CAPÍTULO 21
A BELA E A FERA
– Isso é ridículo! – murmurei para Gwynne, enquanto ela caminhava um passo atrás de mim pela sala de estar. – Como ela poderia simplesmente desaparecer?
– Já oiô na quadra de tênis?
– Sim – respondi rapidamente. – Eu chequei em todos os lugares e nem sinal dela.
Era uma tarde de domingo, e a festa estava no auge.
Do lado de fora, no lado oposto da parede de vidro, um grupo alegre de 50 ou 60 pessoas, algumas das quais eu conhecia, embora nenhuma delas tivesse importância para mim, estavam espalhadas no deque da parte de trás da casa, festejando como se fossem estrelas do rock e devorando os últimos vestígios de meu império que estava ruindo. A maioria eram jovens do sexo feminino, altas, magras e lindas, e nenhuma delas parecia prestar atenção ao mundo.
Só então algo chamou minha atenção: dois pares de peitos muito jovens, perfeitos em todos os sentidos. Um par pertencia a uma loira ágil com uma deslumbrante cabeleira cacheada; o outro pertencia a uma curvilínea morena com madeixas onduladas que desciam em direção ao racho no meio de sua bunda. Elas estavam dançando, rebolando em seus sapatinhos, com a palma das mãos para o céu, elevando-as para o teto, por assim dizer.
Eu balancei a cabeça gravemente.
– Você vê como são as coisas, Gwynne? – apontei para as duas garotas com seios que desafiavam a gravidade. – Elas não deviam tirar a blusa enquanto meus filhos estão por perto. Não é certo, porra.
Gwynne assentiu com tristeza.
– Eu acho que elas tão bêba.
– Não estão bêbadas, Gwynne, estão doidonas, provavelmente com Ecstasy. Veja como se esfregam uma na outra. É o primeiro sinal.
Gwynne assentiu sem falar.
Continuei procurando em meu deque, espantado. Porra, quem eram todas aquelas pessoas? Eles estavam comendo minha comida, bebendo meu vinho, nadando na minha piscina e relaxando na jacuzzi de Carter e… Outra onda de pânico! Carter!
Corri para a sala de TV e lá encontrei ele, são e salvo. Ele estava deitado no sofá assistindo a um vídeo. Estava vestido como eu, com calção azul de náilon e sem camisa. Parecia bem contente, com a cabeça apoiada no colo de uma jovem. Era uma loira de não mais de 20 anos. E era linda. Estava com um biquíni azul-celeste do tamanho de uma linha de pipa. Seu decote era fantástico. Alguém tinha diminuído as luzes, provavelmente a garota, e ela estava fazendo carinho nas costas de Carter, enquanto ele assistia a um episódio dos Power Rangers.
– Carter James! – disse imediatamente. – Você viu sua irmã?
Ele me ignorou e continuou assistindo. A menina, no entanto, olhou para cima e me deu um sorriso de modelo, todo brilhante.
– Owwwww – disse ela, girando os dedos nos cachos do cabelo de Carter. – Ele é tããão lindo, seu filho! Eu poderia comê-lo vivo!
Eu sorri calorosamente para a jovem loira.
– Eu sei. Ele é muito bonito – concordei –, mas agora não consigo encontrar minha filha. Você não a viu por aí, por acaso, não é?
A loira balançou a cabeça nervosamente.
– Não, eu sinto muito. – Então de repente ela se animou. – Mas eu poderia ajudá-lo a procurar, se quiser!
Ela apertou os lábios como um peixinho dourado.
Olhei para ela por um momento, com pensamentos obscuros.
– Não, tudo bem – respondi. – Mas você poderia ficar de olho em meu filho, por favor? Detestaria perder os dois ao mesmo tempo.
Outro sorriso brilhante:
– Ah, eu adoraria fazer isso! Mas é melhor ele ter cuidado ou posso tentar roubar os cílios dele! – ela olhou para ele. – Certo, Carter? Você vai me deixar roubar seus cílios?
Ele a ignorou.
– Carter! – chamei. – Você viu sua irmã em algum lugar?
Ele me ignorou também.
A nova babá de Carter começou a esfregar seu rosto suavemente.
– Carrrrrrrter – ela quase cantou. – Você tem de responder a seu pai quando ele lhe fizer uma pergunta!
Sem desviar o olhar nem sequer um milímetro da tela da TV, Carter lamentou:
– Estou assistindooooooooooooooooo!
A babá de Carter olhou para mim e encolheu os ombros.
– Ele disse que está assistindo.
Eu balancei a cabeça incrédulo e caminhei de volta para a sala de estar. Olhei em volta, mas nada de rostos conhecidos, só aquelas modelos com sorrisos brilhantes. Achei aquilo totalmente deprimente. Era como o Império Romano antes da queda. Tudo iria desabar em breve, menos a mansão, que seriam as ruínas e…
Ah! Pouco antes da parede de vidro, uma das altas cortinas do teto ao piso tinha um volume suspeito perto do chão. Fiquei olhando para aquele caroço um momento, observando, com alívio, como ele se revelava na forma de uma menina de 6 anos de idade, travessa. Andei até lá, espiei atrás da cortina e lá estava ela: minha filha. Ela estava apoiada em ambos os joelhos, usando um biquíni branco, olhando para o deque. Segui sua linha de visão… Que ia direto para as garotas de topless!
– Chandler! O que você está fazendo aí?
Ela olhou para cima, seu rosto uma máscara de espanto e constrangimento. Os fabulosos olhos azuis que ela havia herdado da mãe eram grandes como pires. Ela abriu a boca por um momento, como se estivesse se preparando para dizer algo, mas então apertou os lábios e olhou de volta para as garotas de topless.
– O que você está fazendo aí, sua boba? Gwynne e eu estávamos procurando por você! – Eu me abaixei, peguei-a delicadamente e dei-lhe um beijo confortante no rosto.
– Perdi minha boneca – disse, inocentemente. – Achei que tinha caído ali atrás da cortina – e olhou para a cortina, procurando em sua cabecinha uma forma de apoiar sua mentira branca. – Mas ela não estava lá.
Balancei a cabeça, desconfiado.
– Você perdeu sua boneca, é?
Ela assentiu com a cabeça, tristemente.
– Qual delas?
A resposta foi surpreendentemente rápida:
– Uma Barbie. Uma de minhas favoritas.
– E você por acaso não ficou espiando enquanto estava por lá, ficou?
De início, ela não respondeu, mas lançou os olhos ao redor da sala, para ver se alguém estava ao alcance da voz. Em seguida, num tom de fofoqueira, ela disse:
– Aquelas garotas estão mostrando os peitos, papai! Olhe…
Ela levantou o braço para apontar para as garotas seminuas. Eu o empurrei de volta.
– Tudo bem, querida, mas é feio apontar.
Eu vasculhava em minha mente algo para dizer, quando ela perguntou:
– Por que elas mostram os peitos em público?
Eu estava chocado, horrorizado. Como aquelas meninas expunham minha filhinha de 6 anos de idade a algo assim (a culpa era delas, não minha). Devia haver certo decoro, não?
– Essas garotas são da França – respondi. – E na França as moças tiram a parte de cima da roupa quando vão à praia. – Em parte era verdade, pelo menos.
Maravilhada, ela comentou:
– Elas fazem isso?
Balancei a cabeça ansiosamente.
– Sim, querida, elas fazem. Esse é o costume delas.
Chandler olhou para as meninas de novo, pensativa, os lábios torcidos. Então ela olhou para mim e disse:
– Mas nós não estamos na França, papai, estamos nos Estados Unidos.
Fiquei impressionado. Minha filha era brilhante! Mesmo na tenra idade dos 6 anos, ela sabia identificar um comportamento inadequado! Com um pouco de sorte, pensei, ela não iria denunciá-lo à sua mãe.
– Bem, você está certa – disse –, estamos nos Estados Unidos, mas acho que talvez as francesas tenham se esquecido. – Eu a beijei no rosto novamente. – Vamos lá, vamos dar um passeio na praia juntos. No caminho, podemos falar com elas e lembrá-las de que não estão no país delas.
– Tudo bem – disse ela, alegremente. – Vou lembrá-las.
No deque, me antecipei a Chandler.
– Muito bem! – gritei para as duas meninas de peitos de fora, enquanto Chandler e eu passávamos depressa. – Vocês devem usar a parte de cima enquanto estiverem visitando nosso país! Façam isso em St. Tropez!
Elas sorriram e mostraram o polegar para cima, parecendo entender.
Chandler disse:
– Elas têm peitões como a mamãe!
– Verdade – eu disse, e isso porque elas vão ao mesmo médico –, mas acho que você deve apenas fingir que nunca viu.
Melhor discutir isso com seu terapeuta quando for a hora, quando for uma conturbada adolescente tentando dar sentido à loucura a que seu pai – que em breve estaria na cadeia – a expôs em seus últimos dias de liberdade.
Com esse pensamento, cheguei até minha inocente filha e disse:
– Venha, vou levá-la para a praia, sua gansa boba!
Ela pulou em meus braços e lá fomos nós, pai e filha, desfrutando nossos últimos dias juntos em Meadow Lane.
EMBORA FOSSE SUFOCANTE andar nas ruas de Manhattan, era perfeitamente confortável à beira do oceano. Era como se cada última gota de umidade tivesse sido sugada para fora da atmosfera, substituída por uma massa de ar tão agradável e inspiradora que se parecia com uma dádiva de Deus. Enquanto Chandler e eu caminhávamos ao longo da borda da água, de mãos dadas, a insanidade de minha vida parecia mantida em suspensão. De vez em quando um casal de meia-idade ou um corredor passava sorrindo, e eu sorria de volta.
Havia tanta coisa que eu queria dizer a Chandler e tanta coisa que eu sabia que não podia… Um dia, é claro, gostaria de dizer-lhe tudo, sobre todos os erros que eu tinha cometido e como a ganância e as drogas tinham me destruído, mas não até que se passassem muitos anos e ela tivesse idade suficiente para entender. Então conversamos apenas sobre coisas simples da vida, as conchas na praia, as dezenas de castelos de areia que a gente tinha construído ao longo dos anos e todos os buracos que tínhamos escavado para chegar à China, apenas para desistir depois de alcançarmos a água poucos centímetros abaixo. Depois, ela quase me nocauteou ao dizer:
– Adivinhe, papai? Minhas irmãs estão vindo para a cidade amanhã – ela continuou andando.
Por um segundo eu não entendi do que ela estava falando, ou pelo menos foi o que eu disse a mim mesmo. No fundo, porém, eu sabia: ela estava se referindo às filhas de John, Nicky e Allie. Nicky era alguns anos mais velha que Chandler, e Allie era exatamente da mesma idade. A companheira perfeita para brincadeiras, pensei.
John Macaluso: eu estava ouvindo cada vez mais sobre ele ultimamente, não apenas pelas crianças, mas também de um punhado de amigos comuns meus e da Duquesa. Felizmente, estava ouvindo apenas boas coisas, que ele era um cara muito decente, que tinha se divorciado duas vezes e que não usava drogas. O mais importante, no entanto, era que meus filhos gostavam dele. Então, eu gostava dele também. Enquanto ele tratasse bem meus filhos, estaria bem comigo.
Com esse pensamento, eu disse:
– Você quer dizer as filhas de John, querida?
– Sim – disse ela, ansiosamente. – Eles estão vindo da Califórnia amanhã e virão depois para a praia!
Um pensamento adorável: a Duquesa queria se divertir nos Hamptons com outro homem. Em seguida, um pensamento mais obscuro: se, apenas alguns meses depois de conhecê-los, Chandler já estava se referindo às filhas de John como suas “irmãs”, ela poderia um dia se referir a John como pai dela? Por um momento, fiquei muito preocupado, mas apenas por um momento.
Eu sempre seria o pai de meus filhos, não poderia haver outro. Além disso, a capacidade de amar não era mutuamente exclusiva. Assim, que eles fossem amados por todo mundo e retribuíssem esse amor de sobra. Havia o suficiente para todos.
– Bem, isso é ótimo! – disse, calorosamente. – Isso é muito legal. Tenho certeza de que você vai se divertir muito com eles essa semana. Quem sabe um dia eu possa conhecer as meninas, hein?
Ela assentiu com a cabeça alegremente e passamos mais alguns minutos andando e conversando. Então voltamos para a mansão. A longa passarela de mogno, limitada por grossas cordas de cada lado, levava até o deque traseiro por cima da areia. Enquanto eu carregava Chandler no colo pela passarela, meu espírito afundava a cada passo.
Os romanos estavam esperando.
Por que eu me sujeitava àquilo?, eu me perguntava. A tortura autoimposta era em nome de poder transar com alguém? Não podia ser, não é? Quer dizer, eu não era tão raso assim, era? Na verdade, era exatamente nisso que eu estava pensando quando coloquei os olhos nela pela primeira vez.
Ela era alta e loira e se destacava entre os romanos como diamante no meio de strass. Ela se mexia ao som da música, no momento perfeito e no ritmo. Parecia distante da cena, como se fosse um observador casual, não um membro da farra. À primeira vista, ela me pareceu o tipo de garota que eu nunca ousaria abordar em uma boate para convidar a dançar. Seu cabelo loiro brilhava como ouro polido. Ela estava com uma saia de algodão branco, muito curta, uns bons 15 centímetros acima do joelho, revelando suas longas pernas nuas, que eram impecáveis. Ela usava uma camiseta rosa-bebê que abraçava seus deliciosos seios como uma segunda pele e expunha sua barriga perfeitamente tonificada. Seus pés estavam com um simples par de sandálias brancas, embora fosse óbvio, mesmo de relance, que tinham custado uma fortuna.
Então um choque terrível!
De trás da visão loira surgiu uma criatura de aparência horrenda, curta, atarracada e com o rosto de um buldogue. Seu corpo parecia ser composto de grossos tocos cilíndricos, colados na pressa pelo bom humor de Deus. A Criatura tinha cabelo laranja-queimado, pele pálida, traços grosseiros, nariz de lutador e uma mandíbula muito grande. Ela usava um vestido curto roxo que pendia em seu corpo robusto como a capa de uma impressora. A blusa era muito decotada, expondo as bordas de seus peitos flácidos. A Criatura agarrou a visão loira pela mão e veio cambaleando. Senti Chandler recuar em meus braços.
– Vem, Yulichka – a Criatura rosnou para a visão loira, em uma voz grave que cheirava a Brooklyn, Rússia, sarjeta, uísque, sindicato dos caminhoneiros e a fase final de um câncer de garganta. – Este é o dono da casa. Eu quero que você o conheça.
Fiquei chocado e impressionado. A Bela e a Fera, pensei.
– Você deve ser Jordan – rosnou a Criatura que, em seguida, olhou para Chandler e disse: – Ah, que gracinha!
Senti Chandler estremecer em meus braços quando a Criatura agarrou sua mão e babou:
– Oi, munchkin! Eu sou Inna e esta aqui é Yulia.
Com isso, ela quase jogou Yulia para a frente, como se ela fosse uma oferta de paz loira. Parecia claro que as duas vinham como um pacote.
Yulia sorriu, e seus dentes eram brancos como porcelana. Suas feições eram finas, cinzeladas até quase a perfeição. Tinha olhos azuis parecidos com os de um gato, que revelavam algo que o resto da aparência de Yulia de alguma forma camuflava: que lá atrás, na história, talvez 500 anos antes, um tártaro invasor havia estuprado uma de suas ancestrais.
Delicadamente, Yulia estendeu a mão para apertar a mão de Chandler.
– Alloa, – disse ela, com um sotaque surpreendentemente forte. – Eu sou Yulia. Qual é seu nome, linda?
– Chandler – minha filha disse com uma voz tímida, e então eu esperei que ela atacasse dizendo algo como: “Ah, outra loira estúpida, né?” ou, mais provavelmente, “Meu pai já tem uma namorada e a trai o tempo todo!”. Mas, em vez disso, tudo o que ela disse foi:
– Você tem o cabelo muito bonito, Yulia – e todos começamos a rir.
Yulia disse:
– Bem, você é muito doce, Chandler – então ela se virou para Inna e começou a dizer algo numa metralhadora russa. Sua voz era suave e doce, quase melódica, de fato, mas a única palavra que pude reconhecer foi krasavitza, que significava “bonito”.
Passamos um minuto assim, conversando amenidades, mas Chandler estava inquieta, de forma que era meio imprevisível o tipo de veneno que ela poderia lançar para cima de Yulia. Então pedi licença com uma piscadela e um sorriso.
Quando estava saindo, eu disse:
– Sinta-se em casa. Minha casa é sua casa – ao que Yulia sorriu calorosamente e agradeceu.
Inna, no entanto, não sorriu e não disse uma palavra. Ela simplesmente assentiu com a cabeça uma vez, como se dissesse: “É claro que vou!”. Afinal de contas, em sua própria ideia, ela tinha feito seu trabalho direito. Ela viera para Meadow Lane trazendo um presente, de forma que agora tinha direito de devorar tudo que estivesse à vista.
EMBORA FOSSE IMPOSSÍVEL negar que Inna era uma monstruosidade excepcional, eu não poderia imaginar como ela lutava para ganhar seu sustento. Mais tarde naquela noite, depois de a Duquesa ter pegado as crianças e a festa chegar ao fim, Inna sugeriu que os poucos romanos remanescentes, oito de nós, fossemos até East Hampton para pegar um cinema. Pareceu-me uma ideia razoável no início, que rapidamente se tornou uma ideia fabulosa antes mesmo de ter conseguido sair da garagem.
– Vamos – rosnou ela para Yulia. – Vamos com Jordan e pegamos o carro mais tarde.
– É uma ótima ideia! – concordei rapidamente, pois de fato era.
No meio de toda a loucura, Yulia e eu mal tivéramos a oportunidade de conversar. Para complicar as coisas, o inglês dela era terrível, portanto, qualquer conversa significativa teria de ocorrer em silêncio, sem distrações. O único problema era que Inna estaria sentada no banco de trás com a gente.
Só que, mais uma vez, ela estava um passo à frente.
No momento em que Yulia subiu para o banco do passageiro da frente do meu Mercedes, a Criatura rosnou:
– Tenho de ir pischka. Vocês dois vão na frente, encontro com vocês no cinema.
Sem dizer mais nada, Inna virou-se sobre seu grosso e calejado calcanhar e foi bamboleando de volta para as escadas.
Quinze minutos depois, Yulia e eu estávamos sozinhos em minha Mercedes, dirigindo por uma estrada a caminho de East Hampton. Às 8 horas de uma noite de domingo, o trânsito era mais intenso na direção contrária, de forma que avançávamos numa velocidade muito boa. As janelas estavam abertas e o doce aroma do perfume de Yulia se misturava aos aromas terrosos do feno e dos pinheiros de uma forma mais que deliciosa. Mantendo um olho na estrada, eu dava espiadelas sorrateiras para a garota com o canto do outro olho, procurando qualquer sugestão de um ângulo ruim. Não havia nenhum. Ela era absolutamente perfeita, sobretudo aquelas longas pernas nuas, que estavam cruzadas e mostrando as coxas. Ela estava fazendo algo muito sexy com o pé, deixando a sandália na ponta dos dedos e lentamente balançando o pé para cima e para baixo. Eu me esforcei para manter os olhos na estrada.
Por cima do som do ar que entrava pelas janelas, levantei a voz e disse:
– E então, como foi ganhar esse concurso? Isso mudou sua vida para sempre?
– Sim – respondeu Yulia –, é muito bonito lá fora.
Quê? Eu estava me referindo ao fato surpreendente de que Yulia Sukhanova fora a primeira, última e certamente única Miss União Soviética. Afinal, o Império do Mal agora residia junto aos outros impérios de merda, ao lado de Roma, do Terceiro Reich, do Império Otomano e do rei Tut do Egito; por isso, dali em diante só haveriam Misses Rússia.
Ainda assim, Miss URSS ou não, dona Yulia era ainda mais fraca no departamento de inglês do que eu tinha imaginado. Eu precisava cortar a falação à toa e deixar as coisas mais simples:
– Sim – disse eu –, é uma linda noite para se passear de carro.
– Sim – respondeu ela. – Vai começar às 9 nesta noite.
Mas que…
– Você quer dizer o filme?
Ela assentiu com a cabeça ansiosamente.
– Sim, eu gosto de ir cinema.
Ao cinema, pensei. Por que será que essas belezuras russas não conseguem falar ao, o, a …? Qual é a porra da dificuldade nisso? Enfim… A rainha da beleza era linda, então aquela deficiência poderia ser facilmente esquecida. Mudando de assunto, perguntei:
– Então, você acha que Inna vai aparecer?
Essa pergunta ela entendeu.
– Não tem como – disse ela. – Essa é Inna para você. Sempre dando uma de… Hã… Como se diz na sua língua… Er… svacha.
– Casamenteira?
– Da, da! – exclamou a rainha da beleza, linguisticamente desafiada.
Eu sorri e assenti, sentindo como se eu tivesse acabado de chegar ao pico do Everest. Assim, encorajado, atravessei todo o console central e agarrei a mão da Miss União Soviética.
– Tudo bem se eu segurar sua mão? – perguntei timidamente.
Também timidamente, ela respondeu:
– Três meses agora.
Olhei para ela por um momento.
– O que você quer dizer?
Ela encolheu os ombros.
– Esta última vez mãos dadas.
– Sério? Tudo isso?
Ela assentiu com a cabeça.
– Da, que é quando eu terminar com o namorado.
– Ohhhh! – eu disse, sorrindo. – Você quer dizer Cyrus, certo?
Seus olhos azuis se abriram.
– Você conhecer Cyrus?
Eu sorri e pisquei.
– Eu tenho minhas fontes – disse, maliciosamente.
O “Cyrus” ao qual tinha me referido não era outro senão Cyrus Pahlavi, o neto do xá do Irã. Eu tinha investigado um pouco sobre Yulia naquela tarde. Eu havia descoberto que ela terminara um relacionamento de três anos com Cyrus, que, dois anos antes, tinha substituído o príncipe da Itália como seu “rolo” principal. Uma devoradora de realeza, pensei.
Em essência, Yulia tinha vindo para os Estados Unidos como embaixadora da boa vontade, chegando, em 1990, sob os atentos olhos de Mikhail Gorbachev, Boris Yeltsin e Mikhail Khodorkovsky, o então dirigente do Komsomol, a Liga da Juventude Comunista, e agora o homem mais rico da Rússia. Yulia foi essencialmente uma ferramenta de propaganda: brilhante, educada, culta, elegante, graciosa, encantadora e, acima de tudo, muito bonita. Ela fora eleita com a intenção de representar o melhor que a União Soviética tinha a oferecer e, por consequência, o comunismo como um todo.
Era um conto selvagem de intriga política e desonestidade financeira, mas tudo começava a fazer sentido para mim. Havia uma razão pela qual Yulia se destacara tão regiamente entre os romanos: ela deveria fazer isso. Cem milhões de mulheres tinham disputado o título de “primeira Miss União Soviética”, e Yulia Sukhanova tinha vencido. Ela fora preparada e treinada para transmitir uma única mensagem: a de que a União Soviética era melhor.
Após sua chegada aos Estados Unidos, Yulia se reunira com Nancy Reagan, George Bush, Miss Estados Unidos, apresentadores, socialites, estrelas de rock, dignitários e diplomatas. Depois viajara por todo o país, cortando fitas em inaugurações e apresentando shows na TV, enquanto servia como orgulhosa representante da pátria.
E então veio a queda da União Soviética.
De repente, Yulia tornara-se rainha da beleza reinante de uma superpotência inexistente. A outrora orgulhosa União Soviética era agora uma nação-Estado falida que apareceria nos livros de história como nada mais que uma experiência fracassada de falsa economia e ideologia corrupta. Então Yulia decidiu ficar nos Estados Unidos e tornar-se modelo. Inna, na época, era uma das únicas agenciadoras de modelo que falava russo na indústria da moda, por isso colocou Yulia debaixo de suas asas.
Havia apenas dois pontos que me inquietavam sobre Yulia. O primeiro foram algumas referências a um homem chamado Igor, que era vagamente conectado a Yulia e a seguia por toda parte, nas sombras; e o segundo foi o fato de que Yulia fora agente da KGB, e Igor, seu mestre. Por mais inverossímil que parecesse, eles tinham vindo até aqui sob os auspícios do governo soviético, não tinham?
Então, lá estava eu, cinco horas mais tarde, em direção a East Hampton, com uma agente da KGB sentada ao meu lado e o temido Igor à espreita. Igor, eu percebi, era a menor das minhas preocupações.
– Seja como for – disse eu à rainha da beleza/agente da KGB –, eu não quis dizer isso de forma ruim. Todos nós temos nossas fontes, sabe? Aposto como você também tem as suas, certo? – pisquei brincando para a KGB. – Eu acho que as minhas são um pouco melhores que a maioria.
KGB sorriu, parecendo entender.
– Sim, você é muito bom cozinheiro.
– Quê? Do que você está falando, que cozinheiro?
– Você diz molhos* – disse KGB, que aparentemente tinha dormido durante suas aulas de inglês na escola de treinamento secreto da KGB. – Como este noite: você faz molhos de tomate, sobre penne.
Eu comecei a rir.
– Não, nada de molhos! Fontes! – Eu olhei KGB no olho e arrastei a palavra sources o máximo que podia, de forma que saiu tipo sourrrrrrrrrrrrrrrrrrces. Daí, eu disse: – Entendeu?
Ela soltou minha mão e começou a sacudir a cabeça, desgostosa, dizendo algo como: “Bleaha muha, inglês stupido! Ehhh! Não ter sentido!”. Então ela acenou com os braços perfeitamente tonificados ao redor do carro, como se estivesse espantando moscas imaginárias.
– Souwwwwsses… Sourrrrrrces… Seeeeeeesses… Sowwwwwsses! – estava murmurando. – Louco, louco demais…
Depois de alguns segundos, ela começou a rir e disse:
– Esta inglês me deixa louco! Juro, não faz sentido. Russo faz sentido! – com isso, ela apertou o botão do vidro do carro, apontou para o lado da estrada e fez sinal para eu parar.
Parei debaixo de uma grande árvore a poucos metros da estrada, coloquei o carro em ponto morto e apaguei as luzes. O rádio era quase inaudível, mas KGB estendeu a mão e desligou-o, de qualquer maneira. Então ela se virou para mim e disse muito lentamente:
– Eu… fazer… falar… inglês. É que é difícil de entender com o vento soprando. Eu pensei que você diz que fazer molhos, como molhos de tomate, porque você fazer esta noite: molhos de tomate.
– Está tudo bem – disse, sorrindo. – Você fala inglês muito melhor do que eu falo russo.
– Da – disse ela suavemente, e se virou para mim, apoiando as costas contra a porta do passageiro e cruzando os braços sob seus seios. Ela havia jogado um suéter de tricô macio sobre sua camiseta rosa, com um decote V muito baixo, limitado por duas listras grossas, uma marrom e outra verde. Era o tipo de suéter de tênis que a gente vê as pessoas usando em fotografias antigas. Ela havia arregaçado um pouco as mangas, revelando pulsos maravilhosamente flexíveis e um relógio bastante clássico, fino e discreto. Tinha uma pulseira rosa pálido e o mostrador branco. Seu cabelo loiro era brilhante como a seda e repousava sobre ambos os lados do suéter, enquadrando o rosto de um anjo.
Ela não se parecia com um agente da KGB, não é? Respirei fundo, olhei para seus lindos olhos azuis e sorri calorosamente. Por mais que eu tentasse, não conseguia evitar de compará-la com a Duquesa. De muitas maneiras, as duas eram muito parecidas. Loiras, de olhos azuis, ombros largos e fina ossatura, proporções perfeitas acima e abaixo da cintura. E ambas exibiam a mesma postura imperiosa de líder de torcida, com os ombros puxados para trás, joelhos travados e bundas perfeitamente redondas e firmes, o que costumava me deixar louco.
– Você é linda – disse baixinho para KGB, ignorando meu último pensamento.
– Da – disse ela, cansada – krasavitza, krasavitza… Eu sei disso – e ela balançou a cabeça com igual cansaço, como se dissesse: “Eu já ouvi isso mais de mil vezes, então você vai ter que fazer melhor que isso”. Ela sorriu e disse: – E você é gracinha também, você igual homem russo de verdade! – ela riu. – Você sabe disso?
Eu balancei a cabeça e sorri.
– Não, o que você quer dizer?
Ela ergueu o queixo em direção à minha tornozeleira.
– Você rouba dinheiro – ela piscou – como homem russo de verdade! – Ela riu. – E eu ouvir você rouba muito!
Puta merda!, pensei. Malditos russos! Naturalmente, não era o momento para alertar KGB para o fato de que eu não tinha roubado o bastante e que por causa disso eu não viveria mais em Meadow Lane no próximo verão. Melhor deixar essa informação para outra hora, decidi.
– Sim – eu disse, forçando um sorriso –, mas não estou exatamente orgulhoso disso.
– Quando a cadeia para você? – perguntou ela.
– Ainda vai levar um tempo – respondi suavemente. – Mais quatro anos ou mais. Eu realmente não sei.
– E sua esposa?
Eu balancei a cabeça para trás e para a frente.
– Estamos nos divorciando.
Ela assentiu com a cabeça, tristemente.
– Ela é bonita.
– Sim, ela é – eu disse, suavemente. – E ela me deu dois filhos maravilhosos. Acho que sempre vou amá-la por isso, sabia?
– Você ainda a ama? – perguntou.
Eu balancei a cabeça.
– Não, não – dei de ombros. – Quer dizer, por um tempo pensei que ainda a amasse, mas acho que foi apenas… – parei por um momento, tentando encontrar palavras que KGB pudesse entender. Na verdade, eu não estava realmente certo de como me sentia sobre a Duquesa. Eu a amava e a odiava, e suspeito que sempre me sentiria assim. Mas de uma coisa eu tinha certeza, que a única maneira de superar o amor/ódio por alguém seria me apaixonar por outra pessoa… – Acho que foi apenas a ideia de amá-la. Eu não estava realmente apaixonado por ela. Muitas coisas ruins aconteceram. Muita mágoa – olhei nos olhos da KGB. – Você entende o que eu quero dizer?
– Da – respondeu ela rapidamente –, entendo, muito comum – ela olhou para longe por um momento, como se estivesse perdida em pensamentos. – Você sabe, eu estou aqui nove anos – balançou a cabeça, espantada. – Você pode imaginar? Eu deveria falar melhor, acho, mas eu nunca tenho amigos americanos. Meus amigos são todos russos.
Eu balancei a cabeça, compreensivo, pois entendia muito mais do que a KGB provavelmente imaginaria. Havia apenas dois tipos de russas que eu havia conhecido até agora: as que abraçavam os Estados Unidos e as que os desprezavam. As primeiras faziam tudo o que podiam para assimilar o modo de vida americano: aprendiam o idioma, namoravam homens americanos, comiam comida típica e, com o tempo, se tornavam cidadãs americanas.
O segundo grupo, no entanto, fazia exatamente o contrário: se recusava a assimilar nossa cultura. Mantinha sua herança soviética como um cão com um osso velho. Eles viviam em meio aos russos, trabalhavam em meio aos russos, socializavam com os russos e se recusavam a dominar a língua. E, bem no fundo disso tudo, eu sabia, havia o fato de que ainda ansiavam pelos dias gloriosos do império soviético, quando o mundo se maravilhava com a engenhosidade do Sputnik, a coragem de Yury Gagarin e a vontade de ferro de Khrushchev. Aquele fora um momento inebriante para ser soviético, com o mundo tremendo diante do Pacto de Varsóvia, do Muro de Berlim e da crise dos mísseis de Cuba.
Yulia Sukhanova tinha sido um produto de tudo isso; não, ela sintetizava isso. Ela ainda ansiava pelos dias do Grande Império Soviético e, como consequência, tinha se recusado a assimilar a cultura local. Ironicamente, isso não me fez respeitá-la menos – na verdade, muito pelo contrário: eu senti sua dor. Eu também tinha subido uma vez, para as alturas malucas de Wall Street, tornando-me uma espécie de celebridade, ainda que num sentido distorcido da palavra. No entanto, assim como Yulia Sukhanova, tinha visto tudo desabar sobre mim. A única diferença era que a queda dela não tinha sido por culpa própria.
Ainda assim, nós dois, é o que parecia, precisávamos descobrir uma maneira de reconciliar um passado completamente insano com qualquer futuro possível. Talvez, pensei, pudéssemos fazê-lo juntos; talvez, logo que tivéssemos conseguido ultrapassar a barreira da língua, ela pudesse me ajudar a entender o que tinha acontecido na minha vida, e eu poderia ajudá-la a achar sentido na dela. Com esse pensamento, respirei fundo e fui adiante:
– Posso beijá-la? – disse, suavemente.
Ao que Miss Yulia Sukhanova, a primeira, última e única Miss União Soviética, sorriu timidamente. Então ela assentiu.