EPÍLOGO

A TERRA DOS MULLETS

Por que todos esses mullets?

Esse não foi o primeiro pensamento que tive ao entrar no prédio de tijolos da administração do Instituto Correcional Taft, mas foi quase o primeiro. Meu primeiro pensamento foi que o edifício até parecia bastante tranquilo. A área de recepção era aberta e arejada, com um teto muito alto, algumas muitas bandeiras americanas e uma pequena sala de estar com cadeiras estofadas de um lado. Dois guardas uniformizados, um de cada sexo, estavam sentados atrás de uma grande mesa de fórmica na recepção, parecendo mais entediados que qualquer coisa.

Curiosamente, ambos ostentavam mullets.

O mullet do homem era composto de um cabelo marrom-avermelhado que tinha a consistência de palha de aço. Era bem alto em cima, elevando-se uns bons 3 centímetros acima de seu crânio moreno, e muito esticado nos lados. No entanto, na parte de trás, o mullet era tão fino quanto cabelo de milho e descia alguns bons centímetros abaixo do colarinho da camisa cinza-claro de seu uniforme de guarda. O mullet da mulher era de construção semelhante, embora seu cabelo fosse loiro abacaxi e muito mais comprido na parte de trás.

Eu tinha investigado um pouco na semana anterior e alguém que “sabia das coisas” (ou seja, um antigo convidado) me disse que eu deveria aparecer vestindo moletom cinza, camiseta branca e tênis brancos. Qualquer outra coisa seria confiscada e enviada de volta para minha família em uma caixa. A única exceção era uma raquete de tênis, que eu poderia levar comigo. Ele recomendou que eu fizesse isso, porque as raquetes oferecidas eram de qualidade duvidosa.

Foi por essa razão que, precisamente às 11 horas da manhã de sexta-feira, 2 de janeiro de 2004, entrei no prédio da administração vestindo um agasalho cinza e carregando uma raquete de tênis nova debaixo do braço direito.

– Eu sou Jordan Belfort – disse para os dois mullets da entrada. – Estou aqui para começar a cumprir minha pena.

– Bem-vindo ao Taft – disse a mullet fêmea em um tom surpreendentemente amigável. – Sente-se ali – ela fez um gesto em direção à sala de estar. – Alguém virá buscá-lo em alguns minutos.

Depois de uns minutos, um terceiro guarda surgiu. Ele era baixo, atarracado e de aparência simples, com quadris largos e com o tipo de marcha pesada que denota baixa inteligência. Ele usava o mesmo uniforme cinza dos outros guardas, embora o dele parecesse mais fortemente acolchoado. Em sua mão direita havia uma prancheta. Em seu crânio estreito havia um mullet castanho-claro que parecia exuberante o suficiente para abrigar um ninho de passarinho. Ele olhou para a prancheta e disse:

– Você que é o Belfort?

– Sim – respondi, observando o fato de que eu não era mais o senhor Belfort ou mesmo Jordan Belfort. Eu era simplesmente Belfort.

– Tudo bem – disse ele, cansado. – Siga-me, Belfort.

O guarda me levou por uma série de portas de aço, a última das quais se fechou atrás de mim com um clank sinistro. A mensagem implícita era: “Você agora é um prisioneiro, tudo o que conhecia do mundo exterior se foi”. Então entramos em uma pequena sala sem janelas, sem mesa, sem cadeiras, no fundo da qual havia uma grande cortina branca pendurada no teto.

– Qual é o lance da raquete de tênis? – perguntou o guarda.

– Como vou para o Acampamento, me disseram que eu poderia trazer uma raquete de tênis comigo.

– Não mais, eles mudaram as regras há alguns anos. – Ele olhou para a prancheta por um momento, depois virou-se e disse: – Você tem certeza de que está indo para o Acampamento? Consta aqui que você está indo para o Inferior.

O Taft tinha duas instalações separadas: o Inferior e o Acampamento. O Inferior alojava detentos de verdade, enquanto o Acampamento abrigava... Campistas, como diz a palavra. Embora o Inferior não fosse ocupado por assassinos e estupradores, ainda tinha seu quinhão de violência; o Acampamento, no entanto, não tinha nenhuma violência. Na verdade, ele não tinha nem mesmo uma cerca em torno dele, você ficava alojado lá na base da palavra de honra e podia sair a qualquer momento.

Tentando manter a calma, eu disse:

– Eu tenho certeza de que estou designado para o Acampamento, o juiz recomendou ao dar minha pena e...

Ele deu de ombros, indiferente.

– Você pode discutir isso com seu conselheiro aqui. Dê-me seus tênis.

– Meus tênis? – Olhei para meus tênis Nike novos. – O que há de errado com meus tênis?

– Eles têm uma tarja vermelha. Apenas tênis brancos simples são permitidos. Nós vamos enviá-los de volta para sua família, juntamente com sua raquete. Agora vá para trás da cortina e tire a roupa.

Eu fiz como me foi dito e, dois minutos mais tarde, depois de puxar e olhar atrás de minhas orelhas, correr os dedos por meu cabelo, abrir minha boca, rolar minha língua, levantar um pé e depois o outro e, finalmente, levantar meu porta-nozes (como o guarda se referiu a ele), ele me devolveu o agasalho cinza e ordenou que me vestisse. Depois, entregou-me um par de chinelos de lona azul, o tipo que Mao dava aos dissidentes políticos ao entrar em um de seus campos de reeducação.

– Sua conselheira é a senhora Richards1 – disse o guarda. – Ela vai chegar daqui a uma hora. Até lá, sinta-se à vontade.

Suas últimas palavras saíram com uma saudável dose de ironia; afinal, não havia nada no quarto onde eu pudesse sentar, a não ser o chão de linóleo barato. Então ele saiu, fechando a porta atrás de si.

Mantenha a calma!, pensei. Não havia nenhuma maneira de eles me manterem no Inferior. Eu pertencia ao Acampamento! Não tinha histórico de violência e era um réu primário. Eu tinha até cooperado com o governo!

Trinta minutos depois, a porta se abriu e entrou minha conselheira, a senhora Richards. Ela era enorme, com cerca de 1,80 metro de altura, os ombros de um jogador de defesa de futebol americano e as características carnudas de um shar-pei. Seu mullet castanho-escuro parecia ter 1 quilômetro de altura. Estava usando roupas casuais, jeans azuis e um blusão azul-escuro. Seus pés estavam calçados com botas militares pretas.

Antes que ela tivesse chance de dizer qualquer coisa, eu me levantei do piso de linóleo e disse:

– Senhora Richards, eu tenho um problema sério aqui: o guarda me disse que eu estou indo para o Inferior, mas eu fui designado para o Acampamento. O juiz recomendou isso na minha sentença.

Ela me deu um sorriso amigável, expondo um par de incisivos centrais tão severamente sobrepostos que faziam-na parecer um gigantesco Snaggletooth*. Senti um arrepio na espinha.

A Snaggletooth me falou em um tom bastante alegre:

– O.k., bem, vamos ver se a gente consegue resolver isso. Siga-me.

E até que a Snaggletooth se mostrou ser alguém bastante agradável. Ela me levou até uma pequena sala de entrevistas, onde passou alguns minutos olhando meu arquivo. Por fim, ela disse:

– Eu tenho uma boa notícia para você, Belfort, você de fato se qualifica para o Acampamento.

Graças a Deus!, pensei. Eu era, na verdade, material campista. Sempre soube disso. A troco de quê fiquei preocupado, porra? Mas que bobagem a minha.

Então:

– Espere! Falei muito cedo!

Uma nova onda de pânico.

– O que há de errado agora?

– Seu oficial da condicional não nos enviou o relatório pré-sentença. Não posso colocar você no Acampamento até que eu o revise. O relatório tem todas as informações sobre seu caso.

Perto do pânico, falei:

– Então você está me botando no Inferior?

– Não, não – respondeu ela, fazendo seu sorriso Snaggletooth. – Não vou colocá-lo no Inferior; vou colocá-lo no Buraco.

Meus olhos saltaram das órbitas occipitais, como se fossem cabides de chapéus.

– Você está me colocando no Buraco? Num confinamento, como uma solitária?

Ela assentiu com a cabeça lentamente.

– Sim, mas só até sua papelada chegar aqui. Não deve demorar mais de uma semana.

Pânico e mais pânico.

– Uma semana? Como é que pode levar uma semana para minha papelada chegar até aqui? Eles não podem apenas enviar um fax sobre isso?

Ela apertou os lábios e negou com um aceno de cabeça.

– Ah, meu Deus – murmurei. – Uma semana no buraco. Não é justo.

Snaggletooth concordou e disse:

– Pois é, bem-vindo ao Taft, Belfort.



PRIMEIRO, ELES PEGARAM minhas roupas e me entregaram um macacão laranja, então me deram os chinelos de reeducação e me pediram para colocar as mãos nas costas, para que pudessem bater as algemas em meus pulsos, que foi o que fizeram, com um sorriso.

“Eles” eram dois guardas uniformizados da Unidade Especial de Isolamento, mais conhecida como Buraco. Ficava nas entranhas mais profundas do prédio da administração, uma área da prisão onde ficavam alojados os casos mais graves. Algemado e em pânico, fui escoltado por um corredor longo e estreito com sinistras portas de aço de ambos os lados.

Não surpreendentemente, “eles” eram de uma raça totalmente diferente dos afáveis mullets da recepção (e nenhum deles exibia mullets!). Eles eram anormalmente altos, muito musculosos e tinham aquele tipo de mandíbulas superdesenvolvidas que indicavam abuso de esteroides acoplado a uma predisposição genética para a violência. Enquanto percorríamos o caminho pelo Buraco, nenhuma palavra foi trocada, a não ser um comentário passageiro que eu fiz sobre ser jogado na solitária não por ter feito algo de errado, mas simplesmente por um desses casos de documentos perdidos ou coisa assim (de forma que eles facilitassem as coisas para mim). A isso, ambos deram de ombros, como quem diz: “Quem se importa?”.

Os guardas pararam e abriram uma das portas de aço.

– Dê um passo para dentro – ordenou um deles. – Depois que a porta for fechada, você enfia suas mãos através da abertura na porta e nós tiramos as algemas.

Dizendo isso, eles me empurraram para dentro da cela, que era incrivelmente minúscula, talvez com 1,90 metro por 4 ou pouco mais. Duas beliches de aço estavam cravadas em uma das paredes, um conjunto de assento e mesa de aço cravado na outra e um vaso sanitário de aço, sem assento, estava à direita, bem à vista de quem olhasse. Uma pequena janela, coberta por barras de ferro, dava para um campo empoeirado. A cama de baixo era ocupada por outro preso, um homem de meia-idade, branco, com a pele de alguém privado de sol há muito tempo. Ele estava ocupado escrevendo e, para minha surpresa, ostentava o mullet mais fabuloso de todos. Na verdade, era espetacular, composto de cabelo encaracolado vermelho tão baixo no topo da cabeça que você poderia usá-la como um prato. No momento em que os guardas fecharam a porta, ele saiu da cama e me perguntou:

– O que aconteceu? O que eles dizem que você fez?

– Nada – respondi. – Eu me entreguei e eles perderam minha papelada.

Ele revirou os olhos.

– Isso é o que eles sempre dizem.

– Como assim, o que você quer dizer com isso?

– Eu quero dizer que eles fazem dinheiro extra jogando as pessoas no Buraco. Taft não faz realmente parte do Bureau de Prisões, eles são uma corporação privada, que visa a lucro. Você sabia disso, não?

Assenti com a cabeça.

– Sim, é propriedade da Corporação Wackenhut.

– Exatamente – disse ele. – Para cada dia que você passa no Buraco, Wackenhut cobra do governo mais 100 dólares. Enfim, sou Sam Hausman2. – Ele estendeu o punho fechado em direção a mim para um aperto de mão da prisão.

– Jordan Belfort – respondi, batendo as juntas dos meus dedos nas dele. – E você, está no Buraco por qual motivo?

– Entrei com pedido de penhora da casa do diretor da prisão e da casa de alguns guardas também.

Meus olhos quase saltaram para fora de meu crânio.

– Você entrou com um pedido de penhora da casa do diretor? Por que você faria isso?

Ele deu de ombros casualmente.

– Eu tenho meus motivos. Fiz o mesmo contra o juiz que me condenou. E o promotor também. Basicamente, destruí o crédito deles. E agora estou começando o processo de alienação desses bens. E você, está na prisão a troco de quê?

Meu Deus, aquele mullet era insano!

– Manipulação de ações. Um monte de outras coisas também. Tudo de colarinho branco. E você?

Conscientemente, ele me disse:

– Eu não fiz nada, sou inocente.

Nossa, que surpresa!, pensei.

– Bem, o que eles dizem que você fez?

– Eles dizem que dei cheques sem fundo, mas isso é mentira. Eu posso escrever todos os cheques do jeito que eu quiser, independentemente de quanto dinheiro há na minha conta. Essa é a lei.

– Ah, é mesmo? Por que isso? – perguntei.

– Porque o governo roubou minha certidão de nascimento no dia em que nasci e escondeu em algum cofre em Porto Rico. Em troca, eles me deram um laranja chamado SAM HAUSMAN, sim, em letras maiúsculas, não o legítimo Sam Hausman, em letras minúsculas. Quem eu realmente sou: Sam Hausman, em letras minúsculas.

Ele caminhou até sua cama, que estava a menos de 1 metro de distância, e me entregou um livro intitulado Redenção pela lei.

– Acredite em mim – disse ele –, depois que terminar de ler este livro, você vai entrar com pedidos de penhora contra o diretor, também. Entenda uma coisa: você não é nada mais que um escravo, Jordan. Você precisa recuperar seu laranja, não há outra maneira.

Eu balancei a cabeça e aceitei o livro. Então, para tirar uma com aquele maluco, perguntei:

– E o que dizer do pessoal do Imposto de Renda? Qual é a história com eles?

Ele sorriu conscientemente.

– A Receita Federal nem mesmo existe; de fato, se você encontrar uma lei que seja na Constituição dos Estados Unidos autorizando a Receita Federal a cobrar impostos, eu raspo a cabeça. – Você quer dizer, corta os mullets. – Existe apenas uma emenda que faz menção aos impostos, e ela nunca foi ratificada – com isso, ele estendeu a mão para uma pilha de papéis em sua cama e me entregou um que estava no topo. – Esta é uma lista de todos os senadores norte-americanos que ratificaram a 14a Emenda. Vá em frente e conte: você verá que não é suficiente para obter uma maioria legítima.

Assenti com a cabeça e peguei meu material de leitura, subindo para o beliche de cima. Passei os dias seguintes aprendendo tudo o que havia para saber sobre resgatar meu laranja. Quando eu não estava lendo sobre isso, Sam estava falando sobre isso, enquanto refeições pouco comestíveis eram deslizadas através de uma pequena abertura na porta de aço, três vezes ao dia. Sam insistia que qualquer coisa que eu não comesse devia ser jogada na privada, incluindo maçãs meio comidas e pacotes fechados de ketchup. Afinal, os malfeitores da Wackenhut reciclavam tudo o que sobrava, em uma tentativa de cortar custos.

A cada manhã, Sam sorria e dizia:

– É hora de alimentar o diretor!

Então ele fazia um número dois fenomenal e soltava a descarga com um aceno de cabeça.

Consegui escrever duas cartas por dia, uma para Chandler e outra para Carter. Decidi que seria melhor mentir para eles, dizendo-lhes como o Acampamento era maravilhoso e que eu estava jogando tênis todos os dias e me exercitando no ginásio. A única razão pela qual eu ainda não tinha telefonado era que demorava um pouco para conseguir ter uma conta de telefone.

E enquanto um dia se misturava ao seguinte, Sam me passou tudo sobre o Acampamento, que era, de fato, um lugar confortável para se cumprir a pena. Por uma taxa nominal, explicou ele, eu poderia viver como um rei; cozinheiro, mordomo, empregado, massagista e alguém para fazer o trabalho que me tivesse sido determinado, tudo isso poderia ser assegurado por um custo mensal de menos de mil dólares, pagos em selos, cigarros ou comida que eu tivesse comprado na intendência ou, ainda, ao pedir que um de meus amigos do lado de fora fizesse uma ordem de pagamento para a conta de outro detento. Embora esta última estratégia fosse um pouco contra as regras, todos estavam fazendo isso, ele assegurou.

Finalmente, na manhã de meu 7º dia na solitária, a porta de aço se abriu e eu ouvi as palavras mais gloriosas do mundo:

– De pé, Belfort. É hora de ir para o Acampamento.

Graças a Deus, pensei, quase deixando escorrer lágrimas. Pulei do beliche de cima com a velocidade de um coelho e me virei para Sam, dando uma última olhada para seu mullet de tirar o fôlego:

– Boa sorte no resgate de seu laranja.

Ele piscou.

– Esses cretinos estão exatamente onde queria que estivessem.

Realmente é o que parece, pensei.

Então eu saí da cela.



– VOU ENFIAR ISSO aqui em sua garganta – latiu Tony, o negociante de metanfetaminas, que ainda tinha que cumprir cinco anos de sua pena de oito.

– Vá em frente e tente – lati de volta. – Vai voltar direto para você.

Duas horas mais tarde, Tony, o negociante de metanfetaminas, estava de pé a aproximadamente 15 metros de mim, do outro lado da rede de tênis. Era um dia ameno de inverno, com sol, 15 graus, e era a vez do saque de Tony. Eu fazia o máximo para manter os olhos sobre ele, mas estava difícil. Afinal, tinha muita coisa acontecendo no Acampamento. Atrás de Tony havia um campo de futebol, onde um jogo acontecia; à sua direita havia uma quadra de basquete, onde um jogo também estava em andamento, e perto da quadra de basquete ficava um campo gramado onde duas dezenas de mexicanos estavam sentados em mesas de piquenique de madeira, enrolando tacos e burritos para uma festa na sexta-feira à noite.

E isso era só o começo: atrás de mim havia um campo de beisebol; à minha direita, uma pista de atletismo, um poço de ferradura, uma quadra de vôlei e uma cancha de bocha de terra vermelha; à minha esquerda, mais distantes, estavam as trilhas de concreto que levavam a um punhado de prédios baixos de concreto – o salão de jantar, a sala de recreação, a biblioteca, os quartos, a sala de música, a enfermaria e o edifício da administração do campo. Dispersas ao longo do perímetro, havia pequenas placas brancas – Fora dos limites – e, ao longe, depois das placas, estavam as planícies poeirentas da cidade de Taft, limitada por uma inexpressiva serra.

De repente, uma voz potente veio pelo alto-falante:

– Contagem! Hora da contagem! Todos voltem para a unidade para a contagem das 4 da tarde.

Eu estava prestes a largar minha raquete quando notei que nenhum dos outros campistas estava prestando atenção ao anúncio; em vez disso, continuaram fazendo o que estavam fazendo. Só quando veio o segundo anúncio, 10 minutos depois, eles começaram a se mexer. A unidade era um grande espaço, aproximadamente do tamanho de um campo de futebol. Ela estava cheia de cubículos de concreto, delimitada de um lado por banheiros, do outro por salas de TV e quartos e em frente por uma meia dúzia de escritórios da administração, onde a equipe fingia trabalhar.

Entrei na unidade e caminhei por um corredor estreito em direção ao beliche 12-Inferior. Em ambos os lados do corredor havia pequenos cubículos, cada um com talvez 3 por 5 metros. Assim como no Buraco, eles continham apenas o essencial: dois beliches, dois armários e um conjunto de aço de assento e mesa, soldados ao chão de concreto cinza.

Logo que cheguei, encontrei-me rapidamente com meu novo colega de beliche, que parecia um cara decente (a típica variedade de revendedor de drogas). Ele era baixo, atarracado, de cabelos e olhos escuros, e tinha sempre uma expressão sombria. Seu nome era Mark e, com exceção de seus dois dentes da frente, que estavam faltando, parecia razoavelmente saudável. Naquele momento, ele estava deitado em sua cama, lendo um livro. Ele prestou pouca atenção em mim quando entrei no cubículo e me sentei junto à mesa de aço.

Ouvi uma ágil voz feminina:

– Ei, Belfort!

Olhei para cima e: um choque! Havia uma pessoa sexy na entrada do cubículo, olhando para mim. Ela não devia ter mais que 1,65 metro e tinha cabelos castanhos, que descansavam sobre um par de ombros delicados e estavam puxados para trás, como os de uma líder de torcida, acentuando seus alegres pequenos seios. Parecia ter por volta de 30 anos e usava uma camisa rosa para fora da calça e jeans Levis apertados. No mundo lá fora eu não a teria caraterizado como maravilhosa, mas ali dentro parecia mais sexy que uma modelo da Victoria’s Secret.

Ela disse:

– Sou sua conselheira, senhorita Strickland.

O que aconteceu com a Snaggletooth?, pensei.

– O que aconteceu com a senhora Richards? – perguntei.

– Ela estava me substituindo na semana passada – ela olhou para mim por um momento e disse: – Bem, você não parece um cara que roubou 100 milhões de dólares. Até que parece bem inocente.

– Sim, já ouvi isso antes, mas sou definitivamente culpado do que fui acusado.

Com uma risada, ela continuou:

– A gente não ouve isso muitas vezes por aqui! Todo mundo é inocente em Taft. Na verdade, por falar nisso, como foi sua semana no Buraco, com Sam Hausman?

– Ele é um maníaco! Ele também entrou com um processo de penhora contra você?

Ela começou a rir.

– Não, mas sou minoria por aqui; ele fez isso contra praticamente todos os outros. Eu acho que ele gosta de mim – e encolheu os ombros. – Enfim, estou mudando você depois da contagem, seu novo beliche é o 42-Inferior. É o cubículo de Chong.

– Tommy Chong, o ator?

– Sim, achei melhor deixar vocês dois no mesmo lugar. Vai ser mais fácil manter os olhos em vocês.

Com isso, a senhorita Strickland sorriu e saiu sem dizer uma palavra.

Eu tinha ouvido falar que Tommy Chong estava no Taft cumprindo pena por causa de uma acusação ridícula de vender bongs* pela internet. Do pouco que eu sabia sobre o caso, era uma interpretação ridícula da justiça. Na verdade, a venda de narguilés ou bongs não era nem mesmo ilegal, mas ele tinha vendido pela internet (e assim atravessado as fronteiras dos estados) e violado a lei. Em consequência, tinha recebido uma pena de 10 meses.

Eu resisti à vontade de calcular comparativamente a justiça de nossas duas condenações; afinal, se vender bongs se traduzia em 10 meses na cadeia, então como deveria se traduzir o roubo de 100 milhões de dólares de milhares de investidores, os milhões de dólares transferidos ilegalmente para a Suíça e os atos de depravação que desafiavam as leis do homem e de Deus? Cerca de 10 mil anos, imaginei.

– Que merda que é isso! – reclamou meu colega de cela.

– O que é uma merda?

– Pessoas como você receberem tratamento especial por aqui.

– Como assim? Do que está falando?

Meu colega encolheu os ombros.

– Eu não estou dizendo que é culpa sua, mas estou aqui há 19 meses e a única vez em que Strickland me dirigiu a palavra foi pra me mandar arrumar a cama. No entanto, você está aqui só há algumas horas e ela vem pulando em sua camisa rosa e muda você para Tommy Chong. Veja: ela nem vai mandá-lo para a cozinha, como faz com qualquer outro detento recém-chegado. Aposto como vai fazer de você um cara para limpar a grama ou coisa assim, os melhores trabalhos daqui. – Então, em um tom amigável: – Enfim, tudo bem, o que eu realmente gostaria de fazer é ser seu cara na lavanderia. Eu vou cobrar 2 dólares por semana, além de outros 50 centavos pelo amaciante. Você pode me pagar tanto em selos quanto em latas de atum, o que ficar mais fácil para você.

– Tudo bem – respondi. – Eu pago em atum.

E veio então uma forte voz masculina da frente da unidade.

– Hora da contagem! Hora da contagem! Todos de pé para a contagem das 4 da tarde.

Mark saiu da cama e ficou de pé na frente do cubículo, assim como eu. Um silêncio tomou conta da unidade.

Alguns momentos depois, dois guardas vieram andando em um passo excessivamente rápido, olhando enquanto passavam. Os passos eram tão rápidos que eu tinha certeza de que não tinham nos contado, eles só presumiram que estávamos todos ali. Enfim, alguns minutos mais tarde, a mesma voz potente gritou “Certo!”, o nível de ruído aumentou de novo e os campistas começaram a passear pela unidade, como se fossem atletas em um vestiário.

Com um toque das juntas dos punhos fechados, me despedi de meu cara na lavanderia e me dirigi pelo corredor estreito para o 42-Inferior. Quando cheguei ao cubículo, encontrei Tommy sentado em sua cama, passando os olhos por uma pilha de cartas. Ele era muito mais bonito do que eu me lembrava de seus filmes, embora eu estivesse sempre tão chapado quando assistia a eles que bem poderia ter sido uma alucinação. Ele era magro e bronzeado, com cabelos grisalhos prateados e uma bem aparada barba da mesma cor.

– Tommy... – disse eu.

Ele olhou para cima e sorriu.

– É. Jordan, certo?

Eu assenti com a cabeça e nós apertamos as mãos da forma tradicional, ou seja, sem dedos batendo. Então, passamos os minutos seguintes em conversas à toa. Aparentemente, as notícias viajavam rápido por ali, porque Tommy parecia saber muito sobre meu caso, assim como eu sabia sobre o dele.

– Quer dizer que eles fizeram aquele filme, O primeiro milhão, sobre você? – perguntou ele.

– Na verdade, não – respondi. – É vagamente baseado na empresa que eu tinha, mas foi escrito a partir da perspectiva de um funcionário de nível muito baixo. Ele nem sequer começou a contar a história. Quer dizer, tem a cena em que eles pegam o ônibus para Atlantic City...

E, enquanto eu explicava os muitos furos do filme, minha mente começou a andar por dois caminhos.

No primeiro, as palavras foram saindo automaticamente:

– ... E eu posso jurar que meus corretores nunca pegaram um ônibus. Na verdade, se eles pegassem ônibus, seriam apedrejados até a morte caso isso fosse descoberto. A gente só usava limusines e jatinhos executivos...

E no segundo caminho, meu monólogo interno foi: Porra, não posso acreditar como Tommy Chong é diferente do que eu imaginava. É só olhar para a cara dele enquanto estou contando minha antiga vida de insanidade. Eu poderia jurar que tudo isso seria natural para ele, mas ele realmente parece chocado com minha depravação!

Só então outro preso apareceu na entrada do cubículo. Ele tinha uns 50 anos e parecia uma versão detonada de Robin Williams. Ostentava uma barba grisalha ondulada e suficientemente exuberante para uma família de pardais morar. Com formalidade exagerada, ele disse:

– Senhor Belfort, sou David, humildemente a seu serviço. – Ele se curvou. – Eu gostaria de ser seu mordomo. Eu farei qualquer coisa que me pedir: arrumar sua cama, limpar o cubículo, trazer-lhe o café da manhã, não há tarefa muito grande nem muito pequena. – Ele olhou para Tommy. – O senhor Chong, tenho certeza, vai atestar sobre o profissionalismo de meus serviços.

Olhei para Tommy, tentando manter uma cara séria.

– David é um bom homem – disse Tommy. – Você deveria contratá-lo.

– Quanto é? – perguntei a David.

– Sete livros por mês – respondeu ele, com orgulho. – Faço um excelente vanilla latte. Eu roubo xarope da cozinha.

– Claro, por que não? – respondi. Afinal, um livro de selos custava apenas 7,20 dólares. Assim, por 50,40 dólares, eu teria um verdadeiro mordomo de cadeia. – Você pode começar amanhã.

David inclinou-se e, em seguida, foi embora.

Tommy disse:

– Só tome cuidado se ele oferecer qualquer alimento cozido. Ele está na cadeia há 20 anos e passa a maior parte do dia capturando esquilos; então, deixa marinando em molho de soja e depois cozinha no micro-ondas – deu de ombros. – Têm um sabor muito bom, pelo que ouvi.

Passei um momento revendo aquela cena na cabeça e me perguntando como ele conseguia pegar os esquilos. Devia colocar algumas armadilhas, pensei. E então ouvi outra voz:

– Ei, Jordan?

Eu olhei para cima e vi um mexicano baixo na entrada.

– O que foi? – disse eu, com um sorriso.

– Sou Jimmy, o chefe da arrumação. A senhora Strickland me disse que você vai trabalhar para mim – a boa e velha Sra. Strickland! – Eu suponho que você realmente não queira trabalhar, certo?

– Absolutamente não – respondi rápido. – Quanto vai custar?

– Cem dólares por mês, e você nunca mais vai encostar no cabo de uma vassoura.

– Fechado – disse eu. – Como você quer ser pago?

– Peça a um amigo do lado de fora que envie uma ordem de pagamento para minha irmã todo mês. Daí ela enviará para mim.

– Muito bem – respondi, e, no momento em que ele se afastou, um sujeito de aparência italiana e com enormes dentes brancos e brilhantes enfiou a cabeça.

– Você é o Jordan? – perguntou.

Assenti.

– Sim, como posso ajudá-lo?

– Sou Russo, o cara que consegue as coisas por aqui. Eu estava assistindo ao seu jogo de tênis antes. Você é muito bom, mas acho que seria muito melhor com a raquete certa.

– O que você tem?

– Uma Head, Liquidmetal. Novinha.

– Quanto é?

– Setenta e cinco dólares.

– Vou levá-la. Como você quer ser pago?

Ele acenou.

– Não se preocupe com isso, a gente vê mais tarde. Você e eu vamos fazer um monte de negócios juntos, deixe-me buscar a raquete. – Ele se afastou.

Olhei para Tommy e disse:

– Mas que lugar maluco é esse aqui!

– Ah, você não tem ideia – ele disparou de volta. – Não é exatamente o que se chamaria de “cana dura”, rapaz. De fato, à noite, as pessoas dão uma escapada para os campos ao redor e pegam pacotes de seus amigos, e alguns deles até encontram as esposas para transar. É totalmente à vontade.

E de fato era.

Enquanto Tommy e eu passamos os dias seguintes trocando histórias de guerra, um fluxo aparentemente interminável de presos ofereceram seus serviços para mim. Tinha Miguel, o massagista mexicano (10 dólares por 60 minutos, sem final feliz); Teddy, o mestre retratista chinês (por 20 dólares você dava a ele uma foto de seus filhos e ele a recriava na aquarela); Jimmy, o homem de couro caipira (por 75 dólares ele fazia um livro de bolso estilo caubói para enviar à sua esposa em casa); Danny, o barbeiro gay (por seis latas de atum ele cortava seu cabelo enquanto tentava esfregar o pau contra seu joelho)... E assim por diante. Claro, havia ainda todos os chefs, que, usando uma combinação de alimentos comprados na intendência, plantados nos jardins, contrabandeados nos campos e roubados da cozinha, preparavam ótimas refeições no micro-ondas.

Foi assim que vivi: tudo do bom e do melhor atrás das grades.

Mas foi só depois da quarta noite conversando sobre nossas histórias de guerra que Tommy trouxe para a conversa algo que mudaria minha vida para sempre.

– Eu estive convivendo com malucos – disse ele –, mas você, meu caro, ultrapassou todas as medidas. Pedi para minha mulher dar um Google em você porque achei que estava cheio de merda e me enrolando, especialmente sobre aquele absurdo de afundar o iate. Quer dizer, isso é estranho! Quem afunda um iate? Mas ela disse que está tudo na internet.

– Sim – respondi com uma mistura de tristeza e orgulho. – Acho que vivi uma vida bem ferrada.

Tommy encolheu os ombros.

– Pode ser que sim, mas as histórias são hilárias, principalmente a maneira como você as conta, com todos os apelidos: o Cabeça Quadrada, o Chinês, Mad Max, o Sapateiro, especialmente a Duquesa, que gostaria de conhecer um dia.

Eu sorri.

– Bem, tenho certeza de que podemos organizar isso daqui a alguns anos. Eu e ela, na verdade, estamos nos dando bem atualmente, nada mais de atirar coisas um no outro.

Tommy ergueu as sobrancelhas.

– Vou lhe dizer o que você realmente tem de fazer.

– O quê?

– Escrever um livro.

Eu comecei a rir.

– Escrever um livro? Como vou escrever um livro? Eu não sei como escrever! Quer dizer, eu posso escrever, mas não um livro inteiro. Agora, se for para falar, aí, sim, eu posso fazer. Sou um orador muito bom, isso eu garanto a você. Coloque-me em frente a uma sala cheia de pessoas e eu faço todo mundo chorar!

– Não há diferença – disse ele, confiante. – Escrever é ter uma voz, e você tem uma das melhores vozes que eu já ouvi. Basta escrever sua história exatamente do jeito que você me contou.

– Tudo bem, vou tentar – respondi.

Então passei a semana seguinte tentando encontrar um ponto de partida para minha história. Algumas coisas muito estranhas tinham de fato acontecido durante toda a minha vida. Parecia uma série de eventos bizarros encadeados, um após o outro. Decidi fazer uma lista deles.

Em pouco tempo, me peguei pensando por que tantas coisas bizarras continuavam acontecendo comigo. Cheguei à conclusão de que as coisas não vinham acontecendo comigo, eu é que as atraía as coisas para mim. Era como se eu fosse um esganado compulsivo por castigos e punições. No topo da lista estava o desastre do iate; na parte inferior, o arremesso de anões. Decidi, então, começar a escrever.

Com caneta e papel na mão, sentei em um dos tranquilos quartos e comecei a escrever meu livro de memórias. Duas semanas depois, ainda estava no primeiro parágrafo. Eu li aquilo para mim mesmo. Depois li de novo. Nossa, era uma merda! Um monte de baboseiras sobre os homens em suas torres de marfim querendo saltar lá de cima depois da quebra da Bolsa de 1987. Quem dava a mínima para aquilo? Eu não dava. O que havia de errado comigo? Por que não conseguia escrever?

Decidi tomar um rumo diferente: iria falar sobre meus pais e como eles gostavam de comer no mesmo restaurante o tempo todo. Rapidamente escrevi quatro páginas. Olhei para elas, estavam de fato muito boas e me apressei a levá-las a Tommy, para a crítica dele.

– Tudo bem – disse ele, ansioso. – Vamos ver o que temos aqui.

E ele começou a ler, ler... Mas por que não estava rindo? Tinha uma ótima piada no primeiro parágrafo e ele tinha passado direto...

Um minuto depois, ele olhou para cima.

– Isso é realmente uma merda! – disse.

– Sério?

Ele assentiu com a cabeça rapidamente.

– Ah, sim, é muito ruim. Quer dizer, é absolutamente terrível. Não tem uma única qualidade redentora – encolheu os ombros. – Comece de novo.

– Mas, como, começar de novo? Você não leu o primeiro parágrafo?

Tommy me olhou diretamente nos olhos e disse:

– Quem se importa sobre essa coisa do restaurante? É chato pra caralho e normal demais. Deixe-me dizer uma coisa, Jordan. Há duas coisas sobre a escrita que você nunca pode esquecer: primeira, tudo gira em torno de conflito. Sem conflito, ninguém vai se importar. A segunda coisa é o máximo de. Você sabe o que significa o máximo?

Dei de ombros, ainda ferido pelo desprezo que Tommy havia mostrado pela história do restaurante.

Ele disse:

– Significa que você sempre deve escrever sobre o extremo de alguma coisa. O máximo disso, o máximodaquilo, a garota mais bonita, o cara mais rico, a dependência de drogas mais estrondosa, a mais insana viagem de iate – ele sorriu calorosamente. – Era disso que se tratava sua vida, cara: o máximo de você mesmo. Entendeu o que eu quero dizer?

Sim, eu tinha entendido, mas não conseguia escrever sobre aquilo.

De fato, por um mês inteiro, dia e noite, tudo o que fiz foi escrever, e Tommy revisava meu livro e dizia coisas como: “Está desajeitado, é irrelevante, é chato, está péssimo, horrível”. Até que, finalmente, desisti.

Com o rabo entre as pernas, entrei na biblioteca da prisão, à procura de um livro para ler. Depois de alguns minutos, tropecei em A fogueira das vaidades. Eu me lembrava vagamente de ter visto o filme e, do jeito como me lembrava, era horrível. Ainda assim, tinha algo a ver com Wall Street, então peguei e li os dois primeiros parágrafos... Que total absurdo que era! Quem iria ler aquela porcaria?

Fechei o livro e olhei para a capa. Tom Wolfe. Quem era esse porra? Por curiosidade, reli os primeiros parágrafos, tentando descobrir o que estava acontecendo. Era muito confuso. Aparentemente estava acontecendo uma revolta, uma revolta interior ou algo assim. Eu continuei lendo, tentando manter o foco. Ele estava falando sobre uma senhora; não dava para ver a mulher, mas ele sabia pelo som da voz dela como seria sua aparência: 90 quilos! Com a estrutura de um queimador de óleo! Depois de ler isso, deixei cair o livro e comecei a rir alto. E foi assim. Fui fisgado.

Li o livro todo em um dia, de cabo a rabo, 698 páginas, e ri alto o tempo todo. Fiquei encantado. Hipnotizado. Não só era o livro mais brilhante que eu já tinha lido, mas havia algo sobre o estilo de escrita dele que ressoou em minha alma ou, como Tom Wolfe poderia ter colocado, em minha alma, meu coração, meu fígado e meu dorso.

Juro por Deus, devo ter lido aquele livro uma dezena de vezes, até que chegou ao ponto em que conhecia cada palavra de cor. E então li de novo, para aprender a gramática. Depois paguei a meu cara de confiança na lavanderia, Mark, o atravessador de drogas (que também era um leitor ávido), dez latas de atum para que fizesse um pente fino no livro e anotasse cada analogia em um pedaço de papel separado. Então li isso mais de uma vez, até que fosse capaz de recitar em meu sono. Antes que eu percebesse, uma voz tinha surgido em minha cabeça: minha voz de escritor. Era irônica, desinibida, desagradável, interesseira e muitas vezes desprezível, mas, como Tommy explicou, era engraçada demais.

No entanto, eu não iria realmente escrever minhas memórias na prisão, o que fiz foi aprender a escrever. Na verdade, quando saí de lá, 20 meses depois, não tinha escrito uma única página. Era 1o de novembro de 2005 e eu estava morrendo de medo. Não tinha a menor ideia do que pretendia fazer da minha vida. Acho que muitas pessoas começam a escrever por inspiração ou por desespero. No meu caso, era desespero. Eu tinha um passado terrível e um futuro incerto, e não havia maneira de conciliar os dois.

Então me sentei na frente do laptop e escrevi o que achei que seria a frase de abertura perfeita. Era como eu me sentia enquanto estive na prisão durante todos aqueles meses e foi como eu me senti em meu primeiro dia em Wall Street. Na verdade, era o que eu sentia naquele mesmo momento, olhando para a tela em branco do computador.

Você é pior que um balde de merda”, escrevi.

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