CAPÍTULO 15

O MARAVILHOSO MUNDO DO CARMA

Aquilo era carma, pensei.

Afinal, depois de três dias que eu passara o recado a Dave Beall, que outra explicação poderia haver para o fato de a Duquesa ter me chamado para conversar sobre reconciliação? Na verdade, não era uma plena reconciliação, mas foi um grande passo na direção certa.

– Então – disse minha saborosa Duquesa, andando de braço dado comigo ao longo da beira da água –, se você me comprar uma casa nos Hamptons, eu acho que vai ser muito bom para nós. A gente se livra da casa em Old Brookville e podemos nos ver o tempo todo. Quem sabe o que pode acontecer a partir daí, certo?

Eu assenti com a cabeça e sorri calorosamente enquanto caminhávamos em silêncio por alguns momentos. Estávamos andando para oeste, na direção do sol, e apesar de ser abril estava quente o suficiente para as 5 horas da tarde, de forma que nossas jaquetas azuis de náilon combinando eram tudo de que precisávamos para nos proteger contra a brisa salgada do mar.

– De qualquer forma – continuou a Duquesa –, eu fiquei muito brava com você durante um tempo. Eu nunca soube direito o que aconteceu, quer dizer, eu achei que soubesse, mas sei lá, eu meio que coloquei debaixo do tapete, junto com um monte de outras coisas. – Ela parou por um momento, apertando meu braço. – Mas eu sou tão culpada quanto você por tudo isso. Veja, todos esses anos, eu realmente achei que estava te ajudando, mas de fato eu estava te matando. – Ela balançou a cabeça, triste. – Mas como eu ia imaginar? Eu era tão codependente naquela época, eu não sabia mais que caminho tomar…

– Sim – eu disse, suavemente –, você está certa, mas apenas sobre a última parte. O que aconteceu com as drogas não foi culpa sua, não foi de fato culpa de ninguém, apenas aconteceu. Lentamente, insidiosamente, aquilo se arrastou para cima da gente.

Ela assentiu, mas não disse nada. Eu, de minha parte, segui em frente, em um tom otimista:

– De qualquer forma, eu era um viciado em drogas e você era uma codependente, e juntos fizemos uma confusão danada. Mas pelo menos conseguimos sair vivos, certo?

– Sim, mais ou menos – disse ela. – Eu tive de trabalhar duro comigo mesma nos últimos seis meses. Você sabe, codependência é uma doença terrível, Jordan – ela balançou a cabeça com seriedade –, uma doença terrível, terrível, e eu me tornei a mais clássica codependente que se pode ser…

– Sim – respondi solenemente, mas que porra de piada era aquilo? Codependência, caralhodependência… blá-blá-blá! Toda essa porra era risível. Tudo bem, a Duquesa tinha sido codependente, mas a ponto de quê, de procurar um grupo de autoajuda que teve a audácia de se chamar Codependentes Anônimos? Ainda assim, quando a Duquesa começou a falar sobre isso pela primeira vez, eu tentei manter a mente aberta. Na verdade, eu até perguntei a George se ele já tinha ouvido falar do tal grupo e, surpreendentemente, ele me disse que tinha. Sim, eles existiam, mas ninguém os levava a sério. Era um clube de mulheres que odiavam homens, acima de tudo, um lugar onde eles transformavam mulheres dóceis em pit bulls. Em resumo, concluiu George, eles eram perigosos.

Mas essa era a Duquesa: sempre aspirando a ser perfeita em alguma coisa, e aquele era seu último show, ser perfeitamente codependente. Então eu não tinha escolha, a não ser dançar conforme a música e fingir que a codependência era a última moda. Pelo lado positivo das coisas, apesar de tudo, qualquer motivo que a fizesse deixar de lado sua pá de garimpar novas minas de ouro estava bem para mim.

Foi então que senti uma cutucada brincalhona.

– No que está pensando? Estou vendo você com uma cara de pensativo…

– Nada – respondi. – Eu estava pensando em quanto eu ainda amo você.

– Bem, eu também te amo – disse ela. – Eu sempre vou te amar.

Merda! A segunda metade de sua declaração não fora nada encorajadora! Afinal de contas, dizendo que sempre me amaria, ela estava inferindo que seu amor não era de natureza conjugal, em outras palavras, do tipo “abra as pernas”. Em vez disso, era do tipo “você é o pai de meus filhos” ou “compartilhamos uma história juntos”, ambos inaceitáveis para mim. Eu queria um amor conjugal. Eu queria um amor vigoroso. Eu queria aquele tipo de amor que nós costumávamos dividir, antes de eu ser burro o suficiente para me deixar ser indiciado! Ainda assim, era um começo, um ponto de partida para que eu pudesse manobrar a Duquesa…

– Bem – eu disse, confiante –, enquanto ainda amarmos um ao outro, podemos resolver as outras coisas, certo?

Ela assentiu com a cabeça lentamente.

– Com o tempo, sim, mas precisamos nos tornar amigos primeiro. Nós nunca fomos realmente amigos, Jordan. No início, tudo o que rolou foi sexo, quer dizer, quase não paramos para respirar, sabe?

– Sim – respondi e pensei: que diabos havia de errado nisso?

Aqueles tinham sido os melhores momentos de minha vida, porra! Todas aquelas tardes preguiçosas em que fizemos amor no closet, todas as noites na praia, a maneira como tínhamos transado no estilo cachorrinho na parte de trás da limusine, uma vez no cinema, durante Entrevista com o vampiro, enquanto um velho casal na fila de cima revirava os olhos. Quem poderia pedir mais que isso?

– Sim, isso mesmo – acrescentou a Duquesa. – Éramos como dois maníacos sexuais!

De repente, ela parou e se virou para mim. Estava de costas para o oceano agora, seu cabelo loiro brilhando à luz do sol da tarde. Ela parecia um anjo, meu anjo!

– Então, o que você acha, querido? Você vai me comprar a casa? – ela fechou os lábios em um biquinho irresistível.

– Não sou contra isso – respondi rapidamente, debatendo se devia ou não dar-lhe um beijo –, mas, com tudo o que está acontecendo agora, você não acha que faria mais sentido se mudar para cá? – fiz um gesto em direção às dunas. – Vamos fazer uma tentativa e ver o que acontece, Nae! Se não funcionar, eu compro a casa em dois segundos.

Ela balançou a cabeça, triste.

– Eu não posso fazer isso ainda, não estou pronta. – Então, nervosamente, ela acrescentou: – É o dinheiro? É o governo incomodando?

Eu balancei a cabeça, negando.

– Não, eu ainda posso gastar o que quiser, desde que seja razoável.

– Bem, o que Greg diz?

Eu sorri.

– Qual Greg? Greg meu advogado ou o outro Greg?

– Greg, seu advogado!

Eu sorri novamente.

– Ele não fala muito, Nae. Ele está tentando negociar o melhor acordo que puder, basicamente é isso. Mas a boa notícia é que ele acha (acha!) que podemos manter as casas por um tempo, pelo menos até que eu seja condenado, e que isso deve demorar uns quatro anos, por aí. Portanto, temos algum tempo.

Ela não deixou passar:

– Onde é que eu fico? Você vai me comprar a casa ou não? Custa apenas 1 milhão de dólares, Jordan. É muito menos que Old Brookville, então eu tenho certeza de que o governo vai ficar feliz com isso, não?

Eu dei de ombros.

– Acho que sim, mas, ainda assim, preciso de aprovação para isso – disse, e só então algo estranho me ocorreu. – Você já encontrou uma casa, Nae?

Ela encolheu os ombros inocentemente.

– Não… na verdade, não. Quer dizer, eu fui ver algo que seria perfeito para as crianças e para mim… – então, como uma reflexão tardia – e talvez para você também um dia! – Ela sorriu ansiosamente. – Então, o que você acha, querido? Você vai comprá-la para mim?

Eu sorri de volta, pensando em como seria maravilhoso viver com a Duquesa e com as crianças novamente! Nada mais de boquetes de judias nem das russas Natashas, como seria maravilhoso!

– Eu acho que devemos olhar a casa agora – respondi, sorrindo, mas o que eu não disse foi: “Antes de realmente comprá-la para você, Duquesa, eu vou procurar ter certeza de que não está me manipulando!”.



– ELA ESTÁ MANIPULANDO VOCÊ – exclamou meu antigo detetive particular, Richard “Bo” Dietl, sentado à minha frente em uma mesa para dois no Caracalla. – Tenho certeza disso, Bo.

– Talvez – respondi –, mas eu preciso ter certeza. Você sabe, eu estava começando a me desligar dela quando ela telefonou, e agora estou de novo fisgado… – Fiz uma pausa e balancei a cabeça com raiva. – Mas é isso, Bo, se ela me foder dessa vez, está tudo acabado pra sempre.

– Isso é justo – disse Bo, cético –, mas eu ainda acho que é um carma ruim, esse seu planis. E não é legal, também.

Dei de ombros evasivamente, espantado pela forma como eu entendia a maneira de Bo falar, que exigia que se desconsiderasse aquele estranho hábito dele de chamar todos à sua volta de Bo (apesar de seu próprio apelido ser Bo), e que também desconsiderasse a terminação is em tudo que ele dizia, adicionando-a a uma palavra qualquer, como um humorista da TV. Assim, um plano virava um planis e um almoço virava um almocis. Ainda assim, Bo era mais esperto que uma raposa e, por acaso, era o melhor detetive particular da praça.

– Eu não estou muito preocupado com a parte do carma ruim – respondi, casualmente –, pois eu tenho feito algumas coisas muito boas nos últimos tempos. – Sorri conscientemente, resistindo à vontade de explicar a Bo que a razão de ter escolhido o Caracalla era porque eu tinha criado um carma muito bom da última vez em que estivera ali (passando a nota para Dave Beall) e que eu estava certo de que estava mais que compensando qualquer carma ruim que pudesse ser criado com meu último plano, de grampear as reuniões dos Codependentes Anônimos da Duquesa. – Quer dizer, estou transbordando de carma bom, Bo.

– Tudo bem – disse ele –, mas ainda assim não posso grampear a salis pra você. Se formos pegos, eles vão nos jogar na cadeia por causa disso.

Dei de ombros novamente e então dei um tempo, avaliando Bo.

Como sempre, ele estava vestido impecavelmente, com seus quase 100 quilos e 1,80 metro envoltos em um terno cinza de 2 mil dólares, uma camisa branca impecável fechada no pescoço com uma gravata cinza de crepe atada num perfeito nó estilo Windsor. Na mão esquerda, ele usava, no dedo mindinho, um anel de diamante que parecia pesado o suficiente para fazer levantamento de peso, e junto com o resto do corpo, o pescoço do tamanho de um gorila, os traços bonitos, a barba acinzentada perfeitamente aparada, a cabeça com cabelos rareando, ele realmente exalava um cheiro de mafioso elegante.

Claro, Bo não era um mafioso, ele simplesmente tinha crescido em torno deles, naquela parte de Ozone Park, Queens, onde um garoto de ascendência irlandesa e italiana como Bo tinha apenas dois caminhos possíveis: tornar-se policial ou mafioso. Assim, ele tinha se tornado policial, subindo rapidamente na polícia de Nova York e ganhando seu distintivo de ouro ainda muito jovem. Ele então se aposentou bem cedo e usou seus contatos, em ambos os lados da lei, para construir sua empresa, Bo Dietl e Associados, e torná-la uma das empresas de segurança privada mais respeitadas do país.

Ao longo dos anos, Bo tinha sido uma enorme vantagem para mim, fazendo de tudo, desde proteger minha família até investigar as empresas que tornei públicas, além de assustar os ocasionais bandidos de baixo nível que tinham cometido o erro de querer abrir caminho à força nos negócios da Stratton. Agora, no entanto, Bo não tinha ideia de que eu estava cooperando; talvez ele suspeitasse, pensei, mas ele era muito profissional para perguntar. Além disso, se chegasse a esse ponto, Bo era meu amigo, e como qualquer amigo ele não iria me colocar em uma posição em que eu tivesse de mentir para ele.

– Eu entendo o que você está dizendo – respondi a Bo –, mas não estou pedindo que grampeie a sala.

Ele deu de ombros.

– Então o que você está me pedindo para fazer, me esconder dentro da porra do armário?

Eu sorri calorosamente.

– Não, não, não, eu nunca lhe pediria uma coisa tão sorrateira e dissimulada. O que eu quero que você faça é grampear uma de suas agentes do sexo feminino e infiltrá-la na reunião – pisquei. – Enquanto o grampo estiver nela, é legal, certo?

Bo olhou para mim, espantado. Eu continuei:

– De qualquer forma, estou bem certo de que uma conversa gravada com um dos lados consentindo é perfeitamente legal – preferi não dizer a ele por que eu estava tão certo disso. – Então, enquanto o grampo estiver nela, estamos limpos – ergui as sobrancelhas rapidamente por duas vezes. – É um plano muito bom, você não acha, Bo?

– Caralho! – murmurou Bo. – Você é um maluco fodido, meu amigo!

Eu dei de ombros.

– Vou encarar isso como um elogio, vindo de um cara como você. Enfim, eu só posso imaginar o que essas mulheres dizem nessas reuniões. Quer dizer, pense nisso: nós seremos como duas moscas na parede. Se não houver nada demais, pelo menos vai ser a gargalhada do século!

Bo, o homem das cavernas, completou:

– Que porra é essa merda de codependente, afinal? Parece um monte de merda para mim – ele balançou a cabeça, descrente. – Eu aposto com você que algumas dessas mulheres poderiam se beneficiar de um tempo num hospital psiquiátrico. Você entende o que eu estou dizendo, Bo?

Eu balancei a cabeça, concordando.

– Sim, compreendo exatamente o que você está dizendo, mas essa é a mais recente viagem da Duquesa: ela é uma codependente aspirante e não há nada que se possa fazer sobre isso. De qualquer forma, você vai fazer isso para mim, Bo? Você vai embarcar nessa comigo até o fim?

– Sim – respondeu ele, sem entusiasmo. – Estou com você, Bo. Mas se sua esposis descobrir alguma coisa sobre isso, ela vai crucificá-lo!

Afastei essa preocupação dele com um aceno da mão no ar.

– Não se preocupe com isso, Bo. Nenhum de nós dois vai contar a ela, então, como caralhos ela vai descobrir?

Exatamente nessa hora um garçom alto e magro veio com nossas bebidas. Ele usava um bolero vermelho, uma gravata-borboleta preta e nenhuma expressão no rosto. Entregou a Bo um copo de Jack Daniel’s e para mim uma Coca-Cola. Bo olhou para o garçom e disse:

– Traga-me mais um desses drinquis, Bo, vai?

O garçom olhou para Bo, confuso. Bo pressionou:

– O que há de errado, Bo?

Eu disse para o garçom:

– Ele gostaria de outro, por favor.

O garçom assentiu e saiu.

Bo balançou a cabeça, desgostoso.

– Garçom de merda – murmurou. – O cara mal fala nossa língua e eles colocam esse porra pra servir nosso almocis. É uma farsa, porra. – Com isso, Bo ergueu o copo. – Enfim, espero que você tenha a resposta que está procurando, Bo, porque minha experiência com essas coisas é que os pensamentos secretos de uma mulher nunca são bonitos.



– QUE BANDO DE MULHERES MALUCAS! – murmurou Debbie Starling.1

Isso aconteceu duas noites depois, quando uma das agentes favoritas de Bo, Debbie Starling, murmurou aquelas palavras de um telefone em Long Island, a poucos quarteirões de onde tinha ocorrido a reunião das Codependentes Anônimas da Duquesa. Bo e eu estávamos no viva-voz.

– Nunca ouvi nada parecido com isso – acrescentou. – Quer dizer, nem mesmo sei como descrever a vocês. Era como se… Hã…

Houve alguns momentos de silêncio, enquanto eu estava sentado na ponta da cadeira, e Bo, presumi, estava sentado na ponta de sua própria cadeira. Ele estava trabalhando até tarde naquela noite de quarta-feira, ainda em seu escritório, à espera do relatório de Debbie depois da reunião.

Eu nunca tinha encontrado Debbie, mas, de acordo com Bo, ela parecia perfeita para o trabalho. Com 40 e poucos anos, tinha passado a maior parte de sua carreira acampada em um banco de parque, parecendo sexy e vulnerável, à espera da possível abordagem de um assaltante. Quando isso acontecia, ela o atraía e depois fechava as algemas nele. Então ela soprava o apito e meia dúzia de policiais de Nova York saía das sombras e dava um cacete no cara, para em seguida prendê-lo.

Ainda assim, não foi isso o que impressionou Bo sobre Debbie, especialmente para aquela operação. Na verdade, tinha mais a ver com o fato de Debbie ter frequentado um clube de teatro em sua época de faculdade e ganhado elogios da crítica. Ela era perfeita, Bo dissera. Era uma atriz nata, que poderia se infiltrar naquele clube tipo “menino não entra” mais rápido do que a Duquesa poderia dizer codependência! Então ele a grampeou com seus gravadores e microfones e enviou-a para trás das linhas inimigas.

Finalmente, a aspirante a atriz falou:

– Olha, talvez eu pudesse explicar dessa forma: vocês já viram o filme Jerry Maguire?

– Sim – respondemos, em uníssono.

– O.k., bem, lembram-se da cena na sala de estar da casa de Renée Zellweger, onde todas as mulheres divorciadas estão sentadas, reclamando e gemendo, chamando os homens de o inimigo?

– Sim – respondemos novamente.

– Bem, foi assim, mas multiplicado por 20!

Todos nós paramos de falar após essa frase, mas depois de alguns segundos eu já sentia vontade de saltar pelo fio do telefone e fazê-la contar tudo. Bo recuperou a compostura e disse:

– Tudo bem, Debbie, então o que se passou na Terra da Fantasia nessa noite?

– Bem – disse Debbie –, parece que a esposa de Jordan é a líder por lá. Será que isso é uma surpresa para você, Jordan?

– Não, não é – respondi. – É assim que ela é. Tudo aquilo que para ela é o interesse do momento, ela mergulha de cabeça. Hoje ela é uma aspirante a codependente, amanhã ela poderia ser uma astronauta aspirante; não tem explicação, mas eu a amo mesmo assim.

– Bem, ela é muito bonita – observou Debbie.

Não brinca! Por que outra razão você acha que eu sou apaixonado por ela? Por causa de sua personalidade, porra? Ela é capaz de deixar um desfile inteiro de soldados malucos!

– Obrigado – disse –, mas não é por isso que eu a amo, Debbie. A beleza é apenas superficial – enquanto a feiura vai direto ao osso, pensei. – É a personalidade dela que eu amo: seu mau humor, seu raciocínio rápido, o jeito como ela se mostra uma concorrente digna, enfim… – e o jeito como ela me fazia boquete enquanto eu dirigia a Ferrari na hora do rush, enquanto os caminhoneiros buzinavam em apreciação. – Quer dizer, sua aparência não tem nada a ver com isso, absolutamente nada.

Houve alguns momentos de silêncio, enquanto minha besteira ficava pairando no ar como a poluição de Los Angeles. Bo finalmente falou:

– Tudo bem, então qual é o veredicto, Debbie? Será que ela o ama ou não?

– Sim, ela o ama – disse Debbie, o que me fez sentir um grande alívio –, mas ela também o odeia – e senti uma grande angústia! Debbie parou por um momento. – Mais que qualquer coisa, acho que ela está confusa.

– Confusa sobre o quê? – perguntei.

– Sim – acrescentou Bo. – Que porra é essa de se sentir confusa? Não foi ela quem foi indiciada, caralho… Essas porras dessas mulheres são inacreditáveis!

Debbie, com paciência, falou:

– Você já terminou, Bo?

– Sim, já terminei – murmurou ele. – Então, qual é a história com a casa?

Eu imediatamente me endireitei.

– Ah, ela falou dessa coisa de East Hampton?

– Não diretamente – disse Debbie. Que merda!, pensei – Embora ela de fato tenha dito que queria sair de Brookville.

Eu me animei novamente.

– Ah, é mesmo? Ela disse por quê?

– Sim, ela disse que seu nome está nos jornais o tempo todo, e ela está se sentindo envergonhada – a angústia e tristeza de novo! – Ela diz que as pessoas estão olhando para ela de um jeito engraçado, especialmente na escola de sua filha. Ela só quer ficar longe de tudo e levar as crianças com ela.

– Bem, isso não parece muito promissor – comentei.

– Não mesmo – concordou Bo. – Eu acho que é hora de você parar com essa coisa de procurar casis. Entendeu, Bo?

– Eu não tiraria conclusões apressadas – rebateu Debbie. – Veja, logo depois de ela dizer isso, começou a falar que ainda o amava. Ela disse que sentia falta de estar com você…

– Ah, isso é ótimo! – festejei.

– Bem, vá com calma você também… – alertou Debbie. – Um segundo mais tarde, ela disse que esperava que você morresse em um incêndio, algo assim. Dessa forma, ficaria livre de você para sempre.

– Você pode imaginar uma coisa dessas? – rosnou Bo. – Você não pode confiar nessas fêmeas nem por um segundo! Basta virar as costas e elas enfiam a faca!

Debbie, perdendo a paciência, disse:

– Você não está sendo construtivo, Bo. – Uma breve pausa, e então: – Ouça, Jordan, como eu disse, ela anda muito confusa. Talvez você deva dar um tempo, apenas lhe dar uma brecha para resolver as coisas. Então talvez ela volte para você, não sei… Enfim, existe uma coisa que me parece certa, Jordan.

– O que é? – perguntei.

– Ela odeia o pai ainda mais do que o odeia.

– Bem, isso é reconfortante – disse. – Ele a abandonou quando Nadine tinha 3 anos.

– Então, onde é que isso nos deixa? – Bo perguntou a Debbie. – Pode nos dar um parecer sobre esse assunto?

– Bem, não vou me sentir confortável fazendo isso – disse Debbie. – Talvez, se voltar na próxima semana, eu possa saber mais. Tenho certeza de que ela não suspeita de nada. Fui recebida no grupo de braços abertos. Eu acho que elas ficaram felizes em arrastar mais alguém para sua infelicidade…

– Isso pode levar um longo tempo, Bo – disse Bo.

– Eu não tenho muito tempo – respondi. – Minha mulher não vai parar de me pressionar, eu a conheço.

Eu estava ficando sem tempo por outras razões, também, razões que eu não podia compartilhar com Bo e Debbie. No mês seguinte eu iria me apresentar diante do juiz, dar entrada em minha confissão de culpa e teria de preencher uma ficha financeira atestando todos os meus bens. Claro, tudo isso seria feito em segredo, nada seria anunciado até o ano seguinte, antes que minha cooperação se tornasse pública. Mas, ainda assim, era o melhor momento para vender a casa de Old Brookville, antes que eu terminasse minha declaração de bens.

Bo disse:

– Tem de haver uma maneira de fazê-la confessar tudo mais rapidamente.

A ex-atriz complementou:

– Talvez se eu pudesse criar amizade com ela. Quer dizer, se eu entrasse na próxima reunião chorando histericamente, tipo dizendo que meu marido me bate ou coisa assim… – A atriz parou por um momento. – Do pouco que eu sei sobre sua esposa, Jordan, acho que ela viria correndo me ajudar.

Ah, caralho!, pensei. Eu estava indo direto para o inferno com aquilo… Não havia nenhuma maneira de eu deixar isso acontecer. Nunca! Nem em um milhão de anos!

– Essa é uma ideia incrível, Debbie! Você podia convidá-la para tomar um drinque e então fazê-la abrir o bico. Você devia ver como ela fica depois de uns dois tragos, é como o soro da verdade! – Meu Deus, o que eu estava dizendo? – E eu sei o lugar perfeito para levá-la, chama-se Buckram Stables. É um ponto de encontro dos velhos WASPs em Locus Valley; é agradável e tranquilo, de forma que dá para fazer uma gravação bem nítida.

– Isso é terrível – disse Bo. – Eu não posso permitir que isso aconteça sem dar a Debbie algum tipo de bônus, se ela tocar adiante e der certo.

– Bem, obrigada – disse Debbie –, mas não tenho medo: vou conseguir. Vou levar uma cebola comigo e tirar a casca no carro antes de ir para a reunião. Vou entrar naquela igreja com lágrimas descendo pelo rosto!

Houve alguns momentos de silêncio.

– Merda! – disse Bo. – Isso é ruim, muito ruim. Vamos fazer isso logo!

– Eu não posso permitir que isso aconteça – disse eu, com força. E então continuei: – O único problema é que agora está fora de meu controle. É, já foi decidido. Então, o que eu posso fazer?

– Nada – respondeu Bo. – Nós já passamos do ponto de retorno.

– Ótimo – disse Debbie. – Vou comprar a cebola!



O CLUBE DAS MENINAS que odiavam os meninos se reunia uma vez por semana, às quartas-feiras, e os encontros duravam uma hora, terminando às 8 da noite. Já passava de 11 horas e eu ainda não tinha tido notícias de Bo. Então estava caminhando de um lado para o outro em minha sala de estar, tentando manter a calma e calculando quanto carma bom eu ainda tinha em meu tanque de carma.

De certa maneira, a Duquesa tinha atraído aquilo para si mesma, não é mesmo? Quer dizer, que homem não iria querer conhecer os pensamentos secretos de sua esposa? Eu não era pior que qualquer outro marido obcecado! A única diferença era que eu tinha recursos para levar as coisas um pouco mais adiante que a maioria dos homens. Além disso, se ela estava disposta a compartilhar seus pensamentos secretos com a primeira pessoa estranha que aparecesse em seu caminho… Bem, isso faria com que seus pensamentos secretos se tornassem de domínio público.

Na verdade, eu me sentia bastante confiante em receber boas novas naquela noite. Depois de tudo, eu havia repassado todas as coisas que Debbie nos contara na semana anterior e, em resumo, tinha destilado os pensamentos interiores da Duquesa em duas verdades simples. Verdade um: ela ainda me amava, mas estava confusa. Verdade dois: com o tempo, ela iria sentir tanta falta de fazer amor comigo que não teria outra escolha a não ser voltar. Sim, até mesmo naquele dia na praia ela tinha levantado esse assunto específico em duas ocasiões: uma vez como simples maníacos sexuais (o que foi, certamente, uma coisa boa) e também comentando sobre como a gente nunca parava para respirar (que foi uma coisa ainda melhor!). Claro, eu tinha ouvido aquelas fofocas perturbadoras sobre ela e Michael Bolton e sobre ela e seu personal trainer, Alex, o Desprezível, mas, provavelmente tinha sido apenas fofoca…

Encorajado por aquelas verdades, tinha telefonado para Magnum na semana anterior e contado sobre o que estava acontecendo com a Duquesa.

– Será que o Canalha vai fazer alguma objeção se eu vender minha casa em Old Brookville para comprar uma casa muito mais barata nos Hamptons?

Magnum respondeu com um otimismo cauteloso. Ele estava mergulhado até os joelhos em profundas negociações com o Canalha, dissera, que estava sendo o Canalha de sempre. No entanto, Magnum achou que ele iria olhar positivamente para qualquer coisa que fizesse eu cortar minhas despesas. De toda maneira, ele esperava ter um acordo definitivo no início de maio, quando eu iria me colocar na frente do juiz Gleeson e dar entrada em minha declaração de culpa.

Nesse momento, o telefone tocou. Devia ser Bo! Corri em linha reta para a cozinha. Quando cheguei ao telefone, congelei, parado no lugar. Não era o telefone, era o sistema de intercomunicação que estava ligado ao telefone. Alguém estava no portão da frente! Quem seria? Com cuidado, peguei o telefone.

– Alô…

– E aí, Bo – disse Bo. – Sou eu, Bo!

– Bo? – respondi a Bo. – O que você está fazendo aqui?

– Deixe-me entrar. Eu estou fazendo uma entrega pessoal, Bo.

Eu respirei fundo, tentando manter a calma e acompanhar todos aqueles Bo-Bos… Só poderia ser uma boa notícia, pensei. Por que outra razão Bo teria vindo até Southampton? Se fosse má notícia, ele teria me telefonado, a não ser, claro, que fosse uma dessas pessoas que ficam contentes em ver de perto a infelicidade dos outros. Não, Bo não era assim! Como eu poderia pensar uma coisa dessas? Ele era um verdadeiro amigo e provara sua lealdade a mim mil vezes. Ele só queria me dar a boa notícia em pessoa.

–E aí, Bo! – disse Bo. – Você vai abrir o portãozis ou o quê?

– Sim, sim – eu disse. – Desculpe, Bo.

Apertei o código do portão e fui até a porta.

Poucos minutos depois, estávamos sentados à mesa da sala de jantar, sob um lustre de ferro forjado, que custara uma fortuna. Pousado sobre a mesa de madeira branqueada estava um pequeno gravador. Bo ainda estava para revelar o conteúdo da fita, porque continuava explicando como a ex-atriz Debbie Starling tinha tido um desempenho digno do Oscar, rapidamente se esgueirando para dentro das barreiras da Duquesa e conquistando sua confiança.

– … e o truque da cebolis funcionou como mágica – ele estava dizendo. – Debbie cheirou, começou a espirrar e logo as lágrimis estavam escorrendo pelo rosto, enquanto ela contava para sua esposa como o marido tinha dito que ela era isso e aquilo e aquilo outro… E claro que a… Hã… Duquesa ficou muito comovida com isso, porque é assim que lida com tudo. – Bo encolheu os ombros. – Então, as duas já estavam amigas antes mesmo de a reunião começar.

Eu balancei a cabeça e cocei o queixo, pensativo.

– Bem, isso parece bem legal, mas… Então, o que ela disse durante a reunião?

Bo balançou a cabeça lentamente.

– Não se trata do que ela disse durante a reunião, mas do que ela disse após a reunião.

Eu fiquei mais animado.

– Ah, é mesmo? Elas foram jantar?

Bo começou a esfregar a barba.

– Saíram para um drink – respondeu. – Você sabe, tipo in vino veritas.

– Interessante – disse eu. – Então, que verdades o vino arrancou?

Bo torceu os lábios e balançou a cabeça, resignado.

– Bem, eu acho que você pode parar com sua caçada por uma casa, Bo. Não é recomendado dadas as… Hã… circunstâncias atuais.

De uma vez só, senti meu coração despencar até o estômago. A Duquesa estava me enganando! Mas que safadeza! Até onde ela iria descer? Brincar comigo para comprar uma casa mostrou uma total falta de ética da parte dela.

Bo continuou:

– Você sabe, eu vim aqui essa noite porque eu vejo você mais como amigo que como um cliente… – Ele fez uma pausa, olhou para o gravador, que não era maior que um baralho de cartas, e então olhou para cima. – Então, quero fazer um acordo, Bo. Toda essa coisa de gravaçãozis já deu uns 5 paus até agora, mas se você me deixar destruir a fita antes de ouvir, digo que fica elas por elas. Vou pagar Debbie do meu próprio bolso. Mas, se você me fizer pressionar o play, então você tem que me pagar. A decisão é sua.

Com o coração apertado, olhei para o gravador. Caramba, era uma maquininha diabólica, aquela! Tão pequena, tão minúscula… E tão enganadora do caralho! Ela era a portadora de más notícias, portadora de um carma ruim.

– Isso não pode ser tão ruim assim, Bo, pode?

Bo deu de ombros.

– Como eu disse, Bo: in vino veritas.

Eu balancei a cabeça lentamente, com o mais triste dos sorrisos no rosto. Depois, soltei uma risada curta que queria dizer “Então, é assim” e outra risada que também dizia “É o fim da linha, o fim de um casamento, o fim de toda minha falsa esperança”. Meu casamento é um caixão, pensei, e esse é o último prego que coloco nele. Olhei Bo nos olhos e disse:

– Toque essa porra de fita!

Bo assentiu e apertou o play.

Tudo o que eu pude ouvir no início foi um zumbido baixo e algum ruído de fundo, e então uma troca de palavras murmuradas com o garçom. Bo disse:

– Avancei a fita para a parte boa. Elas estão no Stables, prestes a fazer um brinde. Ouça…

Assenti com a cabeça, coloquei os cotovelos na borda da mesa da sala de jantar e cruzei os braços, um em cima do outro. Então descansei minha fronte perturbada sobre eles, olhando para o gravador do mal a partir de um ângulo lateral. Era tudo tão terrível. Eu tinha grampeado minha própria mulher, a mãe de meus filhos! O que Bo tinha dito? Os pensamentos secretos de uma mulher…

Só então ouvi a voz da Duquesa, muitíssimo feliz.

– Aqui está, para quebrar um ciclo!

E a surpreendentemente crível resposta da atriz:

– Sim! Para quebrar o ciclo de codependência!

Então, o tilintar inconfundível de copos de vinho.

– Você acredita nessa merda? – murmurou Bo. – Eu nunca ouvi falar dessa merda de codependência antes. É uma porra alucinante.

Eu balancei a cabeça, concordando. Então a Duquesa recomeçou a falar. Ela estava reclamando de mim, dizendo que eu tinha dormido com prostitutas enquanto estávamos casados. Bem, o que ela esperava? Ela havia sido minha amante, caralho! Ela sabia muito bem o que eu podia aprontar bem antes de se casar e agora jogava isso na minha cara…

De repente, fiquei alerta.

– Bem, tenho feito o melhor sexo da minha vida ultimamente, eu vou dizer para você! Sabe, os últimos anos com meu marido foram tão chatos, a mesma posição o tempo todo…

O quê… Mas como ela pôde? Ela estava me castrando na frente de Debbie, uma estranha total! Alguém que trabalhava para mim! Como poderia a Duquesa dizer que eu era uma merda na cama? Não! Eu costumava enlouquecê-la! Ela costumava me chamar de seu pequeno príncipe…

Sem pensar direito, deixei escapar uma olhada em direção a Bo, para avaliar sua reação. Ele estava olhando para mim? Ele estava sorrindo? Não. Ele não estava. Bo estava olhando para o gravador, seu rosto uma máscara de concentração. Ele acenava com a cabeça devagar. E rangia os dentes, como faz uma pessoa quando está tentando decifrar alguma coisa. De repente, ele olhou para cima. Eu abri a boca para me defender das acusações infundadas da Duquesa. As palavras não saíram. Eu não conseguia pensar em nada para dizer. A Duquesa tinha me castrado na frente de Bo também. Negá-lo seria apenas me fazer parecer culpado.

Só então Bo sorriu e balançou a cabeça.

– É tudo mentira, Bo! Toda mulher diz que o marido é uma merda na cama. Faz parte do processo – ele deu de ombros. – Mas, se acontecer de você dar uma cutucada nela de novo, você deve tomar uns Viagris antes de colocar seu pau nela; daí você vai ensinar uma lição pra ela!

Com isso, ele piscou e olhou novamente para o gravador. Eu descansei a testa de novo em meus braços, preparado para mais dor.

– De qualquer forma – disse a voz na fita –, eu tive um pequeno lance com meu personal trainer por um tempo, e foi muito bom – eu sabia! –, mas aí cansei dele e comecei a namorar Michael Bolton. Você o conhece? O cantor?

A voz de Debbie parecia surpresa.

– Sim, claro! Como ele era?

A voz da Duquesa:

– Ah, ele era bom. Muito romântico, na verdade. Passamos um fim de semana juntos no Hotel Plaza. Nós nos hospedamos na suíte presidencial e ele encheu todo o quarto com flores frescas. – A voz na fita riu. – Como eu disse, ele era muito romântico.

Eu olhei para Bo.

– Essa cadela ingrata! – eu disse. – Você sabe quantas vezes eu enchi a suíte presidencial com flores para ela? Ela se esquece disso!

Bo assentiu, compreensivo, e então apontou para baixo, em direção ao gravador.

– Ouça isso, Bo. Essa é a parte em que fica bom.

Eu balancei a cabeça, incrédulo, e olhei para o pequeno e maligno gravador. Traga mais dor, pensei.

A voz da Duquesa, enfiando mais a faca, continuou:

– De qualquer forma, houve alguns outros também: eu conheci um jogador profissional de golfe, enquanto estava na Pensilvânia aprendendo sobre codependência, e então fiquei com um dos meus ex-namorados por um período, apesar de ter sido apenas pelos velhos tempos. – E continuou, muito mais feliz: – Mas agora estou envolvida com um cara que é dono de uma enorme confecção! Eu gosto dele, na verdade, embora ele seja um pouco fechado emocionalmente. Vou ter que esperar para ver.

A voz da atriz:

– Então você acha que seu marido vai comprar-lhe a casa?

Uma Duquesa de repente cansada respondeu:

– Bem, ainda estou trabalhando nisso. Ele é muito liso, então tenho de saber lidar com ele. Veja, eu sei que ele ainda quer voltar comigo, então meio que uso isso como vantagem, você sabe, dando a entender que ainda há uma possibilidade. – Uma pausa, e então: – Eu sei que não é a melhor coisa a se fazer, mas não tenho muita escolha, entende? E não vou levá-lo no bico mais tempo do que precisar; quando eu o convencer a comprar a casa, peço o divórcio no dia seguinte. Aí eu posso seguir em frente com minha vida. Talvez me apaixonar por um dos empreiteiros locais ou um eletricista. Isso seria…

Bo apertou o botão de parada.

– Você ouviu o suficiente, Bo?

Olhei para Bo, sem palavras. A Duquesa tinha acabado comigo na fita. No entanto, de tudo o que ela disse, o comentário sobre fazer sexo na mesma posição todas as vezes foi o que mais me feriu. Tinha de haver algumas palavras que eu pudesse dizer a Bo para compensar esse comentário venenoso. Quebrei a cabeça atrás delas. Elas não existiam. Eu tinha sido oficialmente emasculado. A coisa mais importante era ter certeza de que Debbie juraria segredo. O que ela deveria estar pensando de mim?

– Está tudo bem, Bo? – perguntou Bo.

Eu balancei a cabeça lentamente.

– Sim, eu estou bem. Eu estou bem – respirei profundamente e forcei um sorriso. – De qualquer forma, parece que ela ainda não se decidiu, não é, Bo? Talvez ainda haja esperança, certo? – eu comecei a rir.

Bo sorriu calorosamente.

– Esse é o espírito, Bo. Você só tem que rir disso tudo.

Eu balancei a cabeça, sorri tristemente e olhei em volta de minha linda casa, maravilhado com seu esplendor… E o quão pequeno tudo parecia. O tempo mais feliz que passei tinha sido com Denise, quando a gente não tinha nada.

Só então Bo estendeu sua enorme mão e a colocou em meu braço, apertando-o suavemente. Em um tom muito sério, ele disse:

– Ouça-me, Bo, porque não vou falar merda para você. O que aconteceu com você ao longo dos últimos seis meses não deveria acontecer com ninguém. Não estou jogando confete. É uma merda. Tudo é uma merda – ele balançou a cabeça lentamente. – Mas você tem que respirar fundo agora e recolher os cacos, entendeu? É hora de ser um homem. Você entende, Bo? Ser um homem?

Eu balancei a cabeça.

– Sim – respondi suavemente. – Entendo.

Ele apertou meu braço com mais força.

– Nenhuma mulher pode ter o melhor de você, Bo, nem esposa, nem namorada, nem amante, nem ninguém. Exceto uma. Você sabe quem é, Bo?

Eu assenti com a cabeça lentamente, lutando contra as lágrimas.

– Chandler – respondi suavemente.

– É isso mesmo, Bo, Chandler. Ela é a única que importa agora, o resto delas vai entrar e sair da sua vida. E você deve isso a ela, endireitar a coluna e manter a cabeça erguida, e você deve isso a seu filhinho também – Bo sorriu nostalgicamente. – Eu me lembro de quando ele nasceu e quase morreu de meningite. Eu nunca vou esquecer como meu coração afundou quando Rocco me ligou do hospital e me disse o que estava acontecendo. Fui à igreja e fiz uma oração para ele naquela noite.

Eu assenti com a cabeça, enxugando uma lágrima no canto do olho.

– Bem, funcionou. Ele é um bom garoto. Está crescendo forte.

Bo sorriu.

– Sim, Bo, ele vai continuar crescendo, e então ele vai procurá-lo um dia para que você mostre a ele o que significa ser um homem e que não importa quanta merda venha em sua direção, você sempre pode sair por cima – Bo encolheu os ombros largos. – E é isso, Bo, essa é a maneira como são as coisas. Seus filhos são suas constantes, eles são os únicos que podem mantê-lo seguindo em frente em merdas como essa. De qualquer forma, você está prestes a descobrir quem são seus verdadeiros amigos e quem estava junto apenas pelo passeio. Lembre-se, as amizades compradas com o dinheiro…

– Não duram muito tempo – completei.

Bo assentiu.

– Tem mais. Lealdade comprada com dinheiro…

– Não é lealdade de verdade – acrescentei.

– Exatamente, Bo.

Com isso, ele estendeu a mão para o gravador, apertou o botão de ejetar, retirou a fita e segurou-a no ar. Então disse:

– Até onde sei, essa coisa toda nunca aconteceu – ele colocou a fita no bolso interno da camisa. – Você não me deve nada por isso, Bo. Tudo que eu quero é sua amizade, porque eu, por mim, sou realmente seu amigo. E sempre serei.

E eu sabia disso.

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