouvi-lo, acusou-o injustamente de traição. Sentindo-se ameaçado, Tokinori fez um grande levantamento de gente e, há cerca de seis meses, com a ajuda de mais de duzentos soldados, comandados pelo general Shigenaga, senhor da ilha Nejime, avançou contra o irmão. Para evitar hostilidades, Shigetoki foi refugiar-se em Yakushima, com umas dezenas de servidores, deixando a defesa do castelo entregue a Naotoki, o seu filho de quinze anos. Quando Shigenaga atacou o castelo, o príncipe defendeu-se valentemente, com a ajuda de alguns nobres e apenas cinquenta soldados, matando muitos inimigos, embora à custa de pesadas baixas. Naotoki foi ferido, mas um leal samurai salvou-o, levando-o às costas para fora da cerca. Vendo-se sem gente e sem socorro, o príncipe enviou uma mensagem ao general, dizendo-lhe que as suas hostes de defesa eram fracas, estavam exaustas, por isso ele aguardava o seu recado, no templo de Myōkuji, para cometer seppuku e morrer com honra.
– Como logrou escapar? – pergunta Fernão, sabendo como naqueles mundos dificilmente se poupava a vida aos vencidos na guerra.
– Shigenaga admirou a valentia, o alto espírito de Naotoki e mandou dizer que não lhe tinha rancor. Por que razão haveria ele de morrer? O general apenas pretendia castigar Shigetoki, que se afastara do caminho do bem e fizera sofrer o seu povo. A partir daquele momento o tirano podia viver separado do filho ou, se os maus conselheiros fossem banidos, era seu desejo que eles vivessem juntos, para que o príncipe tomasse conta do pai, de modo a impedi-lo de cometer mais crimes. Então, Naotoki tornou-se daimyō de Tanegashima, com o nome de Tokitaka e os títulos que lhe são próprios. Agora basta de prática porque chegámos ao nosso destino.
As casas são as maiores do lugar, rodeadas por um jardim ainda mais belo do que os da China, com grandes invenções de pedras, árvores e flores de diferentes espécies, mais parecendo obra de artífices do que fruto da natureza. Continuava por um parque com muitas fontes, um lago e coutadas a perder de vista.
A porta de entrada, de madeira ornamentada e pintada, dá acesso a um pequeno vestíbulo onde lhes é pedido que se descalcem e lavem os pés, o que causa alguma contrariedade aos portugueses.
– Bofé! Outra vez?! Já me lavei no junco!
– Ind’apanho um resfriado.
– ’Té parece que vimos prá procissão da padroeira de Malaca!
Os tectos no interior dos paços são gradeados e os sobrados das câmaras e antecâmaras por onde passam reluzem de limpeza e estão cobertos de esteiras de palha de arroz, revestidas por uma rede de junco, tão finas como os mais delicados tapetes, que quase dá pejo pisar. Em nenhum aposento há alcatifas, panos de seda ou arrás, porque as paredes são formosos painéis deslizantes, os fusuma, pintados a ouro ou cores naturais, ora representando histórias de feitos antigos dos japões, ora cenas de caça e montaria ou paisagens de lagos e montanhas.
A sala das reuniões aonde os conduzem está virada ao sul e dá para o jardim; é vasta e despojada de ornamentações, com excepção de um recesso ornamental, no vão de uma parede, onde estão expostos um kakemono – uma pintura semelhante a um mapa – com outros objectos de arte. Há ainda dois armários metidos na parede, uma mesa pequena e baixa perto da janela, um estrado de dois degraus onde o senhor atende aos deveres do seu ofício, recebendo as petições dos vassalos e as homenagens dos visitantes, ou se desenfada com a família e os amigos, ouvindo música, fazendo poemas, jogando na mesa de go, um jogo semelhante ao xadrez.
Naotoki e o pai recebem-nos, sentados sobre os joelhos no estrado, acompanhados pelas esposas, concubinas e outras damas da família, trajadas com belas roupagens de seda, umas de cabeleira postiça, outras com os cabelos soltos pelos ombros até ao chão, tão negros e brilhantes de óleo como os seus dentes de azeviche, a contrastar com a brancura do rosto pintado e a flor rubra dos lábios em botão. Fora do estrado, sentados sobre os calcanhares, alinham-se em perfeita ordem os principais fidalgos, trajados com ricos quimonos de cerimónia, imóveis e de rostos impenetráveis como estátuas de madeira pintada.
A embaixada presta-lhes homenagem com infindas zumbaias e Wang Zhi entrega-lhe o presente, que é recebido com muitos agradecimentos e manifesto prazer. Terminada a cerimónia, o necodá pede permissão para lhe apresentar as amostras da fazenda que traz, segundo fora comunicado ao mensageiro que na véspera lhes levara as provisões ao junco.
– Enviei recado aos principais mercadores da terra para virem tratar contigo do preço de toda a fazenda e dos direitos que tens de pagar. Aí os tens.
Os tratantes entram na sala e, depois das saudações devidas aos senhores, apreciam as mercadorias que os tenjikujins trazem por amostra e assentam em tudo o que há mister para o negócio se fazer a contento de todas as partes.
– Amanhã, necodá – diz Tokitaka ao capitão –, já poderás guardar as tuas fazendas numa casa que te dou para os tratos com os nossos mercadores. E poderás aposentar-te com toda a tua gente no templo de Jionji, até ao dia da vossa partida. Os bonzos estão à vossa espera.
Zhi e toda a comitiva agradecem efusivamente a bondade do príncipe, contudo daimyō já não os ouve. Perscruta os rostos dos nanbanjins, ansioso por lhes fazer mais perguntas sobre as terras do outro lado do mundo, cuja existência até então ignorara. Apesar de ser o senhor de doze ilhas com muitos vassalos, pouco conhecia do mundo; se bem que o pai ou os seus conselheiros lhe dissessem que nenhuma nação era mais poderosa, bela, cultivada e rica do que a sua, ele desejava muito conhecer outros lugares além de Tanegashima. Não pode desperdiçar a ocasião de obter esse conhecimento que lhe darão as histórias das suas vidas, pelo que manda o bonzo Shuza sentar-se junto dos quatro portugueses acocorados respeitosamente na sua frente, a fim de lhes servir de língua na dupla interpretação.
– Os chins e léquios dizem que a nação Pu-Li-Du-Jia é muito maior, tanto de terra como de riqueza, que todo o império Ming. Isso é verdade?
– É sim, meu senhor – concede Zeimoto, com voz segura, para não desfazer o crédito que o daimyō tem da pátria portuguesa.
Os três amigos haviam acordado entre si que se Naotoki fizesse perguntas embaraçosas, cujas respostas verdadeiras pudessem contribuir para o deslustre do Portugal e do seu rei no Oriente, tratariam de as embelezar com ajuda de algumas coisas fingidas ou aumentadas.
– Certificaram-me também que o vosso rei subjugou, por conquista de mar, muitas partes do mundo. É certo?
– É verdade, daimyō Tanegashima Tokitaka – confirma Borralho. – El-rei de Portugal é senhor de muitas terras de África, Arábia e Índia, além de um imenso território chamado Brasil.
Quando o intérprete termina a tradução, o príncipe fica por momentos em silêncio, como pasmado.
– Afirmaram-me ainda que o vosso rei tem mais de duas mil casas cheias de ouro e prata até ao telhado – diz por fim. – É tão rico como me dizem?
Fernão responde com muita humildade:
– Sendo o reino em si tamanho, nobre senhor, com tantas terras, povos e tesouros, não é possível dar-vos a certeza desse número.
O diálogo prolonga-se por mais de duas horas, com os portugueses numa grande agonia de cãibras e dores nas pernas, por estarem sentados sobre os calcanhares. Por fim, Tokitaka despede o necodá e com o seu séquito e, com um anseio que ressuma na sua voz e se perde na traslação do língua, roga aos tenjikujins:
– Quedai-vos esta noite em minha casa, pois não me canso de vos perguntar cousas do mundo de onde vindes. Amanhã de manhã, mandarei dar-vos umas casas junto da minha para vossa pousada. Estareis mais a gosto aqui do que no mosteiro, por ser este o melhor lugar da cidade.
Fernão revê-se no moço príncipe, quando, com a mesma idade, embarcara pela primeira vez à aventura e para fugir à morte, movido pelo mesmo desejo de conhecer outros lugares, essa ânsia do Longe e do Mistério que o tinham trazido além da Índia, até àquele arquipélago desconhecido de quase todas as nações do mundo. O favor de Tokitaka honrava-os e avantajava-os em relação ao bando de Wang Zhi, por cujo rosto perpassa uma sombra de inveja, logo dissimulada por sorrisos corteses. Apercebendo-se do seu despeito, sente-se aliviado quando eles partem, por fortuna antes de o daimyō convidar os portugueses para comerem com ele.
É imponente o cerimonial do serviço das iguarias, acompanhadas de muita música, tanto de vozes como de instrumentos, que parece arrebatar os japões mas arranha os ouvidos dos portugueses, de tal modo que a duras penas dominam o desejo de fugir. As representações e danças causam-lhes assombro. O repasto estende-se por muitas horas, à maneira dos chins e, tal como nas ceias do monteo, a comida é servida em mesinhas baixas, uma para cada conviva, finamente lavradas com embutidos de ouro, a escusar toalha ou mantel.
Os manjares são pescado cru, caça, aves e marisco, acompanhados de legumes, de tofu ou aletria, vindo muitas das iguarias já cortadas, armadas em pirâmides de mais de um palmo de alto, borrifadas de ouro, entressachadas com uns pequenos ganchos de cipreste, tão bem concertadas que fazem os portugueses soltar exclamações de pasmo.
– Parecem ramalhetes de flores.
– Cousa maravilhosa de se ver!
– E as aves? Como se estivessem vivas.
Essas vêm inteiras, com os bicos e as patas douradas para maior primor, que os japões desfazem com os dois pauzinhos, apartando com tal perícia os ossos e também as espinhas aos peixes, sem deixar cair migalha, que maravilham os visitantes. Apesar do tempo passado na China e nos juncos com as chusmas chins, à excepção de Fernão, os portugueses manejam desajeitadamente os delicados objectos sob o olhar complacente ou divertido dos outros comensais, procurando colher e levar à boca um ou outro pedaço das viandas que lhes ficam mais perto, arrenegando da sua sorte, mas sem se atreverem a tomar a comida com as mãos. Os parentes do daimyō são ainda mais corteses e prolixos do que os chins nos cumprimentos da mesa.
– Tão só para tomarem uma taça de chá cumprem com oito leis diferentes de cortesias! – observa Zeimoto, semicerrando os olhos de impaciência.
– É uma gente de muita polícia, engenho vivo e saber natural. – murmura Borralho com um suspiro de desespero. – Não devemos escandalizá-los.
– Sem dúvida – volve Fernão, olhando disfarçadamente para a sua esteira e sorrindo de alívio ao vê-la limpa.
Tokitaka quisera recebê-los com muita honra e usara nesse recebimento o seu tesouro mais precioso, que não era ouro, rubis ou pérolas, mas louça e apetrechos antigos para o serviço do chá. Embora a bebida fosse estomacal, o andarilho português não acha merecedoras da valia que lhes dão a panela de cobre para ferver a água, a trempe de ferro onde a põem ao fogo, a caixa de guardar a erva, o pote de louça onde se deita a tisana ou as escudelas de beber. Shuza explica-lhe que aquelas peças são feitas por mestres antigos e os púcaros de barro, do tamanho dos bebedouros que, em menino, punha nas gaiolas de pintassilgo, custam ali uma verdadeira fortuna, sendo estimados como património precioso da família. Sempre de olho posto nas novidades e nos tratos, apercebe-se de que os japões desconhecem o açúcar, pois nada do que tinham comido era doce, tirando a doçura própria de alguns frutos, uma falha que os portugueses poderiam colmatar no futuro.
Findo o serão, Tokitaka manda agasalhar os tenjikujins em casa de um mercador muito rico, que os banqueteou largamente durante o tempo que pousaram com ele168.
168 Peregrinação, capítulo CXXXIII.
IV
O destino nunca favorece quem não mede as consequências
(japonês)
Tanegashima Kafu, a Crónica da Família Tanegashima:
Havia dois chefes entre os mercadores, um chamado Murashukusha e o outro Kirishita da Mōta. Tinham na sua posse um objecto de duas ou três shaku169 de comprimento. Quanto à forma, era oco por dentro, por fora direito e muito pesado. Em tudo mais cavado, tinha em baixo um remate maciço, ao lado um buraco – o caminho do fogo. Este objecto não podia comparar-se a nenhum outro.
Quanto ao seu manejo, punha-se dentro myoyaku (pó milagroso) e juntava-se um pequeno projéctil de chumbo. Prendia-se um disco branco na orla de uma rocha e o atirador, com o objecto na mão, endireitava a sua postura e fechava um olho, acendia o fogo pela abertura e o pelouro acertava sempre em cheio no alvo. Havia um clarão como de relâmpago e o ribombar de um trovão, tão assustador que todos ficavam ensurdecidos.
Este objecto pode fazer uma montanha de prata desmoronar-se ou atravessar uma parede de ferro. Num conflito, um homem pode atingir um vizinho e tirar-lhe a vida no mesmo instante. Desnecessário será dizer que isto é válido também para o veado que destrói o arroz acabado de plantar. São incontáveis as maneiras como este objecto pode ser usado no mundo.
No dia seguinte, Wang Zhi desembarcou para levar a fazenda às casas que o Naotoki lhe tinha cedido, onde vendeu toda a mercadoria em três dias e com enorme lucro, sobretudo as canas muito usadas pelos homens para ajudar a caminhar ou apenas por vaidade, às quais os portugueses chamavam bengalas, uma alusão à sua proveniência do golfo de Bengala, o mesmo acontecendo aos abanos das ilhas de Léquios a que davam o nome de leques. O corsário chim admirava-se de ver cada vez mais palavras destes bárbaros do sul adoptadas pelos naturais de todas as terras onde eles faziam os seus negócios, principalmente quando se tratava de produtos nunca antes vistos.
– Por minha fé, os japões pagaram-me as mercadorias pelo preço que lhes pedi, sem má cara ou regateio – confessou a Pinto. – Só com esta pouca fazenda, avaliada em dois mil e quinhentos taéis de prata, consegui mais de trinta mil! Fiz tanto proveito que fiquei restaurado da perda dos vinte e seis navios que a armada do Tuão me tomou. Ora, se os tivesse, imaginem quanto não lucraria! E vós também, pois todo o vosso se perdeu com o junco do meu sobrinho. A esta hora seríamos todos ricos. Ai, quanto me dói que a fazenda seja tão pouca!
Pinto, Borralho e Zeimoto, devido às desinteligências no grupo dos portugueses, não tinham fazenda para tratos, embora esperassem receber uma boa compensação pelo seu trabalho na defesa do junco do corsário. Nos cintos com bolsas que traziam sempre presos ao corpo por baixo das roupas, guardavam quase intacta a prata oferecida pelo rei dos tártaros, de que contavam aplicar uma boa parte no resgate de algumas mercadorias, antes de partirem para Malaca. Com pousada e boa mesa de graça, gastavam o tempo a passear, visitando os majestosos templos dos seus pagodes, cujos bonzos acudiam a recebê-los com mostras de grande prazer, chamando os seus letrados para praticarem com eles em língua chim e fazerem a dupla interpretação para os restantes.
Começara o Outono, os áceres refulgiam em esplendores de vermelho, laranja e ouro, como se a floresta fosse uma imensa colcha de brocado, lavrada com aves de mil cores. Maravilhados por esta beleza nunca vista, os portugueses desenfadavam-se no parque do daimyō, a pescar no ribeiro e nos lagos ou a caçar nos bosques frondosos repletos de boas presas.
– É uma gente muito honesta e asseada – observa Borralho, uma tarde em que se depararam com um grupo de homens e mulheres a banharem-se juntos no lago principal –, mas parece-me de pouca polícia que se banhem assim nus, à vista de quem passa.
– Não é por asseio, mas por serem sensuais e lascivos, que diariamente passam horas nos natatórios e banhos públicos! – Zeimoto estremece de horror pelo excesso da perniciosa prática. – Três ou quatro banhos ao ano, por ocasião dos grandes dias santos ou festas, já avondam, porque se corre perigo de pulmonias, hidropisias e outras enfermidades.
– Contudo, esses mimos não fazem os homens fracos ou adamados, muito pelo contrário, têm um porte orgulhoso e aguerrido – defende Fernão, lembrando-se com saudade do gosto que tomara aos banhos com a doce Meng. – Andam armados desde tenra idade e já vi meninos de oito anos puxarem da espada para se defenderem ou castigarem quem os ofendeu.
Tinham-se internado profundamente no bosque perfumado e desembocam num paul onde pousava uma imensidão tumultuosa de aves de toda a sorte. Zeimoto, que é o melhor caçador dos três e o mais destro, não resiste ao formigueiro que sente nos dedos e, visando cuidadosamente o bando, dispara o mosquete sobre o magote mais cerrado. O estrondo do tiro provoca o terror entre as aves que, todas à uma, se erguem da terra e da água, desfraldando as asas num estardalhaço de gritos estridentes e de penas, cobrindo por momentos o sol e sumindo-se nos ares. No solo, jazem vinte e seis corpos de marrecos, alguns ainda palpitantes de agonia. Uma só munição bastara para fazer aquela carniça.
O estampido faz acorrer muita gente e dois soldados, vendo o efeito do tiro, vão dar rebate a Tokitaka, que a pouca distância do paul assiste ao treino de uns cavalos que acabara de receber. O jovem daimyō que ama as artes militares e aprende o manejo da espada e da lança com um dos melhores mestres do Japão, desejoso de conhecer a novidade dos nanbanjins, ordena que lhos tragam sem demora à sua presença.
Os nobres japoneses são ensinados desde a mais tenra idade a não revelarem por sinais exteriores os seus sentimentos e a manterem nos rostos uma expressão impenetrável, contudo o príncipe, por força da sua juventude, não consegue dominar o espanto ao ver chegar os nanbanjins com dois criados carregados de patos e mais algumas presas, caçadas no bosque sem recurso ao arco ou à lança. Fita com um medo supersticioso os estranhos objectos que os tenjikujins trazem ao ombro, sentindo-se tentado a concordar com os do seu séquito que lhe dizem ser aquele sucesso obra de feitiçaria.
– Furanchisuku, que cousa é essa que tens nas mãos? – pergunta, tendo a curiosidade vencido o receio. – Não se pode comparar a nada que tenhamos visto em nossas vidas.
– É um mosquete, meu senhor – responde Zeimoto entregando-lho para que o examine à sua guisa. – Uma arma para a caça. ou para a guerra.
O bonzo Shuza titubeia e empalidece, incapaz de achar uma palavra equivalente na sua língua àquele nome. Fica-se por arma e, para seu alívio, o daimyō não insiste, perguntando ao outro bárbaro:
– A tua não é igual, Murashukusha, inda que seja parecida.
– Pois não, meu senhor, esta é um arcabuz.
O monge baixa os olhos envergonhado. Ambos os objectos são coisas novas, desconhecidas.
– Podes mostrar-me o que faz? Aqui mesmo. – roga o príncipe, com uma voz ansiosa de menino maravilhado por um brinquedo novo. Domina-se a custo e ordena que lhe tragam um komanaku.
O komanaku ou cisne é um alvo para tiro ao arco, que os criados correm a armar no terreiro. Zeimoto pisca o olho a Fernão, que lhe dá a sua espingarda, visto o amigo ser o melhor atirador dos três. Com o alvo à distância de cem passos, é um tiro fácil e o português carrega o arcabuz, mete-o ao ombro, aponta, chega-lhe a mecha e dispara. Tokitaka vê um clarão de relâmpago e quase ao mesmo tempo ouve um estrondo tão assustador que ele e todos os do seu séquito tapam instintivamente os ouvidos com as mãos, quedando como petrificados, ao ver o alvo desfazer-se em pedaços. O fumo que sai do cano vela por momentos a cara do atirador.
– Arcabuz – repete, esclarecendo: – Uma arma de fogo.
– Teppō! Tubo de fogo. Teppō! – brada o língua, com um sorriso de orgulhoso alívio, por se ter lembrado dessa palavra muito antiga, do tempo da invasão mongol, referida no rolo Mōko-shūraiekotoba às panelas de pólvora e outros engenhos explosivos de arremesso.
– Teppō! – exclama Takitaka. – É um bom nome para tão maravilhoso objecto: Tanegashima Teppō. Com ele até se pode matar homens ou animais. É um tesouro singular, sem igual na terra! – Faz uma pausa e acrescenta com uma ansiedade juvenil: – Eu cuido que não sou capaz, mas de bom grado aprenderia a disparar.
Fernão e Cristóvão trocam um sorriso cúmplice, comungando do mesmo saboroso pensamento que não podem formular em palavras, nem sequer em português: Cuidáveis que éramos bárbaros e toscos, por comermos com as mãos? Ora vede de quanta ciência essas mãos são capazes, por força do nosso engenho! Limitam-se a responder por acenos e por meio do tçuzzu:
– Se tu, senhor, quiseres aprender o uso da espingarda, nós de boa vontade te ensinaremos os seus segredos.
Tokitaka amadurecera com a experiência de guerra, quando o pai o deixara sozinho a defender o castelo de Ak-ogi do ataque de Shigenaga, por isso, apesar da sua juventude, entendera de imediato que era de armas como aquela que ele necessitava para reconquistar a ilha de Yakushima que o general lhe tinha tomado.
– Vós me ensinaríeis o seu segredo? – pergunta em voz alvoroçada.
– O segredo consiste apenas nisto: antes de disparar deveis preparar o coração e cerrar um dos olhos – responde Zeimoto.
– Quanto a preparar o coração, os sábios antigos ensinaram o nosso povo a fazê-lo e eu aprendi a lição. Se não seguimos o princípio do Céu em acção, movimento e repouso, acabamos forçosamente por errar. A menos que aquilo que quereis dizer com preparar o coração seja algo diferente. Se fechar um olho, não serei capaz de ver bem o que está longe.
– É para a concentração, nobre senhor – responde Fernão, surpreendido com a sabedoria do moço de quinze anos. – Fechar um olho não significa que não se possa ver claramente, mas que se está concentrado para se atingir o que está longe.
Tokitaka exclama para a assistência:
– Isso corresponde ao que Lao Tzu disse: Ver claramente o que é pequeno chama-se claridade. Não é disto que falais?
Zeimoto, vendo a corte pasmada e Naotoki tão maravilhado, diz aos companheiros, em português:
– Se Tokitaka faz tamanho caso das nossas armas é porque até agora, nesta terra, nunca se viu tiro de fogo e não sabem determinar o que seja, nem entendem o segredo da pólvora. Isto pode ser uma boa jogada a favor de uma futura amizade e tratos com os portugueses. Ainda te hei-de ver, Fernão, como feitor de uma feitoria dos japões.
Fez mais três tiros às aves, matou um milhano e duas rolas, arrancando sempre muitos aplausos, exclamações de espanto ou gritos de medo. Terminada a demonstração, Tokitaka monta a cavalo, agarra Zeimoto por um braço, içando-o para as ancas da montada, com grande escândalo dos fidalgos do seu séquito, pondo-se a caminho, seguido por Pinto, Borralho com toda a sua gente a pé. Correndo na sua frente vão quatro porteiros, com bastões ferrados nas mãos, que lançam um pregão ao povo:
– Tanegashima Tokitaka, senhor de nossas cabeças, manda e quer que todos vós honreis e venereis este tenjikujin do cabo do mundo, porque de hoje por diante o faz seu parente, assim como os facharões que se sentam junto de sua pessoa, sob pena de perder a cabeça o que isto não fizer de boa vontade.
A que todo o povo respondia:
– Assim se fará para sempre.
Zeimoto sorri, muito ufano desta pompa mundana, virando a cabeça sorrateiramente para trás a fazer caretas de perraria a Fernão e a Cristóvão, que vão esbofados, a remoer a inveja, resmoneando: De nada se faz um muito, Não perdes pela demora, meu sendeiro, Faz-se da pulga um gigante!.
Chegados ao primeiro terreiro dos paços, Tokitaka desmonta e, sem cuidar nos dois nanbanjins que deixa para atrás, toma o admirável Furanchisuku pela mão, levando-o para comer com ele e dormir em sua casa.
169 Shaku – medida de comprimento que corresponde a 30 cm.
V
Se te queres vingar do teu inimigo, nada faças:
senta-te à sua porta e espera
(japonês)
Yaita-shi Kiyosada ichiry-u no keizu ou Genealogia da família Yaita Kiyosada:
No oitavo mês do Mizumoto U [o décimo segundo ano, da Lebre, mil quinhentos e quarenta e três], um navio nanbansen arribou à praia de Nishinomura. Traziam teppō e deram dois de presente aos senhores da ilha. Os senhores ficaram extremamente felizes com o maravilhoso objecto que receberam de uma terra estrangeira e Kiyosada foi mandado, com o seu aprendiz, estudar a técnica do seu fabrico. Kiyosada pensou que os tenjikujins até podiam ser honestos, mas ele não se atreveu a ir ter com eles. Achou melhor enviar a filha ao capitão do navio, Murashukusha, com o fito de se virem a casar depois de um dia de amizade e então ele poderia aprender a fazer os teppō.
A sua filha Wakasa nasceu no décimo quinto dia do quarto mês do Hinoto [o sétimo ano, do Porco] da era Taiei [mil quinhentos e vinte e sete].
O Festival do Crisântemo tinha lugar no nono dia do nono mês e Tanegashima rescendia com o perfume das flores que eram também um festim para os olhos, todavia a maior festa para o coração do jovem Tokitaka consiste em observar os três nanbanjin a caçarem com as mortíferas teppō no seu parque. Vendo Furanchisuku e Murashukusha a acercarem-se com muitas pombas e rolas mortas, cisma em como tudo poderia ter sido diferente, no seu confronto com o general Shigenaga, se então possuísse umas dezenas daquelas armas de fogo. Com amargura recorda o poema de um autor desconhecido sobre a guerra fratricida,
Um pássaro com
um só corpo mas
dois bicos
picando-se
até à morte.
Sem a ajuda do pai e com a diminuta hoste de defesa do castelo, não pudera fazer frente ao agressor, mas, se conseguisse obter dos tenjikujins os segredos do fabrico das teppō e do my-oyaku – o pó mágico que com o seu estrondo levava a morte ao inimigo – mandaria fazer um bom número delas, adestraria no seu uso uma tropa de elite e lançar-se-ia à reconquista da ilha de Yakushima, tomada pelo seu tio Tokinori, a fim de vingar a passada humilhação e restaurar a sua honra. Tinha de possuir pelo menos uma, para servir de modelo aos seus armeiros e estava disposto a pagar qualquer preço que os tenjikujins lhe pedissem pelo precioso objecto.
Fernão e Zeimoto prestaram-lhe as devidas cortesias, trocando entre si um sinal de entendimento quando, à vista das espingardas, os olhos do daimyō luziram de cobiça, iluminando-lhe o rosto que pretende ser impenetrável. Tokitaka corresponde às saudações com muita afabilidade, sentando-se com eles no chão do pequeno pavilhão coberto de tatamis onde os criados lhes servem chá com alguns pratos de salgados para a merenda. Sem se importar com a estupefacção e censura que por momentos desmancham a postura impassível dos seus ministros, o daimyō serve-lhes a bebida com a sua própria mão; os dois portugueses agradecem a honra, fazendo o kotao, ao modo chim, curvando-se para tocar com a testa três vezes no chão.
– Meu Senhor, nunca poderemos agradecer-te o bastante pelas bondades e honras que nos tens feito desde que arribámos à tua ilha, apesar de sermos chenchicogins e sem nada de nosso – diz-lhe Zeimoto, aproveitando o ensejo para pôr em obra o que tinha decidido com Fernão, durante a caçada. – Creio, porém, Alteza, que em nenhuma coisa posso melhor satisfazer-te ou dar-te mais gosto do que oferecer-te este mosquete.
Tokitaka olha-o, incrédulo, mas já Fernão se curva para acrescentar:
– E a mim, meu Senhor, me farás grande honra se aceitares este meu arcabuz, para que possas aprender todos os segredos dos teppō.
De joelhos, curvam-se por três vezes e voltam a sentar-se sobre os calcanhares, um hábito adquirido a custo, mas que, com o uso, já fazem quase como coisa natural.
– Dais-me os vossos teppō, Furanchisuku? – pergunta com a voz embargada pela emoção, como se os seus deuses lhe tivessem concedido o milagre que rogara sem esperança de alcançar. – São peças de muito preço, Murashukusha! Com uma gente assim generosa, não me custa a crer que o rei de Pu-Li-Du-Jia seja esse poderoso monarca, senhor de muitos mundos, como me contastes. Estimo estes presentes mais do que todo o tesouro do Grande Ming!
A uma ordem sua, o secretário entrega a cada um dos portugueses uma bolsa com mil taéis de prata, que eles fazem menção de recusar por delicadeza, para logo as guardarem, contentes de verem como a sua estratégia, para estabelecerem laços de amizade mais estreitos com o senhor de Tanegashima, dera melhores frutos do que contavam receber.
– Agora, tereis de me ensinar o segredo do my-oyaku, o pó mágico, porque sem ele os teppō não passam de um pedaço de ferro desaproveitado.
Os portugueses entreolham-se apreensivos, sem saberem o que dizer. Shuza contara-lhes que os mongóis haviam aprendido com os chins o segredo da pólvora e tinham-na usado nas bombardas, ao invadirem o Nippon, causando-lhe grandes estragos. Embora moço, o senhor de Tanegashima era um príncipe inteligente e bem instruído nos assuntos de guerra; apesar de nunca ter visto uma espingarda, não se deixaria enganar com qualquer patranha, como se fosse índio do Brasil ou cafre da Guiné, nem eles desejavam fazê-lo.
– Alteza – confessa Zeimoto, com muita humildade –, nós sabemos manejar as espingardas, desejamos muito ensinar-te a disparar o mosquete e o arcabuz, porém, não somos armeiros e nunca fizemos o pó mágico.
– Conhecemos os materiais da sua composição, que são o enxofre, o carvão e o salitre, mas pouco sabemos quanto à arte de moer, peneirar e misturar o pó.
Tokitaka inclinou-se para a frente como se quisesse dizer-lhes um segredo.
– Há muito enxofre, carvão e chumbo em Tanegashima, só precisamos de importar o salitre.
Eis uma boa mercadoria para os tratos com os japões, pensa Fernão, sempre de olho no negócio, tratarei de comprar na China e no Sião todo o salitre que puder e virei vendê-lo aqui.
– E para o fabrico dos teppō – prossegue o Naotoki, com alvoroço – temos boa madeira nas florestas e a nossa ilha é tão rica em ferro que as suas costas são conhecidas por kuroi sunahama, as praias de areia negra! Por ora, comprarei toda a pólvora que o capitão Goh-o me puder vender, para poder exercitar o tiro com as armas que tão generosamente me haveis presenteado. Comecemos sem mais tardança a minha aprendizagem.
Abandonara quase por completo a sua compostura de daimyō, e sorria de felicidade, vibrando com a antecipação do momento em que disparará o seu primeiro tiro, enquanto ordena que lhe tragam alvos para o exercício. Zeimoto dá início à lição, fazendo uma breve enumeração das diferenças entre as duas armas, tarefa assaz difícil porque nem ele nem os tçuzzus conhecem nas línguas chim e japoa, palavras que correspondam aos termos portugueses.
– O mosquete, meu senhor, é uma arma mais recente do que o arcabuz, de cano longo, mais pesada e certeira, com o dobro do alcance, embora mais difícil de manejar. Ambas se carregam pela boca e disparam por meio do morrão que aqui vês.
Mostra-lhe a longa mecha de cânhamo entrançado, embebida numa solução de salitre que ardia lentamente, cuja ponta estava presa à serpentina na coronha das armas. Fernão coloca sobre uma mesa o seu polvorinho ainda cheio de pólvora, a bolsa com as esferas de chumbo e prepara o arcabuz.
Troca um olhar com Zeimoto que encolhe os ombros, como a dizer-lhe que ignora quanto, de tudo o que falara, fora compreendido pelo Naotoki, a quem entrega o mosquete. Prossegue com a lição, ajudado pelo companheiro, numa mistura de português e chim, com recurso a uma animada pantomima de gestos e sons, para suprir as dificuldades da língua:
– Primeiro, Alteza, deita-lhe pelo cano uma medida de pólvora, digo, de my-oyaku para encher a caçoleta (essa pequena câmara redonda na coronha). agora a bucha de estopa. soca-a bem, assi mesmo, com a vareta da forquilha. Muito bem! Mete ora o pelouro, que deve correr folgadamente pelo cano, e uma segunda bucha. calca-a bem, isso assi, com a vareta. Tal e qual, meu senhor, até parece que usaste um mosquete toda a tua vida!
Tokitaka segue atentamente as instruções, rindo-se com os incitamentos que o tenjikujin lhe fazem na língua chim e ele consegue perceber. Agradece os aplausos dos numerosos assistentes que, todavia, mantêm os rostos impenetráveis, onde só por breves instantes perpassa um lampejo de receio.
– O arcabuz carrega-se do mesmo modo, Alteza – explica Fernão, dando-lhe a arma e o daimyō carrega-a já sem dificuldade, mostrando ter aprendido a lição e recebendo nova salva de palmas.
– Ambas as armas se disparam com o gatilho que faz baixar, por meio da serpentina (esta peça aqui), a ponta do morrão até ao buraco no cano e à my-oyaku na caçoleta (essa mesma!), para causar a explosão e disparar os pelouros. Para maior precisão, meu senhor, deves apoiar o mosquete numa forquilha. Vejo que estás prestes, Alteza, mostrai-me então a vossa pontaria.
– É preciso preparar coração e cerrar um dos olhos – repete o príncipe, enquanto ergue o mosquete à altura do ombro, franzindo a testa num esforço de recolhimento e fechando um dos olhos ao apontar ao alvo.
Os dois portugueses procuram manter o rosto inexpressivo como os japões, apesar da vontade de rir que lhes causa Tokitaka a assumir a atitude de um mosqueteiro, esforçando-se, como um aluno aplicado, por recordar os ensinamentos dos seus mestres. Soa a explosão, o tiro parte, o príncipe oscila e cai de costas, projectado pelo coice da arma, fazendo acorrer os criados e os ministros em pânico. Fernão e Zeimoto erguem-no do solo, igualmente assustados pelas consequências que lhes podem advir do acidente. Com um sorriso de pasmo, o daimyō pergunta-lhes:
– Acertei?
Trazem-lhe o alvo. O pelouro de chumbo fizera um buraco na orla esquerda do círculo.
– Acertaste, meu senhor!
– E logo ao primeiro tiro! – bradam os dois portugueses, batendo-lhe as palmas, secundados por todos os presentes, aliviados de o verem são e salvo. O príncipe solta uma breve risada, disfarçando as lágrimas de orgulho que teimam em assomar-lhe aos olhos, toma o arcabuz das mãos de Fernão, assume a postura de arcabuzeiro e prepara-se para disparar.
As duas armas de fogo passam a ser o gosto e passatempo do Naotoki, cuja felicidade não conhece limites quando recebe lições de tiro ao alvo dadas pelos dois tenjikujins. Com elas se exercitava, desde manhã até à noite, de tal modo que não tardou a exceder os seus mestres em perícia, com os desacertos dos primeiros tempos a converterem-se em tiros certeiros, conseguindo por fim, em cem disparos, acertar cem tiros no alvo.
Os seus ministros, decerto instigados pelo humilhado Shigetoki, determinaram favorecer os desejos de desforra de Tokitaka e mandaram chamar o mestre armeiro, ordenando-lhe que tomasse aquelas duas espingardas por modelo e aprendesse com os tenjikujins a fazer outras da mesma sorte.
VI
Tropeça-se sempre nas pedras pequenas, porque as grandes logo se enxergam
(japonês)
Do que toca às mulheres, e de suas pessoas e costumes:
– Em Europa a suprema honra e riqueza das mulheres moças é a pudicícia e o claustro inviolado da sua pureza; as mulheres de Japão nenhum caso fazem da limpeza virginal nem perdem, por a não ter, honra nem casamento.
– Em Europa, o encerramento das filhas e donzelas é muito grande e rigoroso; em Japão as filhas vão sós por onde querem por um dia e muitos, sem ter conta com os pais.
– Entre nós não é muito corrente saberem as mulheres escrever; nas honradas de Japão se tem por abatimento as que o não sabem fazer.
– As de Europa perfumam os cabelos com cheiros odoríferos; as Japoas andam sempre fedendo ao azeite com que os untam.
– As de Europa raramente usam de cabelos estranhos ajuntados aos seus; as Japoas compram muitas cabeleiras que vêm de veniaga da China.
– As da Europa prezam-se das sobrancelhas bem feitas e concertadas; as Japoas as tiram todas com tenaz sem lhe ficar um só cabelo.
– As de Europa é defeito parecerem-lhe muito as posturas e afeites do rosto; as Japoas, quanto mais alvaiade põem, tanto o têm por maior gentileza.
– As de Europa trabalham com artifício e confeições por fazer os dentes alvos; as Japoas com ferro e vinagre trabalham por fazerem a boca e os dentes pretos.
– As de Europa chegam-lhes as mangas até o colo da mão; as Japoas, chegam-lhe até meio braço e não têm por desonestidade descobrir os braços e peitos.
– Entre nós andar uma mulher descalça ter-se-ia por doida ou desavergonhada; as Japoas altas e baixas a maior parte do ano andam sempre descalças.
(Tratado do Padre Luís Fróis170)
Há muitas gerações que os Yaita serviam fielmente os senhores de Tanegashima, sem jamais discutirem ou recusarem uma ordem e Yaita Kinbee Kiyosada não seria o primeiro a fazê-lo. Apesar de ser um mestre na arte de forjar espadas, nada sabia do fabrico de armas de fogo, sendo os dois teppō do seu senhor as primeiras que vira em toda a sua vida, contudo, preferia morrer a confessar a sua ignorância ou imperícia para reproduzir os misteriosos objectos. O sapo do poço não conhece o oceano, pensou amargurado. Se não desse conta do recado, só lhe restaria uma saída para salvar a face e poupar o nome da família à desonra: o seppuku.
Diante do daimyō, dos seus ministros e dos tenjikujins, disfarçara o embaraço, mandando os seus aprendizes Makise, Hirase e Ishihara fazerem desenhos dos dois teppō com toda a minudência e ele próprio copiara as partes mais ardilosas, sob o olhar cioso de Tokitaka que, quando não estava a exercitar-se com os artefactos, os guardava em lugar secreto nos seus aposentos como tesouros da família, não os confiando a ninguém. Kiyosada ouvira com a maior atenção as instruções sobre o seu uso, tomara nota de tudo o que pudera entender do arrazoado do amo. o que, por sua má fortuna, fora bem pouco.
As armas não pareciam ter grandes diferenças entre si, tirando o cano de ferro, o caminho do fogo; com dois a três chaku de comprimento, direitas, cavadas por dentro, mas muito pesadas, a coronha de madeira de cerejeira era mais curva numa do que na outra, com um remate maciço por baixo. Embora nenhum dos seus acessórios, só por si, lhe tivesse parecido de difícil execução, Kiyosada regressara a casa com o coração pesado de angústia, por não lhe darem ocasião de desmontar a arma para a estudar por dentro. Suspeitava de que aqueles objectos tão poderosos como mortíferos fossem obra de feitiçaria dos tenjikujins, escondendo no seu âmago de madeira e ferro um sortilégio capaz de o amaldiçoar ou destruir.
Guardara-se de partilhar essas desconfianças com os aprendizes, pois o não falar é uma flor, como costumava dizer à sua filha Wakasa, moça alegre e palradora. Lembrara-lhes, pelo contrário, a grande honra que lhes fora concedida de serem os primeiros do seu mester a criarem as extraordinárias armas, um feito que, se fossem bem sucedidos, lhes haveria de trazer fama e fortuna.
Kiyosada começara a trabalhar afincadamente num tronco de cerejeira para criar a coronha, conseguindo-o após alguns dias de trabalho, muita perseverança e uma boa quantidade de madeira desperdiçada. O sucesso aligeirara-lhe o coração, a ponto de trautear um poema, coisa que os seus aprendizes não tinham memória de o ver fazer. Com as ferrarias, todavia, não tivera a mesma sorte, consistindo cada peça num verdadeiro quebra-cabeças.
– O macaco também cai da árvore! – suspirava, desconsolado, ao fim de um dia de luta na forja. – Até um mestre experimentado pode errar.
Durante os dias seguintes, os aprendizes sofreram-lhe com humildade as censuras aspérrimas e os anexins que ele lhes lançava com mais amargura do que ira.
– Escondes a cabeça mas não tapas o rabo, Makise – vociferava, mostrando-lhe como só em parte resolvera a dificuldade. – Não contes com a pele antes de apanhar o animal – lançava a Hirase, arrefecendo o júbilo do moço ajudante que antecipara a vitória ao ver o gatilho, porquanto a peça não encaixava na coronha.
Embora admoestasse os aprendizes, era ao mestre que ele recriminava pela inépcia e ignorância. Por fim, conseguira encaixar todas as peças do quebra-cabeças, todavia, só com muito esforço lograra fechar a coronha na parte inferior e temia que a teppō se estilhaçasse com a explosão da pólvora, se o encaixe não fosse assaz forte para a suportar. Apesar do defeito, Kiyosada impava de orgulho por ter sido o primeiro armeiro do Japão a criar uma tal arma de fogo que parecia mais perfeita do que as originais.
– Tanegashima teppō! – bradara, como se anunciasse o nascimento do filho primogénito e repetira, emocionado: – Tanegashima teppō.
Carregara a arma com a pólvora, conforme o daimyō lhe ensinara, mas Ishihara, o mais velho dos seus aprendizes, não o deixara disparar o arcabuz:
– Em caso de acidente, poderíeis ficar impedido de prosseguir com o vosso trabalho, o que não podemos consentir.
Kiyosada cedera contrariado. Ishihara metera a arma ao ombro, chegara-lhe o morrão que já tinha aceso e disparara na direcção de um balde que estava preso à entrada da forja. O estrondo da explosão que estilhaçou o arcabuz fizera fugir os dois aprendizes, sem olharem sequer para o companheiro que jazia no chão com parte do queixo arrancado e sem dois dedos da mão esquerda.
A caminho de casa, a lembrança do fracasso trouxe lágrimas aos olhos de Kiyosada: – Um cachorro vivo é melhor que um leão morto? – lançou a pergunta, com desprezo pela sua própria covardia, para a lua que pendia do céu como um balão pálido. Por muito que lhe custasse, tinha de admitir a derrota: sem o concurso dos nanbanjins jamais levaria a cabo aquela tarefa. No entanto, não ousava acercar-se deles para lhes pedir ajuda, porque não confiava, nem acreditava que lhe ensinassem de graça o segredo das armas. Que poderia fazer, se não tinha meios de fortuna para peitar os poderosos tenjikujins? Estava num beco sem saída ao fundo do qual o esperava, já desembainhada, a espada do seppuku com que haveria de rasgar o ventre para resgatar a sua honra e a de toda a família.
Imerso nos seus pensamentos só deu por ter chegado a casa, quando os seus olhos angustiados pousaram no belíssimo rosto da filha que o esperava à porta, ansiosa com a sua demora. Kiyosada soube, nesse instante, que Wakasa seria o remédio e a cura para todos os seus males.
Os parentes olham em silêncio para a moça, apreciando-lhe a beleza luminosa dos dezasseis anos e a graciosidade reverente dos gestos com que se ajoelha e lhes serve as iguarias. Sorriem-lhe em aprovação, mas ela mantém os olhos baixos, alheia ao efeito que causa e, findo o serviço, retira-se com a criada, conforme as instruções que a mãe lhe dera, indo em seguida refugiar-se no jardim em busca de conforto para o seu coração assustado.
Longe do ruído da casa, Wakasa deixa-se impregnar pelo perfume das flores, o som da água na fonte, a doce carícia do sol, procurando fundir-se com aquela natureza que, tal como ela, foi aprisionada e disciplinada para atingir a perfeição. Lembra-se do poema antigo que recita como uma prece: a multidão dos deuses olha-me decerto com piedade, porque eu não cometi qualquer pecado171.
Embora nada lhe tenham dito, sufoca-a o pressentimento de que a reunião dos principais membros da família Yaita foi convocada pelo pai por sua causa, em razão de um negócio demasiado grave para ser resolvido apenas por ele. Revê em pensamento a sua conduta nos últimos meses, sobretudo desde que completou os dezasseis anos, mas não acha nada nas suas palavras e acções de que se possa recriminar ou envergonhar. Poderá o seu karma trazer, das vidas anteriores, uma carga tão pesada que a impeça de ser feliz no presente?
Precisa de serenar o espírito para perceber o que se passa. Uma congregação tão numerosa de parentes só acontecia em tempo de guerra – como ela testemunhara meses antes, quando o pai decidira permanecer com o jovem daimyō, em vez de seguir o Senhor de Shigetoki na fuga ou mudar de campo como haviam feito muitos outros samurais –, em caso de morte, como sucedera com a do venerável avô, ou ainda para tratar de um casamento.
Sente-se desfalecer e encosta-se ao tronco da árvore, desafogando o quimono na frente, para aliviar o aperto no peito que lhe corta a respiração. Seria isso? Teriam os pais decidido casá-la, sendo a reunião convocada para apresentarem o pedido e obterem a aprovação para o noivo? As frequentes visitas que o pai fizera, na última lua, ao templo budista de Jionji seriam para consultar os oráculos e tratar da cerimónia? Se assim fosse, quem seria o pretendente? Como filha obediente e respeitadora, teria de aceitar o esposo que o pai escolhesse, no entanto, como a mãe sempre lhe dera liberdade e a encorajara a expressar os seus pensamentos, esperava que, em chegando o tempo de casar, não lhe impusessem um marido contra a sua vontade.
Por outro lado, o momento não lhe parece propício a matrimónios. A vinda dos nanbanjins estilhaçara a harmonia do seu lar, porque o pai não voltara a ter paz desde que o daimyō o encarregara de fabricar as temíveis teppō. Agora, chegava todas as noites a casa de semblante marcado pelo desespero, as costas vergadas como se carregasse um fardo ou tivesse subitamente envelhecido. Quando saía, manhã cedo, depois de uma noite de insónia, parecia uma assombração do mundo dos mortos; a mãe disfarçava as lágrimas e não respondia às perguntas que ela lhe fazia sobre as causas do seu tormento.
O templo visitado pelo pai era pousada dos tripulantes chins do nanbansen e ela ouvira-o mencionar o bonzo Tadashi Shuza que servia de tçuzzu a Tokitaka para falar com os tenjikujins. Sente uma ponta de ciúme do monge e lamenta a sua condição de mulher, porque, sendo bastante conhecedora do idioma chim, se fosse um rapaz, o pai não hesitaria em usá-la como língua.
Embora os Yaita não fossem ricos, pertenciam a um clã de boa estirpe e Asamia, a sua mãe, provinha da família Narahara, uma gente muito letrada, cujas filhas eram educadas para açafatas das senhoras de Tanegashima, estando Asamia ao serviço da mãe de Tokitaka e Wakasa ao da sua jovem esposa. Fora por isso criada com grande primor, tendo as monjas Nichiren por mestras nas artes corteses da caligrafia, da poesia ou da música, aprendendo também a língua do Grande Ming.
Procura sossegar a sua inquietude com o pensamento de que a reunião da família será decerto para tratar do assunto das teppō ou de outro serviço do daimyō e não do seu casamento, coisa de somenos quando cotejada com os deveres dos Yaita para com o senhor de Tanegashima. Nada durava para sempre, nem um mau karma: o Outono acabaria e o Inverno apagaria o fogo das copas dos áceres com o seu véu de neve; logo que chegasse a Primavera, as flores das cerejeiras renasceriam e os dias tristes seriam esquecidos.
Deixou de sentir o sol no rosto, abriu os olhos e estremeceu, não da brisa outonal apesar de soprar mais fresca, mas do movimento das nuvens no céu a desenharem estranhas formações – um sinal ominoso, precursor de más novas. De novo assustada, Wakasa corre para casa a prostrar-se diante do altar dos seus antepassados, rogando-lhes que afastem as sombras que pairam sobre o seu lar.
A criada vem dizer-lhe que o pai quer vê-la e ela obedece prontamente, indo ajoelhar-se do lado de fora da fusuma que divide os compartimentos. Ao ouvir a voz de Kiyosada chamá-la, faz deslizar o painel pintado com delicados motivos de flores e avança de joelhos sobre o tatami, curvando-se com muito acatamento diante dos parentes, cujos rostos fechados, zangados ou tristes lhe confirmam que uma terrível desgraça se abateu sobre a sua cabeça.
170 Tratado em que se contém muito sucinta e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes antre a gente da Europa e esta província de Japão, feito em Canzusa, aos 14 de Junho de 1585 anos, pelo padre Luís Fróis.
171 Do O Romance do Genji, suma II: 209; S: 246, de Murasaki Shikibu (traduzido, de uma versão inglesa, pela autora) (edição portuguesa, relógio d’Água, 2 vol., 2008).
VII
O dever é mais ligeiro que a pluma e mais pesado que uma montanha
(japonês)
Do que toca às mulheres, e de suas pessoas e costumes:
– Em Europa, vão os homens diante e as mulheres detrás; em Japão os homens detrás e as mulheres diante.
– Em Europa, a fazenda é comum entre os casados; em Japão cada um tem a sua separada e às vezes a mulher onzena com o marido.
– Em Europa, além de pecado, é suma infâmia repudiar a mulher; em Japão dá um repúdio a quantas quer, e elas não perdem por isso honra nem casamento.
– Segundo a natureza corrupta, os homens são os que repudiam as mulheres; em Japão, muitas vezes, as mulheres são as que repudiam os homens.
– Em Europa, pelo rapto de uma parenta se põe toda a geração a perigo de morte; em Japão os pais e as mães e irmãos dissimulam e passam levemente por isso.
– As mulheres em Europa não vão fora de casa sem licença de seus maridos; as Japoas têm liberdade de irem por onde quiserem, sem os maridos o saberem.
– Em Europa, recebem as mulheres os hóspedes alevantando-se em pé; as de Japão os recebem deixando-se ficar assentadas.
– Em Europa, posto que o haja, não é frequente o aborcio das crianças; em Japão é tão comum, que há mulher que aborta vinte vezes.
– Em Europa, depois de criança nacer, raras vezes ou quasi nunca se mata; as Japoas lhe põem o pé no pescoço e matam todos os que lhe parece que não podem sustentar.
(Tratado do Padre Luís Fróis)
Deitada no leito, sem dormir e a soluçar, a noite parecera não ter fim e a madrugada não trouxera consolo às suas mágoas. Por fim, Wakasa deixa de chorar, aceitando o seu destino como uma retribuição exigida pelas más acções que cometera em vidas anteriores, embora sem ter memória delas. Está só, indefesa como a onda que, empurrada por feros ventos contra os rochedos, vem tombar desfeita na areia.
Nunca ousará ir contra a vontade de Kiyosada, tendo sido criada desde tenra idade na crença de que terramoto, trovão, incêndio e pai são as quatro entidades mais temíveis do mundo, porque contra eles de nada serve lutar. Evoca as heroínas dos soga monogatari, os contos de guerra que as Goze cegas vinham cantar nas festas de Ak-ogi ou em casa do senhor de Tanegashima, marcando o ritmo da narração ao som do tambor, como inspiradas por uma visão interior, que lhes dava o poder de comunicar com o mundo invisível e fazer profecias. As contadoras de histórias narravam o infortúnio das mulheres, causado pelas maquinações dos homens e, tal como elas, Wakasa seguirá a via do sofrimento.
A árvore quer sossego, mas o vento não pára de soprar, suspira. Por amor do pai, de Tanegashima Tokitaka e do Nippon, sacrificar-se-á a viver a mais miserável de todas as vidas desde sempre vividas, casando-se com um horrível nanbanjin e viajando para os confins do mundo, abandonando tudo o que sempre amara, como lhe fora predestinado. Graças ao seu sacrifício, Kiyosada aprenderá o segredo das teppō e já não cometerá o seppuku, Tokitaka terá as armas para reconquistar os seus domínios e o império do Sol Nascente ganhará um novo instrumento para combater os inimigos. É uma responsabilidade demasiado pesada para uma pequena formiga como ela, contudo, se com o seu sofrimento alcança o que todos esperam, talvez na próxima existência já nasça num corpo de homem e logre a sua própria salvação.
O noivo que lhe destinam é o mais letrado, afável e cortês dos nanbanjins, segundo lhe contara a mãe, a modo de consolo. As idas de Kiyosada ao templo de Jionji tinham sido para sondar Tadashi Shuza e pedir-lhe conselho sobre os tenjikujins, a fim de escolher aquele que melhor pudesse servir os seus propósitos: um homem sensível aos encantos de Wakasa, a ponto de aceitar casar com ela e não a fazer demasiado infeliz.
O monge não hesitara em indicar-lhe Murashukusha, que se mostrava encantado com tudo o que via, cuidadoso em não cometer faltas de cortesia, sempre a fazer perguntas para conhecer os usos da terra e esforçando-se por aprender a falar a língua, sendo também de todos os tenjikujins o que melhor se fazia entender no idioma do Grande Ming.
Fukumi, a irmã mais velha de sua mãe, escolhida para nakodo ou intermediária entre as duas partes na concertação do casamento, parecia mais resignada do que feliz com o encargo e não disfarçara o seu mal-estar perante a sobrinha, declarando-lhe as suas premonições contra um matrimónio que não podia agradar aos céus.
– É tão fora dos bons costumes como nunca houve outro em todo o Nippon, desde o princípio do mundo! – repontara indignada. – O nanbanjin não segue sequer a nossa religião e, só por isso, os espíritos dos nossos antepassados hão-de retirar-nos a sua protecção.
Wakasa enxugara o pranto silencioso à manga do quimono e a tia, condoída do seu desgosto, acrescentara em tom mais brando:
– És uma boa filha, o teu sacrifício há-de ter recompensa.
Chegara prestes o dia da consumação do castigo, que outra coisa não era a sua entrega ao estrangeiro, a qual terá lugar no grande junco agora despejado de gente. Vestida com um quimono de Outono de formoso padrão, Wakasa segue de carroça, a caminho do cais, com a tia e a terceira concubina de seu pai, uma filha de camponeses, comprada mais para criada de Asamia do que para consorte. Sente-se gelada como se, numa manhã de rigoroso Inverno, tivesse saído de casa em roupas de Verão.
– E se eu não agradar ao nanbanjin? – pergunta com a voz a tremer, não de medo, mas de esperança. – Ele pode não me querer para sua esposa.
– Que os céus o não permitam! – alarma-se Fukumi. – És mui formosa e isso é meio caminho andado para que te queira, no entanto, deves fazer tudo o que estiver ao teu alcance para lhe agradar. – Faz uma pausa e acrescenta, mais para si mesma do que para a sobrinha: – Ele não se atreverá a recusar-te, depois de eu ter dito ao capitão do nanbansen e seu nakodo, que o Senhor Tokitaka tem grande prazer com este casamento.
Desse mesmo assunto falam os portugueses com o corsário Wang Zhi, porém, em vozes mais acesas e ânimos exaltados.
– Por que hei-de ser eu? Porquê o pobre de mim? – brada Fernão, em freimas. – Acaso é sina minha, isto de sempre me cair nos lombos todos os sarilhos? Ainda não fez três semanas que aqui aportámos e já me querem casar? Mal acabei de sair de uma e logo tratais de me meter em outra? O casamento pesa no muito e descansa no pouco!
– A principal razão é teres sido tu o escolhido pela família da noiva – argumenta Zeimoto, disfarçando o sorriso, para não o agastar ainda mais. – Depois, António da Mota é casado, eu tenho a minha conversada em Liampó e o Cristóvão ainda não se refez da perda de Lijie. Portanto, sobras tu que és solteiro e.
– E vós credes que eu já não sinto nada por Meng? Tenho, por força, de me casar com uma gentia, de rosto caiado de alvaiade e dentes de carvão, para vos livrar de embaraços? O pai da moça só quer saber do fabrico da pólvora e dos arcabuzes, mas como não tem ânimo para nos perguntar, peita-nos com a filha. Puta que o pariu! Pois sabei que não me caso! – E repete, furioso, em língua chim para Wang Zhi entender: – Não me caso!
O rosto do capitão endurece, a sua voz soa fria como a lâmina da espada, em cujo punho enclavinha a mão:
– A ira queima o entendimento, senão veríeis que não casar está fora de questão. Kiyosada é um samurai, o principal armeiro do senhor de Tanegashima, que tudo fará para ter os seus próprios teppō. É o primeiro casamento de uma japoa com um chenchicogin, que se faz nesta nação, uma grande honra que vos concedem. Aceitai essa união porque, sendo vós mercador, os laços com essa família hão-de trazer-vos fortuna nos tempos próximos.
– Mandai dizer ao armeiro, pela alcoveta que trata deste negócio, que lhe ensinaremos a fazer as espingardas, sem que tenha de sacrificar a filha! – insiste Fernão, embora sabendo que está a falar para as orelhas moucas do corsário. – Ademais, escolheram mal o noivo, porque eu não conheço nemigalha do fabrico das armas ou da pólvora, apenas sei usá-las!
– Se os ofenderdes com a vossa recusa – retorque Zhi, como se não o tivesse ouvido –, pagaremos todos pela vossa falta e não mais poderemos volver aqui a fazer tratos, isto supondo que nos deixarão partir, em vez de abrasarem o junco e de nos massacrarem a todos para limpar a sua honra.
– Vossa mercê sabe que o capitão está certo – apoia António da Mota. – O casamento é feito pelos ritos gentios, por isso só terá valor aqui. Quanto à vossa esposa, quando partirmos, podereis deixá-la cá com a família ou levá-la e vendê-la mais tarde em qualquer porto, se a não quiserdes.
– O língua disse-nos que no Japão é frequente dar-se uma filha a alguém para pecar ou ganhar com ela – caçoa Zeimoto. – Sendo formosa, ainda te poderá valer em caso de necessidade, como sucede com muitos dos nossos em Goa, Malaca e outras partes quando a Fortuna não lhes sorri põem as suas bichas a render.
– Cuidais que sou algum alcaguete, para viver à custa de mulheres? – riposta em sanha.
Borralho lembra-lhe com uma ponta de ironia:
– Não costumas dizer que a vida é como cebola que se descasca chorando? Bebe mais umas taças de sake para afogar essas mágoas.
– Quem perde honra por negócio, perde o negócio e a honra – regouga Fernão, ripostando com outro refrão, já vencido.
Depois de beber várias taças de vinho aquecido, sente-se mais reconfortado. Peregrinava há já alguns anos pelo Oriente, tendo sofrido grande soma de reveses e tormentos, o que lhe permitia reconhecer de imediato uma situação delicada ou perigosa nos tratos com povos tão ciosos da sua honra que bastava a mais pequena acendalha para desencadear um incêndio de paixões que só terminaria quando tivessem lavado as ofensas com traição e sangue. Assim, não faria nada que pudesse pôr em risco a sua segurança e a dos cem companheiros, sujeitando-se a mais um desses entremezes com que os Fados o brindavam, de tempos a tempos, para o atormentarem.
– E vêm entregar-me a donzela, antes do casamento? – pergunta em língua chim; apesar de já ter muito visto, custava-lhe a crer no pouco valor em que se tinha a castidade das moças naquele lado do mundo.
– É um bom costume esse de dar a provar o doce, a ver se o freguês gosta.
Zeimoto não resistira a fazer o chiste brejeiro para desanuviar os ares carregados, arrancando uma gargalhada a Borralho e a Mota; Zhi arreganha os lábios num leve sorriso, por não entender o alcance da graça e Fernão mantém a cara de ferrabrás.
– Se assim é, ainda estou a tempo de arrepender-me e de dar o dito por não dito. – lança-lhes mordaz.
– De modo algum! – volve-lhe o corsário e a sua mão pousa displicente no copo da espada. – Sereis um noivo exemplar, meigo e galante como só os portugueses sabem ser, segundo afirmam as jaus, as chins, as índias e outras fêmeas do resto do mundo. No junco estareis a sós, mais à vossa guisa do que no templo, apenas com uma serva para preparar a comida e atender à vossa noiva, depois de sairmos. Passareis o dia e a noite juntos, a fim de vos conhecerdes, embora sem o auxílio de um língua.
– Tereis de vos contentar com a linguagem dos gestos. Espero que tu sejas um bom conversador, mesmo sem a dupla interpretação. – interrompe Zeimoto, provocando novos risos, acrescentando por entre gargalhadas: – Mas, se precisares, olha que eu não me importo de te servir de língua.
– A casamenteira disse que o compromisso será selado pela carta do dia seguinte, em que confirmareis o vosso agrado pela noiva e o casamento – conclui o corsário, quando os risos abrandam. – Sem isso, a família não poderá tratar da cerimónia. Para ganhar tempo, como não conheceis a língua, pedi ao monge tçuzzu que a escrevesse nos termos habituais. Aqui a tendes – estende a carta a Fernão que, de tão pasmado, a recebe sem dizer palavra. – Dos presentes para a noiva e seus pais me encarrego eu.
A novidade da carta do dia seguinte fechava a cadeado o colar de ferro que lhe tinham lançado ao pescoço, qual vítima de uma intriga, apanhada à traição e metida em cadeias, sem direito a apelação.
– Além do segredo da pólvora e das armas, que mais esperam de mim, a noiva e a família? – pergunta com ironia, num último assomo de brio. – E onde irei viver com a minha esposa?