CAPÍTULO 5
A DROGA MAIS PODEROSA DE TODAS
O banco de investimentos Stratton Oakmont ocupava o primeiro andar de um espichado prédio comercial de vidro preto, que se erguia sobre o centro lamacento de um velho pântano de Long Island. Na verdade, não era tão ruim como soava. A maior parte do velho pântano fora recuperada no começo dos anos 1980 e ostentava agora um complexo de escritórios de primeira linha com um estacionamento enorme e uma garagem subterrânea de três níveis, onde os corretores da Stratton faziam coffee-breaks no meio da tarde e transavam com um esquadrão feliz de prostitutas.
Hoje, assim como todos os dias, paramos no prédio comercial em que eu me sentia inflar de orgulho. O vidro preto espelhado brilhava com o sol matutino, lembrando-me de quão longe eu chegara nos últimos cinco anos. Era difícil imaginar que eu começara a Stratton nos fundos de uma loja de carros usados. E agora... isso!
Na face oeste do prédio havia uma entrada enorme que tinha como objetivo fascinar todos que passavam por ela. Mas nenhuma alma da Stratton nunca passou por ela. Ficava muito longe, e tempo, afinal de contas, era dinheiro. Em vez disso, todos, incluindo eu, usavam uma rampa de concreto na face sul do prédio, que dava diretamente na sala de corretagem.
Saí da traseira da limusine, despedi-me de George (que aquiesceu sem falar nada) e subi por aquela mesma rampa de concreto. Enquanto atravessava as portas de aço, eu já podia decifrar os ecos ofuscados do rugido furioso, que soava como uma multidão. Era música para meus ouvidos. Segui na sua direção, com determinação.
Após uma dúzia de passos, virei o corredor e lá estava: a sala de corretagem da Stratton Oakmont. Era um espaço gigantesco, mais longo que um campo de futebol e quase da mesma largura. Era um espaço aberto, sem partições e com um teto muito baixo. Fileiras bem apertadas de mesas de bordo ajeitadas como em uma sala de aula e um mar infinito de camisas bem brancas moviam-se para lá e para cá furiosamente. Os corretores estavam sem os ternos e gritavam para telefones pretos, criando o rugido. Era o som de jovens educados usando lógica e razão para convencer empresários de todo o país a investir suas economias na Stratton Oakmont:
“Porra, Bill! Deixe de ser mulherzinha e tome uma decisão!”, gritava Bobby Koch, um irlandês rechonchudo, de 22 anos, apenas com diploma de ensino médio, com um vício furioso por cocaína e renda bruta líquida de 1,2 milhão de dólares. Ele estava repreendendo algum empresário próspero chamado Bill, que vivia em algum lugar no coração dos Estados Unidos. Cada mesa tinha um computador cinza sobre ela, em que números e letras de diodo verde piscavam trazendo cotações em tempo real para os strattonitas. Mas dificilmente uma alma viva olhava para elas. Estavam muito ocupados suando profusamente e gritando para seus telefones pretos, que pareciam berinjelas gigantes crescendo de suas orelhas.
“Preciso de uma decisão... Bill!... Preciso de uma decisão já!”, repreendia Bobby. “A Steve Madden é a maior novidade de Wall Street, e não tem por que ficar pensando! Hoje à tarde isso já será um dinossauro do caralho!” Bobby saíra havia duas semanas da Clínica Hazelden e já tivera a recaída. Seus olhos pareciam estar pulando para fora de seu carnudo crânio irlandês. Podia-se literalmente sentir os cristais de cocaína pingando de suas glândulas sudoríparas. Eram 9h30.
Um jovem strattonita com cabelo para trás, queixo quadrado e um pescoço do tamanho de Rhode Island estava agachado, tentando explicar para um cliente os prós e os contras de incluir sua esposa no processo de tomada de decisão. “Falar com tua mina? Tu é louco ou o quê?” Ele mal percebia que seu sotaque de Nova York era tão forte que o fazia parecer da ralé. “Quer dizer, tu acha que tua mina fala com você quando sai pra comprar um par de sapatos?”
Três fileiras atrás, um jovem strattonita de cabelo castanho encaracolado e um caso sério de acne juvenil estava em pé, duro como um rodo, com seu telefone preto enfiado entre a bochecha e a clavícula. Seus braços estavam estendidos como asas de avião, e ele tinha manchas gigantes de suor em suas axilas. Enquanto gritava para seu telefone, Anthony Gilberto, o alfaiate da firma, media-o para fazer-lhe um terno. O dia todo Gilberto ia de mesa em mesa pegando medidas de jovens strattonitas e fazia ternos para eles por 2 mil dólares cada. De repente, o jovem strattonita jogou a cabeça para trás e esticou os braços o máximo possível, como se fosse mergulhar de uma plataforma de 10 metros. Então falou, num tom de alguém que está prestes a estourar: “Olha, faça um favor para si mesmo, sr. Kilgore: compre dez mil em ações. Por favor, você está me deixando louco aqui... está me deixando louco. Quer dizer, será que tenho de pegar um avião até o Texas e usar a força? Porque, se precisar, eu o farei!”.
Que dedicação!, pensei. O garoto de rosto espinhento enfiava ações mesmo enquanto comprava roupas! Minha sala ficava na outra ponta do escritório, e enquanto atravessava o mar torto de humanidade sentia-me como Moisés em botas de caubói. Corretores afastavam-se para o lado, abrindo caminho para mim. Cada corretor pelo qual passava oferecia-me um piscar de olhos ou um sorriso como forma de demonstrar seu apreço por essa pequena fatia de paraíso na terra que criei. Sim, esse era o meu povo. Vieram até mim atrás de esperança, amor, aconselhamento e direção, e eu era dez vezes mais louco que todos eles. Porém, uma coisa todos tínhamos em comum: o amor incondicional pelo rugido furioso. Na verdade, nunca ficávamos satisfeitos:
“Pega a porra do telefone, por favor!”, gritava um pequeno e loiro assistente de vendas.
“Pegue você a porra do telefone! É o seu trabalho, caralho.”
“Estou pedindo apenas uma chance!”
“... vinte mil a oito e meio...”
“... pegue cem mil ações...”
“As ações vão estourar!”
“Pelo amor de Deus, Steven Madden é o melhor negócio em Wall Street!”
“Foda-se Merrill Lynch! Comemos essas baratinhas no café.”
“Seu corretor local? Foda-se o seu corretor local! Ele está ocupado lendo o Wall Street Journal de ontem.”
“... tenho vinte mil bônus B a quatro...”
“Foda-se isso; é lixo!”
“É, bem, foda-se você também e aquele lixo de Volkswagen que o trouxe aqui!”
Foda-se isso e foda-se aquilo! Caralho aqui e caralho ali! Era a linguagem de Wall Street. Era a essência do rugido furioso, escutado por todos os cantos. Ele o intoxicava. Ele o seduzia! Ele o libertava, porra! Ele o ajudava a chegar a objetivos que nunca sonhou ser capaz de atingir! E arrebatava todos, especialmente a mim.
Das milhares de almas na sala de corretagem dificilmente havia alguém vivo com mais de 30; a maioria estava com 20 e poucos. Era uma multidão bonita, explodindo de vaidade, e a tensão sexual era tão pesada que se podia literalmente cheirá-la. O código de trajes para homens – garotos! – era um terno sob medida, camisa branca, gravata de seda e relógio de pulso de ouro puro. Para as mulheres, em minoria de dez para um, eram saias lindas, decotes enormes, sutiãs que aumentavam os peitos e saltos pontudos, quanto mais altos melhores. Era o tipo de traje estritamente proibido pelo manual do setor de recursos humanos da Stratton, mas fortemente encorajado pela administração (incluindo este que vos fala).
As coisas tinham saído tão fora do controle que jovens strattonitas estavam trepando embaixo das mesas, em cabines de banheiro, em armários, na garagem subterrânea e, lógico, no elevador panorâmico do prédio. Eventualmente, para manter algum tipo de ordem, passávamos um memorando declarando o prédio como uma Zona Sem Fodas entre as oito da manhã e as sete da noite. No topo do memorando havia estas exatas palavras, Zona Sem Fodas, e sob elas o contorno de pessoas trepando estilo cachorrinho. Ao redor dos desenhos havia um círculo vermelho grande com uma linha diagonal atravessando-o: uma placa estilo Caçadores de Fantasmas. (Certamente uma novidade em Wall Street.) Mas, ah, ninguém levava isso a sério.
Contudo, era tudo de bom e fazia total sentido. Todos eram jovens e bonitos, e estavam aproveitando o momento. Aproveitar o momento – era o verdadeiro mantra corporativo que queimava como fogo no coração e na alma de cada jovem strattonita e vibrava nos centros de prazer hiperativos de todos os milhares de cérebros recém-saídos da puberdade.
E quem podia discutir com tamanho sucesso? A quantidade de dinheiro sendo ganha era incrível. Um corretor de ações calouro esperava ganhar 250 mil dólares em seu primeiro ano. Qualquer coisa a menos e ele era suspeito. No ano dois deveria ganhar 500 mil dólares ou era considerado fraco e sem valor. E no ano três era melhor estar ganhando um milhão ou mais ou era motivo de chacota. E esses eram os mínimos; grandes produtores ganhavam o triplo disso.
E lá a prosperidade reinava. Assistentes de vendas, que eram secretárias verdadeiramente admiráveis, estavam ganhando mais de 100 mil dólares por ano. Até a garota no quadro de distribuição telefônica ganhava 80 mil dólares por ano, apenas para atender ligações. Não devia nada a uma boa corrida do ouro à moda antiga, e Lake Success tinha se tornado uma cidade próspera. Jovens strattonitas, ainda crianças, começaram a chamar o lugar de Disneylândia dos Corretores, e cada um deles sabia que, se chegasse a ser expulso do parque de diversões, nunca iria ganhar tanto dinheiro assim novamente. E era enorme o medo que vivia na base do crânio de cada jovem strattonita... de um dia perder o emprego. Então o que fariam? Afinal de contas, quando se era um strattonita, esperava-se viver a Vida – dirigir o carro mais pomposo, comer nos restaurantes mais quentes, dar as maiores gorjetas, vestir as roupas mais chiques e residir numa mansão na fabulosa Gold Coast de Long Island. E, mesmo que se estivesse apenas começando e não se tivesse um puto, então se pegaria dinheiro de algum banco insano o suficiente para emprestá-lo – sem levar em consideração a taxa de juros – e se começaria a viver a Vida, estando-se pronto para isso ou não.
Estava tudo tão fora de controle que crianças ainda com acne no rosto e apenas recém-apresentadas a lâminas de barbear saíam por aí comprando mansões. Alguns eram tão jovens que nem sequer se mudavam; ainda se sentiam mais confortáveis dormindo em casa com os pais. Durante os verões, alugavam casas enormes nos Hamptons, com piscinas aquecidas de frente para o oceano Atlântico. Nos finais de semana, organizavam festas loucas, tão depravadas que eram invariavelmente interrompidas pela polícia. Havia bandas tocando ao vivo; DJs nas picapes; jovens garotas da Stratton dançavam de topless; strippers e putas eram consideradas convidadas de honra; e, inevitavelmente, em algum momento, jovens strattonitas ficavam nus e entravam no cio sob o límpido céu azul, como animais no curral, felizes por fazer um show explícito para uma plateia sempre crescente.
Mas qual era o problema disso? Eles estavam bêbados de juventude, abastecidos pela ambição e muito drogados. E a cada dia o trem da alegria crescia, e mais e mais pessoas faziam fortunas provendo os elementos cruciais de que todo jovem strattonita precisa para viver a Vida. Havia corretores imobiliários vendendo-lhes mansões; bancos assegurando-lhes o financiamento; decoradores de interiores lotando suas mansões de móveis a preços absurdos; paisagistas cuidando da terra (qualquer strattonita pego cortando a própria grama estaria muito chapado); vendedores de carros exóticos vendendo Porsches, Mercedes, Ferraris, Lamborghinis (dirigir qualquer coisa menor era considerada uma vergonha do caralho); maîtres reservando mesas nos restaurantes mais chiques; cambistas vendendo assentos na primeira fila para eventos esportivos, shows de rock e espetáculos da Broadway esgotados; e joalheiros, relojoeiros, alfaiates, sapateiros, floristas, bufês, cabeleireiros, amestradores de animais, massagistas, quiropráticos, mecânicos de automóveis e todos os outros provedores de serviços de nicho (principalmente putas e traficantes de drogas) que apareciam na sala de corretagem e ofereciam seus serviços aos pés de jovens strattonitas para que não perdessem sequer um segundo de seus dias ocupados ou, pelo menos, se envolvessem em qualquer atividade extracurricular que não melhorasse diretamente sua habilidade de se dedicar a uma única ação: telefonar. Era só isso. Sorria-se e telefonava-se do segundo em que se chegava ao escritório ao segundo em que se saía. E, se o cara não estivesse motivado o suficiente para fazer isso ou não conseguisse suportar a rejeição constante de secretárias de todos os 50 estados batendo o telefone na sua cara 300 vezes por dia, havia dez pessoas bem atrás de si mais do que loucas para fazer o serviço. E então se estava fora... para sempre.
E qual a fórmula secreta que a Stratton descobrira permitindo que todas essas crianças obscenamente jovens ganhassem tais quantidades obscenas de dinheiro? Principalmente duas simples verdades: primeiro, a maior parte do 1% mais rico dos americanos era composta de apostadores enrustidos, que não podiam resistir à tentação de continuar jogando os dados, mesmo que soubessem que os dados eram viciados contra eles; e, segundo, ao contrário do que se pensava, homens e mulheres jovens com a sociabilidade de uma manada de búfalos no cio e QI de Forrest Gump, com três gotas de ácido na cuca, podiam ser ensinados a soar como magos de Wall Street, desde que se anotasse tudo para eles e se continuasse a fazer lavagem cerebral todo dia, duas vezes por dia, pelo período de um ano.
Quando boatos sobre esse segredinho começaram a correr por Long Island – que havia um escritório maluco, em Lake Success, onde tudo que se tinha de fazer era aparecer, seguir ordens, jurar lealdade incondicional ao dono, e ele o deixaria rico –, crianças começaram a aparecer na sala de corretagem sem se anunciar. De início, elas pingavam; depois, choviam. Começou com crianças dos subúrbios de classe média do Queens e de Long Island, e então rapidamente se espalhou para todos os cinco bairros de Nova York. Antes que eu percebesse, estavam vindo de todos os Estados Unidos, implorando-me por empregos. Crianças simples viajavam todo o país até a sala de corretagem da Stratton Oakmont e juravam lealdade incondicional ao Lobo de Wall Street. E o resto, como dizem, é história de Wall Street.
Como sempre, minha ultraleal assistente pessoal, Janet1, estava sentada à sua mesa, aguardando ansiosamente minha chegada. Nesse momento em particular, ela estava batendo o indicador direito no tampo da mesa e balançando a cabeça de uma maneira que dizia: “Por que diabos o meu dia muda totalmente quando meu chefe louco decide aparecer para trabalhar?”. Ou talvez fosse apenas minha imaginação e ela estivesse simplesmente entediada. De qualquer forma, a mesa de Janet ficava bem em frente à minha porta, como se ela fosse um zagueiro protegendo a área. Isso não era por acaso. Entre suas muitas funções, Janet era minha guardiã. Se alguém quisesse me ver ou falar comigo, primeiro tinha de passar por Janet – o que não era fácil. Ela me protegia como uma leoa faz com seus filhotes, não tendo o menor problema para liberar sua fúria sobre qualquer alma viva que tentasse romper o bloqueio.
Assim que Janet me viu, soltou um sorriso caloroso, e fiquei um instante contemplando-a. Ela estava com quase 30 anos, mas parecia um pouco mais velha. Tinha mechas grossas de cabelo castanho-escuro, pele bem clarinha e um corpinho rígido. Possuía belos olhos azuis, mas havia certa tristeza neles, como se tivessem visto dor demais. Talvez fosse por isso que Janet aparecia para o trabalho todo dia vestida de Morte. Sim, dos pés à cabeça, ela sempre trajava preto, e hoje não era exceção.
“Bom dia”, disse Janet, com um sorriso alegre e um leve toque de aborrecimento na voz. “Por que está tão atrasado?”
Sorri calorosamente para minha ultraleal assistente. Na verdade, apesar da aparência funesta e da sua necessidade infinita de saber cada detalhe das minhas fofocas pessoais, eu sentia muito prazer ao vê-la. Ela era a duplicata de Gwynne no escritório. Fosse para pagar minhas faturas, controlar minhas contas de corretagem, cuidar de meu horário, organizar minhas viagens, pagar minhas putas, negociar com meus traficantes de droga ou mentir para qualquer esposa com quem estivesse casado no momento, não havia tarefa grande demais nem pequena demais que Janet não fizesse o possível para realizar. Era incrivelmente competente e nunca cometia um erro.
Janet também fora criada em Bayside, mas seus pais morreram quando ela era pequena. Sua mãe fora uma boa mulher, mas seu pai a maltratava, um perfeito filho da puta. Fiz o que podia para que se sentisse amada. E eu a protegia da mesma forma que ela fazia comigo.
Quando Janet se casou, no mês passado, preparei para ela um casamento incrível e acompanhei-a na entrada com grande orgulho. Naquele dia ela usou um vestido de noiva Vera Wang branco-neve – pago por mim e escolhido pela Duquesa, que também passou duas horas fazendo a maquiagem de Janet. (Sim, a Duquesa também era aspirante a maquiadora.) E Janet ficou totalmente deslumbrante.
“Bom dia”, respondi com um sorriso caloroso. “A sala está com um som bom hoje, não?”
Sem emoção: “Sempre está, mas você não me respondeu. Por que está tão atrasado?”.
Que garota controladora ela era, e abelhuda demais também. Soltei um suspiro longo e disse: “Nadine ligou, por acaso?”.
“Não. Por quê? Que aconteceu?” Eram perguntas-metralhadora. Aparentemente ela sentiu uma fofoquinha suculenta no ar.
“Não aconteceu nada, Janet. Cheguei tarde em casa, e Nadine ficou puta e jogou um copo d’água em mim. Foi isso; na verdade, foram três copos, mas quem fica contando? De qualquer forma, o resto é muito bizarro para colocar em palavras, mas preciso enviar flores a ela já ou, caso contrário, talvez eu esteja atrás da esposa número três antes que o dia termine.”
“Quantas devo enviar?”, perguntou, pegando um bloco com espiral e uma caneta Montblanc.
“Não sei... 3 ou 4 mil dólares. Apenas lhes diga para enviar a porra do caminhão inteiro. E faça com que sejam montes de lírios. Ela gosta de lírios.”
Janet franziu o cenho e comprimiu os lábios, como se dissesse: “Você está quebrando nosso acordo silencioso de que parte de meu pacote de benefícios é o direito de saber todos os detalhes sangrentos, não importando quão sangrentos sejam!”. Mas, sendo uma profissional, movida pelo senso de dever, tudo que ela disse foi: “Certo, você me conta a história depois”.
Fiz que sim com a cabeça, sem convencer. “Talvez, Janet, veremos. Então me diga o que está acontecendo.”
“Bem... Steve Madden está zanzando por aqui em algum lugar e parece meio nervoso. Não acho que ele vá se dar bem hoje.”
Uma tempestade imediata de adrenalina. Steve Madden! O irônico era que, com todo o caos e a insanidade desta manhã, não havia me dado conta de que a Sapatos Steve Madden iria a público hoje. Na verdade, antes de o dia terminar eu estaria fechando o caixa na casa das 20 milhões de pratas. Nada mal! E Steve tinha de aparecer diante da sala de corretagem e fazer um pequeno discurso, uma espécie de show de faz de conta. Ora, isso seria interessante! Não sabia se Steve era do tipo que conseguia olhar nos olhos selvagens de todos aqueles loucos jovens strattonitas sem engasgar.
Porém, shows de faz de conta eram uma tradição de Wall Street: pouco antes de uma nova ação ir ao mercado, o presidente surgia diante de uma multidão de corretores de ações e fazia um discurso enlatado, focando em quão glorioso era o futuro de sua empresa. Era uma espécie amigável de reunião, com um monte de tapinhas nas costas e falsos apertos de mãos.
E então havia a Stratton, onde as coisas ficavam muito feias de vez em quando. O problema era que os strattonistas não estavam nem um pouco interessados; queriam apenas ações e ganhar dinheiro. Portanto, se o orador convidado não os cativasse no momento em que começasse a falar, os strattonitas ficavam rapidamente entediados. Então começavam a vaiar – e a seguir disparar obscenidades. Por fim, atiravam coisas no orador, começando com bolinhas de papel e rapidamente mudando para produtos alimentícios, como tomates podres, coxinhas de frango comidas pela metade e maçãs mordidas.
Eu não podia permitir que tal destino terrível caísse sobre Steve Madden. Primeiro e acima de tudo, ele era amigo de infância de Danny Porush, meu vice-presidente. E, segundo, eu era proprietário de mais da metade da empresa de Steve, portanto, basicamente, estava levando meu próprio negócio a público. Eu dera a Steve 500 mil dólares para o capital inicial por volta de 16 meses atrás, o que me tornou o maior acionista da empresa, com 85% das ações. Alguns meses depois, vendi 35% de minhas ações por pouco mais de 500 mil dólares, recuperando meu investimento original. Agora eu possuía 50% de graça! Isso é que é negócio bom!
Para falar a verdade, foi esse processo de comprar ações de empresas privadas e depois revender uma parte de meu investimento original (e recuperar meu dinheiro) que tornara a Stratton muito mais uma gráfica do que qualquer outra coisa. E, como eu usava o poder da sala de corretagem para levar minhas próprias empresas a público, meu patrimônio líquido decolava cada vez mais. Em Wall Street, esse procedimento era chamado de “banco de investimento”, mas para mim era como ganhar na loteria a cada quatro semanas.
Disse para Janet: “Ele deve se sair bem, mas, caso dê errado, vou subir lá para salvá-lo. E que mais está acontecendo?”.
Dando de ombros: “Seu pai está te procurando, e ele parece puto”.
“Ah, merda!”, murmurei. Meu pai, Max, era o verdadeiro diretor financeiro da Stratton e também autodesignado chefe da Gestapo. Ele era tão doente que, às 9h, ficava zanzando pela sala de corretagem com um copo de isopor cheio de vodca Stolichnaya, fumando seu vigésimo cigarro. No porta-malas de seu carro, mantinha um taco de beisebol de mais de um quilo, autografado por Mickey Mantle, para que pudesse arrebentar a “porra da janela” de qualquer corretor insano o suficiente para estacionar em sua simpática vaga. “Ele falou o que queria?”
“Não!”, respondeu minha leal assistente. “Perguntei, e ele rosnou para mim, como um cachorro. Ele está realmente puto com alguma coisa e, se eu tivesse de adivinhar, diria que é a conta da American Express de novembro.”
Forcei um sorriso. “Será?” De repente, o número de meio milhão surgiu borbulhando, sem ser convidado, em meu cérebro.
Janet acenou com a cabeça. “Ele estava segurando a conta na mão e era dessa largura.” O espaço entre seu polegar e o indicador era de uns bons sete centímetros.
“Hmmmmm...” Fiquei um tempo ponderando sobre a conta da American Express, mas algo bem distante chamou minha atenção. Estava flutuando... flutuando... que diabos era aquilo? Estreitei os olhos. Caralho... alguém tinha trazido para o escritório uma bola de praia de plástico, vermelha, branca e azul! Era como se a sede corporativa da Stratton Oakmont fosse um estádio, o piso da sala de corretagem a seção da orquestra e os Rolling Stones estivessem prestes a fazer um show.
“... além de tudo, ele está limpando a porra do aquário”, disse Janet. “É inacreditável!”
Só peguei o fim do que Janet estava dizendo e resmunguei: “É, bem, sei o que quer dizer...”.
“Você não ouviu uma palavra do que eu disse”, murmurou, “portanto não finja que entendeu.”
Porra! Quem, além de meu pai, falava comigo daquela forma? Bem, talvez minha esposa, mas, no caso dela, normalmente eu merecia. Eu amava Janet, apesar de sua língua ferina. “Muito engraçado. Agora me conte o que você disse.”
“O que eu disse foi que aquele garoto ali é inacreditável”, ela apontou para uma mesa a uns 20 metros. “Qual é o nome dele? Robert alguma coisa... ele está limpando o aquário em meio a tudo isso. Quer dizer, é dia de novas debêntures! Você não acha que isso é meio maluco?”
Olhei na direção do suposto criminoso: um jovem strattonita – não, definitivamente não era um strattonita –, um jovem desajustado, com uma mecha feroz de cabelo castanho encaracolado e gravata-borboleta. O fato de ter um aquário sobre a mesa não era tão surpreendente. Os strattonitas podiam levar animais de estimação para o escritório. Havia iguanas, furões, hamsters, periquitos, tartarugas, tarântulas, cobras, fuinhas e o que quer que esses jovens maníacos pudessem adquirir com seus altos salários. Na verdade, havia até uma arara vermelha com um vocabulário de mais de 50 palavras em inglês, que podia mandar você ir se foder quando não estava ocupada imitando os jovens strattonitas enfiando ações. A única vez que interferi nesse negócio de animais de estimação foi quando um jovem strattonita trouxe um chimpanzé de fraldas usando patins.
“Vá chamar Danny”, bradei. “Quero que ele cuide desse moleque.”
Janet aquiesceu e foi buscar Danny, enquanto fiquei lá abismado. Como pôde esse imbecil de gravata-borboleta cometer um ato... atroz pra caralho? Um ato que ia contra a ideia de tudo o que a sala de corretagem da Stratton Oakmont representava! Era um sacrilégio! Não contra Deus, lógico, mas contra a Vida! Era a forma mais rude de ruptura do código de ética da Stratton. E a punição era... qual era a punição? Bem, eu deixaria isso para Danny Porush, meu sócio júnior, que tinha um dom incrível para disciplinar strattonitas impertinentes. Na verdade, ele sentia prazer nisso.
Foi então que vi Danny andando na minha direção, com Janet seguindo-o dois passos atrás. Danny parecia puto, o que significava que o corretor de gravata-borboleta estava ferrado. Enquanto ele se aproximava, aproveitei para observá-lo, e não pude deixar de me divertir com o fato de ele parecer normal. Era realmente irônico. Na verdade, vestido como ele estava, num terno cinza risca de giz, camisa branquíssima e gravata de seda vermelha, nunca se imaginaria que ele estava próximo de atingir seu objetivo, publicamente anunciado, de transar com todas as assistentes de vendas na sala de corretagem.
Danny Porush era um judeu do tipo ultrasselvagem. Tinha altura e peso medianos, por volta de 1,80 metro, 75 quilos, e não apresentava nenhum traço que indicasse que era um membro da Tribo. Mesmo seus olhos azulados, que geravam quase a mesma quantidade de calor que um iceberg, não tinham nada de Yid.2
E isso era apropriado, pelo menos do ponto de vista de Danny. Afinal de contas, como muitos judeus antes dele, Danny ardia com o desejo secreto de ser confundido com um WASP e fazia o possível para se disfarçar completamente de WASP – dentes incrivelmente esmaltados, que tinham sido branqueados e ajeitados até ficarem grandes e brancos, parecendo radioativos, óculos de casco de tartaruga com lentes sem grau (Danny tinha visão perfeita) e sapatos de couro preto e bicos extravagantes feitos sob medida, que eram polidos até poderem servir de espelho.
E que piada cruel... levando-se em consideração sua idade avançada de 34 anos, Danny dera um novo significado ao termo “psicologia anormal”. Talvez eu devesse ter suspeitado disso seis anos atrás, quando o conheci. Aconteceu antes de começar a Stratton, e Danny trabalhava para mim como corretor trainee. Durante a primavera, eu lhe pedira para me acompanhar em uma ida breve a Manhattan a fim de me encontrar com o contador. Chegando lá, ele me convenceu a dar uma passada rápida numa casa de fumo em Harlem, onde me contou sua história de vida – dizendo que seus dois últimos negócios, um serviço de mensageiros e um serviço ambulatorial, foram cheirados. Ainda me disse que se casara com sua própria prima de primeiro grau, Nancy, porque ela era muito gostosa. Quando lhe perguntei se se preocupava com procriação consanguínea, ele respondeu que dava a maior importância e que, se tivessem um filho retardado, ele simplesmente o deixaria nos degraus de uma instituição, e estaria tudo resolvido.
Talvez eu devesse ter fugido naquele instante, percebendo que um cara como esse podia fazer brotar o pior em mim. Em vez disso, emprestei dinheiro para Danny a fim de ajudá-lo a se reerguer, e então o treinei para se tornar um corretor de ações. Um ano depois, comecei a Stratton e deixei Danny lentamente ir comprando ações e tornar-se sócio. Nos últimos cinco anos, Danny provou ser um guerreiro feroz – afastando qualquer um de seu caminho e segurando sua posição como número dois da Stratton. E, apesar disso tudo, apesar de toda essa sua insanidade, não havia como negar que ele era esperto como um chicote, perspicaz como uma raposa, cruel como um huno e, acima de tudo, leal como um cão. Hoje, na verdade, contava com ele para fazer quase todo o meu trabalho sujo, uma função que lhe dava mais prazer do que se pode imaginar.
Danny cumprimentou-me como os mafiosos fazem, com um abraço caloroso e um beijo em cada lado do rosto. Era um sinal de lealdade e respeito, e na sala de corretagem da Stratton Oakmont era um gesto extremamente apreciado. Pelo canto dos olhos, contudo, vi Janet, a cínica, revirando os olhos com desdém, como se ridicularizasse a demonstração de lealdade e carinho por parte de Danny.
Danny liberou-me de seu abraço da Máfia e murmurou: “Vou matar aquele moleque dos infernos. Juro por Deus!”.
“Não vai cair bem, Danny, principalmente hoje.” Dei de ombros. “Acho que você deve dizer-lhe que, se o aquário não estiver fora daqui no final do dia, o aquário fica e ele sai. Mas você decide; faça o que quiser.”
Janet, a instigadora: “Ah, meu Deus! Ele está usando uma gravata-borboleta! É inacreditável!”.
“Esse rato filho da puta!”, disse Danny, num tom usado para descrever alguém que acabou de estuprar uma freira e depois a matou. “Vou cuidar desse moleque de uma vez por todas... do meu jeito!” Irado e bufando, Danny marchou sobre a mesa do corretor e começou a conversar com ele.
Após alguns segundos, o corretor começou a balançar a cabeça, negando. Então mais alguma coisa foi dita, e o corretor seguiu balançando a cabeça, ainda negando. Agora Danny começou a balançar sua própria cabeça, da forma que uma pessoa faz quando está perdendo a paciência.
Janet, com uma pérola de sabedoria: “Gostaria de saber o que estão falando. Gostaria de ter orelhas biônicas como a Mulher de 6 Milhões de Dólares, sabe?”.
Balancei a cabeça com nojo. “Nem vou me dignar a responder, Janet. Mas, apenas para que saiba, não houve Mulher de 6 Milhões de Dólares. Foi a Mulher Biônica.”
De repente, Danny estendeu a palma na direção da mão esquerda do corretor, que segurava uma redinha de pesca, e começou a balançar os dedos, como se dissesse: “Me dê a porra da redinha!”. O corretor respondeu jogando o braço para o lado – mantendo a redinha longe do alcance de Danny.
“O que você acha que ele vai fazer com a redinha?”, perguntou a aspirante a Mulher Biônica.
Avaliei as possibilidades em minha mente. “Não tenho certeza... Ah, merda, sei exatamente o que...”
De repente, mais rápido do que parecia possível, Danny arrancou o paletó, jogou-o no chão, desabotoou as mangas da camisa, ergueu-a acima dos cotovelos e enfiou a mão dentro do aquário. Todo o seu antebraço estava submerso. Então começou a mexer o braço para lá e para cá, tentando pegar um inocente peixinho laranja na palma da mão. Seu rosto estava rígido como pedra e seu olhar era o de um homem possuído pela pura maldade.
Uma dúzia de jovens assistentes de vendas, que estavam próximas à ação, pularam de suas cadeiras e recuaram horrorizadas com a imagem de Danny tentando capturar o inocente peixinho.
“Ah... meu... Deus”, disse Janet. “Ele vai matá-lo.”
De repente, os olhos de Danny se escancararam e seu queixo caiu uns bons cinco centímetros. Era um rosto que dizia algo como “Peguei!”. Um segundo depois, tirou o braço do aquário, com o peixinho laranja firmemente agarrado.
“Ele o pegou!”, gritou Janet, enfiando o punho na boca.
“É, mas a pergunta de 1 milhão de dólares é: o que ele irá fazer com isso?” Fiz uma brevíssima pausa e então completei: “Mas estou com vontade de apostar 100 mil dólares contra mil seus que ele irá comê-lo. Topa?”.
Uma resposta imediata: “Cem pra um? Tô dentro! Ele não fará isso! É muito nojento. Quer dizer...”.
Janet parou de falar quando Danny subiu sobre uma mesa e esticou os braços, como se fosse Jesus Cristo na cruz. Ele gritou: “Isso é o que acontece quando você fode com seus animaizinhos em dia de novas debêntures!”. E, completando o pensamento: “E nada dessas merdas de gravatas-borboleta na sala de corretagem! É ridículo... pra caralho!”.
Janet, esquivando-se: “Quero cancelar a aposta já!”.
“Desculpe-me, tarde demais!”
“Ora... não é justo!”
“Nem a vida é, Janet.” Dei de ombros inocentemente. “E você devia saber isso.” Como se não estivesse nem aí, Danny abriu a boca e jogou o peixinho laranja goela abaixo.
Uma centena de assistentes de vendas engasgou coletivamente, enquanto dez vezes mais corretores começaram a aplaudir com admiração – fazendo homenagem a Danny Porush, carrasco da inocente vida marinha. Sem perder a oportunidade, Danny respondeu com uma reverência formal, como se estivesse num palco da Broadway. Então pulou da mesa para os braços de seus admiradores.
Comecei a falar rindo para Janet. “Bem, não se preocupe em me pagar. Vou apenas descontar do seu salário.”
“Não se atreva!”, assobiou.
“Certo, você pode ficar me devendo, então!” Sorri e pisquei. “Agora vá pedir as flores e traga-me um café. Já está na hora de começar essa porra de dia.” Com leveza em meus passos e um sorriso no rosto, entrei em meu escritório e fechei a porta... pronto para enfrentar qualquer coisa que o mundo pudesse arremessar contra mim.
1 O nome foi alterado. (N.A.)
2 Maneira depreciativa de se referir a algo judeu. (N. T.)