CAPÍTULO 2

AS VÍTIMAS INOCENTES

13 de dezembro de 1993

O lugarejo de Old Brookville fica na esfuziante “Costa Dourada” de Long Island, uma região tão magnífica que até bem pouco tempo tinha estado estritamente fora de alcance para os judeus. Não literalmente, é claro, mas, para todos os efeitos práticos, nós, judeus, ainda éramos considerados cidadãos de segunda classe, um bando de vendedores ambulantes escorregadios que tinham conseguido se destacar no meio da multidão e precisavam ser vigiados e controlados para que não invadissem a área dos cidadãos de primeira classe, ou seja, os WASPs*.

Na verdade, esses não eram os velhos WASPs comuns, mas uma pequena subespécie de WASP, conhecida como “os de sangue azul”. Contados apenas aos milhares, os de sangue azul, altos e esguios e usando roupas extravagantes, tinham entre seus hábitats naturais clubes de golfe de primeira linha, mansões, chalés exclusivos para caça e pesca e sociedades secretas. A maioria deles tinha linhagem britânica e demonstrava grande orgulho em traçar sua genealogia até os tempos do Mayflower**. No entanto, em termos evolutivos, eles não eram muito diferentes dos enormes dinossauros que vagaram pela mesma Costa Dourada 65 milhões de anos antes deles: estavam à beira da extinção, vítimas do aumento de impostos, dos impostos sobre as propriedades e de uma diluição constante do gene intelectual por conta da endogamia praticada por gerações, que rendera filhos e filhas idiotas que provocaram uma tremenda dilapidação financeira nas grandes fortunas que seus ancestrais de sangue azul demoraram gerações para construir (a magia de Charles Darwin fazendo hora extra…).

Seja como for, era ali onde a Duquesa e eu morávamos e onde eu tinha acreditado que iríamos envelhecer juntos. Mas, enquanto a limusine passava pelos pilares de pedra que margeavam nossa propriedade de 6 hectares, comecei a pensar sobre o que acontecera.

Uma longa estradinha particular em formato de círculo, limitada por sebes impecavelmente aparadas, levava à nossa mansão de 10 mil metros quadrados projetada em estilo de castelo francês, com brilhantes torretas de cobre e janelas com caixilhos. No final daquela estradinha pavimentada, uma comprida passarela de paralelepípedos conduzia até a porta de mogno, de quase 4 metros de altura. Enquanto a limusine estacionava perto da porta de entrada, decidi fazer uma última tentativa com a Duquesa antes de entrarmos. Fiquei de joelhos e coloquei minhas mãos de cada lado de suas coxas. A Duquesa estava de pernas cruzadas e, como sempre, a pele dela estava sedosa. Resisti ao desejo de correr as mãos por todo o comprimento de suas pernas nuas. Em vez disso, levantei os olhos como os de um cachorrinho perdido e disse:

– Ouça, Nae, eu sei que isso tem sido difícil para você – difícil para você? – e realmente sinto muito por tudo o que vem acontecendo, mas já estamos juntos há oito anos, querida. E temos dois filhos maravilhosos! A gente vai superar isso – fiz uma pausa por um momento e assenti com a cabeça, para acentuar o efeito do que acabara de dizer. – E mesmo que eu acabe indo parar na cadeia, sempre vai ter alguém cuidando de você e das crianças. Eu prometo.

– Não se preocupe conosco – disse ela, friamente. – Você tem de se preocupar apenas consigo mesmo.

Estreitei os olhos e disse:

– Não entendo uma coisa, Nadine. Você faz parecer que está totalmente chocada com tudo que está acontecendo… Mas, quando nos conhecemos, não era como se eu estivesse sendo indicado para o Nobel da Paz. Eu estava sendo investigado e difamado por todos os jornais do mundo livre! – inclinei a cabeça para o lado, em um ângulo que implicava lógica, e continuei – O que eu quero dizer é que acho que seria uma coisa diferente se você tivesse se casado com um médico e depois descobrisse que ele vinha fraudando a Previdência durante os últimos 20 anos! Acho que, num caso desse, você teria justificativa! Mas, agora, tendo em vistas as circunstâncias…

Ela me cortou na hora:

– Eu não tinha ideia do que você andava fazendo… – Ah, então quer dizer que os 2 milhões em dinheiro na minha gaveta de meias nunca levantaram suspeitas em você? – … Nunca! E depois que eles levaram você embora, aquele tal agente Coleman ficou me interrogando por cinco horas, cinco horas direto, porra! – disse, e gritou as últimas quatro palavras, tirando minhas mãos de suas pernas. – Ele falou que eu também iria para a cadeia, a menos que lhe contasse tudo! Você me colocou em risco, seu filho da puta! Você me colocou em perigo. E eu nunca vou lhe perdoar por isso.

Ela balançou a cabeça, desgostosa, e olhou para longe.

Mas que merda! O agente Coleman a tinha deixado traumatizada. Lógico, ele tinha sido totalmente sacana, mas ainda assim ela estava me acusando de ser o responsável. Talvez fosse um bom presságio para nosso futuro juntos. Apesar de tudo, assim que visse que não corria risco nenhum, a Duquesa poderia mudar de opinião. Eu estava a ponto de explicar isso quando Nadine se virou para mim e disse:

– Eu preciso me afastar por um tempo. Os últimos dias foram muito estressantes para mim, e quero ficar sozinha. Vou para a casa de praia durante o final de semana e voltarei na segunda…

Abri a boca, mas nenhuma palavra foi articulada, apenas um pequeno suspiro. Quando finalmente consegui, perguntei:

– Você vai me deixar sozinho com as crianças, em prisão domiciliar?

– Exatamente!

Ela disse isso com orgulho, depois abriu a porta de trás do carro e pulou de seu assento num acesso de raiva. E assim, de repente, foi embora, marchando impetuosamente em direção à enorme porta da mansão, a bainha de seu minúsculo vestido subindo e descendo a cada passo. Fiquei olhando para o fabuloso traseiro da Duquesa por um momento, então pulei para fora do carro e a segui para dentro da casa.



NO SEGUNDO ANDAR da mansão, três grandes quartos ficavam no final do longo corredor a leste, enquanto um quarto aposento, a suíte principal, ficava do lado oposto. Nossos filhos ocupavam dois daqueles três quartos; o terceiro servia como quarto de hóspedes. Uma escadaria de mogno de 4 metros de largura subia em uma curva sinuosa, saindo de um grande vestíbulo de mármore lá embaixo.

Quando cheguei ao alto da escada, em vez de seguir a Duquesa até o quarto principal, que era o nosso, me virei e fui até os quartos das crianças. Encontrei os dois no quarto de Chandler, sentadinhos num glorioso tapete rosa. Já estavam de pijaminha, brincando alegremente. O quarto era uma pequena terra da fantasia rosa, com dúzias de bichinhos de pelúcia espalhados por todos os cantos. As cortinas, o tratamento que tinha sido dado à janela e o edredom de penas de ganso sobre a cama queen-size de Chandler tinham sido todos feitos ao estilo “Laura Ashley”, com uma paleta de tons pastel suaves e estampas florais. Era o quarto perfeito para uma garotinha, feito para minha menininha perfeita.

Chandler tinha acabado de completar 5 anos e era a cara da mãe, uma pequena top model loirinha. Naquele momento, ela estava envolvida em seu passatempo favorito: organizar suas 150 bonecas Barbie em um círculo perfeito ao redor dela, de forma que pudesse se sentar no meio e se tornar o centro das atenções. Carter, que já tinha completado 3 anos, estava deitado de bruços fora do círculo. Ele estava folheando com a mão direita um livro ilustrado, com o cotovelo esquerdo descansando no tapete e o queixinho apoiado na palma da mão. Seus enormes olhos azuis brilhavam por trás dos cílios, tão exuberantes quanto as asas de uma borboleta. O cabelo loiro platinado era tão fino como palha de milho e tinha pequenos cachos na parte de trás da cabeça que reluziam como vidro polido.

No momento em que eles me viram, levantaram-se e correram para mim.

– Papai tá em casa! – gritou Chandler.

Então Carter entrou na conversa:

– Papai! Papai!

Agachei-me e eles me abraçaram.

– Estava com saudades de vocês! – disse, enchendo os dois de beijos. – Ei, acho que vocês cresceram mais nesses últimos três dias! Deixe-me olhar para vocês.

Segurei as duas crianças bem na minha frente e depois inclinei a cabeça para um lado, estreitando os olhos desconfiadamente, como se estivesse inspecionando os dois.

Eles ficaram parados de pé, orgulhosos, ombro a ombro, os queixos ligeiramente erguidos. Chandler era bem grande para sua idade, e Carter era pequeno, então ela era quase uma cabeça e meia mais alta que o irmão menor. Apertei os lábios e assenti com a cabeça gravemente, como se estivesse dizendo: “Minhas suspeitas foram confirmadas!”.

Foi então que disse, em tom de acusação:

– Eu sabia! Vocês dois cresceram mesmo, seus danadinhos!

E ambos gargalharam deliciosamente. Foi quando Chandler perguntou:

– Por que você está chorando, papai? Você tem um dodói?

Sem que eu me desse conta, um fio de lágrimas tinha aberto caminho pelo meu rosto, descendo até o queixo. Sequei-o com a palma da mão e então ofereci à minha filha uma inofensiva mentira branca:

– Não, não estou com dodói, sua boba. É que eu fiquei tão feliz de ver vocês que isso me fez chorar de alegria.

Carter assentiu em concordância, mas logo foi perdendo o interesse naquela situação. Afinal, ele era um menino, e sua capacidade de atenção era limitada. Na verdade, Carter vivia apenas para cinco coisas: dormir, comer, assistir ao vídeo do Rei Leão, subir nos móveis da casa e observar os longos cabelos loiros da Duquesa, que o acalmavam tanto quanto se ele tivesse engolido 10 miligramas de Valium. Carter era uma pessoa de poucas palavras, de fato, mas era extremamente inteligente. Já em seu primeiro aniversário era capaz de fazer funcionar a TV, o aparelho de VHS e o controle remoto. Com 1 ano e meio era um chaveiro de mão cheia, abrindo as fechaduras com a precisão de um arrombador de cofres. E, aos 2 anos, já havia memorizado duas dúzias de livros ilustrados. Ele era calmo e equilibrado, contente com seu jeito.

Chandler, por outro lado, era seu exato oposto. Ela era uma menina complexa, curiosa, intuitiva, introspectiva e sempre tinha algo a dizer. Seu apelido era CIA, porque estava sempre espionando as conversas, tentando juntar mais informações. Chandler tinha dito suas primeiras palavras aos 7 meses e quando tinha 1 ano já era capaz de falar frases inteiras. Aos 2 anos, já discutia com a Duquesa e, desde então nunca parou de fazer isso desde então. Era uma menina difícil de persuadir, impossível de manipular e possuía um raro e apurado dom de enxergar através do papo furado.

Isso foi uma coisa que me criou problemas. Minha tornozeleira poderia ser explicada como algum tipo de dispositivo médico superavançado, uma coisa que o médico havia receitado para garantir que minha dor nas costas nunca mais voltasse. Diria a Chandler que aquilo seria uma terapia de seis meses e que eu deveria manter a tornozeleira durante todo o tempo, o dia todo. Ela provavelmente compraria essa explicação durante algum tempo. O problema era ficar preso dentro de casa, essa seria uma situação muito mais difícil de esconder.

Nossa família estava sempre em movimento, correndo e fazendo coisas e indo para lá e para cá e vendo outras coisas – por isso, o que Chandler pensaria sobre meu súbito desejo de não querer sair de casa? Fiquei pensando nisso durante bastante tempo e cheguei à rápida conclusão de que, apesar de tudo, eu teria que contar com a Duquesa para me ajudar naquilo.

Foi então que Chandler perguntou:

– Você está chorando por que teve que devolver o dinheiro das pessoas, papai?

– Hã? – murmurei.

Que golpe sujo da Duquesa, pensei. Como teve coragem de fazer isso? A troco de quê ela fez isso? Tentar envenenar Chandler contra mim… A Duquesa estava travando uma guerra psicológica, e essa tinha sido sua primeira salva de canhões. Passo um: deixar as crianças saberem que Papai não passa de um grande trapaceiro; passo dois: explicar para as crianças que há outros homens bons por aí, que não são esses trapaceiros grandes e que vão tomar conta da Mamãe; passo três: no momento em que Papai for para a cadeia, contar a elas que ele as abandonou porque não as ama; e, finalmente, o passo quatro: dizer às crianças que será apropriado chamar o novo marido da mamãe de “papai”, pelo menos até que essa nova mina de ouro se esgote, de forma que, nesse ponto, Mamãe será obrigada a sair a campo em busca de um novo Papai para seus filhos.

Respirei fundo e conjurei outra daquelas mentiras brancas. Disse a Chandler:

– Acho que você entendeu mal, querida, eu estava ocupado trabalhando.

– Não – argumentou Chandler, frustrada com minha obtusidade. – Mamãe disse que você pegou dinheiro de outras pessoas e que agora tem que pagar de volta para elas.

Balancei a cabeça em descrença e em seguida dediquei um momento a observar Carter. Ele parecia olhar para mim com desconfiança. Caramba! Será que ele também sabia? Ele só tinha 3 aninhos, e a única coisa com que se importava era com a porra do Rei Leão!

Eu tinha um monte de explicações a dar, não apenas naquele momento, mas também nos dias e anos vindouros. Chandler estaria lendo em breve, e isso iria ajudar a abrir uma nova lata de vermes. O que eu poderia dizer a ela? Senti uma nova onda de desespero me inundar. De certa forma, a Duquesa estava certa, ela estava com a razão… Eu tinha que pagar por meus crimes, embora todos em Wall Street fossem criminosos, não era verdade? No fundo, era apenas uma questão de grau. Ou seja, o que me fez pior que qualquer outra pessoa foi o fato de que fui pego, certo?

Decidi não continuar seguindo essa linha de pensamento. Para mudar de assunto, eu disse:

– Bem, isso realmente não é importante, Channy. Vamos brincar com suas bonecas Barbie.

E depois que você for dormir, pensei, Papai vai descer as escadas até seu estúdio e passar algumas horas pensando em uma maneira de acabar com Mamãe sem ser pego.

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