CAPÍTULO QUINZE
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– Ei — murmura Christian baixinho e me puxa para junto de si —, por favor, não chore, Ana, por favor — implora.
Ele está no chão do banheiro, e estou em seu colo. Passo os braços ao redor dele e choro em seu pescoço. Murmurando suavemente junto ao meu cabelo, ele acaricia minhas costas e minha cabeça delicadamente.
— Desculpe, baby — sussurra, o que me faz chorar ainda mais e abraçá-lo com mais força.
Ficamos assim por uma eternidade. Até que, uma vez que já me acabei de tanto chorar, Christian se ergue, carregando-me em seu colo até o quarto, onde me coloca na cama. Em poucos segundos, está ao meu lado, e as luzes se apagam. Ele me puxa para junto de si, abraçando-me com força, e finalmente me arrasto para um sono sombrio e perturbado.
* * *
ACORDO NUM SOBRESSALTO. Estou tonta e com muito calor. Christian está agarrado a mim feito uma trepadeira. Ele resmunga, dormindo, assim que deslizo para fora de seus braços, mas não acorda. Sento-me na cama e olho para o despertador. São três da manhã. Preciso de um Advil e de alguma coisa para beber. Arrasto as pernas para fora da cama e caminho até a cozinha.
Encontro uma caixa de suco de laranja na geladeira e me sirvo de um copo. Hum... está delicioso, sinto um alívio imediato da tonteira. Vasculho os armários à procura de algum analgésico e, enfim, acho uma caixa de plástico cheia de remédios. Engulo dois comprimidos de Advil e bebo mais um copo de suco de laranja.
Caminhando para a imensa janela, observo a sonolenta Seattle. As luzes piscam sob o castelo de Christian nas alturas, ou devo dizer fortaleza? Pressiono a testa contra o vidro gelado: é um alívio. Tenho tanta coisa em que pensar depois de todas as revelações de ontem. Apoio-me de costas na janela e escorrego até o chão. A sala de estar parece cavernosa na escuridão, iluminada apenas pelas três lâmpadas acima da bancada da cozinha.
Será que eu conseguiria viver aqui, casada com Christian? Depois de tudo o que ele fez nesta casa? De toda a história deste lugar?
Casamento. É quase inacreditável, além de totalmente inesperado. Mas até aí, tudo a respeito de Christian é inesperado. Meus lábios se curvam num sorriso diante da ironia dessa realidade. Christian Grey: espere o inesperado —cinquenta tons de loucura.
Meu sorriso desaparece. Eu sou parecida com a mãe dele. Isso me magoa profundamente, e o ar me escapa dos pulmões. Todas nós somos parecidas com a mãe dele.
Como posso seguir em frente diante da revelação desse pequeno segredo? Agora sei por que ele não queria me dizer. Mas ele na certa não se lembra muito bem da mãe. Será que eu deveria conversar com o Dr. Flynn? Será que Christian deixaria? Talvez ele pudesse esclarecer algumas coisas.
Balanço a cabeça. Estou exausta, mas gosto da serenidade da sala de estar e de suas belas obras de arte: frias e austeras, mas ainda assim bonitas à sua maneira em meio à penumbra, e provavelmente bastante valiosas. Será que eu conseguiria morar aqui? Na alegria e na tristeza? Na saúde e na doença? Fecho os olhos, inclino a cabeça contra o vidro e inspiro fundo.
Minha tranquilidade é interrompida por um grito visceral e primitivo que faz cada pelo no meu corpo se arrepiar. Christian! Puta merda, o que aconteceu? Fico de pé e corro de volta para o quarto antes que os ecos daquele som horrível cessem, meu coração pulando de medo.
Ligo um dos interruptores, e a luz de cabeceira de Christian se acende. Ele está se revirando na cama, contorcendo-se de agonia. Não! Ele grita de novo, e o som misterioso e devastador me atravessa mais uma vez.
Merda, um pesadelo!
— Christian — debruço-me sobre ele, agitando-o pelos ombros, tentando acordá-lo.
Ele abre os olhos e, selvagens e vagos, eles percorrem depressa o quarto vazio antes de se voltarem para mim.
— Você foi embora, você foi embora, você só pode ter ido embora — murmura, e seus olhos arregalados se tornam acusatórios. Parece tão perdido que sinto um aperto no coração. Pobre Christian.
— Estou aqui. — Sento-me na cama ao seu lado. — Estou aqui — murmuro baixinho num esforço para tranquilizá-lo. Estico a mão, pousando-a na lateral de seu rosto, tentando acalmá-lo.
— Você não estava aqui — sussurra ele rapidamente. Seus olhos ainda estão selvagens e apavorados, mas ele parece estar se acalmando.
— Fui só beber alguma coisa. Estava com sede.
Ele fecha os olhos e esfrega o próprio rosto. Ao abri-los de novo, parece tão desolado.
— Você está aqui. Ah, graças a Deus. — Ele se aproxima de mim e me agarra forte, puxando-me para junto de si na cama.
— Fui só buscar uma bebida — murmuro.
Ah, a intensidade de seu medo... Posso senti-lo. Sua camiseta está encharcada de suor, e seu coração ainda pulsa forte enquanto ele me abraça apertado. Está me fitando, como se para se assegurar de que estou realmente aqui. Faço um carinho de leve em seu cabelo e depois em sua bochecha.
— Christian, por favor. Estou aqui. Não vou a lugar nenhum — digo com calma.
— Ah, Ana — suspira ele.
E então segura meu queixo para manter meu rosto firme, e sua boca cobre a minha. Sinto o desejo invadindo-o, e espontaneamente meu corpo corresponde: está tão conectado e em sintonia com o dele. Seus lábios estão em minha orelha, meu pescoço, e de volta em minha boca, os dentes suavemente puxando meu lábio inferior, a mão subindo pelo meu corpo desde o quadril até o peito, puxando a camiseta para cima. Acariciando-me, percorrendo as reentrâncias e as curvas de minha pele, provocando a mesma reação de sempre, seu toque enviando arrepios por todo o meu corpo. Ele segura meu seio, seus dedos apertando meu mamilo, e eu solto um gemido.
— Quero você — murmura.
— Estou aqui para você, Christian. Só para você.
Ele geme e me beija mais uma vez, apaixonadamente, com um fervor e um desespero que jamais transmitiu antes. Agarrando a bainha de sua camiseta, puxo-a para cima, e ele me ajuda a retirá-la por sobre sua cabeça. Ajoelhando-se entre minhas pernas, ele rapidamente me coloca sentada e arranca minha camiseta.
Seus olhos estão sérios, repletos de desejo e de segredos sombrios — já revelados. Ele segura meu rosto nas mãos e me beija, e nós dois afundamos de novo na cama, uma de suas coxas entre minhas pernas, de modo que ele está deitado com metade do corpo em cima de mim. Sua ereção está rígida contra meu quadril, por baixo da cueca. Ele me quer, mas suas palavras de hoje escolhem esse exato momento para me assombrar, as coisas que ele falou sobre sua mãe. E é como um balde de água fria na minha libido. Merda. Não posso fazer isso. Não agora.
— Christian... Pare. Não posso continuar — sussurro apressada contra sua boca, minhas mãos empurrando seus braços.
— O que foi? O que houve? — murmura e começa a beijar meu pescoço, correndo a ponta da língua levemente para baixo. Ah...
— Não, por favor. Não posso fazer isso, não agora. Preciso de um tempo, por favor.
— Ah, Ana, não pense demais — sussurra ele, mordendo de leve o lóbulo da minha orelha.
— Ah! — suspiro, sentindo a reação direto na virilha. Meu corpo se contorce, traindo-me. Estou tão confusa.
— Ainda sou eu, Ana, o mesmo eu. Eu amo você e preciso de você. Toque em mim. Por favor. — Ele esfrega o nariz no meu, e seu apelo silencioso e sincero me comove, e me derreto.
Tocá-lo. Tocá-lo enquanto fazemos amor. Deus do céu.
Ele se ergue em cima de mim, olhando para baixo, e, na meia-luz da lâmpada de cabeceira, sei que está esperando pela minha resposta, e que está sob o meu feitiço.
Ergo a mão e, com cuidado, coloco-a sobre a faixa macia de pelos em seu peito. Ele inspira e aperta os olhos como se sentisse dor, mas não retiro a mão. Levo-a até seus ombros, sentindo o tremor que o percorre. Ele geme, e eu o puxo para baixo, colocando as duas mãos sobre suas costas, onde nunca tinha tocado antes, em suas omoplatas, segurando-o junto de mim. Seu gemido reprimido me excita mais do que qualquer coisa.
Ele enterra a cabeça em meu pescoço, beijando-me e me chupando e me mordendo, e arrasta o nariz até meu queixo, e me beija, sua língua possuindo minha boca, suas mãos movendo-se sobre meu corpo novamente. Seus lábios vão descendo... descendo... até os meus seios, adorando-os, e minhas mãos permanecem sobre seu ombro e suas costas, deliciando-se com os músculos fortes flexionados, sua pele ainda úmida do pesadelo. Seus lábios se fecham sobre meu mamilo, puxando e apertando até ele se erguer em resposta à sua boca habilidosa.
Solto um gemido e corro as unhas ao longo de suas costas. Ele suspira, um gemido abafado.
— Puta merda, Ana — arqueja, meio gritando, meio gemendo.
Isso me parte o coração, mas também me atinge por dentro, contraindo todos os músculos abaixo da minha cintura. Ah, o que eu consigo fazer com ele! Fico ofegante, acompanhando sua respiração torturada com a minha própria.
Sua mão desce pelo meu corpo, ao longo de minha barriga até o meu sexo, e seus dedos estão em mim, dentro de mim. Solto um gemido à medida que ele os move daquele jeito, e elevo a pélvis para encorajar seu toque.
— Ana — suspira Christian.
De repente, ele me solta e se senta. Tira a cueca e se inclina até a mesa de cabeceira para pegar um envelopinho de papel laminado. Ao me passar o preservativo, seus olhos estão com uma tonalidade ardente de cinza.
— Você quer fazer isso? Você ainda pode dizer não. Você sempre pode dizer não — murmura.
— Não me dê a chance de pensar, Christian. Também quero você.
Rasgo o pacote com os dentes enquanto ele se ajoelha entre minhas pernas e, com dedos trêmulos, coloco a camisinha nele.
— Devagar — diz Christian. — Você vai me fazer gozar, Ana.
Fico maravilhada diante do que posso fazer com esse homem apenas com um toque. Ele se deita em cima de mim, e, ao menos nesse instante, as dúvidas são afastadas e trancafiadas nos confins sombrios e assustadores de minha mente. Estou intoxicada por esse homem, meu homem, meu Cinquenta Tons. Ele gira o corpo de repente, pegando-me completamente de surpresa, e me coloca por cima. Uau.
— Você. Faça você — murmura, os olhos brilhando com uma intensidade feroz.
Meu Deus. Devagar, bem devagar, eu o enterro dentro de mim. Ele joga a cabeça para trás e fecha os olhos, soltando um gemido. Pego suas mãos e começo a me mexer, deleitando-me na plenitude de minha posse, deleitando-me com sua reação, observando-o se desfazer embaixo de mim. Sinto-me como uma deusa. Debruço-me e beijo seu queixo, correndo os dentes ao longo de sua barba por fazer. Ele tem um gosto delicioso. Ele aperta meus quadris e estabiliza meu ritmo, um movimento lento e tranquilo.
— Ana, toque em mim... por favor.
Ah. Eu me inclino para a frente e me equilibro mantendo as mãos sobre seu peito. E ele grita, quase um soluço de choro, e mergulha bem fundo dentro de mim.
— Ah — solto um gemido e corro as unhas de leve sobre seu peito, por seus pelos, e ele geme alto e gira abruptamente, de forma que fico mais uma vez debaixo dele.
— Chega — ele arqueja. — Por favor, já chega. — E é um pedido sincero.
Erguendo as mãos, seguro seu rosto, sentindo a umidade em suas bochechas, e o puxo para junto de meus lábios para que possa beijá-lo. Fecho as mãos em suas costas.
Ele solta um gemido profundo e grave enquanto se mexe dentro de mim, empurrando-me para a frente e para cima, mas não consigo chegar lá. Minha cabeça está encoberta demais por problemas. Estou muito envolvida nele.
— Vamos, Ana — implora ele.
— Não.
— Sim — rosna.
E muda de posição suavemente, girando os quadris, de novo e de novo.
Minha nossa...
— Vamos, baby, eu preciso disso. Goze para mim.
E eu explodo, meu corpo escravo do dele, e me enrosco nele, agarrando-me ao seu corpo como uma trepadeira enquanto ele grita meu nome e atinge o orgasmo junto comigo, para então desmoronar, seu peso me pressionando contra o colchão.
* * *
EMBALO CHRISTIAN EM meus braços, sua cabeça em meu peito, enquanto permanecemos deitados, envolvidos pela sensação de satisfação. Corro os dedos por seu cabelo escutando sua respiração voltar ao normal.
— Nunca me deixe — sussurra ele, e eu reviro os olhos sabendo que ele não pode me ver. — Sei que você está revirando os olhos para mim — murmura, e posso ouvir o traço de humor em sua voz.
— Você me conhece bem — sussurro.
— Queria conhecer ainda mais.
— O mesmo vale para você, Grey. Sobre o que era o seu pesadelo?
— O de sempre.
— Conte para mim.
Ele engole em seco e fica tenso, antes de emitir um longo suspiro.
— Devo estar com uns três anos, e o cafetão da prostituta está enfurecido de novo. Ele fuma, um cigarro atrás do outro, e não consegue achar um cinzeiro. — Ele para, e sinto um aperto no coração, congelando por dentro. — Doeu muito — diz ele. — É da dor que eu me lembro. É o que me faz ter pesadelos. Isso, e o fato de que ela não fez nada para impedi-lo.
Ah, não. É insuportável. Aperto-o com força, minhas pernas e braços segurando-o junto a mim, e tento não deixar que meu desespero me sufoque. Como alguém poderia tratar uma criança assim? Ele levanta a cabeça e me encara com seu olhar intenso e cinzento.
— Você não é igual a ela. Nunca pense isso. Por favor.
Pisco para ele. É muito reconfortante ouvir isso. Ele coloca a cabeça de volta em meu peito, e acho que já terminou de contar tudo, mas me surpreende ao continuar.
— Às vezes, nos sonhos, ela está só lá deitada no chão. E eu acho que ela está dormindo. Mas ela não se mexe. Ela nunca se mexe. E eu estou com fome. Muita fome.
Ah, que merda.
— Então eu ouço um barulho alto e ele está de volta, e me bate com muita força, xingando a prostituta viciada. A primeira reação dele sempre foi a de usar os punhos ou o cinto.
— É por isso que você não gosta de ser tocado?
Ele fecha os olhos e me aperta com força.
— É complicado — murmura e enfia o rosto entre os meus seios, inspirando profundamente e tentando me distrair.
— Fale — peço.
Ele suspira.
— Ela não me amava. Eu não me amava. O único toque que eu conhecia era... doloroso. O problema nasceu aí. Flynn sabe explicar melhor do que eu.
— Posso conversar com Flynn?
Christian levanta a cabeça e me encara.
— Você está pegando a doença do Cinquenta Tons também, é?
— Nem lhe conto. Gosto de tudo que está pegando em mim neste instante — remexo-me provocativamente debaixo dele, e ele sorri.
— Ah, Srta. Steele, eu também gosto disso. — Ele se inclina para cima e me beija. E então, me encara por um momento. — Você é tão importante para mim, Ana. Eu estava falando sério sobre me casar com você. A gente pode se conhecer melhor depois. Eu posso cuidar de você. Você pode cuidar de mim. A gente pode ter filhos, se você quiser. Vou colocar o meu mundo a seus pés, Anastasia. Quero você de corpo e alma, para sempre. Por favor, pense nisso.
— Vou pensar, Christian. Vou pensar — tranquilizo-o, recuperando mais uma vez o fôlego. Filhos? Nossa. — Mas eu realmente queria falar com o Dr. Flynn, se você não se importar.
— Qualquer coisa para você, baby. Qualquer coisa. Quando você gostaria de vê-lo?
— Quanto antes melhor.
— Certo. Amanhã de manhã eu resolvo isso. — Ele olha para o relógio. — Está tarde. É melhor a gente dormir. — Ele se estica para desligar a lâmpada da cabeceira e me puxa para junto de si.
Olho para o despertador. Merda, já são três e quarenta e cinco.
Ele me envolve em seus braços, minhas costas em seu peito, e mergulha o rosto em meu pescoço.
— Eu amo você, Ana Steele, e quero você ao meu lado, para sempre — murmura, beijando meu pescoço. — Agora durma.
Fecho os olhos.
* * *
RELUTANTE, ABRO MINHAS pálpebras pesadas, e a claridade invade o quarto. Solto um gemido. Sinto-me tonta, desconectada de meus membros de chumbo, e Christian está enrolado em torno de mim feito hera. Como de costume, está muito quente. Não pode ser mais do que cinco da manhã, o alarme ainda não tocou. E estico-me, tentando me libertar de seu calor, girando-me dentro de seus braços, e ele murmura algo ininteligível em seu sono. Olho para o relógio: oito e quarenta e cinco.
Merda, vou chegar atrasada. Cacete. Arrasto-me para fora da cama e corro para o banheiro. Tomo banho em quatro minutos, e já estou de volta ao quarto.
Christian se senta na cama, observando-me com um divertimento mal disfarçado, misturado com cautela, enquanto eu me seco e pego minhas roupas. Talvez ele esteja esperando para ver qual será a minha reação às revelações de ontem. Agora, eu simplesmente não tenho tempo.
Dou uma checada nas roupas que escolhi: calça preta, camisa preta. Tudo meio Mrs. Robinson demais, mas não tenho um segundo para mudar de ideia. Visto a calcinha e o sutiã pretos, consciente de que ele está assistindo a cada movimento meu. É... irritante. Vai ter que ser essa calcinha e esse sutiã mesmo.
— Você está bonita — ronrona Christian da cama. — Sabe, você pode ligar e dizer que está doente. — Ele me lança seu sorriso torto e devastador, cento e cinquenta por cento capaz de deixar minha calcinha molhada.
Ah, ele é tão tentador. Minha deusa interior faz beicinho provocantemente para mim.
— Não, Christian, eu não posso. Não sou uma CEO megalomaníaca com um sorriso bonito e que goza de total liberdade.
— Eu gosto de gozar em total liberdade... — Ele sorri e abre um pouco mais seu maravilhoso sorriso, um exemplar em alta definição, versão cinematográfica.
— Christian! — chamo sua atenção e jogo a toalha para ele, e ele ri.
— Sorriso bonito, é?
— É. Você sabe o efeito que tem sobre mim. — Coloco meu relógio de pulso.
— Sei, é? — Ele pisca inocentemente.
— Sim, sabe. O mesmo efeito que produz em todas as mulheres. É realmente muito cansativo ver todas elas desfalecendo por você.
— Ah, é? — Ele ergue a sobrancelha para mim, parecendo ainda mais entretido.
— Não banque o inocente, Sr. Grey, isso não combina nada com você — murmuro distraída ao puxar o cabelo num rabo de cavalo e calçar meus sapatos pretos de salto alto. Pronto, isso vai servir.
Quando me abaixo para lhe dar um beijo de despedida, ele me agarra e me puxa para a cama, inclinando-se sobre mim e sorrindo de orelha a orelha. Meu Deus. Ele é tão bonito: os olhos brilhando de malícia, o cabelo despenteado de quem acabou de transar de novo, o sorriso deslumbrante. Agora está em modo brincalhão.
Estou cansada, ainda tentando me recuperar de todas as revelações de ontem à noite, mas ele está novo em folha e sexy para cacete. Ah, meu exasperante Christian.
— O que posso fazer para convencê-la a ficar? — diz ele em voz baixa, e meu coração se acelera, batendo agitado. Ele é a tentação em pessoa.
— Nada — resmungo, esforçando-me para me sentar. — Me solte.
Ele faz beicinho, e eu desisto. Sorrindo, passo meus dedos por sobre seus lábios bem desenhados: meu Cinquenta Tons. Amo tanto esse homem, com toda a sua monumental maluquice. Nem sequer comecei a processar os eventos de ontem e como me sinto em relação a eles.
Eu me inclino para beijá-lo, grata por ter escovado os dentes. Ele me dá um beijo forte e longo, e, em seguida, coloca-me de pé com agilidade, deixando-me atordoada, sem fôlego e um tanto vacilante.
— Taylor vai levar você. É mais rápido do que procurar um lugar para estacionar. Ele está esperando fora do prédio — diz, gentilmente, e parece aliviado.
Será que está preocupado com a minha reação de hoje? Certamente a noite passada — digo, esta manhã — mostrou a ele que não vou fugir.
— Certo. Obrigada — resmungo, decepcionada por estar de pé novamente, confusa por sua hesitação e vagamente irritada por mais uma vez não poder dirigir meu Saab. Mas ele tem razão, é claro, vai ser muito mais rápido ir com Taylor. — Aproveite sua manhã preguiçosa, Sr. Grey. Queria poder ficar, mas o dono da empresa em que trabalho não aprovaria que seus funcionários faltassem só por causa de um sexo gostoso. — Pego minha bolsa.
— Pessoalmente, Srta. Steele, não tenho dúvida alguma de que ele aprovaria. Na verdade, acho que ele insistiria por isso.
— Por que você vai ficar aí na cama? Não é muito a sua cara.
Ele cruza as mãos atrás da cabeça e sorri para mim:
— Porque eu posso, Srta. Steele.
Balanço a cabeça para ele:
— Até mais, baby. — Sopro um beijo e saio do quarto.
* * *
TAYLOR ESTÁ ESPERANDO por mim e parece entender que estou atrasada, porque corre feito um morcego saído do inferno, deixando-me no trabalho às nove e quinze. Fico aliviada quando ele encosta o carro junto ao meio-fio: aliviada por estar viva... o jeito como estava dirigindo era assustador. E aliviada por não estar terrivelmente atrasada, apenas quinze minutos.
— Obrigada, Taylor — murmuro, pálida. Eu me lembro de Christian me dizendo que ele dirigia tanques; talvez também carros de corrida.
— Ana. — Ele acena e se despede, e eu corro para o escritório, percebendo ao abrir a porta da recepção que Taylor parece ter superado a formalidade do “Srta. Steele”. Isso me faz sorrir.
Claire sorri para mim enquanto passo pela recepção e sigo até minha mesa.
— Ana! — Jack me chama. — Venha aqui.
Merda.
— Que horas são essas? — atira ele.
— Sinto muito. Perdi a hora. — Fico vermelha.
— Não deixe que isso aconteça de novo. Traga um café para mim, e depois preciso que você digite umas cartas. Depressa — grita, fazendo-me encolher.
Por que está tão bravo? Qual é o problema? O que eu fiz? Corro para a cozinha para preparar o café. Talvez eu devesse ter faltado. Eu poderia estar... bem, fazendo algo divertido com Christian, ou tomando café da manhã com ele, ou simplesmente conversando, o que seria uma novidade.
Jack mal se dá conta da minha presença quando me aventuro de volta na sua sala para lhe entregar o café. Ele estica uma folha de papel na minha direção: está manuscrita num garrancho quase ilegível.
— Digite isto, traga aqui para eu assinar, tire xerox e envie para todos os nossos autores.
— Sim, Jack.
Ele não ergue o olhar quando saio da sala. Nossa, está mesmo com raiva.
É com algum alívio que finalmente sento à minha mesa. Tomo um gole de chá enquanto espero meu computador terminar de ligar. Abro meus e-mails.
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De: Christian Grey
Assunto: Sentindo sua falta
Data: 15 de junho de 2011 09:05
Para: Anastasia Steele
Por favor use o seu BlackBerry.
Bj,
Christian Grey
CEO, Grey Enterprises Holdings, Inc.
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De: Anastasia Steele
Assunto: Gente de sorte
Data: 15 de junho de 2011 09:27
Para: Christian Grey
Meu chefe está uma arara.
A culpa é sua por ter me segurado até tarde com as suas... travessuras.
Você devia se envergonhar.
Anastasia Steele
Assistente de Jack Hyde, Editor, SIP
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De: Christian Grey
Assunto: Travessuras?
Data: 15 de junho de 2011 09:32
Para: Anastasia Steele
Você não precisa trabalhar, Anastasia.
Você não tem ideia de como estou chocado com minhas próprias travessuras.
Mas gosto de fazê-la ficar acordada até tarde ;)
Por favor, use seu BlackBerry.
Ah, e case-se comigo, por favor.
Christian Grey
CEO, Grey Enterprises Holdings, Inc.
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De: Anastasia Steele
Assunto: Meu ganha-pão
Data: 15 de junho de 2011 09:35
Para: Christian Grey
Sei que sua tendência natural é ficar insistindo, mas pode ir parando.
Preciso falar com seu psicólogo.
Só então vou dar minha resposta.
Não sou contra continuar vivendo em pecado.
Anastasia Steele
Assistente de Jack Hyde, Editor, SIP
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De: Christian Grey
Assunto: BLACKBERRY
Data: 15 de junho de 2011 09:40
Para: Anastasia Steele
Anastasia, se é para começar a falar do Dr. Flynn, então USE O SEU BLACKBERRY.
Não estou pedindo.
Christian Grey
Um CEO fulo da vida, Grey Enterprises Holdings, Inc.
Ah, merda. Agora ele está bravo comigo. Bem, por mim ele pode cozinhar em fogo brando. Pego o BlackBerry da bolsa e olho para ele com ceticismo. No mesmo instante, começa a tocar. Será que ele não consegue me deixar em paz por um minuto?
— Sim? — atendo, irritada.
— Ana, oi.
— José! Tudo bem? — Ah, é bom ouvir sua voz.
— Estou bem, Ana. Olhe, você ainda está saindo com aquele tal de Grey?
— Hum, estou... Por quê? — Aonde ele quer chegar com isso?
— Bem, ele comprou todas as suas fotos, e pensei em ir até Seattle para entregá-las. A exposição termina na quinta, então posso passar aí na sexta à noite. E talvez a gente pudesse beber alguma coisa ou algo assim. Na verdade, eu estava esperando descolar um lugar para dormir também.
— Legal, José. Claro, com certeza a gente pode marcar alguma coisa. Vou falar com Christian e ligo de volta para você, tudo bem?
— Beleza, fico esperando. Tchau, Ana.
— Tchau.
E ele desliga. Nossa mãe. Não tenho notícias de José desde a exposição. Nem sequer perguntei como foi ou se ele vendeu mais alguma foto. Que bela amiga eu sou.
Então, eu poderia sair na sexta à noite com José. O que Christian acharia disso? De repente, reparo que estou mordendo o lábio com tanta força que dói. Ah, aquele sujeito tem dois pesos e duas medidas. Ele pode — e tremo só de pensar no assunto — dar banho na maluca da ex-amante dele, mas provavelmente vai pirar se eu quiser sair para tomar um drinque com José. Como vou lidar com isso?
— Ana! — Jack me arranca de meu devaneio. Ele ainda está com raiva? — Cadê a carta?
— Hum, quase pronta. — Merda. Qual o problema dele hoje?
Digito a carta o mais rápido que posso, imprimo e, nervosa, caminho até sua sala.
— Aqui está. — Coloco a folha em sua mesa e me viro para sair. Jack examina o documento de relance com seus olhos críticos e penetrantes.
— Não sei o que você faz fora daqui, mas eu pago você para trabalhar — grita ele.
— Sei disso, Jack — murmuro, em tom de desculpa. Sinto o meu rosto corar lentamente.
— Está cheio de erros — resmunga ele. — Faça de novo.
Droga. Ele está começando a soar como alguém que eu conheço; no entanto, a grosseria de Christian eu posso tolerar. Jack já está começando a me irritar.
— E me traga outro café, enquanto isso.
— Desculpe — sussurro e corro para fora de sua sala o mais rápido que posso.
Deus do céu. Ele está insuportável. Volto para minha mesa, corrijo com pressa a carta, que tinha dois erros, e verifico o texto inteiro antes de imprimir. Agora está perfeito. Pego mais um café, indicando a Claire com um revirar de olhos que estou na merda hoje. Respiro fundo e entro na sala dele de novo.
— Melhor — murmura ele com relutância ao assinar a carta. — Tire xerox disso, arquive o original e mande as cópias para todos os autores. Entendeu?
— Certo. — Não sou uma idiota. — Jack, aconteceu alguma coisa?
Ele ergue o rosto, seus olhos azuis escurecendo à medida que correm meu corpo de cima a baixo. Um arrepio me atravessa a espinha.
— Não.
Sua resposta é curta e grossa, cheia de desdém. E eu permaneço ali, feito a idiota que eu disse que não era, até que deixo a sala. Talvez ele também sofra de algum transtorno de personalidade. Nossa, estou cercada. Sigo até a copiadora, que, naturalmente, resolveu engolir o papel. Quando consigo consertá-la, descubro que o papel acabou. Realmente não é o meu dia.
Quando finalmente retorno à minha mesa e começo a colocar as cartas nos envelopes, meu BlackBerry vibra. Posso ver pela parede de vidro que Jack está ao telefone. Atendo: é Ethan.
— Oi, Ana. Como foi ontem à noite?
Ontem à noite. Uma sequência rápida de imagens cruza a minha mente: Christian de joelhos, sua revelação, seu pedido de casamento, macarrão com queijo, o tanto que chorei, o pesadelo dele, o sexo, tocar seu corpo...
— Hum... tudo bem — murmuro, pouco convincente.
Ethan faz uma pausa e então decide me acompanhar em minha encenação.
— Legal. Posso passar aí para pegar as chaves?
— Claro.
— Passo aí daqui a meia hora. Você vai ter tempo para tomar um café?
— Hoje não. Cheguei atrasada, e meu chefe está bravo feito um urso com dor de cabeça e urtiga na bunda.
— Parece ruim.
— Ruim e feio. — Dou uma risadinha.
Ethan ri e meu humor melhora um pouco.
— Certo. A gente se vê em trinta minutos. — Ele desliga.
Ergo a cabeça e vejo que Jack está olhando para mim. Ah, merda. Decido ignorá-lo e continuo a colocar as cartas nos envelopes.
Meia hora depois, meu telefone toca. É Claire.
— Ele está aqui de novo, na portaria. O deus louro.
É uma alegria ver Ethan depois de toda a angústia de ontem e de todo o mau humor do meu chefe hoje, mas logo ele está indo embora.
— Será que a gente se vê hoje à noite?
— Provavelmente vou ficar com Christian. — Fico vermelha.
— Esse cara pegou você de jeito, hein? — Ethan observa com bom humor.
Dou de ombros. Ah, é muito mais do que isso, e, neste momento, percebo como ele me pegou de jeito mesmo. E para a vida toda. E, surpreendentemente, Christian parece sentir o mesmo. Ethan me dá um abraço rápido.
— Até mais, Ana.
Volto para minha mesa, lutando contra essa constatação. Ah, o que eu não faria por um dia sozinha, para poder pensar em tudo isso.
— Onde você se meteu? — Jack de repente está pairando diante de mim.
— Tive que cuidar de uns assuntos na portaria. — Ele está realmente me dando nos nervos.
— Quero meu almoço. O de sempre — diz abruptamente e volta para sua sala.
Por que não fiquei em casa com Christian? Minha deusa interior cruza os braços e comprime os lábios, ela também quer uma resposta para essa pergunta. Pegando minha bolsa e meu BlackBerry, corro para a porta e verifico meus e-mails.
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De: Christian Grey
Assunto: Sentindo sua falta
Data: 15 de junho de 2011 09:06
Para: Anastasia Steele
Minha cama é grande demais sem você.
Parece que vou ter que trabalhar, afinal de contas.
Até mesmo CEOs megalomaníacos precisam de alguma coisa para fazer.
Bj,
Christian Grey
Um CEO entediado, Grey Enterprises Holdings, Inc.
E logo em seguida, mais um, enviado um pouco mais tarde, esta manhã:
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De: Christian Grey
Assunto: Um pouco de discrição...
Data: 15 de junho de 2011 09:50
Para: Anastasia Steele
...não faz mal a ninguém.
Por favor, seja discreta... seus e-mails do trabalho são monitorados.
QUANTAS VEZES TENHO QUE DIZER ISSO?
Sim, maiúsculas gritantes, como você diz. USE SEU BLACKBERRY.
Temos uma consulta com o Dr. Flynn amanhã à noite.
Bj,
Christian Grey
Um CEO ainda fulo da vida, Grey Enterprises Holdings, Inc.
E mais um ainda, de mais tarde. Ah, não.
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De: Christian Grey
Assunto: Cri, cri, cri...
Data: 15 de junho de 2011 12:15
Para: Anastasia Steele
Você não me responde.
Por favor, diga que está tudo bem.
Você sabe como eu me preocupo.
Vou mandar Taylor até aí para verificar!
Bj,
Christian Grey
Um CEO muito ansioso, Grey Enterprises Holdings, Inc.
Reviro os olhos e ligo para ele. Não quero que se preocupe.
— Telefone de Christian Grey, Andrea Parker falando.
Ah. Fico tão desconcertada que não tenha sido Christian quem atendeu que paro no meio da rua, e o jovem atrás de mim resmunga com raiva ao ter que desviar para não esbarrar em mim. Estou de pé sob o toldo verde da lanchonete.
— Alô? Posso ajudar? — Andrea preenche o silêncio incômodo.
— Desculpe... Hum... Eu estava querendo falar com Christian.
— O Sr. Grey está numa reunião neste momento — responde ela com eficiência. — Gostaria de deixar algum recado?
— Você pode dizer a ele que a Ana ligou?
— Ana? Anastasia Steele?
— Hum... Isso. — A pergunta me deixa confusa.
— Só um instante, por favor, Srta. Steele.
Ouço com atenção ela afastar o telefone, mas não consigo entender bem o que está acontecendo. Poucos segundos depois, Christian está na linha:
— Você está bem?
— Sim, estou ótima.
Ele solta o ar, aliviado.
— Christian, por que eu não estaria bem? — sussurro de um jeito tranquilizador.
— Você sempre responde meus e-mails tão depressa. Depois de tudo que eu falei ontem à noite, estava preocupado — diz calmamente, e depois ele fala com alguém em seu escritório: — Não, Andrea. Diga a eles para esperarem — diz com firmeza. Ah, conheço esse tom de voz. Não posso ouvir a resposta de Andrea. — Não. Eu disse para esperar — responde ele.
— Christian, obviamente você está ocupado. Só estou ligando para que você saiba que está tudo bem, de verdade. Só estou muito ocupada hoje. Jack está me comendo no chicote. Hum... quero dizer... — Fico vermelha e me calo.
Christian não responde por um minuto.
— Comendo você no chicote, é? Bem, houve uma época em que eu o teria achado um cara de sorte. — Sua voz é cheia de ironia. — Não o deixe ficar por cima, baby.
— Christian! — repreendo-o e sei que ele está sorrindo.
— Só fique de olho nele. Que bom que você está bem. A que horas posso buscar você?
— Eu mando um e-mail.
— Do BlackBerry — diz ele com firmeza.
— Sim, senhor — revido.
— Até mais, baby.
— Até...
Ele ainda está no telefone.
— Ande, desligue — brigo com ele, sorrindo.
Ele solta um suspiro profundo sobre o fone.
— Queria que você não tivesse saído para trabalhar hoje de manhã.
— Eu também. Mas estou ocupada. Desligue.
— Desligue você. — Ouço seu sorriso. Ah, o Christian brincalhão. Amo o Christian brincalhão. Hum... Amo Christian, ponto.
— A gente já teve essa conversa.
— Você está mordendo o lábio.
Merda, ele tem razão. Como ele sabe?
— Sabe, Anastasia, você acha que eu não conheço você. Mas eu a conheço melhor do que pensa — murmura ele daquele jeito sedutor que me deixa fraca, e molhada.
— Christian, a gente conversa mais tarde. Neste instante, eu também realmente gostaria de não ter saído hoje de manhã.
— Fico esperando seu e-mail, Srta. Steele.
— Tenha um bom dia, Sr. Grey.
Desligo o telefone e me apoio na vitrine fria e dura da lanchonete. Meu Deus, ele me domina até pelo telefone. Balanço a cabeça para afastar qualquer pensamento a respeito de Grey e entro na lanchonete, deprimida pela simples ideia de voltar para o Jack.
* * *
QUANDO RETORNO, ele está de cara feia.
— Tudo bem se eu sair para almoçar agora? — pergunto com cuidado.
Ele ergue o olhar para mim e faz uma cara ainda mais feia.
— Se for necessário — resmunga. — Quarenta e cinco minutos. Para compensar o tempo que você perdeu hoje de manhã.
— Jack, posso lhe fazer uma pergunta?
— O quê?
— Você parece meio nervoso hoje. Eu fiz alguma coisa que o ofendeu?
Ele pisca para mim por um instante.
— Acho que não estou no clima para listar os seus pequenos delitos agora. Estou ocupado. — E volta a olhar para o monitor, claramente indicando que devo me retirar.
Uau... O que foi que eu fiz?
Viro-me e deixo sua sala e, por um minuto, acho que vou chorar. Por que ele criou uma aversão tão súbita e intensa por mim? Uma ideia muito desagradável surge em minha cabeça, mas eu a ignoro. Não preciso dessa merda agora. Já tenho o suficiente com que me preocupar.
Saio do prédio e caminho até a Starbucks mais próxima, peço um café com leite e me sento junto à janela. Tiro o iPod da bolsa e coloco os fones de ouvido. Escolho uma música ao acaso e aperto “repeat” para que ela não pare de tocar. Preciso de um pouco de música para pensar.
Minha mente voa. Christian, o sádico. Christian, o submisso. Christian, o intocável. Os impulsos edipianos de Christian. Christian dando banho em Leila. Solto um gemido e fecho os olhos enquanto a última imagem me assombra.
Posso mesmo me casar com esse homem? Ele é muita coisa para assimilar. É complexo e difícil, mas no fundo sei que não quero deixá-lo, apesar de todos os seus problemas. Nunca poderia deixá-lo. Amo Christian. Seria como cortar meu braço direito fora.
Nunca me senti assim tão viva como agora. Desde que o conheci, experimentei todos os tipos de sentimentos profundos e assombrosos, e de novas experiências. Com Christian, não existe o tédio.
Revendo minha vida antes dele, é como se tudo tivesse sido em preto e branco, como nas fotos de José. Agora meu mundo inteiro está a cores, e elas são ricas, vivas e saturadas. Estou planando em um raio de luz deslumbrante, a luz ofuscante de Christian. Ainda sou Ícaro, voando perto demais do sol. Rio de mim mesma. Voar com Christian: quem poderia resistir a um homem que pode voar?
Posso desistir dele? Quero desistir dele? É como se ele tivesse ligado um interruptor e me acendido por dentro. Conhecê-lo tem sido um aprendizado. Descobri mais sobre mim nas últimas semanas do que jamais soube em toda a minha vida. Aprendi sobre o meu corpo, meus limites rígidos, meus limites brandos, minha tolerância, minha paciência, minha compaixão e minha capacidade de amar.
E então o pensamento me acerta como se fosse um raio. É disso que ele precisa de mim, é a isso que ele tem direito: amor incondicional. Ele nunca o recebeu da prostituta viciada. É disso que ele precisa. Posso amá-lo incondicionalmente? Posso aceitá-lo pelo que ele é apesar de suas revelações na noite passada?
Sei que ele é problemático, mas não acho que seja irrecuperável. Suspiro, lembrando-me das palavras de Taylor: “Ele é um homem bom, Srta. Steele.”
Já tive provas cabais de sua bondade: o trabalho de caridade que ele desempenha, a ética com que conduz seus negócios, sua generosidade. E, ainda assim, ele não a enxerga por si só. Acha que não merece ser amado. Tendo em vista seu passado e suas predileções, tenho uma ideia do desprezo que ele tem por si próprio — é por isso que ele nunca se abriu para ninguém. Será que consigo ultrapassar essa barreira?
Certa vez ele me disse que eu não poderia sequer começar a entender as profundezas de sua depravação. Bem, agora ele já me contou, e, dados os primeiros anos de sua vida, não me surpreende... embora ainda tenha sido um choque ouvir aquilo em voz alta. Pelo menos ele me contou... e parece mais feliz agora. Já sei de tudo.
Será que isso desvaloriza o seu amor por mim? Não, acho que não. Ele nunca sentiu isso antes, e nem eu. Nós dois evoluímos muito.
Lágrimas enchem meus olhos e os fazem arder à medida que me recordo das barreiras finais desmoronando na noite passada, no momento em que ele me deixou tocá-lo. E foi preciso que Leila e toda a sua loucura aparecessem para nos conduzir até esse ponto.
Talvez eu devesse me sentir agradecida. O fato de que ele deu banho nela já não me deixa com um gosto tão amargo na boca. Eu me pergunto que roupas ele lhe deu. Espero que não tenha sido o vestido ameixa. Gostava dele.
Então, posso amar esse homem com todos os seus problemas de forma incondicional? Porque ele não merece nada menos do que isso. Ele ainda precisa aprender a ter limites e outros detalhes, como empatia, e a ser menos controlador. Ele diz que já não sente mais vontade de me machucar; talvez o Dr. Flynn seja capaz de lançar alguma luz sobre isso.
Basicamente, isto é o que mais me preocupa: que ele precise disso e que sempre tenha encontrado mulheres como ele, que também precisam disso. Franzo a testa. Sim, é dessa segurança que eu preciso. Quero ser todas as coisas para esse homem, o alfa e o ômega e tudo que existe entre um e outro, porque ele é tudo para mim.
Espero que Flynn possa me dar algumas respostas, e talvez aí eu possa dizer sim. E Christian e eu possamos encontrar a nossa própria fatia de paraíso junto ao sol.
Olho lá fora, para a Seattle apressada em sua hora de almoço. Sra. Christian Grey. Quem diria? Fito o relógio. Merda! Pulo da cadeira e corro para a porta. Uma hora inteira sentada ali, para onde foi o tempo? Jack vai pirar!
* * *
ME ESGUEIRO DE VOLTA para minha mesa. Por sorte, ele não está em sua sala. Parece que escapei dessa vez. Encaro meu monitor sem de fato enxergá-lo, tentando reorganizar meus pensamentos e me focar no trabalho.
— Onde você estava?
Dou um pulo. Jack está de pé atrás de mim, de braços cruzados.
— Estava no subsolo, tirando xerox — minto.
Jack aperta os lábios numa linha fina e intransigente.
— Vou sair para o aeroporto às seis e meia. Preciso que você fique aqui até a hora em que eu for embora.
— Tudo bem. — Abro o sorriso mais doce que sou capaz de produzir.
— Quero dez cópias do meu roteiro em Nova York. E empacote as brochuras. E me traga um café! — rosna ele e volta para sua sala.
Solto um suspiro de alívio e dou a língua para ele enquanto ele fecha a porta atrás de si. Filho da mãe.
* * *
ÀS QUATRO HORAS da tarde, Claire me liga da recepção.
— Tem uma Mia Grey no telefone para você.
Mia? Espero que ela não queira fazer compras.
— Oi, Mia!
— Ana, oi. Como vai? — Seu entusiasmo é sufocante.
— Bem. Ocupada, hoje. E você?
— Estou tão entediada! Precisava achar alguma coisa para fazer, por isso resolvi organizar uma festa de aniversário para o Christian.
Aniversário do Christian? Puxa, eu não tinha ideia.
— Quando é?
— Eu sabia. Eu sabia que ele não iria contar. É no sábado. Mamãe e papai chamaram todo mundo para um jantar de comemoração. Estou oficialmente convidando você.
— Ah, que ótimo. Obrigada, Mia.
— Já liguei para o Christian e disse a ele, e ele me deu o seu número daí.
— Legal.
Minha mente está dando voltas — que diabo posso dar para Christian de aniversário? O que comprar para um homem que já tem tudo?
— E quem sabe a gente não possa almoçar na semana que vem?
— Claro. Que tal amanhã? Meu chefe vai estar em Nova York a trabalho.
— Ah, isso seria legal, Ana. Que horas?
— Quinze para uma?
— Estarei aí. Tchau, Ana.
— Tchau — desligo.
Christian. Aniversário. Que diabo eu compro para ele?
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De: Anastasia Steele
Assunto: Antediluviano
Data: 15 de junho de 2011 16:11
Para: Christian Grey
Prezado Sr. Grey,
Quando exatamente você ia me contar?
O que eu devo comprar para o meu velho de aniversário?
Quem sabe baterias novas para o aparelho de surdez?
Bj,
Anastasia Steele
Assistente de Jack Hyde, Editor, SIP
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De: Christian Grey
Assunto: Pré-histórico
Data: 15 de junho de 2011 16:20
Para: Anastasia Steele
Não zombe dos idosos.
Que bom saber que você está bem.
E que Mia entrou em contato.
Baterias novas são sempre úteis.
Não gosto de comemorar meu aniversário.
Bj,
Christian Grey
Um CEO surdo como uma porta, Grey Enterprises Holdings, Inc.
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De: Anastasia Steele
Assunto: Huuuum
Data: 15 de junho de 2011 16:24
Para: Christian Grey
Prezado Sr. Grey,
Posso até vê-lo fazendo beicinho ao escrever essa última frase.
Você sabe o efeito que isso tem em mim.
Bjs,
Anastasia Steele
Assistente de Jack Hyde, Editor, SIP
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De: Christian Grey
Assunto: Revirar de olhos
Data: 15 de junho de 2011 16:29
Para: Anastasia Steele
Srta. Steele,
SERÁ QUE DÁ PARA USAR O SEU BLACKBERRY?
Bj,
Christian Grey
Um CEO com a mão coçando, Grey Enterprises Holdings, Inc.
Reviro os olhos. Por que ele é tão sensível a respeito dos e-mails?
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De: Anastasia Steele
Assunto: Inspiração
Data: 15 de junho de 2011 16:33
Para: Christian Grey
Prezado Sr. Grey,
Ah... essas mãos não se aguentam paradas por muito tempo, não é?
Eu me pergunto o que o Dr. Flynn diria sobre isso?
Mas agora, já sei o que dar a você de aniversário — e espero ficar bem dolorida...
;)
Um bj.
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De: Christian Grey
Assunto: Crise de angina
Data: 15 de junho de 2011 16:38
Para: Anastasia Steele
Srta. Steele,
Não acho que meu coração poderia suportar a tensão de mais um e-mail desses — nem a minha calça, diga-se de passagem.
Comporte-se.
Bj,
Christian Grey
CEO, Grey Enterprises Holdings, Inc.
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De: Anastasia Steele
Assunto: Estou tentando
Data: 15 de junho de 2011 16:42
Para: Christian Grey
Christian,
Estou tentando trabalhar, e meu chefe está impossível.
Por favor, pare de me atrapalhar e de ser você também tão impossível.
Seu último e-mail quase me fez entrar em combustão.
Bj,
PS: Você pode me buscar às seis e meia?
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De: Christian Grey
Assunto: Estarei aí
Data: 15 de junho de 2011 16:47
Para: Anastasia Steele
Nada me daria mais prazer.
Na verdade, posso pensar numa série de coisas que me dariam mais prazer, e todas elas envolvem você.
Bj,
Christian Grey
CEO, Grey Enterprises Holdings, Inc.
Fico vermelha ao ler sua resposta e balanço a cabeça. Implicar um com o outro por e-mail é muito legal e tal, mas a gente precisa mesmo conversar. Talvez depois da consulta com Flynn. Guardo o BlackBerry e termino o relatório de fluxo de caixa.
* * *
ÀS SEIS E QUINZE, o escritório está vazio. Estou com tudo pronto para Jack. O táxi para o aeroporto já está marcado, e só preciso entregar a ele os documentos que ele precisa levar. Olho ansiosamente pelo vidro da sala dele, mas Jack ainda está absorto num telefonema, e não quero interrompê-lo — não com o humor em que está hoje.
Enquanto espero que ele desligue, me dou conta de que não comi nada durante o dia todo. Ah, merda, Christian não vai gostar disso. Corro até a cozinha para ver se sobrou algum biscoito.
Assim que abro o pote comunitário, Jack aparece do nada na porta da cozinha, dando-me um susto.
Ei. O que ele está fazendo aqui?
Jack me encara.
— Bem, Ana, acho que agora pode ser uma boa hora para discutir os seus pequenos delitos. — Ele entra na cozinha, fechando a porta atrás de si, e no mesmo instante minha boca fica seca e minha cabeça começa a latejar diante dos sinais de perigo.
Ah, merda.
Ele contrai os lábios num sorriso grotesco, e seus olhos brilham com intensidade, um azul-cobalto bem escuro.
— Finalmente tenho você sozinha — diz ele, lambendo lentamente o lábio inferior.
O quê?
— E então, você vai ser boazinha e ouvir com muita atenção o que eu tenho a dizer?