CAPÍTULO 12
UM SALTO DE LÓGICA
Exatamente uma hora depois, eu estava de volta ao calabouço do Canalha, com duas fatias de pizza no estômago e meus três captores me olhando atentamente. Eu tinha passado os últimos 15 minutos falando sobre como o Cabeça Quadrada havia se envolvido em todos os aspectos de minha vida, tanto nos negócios quanto na vida pessoal. Ele fazia tudo por mim, eu dissera a eles, quase como se fosse uma segunda esposa. E, embora eu não tivesse nenhum cargo especial no Investors’ Center, quem nos via juntos sabia que eu era o chefe. Kenny estava bem com isso; na verdade, ele gostava da situação.
Há reis e há aqueles que fazem os reis, disse aos meus captores, e o Cabeça Quadrada era definitivamente da última estirpe. Eu expliquei como Kenny começou a passar a maior parte de seu tempo executando as operações do que havia se tornado então nosso escritório dentro de um escritório. A gente tinha nossa própria área na parte de trás da sala dos pregões, onde ficava nossa equipe. Naquela época, nós tínhamos quatro conectores, três corretores e uma assistente de vendas, e todos eles tinham jurado lealdade a mim (a pedido de Kenny).
E então eu estava dizendo:
– O que mais me impressionou em Kenny, ou o que mais me desconcertou nele, era o fluxo interminável de amigos dele que desfilava no escritório. Todos tinham vindo exatamente do mesmo molde: estavam no final da adolescência ou em seus 20 anos, eram de famílias razoavelmente boas e razoavelmente bem instruídos.
– Interessante – disse o Canalha. – E todos eles eram ex-clientes de drogas?
Eu dei de ombros.
– A maior parte deles eu diria que sim, embora não colocasse muita ênfase nisso. Eram bons garotos, não jovens desamparados. Era como no filme Negócio arriscado, em que Tom Cruise se torna “cafetão de uma noite” e conecta seus amigos do ensino médio a um feliz esquadrão de prostitutas de alta classe. Isso é o que Kenny fez, e seus amigos continuaram aparecendo.
– E onde Victor Wang entra nisso tudo? – perguntou a Bruxa.
Epa!, pensei. Victor estava ferrado agora!
– Bem, o chinês, quer dizer, Victor, ficou fora da equação por um tempo. Ele estava muito ocupado esperando à margem, observando. Veja, ele e Kenny tinham uma amizade completamente bizarra na época. Era uma mistura de amor, ódio e desprezo mútuo, e, dependendo do momento, era como rolar um dado para definir como se sentiam um em relação ao outro. Eles podiam ser os melhores amigos ou inimigos mortais, ou algo entre essas duas situações. Na primavera de 1988, quando essa história estava acontecendo, Kenny e Victor estavam em desacordo, e eu só iria descobrir mais tarde que era por minha causa.
– Por que isso? – perguntou TOC.
– Porque Victor tinha tomado o juramento de lealdade de Kenny a mim como uma afronta pessoal. Desde que eram crianças, eles sempre tinham planejado um negócio juntos, e uma vez que Victor era o mais brilhante dos dois, ele era o líder não declarado. Quando Kenny tinha trazido Victor para minha empresa de carnes, era só para ele dar uma estudada no negócio e ver como funcionava, para ver se aquela ideia valia ser roubada para ele e o Cabeça Quadrada, o que evidentemente não valia. Mas um ano e meio depois as mesmas forças estavam em ação quando Kenny veio do nada querendo se tornar um corretor da bolsa. No início, ele tinha toda a intenção de aprender o que pudesse e depois se mandar com Victor. Mas uma coisa Kenny não tinha previsto, e foi quando ele me ouviu ao telefone. De repente, ele percebeu que havia outras pessoas lá fora que eram mais espertas que seu amado Victor Wang. Então, ele mudou de lado e, em vez de tentar vasculhar meu cérebro para roubar o conhecimento e a sabedoria, ele tomou o caminho oposto, dando tudo de si para me promover e tentando me transformar em um rei.
– Que história sórdida – murmurou TOC.
– Sim, certamente. Mas, de qualquer maneira, para resumir toda essa coisa do Victor Wang, Kenny tentou trazê-lo à cena quando ainda estávamos no Investors’ Center. Ele implorou para que Victor jurasse lealdade a mim, mas Victor se recusou, pois ele era muito orgulhoso. Assim, ele menosprezou a ideia de entrar no mercado de ações e continuou lidando com a cocaína – dei de ombros. – Com o passar dos meses, eu logo cresci em termos de poder, e a janela se fechou na cara de Victor. Em menos de um ano, a Stratton seria a Stratton e mais amigos de Victor estariam trabalhando para mim. O mais idiota estaria ganhando centenas de milhares de dólares por ano, os mais espertos estariam faturando milhões, e um seleto grupo estaria fazendo dezenas de milhões. Os últimos foram os que eu apoiei em suas próprias empresas, as quais usei para expandir meu império nefasto e manter os reguladores fora de equilíbrio. Bem mais tarde, Victor viria a possuir uma dessas empresas, a saber, a Duke Securities, e a única razão pela qual concordei em financiá-la foi para aplacar os ânimos do Cabeça Quadrada. Eu tinha sido inteiramente contra ele na época, porque conhecia Victor pelo que ele era: um homem de insultos e rancores mudos. Ele nunca poderia ser fiel a mim nem a qualquer outra pessoa, para falar a verdade.
Olhei nos olhos negros da Bruxa.
– Não se engane sobre isso, Michele: Victor é, foi e sempre será um personagem insano. São 100 quilos de músculos indestrutíveis cercados por 50 quilos de gordura abundante, e ele não tem medo de entrar numa briga caso surja a necessidade. Na verdade, uma vez ele pendurou meu mordomo gay do lado de fora da janela de meu apartamento que ficava no 53º andar, isso depois de transformar o rosto dele em carne moída.
Meus captores ficaram me olhando, surpresos.
– Sim, essa é uma história pouco conhecida. Meu mordomo gay roubou 50 mil dólares de mim, depois de Nadine ter brigado com ele por ter organizado uma orgia gay em nosso apartamento – encolhi os ombros. – Eu posso lhes dar todos os detalhes sujos, se quiserem, embora a violência, eu lhes asseguro, nunca tenha desempenhado nenhum papel na Stratton. O que aconteceu com meu mordomo foi uma aberração única, bem como uma prova da selvageria de Victor. Danny, por outro lado, não é um selvagem. No momento em que viu Patrick sangrando, correu para vomitar no banheiro.
O Canalha ergueu o dedo indicador e disse:
– Desculpe-me – ele se inclinou e cochichou algo no ouvido de TOC. Então a Bruxa se inclinou também e acrescentou suas próprias opiniões.
Eu não fiz nenhum esforço para escutar. Afinal, eu estava muito ocupado perdido em meus pensamentos, imaginando como minha vida tinha espiralado dessa forma, tão fora de controle. Talvez se eu tivesse seguido o conselho de minha mãe e ido para a faculdade de medicina, eu teria me tornado um cirurgião cardíaco como meu primo, ou talvez tivesse me tornado um ortopedista, como meu outro primo, ou talvez fosse um advogado agora, como meu santo irmão Bob. Quem poderia saber? Era tudo tão complicado.
Só então meus captores deixaram de se amontoar em complô.
– Tudo bem – disse o Canalha –, vamos passar para Danny agora. Quando foi que vocês dois finalmente se conheceram?
Eu pensei por um momento.
– Em junho de 88 – respondi –, bem na época em que decidi sair da Investors’ Center. Eu sabia que o lugar era uma farsa total, então, se eu não saísse logo, meus clientes seriam massacrados – fiz uma pausa por um momento, avaliando minhas palavras. – Farsa talvez seja uma palavra muito forte, no entanto. Eu não acho que o que eu estava fazendo era realmente ilegal.
– Você não espera que a gente acredite nisso, não é? – rosnou a Bruxa, com uma contração perturbadora em seu nariz. Eu mostrei-lhe um sorriso amarelo.
– Sim, Michele, eu espero e, francamente, isso não deveria ser um choque tão grande assim… Aquela firma, a Investors’ Center, era uma corretora com licença para operar com um departamento de compliance, um departamento de negociações e todos os outros recursos opcionais. Eles eram até mesmo membros da NASD! Não é como se estivessem operando nas sombras! Todo mês eles vinham com as ações de uma empresa na bolsa e bem lá na primeira página do prospecto dizia: “Este negócio foi revisado pela Comissão de Valores Mobiliários” – dei de ombros. – E você também continua esquecendo que eu andava quebrado na época. Quando entrei na firma, a única coisa em que eu pensava era no dinheiro para pagar o aluguel. Era isso que estava guiando todas as minhas decisões – deixei escapar um suspiro óbvio. – Não posso explicar as coisas melhor que isso, apesar de eu admitir que, quando o dinheiro do aluguel deixou de ser um problema, comecei a notar algumas coisas. No começo eu tentei racionalizar, mas a cada mês que passava isso se tornou mais e mais difícil. E eu me senti mais e mais horrível por dentro.
A Bruxa:
– Então por que não parou, se você se sentiu tão mal?
– Bem, acredite ou não, Michele, era exatamente isso o que eu tinha em mente quando conheci Danny. Aliás, foi de fato por isso que o conheci: eu estava no meu terraço, matando um dia de trabalho. Eu vestia um roupão branco atoalhado e pensava que direção tomar na minha vida. Já tinha um estoque decente de grana, de forma que não estava sob nenhuma pressão. Todas as opções estavam abertas para mim, todas exceto a abertura de uma corretora, que eu já havia descartado. Eram meados de junho, e George tinha abordado o assunto comigo. Ele me chamou em seu escritório e disse: “Os proprietários da Investors’ Center estão fazendo uma fortuna. É uma pena deixar tanto dinheiro assim sobre a mesa, você não acha?”. E minha resposta a George foi: “Não, eu não acho!”. Eu não queria ser dono de uma empresa de corretagem, especialmente uma como aquela onde trabalhava. Minha derrocada com a empresa de carnes e frutos do mar ainda estava muito fresca em minha mente, e eu sabia que todos os negócios pareciam lucrativos quando se olhava de fora; apenas quando você entrava para olhar é que conhecia sua verdadeira história. Claro, George não tinha ideia disso porque nunca tinha sido dono de alguma coisa antes. Tudo o que via eram os cifrões e nem uma única responsabilidade.
– Então você conheceu Danny enquanto estava no seu terraço? – perguntou o Canalha.
– Sim, eu morava no quarto andar, e Danny estava brincando com seu filho, Jonathon, no parquinho. Jonathon tinha 2 anos nessa época, e ele sempre chamava minha atenção porque tinha um fantástico cabelo loiro platinado. Ele era muito bonito. Enfim, depois de alguns minutos fazendo o papel de bom pai, Danny pareceu ficar entediado, e então saiu de lado e acendeu um cigarro. Em certo momento nossos olhares se cruzaram e eu lhe lancei um sorriso cortês de vizinho. Eu acho que o que mais me chocou em Danny naquele dia era como ele parecia um cara normal. Estava usando um short de golfe azul-claro e uma camisa polo de manga curta combinando. Era um conjunto de golfista, pensei, ou talvez um conjunto de iatista. Era difícil dizer. O que quer que fosse, eu nunca teria imaginado que ele era judeu.
O Canalha olhou para mim, confuso. Eu continuei:
– Enfim, trocamos olás, e então notei que Jonathon tinha subido ao alto do escorregador. No começo fiquei impressionado, porque parecia uma poderosa façanha para um menino de 2 anos de idade, mas então me ocorreu que provavelmente deveria avisar Danny. E então, de repente, Jonathon perdeu o equilíbrio e eu gritei: “Caralho! Cuidado, Danny! Seu filho!”, e Danny se virou a tempo de assistir a Jonathon perder o equilíbrio e bater no pavimento como uma bola de chumbo.
Fiz uma pausa e balancei a cabeça, sério.
– Eu vou dizer a verdade: de início, achei que o pobre garoto estava morto. Quer dizer, ele estava deitado, imóvel, e Danny também ficou imóvel, muito espantado para se mexer. Por fim, no entanto, depois de alguns segundos dolorosamente longos, Jonathon levantou a cabeça e começou a olhar em volta, mas não estava chorando ainda. Isso veio um segundo mais tarde, quando ele cruzou os olhos com Danny. Então ele ficou gritando com toda a força de seus pulmões, agitando os braços e chutando com as pernas loucamente. Aí concluí que deveria descer até lá e dar uma mão a Danny. Parecia a coisa certa a fazer, em nome da boa vizinhança. Mas quando cheguei ao parquinho, Jonathon estava chorando muito alto mesmo. Ele estava berrando nos braços de Danny! Eu disse a Danny: “Você quer que eu vá procurar sua esposa?”. Danny recuou com horror e disse: “Meu Deus! Procure qualquer um, menos ela! Por favor! Você pode chamar a polícia, não me importa, e fazer com que eu seja preso por ser um mau pai, só não telefone para minha esposa, por favor!”. É claro que eu pensei que ele estava brincando na hora, então concordei com a cabeça e sorri. Mas ele não sorriu de volta, e isso porque não estava brincando. Eu só iria descobrir o motivo, no entanto, alguns dias mais tarde, quando Denise e eu tivemos o prazer de sair com eles para jantar e assistimos a Nancy tirar um cigarro aceso de sua boca e jogá-lo no rosto de Danny. Mas, para não me adiantar aqui: Jonathon acabou por se acalmar, e Danny me disse: “Minha esposa me falou que o vê saindo no terraço durante toda a semana em roupão de banho. Com o que você trabalha?”. “Sou corretor de ações”, respondi casualmente. “É mesmo?”, disse ele. “Eu pensei que você precisava trabalhar em Wall Street para ser um corretor da Bolsa.” Balancei a cabeça negativamente. “Isso é um equívoco total. Tudo é feito através do telefone agora. Você poderia estar em qualquer lugar. Eu, por exemplo, trabalho em Great Neck e ganhei mais de 50 mil no mês passado”. “Cinquenta paus! Não acredito! Eu tenho um monte de amigos corretores e todos eles estão pastando desde a quebra da Bolsa!”. Expliquei: “É que eu só cuido de ações pequenas. Elas não foram tão afetadas por essa queda. Que tipo de trabalho você faz?”. “Estou no negócio de ambulâncias”, respondeu ele rapidamente, “o que é um terrível pesadelo. Eu tenho sete vans que constantemente quebram e sete motoristas haitianos que quase nunca aparecem para trabalhar. Eu teria tacado fogo no lugar para conseguir o seguro se tivesse como escapar sem ser pego.”
“Assenti com a cabeça, compreendendo o que ele queria dizer, e disse sem pensar: ‘Bem, se você quiser uma mudança em sua vida, tenho certeza de que consegue um emprego na empresa onde trabalho. Posso treiná-lo eu mesmo’, ao que Danny me olhou nos olhos e respondeu: ‘Meu amigo, se você me provar que está ganhando 50 mil por mês, eu estarei à sua porta, às 6 horas da manhã de amanhã, pronto pra escavar merda pra você, se for preciso!’.
– E quando ele realmente foi trabalhar para você? – perguntou o Canalha.
– Na manhã seguinte – disse eu. – Fiel à sua palavra, ele estava esperando na minha porta, segurando uma cópia do The Wall Street Journal.
– E o negócio de ambulâncias dele?
Eu dei de ombros.
– Ele nunca mais voltou para aquilo. Danny tinha um sócio, 50%-50%, e então apenas entregou as chaves para o cara e disse: “Até mais, amigo, legal te conhecer!”, e foi tudo. Ele ficou fazendo ligações para mim durante o restante do verão e depois passou no teste para corretor na primeira semana de setembro. George, por sua vez, foi se tornando cada vez mais agressivo sobre abrir nossa própria corretora. A CVM tinha começado a investigar a Investors’ Center e, se essa notícia vazasse, disse ele, a empresa iria quebrar rapidamente. O que mais me preocupava era que eu tinha acabado de convencer Lipsky e o Pinguim a vir trabalhar para mim. O Pinguim finalmente tinha jogado a toalha em relação à empresa de carnes e frutos do mar, e a fábrica de móveis de Lipsky estava à beira da falência. Então, de certa forma, eu me sentia responsável por eles também. Foi por isso que finalmente concordei em ir com George falar com um advogado, porque eu queria reunir conhecimento sobre as coisas.
– Com que advogado você falou? – perguntou o Canalha.
– Seu nome era Lester Morse, embora Danny e eu costumássemos chamá-lo de Lester Re-Morse, porque tudo que se relacionava com esse cara era cheio de remorsos, era taciturno. Ele era pessimista ao máximo, quase difícil de entender. Quer dizer, cada pessoa que ele conhecia estava apodrecendo na cadeia ou tinha perdido seu último centavo para a CVM. E a maneira como Re-Morse contava uma história o fazia querer cortar os próprios pulsos. Ele começava contando como alguém era um grande sujeito e como tinha feito uma fortuna em seu auge, mas a história rapidamente degenerava para uma história cheia de advertências e ele acabava dizendo: “… E o que o governo acabou fazendo com ele foi uma terrível sacanagem. Ele está em Allenwood agora e não vai sair pelos próximos dez anos”. Então, sacudia a cabeça e passava para sua próxima vítima.
– Interessante – resmungou o Canalha.
– Sim – eu disse –, e o que é ainda mais interessante é que um dos nomes que ele trouxe à baila foi o de Bob Brennan, o Demônio de Olhos Azuis em pessoa.
O Canalha se animou.
– É mesmo? E o que ele falou sobre Brennan?
Eu dei de ombros.
– Disse que tinha sido a única pessoa a sair livre com todas as pedrinhas, 200 milhões delas, pelas contas de Lester.
– Hum… – murmurou o Canalha. – E que mais ele falou?
– Que Bob era esperto demais para ser preso. Ele disse que ele estava sempre dois passos à frente dos reguladores e que cobria suas pegadas como um índio. Lembro-me de ficar muito intrigado com isso na ocasião, jurando a mim mesmo que, se um dia entrasse no negócio de corretagem, gostaria de ser como Bob Brennan. Veja, Lester não pintou Bob como um arquivilão, pelo contrário. De acordo com Lester, a culpa foi de reguladores com excesso de zelo, juntamente com um sistema de justiça em dois níveis que se mostrava tendencioso contra as corretoras de ações baratas. Já as empresas WASP, por outro lado, escapavam dos assassinatos sem serem pegas.
– Você acreditou nele? – perguntou o Canalha.
– Sim, em boa parte do que ele falou. Embora não possa negar que parecia um pouco que estava dizendo tudo aquilo em seu próprio benefício. Eu conhecia as coisas suficientemente bem naquele momento para perceber que as corretoras de ações baratas arranjavam as coisas não muito a favor do cliente, embora um jogo de cartas marcadas e a ilegalidade flagrante sejam duas coisas diferentes. Mas o escritório de Lester me lembrou a Investors’ Center. Era pequeno, sujo e não cheirava a sucesso. E Lester me lembrava um anãozinho envelhecido. Tinha cerca de 1,60 metro e era completamente careca no topo da cabeça, com grossas faixas de cabelo grisalho encaracolado sobre as orelhas.
– Então estavam só vocês três na reunião? – perguntou o Canalha.
– Não, éramos quatro, Mike Valenoti também estava lá. – Eu olhei para TOC. – Mike, tenho certeza de que você está familiarizado com ele.
TOC assentiu.
– Eu tenho um monte de perguntas sobre Valenoti.
– Não estou surpreso – disse eu. – Se há uma única pessoa que tenha me ajudado a fazer a Stratton ser a Stratton, essa pessoa foi ele. Ele foi o cérebro operacional por trás de tudo, o cara que manteve as coisas funcionando em todos os 12 cilindros. Ele foi meu primeiro mentor, antes mesmo de Al Abrams, e também foi o primeiro mago de Wall Street que conheci. Quer dizer, sua amplitude de conhecimento era absolutamente incrível!
Dei de ombros.
– Mas, para poupar tempo, vou lhe dizer que Mike Valenoti é completamente inocente nessa história. Ele estava sempre tentando me manter no caminho certo, e eu estava sempre jurando a ele que fazia as coisas direito. No final, porém, ele se tornou tão sobrecarregado com o fluxo do negócio que não podia mais enxergar o quadro geral da situação. Ele não tinha ideia de que eu estava violando a lei.
TOC torceu os lábios por um momento.
– Aprecio sua lealdade a Mike – disse ele –, mas me parece um pouquinho implausível que alguém tão sofisticado quanto ele não soubesse o que estava acontecendo por ali. – Ele me deu um sorriso rápido, incrédulo. – Você entende o que estou dizendo, não é?
Aquiesci lentamente.
– Claro, o que você está dizendo faz total sentido, Greg. Mas também acontece de estar totalmente errado. – Fiz uma pausa para o efeito. – Entenda que 90% do negócio da Stratton era completamente legítimo: nós não roubávamos dinheiro das contas de clientes, não lançávamos ações de empresas fraudulentas e, ao contrário do que a imprensa possa dizer, nossos clientes sempre podiam vender, se quisessem fazer isso. Claro, nossas práticas de vendas deixavam muito a desejar, mas quem não fazia isso? Prudential-Bache? Lehman Brothers? A Pru-Bache estava ocupada demais arrancando dinheiro de vovós e vovôs, e a Lehman Brothers fez com que eles parecessem meninos de coral. Na verdade, foram os scripts da Lehman Brothers que serviram de modelo para a Stratton!
Eu balancei a cabeça lentamente.
– O lado fraudulento da Stratton ocorria em minúsculos blips, e se você não estivesse a par desses blips tudo pareceria normal. Mas deixe-me voltar para o escritório de Lester por um segundo. Primeiro, eu rapidamente percebi que George Grunfeld era completamente inútil. Ele sabia menos ainda que eu sobre o negócio de corretagem, e cada palavra que saiu de sua boca foi um total absurdo. Com Lester, no entanto, a história foi diferente. Ele tinha conhecimento e experiência suficientes, mas era completamente desprovido de carisma. Falava com uma voz baixa e estridente, e suas palavras saíam lentamente, dolorosamente, como se uma tartaruga estivesse falando. Achei difícil manter minha mente em apenas um ponto, então fiquei lá sentado, fingindo escutar, dando algumas olhadas em Mike com o canto dos olhos. Lester tinha pintado Mike como uma espécie de guru das operações, mas até aquele ponto ele havia dito apenas uma ou duas palavras. Do ponto de vista físico, fiquei muito pouco impressionado. Mike estava vestido com um terno azul barato e uma camisa de rayon ainda mais barata, e seu cabelo era meio torto… – do tipo do seu, Canalha, embora o cabelo de Mike fosse mais para o grisalho, enquanto o seu é uma sombra plebeia de lama marrom – embora eu devesse ter reconhecido um velho cão de guerra de Wall Street assim que o visse.
– O que é um velho cão de guerra de Wall Street? – perguntou o Canalha.
– É alguém que trabalhou em Wall Street por muito tempo e passou por mercados de alta e mercados de baixa, alguém que viu os excessos vertiginosos e as histórias de desastres fabulosos. É alguém que viu diversos homens saírem dos trapos, encontrarem a fortuna e depois voltarem aos farrapos de novo e para a riqueza mais uma vez. Ele viu as prostitutas e as drogas e os jogos ridículos, e viu Wall Street sair da idade das trevas de comissões fixas e entrega de ações físicas para a era moderna, onde as empresas de corretagem competem com a Merrill Lynch em transações feitas eletronicamente.
Dei de ombros.
– Há apenas alguns poucos desses velhos cães de guerra ainda em Wall Street, porque a maioria deles já morreu de ataque do coração ou de cirrose. Mas, se você tiver sorte suficiente para realmente encontrar um deles, eles valem seu peso em ouro. E Mike Valenoti era um dos membros dessa raça em extinção. Talvez eu devesse ter reconhecido no momento em que coloquei os olhos nele, deveria ter notado seus olhos devastados pelas batalhas enquanto ficava ouvindo as insanidades ditas por Lester e George. Ele manteve o queixo enfiado entre as clavículas e os ombros curvados, como se estivesse prestes a cair no sono. E havia o nariz de Mike, que era digno de aplauso! Era recoberto por veias vermelhas que se espalhavam como uma teia e do tamanho de uma batata doce! No entanto, ele possuía os olhos castanhos mais inteligentes que eu já vi. Eles eram penetrantes e podia-se dizer apenas de olhar para eles que Mike não estava perdendo uma só palavra. De qualquer forma, para não entrar em mais detalhes, o simples fato foi que Mike e eu nos entrosamos fabulosamente naquele dia. Falamos exatamente a mesma língua, e era a língua de Wall Street. Quando ele iniciava uma frase, eu terminava, e vice-versa. De fato, no momento em que a reunião acabou, eu tinha dado a Mike um discurso completo de vendas, fingindo que ele era um cliente. E, claro, o discurso o impressionou de fato, assim como a Lester. Mas acho que a coisa mais importante daquele dia foi o efeito que Mike havia causado em mim. De repente, eu voltei a me sentir como o velho Jordan de sempre.
Encolhi os ombros.
– Enfim, eu sabia que tinha me mostrado o mais arguto dos argutos naquela tarde, por isso não foi surpresa nenhuma para mim quando Lester me telefonou em casa naquela noite, me aconselhando a abrir minha própria empresa de corretagem. Aparentemente, Mike tinha puxado ele de lado após a reunião e dito que trabalharia para mim sem um salário inicial. Tudo o que ele queria era uma pequena porcentagem dos lucros. Em troca, ele construiria uma área de operações para rivalizar com qualquer empresa em Wall Street. Lester também estava disposto a trabalhar de graça. Ele iria preencher toda a papelada e os formulários necessários com a NASD e depois me acompanharia durante minha entrevista de adesão. Em troca, tudo que ele queria era uma chance de representar as empresas que eu levasse à Bolsa. Se elas iriam querer ou não seus serviços, não era minha responsabilidade. Eu só precisava fazer a apresentação, ele faria o resto.
– E sobre Grunfeld? – perguntou TOC.
Eu balancei a cabeça.
– George ficou de fora. Na verdade, foi a primeira questão levantada por Lester. Ele não servia a nenhum propósito útil, guinchou Lester. Era um cara bom e coisa e tal, mas era um peso morto. Mike e eu tínhamos tudo o que era necessário para tocar uma empresa. De qualquer forma, eu disse a Lester que iria pensar sobre o assunto, embora, lá no fundo, realmente não tivesse nenhuma intenção de seguir adiante. Ainda estava abalado pela história da empresa de carnes, e percebi que era preferível esperar por um tempo para ver.
– Onde estamos agora na linha do tempo? – perguntou o Canalha.
– Início de setembro – respondi –, que foi quando as coisas começaram realmente a esquentar. Primeiro, Danny passou no teste para ser corretor, e eu o chamei até meu apartamento para uma sessão de treinamento. Sentado no meu sofá da sala de estar, comecei. “Muito bem”, disse eu, “aqui está a questão: a primeira chave para vender uma ação é aprender a ler a partir de um roteiro sem soar como se estivesse lendo um roteiro. Você entendeu?”. “Sim”, disse ele, confiante, “não há problema algum”. “Bom”, respondi. “Finja que você é um ator em um palco: você levanta a voz e abaixa a voz, você acelera e, em seguida, vai mais devagar. Você deve manter os clientes interessados, vidrados em cada palavra sua. E nem pense em pegar o telefone até que saiba todas as respostas para todas as objeções potenciais. Você nunca pode parecer perplexo, Danny… Nunca!”. Ele acenou com a cabeça, confiante de novo. “Entendi, amigo. Você não tem que se preocupar com Danny Porush. Ele pode vender gelo para um esquimó e petróleo para um árabe!”. “Eu tenho certeza de que ele pode fazer isso,” concordei. “Mas, lembre-se, você tem que conhecer esse script como a palma de sua mão. Você não pode gaguejar, que é o primeiro sinal de um vendedor novato, pois o cliente vai sentir o cheiro direto através do telefone”.
E continuei:
– Eu sorri para ele, enquanto Denise olhava com ansiedade. Eu tinha contado a ela que achava Danny um tremendo vendedor, apesar de nunca tê-lo ouvido vender alguma coisa. Mas ele tinha uma atitude muito arrogante, por isso eu sabia que ele seria ótimo. Com a cafeteira na mão, Denise sorriu para Danny e disse: “Você quer que eu vá para a cozinha, para não deixá-lo nervoso?”. Danny acenou para ela: “Ora, Denise, para um cara como eu isso é como dar tiros em peixes num barril…”. Denise encolheu os ombros e disse: “O.k., então eu vou ficar aqui e ouvir você”. Danny assentiu, enquanto eu lhe entregava o script da Arncliffe National. “Muito bem”, disse eu, “vamos fingir que você está me ligando e a gente interage um pouco”. Ele concordou, pegou o script das minhas mãos, limpou a garganta com uma série de uhums e uhus. Por fim, com grande confiança, ele disse: “Alô, Jordan está?”. “Sim”, respondi rapidamente, “estou bem aqui. Como posso ajudar?”. Danny estalou o pescoço, como se fosse um lutador antes de entrar no ringue: “Oi, Jordan, aqui quem fala é Danny Porush, ligando do… Ligando de… ãh… Er… Investors’ Center. Como… Como está passando?”, e então ele fez uma pausa, suando em bicas. Denise disse que iria para a cozinha “para deixar vocês dois sozinhos” e um Danny de repente humilde respondeu “Sim, eu, uh, acho que é uma boa ideia, Denise. Isso é um pouco mais difícil do que parece”, e então ele limpou uma gota de suor da testa.
– Pare com isso – disse TOC. – Você está exagerando, ele não pode ter ido tão mal assim.
Eu comecei a rir.
– Mas ele foi, Greg. Na verdade, ele foi tão mal que, depois de ele sair do meu apartamento naquela noite, Denise me disse: “Olha, querido, é impossível que ele vá conseguir. Ele parece um retardado. Quer dizer, por que ele ficou resmungando a noite inteira? Por que ele não consegue falar como uma pessoa normal?”. E eu respondi: “Não sei, talvez ele tenha uma rara forma de síndrome de Tourette que só se manifesta quando ele tem de vender alguma coisa”, e Denise concordou. De qualquer forma, fiz questão de ir trabalhar no dia seguinte porque queria testemunhar a carnificina em primeira mão, mas então algo estranho aconteceu, algo muito inesperado. Eu estava sentado a poucos metros de Danny, tentando conter o riso. Ele estava fazendo seu velho “Oi… Ãh… Eu… Da-anny Por-ush… Como… Hã… Vai você” quando, de repente, snap!, aquela gagueira parou completamente e ele começou a falar de maneira inacreditável. Parecia quase tão bom quanto eu, quase..
Pisquei para meus captores e continuei:
– Danny começou a fechar negócios a torto e a direito, e depois de duas semanas, como sinal de companheirismo, perguntei se ele não queria me acompanhar em uma visita a meu contador, na cidade. O dia 15 de outubro se aproximava e eu ainda estava em aberto com meus impostos de 1987. Danny concordou alegremente, e lá fomos nós. Nós pulamos no meu Jaguar branco pérola e fomos para Manhattan em uma quarta-feira à tarde. Agora, vejam vocês, até aquele momento eu achava que Danny fosse um cara completamente normal, porque se vestia de forma conservadora, agia de forma conservadora e vinha de uma família muito boa. Ele tinha crescido na South Shore de Long Island, na cidade de Lawrence, que é uma área muito rica, e seu pai era um nefrologista dos bons. Danny se referia a ele como o Rei do Rim no Brookdale Hospital. No entanto, no front do lar, Denise tinha ouvido alguns rumores muito estranhos sobre Danny: a saber, que ele e sua esposa, Nancy, eram primos de primeiro grau. Claro que eu disse a Denise que ela era louca, porque não havia nenhuma maneira de Danny deixar de me contar isso. Na maior parte do tempo que passamos juntos, ele reclamava da mulher, dizendo que a única missão na vida dela era fazer com que a vida dele fosse a mais miserável possível. Então, pensei, por que ele não me contaria que ele e Nancy eram primos de primeiro grau? Não fazia sentido. Quer dizer, se fosse verdade, isso definitivamente exerceria um papel em tudo. Mas eu nunca descobri uma maneira de abordar o assunto com ele, então eu só deixei isso de lado, descartando a história como sendo apenas um boato maldoso. Em todo caso, depois que terminei meu assunto com o contador, nós dois pulamos no Jaguar e dirigimos para fora da cidade. Estávamos em algum lugar perto da rua 95, nos limites do Harlem, quando a loucura começou. Eu me lembro de Danny gritar: “Pare! Pare! Você tem que parar”. Eu parei o carro e Danny saiu e correu até uma bodega dilapidada com uma placa escrita Groceteria. Ele veio correndo de lá um minuto mais tarde, segurando um saco de papel marrom. Entrou de volta no carro com um sorriso insano no rosto e disse: “Vamos, depressa, para o norte até a rua 125, vamos!”. “Mas que merda está acontecendo com você, Danny?”, murmurei. “Aqui é o Harlem, caralho!” “Está tudo bem”, disse ele, conscientemente, e enfiou a mão no saco, tirando um cachimbo da droga de vidro e uma dúzia de frascos da droga. “Esta coisa aqui vai transformar você em um super-homem. É meu presente para você, por tudo o que tem feito por mim!”. Balancei a cabeça e comecei a dirigir. “Você está realmente louco!”, rosnei. “Eu não vou fumar essa merda, é puro mal!” Mas ele acenou para mim. “Você está exagerando, só faz mal se você tiver acesso constante a ela, e eles não vendem isso em Bayside, portanto estamos bem.” “Olhe”, repliquei, “você é um porra de um retardado de merda!”, gaguejei. “As chances de me fazer fumar crack são abaixo de zero, entendeu? Entendeu, amigo?” “Sim…”, respondeu ele. “Entendi. Agora, vire à esquerda aqui e vá até o Central Park.” “Que porra de cara é esse!”, resmunguei, balancei a cabeça desgostoso e fiz uma curva à esquerda.
“Quinze minutos mais tarde, eu estava no Harlem, no subsolo de um antro de crack caindo aos pedaços, frequentado por prostitutas desdentadas e haitianos bêbados, levando o tubo de vidro aos lábios enquanto Danny segurava um isqueiro na tigela. E enquanto o crack chiava como uma tira de bacon na frigideira, dei um longo trago e o segurei enquanto podia. Uma onda de euforia indescritível ultrapassou meu corpo. Tudo começou na base da minha aorta e percorreu minha coluna vertebral, borbulhando em torno do centro de prazer do meu cérebro com um bilhão de explosões sinápticas. ‘Ah, porra’, murmurei, ‘você é o melhor amigo que eu já tive, Danny!’, e passei o cachimbo a ele. ‘Obrigado’, respondeu ele, ‘você também, somos irmãos até o fim’, recarregando o cachimbo com mais crack.
TOC balançou a cabeça incrédulo.
– O que diabos havia de errado com você? Por que você faria isso?
A Bruxa disse:
– Porque eles são viciados em drogas, Greg, eles não têm vergonha.
– Quanto tempo você ficou lá? – perguntou o Canalha, num tom de curiosidade mórbida.
– Por um longo tempo – respondi, balançando a cabeça. – Você precisa saber uma coisa sobre o crack: uma vez que começa com ele, só há duas maneiras de parar: quando fica sem dinheiro ou quando morre de ataque cardíaco. Felizmente, nossa farra terminou com a primeira opção, não com a segunda. Eu só tinha cerca de 700 dólares no bolso, e Danny uns 500. Então, juntamos nosso dinheiro, como dois bons socialistas, e fomos capazes de manter nossa compulsão até depois da meia-noite.
Eu dei de ombros.
– O lado bom da coisa, porém, é que fui capaz de reunir informações valiosas demais durante nossa farra. Como acontece com todas as drogas, há várias fases de pico, e com o crack elas são particularmente agudas. Se quiserem, posso contar a vocês como é.
TOC balançou a cabeça com seriedade.
– É um mistério para mim o porquê de eu estar interessado em ouvir sobre isso, mas já que você deixou o gênio sair da garrafa, é bom que siga em frente.
Sorri para ele.
– O prazer será todo meu, Greg. A primeira fase do pico do crack é a fase da euforia. Isso acontece quando você se sente tão incrivelmente maravilhoso que quer apenas gritar do alto das colinas: “Eu amo crack! Eu amo crack! E todos vocês aí embaixo que não estão fumando essa merda não sabem o que estão perdendo!” – dei de ombros. – E caso não acreditem no que estou dizendo, experimentem por si mesmos e verão o que eu quero dizer.
– Quanto tempo dura essa fase? – perguntou o Canalha.
Eu balancei a cabeça, triste.
– Não o suficiente – respondi. – Talvez 15 ou 20 minutos, depois acaba e você desliza para a fase dois, que é quase tão boa, mas nem tanto. É a chamada fase de “cagar pela boca”, que por si só já é autoexplicativa. Nesse caso, porém, o tipo de diarreia oral que é induzida pela droga difere um pouco da diarreia oral induzida pela variedade botânica que o típico artista de merda lança em você.
– E qual é a diferença? – perguntou a Bruxa, em busca de uma forma de reconhecer um artista de merda quando visse um.
Apertei os olhos sabiamente.
– Bem, é muito difícil descrever as falas sem sentido induzidas por drogas para aqueles que nunca mergulharam nelas, mas vamos apenas dizer que consiste de um fluxo interminável de divagações ocas, que as outras pessoas que estão na mesma fase acham que são brilhantes. No entanto, para todos aqueles que estão fora da fase, soa como um completo disparate.
TOC parecia entender:
– Por isso que nessa fase você fez a maior parte de sua coleta de informações, eu presumo.
– Na verdade, Greg, é uma suposição bastante lógica. Danny e eu estávamos sentados naquele chão de concreto, sob um teto de amianto despencando, com as costas apoiadas contra uma parede de gesso barato, que precisava de duas demãos de tinta, enquanto três putas desdentadas cheias de crack olhavam com admiração. Então eu disse a ele: “Não consigo pensar num lugar melhor que esse para fazer uma viagem de crack, hein, Danny?”. “De jeito nenhum”, murmurou ele. “E aí, você acha que eu fiz uma indicação errada?” Ele colocou o cachimbo na boca e inalou mais uma vez. “Deixe-me fazer uma pergunta”, eu disse. “Você sabe, há alguns rumores muito loucos flutuando em torno do nosso prédio sobre você e Nancy serem primos de primeiro grau. Claro, eu sei que eles não são verdadeiros, mas eu só achei que você precisava tomar conhecimento, entendeu, de modo que você ficaria sabendo o que as pessoas andam falando sobre vocês.” De repente, ele começou a tossir violentamente. “Caralho… Caralho!”, e balançou a cabeça rapidamente, como se tentasse controlar aquele pico. Após alguns segundos, ele disse: “Não é um boato, cara, é verdade. Nancy e eu somos primos de primeiro grau. O pai dela e minha mãe são irmãos”. Ele deu de ombros. “Você não está preocupado com a consanguinidade?”, perguntei a ele. “Quer dizer, Jonathon parece bastante normal até agora, mas o que acontecerá com seu próximo filho? E se ele sair deformado?”. Danny balançou a cabeça. “O risco é baixo”, disse ele, confiante. “Meu pai é médico e fez os exames. Mas, se de fato der merda, eu vou deixar o mutante nos degraus de uma instituição de caridade. Ou vou trancá-lo no porão e dar pra ele um balde de carne moída uma vez por mês.” Lembrem-se, não fui eu quem disse isso, foi Danny. Além disso, nós estávamos no meio da fase de “cagar pela boca”, e até mesmo as coisas mais absurdas faziam sentido, naquele momento!
TOC e o Canalha começaram a rir.
– Então, que outra informação valiosa você conseguiu reunir? – perguntou o Canalha.
Eu balancei a cabeça, ansioso para mudar de assunto.
– Bem, eu também descobri que ele tinha cheirado seus dois últimos negócios falidos direto pelo nariz. Antes do serviço de ambulâncias houve um serviço de mensageiros em Manhattan; foi quando ele começou a fumar crack com os mensageiros de bicicleta. Esse foi o início do fim financeiro de Danny. Antes disso, ele tinha sido um sujeito bem-sucedido; naquele momento, no entanto, ele era apenas uma casca de seu antigo eu. Sua confiança foi quebrada, sua conta bancária se esgotou e sua esposa, que nunca fora uma pessoa fácil, para começar, estava determinada a transformar a vida dele num inferno. De qualquer forma, nós só saímos da cidade naquela noite depois da meia-noite, e foi só então que percebi que tinha me esquecido de avisar Denise. Foi também então que eu comecei a cair de um penhasco emocional, batendo no fundo no mesmo instante em que pegamos a rampa de saída para Bayside, e aterrissei na fase da preocupação.
Parei por um momento, sentindo-me preocupado só de pensar na fase de preocupação que se aproximava.
Respirei fundo e disse:
– Essa é a terceira fase: um ataque virulento de pensamentos negativos que o afogam como um tsunami assassino. Você se preocupa com tudo: erros do passado, problemas do presente e qualquer coisa que possa aparecer no futuro. No caso de Danny, a preocupação tinha a ver com dinheiro, e eu sabia disso porque, assim que saímos da rampa de acesso a Bayside, ele me disse: “O Citibank está prestes a tomar meu apartamento e jogar minha família na rua. Você acha que pode me emprestar 10 mil dólares? Eu não tenho mais ninguém a quem recorrer”. Respirei fundo naquele momento, tentando extrair alguma energia das preocupações de Danny, porque se a vida de Danny andava pior que a minha, então com o que eu devia me preocupar realmente? “Sim”, respondi. “Você tem um Valium ou um Xanax? Não estou me sentindo muito bem…” Mas ele balançou a cabeça negativamente. “Não tenho, mas por que você não fuma o bocal? Deve ter algum resíduo de crack lá, e vai fazer você se sentir melhor.” Concordei com a cabeça e peguei o tubo. “Obrigado. Segure o volante enquanto eu acendo isso aqui. Não quero me queimar.” Danny pegou o volante e foi desse jeito que fizemos o caminho por Bayside, comigo fumando o bocal do cachimbo de crack e Danny segurando o volante do carro. Durante nossa viagem no elevador, não dissemos uma única palavra um para o outro. Nem mesmo olhamos um para o outro. Estávamos ambos muito envergonhados. Eu me lembro de ter jurado a mim mesmo que nunca mais falaria com ele. No fundo, sabia que alguém como Danny não podia ser bom para mim. Alguém que falava sobre sua família do jeito que ele fez, alguém que consumia drogas do jeito que ele fez e alguém que teve a porra da audácia de me levar para as profundezas e o desespero de um antro daqueles no Harlem… Eu sabia que ele só iria trazer à tona o pior de mim. Enfim, no momento em que coloquei a chave na fechadura, a porta se abriu e lá estava Denise, chorando. Eu olhei para ela com pânico nos olhos. Meu coração estava batendo no peito de um jeito que parecia que iria explodir. Ergui as palmas das mãos no ar e abri a boca para dizer alguma coisa, mas as palavras não saíram. Foi quando entrei na fase quatro, a fase da contemplação do suicídio.
“Há apenas dois antídotos conhecidos para isso: o primeiro é o consumo maciço de benzodiazepinas, de preferência Xanax, Valium e Klonopin. O segundo é uma quantidade maciça de sono, coisa de dois a três dias. Qualquer período menor que esse e você ainda pode tentar o suicídio. Enquanto estava em frente a Denise, cheirando a urina e prostitutas e crack, ela teve pena de mim e me abasteceu com uma quantidade de Xanax que derrubaria uma baleia azul. Então ela tirou minha roupa e me jogou na cama. E eu desmaiei.
– Caramba… – murmurou TOC.
Eu balancei a cabeça, concordando.
– Sim – eu disse – Isso mesmo, caramba… O fato é que demorei três dias para me recuperar, o que nos leva à manhã de domingo. Foi quando eu entrei na fase de ressurreição, que é a fase mais produtiva de todas. As reservas de dopamina de seu cérebro já estão plenamente reabastecidas e nesse momento você promete a si mesmo que aprendeu a lição. Você sabe que aquilo que fez foi algo completamente insensato e só uma pessoa louca faria de novo, e você não é definitivamente uma pessoa louca! O que torna essa fase tão produtiva é que você pode olhar para todas as suas preocupações com um distanciamento frio, descartando aquelas preocupações que foram imaginadas e formulando estratégias para lidar com as que são reais. É um momento de tremenda clareza, um momento em que um homem faz um balanço de sua vida. E desde que não seja um viciado maluco em crack que esteja pensando em voltar para aquela toca de novo, você emerge dessa experiência um homem muito melhor, um homem mais focado e…
– Ah, por favor! – rosnou o Canalha. – Economize essas racionalizações para os menos informados! O crack não faz de você alguém melhor ou mais focado. Ele só faz mal e nada mais.
O TOC soltou uma risada. A Bruxa levantou uma sobrancelha. Eu disse ao Canalha:
– Você tem um excelente ponto de vista sobre isso, Joel, embora no meu caso, em particular, a fase de ressurreição tenha se mostrado excepcionalmente produtiva, porque logo percebi que eu tinha apenas uma coisa com que me preocupar, e era o Investors’ Center. Se George estava certo, então eu precisava fazer um movimento naquele momento, antes de a merda bater no ventilador. Ficar sentado esperando seria como um avestruz enfiando a cabeça na areia. Então, no dia seguinte, puxei Kenny de lado e lhe disse que estava pronto para fazer uma jogada. O Investors’ Center estava a caminho de desaparecer, expliquei, e nós precisávamos arrumar as coisas naquele momento, em antecipação ao desastre.
– E quanto a seu futuro parceiro de crime? – perguntou a Bruxa. – Você emprestou dinheiro ao Danny?
Deus… Como eu gostaria de dar um tapão naquela cabecinha de rato dela! Sorri calorosamente em resposta e disse:
– Sim, Michele, eu fiz isso, e se quiser saber o porquê, a resposta é: eu não sei muito bem. No trajeto para o escritório naquele dia, minha vontade era de demiti-lo. Realmente era o que eu queria fazer. Mas quando o vi sentado à mesa, não consegui juntar forças para fazê-lo. Ele parecia nervoso e envergonhado. Quando finalmente nossos olhos se cruzaram, ele me lançou o mais triste dos sorrisos, depois baixou a cabeça de novo e voltou a discar. Lembro-me de olhar para ele, observando-o bater o telefone, me sentindo totalmente confuso por dentro. Eu queria demiti-lo, mas simplesmente não conseguia me obrigar a fazê-lo. Ele tinha uma esposa e um filho, ambos a quem eu conhecia e com quem me preocupava. E eu sabia o quão talentoso ele era, de modo que a ganância estava me torturando também. Então decidi emprestar o dinheiro e mantê-lo no rebanho. Eu apenas ficaria atento e garantiria que o controlava. Mas, alguns dias depois, a caminho do prédio, o porteiro me parou e entregou uma carta registrada. Olhei para o envelope e gelei: era da CVM. Sem nem abrir a carta, já sabia que era uma intimação.
– Intimação para quê? – perguntou o Canalha.
– Para os registros – respondi – e também para uma entrevista pessoal. Ela não dava uma data específica, mas no dia seguinte Lester Re-Morse me ligou logo cedo e disse: “Acho que a Investors’ Center fechará as portas ainda esta semana. Para falar a verdade, acho que será um milagre se eles passarem de quarta-feira”. “Mas que merda você está falando?”, rebati. “Como é que a SEC pode estar fechando a firma antes de começar uma investigação?” “Mas não é a SEC que os está fechando”, replicou Lester. “Eles mesmos estão fechando. Estão sem dinheiro”. Como, sem dinheiro?, pensei. Como diabos podia ser? “Como eles podem estar sem dinheiro, Lester? Eles vinham fazendo uma fortuna!” “Não, não”, chiou ele. “Eles vinham faturando uns 2 milhões por ano, no máximo, e sugaram todo esse dinheiro para fora da empresa. O resto de Wall Street vinha vendendo a descoberto suas ações desde que vazaram, na quarta-feira, os boatos de que eles iam ser investigados. Então, é apenas uma questão de tempo.”
Olhei para meus captores e encolhi os ombros.
– E aquelas foram as famosas últimas palavras de Lester Re-Morse. Todas as corretoras de Wall Street estavam vendendo a descoberto suas ações, imaginando que a investigação iria colocá-las para fora do negócio. Então, a coisa toda foi se tornando uma profecia autorrealizável. “Quanto tempo vai demorar para que minha firma comece a funcionar?”, perguntei a ele. “Entre seis e nove meses.” “De seis a nove meses? Eu não tenho de seis a nove meses! Eu vou perder tudo se levar muito tempo.” Então outra questão me ocorreu. “Ah, droga! E nossos contracheques, Lester? Segunda-feira é dia de pagamento!”, ao que ele murmurou, “Sim, bem, você sabe… vamos apenas dizer que, se eu fosse você, não contaria muito com isso. Corretores acabam nunca sendo pagos quando esse tipo de coisa acontece. A melhor coisa é de fato descartar essa hipótese”. Eu comecei a rir com as palavras de Lester, porque Danny deveria receber seu primeiro salário na segunda-feira. Ele receberia cerca de 40 mil dólares e seria um esmagador golpe final para ele. Eu sabia então que se quisesse mantê-lo em meu rebanho, teria de levá-lo até que as coisas se definissem. Mas Danny era apenas um de meus problemas. Eu tinha outras sete pessoas na minha equipe, e, por mais leais que elas fossem, não podiam esperar de seis a nove meses. “Tem de haver um meio mais rápido que esse, Lester. Seis a nove meses é uma sentença de morte para mim. Eu preciso falar com Mike Valenoti, talvez ele conheça um caminho.” “Eu já falei com Mike”, disse Lester, “e ele está com você. Ele disse que viria a meu escritório hoje e sentaria com você, se quisesse. Podemos nos encontrar ao meio-dia”. “Tudo bem, estarei aí ao meio-dia”. “Pense sobre isso”, disse Lester, “você poderia começar como um braço de outra corretora, isso é chamado de OSJ, que significa Escritório de Fiscalização e…”. Eu o interrompi. “Eu sei o que significa e é um pesadelo. O dono sempre tenta foder com o gerente da filial e eu não quero começar algo que vai explodir em seis meses.” “O que você está dizendo é verdade”, respondeu Lester, “e normalmente eu não recomendaria uma coisa dessas. Mas acontece que eu conheço uma firma pequena que é um diamante bruto; eles não têm de fato uma operação da qual se possa falar, apenas um escritório pequeno em Maiden Lane, a uma quadra de Wall Street. Você poderia abrir um pequeno escritório em Long Island e pagar-lhes uma porcentagem. O proprietário é um cara muito honesto, um sujeito adorável, para falar a verdade. Mas ele perdeu todo o dinheiro com a queda da Bolsa e está à beira da falência.” “Qual é o nome dele?” “Jim Taormina. E a empresa é a Securities Stratton.”
– E lá vamos nós – disse TOC, com um sorriso.
O Canalha acrescentou:
– Muito bem, então aí estamos. Finalmente chegamos ao começo, um dia e meio depois de você começar a cooperar.
– É isso aí – concordei –, mas ninguém nunca vai poder me acusar de não ser capaz de contar uma boa história, certo? – sorri calorosamente para meus captores. Eu tinha chegado ao núcleo da história, uma história sem igual. Nós quatro tínhamos criado uma conexão estranha, mas ainda assim agradável, de certa forma, e eu não pude deixar de admirar a sabedoria de Magnum. Na ausência dele, as paredes da formalidade tinham ruído, sendo substituídas por uma familiaridade cordial e por um espírito de solidariedade. Na verdade, eu finalmente me sentia parte da equipe dos Estados Unidos!
Infelizmente, a Bruxa foi rápida em estourar minha bolha.
– Então foi aí que você embarcou em sua vida de crimes – disse ela. – Tudo o que veio antes foi apenas aquecimento.
– Então, o que aconteceu depois? – perguntou o Canalha.
Dei de ombros e soltei um grande suspiro.
– Bem, o resto do dia foi de uma insanidade total. Antes de ir para o escritório de Lester, liguei para a casa de George Grunfeld, mas a esposa dele me disse que ele não estava. “Ele está no escritório cuidando da papelada”, disse ela, e pelo tom de sua voz eu pude literalmente ouvir o triturador de papel zumbindo ao fundo. Então, eu telefonei ao Cabeça Quadrada, contei a ele o que estava acontecendo e lhe disse que seria melhor ele ir cuidar da nossa papelada, antes que os federais invadissem o lugar. Depois, telefonei ao Danny e lhe passei a má notícia de que ele não seria pago na segunda-feira. Claro, Danny sendo Danny, recebeu a má notícia com calma. “Eu tenho problemas maiores que esse”, rosnou ele. “Ah, é mesmo?”, eu disse. “Como o quê?” “Bem, eu ainda estou casado com Nancy”, respondeu ele. “Não acha que é suficiente?” Como de costume, resisti ao impulso de lhe perguntar por que diabos ele tinha se casado com a prima, antes de qualquer coisa. Mas disse a ele para não se preocupar, que eu cobriria a hipoteca e as despesas e qualquer outra coisa de que ele precisasse até que conseguisse colocar as coisas em ordem. Danny me agradeceu efusivamente e disse que estaria comigo até o fim. Então desliguei o telefone e fui até o escritório de Lester.
– Estou curioso – comentou o Canalha. – Que tipo de documentos você queria destruir?
– Scripts, em sua maioria, e talvez alguns tickets de compra e venda de ações. Mas, na verdade, não havia muito que eu pudesse destruir que não estivesse armazenado em dois ou três outros lugares. No entanto, a caminho do escritório de Lester, um plano se formou em minha mente. Na verdade, isso marcaria o início do que eu viria a chamar de minha Grande Janela de Clareza. Ela começou no carro a caminho do escritório de Lester e durou até o começo de 1993, quando acertei minha questão com a CVM e vendi a firma para Danny por 180 milhões de dólares. Foi um momento marcante em minha vida, um período de quatro anos e meio em que não havia nenhum problema muito complicado que não pudesse resolver. Parecia que meu cérebro estava trabalhando em aceleração máxima; eu poderia ir em 20 direções diferentes ao mesmo tempo e ainda assim era capaz de encontrar o caminho certo sem pegar uma única entrada errada.
Fiz uma pausa por um momento, avaliando minhas palavras.
– Eu não estou tentando parecer arrogante aqui, acredite, essa é a última coisa que eu poderia fazer agora. Fui humilhado pela minha própria vida: pelo meu vício em drogas, por minha acusação e pela minha esposa – traidora – me abandonando na escadaria do tribunal. Mas só estou tentando pintar um quadro para vocês, uma imagem de como eu era na época, assim fica fácil entender por que todo mundo me seguiu cegamente: pessoas como Mike Valenoti e meu pai, Danny e Kenny, Jim Taormina e, finalmente, milhares de outras pessoas que viriam a trabalhar na Stratton. Foi uma época em que eu tinha todas as respostas, que eu era capaz de dominar o negócio de corretagem em uma questão de dias, tanto o lado operacional quanto o lado de negociação. Mike viria a me chamar de aluno mais capaz do mundo, e muitos outros, com o passar do tempo, viriam a me chamar da mesma coisa. Infelizmente muitos deles faziam parte de uma lista do “quem é quem” dos criminosos do mercado de transações financeiras – balancei a cabeça tristemente. – De todo modo, quando olho para trás, para esses dias, sinto um misto de emoções e uma saudável dose de admiração. De certa forma, acho que foi essa janela de claridade que me levou para as drogas, as prostitutas e tudo o mais. Eu sempre sofri de insônia, mas de repente descobri que achava impossível dormir mais que uma ou duas horas por noite. Eu não conseguia acalmar os pensamentos que rugiam pela minha cabeça. No início dos anos 1990, eu estava administrando as contas de negociação de quatro diferentes empresas de corretagem: Stratton, Monroe Parker, Biltmore, além de uma conta secreta que eu mantinha na MH Meyerson, que eu usei para equilibrar as outras, e eu sabia o que cada empresa tinha em sua conta, até cada cota…
Parei por um momento, deixando minhas palavras assentarem.
– Quando essa minha clareza finalmente desapareceu, me vi tentando recapturá-la desesperadamente. Eu tentei uma dúzia de negócios diferentes: fiz filmes, abri uma empresa de vitaminas, trabalhei na Steve Madden Shoes, até tentei vender ações a descoberto, imaginando que eu poderia fazer dinheiro atacando a indústria que tinha criado. Mas, no final, não pude recapturá-la. Eu nunca consegui voltar ao ponto em que sentia meu cérebro funcionando com todos os cilindros – balancei a cabeça tristemente. – Algumas vezes me pergunto se algum dia irei conseguir… Quer dizer, eu sei que tenho um longo caminho pela frente e que provavelmente vou acabar passando uma considerável quantidade de tempo na cadeia, mas depois que tudo for dito e feito, depois que cumprir a pena e pagar minha dívida com a sociedade, por assim dizer, me pergunto se conseguirei realizar algo de extraordinário de novo. Eu me pergunto se algum dia terei outra dessas janelas de clareza…
Deixei escapar um suspiro sincero.
Depois de alguns instantes de silêncio, TOC finalmente disse:
– Eu tenho uma ligeira suspeita de que sim, de que terá outra, mas espero, para seu próprio bem e para o bem do público em geral, que você venha a fazer algo mais positivo com sua próxima oportunidade…
– Pois eu não poderia estar mais de acordo – disse a Bruxa, estreitando os olhos para mim e inclinando a cabeça para o lado de uma maneira esclarecedora, como se estivesse estudando um minúsculo espécime no laboratório. – Eu acho que o que mais me incomoda em você é a maneira como tomou um presente que lhe foi dado por Deus e abusou dele. Um ladrão comum ou mesmo um bandido, nesse caso, seriam mais fáceis de suportar. Mas você… Não foi nada além da ganância que o motivou, a cobiça em todas as suas formas, por todas as coisas carnais, por todas as coisas perversas. Foi isso e um desenfreado desejo pelo poder.
Houve mais um momento de silêncio, enquanto as palavras da Bruxa pairavam no ar como gás tóxico. Por fim, o Canalha falou, em um tom pacificador:
– Bem, eu acho que todos nós concordamos que o capítulo final de sua vida ainda está para ser escrito, mas por enquanto precisamos manter o foco no presente… Ou no passado, eu deveria dizer, e, mais especificamente, na sua reunião no escritório de Lester.
Sim, pensei, você é meu salvador e protetor, Canalha, e isso mostra de maneira estrondosa a terrível situação da minha vida. Afinal, você não ficaria feliz com mais nada além de me ver apodrecendo em uma prisão, e ainda assim há outro ser humano na sala que me deseja coisa ainda pior que você.
Eu balancei a cabeça e disse:
– Certo… Bem, no momento em que cheguei ao escritório de Lester minha janela de clareza estava totalmente aberta, e eu já havia trabalhado as coisas em minha mente. Havia três coisas que eu precisava alcançar. Em primeiro lugar, precisava fazer um acordo com Mike; em segundo, precisava fazer um acordo com Jim Taormina; e, em terceiro lugar, tinha que arrumar um escritório temporário para entrevistar os vendedores até que conseguisse um espaço permanente. Então, quando cheguei ao escritório de Lester, não perdi um segundo. Dessa vez, só estávamos nós três, Lester, Mike e eu, e fui direto ao ponto. “Apenas me diga seu preço e eu pagarei”, disse a Mike. “Tudo o que eu quero é que meu salário seja uma porcentagem dos lucros ou, melhor ainda, uma porcentagem da receita. Dessa forma, você nunca vai ter que se preocupar em me foder colocando suas despesas pessoais na conta da empresa.” Sorri para ele, tentando ao máximo ignorar o idiota fabuloso que era. “Eu sei como você é valioso, Mike, e não posso fazer isso sem você. Você deve ter esquecido mais coisas sobre esse negócio do que eu jamais vou aprender. Você é meu pivô, minha arma secreta.”
E continuei:
– Mike, é claro, adorou isso, como eu imaginava. Em Wall Street, as pessoas que ficam nos bastidores, dando suporte nos escritórios, são os heróis anônimos, os que mantêm as máquinas zumbindo, enquanto os corretores e banqueiros fazem suas fortunas. Eles são dramaticamente mal pagos, em minha opinião, e amplamente subestimados. Por isso, não foi nenhuma surpresa para mim quando Mike me disse: “Eu não preciso de um salário. Apenas me pague o que achar justo e estará tudo bem”. Eu já tinha verificado isso com Lester e um cara de operações de primeira-classe como ele valia 150 mil dólares ao ano. Então, respondi a Mike: “Que tal 10% da receita até meio milhão por ano?”. E foi isso, Mike era meu. Então me virei para Lester: “Ligue para Jim Taormina e traga-o aqui. Eu quero fechar um acordo com ele até o final do dia de hoje. Qual é a porcentagem padrão para um ramo de uma corretora?”. Lester resmungou: “Bem, eu…”. “Dez por cento da receita”, respondeu Mike, “e mais uma taxa de 10 dólares para cada ticket emitido, mas apenas pelo lado da compra. A venda é gratuita. Mas a coisa mais importante é que eu não quero esse cara segurando nosso dinheiro. Temos que varrer a conta da negociação uma vez por semana. Ele pode ficar com um depósito pequeno, digamos de 25 mil, coisa assim”. Concordei. “Tudo bem”, disse a Lester. “Ligue para o Jim e lhe diga que eu pago 15% das receitas, mas com um limite de 30 mil dólares por mês, que é o máximo que ele vai tirar de mim. Acima disso, eu fico com tudo. Você acha que ele vai topar?” “Ah, é claro que ele vai”, resmungou Lester. “Ele está na iminência de pedir falência. Mas ele é, uh, do tipo passivo, o Jim. Estou preocupado que você possa assustá-lo.” “Não se preocupe”, disse eu. “Eu sei exatamente como falar com um cara como Jim. Basta fazer com que ele venha até aqui e eu cuido do resto”, e, claro, eu estava certo. A Stratton começou assim. Lester pediu licença para sair da sala de reuniões e Mike passou as horas seguintes me dando um curso intensivo sobre o negócio de corretagem. Quando Jim finalmente apareceu, vi que ele era, de fato, um sujeito completamente passivo. Fiz o acordo com ele em menos de um minuto.
– E o que dizer de sua intimação pela CVM? – perguntou o Canalha.
Eu ri.
– Pois é, bem, aquilo acabou sendo a maior piada de todas. Na verdade, no momento em que finalmente fui depor, a Stratton já estava atuando no mercado havia um ano! E quando eles processaram a Stratton, nunca tentaram usar o que acontecera na Investors’ Center para dar um nocaute! – dei de ombros. – Mas é assim que eles são: a mão direita nunca sabe o que a mão esquerda está fazendo.
Depois de alguns instantes de silêncio, o Canalha perguntou:
– Quanto tempo mais a Investors’ Center ficou operando?
– Acredito que mais uns cinco ou seis minutos – respondi casualmente. – Na verdade, depois que eu saí do escritório de Lester, dei uma passada por lá, e havia uma semelhança estranha com o que eu imaginava ter sido a sede do Terceiro Reich quando os russos estavam se aproximando de Berlim. Havia papéis por toda parte e os corretores estavam correndo, carregando caixas, mas não foi nada comparado com a semana seguinte, quando nossos salários não foram pagos. Os corretores começaram a derrubar as paredes…
Eu dei de ombros.
– Não surpreendentemente, o Cabeça Quadrada se mostrou uma pessoa muito adepta a esse tipo de coisa. Primeiro, ele pegou uma copiadora Canon, que serviria para nossa futura firma de corretagem, e depois usou um pé de cabra para arrombar o cofre do escritório e roubar todos os formulários de novas contas. Havia milhares deles, uma verdadeira mina de ouro de pessoas que tinham mostrado alguma propensão a investir em ações baratas. Foram esses formulários de novas contas que serviram como nossa primeira fonte de buscas de receita, quando começamos o trabalho de telemarketing duas semanas depois. Foi esse o tempo que levou para arrumarmos um espaço para trabalhar.
– E o que você usou nesse meio tempo? – perguntou TOC.
– A concessionária de automóveis de um amigo. Era no fim da mesma rua onde ficava a Investors’ Center. Fiquei lá por cerca de duas semanas, até que encontrei o espaço certo, na cidade de Lake Success, Long Island. Ele ficava a leste do limite entre Queens e Long Island e, apesar de ser pequeno, o edifício era limpo e sofisticado. Apertando um pouco, percebi que poderiam caber 20 corretores na sala de pregões. Isso seria perfeito, pensei. Com 20 corretores, eu poderia fazer uma fortuna.
TOC, com uma risada:
– Vinte corretores?
Eu balancei a cabeça lentamente.
– Sim, acho que minhas perspectivas estavam um pouco baixas.
– Qual era o percentual da sociedade? – perguntou o Canalha.
– Era 70 e 30 – respondi. – Setenta por cento para mim, 30% para o Kenny.
– Danny não era um dos sócios? – perguntou a Bruxa.
– Não, eram apenas Kenny e eu. Danny comprou sua parte mais tarde.
A Bruxa prosseguiu:
– Qual foi o capital inicial da empresa?
– Cerca de 80 mil – respondi rapidamente. – E, apesar de eu ter o dobro das cotas de Kenny, nós dividimos o investimento da mesma forma: 40 mil cada um. Isso porque eu era o líder – disse respeitosamente. – Então, dividir o investimento parecia justo. A única baixa foi Elliot Loewenstern, o Pinguim. O que aconteceu na Investors’ Center o assustou e ele conseguiu um emprego em Manhattan, no Bear Stearns. Ele voltou, naturalmente, logo depois de eu acertar com minha ideia de vender ações de 5 dólares para os ricaços.
– E quando foi isso? – perguntou o Canalha.
– Cerca de um mês depois – respondi casualmente. – No início de novembro.
– O que fez você pensar nisso? – perguntou TOC.
Eu inclinei a cabeça para o lado e sorri.
– Você quer saber se foi um momento eureca?
– Sim – respondeu ele –, um momento eureca. Algo como: “Eureca! Acabo de imaginar um jeito de roubar 250 milhões de dólares e de foder a CVM no processo!”.
Hummm, pensei, TOC era muito esperto e muito cínico. Aliás, ele estava certo, embora eu pudesse discutir a quantidade de dinheiro que tinha roubado. Quer dizer, não poderia ter sido 250 milhões de dólares! Ou poderia? Com o coração apertado, eu disse:
– Sim, bem, qualquer que seja o montante, digo com toda a honestidade e invocando o nome de Deus que não comecei a Stratton com más intenções. Mas, como eles costumam dizer, a estrada para o inferno está pavimentada de boas intenções.
– Muito bem – retrucou o Canalha. – Você pode contar isso ao juiz no momento apropriado – e ele me soltou seu sorriso de diretor de prisão. – Mas por enquanto vamos apenas nos ater aos fatos.
Eu balancei a cabeça, resignado.
– Bem, tudo começou com George Grunfeld e aquilo que ele me disse em meu primeiro dia na Investors’ Center. Essa noção de que as pessoas ricas não compram ações baratas nunca fez muito sentido para mim, então fiz com que Danny realizasse um pequeno experimento para mim, ou seja, tentar vender essas ações ao ricos. Mas os ricaços não estavam interessados. Então percebi que talvez estivessem desligados da opção porque cada ação custava menos que 1 dólar, mas descobri uma ação que custava 6 dólares e fiz com que Danny tentasse mais uma vez. Também não deu certo, e devo confessar que isso me surpreendeu. É que eu realmente achava que as pessoas ricas fossem aceitar, mas quando chamei Danny em meu escritório para conversar, ele discordou completamente. “Talvez se eu estivesse ligando da Merrill Lynch”, disse ele. “Mas não, quando estou falando da Stratton Valores Mobiliários, há um monte de coisas trabalhando contra. Eles nunca ouviram falar de mim, não ouviram falar da empresa e não ouviram valar das ações. Entendeu o que estou dizendo?” “Sim”, respondi, “entendi perfeitamente o que você está dizendo”, e… Buuummm! Assim, do nada, me veio a ideia. Eu tive meu momento eureca. “Volte aqui em 15 minutos”, disse a Danny, e antes mesmo que ele tivesse cruzado a porta do escritório, eu já tinha pegado minha caneta e começado a escrever um novo script para o telemarketing.
Fiz uma pausa e continuei:
– Quinze minutos depois, ele estava de volta à minha sala e eu estava explicando meu novo sistema. “Certo”, comecei, “quando a gente telefonar a alguém pela primeira vez, não tentaremos vender nada a ela; vamos apenas apresentar a firma e perguntar se estariam interessados em falar conosco mais tarde, noutro dia.” Eu lhe entreguei meu script. “Leia isso e depois me diga o que você achou.” Ele olhou para o papel durante alguns segundos e depois começou a ler: “Oi, sou Danny Porush, ligando da Stratton Valores Mobiliários. Eu sei que você está ocupado, por isso vamos direto ao ponto. Você provavelmente nunca ouviu falar de nós antes, porque nos últimos dez anos fomos uma empresa estritamente institucional, lidando apenas com bancos, companhias de seguro e fundos de pensão”. Danny começou a rir. “Isso aqui é demais, eu…”. “Cale a boca e continue lendo”, disse eu. E ele: “No entanto, recentemente nós abrimos as portas para o investidor privado mais substancial, e o que gostaríamos de fazer, senhor, com sua permissão, é enviar-lhe algumas informações sobre nossa firma, Stratton Valores Mobiliários, e depois voltar a entrar em contato algumas semanas depois, da próxima vez lhe fazendo recomendações de um de nossos clientes institucionais. Isso lhe parece bem?”. Danny parou de ler e me lançou um de seus famosos sorrisos. Ironicamente, a Stratton de fato tinha estado no mercado por 10 anos, e a única coisa que tinham feito fora negociar com as outras corretoras; e, uma vez que as corretoras são consideradas instituições, eu não estava mentindo sobre o negócio da Stratton ser estritamente institucional…
Sorri para minha própria lógica distorcida. Então, desisti de meu sorriso e disse:
– Eu não vou negar que o roteiro foi desenhado de forma um pouco enganosa, mas esse não é o ponto agora. Seja como for, Danny estava recebendo cerca de dez ligações por dia, e depois de uma semana percebi que já era hora de executar o segundo passo do meu plano, que era começar a vender uma ação das grandes, ou seja, uma ação que fosse conhecida na Bolsa de Nova York. Foi por isso que escolhi a Eastman Kodak: por causa do reconhecimento do nome e também porque era uma história muito cativante. Eles estavam em litígio com a Polaroid naquela época por causa de uma violação de patente, e meu script falava sobre como a Kodak iria crescer muito assim que aquele litígio fosse resolvido. Era um bom script, mas Danny não ficou assim tão impressionado. “Tudo bem, mesmo que alguém compre 10 mil dólares da Kodak, minha comissão é de apenas 100 dólares. Então, qual é a porra da vantagem aqui?” “Pense nisso como um meio para atingir um fim”, respondi. “Na próxima semana, depois que eles pagarem pela negociação, eu ligo para eles de volta com o segundo passo.” E com isso Danny deu de ombros e saiu, passando os dez dias seguintes abrindo contas para a Kodak, 12 delas ao todo, cada uma com cerca de 5 mil dólares de ações, o que dava uma centena, mais ou menos. Então, eu o chamei de volta ao meu escritório e expliquei o segundo passo, que não era exatamente aquilo que ele pensava que seria. “Quer dizer que você não quer que eu diga a eles para se livrar da Kodak depressa e comprar uma das ações do nosso portfolio?”, foi a pergunta dele. “Não”, respondi, “quero que diga a eles que tudo vai correndo bem com a Kodak e que eles devem manter essas ações a longo prazo”. Entreguei então a ele um script que eu tinha preparado para uma empresa chamada Ventura Entertainment.
Fiz uma pausa, oferecendo a meus captores um sorriso irônico.
– Eu tenho certeza de que estão todos familiarizados com a Ventura. Essa foi a primeira ação que nós recomendamos.
– Sim – disse TOC, cínico. – E foi também a mais supervalorizada ação de empresas de entretenimento da história das ações de empresas do ramo.
Eu balancei a cabeça aquiescendo, envergonhado.
– Sim, mas não foi intencional. Eu só não consegui acompanhar a demanda – e dei de ombros. – Mas, deixando isso de lado, a Ventura era apenas uma empresa com ações a 6 dólares então, uma startup tão pequena que nem estava listada na NASDAQ, ainda era negociada nas folhas rosas. Na verdade, ela poderia facilmente ter sido uma daquelas empresas com ações a 1 centavo, mas por mera coincidência o presidente da empresa, um homem chamado Harvey Bibicoff, estava pensando a mesma coisa que eu, ou seja, que uma ação de 6 dólares parecia mais atraente e valiosa que uma de 20 centavos. Então, quando fomos a público com a Ventura, ele a estruturou com apenas 1 milhão de ações em circulação, ao contrário dos 20 milhões de ações que uma típica empresa de ações a centavos teria – olhei para TOC. – Você está me acompanhando, presumo.
Ele acenou com a cabeça.
– Sim, 1 milhão de ações a 6 dólares é o mesmo que 20 milhões a 30 centavos.
– Exatamente – eu disse. – Em um nível matemático são exatamente a mesma coisa. Porém, em um nível emocional, são totalmente diferentes. E enquanto Danny estava de pé em meu escritório estudando o script que eu tinha preparado, imediatamente soube que era perfeito, sobretudo a abertura, onde eu fazia a transição de grandes ações para pequenas ações. “Leia isso para mim”, pedi e ele assentiu, começando a ler: “Sr. Jones, há dois motivos para minha ligação de hoje. Tudo está correndo bem por aqui e eu queria lhe dar uma rápida atualização sobre a Kodak. A ação está bem lá onde a compramos e parece que vai vender mais alto no curto prazo. Tem havido um interesse institucional pesado sobre ela nos últimos dias, por isso por hora é melhor ficarmos quietos. A segunda razão do telefonema é algo que só chegou à minha mesa nessa manhã e parece ser a melhor coisa que vimos nos últimos seis meses. É um dos negócios do nosso banco de investimentos, e trata-se de uma empresa com a qual estamos muito familiarizados, e cujo potencial de lucratividade é muito maior que o da Kodak. Se tiver um minuto, gostaria de compartilhar a ideia com o senhor”. Danny ergueu os olhos e disse: “Porra, isso aqui é do caralho! Deixe-me testar para ver se funciona!”. Eu balancei a cabeça concordando. “O.k., mas lembre-se: essas pessoas são ricas e sofisticadas, por isso não vá cair na tentação de exagerar e falar merda. Use a lógica, a razão, e a máxima pressão. Nunca se esqueça, Danny: nós nunca trabalhamos com chamadas de retorno. Você só tem uma bala na agulha com essas pessoas. Por isso, fique grudado no script como se fosse cola.” Com isso, Danny me lembrou mais uma vez que eu estava falando com o Danny Fodidão Porush e que ele poderia vender petróleo para os árabes e gelo para os esquimós! Daí ele acenou com a cabeça uma vez e saiu.
Encolhi os ombros.
– É irônico pensar que eu só estava esperando conseguir um negócio melhor com esse meu novo sistema, talvez um lote de mil ações da Ventura, contra os 200, mas era isso que eu tinha em mente naquele momento. Porém, cinco minutos depois, Danny entrou correndo em minha sala, literalmente sem fôlego. “Puta merda”, disse ele. “O primeiro cara comprou 20 mil lotes de mim! Vinte mil lotes, caralho! Então ele me pediu desculpas por não comprar mais! Ele disse que estava sem liquidez agora, mas assim que pudesse iria comprar mais. Você pode imaginar uma coisa dessas?” E foi isso. Naquele instante, eu soube. Eu sabia que o cliente de Danny não tinha feito distinção entre o envio de 120 mil dólares para a Stratton ou 120 mil para a Merrill Lynch. E foi tudo porque a gente tinha recomendado uma ação blue chip em primeiro lugar. Danny estava mais feliz que um porco na lama, porque ele tinha acabado de fazer 20 mil em comissão. Mas o que ele não sabia era que eu tinha acabado de fazer um adicional de 60 mil dólares abaixo da compra. Era aí que estava o verdadeiro negócio!
– Explique isso – disse o Canalha.
– O.k., veja se me acompanha por um segundo: a Ventura estava 5 para compra e 6 para venda. Isso significa que, se um cliente queria comprá-la, ele teria que pagar 6 dólares, mas, se quisesse vender, ele só poderia receber 5 dólares. É por isso que a comissão de Danny era de 1 dólar por ação, ou 20 mil dólares. Mas Harvey estava dando garantias à Ventura de que podia exercer um preço de dois. Em outras palavras, Ventura me custava apenas 2 dólares por ação. Tudo somado, no pacote de 20 mil de Danny, eu fiz 60 mil abaixo da compra e mais 10 mil acima, que era a minha metade da comissão de Danny. E tudo isso a partir de um simples telefonema, de uma única chamada. Mas isso foi só o início. Eu sabia que, se a Ventura subisse, e havia milhares de clientes no sistema, eles enviariam muitos milhões mais.
Parei por um momento, considerando minhas palavras.
– É claro, isso depois viria a se tornar centenas de milhões, mas eu não estava pensando então em ir tão longe. Eu ainda tinha sérios obstáculos para vencer, o menor deles era o fato de que Harry tinha apenas mais alguns milhões de títulos para vender e, com meu novo sistema, eu comeria isso em questão de semanas. Então eu teria de comprar ações no mercado aberto. Mas as primeiras coisas em primeiro lugar, pensei. Eu tinha de desligar a velha Stratton e treinar todo mundo. Fui falar com Mike para lhe contar meu plano. Parecia bom, ele achou, mas eu poderia dizer que ele definitivamente não se sentiu muito entusiasmado. “Manda bala”, disse ele. “Por mais negócios que você traga, eu consigo lidar sem problemas.” E essas foram as famosas últimas palavras de Mike Valenoti. Um minuto depois, eu estava de pé na frente da sala de pregões, pronto para dar a palestra da minha vida. Eu ainda me lembro daquele dia como se fosse ontem. “Todo mundo, desliguem seus telefones!”, eu disse para os corretores. “Desliguem seus telefones agora mesmo! Eu tenho algo a dizer.” A maioria deles estava bem no meio das ligações e não desligou logo de cara. Então eu pisquei para Lipsky e ele se levantou da cadeira e começou a desligar os telefones deles no meio das falas. Danny entrou no ato, e alguns segundos depois o salão estava quieto. “O.k.”, eu disse. “Agora que eu tenho a atenção de vocês, quero que juntem seus telefonemas, suas respostas, os livros de seus clientes, eu quero que juntem tudo e qualquer outra coisa em sua mesa que diga respeito a ser um corretor da Bolsa. Recolham tudo isso e joguem direto na porra do cesto de lixo!”
E continuei:
– É claro que ninguém fez nada disso no começo, estavam todos estupefatos demais para se mexer. Então Lipsky começou rosnando para todos. “Vamos lá! É hora de limpar a casa, como o chefe diz!” Quase nem percebi quando Danny e Cabeça Quadrada se juntaram a ele, andando pelas mesas e segurando sacos de lixo, e os últimos vestígios do antigo sistema foram desaparecendo diante dos meus olhos. Em poucos minutos, havia apenas 12 mesas de madeira, 12 telefones antigos e 12 corretores obscenamente jovens, cada um usando ternos de diferentes valores, mas todos baratos. Todos ficaram olhando para mim com os olhos arregalados, à espera do que eu diria a seguir. “Eu quero que todos ouçam bem”, disse eu, “porque o que estou prestes a dizer vai mudar a vida de vocês para sempre. O simples fato é que todos vocês estão a caminho de se tornarem ricos, muito além do que imaginam”. Eu passei a explicar meu novo sistema para eles, apontando para Danny como prova de que ele funcionava. “Quanto de comissão bruta você acabou de ganhar em uma única negociação?”, perguntei a ele. “Vinte paus!”, devolveu ele, “vinte paus de uma vez!”. “Vinte paus de uma vez”, repeti, e comecei a andar para a frente e para trás, como um pregador, deixando minhas palavras pairando no ar. Então parei. “Usando meu novo sistema, Danny, quanto você acha que pode faturar em um único mês? Apenas uma estimativa…” Ele fingiu pensar por um momento, interpretando o papel dele perfeitamente. “Pelo menos 250 mil”, disse ele, confiante. “Qualquer valor menor e eu me jogo da janela!” E com isso, a sala irrompeu em completo pandemônio.
Eu dei de ombros.
– O resto foi fácil. Reciclei meus strattonitas, usando a teoria linear. Era um sistema que eu tinha trazido da Investors’ Center e não tinha considerado crucial naquela época, porque, quando você está falando com pessoas pobres, é mais uma questão de eles terem ou não dinheiro para investir; se tivessem, seria fácil convencê-los. Mas com pessoas ricas as regras são totalmente diferentes: elas têm dinheiro para investir, é só uma questão de convencê-las de que você é o cara certo com quem investir. Você é inteligente o suficiente? Você é afiado o suficiente? Você sabe de coisas que o corretor local delas não sabe? Você é um mago de Wall Street, digno de gerir o rico dinheirinho de um homem? Isso é exatamente o que a linearidade fazia: ela permitia que um garoto de 20 anos de idade, com diploma de ensino médio e QI pouco acima do nível de Forrest Gump, parecesse um mago de Wall Street falando ao telefone.
Parei por um momento, pensando em uma maneira de explicar a teoria.
– Em essência, era um sistema de scripts e refutações que permitiriam mesmo ao mais idiota dos corretores controlar uma venda. Ele mantinha as coisas se movendo para a frente, do ponto A para o ponto B, da abertura ao fechamento, até que um cliente finalmente dissesse: “Tudo bem, pelo amor de Deus! Escolha 10 mil ações para mim e me deixe em paz!”. Eu sei que soa simples demais, mas ninguém nunca tinha feito isso antes. Havia centenas de scripts flutuando ao redor de Wall Street, mas ninguém nunca tinha parado para organizá-los em um sistema coeso. De qualquer forma, durante dez dias diretos eu ensinei a eles, indo adiante e voltando, invertendo os papéis, fazendo teatro, como eu tinha feito com Danny naquela noite, até que eles conhecessem o sistema tão bem que poderiam recitar as porras das frases durante o sono. Na verdade, eu só passei a metade de cada dia ensinando-lhes, a outra metade eles passaram fazendo telemarketing, construindo um maciço banco de dados para telefonar depois. E, finalmente, no décimo dia, quando cessou a fase de telemarketing, eles começaram a abertura de contas na Kodak com tanta facilidade que era incompreensível. Era como se a linha direta de nossa teoria pudesse transformar o mais fraco vendedor num vendedor de massa. E isso me encorajou ainda mais, e comecei a bater neles ainda mais, sem piedade, prometendo-lhes riquezas além de seus sonhos mais loucos. “Eu quero que vocês comecem a gastar dinheiro agora”, preguei para eles. “Quero que vocês se alavanquem, cresçam, quero que se sintam pressionados! Quero que não se deem outra escolha senão ter sucesso! Deixem as consequências do ato de falhar serem tão terríveis e impensáveis que vocês nem conseguirão pensar nisso!” E continuei: “Entendam uma coisa. Quando Pizarro chegou ao Novo Mundo, a primeira coisa que ele fez foi queimar a porra de seus malditos navios, para que sua tripulação não tivesse escolha a não ser se virar para sobreviver no Novo Mundo. E é isso que eu quero que vocês façam! Eu quero que vocês cortem todas as rampas de saída, todas as rotas de fuga! Afinal, vocês devem isso para as pessoas sentadas a seu lado, discar o telefone. Vocês devem isso a cada strattonita sentado nesta sala, discar o telefone. É daí que nosso poder vem: um do outro, do esforço coletivo, da energia combinada de uma sala cheia de pessoas motivadas para bater sempre o pessoal de Wall Street, uma sala cheia de vencedores!”.
Fiz uma pausa e esperei um momento para recuperar o fôlego.
– De qualquer forma, vocês sabem o que aconteceu a seguir: sete dias depois, lançamos Ventura, e todo o inferno começou. Blocos de 10 mil e de 20 mil ações começaram a voar pela sala de pregões e o dinheiro começou a cair do céu – balancei a cabeça lentamente. – Eu não posso sequer descrever a rapidez com que crescemos a partir desse ponto. Foi como se tivéssemos atingido um veio de ouro, e jovens garimpeiros começaram a aparecer em Lake Success para reivindicar seus lotes. No início, foram aos poucos, mas depois jorraram aos montes. Tudo começou a partir do Queens e de Long Island, e rapidamente se espalhou por todo o país. E foi assim que a Stratton nasceu. De qualquer forma, foi apenas algumas semanas depois disso que entrei no escritório certa manhã e encontrei Jim Taormina esperando por mim. “Tome”, disse ele. “A Stratton é sua”, e me entregou um conjunto de chaves que estava segurando. “Eu vou vender o lugar para você por 1 dólar e me transformar em seu diretor da mesa de operações. Mas, por favor, tire meu nome da licença!” E então Mike entrou, o velho cão de guerra de Wall Street, que tinha pensado já ter visto de tudo. “Você tem de detê-los!”, implorou ele. “Não conseguimos mais gerenciar nenhum negócio. Estamos na iminência de explodir nosso agente de compensação.” Ele balançou a cabeça, descrente. “Eu nunca vi nada como isso, Jordan. É absolutamente incrível…” O engraçado foi que nosso agente de compensação, a empresa que processava nossas transações, não conseguia lidar com o influxo de volume e estava ameaçando se desconectar da Stratton a menos que desacelerássemos as coisas.
Fiz uma pausa e continuei:
– E então veio o Cabeça Quadrada. “Estou afogado em comissões”, disse ele, em pânico. “Eu não posso mais acompanhá-las. Milhões estão chegando e o banco continua me ligando.” Eu tinha colocado o Cabeça Quadrada no comando de nossas finanças e ele estava se afogando debaixo de um mar de dinheiro e de papelada. Em todo caso, eram todos bons problemas, problemas fáceis de manipular. Com Jim Taormina, eu fiz o que ele pediu: comprei a empresa dele por 1 dólar e fiz dele o diretor da mesa de operações. Com Mike, fiz o que ele pediu também: fiquei de pé em frente à sala de pregões e fiz uma reunião de vendas que transformou a coisa toda em um aspecto positivo. Com uma energia agressiva, eu disse: “O que temos aqui é tão poderoso e tão eficaz que o resto de Wall Street não consegue nos acompanhar!”. Meus strattonitas aplaudiram, gritaram e uivaram. Então, passamos as duas semanas seguintes apenas gerando contatos, o que acabou por alimentar nosso crescimento ainda mais. Para ajudar o Cabeça Quadrada, procurei meu pai, que ainda estava desempregado. Ele era um homem brilhante, um contador licenciado que passara a melhor parte da vida como CFO de várias empresas privadas. Mas ele estava com 50 e tantos anos, um pouco velho demais e superqualificado demais para conseguir um bom emprego. Então eu o recrutei, meio relutante no começo, mas o recrutei assim mesmo. Ele se mudou para o escritório do Cabeça Quadrada, onde os dois tiveram o prazer de levar um ao outro à loucura. Mad Max rapidamente mostrou suas presas, chamando-o de imbecil de merda, idiota do caralho e mil outras coisas pesadas, incluindo, claro, besta do caralho. O fato de que o Cabeça Quadrada era alérgico à fumaça de cigarro foi algo que Mad Max aproveitou além de qualquer limite razoável, consumindo quatro maços por dia e expirando grossos jatos de fumaça na cara do outro, com a força de um canhão da Guerra Civil. Mas, deixando isso de lado, vocês agora podem ver como eu deixei todas as coisas arranjadas. Entre Mike e meu pai eu tinha meu flanco traseiro protegido, e entre Danny e Kenny eu tinha a ponta de uma espada que rivalizava com o Mossad. E eu… Bem, vamos apenas dizer que eu tinha todo o tempo necessário para sentar, fazer reuniões e focar no grande cenário, e para resolver a última peça que faltava no quebra-cabeça, que era onde encontrar ações baratas, como as opções da Ventura tinham feito.
Eu olhei para TOC e sorri.
– Quer adivinhar quem fui procurar para me arrumar isso?
TOC se encolheu.
– Al Abrams – murmurou ele.
– Isso mesmo – respondi. – O senhor Al Abrams, o mais louco de todos em Wall Street – inclinei a cabeça para o lado e olhei para TOC. – Corrija-me se eu estiver errado, Greg, mas uma vez eu ouvi um boato de que Al estava escrevendo cartas para Bill Clinton sobre você, dizendo que você era um agente corrupto.
TOC balançou a cabeça, cansado.
– Ele é um velho louco, esse cara. Quando foi preso, ele tinha uma centena de documentos com ele, alguns com mais de 30 anos.
– Bem, isso parece mesmo coisa do Al – disse casualmente. – Ele nunca gostou de jogar coisas fora. Ele é o que você chamaria de um criminoso cuidadoso.
– Não o suficiente – disse a Bruxa. – Da última vez que verifiquei, ele ainda estava atrás das grades – ela me deu um sorriso diabólico.
Sim, pensei, mas não por causa de você, Cruella, foi TOC que o pegou. Mas eu mantive esse pensamento para mim e disse:
– Na verdade, eu acho que ele já saiu e está provavelmente de volta a Connecticut, enlouquecendo sua pobre esposa. – Olhei para TOC. – Só por curiosidade: quando o prenderam, ele trazia comida nos bolsos? Alguma torta Linzer meio comida? Ele adorava isso.
– Apenas algumas migalhas – respondeu TOC.
Eu balancei a cabeça, mostrando que compreendia.
– Sim, provavelmente estava guardando isso no caso de ficar com fome…
E passei as horas seguintes explicando como Al Abrams tinha me ensinado a arte negra da manipulação de ações. Três vezes por semana nos encontrávamos para tomar café da manhã no restaurante grego local, onde tive o prazer de assistir Al consumir incontáveis tortas Linzer, com metade de cada torta indo direto para sua boca e a outra metade indo para a testa e o rosto, enquanto ele bebia xícara após xícara de café com muita cafeína, até ficar com as mãos tremendo. Em meio a isso tudo, tremedeiras e falações, ele me ensinou o que eu levaria uma vida para aprender. Mas, infelizmente, ao contrário do que aprendi com Mike, esses ensinamentos consistiam no lado negro das coisas, o submundo de Wall Street, o mercado fora da Bolsa, que foi o precursor da NASDAQ, onde as ações eram negociadas por nomeação e os preços eram definidos pelo capricho de gente de intenções escusas como Al e eu.
O mais preocupante, admiti, foi que não demorou muito para que eu estivesse ensinando uma ou duas coisas a Al. Dentro de semanas, na verdade, eu estava em processo de modernização de seus golpes antigos, trazendo minhas próprias ideias e brilho, juntamente com a petulância que viria a caracterizar o Lobo de Wall Street.
Já passava um pouco das 5 da tarde e eu finalmente tinha acabado de cantar na Court Street naquele dia, um dia que meus captores tinham considerado um grande sucesso. Afinal, eles agora sabiam exatamente como a Stratton Oakmont tinha surgido e como, através de uma série de coincidências minúsculas e eventualidades, ela acabou crescendo em Long Island, entre todos os lugares do mundo.
Antes de sair da sala de interrogatório, a última coisa que perguntei ao Canalha foi quanto tempo ele achava que ia demorar até que eu finalmente recebesse minha sentença. Seriam três anos? Quatro? Talvez até cinco anos? Quanto mais, melhor, pensei.
– Provavelmente entre quatro e cinco anos – respondeu ele. – Essas coisas costumam se arrastar, às vezes.
– Isso é verdade – acrescentou a Bruxa –, e não serão anos tranquilos. Sua cooperação irá a público no próximo ano e confiscaremos seu patrimônio em conformidade com esse processo.
TOC entrou na conversa, oferecendo-me um fino raio de esperança:
– Sim, mas você terá a chance de começar uma nova vida. Você é um cara jovem e da próxima vez vai fazer as coisas direito, eu espero.
Eu balancei a cabeça, concordando, preso nas palavras de TOC e do Canalha, ignorando as palavras da Bruxa. Infelizmente, todos eles estavam errados, e eu veria o interior de uma cela de prisão muito antes disso.
E perderia tudo o que eu tinha.