CAPÍTULO 29

O DIA DO JULGAMENTO FINAL

5 de julho de 2003


Dezessete meses depois

Os procedimentos estavam ocorrendo exatamente do jeito que eu pensei que aconteceriam. Eles me fizeram fugir do tribunal do juiz Gleeson para que pudesse vomitar meu café da manhã com privacidade. Ainda assim, tinha chegado a hora de acabar com aquela loucura, de deixar tudo para trás. Eu tinha estado livre sob fiança por muito tempo, e todo mundo no tribunal sabia disso. Todo mundo, não só o juiz Gleeson, mas Magnum e o homem de Yale, que estavam em pé a meu lado, e Alonso e TOC, que estavam em pé ao lado deles. Todo mundo parecia bastante elegante no dia de minha condenação.

A área reservada ao público estava cheia, no máximo da capacidade, repleta de amigos e de inimigos. Eles estavam sentados atrás de uma espessa balaustrada de madeira com tampo curvo, a chamada Barra da Justiça, e estavam todos tão quietos como ratos de igreja. Entre eles havia uma dúzia de promotores de Justiça (os amigos, acredite ou não), quase a mesma quantidade de jornalistas (os inimigos, é claro), um punhado de completos estranhos que estavam lá simplesmente para observar a condenação de um homem (sádicos, percebi) e meus amados pais, Mad Max e Santa Leah, que estavam lá para dar apoio moral.

Já haviam passado 10 minutos do processo, e Magnum apresentava meu caso a Gleeson, dizendo que minha multa deveria ser muito menor que a de Danny. Gleeson tinha batido nele com 200 milhões em restituição, que seriam pagos em parcelas de mil dólares por mês. Com base nisso, o valor estaria totalmente pago em um pouco mais de 16 mil anos, quando estivéssemos na próxima Era Glacial, época em que o dinheiro não iria significar tanto. De qualquer forma, eu ainda achei que 200 milhões em restituição era algo ultrajante. Não que eu não merecesse isso, mas como diabos eu poderia poder pagar? Na verdade, eu não pagaria; de acordo com Magnum, aquilo era mais simbólico que qualquer coisa. No entanto, ele ainda se sentiu compelido a apresentar o caso a Gleeson.

Gleeson o interrompeu e disse:

– Desculpe interromper, senhor O’Connell. Às vezes, a restituição é quase um ato simbólico, mas não neste caso. O senhor Belfort é um ganhador, por falta de melhor termo para defini-lo. Ele vai ganhar muito dinheiro depois que sair da prisão.

– Isso eu entendo – disse Magnum –, mas o valor determinado no caso Porsuch estava muito longe... – Que merda! Por que Magnum estava querendo arranjar briga com o juiz Gleeson? Qual era a ideia, porra? Basta deixá-lo me acertar com uma multa simbólica e decidir uma pena leve para mim na prisão. – ... de se negociar – continuou Magnum. – Eu só não posso concordar com algo que esteja muito acima de 100 milhões de dólares.

Houve alguns momentos de silêncio enquanto eu esperava que o juiz Gleeson explodisse com algo como: “COMO VOCê SE ATREVE A QUESTIONAR MEU JULGAMENTO NESTE TRIBUNAL? VOCê SERá DETIDO POR DESACATO, MAGNUM!”. Mas, para minha surpresa, ele reduziu minha restituição para 110 milhões, sem parecer nem um pouco perturbado com isso. Então Gleeson disse:

– Você gostaria de ser ouvido em relação à sentença, senhor O’Connell?

Magnum assentiu com a cabeça.

– Sim, meritíssimo – e seja breve! Alonso prometeu fazer um apelo em meu nome, por isso não roube muito do tempo dele!–, mas apenas algumas observações muito breves. – Graças a Deus. – Este é um caso no qual entendemos plenamente que houve um crime grave, um crime bastante amplo em termos de tempo envolvido, de número de vítimas e de grande quantidade de danos sofridos por elas.

Bem, muito obrigado, Magnum. O que você vai fazer em seguida? Trazer à tona minha inclinação para prostitutas, drogas e arremesso de anões? Siga em frente, caramba!

– Em primeiro lugar – continuou Magnum –, o senhor Belfort reconhece que foi motivado pelo egoísmo e pela ganância durante esse período de atividade, e se viu diante de um problema sério de uso de drogas, que acho que se encaixou à sua culpa sobre os crimes em que ele esteve envolvido e em sua luta para...

Nessa hora, eu desliguei. Era muito doloroso para ouvir.

Claro, eu sabia que Magnum estava fazendo o que tinha de fazer; se ele tentasse minimizar meus crimes, Gleeson não consideraria ter algo de positivo para dizer. No entanto, na verdade, a única pessoa que realmente poderia me ajudar no processo era Alonso. Qualquer coisa que fosse dita por Magnum seria suspeita, porque ele era meu porta-voz pago, e qualquer coisa que fosse dita por mim seria interpretada como as palavras de um homem desesperado, que faria qualquer coisa para se salvar da prisão.

– ...e, no caso do senhor Belfort – concluiu meu porta-voz pago –, apesar da gravidade das infrações, eu realmente acredito que uma sentença branda seria apropriada.

– Obrigado – disse o juiz, que era inteligente o suficiente para saber que Magnum acharia que a clemência seria apropriada para praticamente tudo, exceto estupro ou assassinato.

Então Gleeson olhou para mim.

– Senhor Belfort?

Eu humildemente acenei com a cabeça e disse:

– Meritíssimo, eu gostaria de me desculpar... – Não faça isso, idiota! Não peça desculpas para o mundo! Soa hipócrita!– ...com todas as pessoas que perderam dinheiro...

E lá fui eu, pedindo desculpas a todos, sabendo que, apesar de estar realmente arrependido, minhas palavras soavam totalmente ocas e eu só desperdiçava meu fôlego. Mas eu não conseguia me conter, minha mente estava se movendo a mil por hora. Em uma pista, as desculpas jorravam...

– ...fazer uma lista e pedir desculpas a cada uma das pessoas, mas a lista é tão grande...

Na segunda pista, eu estava pensando como seria muito melhor se eu dissesse algo como: Sabe de uma coisa, juiz? Eu fodi com uma coisa aqui de modo terrível e gostaria de dizer que foi tudo por causa de todas as drogas, mas a verdade é que não foi. Eu era apenas um canalha ganancioso, não apenas ávido por dinheiro, mas também por sexo, pelo poder, pela admiração de meus colegas e por qualquer outra coisa que você possa imaginar. O que torna tudo ainda pior, meritíssimo, é que eu fui abençoado com dons maravilhosos e, em vez de usá-los de forma honesta e produtiva, usei-os para corromper outras pessoas, para fazê-las obedecer a meus comandos malignos...

– ... e quando comecei a Stratton, não tinha a intenção de que esse fosse o caminho, mas eu logo sabia exatamente o que estava fazendo e continuei fazendo até que fosse detido. Eu assumo total responsabilidade por minhas ações. Só posso culpar minha ganância, a ganância de poder, de dinheiro, de reconhecimento. Eu tenho muito que explicar para meus filhos um dia e espero que eles aprendam com meus erros. Eu gostaria apenas de deixar tudo isso para trás e começar a pagar as pessoas. É o melhor que posso fazer.

Baixei a cabeça em contrição e sacudi-a com tristeza.

Houve alguns momentos de silêncio, durante os quais me recusei a olhar para cima. Senti que meu discurso tinha sido terrivelmente insatisfatório.

Ouvi Gleeson dizer:

– Senhor Alonso?

Alonso disse:

– Meritíssimo, nós acabamos de ouvir o réu falar brevemente sobre quão arrependido ele está, sobre o que pensa da honestidade e da ética e como ele está tentando fazer a coisa certa todos os dias; se eu estivesse sentado onde o senhor está sentado, juiz, estaria um pouco cético em relação a um réu que tenha feito o que este réu fez. No entanto, passei muitas horas discutindo honestidade e ética com este homem. É possível que eu seja um otimista, mas acho que ele realmente entendeu. Acredito que ele tenha de fato tentado sair do ponto onde esteve nos últimos anos para mudar sua vida. Não sei o senhor está ciente disso, mas a primeira vez que o encontrei foi no dia em que o senhor o jogou na prisão por causa da viagem de helicóptero para Atlantic City. – Puta merda, de todas as coisas para trazer à tona, por que isso?– Nos meses seguintes, quando ele finalmente foi liberado, acredito que tenha ocorrido uma mudança profunda nesse homem. Acho que ele de fato pensou consigo mesmo sobre tudo o que fez e, o mais importante, o que teria de fazer como um cooperador. Pois acho que ele conseguiu. É possível sermos céticos? Claro. Penso que exista uma boa razão para acreditar nele quando diz o que disse? Sim. Quando testemunhou no julgamento de Gaito, ele passou mais de uma centena de horas se preparando comigo, e foi o pior momento de sua vida. Foi um momento muito difícil, mas nós passamos muito tempo falando sobre o que ele fez, seus enganos passados e suas fraudes, e acho que há boas razões para acreditar nele sobre sua intenção de cumprir com suas promessas.

Dei uma rápida olhada para Gleeson, que estava balançando a cabeça. Ele estava balançando a cabeça concordando, talvez? Era difícil dizer. Aquele juiz era frio como uma pedra de gelo. Não iria mostrar sua jogada antes da hora.

– Obrigado – disse Gleeson. – Eu acho que todo mundo aqui demonstrou bom senso em não falar tanto quanto poderiam, tendo em vista os extremos deste caso, desde o contato criminoso extremo envolvendo o senhor Belfort até a cooperação extrema da parte dele. Uma cooperação extraordinária, devo reconhecer – ele me olhou nos olhos. – Isso ajudou a derrubar muitos, muitos anos de prisão que ele deveria cumprir em outra situação, mas isso fica equilibrado por seus muitos anos de fraude arrogante.

Ele tinha ligado seu incrível raio encolhedor, e eu me vi encolhendo cada vez mais enquanto ele dizia:

– Você vitimizou milhares e milhares de pessoas inocentes que confiavam em você, que confiavam nas pessoas que trabalharam para você. Você achou que os reguladores eram uma piada e os tratou com desprezo. Você viveu uma vida boa – ah, merda – no mais alto jet-set, não porque seus talentos o fizeram chegar até lá, e não tenho dúvidas de que você seja um homem talentoso, mas porque estava disposto a mentir, a enganar e a roubar. Seus concorrentes foram colocados em desvantagem, certamente não todos, mas a maioria deles fez o que a maioria das pessoas faz, tentaram realizar negócios de maneira honrada e honesta, sem roubar o dinheiro de muitas pessoas, tantas que você não tem como pedir perdão a todas elas. É importante para a sentença que estou impondo que você tenha aparentemente mudado sua vida. O que li sobre você na carta da Promotoria, o que o senhor Alonso disse sobre você, penetrou em mim. Parece-me que você virou uma página. Eu acho que o mais importante e difícil de prever em todo esse processo é o que se traduz no quanto de punição você merece.

Ele fez uma pausa e soltou um grande suspiro, o tipo de grande suspiro que o rei Salomão teria produzido se tivesse sido confrontado com a obrigação de sentenciar o agora redimido Lobo de Wall Street.

Eu tensionei minhas nádegas e fiz uma oração ao Todo-Poderoso. Gleeson havia condenado Danny a quatro anos, o que, após as deduções, equivalia a pouco menos de dois. Do jeito que Magnum e eu havíamos imaginado, ele iria me dar uma pena menor.

– É uma decisão muito, muito difícil. Eu tenho pensado sobre isso bastante e durante muito tempo e determinei que uma pena de prisão de quatro anos é apropriada, e é isso que estou impondo.

Uma súbita onda de murmúrios veio da seção dos espectadores.

Meu estômago começou a revirar antes que minha mente colocasse todas as informações em ordem. As crianças, o que elas iriam dizer? Mais lágrimas. Abaixei a cabeça, derrotado. Eu não podia acreditar. Foi o que de pior havia na extremidade do espectro, exatamente o que Danny tinha recebido. Meu cérebro começou a voar no meio dos cálculos. Quarenta meses davam quanto depois das deduções? Havia 15% de desconto por bom comportamento, o que dava 7,2 meses, mais 18 meses pelo programa de drogas, isso somado dava 25,2 meses no total, deduzido de 48, dava entre 22 e 23 meses na prisão...

Então Gleeson disse:

– Estou impondo a restituição no valor de 110 milhões de dólares – não é grande coisa, pensei – a pagar no valor de 50% de sua renda bruta. – Puta merda!

Mais murmúrios na seção dos espectadores! Estavam rindo de mim? Não podia ser, mas era o que parecia. O que meus pais estariam pensando?

O tempo parecia andar mais devagar; eu conseguia ouvir Magnum pedindo ao juiz se ele podia me recomendar para o programa de drogas... Gleeson concordou... Magnum estava pedindo um adiamente na notificação... Gleeson recomendou 90 dias. Embora Magnum e eu tivéssemos falado antes sobre adiar até depois do Ano Novo, ele disse que não deveria ser um problema. Ele estava pedindo a Gleeson que me permitisse cumprir a pena na Califórnia, para eu poder ficar perto das crianças. Gleeson, naturalmente, concordou.

De repente, percebi Gleeson se levantar da cadeira, e foi assim. Tudo acabou desse jeito. Não haveria recursos, não haveria uma ajuda sobrenatural, nada. Eu estava indo para a cadeia por quase dois anos. E a multa... 50%! Um pesadelo! Como eu poderia pagar aquilo? Eu teria de ganhar na loteria... E nesse meio-tempo seria forçado a ganhar duas vezes mais que todos os outros para viver a mesma vida. Tudo bem, pensei. Eu iria conseguir facilmente.

Fora do tribunal, toda a equipe estava reunida no corredor – Alonso, TOC, Mórmon, Magnum, o homem de Yale e meus pais. Ainda era tudo um borrão para mim. Eu não tinha me recuperado do choque. Havia muitas expressões sombrias. Desculpas de Alonso, de TOC e do Mórmon, desejando que as coisas tivessem corrido melhor. Agradeci, prometendo manter contato. Eu sabia que TOC e eu o faríamos. Ainda que fôssemos tão diferentes, tínhamos aprendido muito um com o outro. Apesar de tudo, eu me considerava melhor depois de tê-lo encontrado.

Então eu me virei para Magnum e o homem de Yale e trocamos abraços. Eles haviam feito um trabalho incrível, especialmente quando eu mais precisei. Se alguém que eu amava estivesse em apuros, eu recomendaria o escritório de advocacia De Feis O’Connell & Rose de olhos fechados. Nós certamente manteríamos contato.

Então abracei meus pais, meu pai primeiro.

Mad Max estava frio como um pepino, a proverbial rocha de Gibraltar. Mas isso era de esperar; afinal, nada o acalmava mais que uma boa catástrofe. Por dentro, ele estava chorando por mim, mas acho que nós dois sabíamos que não era isso que eu precisava dele. Com o mais triste dos sorrisos, ele estendeu os braços para mim e me segurou pelos ombros. Então, me olhou nos olhos e disse:

– Nós vamos superar isso, filho. Sua mãe e eu estaremos sempre a seu lado.

Eu balancei a cabeça, compreensivo, com a certeza de que sempre seria assim. Eles eram pessoas de bem, talvez a única coisa boa gerada pela Stratton tenha sido a segurança financeira que eles conseguiram, resultado do salário de meu pai quando ele tinha trabalhado lá. Eles iriam envelhecer com graça, dignidade e decência. Eles não seriam sobrecarregados com preocupações financeiras. Eu estava orgulhoso disso.

Minha mãe tinha lágrimas nos olhos quando eu a abracei, e eu podia senti-la chorando em meus braços. Era exatamente isso que eu precisava dela. Eu precisava saber que havia uma pessoa em todo o mundo que estava mais machucada que todos os outros juntos. Minha mãe era uma mulher brilhante e complicada. Leah Belfort era uma mulher da mais alta fibra moral, que tinha visto o filho viver o tipo de vida que representava tudo aquilo que ela mais detestava, o hedonismo, a ostentação e a falta de respeito pelos outros. No entanto, mesmo assim ela ainda me amava, talvez mais do que nunca, simplesmente porque eu precisava.

Com muito cuidado, segurei-a pelos ombros, da mesma forma que meu pai tinha me segurado. Então forcei um sorriso e disse:

– Está tudo bem, mãe. Esses quatro anos não são realmente quatro anos, após as deduções serão menos que dois. O tempo vai voar. Vai ficar tudo bem.

Ela balançou a cabeça, perplexa.

– Eu só não entendo como você recebeu a mesma pena que Danny. Essa é a única coisa que não faz sentido para mim.

– Sim – concordei. – Eu acho que parece um pouco injusto. Mas é assim que a vida é, às vezes, não é?

Ela assentiu com a cabeça. Na verdade, com a idade de 71 anos, ela sabia disso melhor que eu.

– De qualquer forma – continuei –, Gleeson estava certo, mãe, e você sabe disso. Acho que todo mundo sabe. Eu era o cérebro por trás da coisa toda, não Danny, e, depois de tudo o que aconteceu, como eu poderia me livrar de passar um tempo na cadeia? Além disso, Gleeson é um cara inteligente: ele sabe tudo sobre o programa de drogas e sobre bom comportamento. Então, ele só me condenou a dois anos, suficientes para me enviar uma mensagem, mas não para arruinar minha vida – e pisquei. – Além do mais, isso vai me dar uma chance de recuperar o atraso em algumas leituras, o que não é de todo ruim, certo? – outro sorriso forçado.

– Quando você e Nadine vão contar às crianças? – perguntou meu pai.

– Nós não vamos – disse eu, sem emoção –, pelo menos não ainda. Por que preocupá-los agora? Vamos esperar até antes de eu ir, então contaremos juntos. De qualquer forma, eu tenho de ir agora. Preciso arrumar minhas coisas.

– Ah, você está indo para a Califórnia? – perguntou minha mãe.

Eu sorri, orgulhoso.

– Não, mãe, eu não estou indo para a Califórnia, eu estou me mudando para lá.

Eles olharam para mim, incrédulos.

– Agora? – perguntou meu pai. – Você acha que faz sentido, com essa condenação pairando sobre sua cabeça?

– Não – respondi calmamente. – Eu tenho certeza de que não faz, mas ainda assim vou me mudar. Veja, eu fiz uma promessa para minha filha uma vez e não vou decepcioná-la. – Dei de ombros, como se quisesse dizer: “Às vezes o amor supera a lógica, certo?”. E então completei. – Eu sei que vocês compreendem.

As palavras não eram necessárias, afinal, eles eram pais também.



FOI ASSIM QUE me tornei residente do Estado da Califórnia, quer eles gostassem, quer não. Em uma semana, encontrei uma bela casa perto do mar, a menos de uma dúzia de quarteirões da casa de meus filhos, e estava fazendo exatamente o que havia jurado fazer a Alonso numa outra noite: tentando recuperar o tempo perdido, muito contente de passar meus últimos três meses de liberdade numa vida comum, cozinhando para as crianças, assistindo à TV com eles, levando-os para a escola, jogando futebol, voleibol e o que fosse.

Então, depois de uma extensão de três meses, o tempo acabou.

Era a virada do ano de 2004, um sábado ensolarado, e eu precisava me apresentar na cadeia na manhã seguinte. Da forma como eu via as coisas, eu tinha duas opções: eu poderia me apresentar por conta própria ou os delegados viriam me buscar. Embora nenhuma das duas fosse de fato eletrizante, eu havia me resignado à primeira. As crianças, é claro, não tinham a menor ideia, mas estavam prestes a descobrir.

Naquele exato momento, os dois estavam descendo as escadas, só sorrisos, enquanto a Duquesa, parecendo nervosa, vinha atrás deles. John e eu estávamos sentados na sala de estar, que, em uma última dose de ironia, tinha uma estranha semelhança com Meadow Lane: parede de trás de vidro, com uma fantástica vista para o oceano, móveis shabby chic (de um jeito um pouco mais formal, porém), dezenas de almofadas, panos e bugigangas espalhadas aqui e ali e lareira de pedra até o teto. Tudo aquilo revelava o que eu já suspeitava sobre a Duquesa o tempo todo: ela gostava de decorar suas casas de praia da mesma forma.

– Não se preocupe – disse John, que estava sentado à minha frente no sofá. – Vou tratar seus filhos como se fossem meus.

Eu assenti com a cabeça, tristemente.

– Eu sei que você fará isso, John. Confio em você mais do que você pode imaginar.

E, de fato, eu confiava. Eu tinha chegado a conhecer John bastante bem ao longo dos últimos seis meses. Ele era generoso, amável, responsável, carismático, alguém que cresceu na vida por conta própria e, acima de tudo, um homem que, fiel a suas palavras, tratou meus filhos como se fossem dele. Eles estariam seguros com John, eu sabia, e nada lhes faltaria.

– Ei, pai – disse Chandler alegremente quando se sentou a meu lado no sofá. – Por que essa reunião de família?

Carter, no entanto, não se sentou; quando estava a uns 5 metros do sofá, ele executou uma manobra e veio deslizando pelo piso de terracota com um par de meias brancas suadas. Ele agarrou o topo do sofá e saltou sobre as costas, como um acrobata, e caiu bem ao meu lado sem incidentes.

– Oi! – cantou alegremente e, então, se inclinou para trás e colocou os pés em cima de uma mesa de café australiana.

John, sempre disciplinador, lançou-lhe um olhar, ao que Carter revirou os olhos azuis e pôs os pés para baixo. Enquanto isso, a Duquesa sentou-se na poltrona ao lado de John. Ela ainda estava linda, um pouco mais velha, talvez, mas, considerando o que nós dois tínhamos vivido, ela parecia muito bem. Ela estava vestida casualmente, com calças jeans e uma camiseta, como John e eu. As crianças vestiam shorts, e a pele deles brilhava de juventude e saúde.

Respirei fundo e disse a eles:

– Venham aqui, pessoal. Tenho algo a falar para vocês e quero que vocês se sentem no meu colo enquanto faço isso.

Estiquei um braço para cada um deles.

Carter, em seus 25 quilos, imediatamente saltou para meu colo e se ajeitou na minha coxa direita, as pernas balançando entre as minhas. Em seguida, ele colocou os braços em volta de mim. Com apenas 8 anos e meio de idade, não percebia nada.

Mas Chandler se moveu lentamente, com mais cautela.

– É alguém doente? – perguntou, nervosa, ajeitando-se sobre minha outra coxa.

– Não – respondi suavemente –, ninguém está doente.

– Mas é uma má notícia, certo?

Eu balancei a cabeça, tristemente.

– Sim, querida, é. Eu tenho que ir embora por algum tempo, e apesar de não ser um tempo muito longo para um adulto, vai parecer uma eternidade para vocês.

– Quanto tempo? – perguntou ela, rapidamente.

Eu apertei os dois, trazendo-os para mais perto.

– Cerca de dois anos, gatinha.

Eu vi as primeiras lágrimas brotando nos olhos.

– Não! – disse ela, com urgência. – Você não pode ir embora de novo. Você acabou de se mudar! Não nos deixe!

Lutando contra as lágrimas, eu disse:

– Escute, quero que vocês dois ouçam com atenção... Muito tempo atrás, quando eu estava no mercado de ações, fiz algumas coisas que eram muito erradas, coisas das quais não estou orgulhoso agora; um monte de pessoas perdeu todo seu dinheiro por causa disso. Agora, depois de tantos anos, tenho que compensar o que fiz, o que significa que tenho de ir para a cadeia por um tempo e...

Ela caiu em meus braços.

– Ah, não, papai, não, por favor... – Chandler começou a chorar histericamente.

Eu tinha lágrimas nos olhos.

– Está tudo bem, Channy. É só...

E então Carter desmoronou em meus braços e começou a chorar histericamente.

– Ah, papai, não vá! Por favor...

Apertei-o mais, enquanto ele chorava em meu ombro.

– Está tudo bem – disse, fazendo carinho em suas costas. – Vai ficar tudo bem. – Então, falei para Channy: – Não se preocupe, gatinha, pode acreditar, você nem vai ver o tempo passar.

A Duquesa saiu de sua poltrona. Ela correu e sentou-se na beira do sofá e abraçou as crianças também.

– Está tudo bem, crianças. Vai... Vai ficar tudo bem.

Eu olhei para a Duquesa e ela também estava chorando, suas palavras saindo com minúsculos soluços. Então comecei a chorar, ao ponto em que John também se levantou de sua poltrona. Ele veio se sentar na beirada da mesa de café e colocou os braços ao redor das crianças também, tentando consolá-las. Ele não estava chorando ainda, mas parecia prestes a fazer isso.

Não havia nada a fazer, a não ser deixar as crianças chorarem. Acho que todos nós sabíamos disso, até mesmo elas. Havia certa quantidade de lágrimas que precisavam ser derramadas antes que meus filhos conseguissem tentar entender o sentido de tudo aquilo, ou pelo menos aceitar o que estava acontecendo.

Finalmente, depois de alguns minutos afagando as costas e acariciando os cabelos, falando sobre os dias de visita e sobre como eles ainda poderiam conversar comigo pelo telefone e escrever cartas, eles começaram a se acalmar. Então, tentei explicar como tudo aquilo tinha acontecido, como tinha começado a Stratton muito jovem e como logo tudo rapidamente tinha saído do controle. Então eu disse:

– Muito do que aconteceu tinha a ver com drogas, que me deixaram fazer coisas que eu nunca faria normalmente. É muito importante que vocês dois aprendam com os erros do papai, porque, quando ficarem mais velhos, vocês poderão se ver em uma situação em que as pessoas estarão usando drogas e dizendo como é legal e como vocês se sentiriam bem e todo esse tipo de coisa. Na verdade, essas pessoas podem até mesmo tentar forçá-los a usar drogas, o que pode ser a pior coisa de todas – balancei a cabeça, seriamente. – E, se isso acontecer, eu quero que vocês pensem no papai e em todos os problemas que as drogas causaram a ele e como elas quase o mataram uma vez. Então vocês vão saber que não devem usar, tudo bem?

Ambos assentiram e disseram que sim.

– Ótimo, porque é muito importante para mim que vocês entendam isso, porque vai fazer com que o tempo em que eu estiver longe de vocês passe mais rápido, sabendo que entenderam – parei por um momento, percebendo que eu lhes devia mais que uma explicação alegando insanidade básica centrada no abuso de drogas. – Bem, havia outras razões pelas quais cometi esses erros e, por mais que não sejam tão graves quando as drogas, também são muito ruins. O que aconteceu com o papai foi que eu cresci sem ter tanto dinheiro, ao contrário de vocês – fiz um gesto para a parede de vidro, com sua deslumbrante vista para o Pacífico –, e eu realmente queria ser rico. Então eu cortei alguns caminhos, o que me fez ganhar dinheiro rapidamente. Vocês entendem o que isso quer dizer?

Carter balançou a cabeça negativamente. Chandler disse:

– Você roubou dinheiro?

Fiquei atônito. Olhei para a Duquesa, e ela mantinha os lábios comprimidos, como se estivesse tentando evitar uma risadinha. Olhei para John, que deu de ombros, como se dissesse: “Ela é sua filha!”. Então olhei para Chandler.

– Bem, eu não diria que realmente roubei dinheiro, Channy, porque não foi bem assim. Deixe-me dar um exemplo: vamos supor que sua amiga telefonou e disse que tinha um brinquedo muito legal que ela queria comprar e lhe pediu para dividir com ela. Você topou fazer isso e lhe deu metade do dinheiro, porque sua amiga disse que aquele era o melhor brinquedo do mundo. Mas depois, mais tarde, você descobriu que o brinquedo não custou tanto quanto ela disse que custaria e que ela usou seu dinheiro para comprar doces, que ela nem sequer dividiu com você – balancei a cabeça gravemente. – Você vê o que eu quero dizer? Não seria ruim?

Chandler concordou em tom acusador.

– Ela me roubou!

– Sim – acrescentou Carter. – Ela roubou!

Inacreditável!, pensei. Sim, talvez eu tivesse roubado, mas pelo menos tinha feito isso com um pouco de brio! Quer dizer, eu não tinha usado uma arma nem nada! Mas como é que eu ia explicar táticas de venda de alta pressão e manipulação de ações para meus filhos?

A Duquesa entrou na conversa:

– Bem, é um pouco como roubo, mas a diferença é que quando você é mais velho, como seu pai ou eu, deveria saber que não pode enviar seu dinheiro a estranhos para comprar brinquedos, sabe? Ou seja, você deveria assumir a responsabilidade por suas próprias ações. Entenderam?

– Sim – eles responderam em uníssono, embora eu não tivesse tanta certeza de que fosse verdade. De qualquer forma, eu estava feliz porque a Duquesa tinha feito um esforço.

Houve algumas lágrimas mais à noite, mas o pior já tinha passado.

Não tendo outra escolha, as crianças rapidamente se resignaram com o fato de que me veriam apenas nos dias de visita, durante um tempo. No final, meu único consolo foi que, naquela noite, acabei adormecendo do jeito que eu queria, com Chandler e Carter em meus braços. E, claro, eu tinha mantido a promessa à minha filha e me mudado para a Califórnia.

Загрузка...