CAPÍTULO 13
A PORTA GIRATÓRIA
Dois meses depois
Southampton Beach! Para melhor ou pior, não há como negar que Meadow Lane foi um fabuloso local para assistir às paredes da realidade desabando sobre mim. As águas azuis do Atlântico estavam logo atrás de mim, as águas cinzentas da Shinnecock Bay estavam à minha frente e, de cada lado, imponentes mansões, como a minha, se levantavam diante das dunas como templos gregos, dando seu testemunho silencioso de como era maravilhoso ser um WASP rico ou um judeu nouveau riche.
Minha mansão particular, que em breve seria propriedade de TOC e do Canalha, era uma gigantesca construção cinza e branca, no estilo de Cape Cod. No deque traseiro, uma piscina e uma jacuzzi olhavam por cima do Atlântico; no gramado da frente, uma quadra de tênis para todos os climas tinha vista para Shinnecock; e, na frente, uma fileira de arbustos imaculadamente aparados em quadrados subiam a uns 4 metros de altura, ocultando a vista da propriedade.
Naquele momento, eu estava sentado em um sofá estilo shabby chic que ficava na sala de estar da mansão também estilo shabby chic, olhando nos olhos de Sarah Weissman,1 autoproclamada Rainha Judaica do Boquete. Ela estava sentada a menos de 1 metro de distância, usando uma blusa de gola alta preta de algodão e calças pretas de malha, acentuando um corpo firme que tinha cheiro da beleza do passado e da bulimia do presente.
No entanto, a Rainha do Boquete ainda era atraente. Com apenas 22 anos, tinha um rosto agradavelmente fino, cabelo preto brilhante, olhos negros e faiscantes, pele cor de oliva, uma plástica de nariz de primeira classe, dentes perfeitos e um lábio inferior mais úmido que o Nilo. Apesar de ter conhecido a moça há apenas 15 minutos, achei que ela parecia ser alguém razoavelmente confiável. Nós tínhamos nos encontrado naquela noite na reunião dos AA e simpatizamos instantaneamente um com o outro. Ela acabara de ficar sóbria (menos de uma semana, na verdade), lutando contra um vício triplo em crack, álcool e autoindução de vômitos, o último dos quais achei bastante nojento. Mas ela estava no rebote agora, recém-saída de uma clínica de desintoxicação e de volta aos Hamptons, pronta para recomeçar a vida.
Até então tínhamos apenas conversado sobre superficialidades, trocando histórias de guerra sobre nossos vícios em drogas, mas aparentemente ela estava pronta para entrar nos negócios, porque estava dizendo:
– …e são as garotas judias que fazem o melhor boquete do mundo, você sabia disso?
– Eu… Er… Não – respondi. – Nunca saí com uma judia antes…
– Bem, elas são as melhores – disse Sarah com orgulho. – Se você quiser, posso demonstrar.
– Ah, sim, isso seria ótimo! – respondi, e a Rainha Judaica do Boquete rapidamente passou a trabalhar, agachando e se inclinando em minha direção com um sorriso lascivo nos lábios.
Instintivamente, inclinei-me para trás e descansei a cabeça numa almofada redonda macia, enquanto a Rainha do Boquete estendeu as pequenas mãos e abriu o zíper da minha calça. Então, com notável eficiência, ela puxou minhas calças jeans até meus tornozelos, subiu entre minhas pernas e torceu seu longo cabelo preto em um rabo de cavalo.
De repente, ela fez uma pausa.
– O que há de errado? – perguntei.
– Nada, bobagem – disse ela, enquanto tirava um colar de ouro, na ponta do qual pendia uma estrela de David cravejada de diamantes. Ela o colocou no bolso. – Eu não quero que ele fique no meu caminho.
Assenti, fechei os olhos, ergui as pernas e me preparei para o melhor boquete de minha vida. Era exatamente o que o médico tinha receitado, pensei. Um toque da Rainha do Boquete e eu esqueceria a Duquesa para sempre!
– Ai! – gritou a Rainha do Boquete. – Tem alguma coisa cutucando minha bunda!
Olhei para baixo e… caramba! Minha tornozeleira estava espetando a bunda magra da Rainha do Boquete. Baixei as pernas com a velocidade de um coelho.
– Não é nada – disse eu. – Só um bipe que eu uso no trabalho. Tudo bem, continue.
A Rainha do Boquete estreitou os olhos, desconfiada.
– Um bipe, hein?
– Sim – retruquei –, um bipe…
Alguns momentos se passaram, mas ela continuou me olhando.
– Tudo bem – disse, afinal –, vou acreditar na sua palavra…
Ela se inclinou lentamente e começou a trabalhar… E foi um daqueles longos, suntuosos boquetes, do tipo que um homem só recebe da esposa durante o período de namoro. Eu comecei a gemer, apreciando:
– Ah, caramba, Sarah! É tããooo bom… Você tinha razão, as garotas judias de fato fazem o melhor boquete…
– Uhm-hum – ela murmurou, incapaz de falar.
– Ahhhh… – eu gemia, e fechei os olhos, deixando meu sistema nervoso dissolver, levando meus problemas para longe, à deriva, cada vez mais longe… Até que nada mais importava… Apenas o boquete e a Rainha do Boquete… Minha mente começou a vagar… Vagar para a Duquesa… O que ela estaria fazendo agora? Será que ela estaria em casa com os filhos ou com outro homem? Era uma noite no meio da semana, então ela provavelmente devia estar em casa com as crianças… Embora tivesse ouvido rumores de que ela estava tendo um caso com seu personal trainer, um bunda suja romeno chamado Alex… Mas isso não era importante… As crianças que eram importantes, elas eram tudo para mim!
E então, uma sensação de frio! Eu abri os olhos e a Rainha do Boquete estava afastando a cabeça, com uma expressão preocupada no rosto.
– O que há de errado? – perguntou. – Não está gostando?
Olhei para baixo e… ah, merda! Meu pênis parecia um espaguete cozido demais… Que foda, era constrangedor!
– Ah… Eu… Não… – murmurei. – Está tudo ótimo, quer dizer, é o melhor boquete que já recebi e… É que… – procurei desesperadamente as palavras corretas – Você… Hã… Você é a primeira garota com quem estive em tipo, uh, 10 anos. Quer dizer, sem incluir minha esposa, é claro, quer dizer, minha ex-mulher, minha ex-mulher em breve, melhor dizendo…
Parei por um segundo, me perguntando se o fato de eu ter dormido com cerca de mil prostitutas enquanto estava casado com a Duquesa significava que eu estava mentindo para a Rainha do Boquete.
Endireitei-me no sofá e respirei fundo, deixando o ar escapar lentamente.
– Eu sinto muito, de verdade – disse suavemente. – Talvez seja cedo demais para mim. Eu não tenho certeza – balancei a cabeça, triste.
A Rainha do Boquete não se ofendeu; em vez disso, ela me ofereceu o mais quente dos sorrisos, um sorriso totalmente maternal.
– Tudo bem – disse. – Eu acho que é muito meigo você estar nervoso. Isso me faz querê-lo ainda mais – ela sorriu de novo e observei que os dentes eram muito brancos. Isso é bom, pensei. A Rainha do Boquete tem dentes muito brancos.
– Agora é melhor deitar-se e relaxar – disse ela calorosamente. – E pode parar de se preocupar. Tudo vai ficar bem. – E, com isso, a Rainha colocou a mãozinha no meu ombro e gentilmente me empurrou de volta para baixo. – Apenas relaxe sua mente… – disse ela, em um tom de voz usado normalmente por um hipnotizador – … relaxe seu corpo, relaxe tudo… Tudo vai ficar bem…
Eu balancei a cabeça respeitosamente e fechei os olhos, pensando… Puta que pariu! Essa Rainha do Boquete realmente sabe das coisas! Quer dizer, aqui está ela, três dias sóbria, uma viciada em crack, bulímica, alcoólatra, sem dúvida viciada em todos os tipos de comprimidos e provavelmente anoréxica também, e mesmo assim ela assumiu completamente o controle da situação. Eu senti que era mesmo uma sorte ter aquela garota comigo!
E, de fato, eu era um cara sortudo. Rapidamente, sem esperar muito, a Rainha do Boquete tinha retomado seu trabalho, com aquele tipo de desenvoltura que você costuma ver em vídeos pornográficos. Alguns minutos mais tarde, eu gritei:
– Ah, meu Deus! Eu… – quase gritei as palavras Eu te amo, mas me segurei e gritei – Não consigo segurar mais!
E, um segundo mais tarde, estava tudo acabado. Fiel à sua palavra, a Rainha Judaica do Boquete tinha conseguido tirar o melhor de mim, e meu corpo já estava mole.
Só então ela apareceu com a cabeça e limpou o queixo com as costas da mão.
– Então, como você se sente agora? – perguntou provocativa.
– Incrível, Sarah. Sinto-me realmente incrível.
Ela sorriu gentilmente.
– Estou feliz – disse ela, alegre. – Estou muito feliz – e ela começou a olhar ao redor da sala de estar junto à imponente lareira de arenito atrás dela, para as dúzias de peças no estilo shabby chic ao redor dela, para todos os sofás e poltronas e pufes e mesas de café e mesas laterais e almofadas e flores e vasos e pinturas nas paredes e, ao lado da sala de estar, a mesa de jantar shabby chic, que era maior que uma pista para lançar ferraduras. Então, ela olhou para o teto que tinha 9 metros de pé direito e, por fim, olhou para a parede de vidro que corria por todo o comprimento do fundo da casa e dava para o Atlântico. – Olha, esse lugar é realmente lindo. Quer dizer, eu estive perto do dinheiro antes, mas esse lugar cheira a dinheiro antigo! Entende o que eu quero dizer?
Dinheiro antigo! Cacete! Se houvesse um dinheiro mais recente em qualquer lugar dos Hamptons, eu ainda estava para descobrir. Talvez ela quisesse dizer dinheiro evaporando? Seria mais preciso…
– Obrigado – respondi –, mas não é dinheiro antigo. É tão novo quando poderia ser… – sorri, ansioso para mudar de assunto. – De qualquer forma, você quer fazer uma caminhada na praia? Hoje a noite está linda!
– Eu não posso – disse ela, com tristeza. – Eu tenho que chegar logo em casa, meu namorado está esperando por mim.
Levantei-me rapidamente e me pus na posição vertical.
– Seu namorado! Você tem namorado?
Ela encolheu os ombros.
– Sim, eu moro com uma pessoa. Eu provavelmente não devia estar aqui. Você sabe o que eu quero dizer?
Levei um momento para deixar esse pensamento rodar na minha mente e decidi que ela estava certa: ela provavelmente não deveria estar ali. Mas naquela época do ano não havia muitas garotas nos Hamptons, então, se eu deixasse que a Rainha do Boquete fosse embora, logo estaria sozinho de novo. Passei um tempo estudando suas características. Ela era bonita o suficiente? Ela poderia estar à altura da Duquesa? Sarah tinha um nariz muito agradável, e talvez eu pudesse encontrar a paz por meio de seus boquetes. Na verdade, talvez eu pudesse até transformá-la em outra Duquesa! Eu poderia levá-la para fazer compras e dar-lhe roupas e joias, depois levá-la para jantares extravagantes, talvez eu pudesse até apresentá-la a meus filhos. Afinal, ela estava sóbria havia três dias inteiros e estava definitivamente em recuperação. Avaliando tudo, até que era uma boa conquista!
Foi assim que, cinco dias depois, convenci a Rainha Judaica do Boquete a terminar com o namorado e a trouxe para viver na minha mansão em Meadow Lane, onde duas vezes por dia ela fazia boquetes de nível internacional e de vez em quando fazia amor comigo. Foi perfeito. Trocamos nosso primeiro “eu te amo” no sétimo dia e começamos a falar em casamento no décimo dia. Ela não ligou para minha tornozeleira, como se não fosse grande coisa; na verdade, o Canalha, em um raro momento de humanidade, tinha aliviado minhas restrições, transformando-as de um bloqueio de 24 horas para um toque de recolher à meia-noite, e eu desculpei suas saídas da mesa de jantar para vomitar a comida que tinha acabado de ingerir com a mesma bondade e compreensão.
Enquanto isso, minha cooperação estava indo fabulosamente bem. Eu não tinha tido notícias de TOC nas últimas semanas, o que, de acordo com Magnum, era previsto no curso do processo. Afinal, eu tinha passado um mês inteiro cantando na Court Street, passando por todos os negócios da Stratton e dando ao TOC e ao Canalha uma quantidade imensa de informações. Agora eles precisavam fazer sua lição de casa: as intimações, as entrevistas com testemunhas, seguir as trilhas de documentos importantes.
Fazendo um registro importante, meu encontro com o Demônio de Olhos Azuis tinha se mostrado um completo desperdício de tempo. Ele era cuidadoso demais para ser pego em uma fita gravada, especialmente com alguém sob intimação. No entanto, meus captores tinham considerado que a falha na verdade não fora minha culpa. Enquanto eu tentasse o melhor que podia, dissera o TOC, eu receberia minha “carta de recomendação” da Promotoria. Tudo se resumia a honestidade. Basta se lembrar disso, sugeriu ele, e você sairá da cadeia ainda jovem.
Essa foi a última vez que conversamos, com exceção de uma rápida ligação telefônica, durante a qual ele me disse que Danny havia conseguido fiança e que Victor Wang finalmente tinha sido indiciado. Sem dizê-lo, a mensagem era clara: Danny estava cooperando e Victor se tornara cativo da Bruxa, seu troféu pessoal para exibição.
Em todo caso, foi por volta do dia de Ação de Graças que finalmente apresentei a Rainha do Boquete para meus filhos. Ela foi maravilhosa com eles, na verdade, e, com exceção de um imprevisto – ela sofreu um ataque de pânico, acompanhado por violentos tremores de corpo, enquanto nós quatro estávamos almoçando em East Hampton –, comecei a enxergá-la como uma madrasta adequada para as crianças. Embora nós não tivéssemos de fato definido a data do casamento, seria apenas uma questão de tempo. Nós éramos perfeitos juntos, duas almas machucadas que de alguma forma conseguiram se adequar para curar um ao outro.
E então veio o desastre. Foi na semana antes do Natal, quando estávamos deitados na cama juntos, muito felizes. Era uma tarde de sábado, eu estava assistindo à TV e ela lia um livro. Quando olhei para ela de relance, percebi que estava usando óculos de avó. E também notei uma pequena cicatriz embaixo do queixo. Eu olhei para a cicatriz. “Não é muito atraente!”, pensei. Então, foquei nos óculos de avó. “Ainda menos atraente!”, pensei. Então desci meu olhar para os peitos pequenos e os braços fininhos como bambus. “Muito feios!”, pensei.
Estávamos deitados sob o edredom de seda branca, então eu não podia analisar todo o corpo dela, mas, apesar disso, não havia como negar que eu a pegara em um ângulo muito ruim. E foi isso: eu já não adorava mais a Rainha do Boquete.
Respirei fundo e tentei me equilibrar, mas foi inútil. Eu não poderia tê-la mais em minha casa. Eu precisava ficar sozinho, ou com a Duquesa. Talvez eu pudesse convencer a Duquesa a voltar e ficarmos juntos para o bem das crianças. Aliás, eu já tinha tentado abordar esse ângulo, sem sucesso. O rumor mais recente era de que ela estava transando com Michael Bolton, aquele cantor de merda que usava rabo de cavalo!
Bem, o fato é que no dia seguinte atirei a Rainha do Boquete porta afora, ou pelo menos tentei, mas ela teve um colapso nervoso na minha sala de estar, ameaçando se suicidar. Então eu disse a ela que estava apenas brincando, que não queria realmente terminar as coisas. Eu estava ficando com frio na barriga, como resultado de todo o tumulto que rolava na minha vida.
Então, ela sorriu tristemente e me perguntou se eu gostaria de um boquete. Eu ponderei por um momento, sabendo que certamente seria o melhor boquete da história, considerando-se que a Rainha do Boquete estaria fazendo aquilo para manter sua posição em Meadow Lane…
Mas no final eu disse a ela que não, embora talvez eu quisesse mais tarde. Ela pareceu aliviada com isso, então eu logo me desculpei, dizendo que precisava dar uma saída rápida para ver meu padrinho, George, que morava no final da rua.
– VOCÊ UÃO PODE simplesmente pegar uma camisa de força e levá-la embora? – perguntei a George. – Eu não vejo outra solução.
Aquelas não foram as primeiras palavras que eu pronunciei naquela tarde a George, mas eram parecidas com as primeiras. As primeiras foram:
– Estou numa grande merda, George. A Rainha do Boquete está ameaçando cometer suicídio e meu pau anda tão dolorido de todos os boquetes que está pronto para cair!
George e eu estávamos sentados à mesa de madeira branqueada em sua cozinha francesa, um em frente ao outro, enquanto sua esposa, Annette, uma bonita nativa do Brooklyn de 1,50 metro com cabelo loiro avermelhado, pele perfeita e sotaque feroz, nos preparava o café. Na verdade, era mais que café (eram donuts, muffins, café e frutas recém-cortadas), porque Annette nunca fazia nada pela metade, especialmente quando se tratava de cumprir sua principal missão, que era fazer com que a vida de George fosse a mais confortável e maravilhosa possível. Na verdade, George merecia isso.
Ele estava com 62 anos, era 12 anos mais velho que Annette e servia como prova viva de que um leopardo pode, sim, trocar suas manchas. Aqueles que não tivessem ouvido falar de George nos últimos 22 anos iriam alertá-lo: “Se você vir esse cara andando na rua, atravesse para o outro lado e procure não fazer contato visual. Ele é bravo e perigoso, sobretudo quando está bêbado, ou seja, sempre. E se acontecer de ele espancá-lo ou simplesmente agarrá-lo pelos tornozelos e deixá-lo de cabeça para baixo por duas horas, sacudindo-o de vez em quando, nem chame a polícia, a menos que você diga que foi um cara de 1,90 metro e mais de 100 quilos chamado George que o agrediu. Dessa forma, eles vão trazer dardos tranquilizantes!”.
Em todo caso, George finalmente ficou sóbrio e passou os 22 anos seguintes de sua vida se redimindo. Ele fez sua primeira fortuna no setor imobiliário, sua segunda fortuna em clínicas de reabilitação e ajudou a recuperar mais alcoólatras nos Hamptons que dez homens juntos.
Ironicamente, a primeira vez que vi George foi pela TV, quando sua ameaçadoramente bela cabeça apareceu em minha tela às 3 da manhã, enquanto eu estava no meio de uma farra de cocaína. George fazia propaganda de sua clínica de reabilitação, Seafield, e estava dizendo coisas como: “Você está chapado… bêbado… alto? Onde está sua família agora? Você precisa de ajuda? Seafield tem as respostas…” Minha resposta foi jogar uma escultura de bronze na tela da minha TV, colocando um fim prematuro ao comercial de George.
Ainda me lembro de pensar, naquele momento, que o rosto na minha TV era do tipo que eu nunca iria esquecer: aqueles traços asperamente bonitos, penetrantes olhos castanhos, cabelos grisalhos perfeitamente penteados. Foi por isso que não demorei muito para reconhecê-lo quando encontrei com ele seis semanas mais tarde, em Southampton, na sala dos Alcoólicos Anônimos. Agora, 18 meses depois, ele era muito mais para mim que apenas um padrinho. Na verdade, ele era como um pai.
– Eu não posso simplesmente ir com uma camisa de força – disse George, com um aceno de sua cabeça enorme. – Você sabe, eu avisei sobre isso: dois alcoólatras namorando são como dois caminhões indo de encontro um ao outro. – Ele encolheu os ombros enormes. – De qualquer forma, como disse antes: você ainda não terminou com sua esposa. É cedo demais.
Só então Annette entrou na conversa, com seu maravilhoso sotaque do Brooklyn:
– Ah, que mal tem isso, George? Uns boquetes não vão matar ninguém! Jordan anda solitário, ele precisa de um pouco de diversão – dizendo isso, ela cruzou o reluzente piso de terracota e colocou o café e as guloseimas na mesa da cozinha.
– Annette – disse George, olhando para ela por um segundo comprido demais –, ele não precisa de encorajamento nessa área. – Então virou-se para mim e disse: – Vou ver se consigo convencer Sarah a se internar em Seafield, mas só porque eu acho que seria bom para ela. Enquanto isso, sugiro que você não namore ninguém por um tempo. Você deve ficar sozinho por um ano e aprender a se virar. E continue indo às escolas, dando palestras antidrogas, que é a melhor maneira de passar seu tempo livre, ser produtivo e não ficar transando.
Eu prometi a George que faria isso e, durante o mês seguinte, segui seu conselho ao pé da letra, ou quase. O “quase” tinha a ver com encontros ocasionais com uma jovem russa que andava garimpando ouro. Natasha, como os jornais se referiam a ela, era cortesia de um conhecido dos Hamptons, uma espécie de playboy local, que poderia enviar uma legião de Natashas impertinentes a todos os quatro cantos do mundo assim que recebesse um dinheirinho em seu bolso.
Logo, porém, isso se tornou gasto demais. Na verdade, por volta do início de abril, decidi fechar a porta giratória de uma vez, pelo menos por um tempo, e me acomodei em um regime diário de monotonia e tédio, pontuado por visitas das crianças no fim de semana e jantares noturnos com George e Annette.
Sim, era chato e tedioso, tudo bem, mas também me deu uma chance de encontrar a mim mesmo, para tentar descobrir quem realmente Jordan Belfort era. A última década da minha vida tinha sido absurdamente complicada, e a criança que meus pais tinham trazido ao mundo tinha pouca semelhança com o Jordan Belfort de hoje. Então, quem eu era agora? Era um homem bom ou um homem mau? Eu era um experiente criminoso de carreira ou um cidadão honrado, que tinha apenas se perdido em seu caminho? Eu era um sujeito capaz de ser um marido fiel e amoroso ou era um devasso habitual que se recusava a usar preservativo até que seu pinto caísse? E meu vício em drogas? A besta estaria apenas dormindo ou ficaria por perto para sempre?
Todas essas perguntas e muitas outras ficaram ricocheteando em meu cérebro enquanto passei o resto do inverno no exílio. A insanidade, como eu tinha nomeado essa questão, tinha penetrado em todos os aspectos da minha vida e destruído tudo em seu caminho. Portanto, essa era minha chance de finalmente resolver as coisas, de chegar ao cerne das coisas. A única questão era: quanto tempo eu ainda teria?
Não muito, como se viu, porque TOC rapidamente quebrou o tédio.
Era uma noite de segunda-feira quando ele telefonou, e foi uma ligação perturbadora, para dizer o mínimo. Eu estava sentado na minha sala de estar, em uma poltrona, quando o telefone sem fio tocou. Coloquei meu manual do AA de lado e atendi.
– Alô?
– Sou eu – disse TOC. – Você está sozinho?
Tendo em vista que era o FBI ligando, eu realmente olhei em volta para me certificar de que estava sozinho.
– Sim – respondi –, estou sozinho. Então me levantei e comecei a andar em torno da sala, nervosamente. – O que está acontecendo? Como tem passado?
– Ocupado – respondeu ele. – Correndo atrás das coisas. E você, como está? Dormindo com alguma russa ultimamente?
– Muito engraçado – respondi, com uma saudável dose de riso nervoso. – Já me cansei dessas Natashas por ora. Não suporto mais o sotaque, você sabe, da, da, da… blá-blá-blá. Fica chato depois de um tempo.
Seguindo o conselho de Magnum, eu tinha contado a TOC sobre as Natashas impertinentes, para que não fossem colocadas no banco das testemunhas sob interrogatório. Então TOC fez sua própria investigação e, não surpreendentemente, chegou à conclusão jurídica de que não havia nada inerentemente contra a lei sobre se deitar com garotas russas que estivessem atrás de dinheiro.
– De qualquer forma, o que está acontecendo? – perguntei. – Faz tempo que não tenho notícias suas.
Nenhuma resposta a princípio, apenas alguns momentos de silêncio doentio, o tipo de silêncio que você ouve quando uma bomba-relógio fica ticando até o zero e há uma interminável demora antes da explosão. Finalmente, ele disse:
– Não há muitas novidades, mas eu preciso que você coloque escutas para falar com Dave Beall. – Mais silêncio. – Eu sei que isso não é agradável para você, mas é preciso.
– Por quê? – retruquei imediatamente. – Ele não é ninguém!
Enquanto as palavras escapavam de meus lábios, eu sabia que soavam ridículas. Não tinha nada a ver com os crimes que eu tinha ou não cometido com Dave Beall (é claro que eu tinha, simplesmente porque cometera crimes com todos os meus amigos), mas tinha tudo a ver com as pessoas a quem Dave Beall poderia levá-los.
TOC calmamente explicou:
– Quem ele é ou não é não importa, o importante é que eu sei que ele é um de seus amigos mais próximos. – Ele fez uma pausa por um momento, como se estivesse procurando as palavras certas. – Escute, não tenho nenhum grande prazer nisso e, acredite ou não, Joel também não. Mas é algo que você tem de fazer. Eu quero que você tente marcar um jantar com ele, o.k.?
Com o coração apertado, respondi:
– Certo. Quer dizer, que porra de escolha eu tenho, não é? – deixei escapar um suspiro óbvio. – Quando você quer que eu telefone?
– Nada melhor do que já – disse ele. – Posso começar a gravar?
Eu balancei a cabeça, triste.
– Sim, que diferença faz? Onde você quer que eu marque a reunião?
– Em um restaurante que seja calmo, em algum lugar em Long Island, mas não nos Hamptons. É muito longe para mim.
Eu pensei por um momento.
– Que tal no Caracalla, em Syosset? É italiano, pequeno, comida boa, tranquilo – balancei a cabeça, desesperado. – É um lugar tão bom quanto qualquer outro para trair meu melhor amigo, sabia?
– Não seja tão duro consigo mesmo – disse TOC. – Se ele estivesse em seu lugar, faria a mesma coisa. Acredite em mim.
– Eu acredito – respondi, mas o que eu não disse foi que sabia que ele estava errado. Dave nunca iria me trair. – Vá em frente, faça a gravação. Vamos acabar com isso.
– Tudo bem, espere um segundo… – Silêncio por um momento, em seguida, dois cliques, e então: – Aqui é o agente especial Gregory Coleman do Federal Bureau of Investigation. A data é 3 de abril de 1999, e a hora é… São 8 horas da noite. Esta é uma conversa de telefone gravada consensualmente entre Jordan Belfort, testemunha que vem cooperando com o governo federal, e David Beall.
Outro momento de silêncio, então eu ouvi o zumbido do telefone da casa de Dave, e a cada toque meu ânimo se afundava cada vez mais. No momento em que Dave atendeu, me ocorreu que eu não era mais baixo que uma bactéria de esgoto. Agora eu era menor que o muco que alimenta essa bactéria.