CAPÍTULO 10

COMO CONFRONTAR UMA DUQUESA

Passo um: acenda um fogo abrasador.

A lareira de pedras francesas do quarto principal tinha 1,5 metro de altura por 2 metros de largura e fora adaptada com um mecanismo elétrico de acendimento. Como sempre, quatro grossos pedaços de tronco de pinheiro, divididos longitudinalmente, apoiavam-se sobre uma prodigiosa pilha de gravetos de cedro branco. Como era setembro, a lareira não tinha visto sequer uma chama em quase 5 meses. Tudo bem, ótimo. Precisamente às 21h15, apertei o botão de aço inoxidável na parede, acendendo a primeira, mas não a última chama arrasadora daquela noite.

Passo dois: queime uma peça de mobiliário superfaturada.

Grunhindo e gemendo, eu arrastei uma das aquisições favoritas de minha ex-aspirante a decoradora, um pufe otomano de seda branca de 13 mil dólares, que deve ter demorado quase um ano para ser feito por aqueles ladrões safados em High Point, na Carolina do Norte, e o deixei a 1 metro das chamas. Sentei-me e olhei para o fogo. Em menos de um minuto, os gravetos começaram a crepitar e as chamas ardiam ameaçadoramente. Não satisfeito, agachei-me e puxei o pufe para mais perto e sentei-me de novo. Muito melhor. Em dez minutos, o pufe e eu estaríamos torrados.

Passo três: acenda as chamas da justa indignação.

Uma tarefa simples. Será que existiria algum júri no mundo que me condenaria se eu esfaqueasse o coração gelado da Duquesa usando aquele abridor de cartas de 18 quilates que estava descansando confortavelmente em sua escrivaninha de laca branca de 26 mil dólares? Eu só precisaria me preocupar com um júri que fosse composto por seus pares, ou seja, formado por 12 garimpeiras de cabeça loira que não teriam enxergado nenhum ato criminoso no fato de uma mulher casada, e com dois filhos, note-se!, ir bater à porta da casa do ex-namorado à meia-noite, enquanto o marido estava em casa na cama (em prisão domiciliar) contemplando o suicídio e sonhando com maneiras de reconquistá-la. Mantive esse pensamento e respirei profundamente algumas vezes, com raiva. Continuei olhando para o fundo das chamas, deixando o fogo assar minha pele cada vez mais irritada, mais honrada, mais indignada com a passagem de cada segundo.

Foi então que ouvi os sons familiares da Duquesa ao chegar, o triturar do cascalho na garagem, o bater da maciça porta de mogno da frente, o click clack clack de seus sapatos de salto alto supercaros subindo os degraus da suntuosa escada. E finalmente a porta do quarto se abriu. Virei-me de frente e lá estava ela, vestida de preto. Era apropriado, pensei, considerando-se que ela havia acabado de chegar a seu próprio funeral.

Quando ela me viu sentado tão perto das chamas, ela parou e fez uma pose, com a cabeça inclinada para um lado, as mãos nos quadris, os ombros jogados para trás e as costas ligeiramente arqueadas, empurrando seus gloriosos seios para a frente. Ela abriu a boca para dizer algo, mas as palavras não saíram. Então ela começou a mastigar o interior da bochecha.

Houve alguns momentos de silêncio, enquanto nós só olhávamos um para o outro, como se fossemos dois pistoleiros esperando o momento de sacar as armas para o duelo. A Duquesa estava ótima, como sempre. Não havia como negar isso, mesmo então. A claridade do fogo iluminava seu conjunto inteiro: o vestido preto minúsculo, os sensuais sapatos pretos de salto alto, aquelas longas pernas sem meia, sua juba de cabelos loiros brilhantes, os faiscantes olhos azuis, as maçãs do rosto salientes, os lábios com gloss, a suave linha do queixo.

Sim, a Duquesa era, de fato, uma mulher composta de várias partes, embora naquele momento a única parte de seu corpo na qual eu estava interessado fosse uma pequena área um pouco acima de seu silicone na mama esquerda, bem entre a segunda e a terceira costelas. Era ali que seu coração gelado estava localizado e seria ali que eu mergulharia o abridor de cartas de ouro. Então eu giraria o abridor para cima e levemente para a esquerda, e com esse movimento giratório cortaria a artéria pulmonar dela, o que faria com que ela se afogasse no próprio sangue. Seria uma morte dolorosa, medonha, horrível, o tipo de morte que uma Duquesa garimpeira merecia.

– Por que o fogo? – perguntou ela, abandonando a pose e se dirigindo para sua escrivaninha de laca branca. – É um pouco cedo na estação, você não acha?

Ela me deu um sorriso frio quando se sentou na borda da escrivaninha, colocando as mãos sobre ela e travando os cotovelos. Em seguida, cruzou as pernas e contorceu a bunda, como se para ficar mais confortável.

Olhei de volta para as chamas.

– Eu estava com frio – respondi, porque você sugou até a última gota de sangue e vigor e vida de mim, sua vadia conivente e caçadora de minas de ouro –, então achei melhor acender a lareira – antes de fatiar seu corpo e livrar a Terra de você.

Depois de alguns momentos de silêncio, ela inclinou a cabeça para o lado.

– Onde estão as crianças? – perguntou.

Eu fiquei olhando para as chamas.

– Com Gwynne – respondi, sem emoção. – Vão dormir lá esta noite – para que eu possa matá-la sem perturbá-las.

Ela demonstrou confusão misturada com ansiedade:

– Por que elas estão, uh, dormindo na Gwynne?

Ainda olhando para as chamas:

– Porque eu queria a casa para mim – sem gente passando, sem testemunhas, distrações ou qualquer alma que pudesse tentar me dissuadir de fazer o que sei que devo fazer para me livrar de você. – É por isso.

Ela riu nervosamente, tentando brincar com uma situação que agora percebera ter se transformado em um encontro sombrio:

– Para você? – respondeu. – Bem, o que dizer de mim? Eu também estou aqui, certo?

Eu olhei para cima e ela estava segurando o abridor de cartas de ouro em sua mão direita, toque-toque-toque da lâmina na palma da mão esquerda. Como ela havia descoberto? Era tão óbvio assim que eu estava planejando esfaqueá-la? Ou foi apenas coincidência? Não importa. Eu tinha visto uma vez Arnold Schwarzenegger esfaquear um terrorista islâmico com a própria faca do terrorista e aquilo me parecera bastante elementar.

Só então notei que a Duquesa ainda usava a aliança de casamento. Que piada, porra! A Duquesa devoradora de homens e sua porra de aliança de casamento!

– Vejo que você ainda está usando sua aliança de casamento. Você não acha que é um pouco irônico, Nadine?

Ela colocou o abridor de cartas na mesa e estendeu a mão esquerda na frente dela, parecendo intrigada. Depois de alguns momentos, ergueu os olhos e deu de ombros.

– Por quê? – perguntou inocentemente. – Nós ainda estamos casados, não?

Eu balancei a cabeça lentamente.

– Sim – respondi –, acho que estamos. Então, o que você fez na noite passada?

Uma resposta rápida:

– Eu fui ver Earth, Wind and Fire. Com minhas amigas – as últimas três palavras gritaram: álibi!

Comprimi os lábios e assenti.

– Ah, suas amigas… – disse eu, compreensivo. – E que amigas são essas?

Outra resposta rápida:

– Donna e Ophelia.

Donna Schlesinger, aquela vadia do caralho! Definitivamente tinha o dedo dela na história, não havia dúvidas! Ela e a Duquesa eram amigas desde o colégio, e, naquela época, Donna tinha namorado um dos amigos mais próximos de Michael.

– E como foi o show? – perguntei casualmente.

A Duquesa deu de ombros.

– Foi o.k. Nada de especial. – Então, uma mudança de assunto estratégica: – Eu estava esperando que as crianças estivessem em casa hoje à noite.

Por quê? Assim você poderia usá-las como escudos humanos? Desculpe, Duquesa, você está sem sorte. Somos só você e eu esta noite; você, eu e o abridor de cartas de ouro. Prepare-se para colher as consequências de sua infidelidade!

Eu retruquei:

– Só por curiosidade, onde você dormiu na noite passada?

– Na casa da Ophelia – retrucou ela. – Por quê?

– Você foi direto do show para a casa dela? – perguntei com ceticismo. – Não parou no caminho, para comer alguma coisa ou sei lá?

Ela balançou a cabeça, negando.

– Não, eu fui direto para lá, sem paradas.

Houve alguns momentos de silêncio, durante os quais eu me vi querendo desesperadamente acreditar nela. Por qual motivo, eu ainda não conseguia explicar, mas tinha algo a ver com a natureza bizarra do macho, sua vaidade, seu orgulho tolo, seu desejo de não ser desprezado por uma bela mulher. Sim, apesar de tudo, meu orgulho masculino ainda estava tentando me convencer de que minha esposa era fiel e de que tudo tinha sido um mal-entendido gigantesco.

Eu respirei fundo e olhei para o núcleo do fogo, reacendendo minhas chamas de raiva, ódio e indignação.

– Então, como vai Michael Burrico? – perguntei e olhei para cima, desviando os olhos da lareira direto para os olhos dela.

A Duquesa recuou.

– Michael Burrico? – disse ela, incrédula. – E como eu vou saber?

Ela olhou para mim com uma expressão vazia, e eu ainda queria acreditar nela. Eu realmente queria.

Mas ela era uma mentirosa de merda, eu sabia disso!

– Quando foi a última vez que você o viu, Nadine? Diga-me! Há quanto tempo? Dias? Semanas? Horas? Diga-me, porra!

A Duquesa se inclinou.

– Eu não tenho ideia do que você está falando – ela desviou o olhar. – Alguém está lhe passando informações erradas.

–Você é uma mentirosa! – eu gaguejava. – Uma mentirosa filha da puta!

Ela ficou olhando para baixo, sem dizer nada.

– Olhe para mim! – gritei, me levantando do pufe. Ela olhou. Eu caí em cima. – Olhe-me nos olhos e me diga que você não foi ao apartamento de Michael Burrico na noite passada. Vá, me diga!

Ela balançou a cabeça rapidamente.

– Eu… Eu não fui. Eu não estava lá – seu tom era quase de pânico. – Eu não sei do que você está falando. Por que está fazendo isso?

Dei um passo agressivo na direção dela.

– Jure pela saúde de seus filhos que você não estava lá ontem à noite – cerrei os punhos. – Jure pra mim, Nadine.

– Você está doente – murmurou ela, desviando o olhar novamente. – Você mandou alguém me seguir, é isso? – Então ela olhou para mim. – Eu quero você fora desta casa. Eu quero o divórcio! – E ergueu o queixo em desafio.

Dei mais um passo para a frente. Eu estava a menos de 1 metro dela agora.

– Sua… vaca! – gritei. – Você é uma vadia atrás de minas de ouro, cadela do caralho! Eu não mandei seguir você! Foi a noiva de Michael Burrico que me telefonou! Foi assim que fiquei sabendo onde você estava, sua… Sua…

Ela me cortou.

– Foda-se! – gritou a Duquesa. – Você está me chamando de traidora? Quantas mulheres você comeu, seu hipócrita maldito?

Com isso, ela pulou da borda da escrivaninha e deu um passo em minha direção, diminuindo a distância. Estávamos a menos de meio metro um do outro.

– Eu quero você fora da minha vida! – ela gritou freneticamente. – Eu quero você fora da minha casa! Eu nunca mais quero falar com você de novo!

– Sua casa? – eu gaguejava. – Você está brincando comigo? Isto aqui é a minha casa! Eu não vou para a porra de nenhum lugar!

– Eu estou contratando um advogado! – gritou Nadine.

– Sim, o melhor que meu dinheiro pode comprar! – gritei de volta.

Ela cerrou os punhos.

– Foda-se! Você é um bandido, porra! Você roubou todo o dinheiro que tem! Eu espero que você morra na cadeia!

A Duquesa deu um passo agressivo para a frente, como se estivesse prestes a me dar um soco, e então, de repente, fez algo que eu nunca vou esquecer pelo resto da vida. Com completa serenidade, ela deixou cair os braços para os lados do corpo, relaxou a postura, inclinou a cabeça para trás, expondo a parte mais vulnerável de seu longo pescoço nu, e disse:

– Vá em frente! Mate-me! – sua voz era suave e macia, num tom completamente resignado. – Eu sei que é isso o que você quer, então vá em frente – ela inclinou a cabeça ainda mais para trás. – Mate-me agora. Eu não vou lutar. Eu prometo. Apenas me estrangule e livre-nos dessa vida de tristezas. Você pode se matar depois.

Dei um passo em sua direção, pronto para cometer um assassinato, quando de repente meus olhos avistaram uma moldura afixada na parede. Estava exatamente sobre o ombro esquerdo da Duquesa. O quadro era longo e estreito, acho que com 30 centímetros de largura por uns 90 de altura, e dentro dele havia três fotos grandes de nossos filhos. Chandler estava em cima, sorrindo timidamente. Usava uma linda camiseta amarela com um colar e uma fita de cabelos combinando. Tinha 3 anos e meio na época em que a fotografia foi tirada, e parecia uma Duquesa em miniatura. Embaixo dela estava Carter, com apenas 1 ano e meio, e ele usava uma fralda branca como a neve. Seus olhos estavam arregalados, sua expressão era cheia de admiração enquanto olhava para uma bolha flutuando no ar. Seu cabelo loiro brilhava como vidro polido. Seus cílios eram tão exuberantes como asas de borboleta. E, novamente, tudo o que eu vi foi a Duquesa. E abaixo de Carter havia um retrato dele e de sua irmã. Ele estava sentado em seu colo, ela tinha os braços em volta dele, e os dois estavam olhando um para o outro em adoração.

No mesmo instante, a verdadeira ironia da minha situação me atingiu, como se fosse um dos raios de Zeus. Não era o bastante eu não conseguir matar minha esposa porque ela era a mãe de meus filhos, era muito pior que isso. O simples fato de ela ser a mãe de meus filhos era o que deixava claro que eu nunca me livraria dela. Ela estaria na minha vida para sempre! Assombrando-me até o dia em que morresse! Eu seria obrigado a vê-la em cada aniversário, formatura, casamento e bar mitzvah. Porra, eu até teria que dançar com ela no casamento de meus filhos!

Seria obrigado a vê-la na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, por todos os dias de minha vida, até que a morte nos separasse. Em essência, eu continuaria casado com ela para sempre, continuaríamos ligados pelo intenso amor que tínhamos pelos nossos dois filhos.

E lá estava ela, de pé, à espera de ser sufocada até a morte.

– Eu nunca vou perdoá-la por isso – disse eu suavemente. – Até meu último suspiro, nunca vou perdoá-la – fui para a porta, andando lentamente.

Assim que cheguei à porta, ouvi-a dizer em um tom suave e gentil:

– Eu nunca vou perdoá-lo também. Até meu último suspiro.

Então eu saí do quarto.

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