CAPÍTULO 3
AS OPÇÕES EVAPORAVAM
Estávamos em algum lugar da Grand Central Parkway, perto do limite entre Queens e Manhattan, quando finalmente perdi a paciência com Monsoir.
Era a manhã de uma terça-feira, um dia depois do feriado do Dia do Trabalho, e eu estava a caminho do escritório de meu advogado em Midtown Manhattan, com o monitoramento eletrônico preso ao tornozelo esquerdo, ouvindo seu balbuciar em paquistanês ao volante do carro. No entanto, apesar desses entraves, eu estava vestido para o sucesso, em um terno cinza risca de giz, uma camisa de um branco vivo, gravata vermelha, meias de algodão pretas que, na perna esquerda, escondiam a tornozeleira eletrônica, e um par de mocassins pretos Gucci com pendentes de couro de enfeite sobre cada um.
Vestir-se para o sucesso. Isso era uma coisa que me parecera importante naquela manhã, embora tivesse absoluta certeza de que, mesmo que estivesse usando fraldas e gravata borboleta, meu advogado criminal de confiança, Gregory J. O’Connell, ainda me diria que eu parecia um cara que valia 1 milhão de dólares. Afinal de contas, a primeira tarefa comercial daquela manhã seria entregar a ele um cheque exatamente nesse valor: 1 milhão de dólares. Isso era prioridade, explicou-me Gregory, porque havia uma boa chance, de mais de 50%, de a Procuradoria entrar com um pedido de congelamento de meus bens naquela mesma semana. E os advogados, evidentemente, precisam receber…
Passava um pouco das 10 da manhã, e a hora do rush matinal já tinha acabado. À minha direita eu podia ver os hangares baixos e os terminais do aeroporto La Guardia, parecendo tão encardidos como de costume. Do lado esquerdo já dava para ver o florescente paraíso grego de Astoria, no Queens, que tinha uma concentração de gregos por metro quadrado maior que em qualquer outro lugar do mundo, incluindo Atenas. Eu tinha crescido não muito longe dali, no paraíso judeu de Bayside, que fora um bairro de ruas seguras e que estava agora passando por um processo de invasão de prósperos coreanos.
Tínhamos saído de Old Brookville 30 minutos antes, e desde então aquele terrorista enrustido não tinha parado de falar. Continuava a tagarelar sem cessar sobre o sistema de justiça criminal em seu amado Paquistão. Na maioria dos dias, eu simplesmente teria lhe dito para calar a boca. Naquela manhã, em particular, eu estava desgastado demais para reprimir sua tagarelice. E era tudo culpa da Duquesa.
Fiel à sua palavra, aquela malandrinha loira deu no pé naquele final de semana, passando três dias e três noites nos Hamptons. Eu tinha absoluta certeza de que ela havia ficado em nossa casa de praia naquelas noites, mas não fazia a menor ideia do que fizera durante os dias, e muito menos com quem. Ela não telefonou nem uma única vez, pintando um quadro bem nítido de que estivera ocupada! Ocupada! Ocupada! À procura de uma nova mina de ouro.
Quando Nadine finalmente entrou pela porta de casa, na tarde de segunda-feira, dirigiu-me apenas algumas poucas palavras, algo sobre ter um tráfego brutal na estrada de volta dos Hamptons. Então ela subiu em direção aos quartos das crianças, sorrindo, e os levou para os balanços lá fora. Ela não parecia ter uma única preocupação no mundo, acentuando isso para amplificar sua jovialidade ad nauseam.
Ela empurrava as crianças nos balanços de um jeito muito alegre e, depois de tirar seus próprios sapatos, ficou pulando com elas pelo quintal. Era como se nossa vida não estivesse interligada de nenhuma maneira. Sua tremenda insensibilidade havia enviado minha alma para um mergulho ainda mais fundo. Eu me sentia como se estivesse em um buraco escuro, sufocante, sem escapatória.
Estava sem comer, sem dormir, sem rir e sem sorrir havia quase quatro dias e, naquele momento, com as divagações vazias de Monsoir, estava pensando seriamente em cortar meus pulsos.
Ele tinha começado a falar de novo.
– Eu só estava tentando animá-lo, chefe. Voxê é de fato uma homem de muita sorte. Na minha país, eles teriam cortado sua mão fora se o pegassem roubando um pedaço de pão.
Eu interrompi sua ladainha.
– Sim, isso é mesmo fascinante, Monsoir. Obrigado por compartilhar…
E fiquei algum tempo refletindo sobre os prós e os contras da justiça islâmica. Cheguei rapidamente à conclusão de que, tendo em vistas as atuais circunstâncias, para mim havia pontos positivos e negativos. Pelo lado bom da coisa, a Duquesa não estaria dando uma de durona se fosse obrigada a vestir uma daquelas burcas que cobrem uma mulher dos pés à cabeça e a sair pela cidade desse jeito; e isso iria impedir que aquela loira ficasse andando por aí como a porra de um pavão. Pelo lado negativo, a pena islâmica para os crimes de colarinho branco e para um tarado compulsivo por prostitutas devia ser bastante severa. Eu e meus filhos tínhamos assistido ao Aladdin, da Disney, recentemente, e havia uma cena em que estavam prestes a cortar a mão do rapaz porque ele tinha roubado uma laranja. Ou tinha sido um pedaço de pão? De qualquer maneira, eu tinha roubado bem mais que 100 milhões de dólares e conseguia imaginar qual seria o castigo islâmico para isso.
Mas, pensando bem, eu realmente tinha roubado alguma coisa? Quer dizer, essa palavra, “roubar”, não seria uma espécie de descaracterização do que eu tinha feito? Em Wall Street, nós não éramos de fato ladrões, éramos? Nós simplesmente persuadíamos as pessoas a nos dar seu dinheiro, a gente não roubava deles! Havia uma grande diferença. Os crimes que havíamos cometido eram do tipo suave, como vender o maior número possível de títulos numa mesma conta para inflar nossas comissões, negociar informações privilegiadas ou se envolver em lavagem de dinheiro e evasão fiscal. Eram violações técnicas, mais que qualquer outra coisa. Não era assim um roubo descarado.
Ou era? Bem, talvez fosse… Talvez… Talvez eu tenha levado as coisas a um novo nível. Ou pelo menos era isso que os jornais pensavam.
Nessa altura, a limusine estava passando pelos grandes arcos da Ponte Triborough, e eu já conseguia distinguir a brilhante silhueta dos prédios de Manhattan à esquerda. Em dias claros como aquele, os edifícios pareciam subir todos em direção ao céu. Você poderia sentir o peso de todos eles. Não havia dúvida de que Manhattan era o centro financeiro do Universo, um lugar onde os mandachuvas podiam se mover e se agitar, reunindo-se com os Mestres do Universo como se fossem deuses gregos no Olimpo. E cada um deles era tão trapaceiro quanto eu!
Pois é, pensei, eu não era muito diferente de nenhum outro dono de corretora, fosse do WASP de sangue azul que dirigia o JP Morgan até o branquelo pateta que tocava sua Foda-se Valores Mobiliários (que fica em Foda-se, Minnesota). A verdade é que todos nós pegávamos alguns atalhos. Nós somos obrigados a fazer isso; afinal, se não fosse por qualquer outro motivo, era para, pelo menos, ficarmos acompanhando nossa concorrência. Tal era a natureza da perfeição contemporânea de Wall Street, caso você quisesse ser de fato um verdadeiro e influente corretor.
Então, na verdade, nada daquilo era de fato culpa minha. A culpa era de Joe Kennedy! Sim, ele é que tinha começado essa terrível onda de manipulações, tramas e armadilhas corporativas. Nos anos 1930, o velho Joe foi o verdadeiro Lobo de Wall Street, queimando qualquer um que se colocasse em seu caminho. Na verdade, foi ele um dos principais instigadores da quebra da Bolsa de Nova York de 1929, que mergulhou os Estados Unidos na Grande Depressão. Ele e um pequeno punhado de lobos fabulosamente ricos se aproveitaram de um público desavisado e tomaram dezenas de milhões de dólares em ações de curto prazo que já estavam à beira do colapso, fazendo com que elas caíssem ainda mais.
E qual foi o castigo deles? Bem, a menos que eu esteja mal informado sobre nossa história, o velho Joe se tornou o primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários. Olhe a audácia! Sim, o maior bandido do mercado de ações havia se tornado seu principal cão de guarda! E durante todo o tempo, mesmo sendo o presidente da comissão, ele continuou a derrubar os preços das ações por trás das cortinas, faturando outros milhões.
Eu não era diferente de nenhum deles, não era mesmo.
– VOCÊ É MUITO DIFERENTE de todo mundo – disse Gregory J. O’Connell, meu advogado criminalista de quase 2 metros de altura. – Esse é seu problema.
Ele estava sentado do outro lado de sua fabulosa mesa de mogno, recostado em sua fabulosa poltrona de couro de espaldar alto, segurando a cópia de meu não tão fabuloso indiciamento. Gregory era um homem de boa aparência, em seus 40 e poucos anos, com cabelo castanho-escuro e um queixo bastante quadrado. Tinha uma semelhança impressionante com Tom Selleck, do seriado Magnum, embora para mim parecesse bem mais alto. De fato, inclinado como estava agora sobre a mesa, sua cabeça e seu tronco pareciam ter 1 quilômetro de altura (na verdade, ele tinha 1,95 metro de altura, embora para mim qualquer um que tivesse 1,90 já parecesse suficientemente alto).
– Pelo menos é assim que o governo parece ver você, assim como seus amigos da imprensa, que não se cansam de falar sobre o Lobo de Wall Street – continuou Magnum, com sua voz de tenor e oferecendo conselhos da mesma forma teatral que Enrico Caruso teria feito, caso fosse essa a inclinação dele. – Odeio dizer isso, mas você se tornou o garoto-propaganda da fraude contra os pequenos investidores, Jordan. Foi por isso que o juiz lhe deu uma fiança de 10 milhões de dólares, para fazer de você um exemplo.
Respondi reclamando:
– Ah, é mesmo? Pois bem, tudo isso é um monte de merda do caralho, Greg! Até a última gota! – Ergui-me da poltrona de couro preto onde estava sentado, para elevar-me ao nível de seus olhos. – Todo mundo em Wall Street é safado, e você sabe disso! – Inclinei a cabeça para o lado e estreitei os olhos, desconfiado. – Quer dizer, que tipo de advogado é você, afinal? Eu sou inocente, pelo amor de Deus! Completamente inocente!
– Eu sei – disse meu amigo e advogado pelos últimos quatro anos. – E eu sou a Madre Teresa, a caminho de Roma, fazendo minha peregrinação. E o Nick aqui – ele ergueu o queixo, apontando o terceiro ocupante da sala, seu sócio Nick de Feis, que estava sentado na outra poltrona de couro ao meu lado – é Mahatma Gandhi. Não é mesmo, Nick?
– É Mohandas – respondeu ele, que tinha se formado em primeiro lugar em sua classe em Yale. Ele tinha mais ou menos a mesma idade de Greg e um QI que beirava 7 mil… Era magro, de cabelos escuros cortados bem curtos, olhos intensos e comportamento tranquilo. Com mais ou menos a minha altura, Nick ficava muito bem no terno risca de giz azul, com o colarinho pesadamente engomado e sapatos estilo escocês bem WASP, e a soma disso tudo o fazia parecer um sujeito muito inteligente. – Mahatma não é realmente um nome – continuou o veterano de Yale –, é a palavra sânscrita para “grande alma”, caso você queira saber o significado. Mohandas foi…
Eu o cortei:
– E quem se importa com essa merda, Nick? Porra, eu estou aqui encarando uma condenação para passar o resto da vida na prisão e vocês dois, filhos da puta, ficam tagarelando sobre sânscrito!
Caminhei até uma janela de vidro que ia do piso ao teto e exibia uma vista fantástica para a selva de concreto de Manhattan. Fiquei olhando pela janela, sem expressão, imaginando como diabos eu tinha ido parar ali – e sabendo exatamente como.
Estávamos no 26º andar de um edifício estilo art déco que se levantava 60 andares acima da Quinta Avenida e da Rua 42. Era uma área de Manhattan conhecida como Bryant Park, embora também tivesse sido conhecida como Needle* Park, quando cerca de 200 prostitutas viciadas em heroína, nos anos 1970, tinham orgulhosamente transformado aquele lugar em seu lar. Mas o parque havia muito tinha sido recuperado e era agora considerado um bom local para a classe trabalhadora da cidade desfrutar de uma hora de almoço serena, um lugar onde essas pessoas podiam se sentar em bancos pintados de verde, respirar com calma os gases nocivos de centenas de milhares de carros que passavam e escutar as buzinas estridentes dos 20 mil taxistas imigrantes. Olhei para baixo, para o parque, mas tudo o que eu pude enxergar foi uma faixa de grama verde e algumas pessoas do tamanho de formigas, nenhuma das quais, pelo que pude adivinhar, estava usando aquelas tornozeleiras. Achei tudo aquilo muito deprimente.
Enfim, aquele edifício, o de número 500 na Quinta Avenida, era um lugar especialmente bom para se manter um escritório de advocacia. Na verdade, isso tinha instilado grande confiança em mim quando encontrei Nick e Greg pela primeira vez, quatro anos antes, confirmando uma intuição que eu tive de que aqueles dois jovens advogados ascenderiam rapidamente.
Veja, na época, o escritório de advocacia De Feis O’Connell & Rose não era um dos grandes nomes de Nova York. Eles eram da nova geração, dois afiados e jovens advogados que tinham feito seu nome no gabinete do Procurador-Geral (processando trapaceiros como eu) e que só recentemente tinham se mudado para seu próprio escritório. Era aqui que eles poderiam realmente ganhar dinheiro (defendendo trapaceiros como eu).
O terceiro sócio do escritório de advocacia, Charlie Rose, havia morrido tragicamente de um tumor maligno no cérebro. Mas a placa banhada a ouro na porta de nogueira da frente ainda mantinha seu nome, e havia inúmeras fotos dele nas paredes da área de recepção, na sala de reuniões e também nas paredes das salas de Nick e Greg. Aquele foi um toque sentimental que não passou despercebido para mim. Em minha mente, a mensagem era bem clara: Nick e Greg eram dois caras extremamente leais, o tipo certo de gente a quem eu poderia confiar minha liberdade.
– Por que você não se senta? – perguntou Magnum num tom de voz bastante apaziguador, estendendo o braço de 1 quilômetro de extensão e apontando para minha poltrona. – Você precisa se acalmar um pouco, colega.
– Eu estou calmo – murmurei. – Estou calmo pra caralho. E por que diabos eu ficaria nervoso, afinal? Pelo fato de que posso ser condenado a 300 anos de cadeia? – dei de ombros e tomei meu lugar. – Isso não é tão ruim no esquema geral das coisas, não é?
– Você não corre o risco de pegar 300 anos – respondeu Magnum, em um tom que um psiquiatra normalmente usaria para convencer um suicida a não pular da ponte. – No máximo, são 30 anos; 35 na pior das hipóteses – então ele fez uma pausa, franzindo os lábios como um agente funerário. – Embora exista uma excelente oportunidade de o governo substituir a acusação…
Eu me encolhi na poltrona.
– Substituir? Do que você está falando?
É claro que eu sabia exatamente do que ele estava falando. Afinal de contas, eu estivera sob investigação criminal durante a maior parte de minha vida adulta, então me tornara um especialista nesses assuntos. Mas ainda assim pensei que, de alguma forma, se eu fizesse com que a expressão substituir me soasse como um conceito totalmente estranho, isso tornaria menos provável que a situação de fato acontecesse.
– Deixe-me esclarecer as coisas – disse o rapaz de Yale. – Exatamente agora você está sendo acusado de fraudes de valores mobiliários e lavagem de dinheiro, mas apenas em quatro ações. São grandes as chances de que eles tentem agregar outras acusações, ou seja, substituir as acusações contra você, como seria o termo jurídico. Não fique surpreso se eles tentarem indiciá-lo quanto às demais empresas cujas ações você tornou públicas. No total foram 35, certo?
– Mais ou menos – respondi de modo casual, a essa altura da conversa totalmente entorpecido pela quantidade de más notícias, que fariam um homem normal mijar nas calças.
Sem falar que, no fundo, qual seria a diferença entre 30 e 35 anos? Ambas eram condenações pela vida toda, não eram? A Duquesa já estaria bem longe há muito tempo, e meus filhos já seriam adultos, provavelmente casados e com seus próprios filhos.
E, no meu caso, qual seria meu destino? Bem, eu iria acabar como um daqueles velhos desdentados, o tipo de bêbado inútil que envergonha seus filhos e netos quando aparece na porta da casa deles nos feriados. Eu acabaria como aquele velho presidiário, o senhor Gower, o farmacêutico do filme A felicidade não se compra. Ele tinha sido um homem muito respeitado em sua comunidade até envenenar uma criança inocente depois de receber um telegrama informando que seu filho tinha morrido na Primeira Guerra Mundial. Na última vez em que assisti ao filme, vi a cena em que tinham acabado de jogar água com gás no rosto do senhor Gower, e depois ele era expulso de um bar com um chute na bunda.
Respirei fundo. Caralho… Eu precisava controlar de algum modo essas digressões! Mesmo nos bons tempos, minha mente tinha o hábito de fugir para longe. Então, disse:
– Muito bem, então me digam quais são minhas opções aqui. Porque a ideia de passar 30 anos na prisão não é exatamente algo que me deixa emocionado…
– Beeeeeemmmm – disse Magnum –, da forma como eu vejo as coisas, e sinta-se livre para interromper a conversa, Nick… Você tem três opções. A primeira é lutar essa batalha até o final, enfrentar o júri e ganhar uma absolvição – ele assentiu com a cabeça uma vez, deixando a palavra absolvição pairando no ar. – E se nós ganharmos, bem, tudo estará terminado. Esse assunto vai ficar para trás, de uma vez por todas.
– Não se aplicará o princípio da dupla incriminação – acrescentei, sentindo-me ao mesmo tempo orgulhoso e perturbado por meu conhecimento em direito penal.
– Exatamente – concordou o rapaz de Yale. – Você não poderá ser julgado duas vezes pelo mesmo crime. Vai ser um caso sobre o qual as pessoas vão falar durante anos. Vai ser algo que transformará a Greg e a mim nos reis do pedaço – então ele fez uma pausa e sorriu tristemente. – Mas eu recomendo fortemente que não tome esse caminho. Acho que seria um grande erro levar esse assunto ao tribunal do júri. Estou dizendo isso como seu amigo, Jordan, não como seu advogado.
Nessa altura, Magnum assumiu:
– Compreenda uma coisa, amigo, se fossemos falar como um escritório de advocacia, recomendaríamos que levasse a coisa a julgamento, porque ganharíamos muito mais dinheiro assim… Provavelmente dez vezes mais, num caso como este. Um julgamento complicado desse tipo iria se arrastar para sempre, bem mais que um ano, e o custo seria astronômico: muito mais que 10 milhões…
O rapaz de Yale entrou na conversa:
– Mas, se de fato formos a julgamento e perdermos, será um desastre monumental. Uma catástrofe de proporções bíblicas. Você receberia uma pena de mais de 30 anos, Jordan, e…
Magnum, sobrepondo-se à conversa:
– Você não cumpriria a pena em uma prisão federal, jogando golfe e praticando tênis. Estaria em uma penitenciária federal, ao lado de assassinos e estupradores – disse e balançou a cabeça gravemente. – Seria o inferno na Terra.
Assenti com a cabeça, bastante consciente sobre a maneira como os federais alojavam seus criminosos, de acordo com o tempo: quanto mais anos você tivesse em sua pena, maior era o risco que oferecia à segurança. Qualquer sentença menor que dez anos, sem violência nos registros, e você se qualificava para uma prisão de segurança mínima (existe o Club Med, esse seria o Club Fed). Mas, se sua sentença fosse de mais de dez anos, eles o trancavam em um lugar onde um frasco de vaselina valia muito mais que um caminhão carregado de plutônio.
Greg continuou:
– Agora, falando como amigo, eu ficaria muito chateado de saber que você seria trancado em um lugar desse tipo, especialmente quando há outras opções… Opções muito melhores, eu diria.
E Magnum continuou falando sem parar, mas eu me desliguei. Já sabia muito bem que ir a julgamento de fato não seria uma boa decisão. Sabia que, ao contrário do que muita gente pensava, as sentenças dispensadas aos crimes financeiros eram de longe bem piores que as dadas aos crimes violentos. No fundo, tudo se resumia aos valores envolvidos: se as perdas do investidor tivessem excedido 1 milhão de dólares, a sentença do juiz seria bastante severa. E se as perdas do investidor superassem 100 milhões, como era meu caso, a sentença ultrapassaria todos os limites.
Ainda havia mais, começando pelo fato de que eu era realmente culpado. Isso era algo que Nick sabia, Greg sabia e eu também sabia. Eles dois me representavam como advogados desde o início, desde o verão de 1994, quando cometi o erro fatal de contrabandear milhões de dólares para a Suíça.
Isso acontecera quando eu tinha estado sob pressão regulatória intensa, começando com a Comissão de Valores Mobiliários, que estava obcecada com minha corretora, a Stratton Oakmont. Eu tinha aberto a empresa lá atrás, no outono de 1988, descobrindo um nicho desenfreadamente lucrativo nos títulos de mercado, vendendo ações de 5 dólares para o 1% mais rico dos americanos. Tinha sido exatamente assim que a Stratton se tornara uma das maiores corretoras de valores dos Estados Unidos.
Em retrospecto, as coisas poderiam ter sido muito diferentes. Tão facilmente como isso aconteceu, eu poderia ter seguido o caminho mais seguro e tradicional, abrindo uma empresa que teria como concorrentes e rivais a Lehman Brothers ou a Merrill Lynch. Quis o destino que um de meus primeiros mentores, um verdadeiro gênio chamado Al Abrams, tivesse feito uma aquisição agressiva que se configurou numa violação das leis federais de valores mobiliários. Al era um homem cuidadoso, o tipo de homem que mantinha canetas antigas na gaveta de sua mesa, de forma que, quando colocasse datas retroativas em seus documentos, a tinta combinasse com os dados cromatográficos do FBI. Al passava boa parte de seus dias tentando prever os movimentos dos agentes regulatórios abelhudos e cobrindo os rastros que porventura deixasse.
E foi ele quem me ensinou.
Assim, do mesmo modo que Al, eu também tinha agido de forma cuidadosa, cobrindo meus rastros com o zelo e o entusiasmo de um atirador de elite atrás das linhas inimigas. Desde os primeiros dias da Stratton, eu estava ciente de que cada negociação que fazia, cada negócio que fechava e cada palavra que dizia ao telefone poderia um dia vir à tona sob o microscópio das agências reguladoras. Portanto, sendo legítimas ou não, minhas ações deveriam parecer que eram.
Em consequência, fiz o pessoal da Comissão de Valores Mobiliários subir pelas paredes quando eles me processaram, no outono de 1991, esperando uma vitória fácil. Eles até se estabeleceram em minha sala de reuniões por vários dias, com o intuito de me intimidar. Infelizmente, as coisas não correram como eles planejavam: acabei instalando microfones ocultos em minha própria sala de reuniões e, ao ajustar o termostato a temperaturas extremas, congelava-os durante o inverno e assava-os durante o verão. Então, contratei o ex-chefe deles, um homem chamado Ike Sorkin, para me proteger, me defender e minar a investigação deles a cada conjuntura. Enquanto isso, entre 1991 e 1994, estava faturando coisa de 50 milhões de dólares por ano, ao passo que esses jovens investigadores (todos recebendo 30 mil dólares por ano) desistiram, imersos em frustração e desgraça e sofrendo com terríveis casos de queimaduras ou desidratação, dependendo da estação do ano.
Com o passar do tempo, acabei resolvendo meu caso com a comissão. “Paz honrosa”, como chamou meu advogado, embora para mim tenha sido uma vitória arrasadora. Concordei em pagar uma multa de 3 milhões de dólares e, então, fui caminhar calmamente ao pôr do sol. O único problema é que eu não conseguia desistir de tudo aquilo. Eu tinha ficado intoxicado por toda a riqueza e o poder, enganchado e preso em toda uma geração de jovens habitantes de Long Island me chamando de rei ou de Lobo. A palavra de ordem do dia era gratificação instantânea, e os fins justificando os meios eram o instrumento para garanti-la. Exatamente por isso, e do nada, a Stratton saiu de controle. E eu junto com ela…
No começo da década de 1990, o Lobo de Wall Street estava usando suas presas. Ele era meu diabólico alter ego, uma personalidade muito distante da criança que meus pais tinham entregado ao mundo. Meu senso de certo e errado tinha praticamente desaparecido, minha linha de moralidade havia sido enviada para o lado negro por meio de uma série de minúsculos e quase imperceptíveis passos, que juntos me levaram firmemente ao lado errado da lei.
O Lobo era um personagem desprezível, que traía a mulher, dormia com prostitutas, esbanjava quantias obscenas de dinheiro e via os regulamentos das transações de valores como nada mais que obstáculos rasos para serem vencidos em um único salto. Ele justificava suas ações fazendo uso de racionalizações absurdas, ao mesmo tempo que enterrava a culpa e o remorso de Jordan Belfort debaixo de quantidades enormes de drogas perigosas.
Enquanto isso, o governo continuava se aproximando… O problema seguinte foi a NASDAQ, que se recusava a listar qualquer empresa da qual o Lobo fosse o acionista majoritário. A solução dele, por mais insana que possa parecer agora, foi contrabandear milhões de dólares para a Suíça, utilizando a lendária legislação de sigilo bancário para tentar se transformar num homem invisível. Usando uma série de empresas de fachada, contas numeradas e documentos habilmente forjados, parecia ser um plano perfeito.
Mas, desde o início, ele também parecia estar amaldiçoado. Os problemas começaram quando meu principal transportador de fundos foi preso nos Estados Unidos com meio milhão em dinheiro, e os problemas terminaram (em desastre) quando meu banqueiro suíço foi preso alguns anos depois, também nos Estados Unidos, no momento em que começou a cooperar contra aqueles meus envios de fundos.
Nessa época, um jovem agente do FBI chamado Gregory Coleman estava obcecado pelo Lobo, prometendo capturá-lo. Numa série de investidas que se transformaram em um jogo de gato e rato que se tornou lendário dentro do FBI, Coleman seguiu meu rastro em papel por meio mundo e depois de volta ao lar. Finalmente, depois de cinco anos de trabalho braçal batendo pernas por milhares de quilômetros, ele conseguira ligar pontos suficientes para garantir um indiciamento.
Então, lá estava eu, depois desse indiciamento, vítima de minha própria imprudência e da persistência obcecada de Coleman. E lá estava Magnum, passando agora para a segunda opção, que era fazer um acordo.
– Embora eu não possa lhe prometer de quanto seria o tempo da sentença, não acredito que venha a ser algo mais do que sete anos, no máximo oito – e deu de ombros. – Vamos pensar em oito, para ser mais pessimistas.
– De jeito nenhum! – retruquei. – Vamos usar sete e sermos otimistas, pelo amor de Deus! Esses são meus anos, não a porra dos seus anos, então se eu quiser usar sete deles é uma prerrogativa minha!
O homem de Yale interveio:
– Tudo bem, tudo bem, sete anos é um bom número para a gente trabalhar. São 84 meses antes das reduções, e…
Cortei o discurso do homem de Yale.
– Ah, ótimo, vamos falar dessas minhas reduções de pena! Sinta-se livre para exagerar, se quiser. Prometo que não vou processar vocês por negligência…
Ambos sorriram respeitosamente, e o homem de Yale retomou a conversa:
– Bem, a primeira possibilidade de progressão prisional é a redução por bom comportamento. Você ganha 15% para cada ano cumprido. Ou seja, se falamos de 15% descontados de 84 meses… – ele olhou para Magnum. – Você tem uma calculadora?
– Esqueça a calculadora – balbuciei eu, o gênio da matemática. – São 71 meses e meio. Mas vamos deixar por 71, só para arredondarmos. O que mais?
O homem de Yale prosseguiu:
– Bem, você tem seis meses numa casa de recuperação para drogados, o que é quase como estar em casa. Isso deixa você com 65 meses.
Magnum entrou na conversa:
– E ainda temos seu programa de reabilitação, o que, tendo em vista seu histórico, o deixa qualificado para se beneficiar disso – disse e soltou uma risadinha, olhando para Nick. – Talvez ele pudesse inclusive dar esse curso, não acha, Nick?
– Uma coisa a se pensar – respondeu o homem de Yale, encolhendo os ombros engomados. – Você daria um excelente professor, Jordan. Tenho certeza de que faria com que as aulas fossem muito interessantes. De qualquer forma, podemos tirar esses 12 meses relacionados ao programa de tratamento do vício em drogas, o que nos deixa agora com 53 meses.
Magnum disse:
– Você está entendendo o que estamos lhe mostrando aqui, Jordan? A coisa não é assim tão ruim quanto você pensava.
– Sim, claro… – fiquei um momento pensando sobre meu destino.
Quatro anos e meio… Bem, isso era certamente melhor do que me arriscar a enfrentar um julgamento e acabar me tornando um novo senhor Gower. Eu ainda poderia cumprir minha pena no Club Fed, jogando golfe e praticando tênis, e ser libertado próximo de meu aniversário de 40 anos. Claro, precisaria pagar uma multa pesada, mas ainda teria dinheiro suficiente para emergir da prisão como um homem rico.
E então tudo me veio à mente: talvez eu fosse capaz de vender esse cenário para a Duquesa! Talvez ela ficasse quando soubesse que eu ia encarar apenas quatro anos e meio na cadeia… embora pudesse reduzir um pouco esse tempo, dizendo a ela que eu ia ficar apenas quatro anos. Como ela iria saber que eu estava mentindo? De repente, eu podia dizer a ela que eram 48 meses. Qual dos dois parecia mais curto? Provavelmente os 48 meses, ou então eu talvez devesse dizer 47 meses e continuar com um “Isso é menos que quatro curtos anos, querida!”.
Uau, aquilo soava agradável! Menos que quatro curtos anos, querida! Não seria mais longo que um soluço, uma coisa que poderia acontecer com qualquer homem de poder. Sim, eu iria explicar isso à Duquesa, e ela iria entender. Afinal, eu tinha sido um ótimo provedor durante todos aqueles anos. Então, por que ela haveria de perder seu tempo pesquisando uma nova mina de ouro quando a minha, que ela já possuía, estaria de volta às operações em menos de quatro curtos anos, querida?
– … sempre poderia cooperar – disse Magnum, erguendo as sobrancelhas duas vezes em rápida sucessão. – Agora, se você seguir por esse caminho, é possível que não passe nem um dia na cadeia; poderia conseguir liberdade condicional no ato. Apesar de provavelmente ter que cumprir um ano ou pouco mais.
Eu tinha estado tão ocupado fantasiando sobre a traição da Duquesa que perdi a primeira metade do que Magnum estava dizendo. Aparentemente, ele tinha começado a explicar qual seria minha terceira opção: cooperação, também conhecida como delação, ser informante, traíra, dedo-duro. Pode chamar como quiser, decidi ignorar a última parte da explicação de Magnum, referente as suas previsões, e disse, com um leve traço de esperança na voz:
– Não vou ter de passar um dia sequer na cadeia?
Magnum deu de ombros e respondeu:
– Isso é uma possibilidade, como eu disse. Não é uma garantia. Assim que você se tornar uma testemunha cooperativa, as normas de condenação são jogadas pela janela. O juiz pode, a partir daí, fazer como ele quiser. Ele pode lhe dar liberdade condicional, pode sentenciá-lo a um ano de prisão ou, em teoria, pode sentenciá-lo com a pena mais severa que existir. Agora, no seu caso, você tem o juiz Gledson, que eu considero o juiz perfeito para um processo como este. Ele compreende a importância da cooperação com a Justiça, de forma que deve ser justo com você.
Assenti lentamente com a cabeça, sentindo que havia uma luz no fim do túnel.
– Então ele é pró-defesa?
– Não – replicou Magnum, furando minha bolha de sabão. – Ele não é pró-defesa e não é pró-governo tampouco. Ele é um juiz que fica exatamente no meio e dança de acordo com sua própria música. O juiz Gledson é um dos mais inteligentes juízes do Distrito Leste, de modo que ninguém vai ser capaz de jogar areia nos olhos dele, nem você nem a Promotoria Pública. Mas isso é uma coisa positiva, porque, se você fizer a coisa certa, John será justo. Isso é tudo que posso lhe prometer… Ah, não o chame de John no tribunal, a menos que prefira ser preso por desacato – ele sorriu e piscou. – Basta chamá-lo de meritíssimo e tudo ficará bem.
Nesse momento, o homem de Yale interveio:
– Greg conhece John como ninguém mais. Eles trabalharam juntos no gabinete do Procurador, são amigos.
Espere um minuto. Ele acaba de dizer que eles são amigos? Quer dizer que meu advogado é amigo do juiz? Aquilo era música para meus ouvidos.
Agora as coisas estavam fazendo sentido. Eu sempre soube que Magnum seria o advogado perfeito para mim. Eu até desconsiderei o fato de que ficar de pé ao lado dele me fazia parecer pequeno como com um camarão. No fim de tudo, veja só como as coisas tinham terminado bem! Por pura coincidência, meu advogado era amigo do juiz, o que significava que ele daria uma piscada sutil assim que o juiz estivesse prestes a anunciar minha sentença; nessa altura o juiz acenaria de volta a Magnum tão sutilmente quanto e depois diria: “Jordan Belfort, apesar do fato de você ter roubado 100 milhões de dólares e corrompido toda uma geração de jovens americanos, estou lhe dando uma pena de 12 meses em condicional e 100 dólares de multa”.
Enquanto isso, a Duquesa estaria sentada no tribunal, vestida com esmero e agradecendo a sua estrela da sorte por ter abandonado sua busca por uma nova mina de ouro. Afinal, a mina de ouro do Lobo estava prestes a reabrir para extração de minério, e tudo isso simplesmente porque seu advogado era amigo do juiz!
Sorri calorosamente para Magnum e disse:
– Bem, essas são realmente boas notícias, Greg – assenti lentamente com a cabeça, deixando escapar um suspiro de alívio. – Por que você não me contou desde o início que era amigo desse juiz? Esse é um desenrolar fantástico para toda essa história. Realmente fantástico, se você pescar minha isca – pisquei para Magnum de forma conspiratória, esfregando o dedão e os dois primeiros dedos da mão juntos, como se estivesse dizendo “Basta me dizer de quanto você precisa para subornar esse juiz!”, e depois pisquei uma vez mais.
– Ei, ei, ei! – exclamou Magnum, em um tom grave o suficiente para despertar os mortos. – John não é esse tipo de juiz! É um cara completamente honesto. Ele é do tipo que um dia vai acabar nomeado para a Suprema Corte. Ou no mínimo para o Tribunal de Apelações. De qualquer forma, ele não vai fazer nada que seja impróprio.
Que desmancha-prazeres de merda!, pensei. Meu próprio advogado não ia me ajudar e, em vez disso, estava tentando acabar com minha confiança. Eu me segurei para não mandá-lo se foder e repliquei:
– Bem, eu não gostaria de fazer nada que comprometesse as aspirações de carreira de ninguém. Enfim, não acho que eu possa me transformar em uma testemunha cooperativa, de forma que esse é um ponto discutível.
Magnum pareceu surpreso.
– Mas por que você está dizendo isso?
– Pois é! – acrescentou o rapaz de Yale, atordoado. – Discordo totalmente. Você seria uma excelente testemunha para o governo. Por que está pensando o contrário?
Deixei escapar um profundo suspiro.
– Por uma série de razões, Nick, e a não menos importante é o fato de que estou bem no topo da cadeia alimentar. Qualquer pessoa que eu denunciar estará numa posição mais baixa que a minha. Sem falar que a maioria das pessoas nas quais o governo poderia estar interessado são meus melhores amigos. Por isso, me digam, como diabos vocês acham que eu poderia delatar meus melhores amigos e manter pelo menos um grama de respeito próprio? Eu não seria capaz de andar por Long Island com a cabeça erguida. Eu seria um leproso – fiz uma pausa, balançando a cabeça em desespero. – E se eu decidir cooperar, vou ter de dizer a verdade sobre todos os meus crimes, contar tudo a eles, não é assim?
Ambos concordaram.
Eu disse:
– Foi o que pensei. Então, quer dizer que basicamente estarei confessando ser culpado de todos os negócios que fiz, o que significa que minha multa vai ser enorme. Vão tirar tudo de mim – o que também significaria dar tchauzinho pra Duquesa – e eu teria de recomeçar do zero. Não acho que eu possa lidar com isso agora. Tenho uma esposa e dois filhos em quem pensar. Quer dizer, o que é melhor? Passar quatro anos na cadeia, enquanto minha família vive no luxo, ou passar um ano na prisão, enquanto minha família se pergunta de onde virá sua próxima refeição?
– Calma, não é uma coisa assim tão simples e direta – replicou Magnum. – Quer dizer, sim, definitivamente você vai se declarar culpado de tudo. É assim que as coisas funcionam quando se passa a cooperar com o governo. Mas não, você não vai ficar absolutamente sem nada. O governo vai lhe deixar com alguma coisa para seu sustento, talvez algo como 1 milhão de dólares, por aí. Mas todo o restante vai embora: as casas, os carros, as contas bancárias, sua carteira de ações, tudo!
Houve alguns momentos de silêncio. Então, Nick disse, com grande fervor:
– Mas você é um cara novo, Jordan. E ainda é um dos caras mais inteligentes que já conheci na vida! – afirmando isso, sorriu tristemente. – Você vai reconstruir sua vida. Memorize minhas palavras, você vai refazer sua fortuna. Um dia vai voltar ao topo novamente, e ninguém em sã consciência apostaria contra você.
– Ele está certo – acrescentou Greg. – Se você acha que este é o fim para você, está seriamente enganado, meu amigo. Este é o começo. É hora de começar sua vida de novo. Você é um vencedor. Nunca se esqueça disso. – Ele fez uma pausa por um breve instante. – Sim, você cometeu alguns erros ao longo do caminho, alguns erros absurdos. Mas isso não desmente o fato de que você é um vencedor. Da próxima vez, fará as coisas direito. Estará mais velho e mais sábio, irá construir sua vida em bases mais sólidas do que alicerces de areia. E então ninguém será capaz de tirar isso de você. Ninguém.
Ele acenou com a cabeça lenta e sabiamente.
– Quanto a delatar seus amigos, bem… Eu não ficaria tão preocupado. Se isso acontecesse com qualquer um deles e os papéis estivessem trocados, pode acreditar, cada um deles se voltaria contra você. Neste exato momento, o que você precisa fazer é o melhor para si e para sua família. É só isso que importa. Esqueça o resto do mundo, porque certamente eles vão se esquecer de você – disse Magnum, que de repente adotou um tom nostálgico. – Sabe, a gente costumava usar um ditado na Procuradoria: os italianos cantam na Mulberry Street e os judeus cantam na Court Street*. Em outras palavras, as pessoas ligadas à máfia não cooperam, elas não “cantam” sobre quem são os outros mafiosos. Mas isso é tudo um monte de merda agora. Com a RICO*, as penas agora começam em 20 anos de prisão e vão daí para cima. Por isso, os mafiosos começaram a cantar também. Os judeus cantam, os italianos cantam, os irlandeses cantam, todo mundo canta.
Ele deu de ombros.
– Seja como for, o maior problema que vejo em sua cooperação se chama Joel Cohen, o promotor assistente do seu caso – ele soltou um grande suspiro. Então, como se fosse uma batida em staccato, disse: – Joel Cohen é um sujeito em quem não se pode confiar. Vou repetir: não se pode confiar nele. É um ovo podre no cesto.
Foi nesse momento que Nick entrou na conversa:
– Greg tem razão no que está dizendo. Já passamos por experiências ruins com esse Joel no passado. Veja bem, a forma como as coisas funcionam quando você coopera é a seguinte: o promotor assistente deve escrever uma carta ao juiz atestando quanto você tem sido útil nas investigações e como tem sido uma ótima testemunha, e assim por diante. Então, de acordo com a lei, Joel terá de escrever a carta, mas é aqui que as coisas ficam um pouco complicadas. O conteúdo da carta depende exclusivamente dele, ou seja, se ele quiser ferrar com você, poderá pintar a carta em tons bem negativos para seu lado. E então você estaria numa merda total…
– Bem, foda-se! – murmurei. – Parece que um desastre se aproxima, caralho – balancei a cabeça em espanto. – E, sem querer ofender, mas não preciso que vocês dois fiquem aí me contando como esse Joel é idiota. Eu poderia dizer isso só de olhar para a cara dele. Quer dizer, vocês não viram como ele foi desprezível na audiência preliminar de fiança? Se dependesse dele, eles iriam me pregar na cruz!
– Mas não depende dele – argumentou Magnum. – Na verdade, provavelmente nem será Joel a escrever sua carta quando chegar a hora. Veja bem, se você cooperar, o processo vai se arrastar por uns quatro ou cinco anos, e você não receberá sua pena até que sua cooperação esteja completa. Há uma grande chance de que Joel já tenha saído do gabinete a essa altura, ingressando em nossas humildes fileiras, dos advogados de defesa.
Passamos os minutos seguintes debatendo os prós e os contras de minha eventual cooperação com o governo, e quanto mais eu aprendia sobre isso, menos me parecia atraente. Ninguém estaria a salvo, fora de perigo; eu seria forçado a delatar todos os meus velhos amigos. A única exceção seria meu pai, que tinha sido Diretor Financeiro da Stratton (ele não tinha feito nada ilegal, de qualquer forma), e minha assistente de longa data, Janet1 (que tinha feito coisas ilegais, mas que estava tão lá embaixo na pirâmide que ninguém se importaria com ela). Greg me garantiu que conseguiria “passe livre” para os dois.
O que mais me incomodava, porém, era a ideia de delatar meu antigo sócio, Danny Porush, que havia sido indiciado junto comigo e ainda estava na prisão, tentando conseguir fiança. E havia também meu melhor e mais antigo amigo, Alan Lipsky. Ele também estava sendo acusado, embora seu processo fosse apenas parcialmente relacionado com o meu. Nós éramos melhores amigos desde que usávamos fraldas. Ele era mais meu irmão que meu próprio irmão.
Exatamente nesse instante, soou um barulho insolente do telefone de Greg. A secretária disse de maneira bem casual:
– Joel Cohen está na linha um. Você vai atender ou devo dizer que retornamos mais tarde?
Naquele exato momento, dentro da sala de canto da firma de advocacia De Feis O’Connel & Rose, no 26º andar do edifício, você poderia ouvir um alfinete caindo ao chão. Nós três ficamos apenas sentados ali, um olhando para a cara do outro, boquiabertos.
Eu fui o primeiro a falar:
– Esse traidor filho da puta! Ele já está substituindo as acusações! Puta merda! Puta merda do caralho!
Magnum e o homem de Yale concordaram com a cabeça. Então Magnum colocou o dedo indicador nos lábios, dizendo um rápido “Psssst!”, e pegou o telefone.
– Oi, Joel, e aí?… Ahã, ahã… Certo. Bem, acontece que estou com sua pessoa favorita sentada bem aqui a minha frente neste exato instante… Certo, é isso mesmo. Estávamos por acaso conversando sobre o flagrante ato disfuncional da Justiça que é essa coisa toda – Greg me deu uma piscadela confiante e, em seguida, recostou-se na poltrona, começando a balançar. Ele era um guerreiro poderoso, pronto para assumir o controle sobre aquele insolente Joel Cohen. Magnum poderia esmagá-lo com um só golpe. – Ahã… Ahã… – continuou Magnum, balançando para a frente e para trás na poltrona. – Ahã… Ahã… – então, de repente, seu rosto demonstrou surpresa e ele parou de se balançar em seu fabuloso trono de couro preto, como se o dedo de Deus tivesse acabado de descer sobre sua cabeça. Meu coração perdeu uma batida antes de Magnum falar. – Ei, ei, ei, calma aí, Joel. Devagar. Não faça nada precipitado. Você não pode estar falando sério sobre isso… Ela não é do tipo de… Ahã… Ahã… Bem, vou conversar com ele sobre isso. Mas não faça nada até eu retornar. Certo?
Ela?, pensei. Mas de que porra Magnum estava falando? Ela quem? Janet? Será que eles estavam querendo pegar Janet? Mas não fazia nenhum sentido. Janet era uma mera assistente, a troco de quê eles iriam atrás dela? Um Magnum visivelmente abalado desligou o telefone e murmurou as seis palavras mais venenosas que eu já tinha ouvido na vida. Ele falou, sem um traço de emoção na voz:
– Eles vão indiciar sua mulher amanhã.
Houve alguns momentos de silêncio aterrador, e então, subitamente, dei um pulo da cadeira onde estava sentado e gritei:
– O quê? Mas nem fodendo! Como eles podem fazer isso? Ela não fez nada! Como eles podem indiciar minha Duquesa?
O homem de Yale jogou as mãos para o ar e encolheu os ombros. Então ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas nenhuma palavra saiu. Virei-me para Magnum e disse, em um tom de desespero:
– Caralho, ah, meu Deus! Merda! Mas que porra de merda!
– Acalme-se – disse Magnum. – Você precisa se acalmar. Joel não vai fazer nada por enquanto. Ele prometeu esperar até que eu conversasse com você.
– Falar comigo sobre o quê? Eu… Eu não estou entendendo. Como eles podem acusar minha esposa de alguma coisa? Ela não fez nada!
– De acordo com o que Joel me disse, eles têm uma testemunha que diz que ela estava no quarto com você quando estava contando dinheiro. Mas ouça bem: os fatos não são realmente importantes. Joel não tem interesse em processar Nadine. Ele deixou isso bem claro para mim. Ele quer apenas que você coopere; esse é o começo e o fim de tudo. Se você cooperar, sua esposa fica livre. Caso contrário, eles vão prendê-la amanhã. A decisão é sua.
Dizendo isso, Magnum olhou para seu relógio de pulso. Era um daqueles propositalmente discretos, supercaros, com uma pulseira de couro marrom-chocolate e uma face branco-pérola. Devia ter custado uns 20 mil dólares, calculei, mas era o tipo de relógio que supostamente anunciaria “Eu sou um sujeito tão confiante e bem-sucedido que não tenho necessidade de usar um relógio de pulso de ouro reluzente para projetar uma imagem de sucesso e de confiança”. Magnum acrescentou:
– Ele me deu até as 4 horas para retornar, ou seja, em quatro horas a contar de agora. Diga-me o que você quer fazer.
Bem, estava claramente óbvio que eu não tinha escolha. Eu teria de cooperar agora, independentemente das consequências. Afinal, eu não podia deixar Joel indiciar minha esposa. Nem em um milhão de anos.
Espere um segundo! De uma vez só, uma série de pensamentos deliciosos borbulhou em meu cérebro, começando com: Como a Duquesa poderia me deixar se ela também fosse indiciada? Ela estaria presa a mim, certo? Nós seríamos como duas ervilhas numa vagem. O que quero dizer é: qual homem em seu juízo perfeito iria assumir o ônus de uma mulher indiciada e com duas crianças?
Sim, a Duquesa podia ter uma bunda de categoria internacional, sem dúvida, mas duas crianças novinhas e um processo federal pairando sobre a cabeça dela a tornariam muito menos atraente para a nova mina de ouro.
Na verdade, eu seria obrigado a dizer que praticamente todas as minas de ouro existentes, ou pelo menos as mais produtivas, iriam rapidamente fechar seus veios para uma mulher envolvida em tais circunstâncias terríveis. Ela se tornaria, em si, uma história de advertências, uma jovem mulher com mais bagagem que o depósito de achados e perdidos do aeroporto Kennedy.
Então, sim, essa seria a resposta. Não havia outra maneira: eu deixaria que a Duquesa fosse comigo para o meio do fogo. Deixaria que ela fosse indiciada também. E ela, então, não teria outra escolha a não ser continuar casada comigo. Esse era o único movimento lógico que me restava fazer. Era meu único movimento racional. Olhei Magnum nos olhos, torci os lábios subversivamente e disse:
– Telefone para aquele rato e diga a ele para se foder – fiz uma pausa por alguns instantes e observei cada gota de cor desaparecer de seu bonito rosto comprido. E então acrescentei: – E então, depois de dizer isso, pode contar que eu irei cooperar.
Ouvindo isso, Magnum e o rapaz de Yale deixaram escapar um sopro gigante de ar. Continuei:
– O que quero dizer é que realmente não me importo mais, mesmo se eu for para a cadeia por 20 anos. Realmente, não dou mais a mínima.
Foi ironia pura, evidente. Minha mulher tinha me traído e ia me largar em meu momento mais sombrio e desesperado, mas eu ainda estava disposto a desembainhar minha espada para protegê-la. Não venha me falar que o mundo está de cabeça para baixo…
Magnum concordou com a cabeça lentamente.
– Você está tomando a decisão correta, Jordan.
– Está mesmo, e no fim as coisas vão se resolver – acrescentou Nick.
Olhei para o homem de Yale e dei de ombros.
– Pode ser que sim, Nick, mas pode ser que não. Só mesmo o tempo para dizer. Seja como for, sei que estou fazendo a coisa certa. Disso eu sei com certeza. Nadine é a mãe de meus filhos, e eu não vou deixá-la passar nem um dia sequer na cadeia, não se eu puder evitar.