CAPÍTULO 9

TOTALMENTE LIGADO

Meu Deus, eles estão contaminando o quarto da minha filha!

Era início da tarde, e eu estava sentado no meu pátio coberto de ardósia cinza, em uma poltrona da Smith & Hawken de 1.200 dólares, quando esse pensamento horrível borbulhou em meu cérebro. Embora não pudesse vê-los, sabia que estavam lá, Zé Colmeia e Catatau, Debi e Loide! TOC e Mórmon estavam acampados no quarto rosa e perfeito de Chandler, dando uma olhadinha rápida em mim através dos espaços minúsculos das ripas cor-de-rosa perfeitas de sua veneziana.

Que tipo de pai permitiria que uma coisa dessas acontecesse? Eu supostamente deveria ser o protetor de Chandler! Seu guardião! Seu salvador! Era função do papai manter os intrusos afastados; mas agora havia dois intrusos armados contaminando seu quarto, além das 150 Barbies imaculadamente vestidas e um número igual de bichinhos de pelúcia, todos em total desamparo, sendo testemunhas silenciosas do fracasso do papai como protetor.

O Chef estava para chegar a qualquer minuto, então eu precisava me recompor. Eu precisava controlar todos esses pensamentos desgarrados rugindo em meu cérebro: a culpa, o remorso, o pânico, o puro e simples terror do caralho! Na verdade, não era realmente minha culpa que o FBI tivesse declarado completo domínio sobre o perfeito quarto cor-de-rosa de minha filha; o problema era daqueles de geometria, uma vez que a janela do quarto de Chandler era o ângulo perfeito para TOC e Mórmon tirarem fotos clandestinas do Chef enquanto ele e eu nos sentávamos lá fora no pátio de ardósia cinza e eu começava a destruir a vida dele.

Que vergonha eu senti! Que desonra terrível! Eu, um rato ignóbil!

Ainda assim, o fato é que estava muito bonito lá fora. Era um daqueles dias gloriosos e edificantes, quando um jovem de valor e substância pode apreciar a Mãe Natureza e tudo o que ela tem para oferecer. E que lugar melhor para fazer isso senão a partir do pátio de ardósia cinza na fabulosa Chez Belfort? A paisagem, afinal, era bonita; atrás de mim, minha mansão de pedra cinza com 10 mil metros quadrados se elevava acima do terreno com a grandeza e a magnificência do Palácio de Versalhes; diante de mim, as águas azuis cristalinas de minha piscina olímpica brilhavam como se fossem diamantes e, além dela, a lagoa de tirar o fôlego e um sistema de cachoeira que bombeava milhares de galões de água por minuto, enquanto uma fonte disparava um jato de água a 15 metros de altura, em uma deslumbrante exibição de riqueza e excesso. Que opulência! Com quanta beleza eu me cerquei!

E então, minha alma afundou. Aquelas merdas de lagoa e de cachoeira tinham me custado uma porra de 1 milhão de dólares, 1 milhão de dólares de merda que eu poderia realmente usar agora! Ainda naquela manhã, eu tinha tido um ataque debilitante de ansiedade por dinheiro. Eu estava sozinho na cama quando a realidade cruel de ter que vomitar a maioria dos meus ativos para o governo federal me atingiu como uma bola de ferro de demolição. No momento seguinte, meu coração estava batucando no peito e eu suava profusamente. Comecei a entrar em pânico.

E por que eu estava sozinho? Por que a cadela da Duquesa não tinha sequer voltado para casa na noite anterior? Aparentemente, ela se concentrava em uma nova mina de ouro e estava agora no processo de construir a cerca em torno de sua nova posse. Era apenas uma questão de tempo até que ela se tornasse um acessório de luxo de cabelos loiros de outro dono de mina. E aonde isso me levava? Que mulher gostaria de ficar com um Lobo quebrado, sem dinheiro e que tinha dedurado todos os amigos?

Respirei fundo e resisti à vontade de dar uma espiada rápida na veneziana do quarto de minha filha. Eu tinha estado lá menos de cinco minutos antes, e a cena era uma confusão enorme. O Mórmon estava andando para trás e para a frente (enquanto mantinha um largo sorriso gentil) com uma câmera Minolta pendurada no pescoço, como um sorridente turista japonês. Enquanto isso, TOC tinha se mantido curvado de joelhos, fixando um gravador de fita ultrassensível logo acima de meu quadril, utilizando um rolo de fita adesiva que ele tinha comprado na Staples.

Quanto a mim, passei quase o tempo todo reclamando.

– Porra, vai doer pra caralho quando você retirá-lo! – reclamei com TOC. Eu estava me referindo ao fato de que a maioria de meus pelos pubianos seria arrancada quando ele tirasse o gravador.

– Eu sei, eu sei – respondeu TOC de maneira simpática, enquanto cuidadosamente evitava meus pelos pubianos com as costas da mão. – Mas você tem que confiar em mim, não há melhor lugar para esconder um gravador de fita – ele deu de ombros, ao fixar o último pedaço de fita adesiva quatro centímetros acima da minha bolsa escrotal. – Mesmo alguém que suspeita de tudo como o Chef vai pensar duas vezes antes de acariciar suas bolas!

Tudo bem, pensei, mas e o fio que estava ligado ao gravador? Ele vinha subindo pelo lado de fora da linha de cintura do meu jeans, continuando então até a linha média do meu abdômen. Na ponta do fio, um pequeno microfone, mais ou menos do tamanho de uma borracha de lápis número dois, estava preso com fita adesiva entre a depressão de meus músculos peitorais. De acordo com TOC, esse aparelho de gravação, chamado Nagra, era tão sensível que pegaria nossa conversa mesmo que fosse feita de sussurros. E essas foram suas palavras finais antes que eu saísse do quarto de minha filha e descesse as escadas até o pátio.

Então, lá estava eu, todo “ligado” e cheio de fios. O Chef, rezei, era inteligente demais para incriminar-se.

Naquele instante, minha empregada de longa data, Gwynne Latham, emergiu da porta lateral da cozinha. Ela usava calças de algodão brancas, uma camiseta branca bem solta e tênis brancos também. De fato, vestida do jeito que estava, alguém poderia tê-la confundido com a Senhora Bom Humor, não fosse pelo fato de que ela estava carregando uma bandeja de prata com uma jarra de chá gelado e dois copos altos sobre ela. Gwynne estava na casa dos 50 anos, embora parecesse uns dez anos mais nova. Ela era uma negra gordinha, atemporal, com traços caucasianos finos e o mais puro coração. Gwynne era do Sul e tinha me adotado praticamente como o filho que ela nunca teve. Nos primeiros dias de meu vício, ela me servia, na cama, café gelado e Quaaludes, e nos últimos tempos, quando eu estava tão drogado que praticamente tinha perdido a maior parte de minhas habilidades motoras, ela trocava minha roupa e limpava a baba de meu queixo.

Mas desde que fiquei sóbrio e larguei as drogas, ela havia redirecionado seu amor incondicional para Chandler e Carter, passando a maior parte do dia cuidando deles. (Deus os abençoe.) Enfim, Gwynne era como alguém da família, e o simples pensamento de ter que deixá-la ir algum dia me entristeceu terrivelmente. Eu não tinha muita certeza do quanto ela sabia sobre o que estava acontecendo. E então, tudo de uma vez, um pensamento terrível!

Gwynne era sulista, o que significava que ela era geneticamente predisposta a tagarelar. E, assim como acontecia com todo mundo, ela amava o Chef, e certamente tentaria conversar com ele. Eu comecei a imaginar o que aconteceria: “Oi, Chef? Quer que lhe prepare alguma coisa para comer, um sanduíche de peru ou uma salada de frutas?”. “Bem, acho que sim, Gwynne, você tem morangos?”. “Puxa, sinto muito, Chef, mas aqueles dois homens que estão no quarto da Chandler comeram os últimos que eu tinha…”. “Como é? Dois homens no quarto da Chandler? Como eles são, Gwynne?”. “Bem, Chef, um deles sorri bastante. Ele está usando fones de ouvido e tem uma câmera em torno do pescoço com uma lente teleobjetiva; o outro não sorri, mas tem um revólver gigante no quadril e um par de algemas penduradas no cinto e…”.

Ah, caralho, eu precisava dizer alguma coisa para Gwynne! Eu tinha apresentado aquelas forças de ocupação como sendo velhos amigos, e Gwynne, não sendo uma pessoa de ficar fazendo perguntas, tinha entendido as coisas literalmente, acreditando no que eu tinha dito e sorrindo amistosamente para os invasores, e então perguntando se eles queriam comer alguma coisa, do mesmo jeito como faria com o Chef! Eu tinha organizado as coisas para que as crianças não estivessem em casa e provavelmente conseguiria sobreviver sem Gwynne por algumas horas, mas ela poderia se sentir insultada se eu pedisse que saísse de casa sem uma boa explicação.

– Eu trouxe um pouco de chá gelado para sua reunião de negócios – disse Gwynne carinhosamente, embora a frase soasse mais como “Eu trusse um pocu de chá geladu pra sua reunião de negósss”. Com muito cuidado, ela colocou a bandeja de prata na obscenamente cara mesa redonda de teca. – Será que us homi lá em cima num vão querê nada? – acrescentou.

– Não, Gwynne, eu tenho certeza de que eles estão bem – disse e, com extremo cansaço, completei: – Ouça, Gwynne, eu realmente prefiro que você não diga nada sobre aqueles dois homens lá em cima enquanto Dennis estiver por aqui – e fiz uma pausa, em busca de uma possível explicação dos motivos. – Porque, hã, tem a ver com, hã, questões de segurança. Tem tudo a ver com segurança, Gwynne, especialmente com tudo o que está acontecendo por aqui.

Que porra eu estava falando?

Gwynne assentiu tristemente, parecendo entender. Então ela começou a olhar para minha camisa polo azul-clara, contraindo os lábios.

– Meu Deus, ah meu Deus, o sinhô tem uma manchinha na camisa – e ela começou a andar em minha direção com o dedo apontado diretamente para o microfone escondido.

Eu pulei da minha poltrona, como se a madeira de repente tivesse se tornado eletrificada. Gwynne parou no meio do caminho e lá ficou, parada, de pé, a Senhora Bom Humor, olhando para mim com um estranho olhar em seu rosto. Caramba, ela sabia, não sabia? Estava escrito no rosto inteiro dela, e em todo o meu rosto também! Eu praticamente estava gritando: Eu sou um rato, Gwynne, sou um delator! Não fale comigo! Estou cheio de fios ligados a um gravador!

Na verdade, seu rosto não demonstrava nada além de uma verdadeira preocupação de que o homem para quem ela trabalhara por quase uma década de repente tivesse perdido o juízo. Em retrospecto, havia muitas coisas que eu poderia ter dito a Gwynne para explicar meu comportamento irracional. Eu poderia ter dito a ela que uma abelha tinha me assustado, que eu tinha sentido uma cãibra na perna, que era uma reação atrasada para os três dias de tortura atrás das grades.

Em vez disso, tudo o que eu disse foi:

– Caramba, Gwynne, você está certa! É melhor eu ir ao meu quarto e trocar de camisa antes que o Dennis chegue! – e corri escada acima para trocar de camisa, voltando com uma polo azul-escura.

Depois fui para o banheiro, com o piso de mármore cinza de 100 mil dólares, uma sauna sueca de tamanho grande e a gloriosa banheira de hidromassagem, tão grande que era mais apropriada para Shamu, a baleia assassina, do que para o Lobo de Wall Street, e acendi todas as luzes para dar uma boa olhada no espelho.

Eu não gostei do que vi.



– EIIIIIIIIIIIIII – disse um Chef cheio de sorrisos, estendendo os braços para me dar um acolhedor abraço. – Venha aqui e me dê um abraço!

Puta merda! O Chef sabia também! Ele tinha visto na minha cara, do mesmo modo que Gwynne. Quando me abraçasse, ele ia me dar tapinhas para procurar a escuta. Eu estava congelado, em pânico. Era precisamente 13h05 da tarde, e o tempo parecia estar parado. Estávamos na grande entrada de mármore da mansão, separados por apenas quatro reluzentes quadrados de mármore italiano preto e branco, dispostos como um tabuleiro de xadrez, e eu estava tentando evocar uma desculpa esfarrapada para explicar por que não iria abraçar o Chef, como sempre tinha feito.

Os cálculos começaram a rugir em meu cérebro mais rápido do que eu poderia acompanhá-los. Se eu não abraçasse o Chef, ele saberia que algo estava errado, mas, se eu o abraçasse, ele pode sentir aquele gravadorzinho diabólico preso a meu quadril ou o microfone supersensível colado em meu peito. Que cara desonesto! Que decepção! Eu era um dedo-duro safado! No entanto, se eu empinasse a bunda um pouco e deixasse cair os ombros para a frente, talvez estivesse mais seguro.

Enquanto eu olhava para o Chef, fiquei terrivelmente consciente daqueles diabólicos fios que TOC tinha fixado em meu corpo. O gravador, o microfone e a fita adesiva pareciam ter crescido e ficado maiores, mais pesados, mais evidentes. O gravador não era maior que um maço de Marlboro, ainda que me parecesse maior do que uma caixa de sapatos; e o microfone, do tamanho de uma ervilha, pesava menos de 30 gramas, mas parecia mais pesado que uma bola de boliche. Eu estava suando profusamente e meu coração batia tum-tum-tum, como se um coelho assustado estivesse morando lá dentro. E lá estava o Chef de Jersey, em seu estiloso paletó azul-claro não transpassado e camisa branca de colarinho. Eu não tinha escolha a não ser abraçá-lo, mas então veio uma ideia: um patógeno contagioso!

Com um par de fungadas, eu disse:

– Porra, Dennis, você é um colírio para meus olhos… Snif, snif… Obrigado por ter vindo – disse, atirando minha mão direita para a frente e travando meu cotovelo, oferecendo um aperto de mão caloroso. – Mas procure não ficar muito perto de mim, acho que peguei alguma coisa naquela cela da prisão… Snif, snif… Uma forte gripe, eu acho – sorri timidamente e projetei minha mão um pouco mais, como se dissesse: “Cumprimente, amigo!”.

Infelizmente, o Chef era mais macho que a maioria dos homens e não seria um vírus de gripe que iria assustá-lo:

– Venha cá! – disse ele. – Com gripe ou sem gripe, são em momentos como este que você sabe quem são seus verdadeiros amigos.

Quem são seus verdadeiros amigos? Caramba, que merda de culpa angustiante! Agora eu tinha o privilégio de conhecer o puro pânico que já havia se instalado em meu cérebro. Então veio um relâmpago mais rápido do que a morte. A culpa foi logo dizendo: “Como você pode delatar alguém tão leal quanto o Chef? Você não tem vergonha?”. Mas aí o pânico respondeu: “Foda-se o Chef! Se você não delatar esse cara, você vai acabar babando que nem o velho idiota do Sr. Gower”. A culpa contra-atacou: “Isso não importa, o Chef tem sido leal e verdadeiro, e delatar esse homem vai transformar você em uma escória mais suja que o esgoto!”. E o pânico replicou: “Bela merda! Eu prefiro ser a escória que ficar na cadeia o resto da vida! Além disso, o Chef vai acabar delatando o Demônio de Olhos Azuis para salvar a própria pele, então qual é a diferença, porra?”. A culpa argumentou: “Isso não é necessariamente verdade. O Chef não é uma bichinha covarde, como você, ele é um cara durão!”. Então, de repente, uma nova onda de pânico! O Chef tinha passado pela minha mão e estava rapidamente diminuindo a distância.

Caralho! O que devo fazer? Pense, seu rato! O caminho mais fácil ou o mais difícil? Culpa ou autopreservação? Infelizmente, quando você é um rato, a autopreservação supera tudo: pouco antes de o Chef e eu nos abraçarmos, meu cérebro de rato desencadeou uma enxurrada de sinais de emergência para meu sistema musculoesquelético. Mais rápido do que pude perceber, minha bunda empinou como um garoto de programa anunciando seu produto, e meus ombros caíram para a frente como Quasimodo tocando um sino de igreja, e foi assim que nos abraçamos, o Chef de Jersey de pé e orgulhoso e o Lobo de Wall Street como um prostituto corcunda.

– Você está bem? – perguntou o Chef, liberando-me do abraço. Ele agarrou meus ombros e me segurou pelos braços. – Não me diga que machucou as costas de novo?

– Não, não – respondi rapidamente. – É que fiquei um pouco dolorido de ficar sentado naquela cadeia… E também minha gripe… snif, snif – esfreguei meu nariz com a palma da mão. – Você sabe, é incrível, mas, se eu ficar só um pouco doente, isso vai direto para minhas costas.

Caralho! Mas que merda eu estava falando? Dei de ombros, tentando organizar os pensamentos.

– Vamos, vamos sentar lá fora. Um pouco de ar fresco vai me fazer bem.

– Vá na frente e eu sigo você – disse ele.

Um par de prodigiosas portas francesas levava para o pátio de pedra e, no momento em que passamos por elas, pude sentir o clic, clic, clic da temida máquina fotográfica do Mórmon. Ela parecia estar fazendo buracos em mim, como se fossem raios laser atravessando meu corpo. Quando atingimos a área onde estava a mesinha de teca, eu ofereci ao Chef a poltrona superfaturada que ficava de frente para a janela do quarto.

Resisti ao impulso de olhar para as venezianas, servindo um copo de chá gelado para cada um de nós. E então comecei uma conversa sem importância:

– Eu vou te falar – disse, cansado. – Não posso acreditar que esses sacanas filhos da puta – depois que sacanas filhos da puta escapou de minha boca, me ocorreu que TOC e o Canalha poderiam não apreciar a caracterização que fiz deles. Eu fiz uma nota mental para ser mais gentil no futuro – me mantêm em prisão domiciliar. Como se eu realmente representasse um risco de fuga com uma esposa e dois filhos. Que porra de piada…

Balancei a cabeça em desgosto e o Chef concordou.

– Sim, bem, esse é o jogo que esses cretinos jogam – disse venenosamente. – Eles vão fazer tudo o que puderem para tornar sua vida miserável. Como está a Duquesa, segurando as pontas?

Eu balancei a cabeça e deixei escapar um grande suspiro.

– Não muito bem – respondi.

Fiz uma pausa, tentando reprimir meu desejo de abrir o coração para o Chef. Até mesmo os ratos têm orgulho, afinal de contas, e eu sabia que inúmeros outros acabariam ouvindo essa fita em algum momento.

– Ela está agindo como se tudo fosse um grande choque para ela, como se pensasse que estava casada com um médico ou algo assim. Eu não sei… Não acho que vamos superar isso, não como um casal, pelo menos…

– Não diga isso – respondeu o Chef rapidamente. – Vocês dois vão superar isso, mas só se você for forte. Ela é sua esposa, então ela vai seguir sua liderança, de um jeito ou de outro. Mostre um pouco de fraqueza e… Badabing! – o Chef bateu as mãos ao mesmo tempo – ela sai pela porta da rua em dois segundos. Essa é a natureza da fêmea, gravitar em torno da força.

Eu levei um momento para considerar as palavras do Chef, e por um breve instante meu ânimo se elevou, mas depois afundou de novo. Com efeito, as palavras do Chef eram normalmente carregadas de sabedoria, mas naquele caso ele estava completamente errado. Manter-se ou não forte não tinha nada a ver com aquilo, a Duquesa era forte o suficiente de sua própria maneira, e forte o suficiente para saber que sob nenhuma circunstância ela permitiria que meus problemas diminuíssem sua cota de extração de ouro. Ela cresceu muito pobre nas ruas ladeadas de lixo de Bay Ridge, no Brooklyn, e de jeito nenhum ela se arriscaria a ver essa história se repetindo.

No entanto, foi uma oportunidade perfeita para mostrar ao Chef um ponto importante, ou seja, que eu não tinha intenção de cooperar. Em um tom muito sério, eu disse:

– Bem, talvez eu não possa controlar as ações da Duquesa, mas posso controlar as minhas. Você não tem que se preocupar comigo quanto a me manter forte, Dennis. Eu vou lutar contra isso até o fim, até meu último suspiro, se for preciso. Não me importo quanto possa custar, quanto sangue possa ser derramado nem quantos corpos serão enterrados ao longo do caminho. Eu não dou a mínima para toda essa porra! Estou levando essa coisa a julgamento e vou ser absolvido – balancei a cabeça, gostando do meu jeito fanfarrão e de como isso tinha soado. Era bem ao estilo do Lobo. Pena que eu era uma bichinha covarde… – É só esperar pra ver – acrescentei, contorcendo o nariz ameaçadoramente.

– Bom para você! – disse o Chef de maneira enfática. – Isso era exatamente o que eu queria ouvir. Mantenha-se assim e os cretinos lá do centro da cidade vão ter uma desagradável surpresa – e encolheu os ombros com confiança. – Eles esperam que você deite no chão e se finja de morto, porque é isso que todo mundo faz. Mas quando se trata de ir ao fundo das coisas, eles têm a versão deles, e nós temos a nossa, e a nossa versão vai fazer tanto sentido para um júri quanto a versão deles…

– E o ônus da prova não está conosco – acrescentei com confiança –, está com eles!

– Exatamente – disse o Chef –, e, até onde sei, você é inocente até que se prove o contrário, que é como as coisas funcionam em nosso belo país – ele piscou e meu deu um rápido sorriso. – E, mesmo que seja culpado, eles ainda têm que provar essa culpa além de uma dúvida razoável, e isso não é uma coisa muito fácil de fazer quando existem duas versões das coisas, entendeu?

Eu balancei a cabeça lentamente.

– Claro que entendi – disse sem entusiasmo –, mas… Eu quero dizer… A história de cobertura que temos é muito boa, mas ainda não é tão crível como a verdade.

– Não se iluda – retrucou o Chef. – A verdade é mais estranha que a ficção às vezes. – Ele deu de ombros. – Na verdade, eu aceitaria mais um álibi que fosse bom do que a versão verdadeira dos fatos. De qualquer forma, acho que o maior problema que estamos enfrentando aqui é que Danny ainda está na cadeia. Quanto mais tempo ele ficar lá, maiores são as chances de ele mudar de lado… – o Chef fez uma pausa, como se estivesse procurando as palavras certas. – Veja, enquanto está sentado lá, Danny não tem ideia do que está acontecendo do lado de fora. Ele não sabe que eu estou do lado dele e que você está do lado dele, ele pode até pensar que está sozinho em tudo isso, talvez até que você esteja cooperando. Só Deus sabe o que os federais estão sussurrando em seu ouvido.

O Chef balançou a cabeça em consternação, mas em seguida, de repente, seu rosto se iluminou:

– Vou dizer o que realmente preciso fazer: eu preciso dar um jeito de entrar naquela cela para falar com Danny, para que ele saiba que tudo vai ficar bem. – O Chef comprimiu os lábios e assentiu lentamente. – Isso seria a melhor coisa que poderia acontecer para nós agora. Talvez eu consiga colocar meu nome na lista de visitas. O que você acha?

Porra, o Chef era um cara pra lá de durão! Ele estava preparado para ir direto ao coração do território inimigo! Será que ele não conhecia o medo? Ele era um guerreiro tão poderoso assim? Agora tudo começava a fazer sentido: os federais nunca tinham sido capazes de capturar o Chef e o Demônio porque eles não pensavam como os outros homens. Eles eram verdadeiros Scarfaces, mafiosos de colarinho branco de um tipo totalmente diferente.

Só então Gwynne veio andando para fora da cozinha.

Ah, cacete!, pensei. Ela vai começar a falar, falar, falar…

Será que ela ia fazer tudo cair por terra? Não tinha como saber. Seu coração era puro demais para entender todo o mal que estava acontecendo, todas as malandragens. Quando ela se aproximou, notei que estava segurando o telefone sem fio. Ela cumprimentou o Chef primeiro, em tons quentes do Sul:

– Olá, Dennis, como vai você? – que saiu como “Olá, Dainess, cumu vai ocê?”.

– Eu estou bem – respondeu o Chef, em tons quentes de Jersey. – Nunca tive melhor, cara! E você, como tá, Gwynne?

Tou beim, tou beim – a dama sulista respondeu, e havia um sorriso muito triste ligado a esses dois “Estou bem”. Um sorriso que dizia tanto quanto “Estou bem tanto quanto seria de se esperar, considerando que meu patrão está com um pé na prisão, sua esposa com um pé em uma nova mina de ouro e eu a ponto de ser dispensada de um emprego do caralho!”.

Então ela se virou para mim e disse:

– Seu devogado está ao telefone. Ele disse que é importante.

Magnum? Por que ele iria me telefonar naquele momento? Ele sabia sobre aquela reunião. Por que interromper o fluxo das coisas? Eu pedi um minuto para o Chef e então me levantei da cadeira para pegar o telefone sem fio de Gwynne. Com as costas voltadas para o Chef, olhei bem dentro dos olhos de Gwynne e apontei discretamente para a cozinha com o queixo, como a dizer: “Tudo bem, por que você não dá o fora daqui antes que faça alguma merda, sua tagarela?”, ao que ela deu de ombros e voltou para a segurança da cozinha.

Andei alguns metros para longe de onde o Chef estava sentado, para as grades de ferro na borda do pátio, coloquei os cotovelos no corrimão e me inclinei. Ainda estava ao alcance do Chef quando eu disse ao telefone:

– Ei, Greg. O que está acontecendo?

– Sim, é o Greg – disse a voz de TOC –, mas não o Greg que estava esperando. Basta agir naturalmente.

Puta merda! Por que TOC estaria me ligando? Ele tinha perdido o juízo?

– Oi – respondi casualmente –, bem, isso não me surpreende. Danny é um cara ponta firme. Ele nunca vai cooperar – virei-me para o Chef e pisquei, então disse ao telefone: – De qualquer forma, basta dizer ao advogado de Danny que eu estou sempre ao lado dele, não importa o que aconteça. Para o que ele precisar.

– Ótimo – disse o TOC – isso é que é pensamento rápido. Você está fazendo as coisas muito bem até agora. Mas escute: Dennis parece muito aberto para falar com você, então eu quero que tente marcar uma reunião com Brennan. Acho que ele pode comprar essa ideia.

– Vou tentar fazer isso – respondi com ceticismo, sabendo muito bem que as chances de conseguir uma reunião cara a cara com o Demônio de Olhos Azuis eram de uma em um milhão. Mesmo no melhor dos momentos, o cara agia como um paranoico filho da puta; com as coisas complicadas, como então, não havia nenhuma maneira de convencê-lo a ser imprudente o suficiente para se encontrar comigo. – Mas não converso com Nancy faz quase um ano – continuei. – Eu acho que ela odeia o governo mais que o Danny.

Eu olhei para o Chef, que estava olhando para mim com curiosidade, da forma que uma pessoa faz quando está tentando descobrir o que está sendo dito do outro lado em uma conversa por telefone. Nossa, se ele soubesse! Eu lhe lancei um rápido sorriso, revirei os olhos e balancei a cabeça rapidamente, como se quisesse dizer: “Meu advogado está me fazendo perder tempo aqui”, então eu disse para o telefone:

– Sim, bem, você apenas diga ao advogado de Danny para se certificar de que Danny saiba que eu estou com ele. Esse é o… – bip, bip, era a chamada em espera. – … ponto mais importante aqui. Bem, eu tenho que desligar. Eu tenho outra ligação.

Cliquei na outra linha:

– Alô?

Uma voz feminina desconhecida e abafada disse:

– Oi… É o Jordan?

– Sim – respondi, um pouco irritado com a voz sensual. O que essa porra de voz quer? – Aqui é o Jordan, quem fala?

– Maria Elena. Sou a noiva de Michael Burrico.

Meu coração afundou no estômago antes que meu cérebro percebesse o motivo. Michael Burrico tinha sido o primeiro amor da Duquesa, naqueles tempos gloriosos em que ela ainda era uma duquesa em formação. Na última vez que ouvi falar dele, estava morando em Manhattan e ficara rico no negócio da construção. Na mente da Duquesa, eu sabia, isso poderia traduzir-se em três palavras simples: mina de ouro.

Em um tom misturado com sarcasmo, eu disse a Maria:

– Sim, Maria. Seu noivo foi o primeiro namorado de minha amada segunda esposa. A que devo o prazer de seu telefonema?

Maria soltou um gemido minúsculo antes de dizer:

– Bem, eu sei que você está passando por um momento complicado, mas achei que gostaria de saber que sua esposa estava batendo na porta do meu noivo na noite passada, por volta da meia-noite. Ela estava…

Maria continuou falando, mas eu parei de ouvir, ou, mais precisamente, me senti incapaz de ouvir, porque minha cabeça já estava se enchendo de vapor. Eu poderia literalmente ouvir o som sibilante, enquanto mágoa, raiva, vergonha e desesperança inundaram todos os meus sentidos ao mesmo tempo.

Eu nem sabia quem estava mais envergonhado àquela altura, se eu ou ela. Nossa vida juntos tinha chegado ao ponto de se tornar motivo de chacota, o derradeiro sinal de advertência de homens ricos e esposas-troféu, de queimar etapas nos negócios, de queimar etapas na vida. Tínhamos brincado no Jogo da Vida de forma rápida e sem freios, desabando na autoestrada a 1 milhão de quilômetros por hora, e acabamos como derrotados, a história de um desastre total e irremediável. A única diferença entre a Duquesa e eu era que ela estava tentando se afastar do acidente sem um arranhão, enquanto eu não tinha escolha a não ser aceitar meu destino como vítima tetraplégica com queimaduras.

– …e eu realmente ficaria feliz com isso – continuou Maria, em um tom irritado – quer dizer, se você dissesse à sua esposa para manter as patas longe de meu noivo.

Ela disse tudo, pensei. Na verdade, eu não poderia ter concordado mais com Maria, e foi por isso que respondi com um pesado clique em seu ouvido, sem nem dizer adeus. Então me virei para o Chef e congelei, confuso, sem saber o que dizer. Minha mente estava tremendo descontroladamente. Já tinha sido bem difícil me concentrar antes, mas agora era um pouco demais. Tudo estava me atingindo ao mesmo tempo, vindo de todos os lados. Todo homem tem um limite e eu tinha alcançado o meu.

Enquanto olhava para o Chef, eu sabia que deveria estar tentando descobrir uma maneira de abordar o assunto do Demônio de Olhos Azuis e sabia que TOC e Mórmon estavam bem lá em cima, vidrados em cada uma de minhas palavras, fazendo anotações detalhadas sobre meu desempenho, notas que um dia iriam para minha carta do Promotor e ajudariam a decidir quantos anos eu deveria passar na prisão.

No entanto, com tudo o que estava acontecendo, com tudo o que estava em jogo, com a minha liberdade na balança, a única pergunta que meu cérebro estava pedindo que eu respondesse era: a que horas a Duquesa voltaria para casa hoje? Isso era tudo o que importava para mim. Eu queria confrontá-la, não, eu precisava confrontá-la. Eu não poderia seguir em frente com minha vida até que tivesse uma briga com ela. Uma briga estrondosa que só poderia acabar em uma coisa: violência. A Duquesa chegara ao fim. Era passado. Eu não ia deixá-la escapar com isso, nem por um segundo a mais. Se isso fosse de fato a história de um desastre completo, então tudo bem, seria uma história sem sobreviventes, exceto as crianças. Que meus pais as criassem, concluí; eles certamente iriam fazer um trabalho muito melhor do que a Duquesa e eu.

– Você está bem? – perguntou o Chef calorosamente. – Você parece um pouco pálido.

Sem resposta, então…

– Não… Quer dizer, sim. – Comecei balançando a cabeça. – Eu estava… Foi só algo relacionado ao negócio de maternidade da Nadine. Uma garota ligou, está grávida… Com um bebê – sorri distraidamente. – Eu estou bem. Estou ótimo, Dennis…

E a primeira coisa que eu vou fazer quando a Duquesa chegar em casa, pensei, é confrontá-la. Mas eu não vou contar a ela sobre o telefonema, não no início. Vou esperar até que ela diga que não tocou a campainha daquele filho da puta, e então vou saltar sobre ela. Aí, vamos ver…

Sentei-me de novo, meu coração explodindo no peito, minha mente fora de controle. Coloquei o telefone em cima da mesa. Minha boca estava completamente seca. Olhei para o Chef, forçando um sorriso. Era hora de acabar com a reunião. Eu não podia mais ficar lá. Eu não poderia manter um único pensamento construtivo até que confrontasse a Duquesa.

Com desespero em meu coração, fiz uma última tentativa:

– Vou lhe contar uma coisa – murmurei. – Eu não sei o que é pior: meus problemas com os federais ou meus problemas com a Duquesa – balancei a cabeça em genuína confusão. Então, com um sorriso, acrescentei: – Talvez eu devesse ir ver o Bob, talvez ele possa me oferecer algumas palavras de consolo, de sabedoria, porque dessa minha vida não tenho mais nada.

Houve alguns momentos de silêncio, então o Chef quase me lançou longe da minha cadeira quando disse:

– Eu acho que é uma excelente ideia. Bob vai gostar muito de conversar com você. Que tal na terça no campo de golfe? Você acha que vai conseguir sair se conversar com as pessoas da tornozeleira?

Sim, pensei, tenho certeza de que as pessoas que cuidam da tornozeleira estarão dispostas a fazer vista grossa para um encontro meu com o Demônio de Olhos Azuis, embora, naquele momento, eu pudesse cagar dois montes de merda para isso. Tudo o que me interessava era saber a que horas a Duquesa voltaria para casa.

Todo o resto era incidental.

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