CAPÍTULO 22

MANTENDO O RUMO

E nós fizemos amor.

Não naquela noite, mas no dia seguinte.

Foi lindo; na verdade, não apenas lindo, mas, graças a alguns bioquímicos muito experientes da empresa farmacêutica Pfizer, meu desempenho foi o de um garanhão fenomenal.

O que houve foi que, pouco antes de apanhar a KGB na casa da Criatura em Sag Harbor, engoli 50 miligramas de Viagra com o estômago vazio. Em consequência, no momento em que estacionava em minha calçada naquela tarde, tive uma ereção que o DEA poderia ter usado para arrombar a porta de uma casa de viciados em crack.

Não que eu fosse impotente ou nada parecido (eu juro!), mas parecia uma atitude prudente. Afinal, consumir uma bomba azul, como o Viagra era carinhosamente conhecido (devido à sua cor arroxeada e a seu efeito bombástico), era o equivalente a fazer uma apólice de seguro bioquímica contra o mais temido de todos os complexos masculinos: a ansiedade de desempenho.

E eu fui um garanhão bioquímico, não apenas naquela tarde, mas naquela noite também. O que a Pfizer não anuncia na bula (e todo homem que já tomou um sabe) é que essa bomba azul permanece em seu sistema por um tempo. Assim, oito horas depois, sua ereção pode não ser mais como um aríete, mas ainda é firme o suficiente para pendurar algumas peças de roupa.

Em algum lugar por volta da 14a hora, as últimas moléculas da bomba azul tinham se metabolizado ao ponto da inutilidade, transformando-me novamente num homem mortal. Foi por essa razão que, precisamente 14 horas depois, eu tomei outra bomba azul, e 14 horas depois, mais outra.

A KGB, pensei, poderia lidar com isso. No entanto, na quarta-feira de tarde, ela começou a reclamar. Ela estava mancando em direção ao banheiro do quarto de casal, vestindo seu uniforme soviético, que consistia em uma fita vermelho-comunista no cabelo e nada mais, e murmurava:

Bleaha muha! Sua coisa não desce! Há algo errado aqui! É uma loucura! É uma loucura! – e bateu a porta do banheiro atrás de si, resmungando um pouco mais de palavrões russos.

Enquanto isso, eu estava deitado na cama, virado para cima, vestido com meu uniforme americano, que consistia de um monitoramento eletrônico emitido pelo governo federal e uma ereção induzida por Viagra que era mais rígida que aço, e estava bastante sorridente. Afinal, não é todo dia que um garoto judeu do Queens de 1,70 metro consegue enviar a primeira, última e única Miss União Soviética mancando para o banheiro, com a bunda em chamas! E, apesar de ser impossível negar que os meninos na Pfizer ajudaram, não era essa a questão.

A questão era que eu estava me apaixonando novamente.

De fato, no final da tarde, quando KGB me disse que teria de voltar para seu apartamento em Manhattan, senti meu coração afundar no peito. Quando ela me ligou algumas horas depois, dizendo que estava com saudades, meu coração disparou. E então, quando ela ligou de novo, duas horas depois disso, só para dizer “Olá”, eu imediatamente liguei para Monsoir e pedi que ele fosse buscá-la no apartamento dela para trazê-la de volta aos Hamptons.

Assim, chegou mais tarde, naquela noite, carregando uma grande mala, que de bom grado ajudei a desfazer. E foi assim que nós nos tornamos inseparáveis. Ao longo dos dias seguintes, nós fizemos tudo juntos: comemos, bebemos, dormimos, fomos às compras, jogamos tênis, fizemos exercícios, andamos de bicicleta, de patins, de jet-ski e até tomamos banho juntos!

E, é claro, em todas as oportunidades, fizemos amor.

Toda noite acendíamos uma fogueira na praia e fazíamos amor em uma manta de algodão branco, sob as estrelas. E, é claro, a cada estocada, eu dava uma espiada em direção às dunas, verificando se o temido Igor não estaria por perto, mas, segundo ela, era apenas seu cunhado que tinha vindo para os Estados Unidos para ficar de olho nela. Embora sua explicação me parecesse um pouco rasa, decidi não pressioná-la com essa questão.

Quando o final de semana chegou, o pessoal das festas não apareceu. A Criatura tinha cuidado disso, espalhando a notícia de que a casa 1.496 da Meadow Lane estava fechada para balanço. Na manhã seguinte, segunda-feira, eu deixei KGB em seu apartamento na cidade para apanhar mais pertences e desci para o número 26 da Federal Plaza para uma reunião com o Canalha e o TOC. Não surpreendentemente, eu estava de volta às boas graças do Canalha, então a reunião foi rápida.

O tema foi a picada que daríamos em Gaito em breve, e chegamos à rápida decisão de que eu iria marcar uma última reunião com o Chef antes de James Loo vir para a cidade. O objetivo era simples: fazer James Loo aceitar dinheiro vivo. Eu diria ao Chef que queria que James Loo visse que eu estava falando sério e queria saber se ele era sério também. Eu daria a Loo um depósito em dinheiro de pouco valor, como sinal de boa fé: 50 mil dólares, seria a sugestão, que ele poderia usar para as coisas andarem.

No começo eu estava cético em relação ao plano, pensando que o Chef poderia farejar um delator. Mas, pensando bem, eu sabia que ele não iria fazer isso. Por alguma razão inexplicável, algo tinha se desligado em sua mente, talvez devido à alegria irracional que ele tinha em ficar à margem da lei.

Ele era um homem complicado, um cidadão cumpridor da lei e que jamais sonharia em violá-la da forma como a considerava, ou seja, todas as leis que não tivessem a ver com negociação de títulos e circulação de dinheiro e sua posterior comunicação à Receita Federal. Se você fosse pedir ao Chef conselhos sobre como roubar um banco ou falsificar cheques, ele iria denunciá-lo às autoridades ou, mais provavelmente, apagaria seu número de telefone para sempre.

Aquilo, no entanto, era diferente. Nós estávamos falando sobre dinheiro que, em sua cabeça, havíamos roubado de forma justa e limpa, sem violência, sem armas colocadas na cabeça das pessoas, com vítimas que não tinham nome nem rosto e, o mais importante, ele achava que, se a gente não tivesse feito aquilo, outra pessoa teria feito a mesma coisa. Em consequência, era justificado que escondêssemos nosso dinheiro sujo daqueles que pretendiam encontrá-lo.

Portanto, em retrospecto, não foi de fato um grande choque para mim quando o Chef e eu nos encontramos dois dias mais tarde, em meu escritório, e ele achou que ter trazido “um sinal de boa fé” para nosso encontro era uma ideia fabulosa.

Ele passou a explicar seu esquema de lavagem de dinheiro nos mais ínfimos detalhes – chegando até mesmo a mencionar o nome dos parentes de James Loo que nos ajudariam na Ásia. Ele também deu o nome dos bancos e das empresas de fachada que usaríamos, terminando com o álibi impermeável que ele iria grudar em toda a operação, caso Coleman e seus rapazes ouvissem falar de alguma coisa.

Era um plano inspirado, que envolvia a compra de imóveis em meia dúzia de países do Extremo Oriente e a manutenção de um pessoal em tempo integral no exterior, para operar uma série de empresas legítimas – fabricantes de roupas no Vietnã e no Camboja e de eletrônicos na Tailândia e na Indonésia, onde o custo do trabalho era mais barato e a mão de obra era feliz.

Sim, o plano era brilhante, tudo bem, mas também era incrivelmente complicado. Na verdade, era tão complicado que me perguntei se um júri algum dia seria capaz de compreendê-lo. Então peguei um bloco de notas em cima da mesa de bronze e vidro, arranquei uma folha de papel, peguei uma caneta e comecei a desenhar um diagrama.

Com a voz baixa conspiratória, eu disse:

– Então deixe-me ver se entendi: vou dar a James Loo 50 mil dólares – e desenhei uma caixa com o nome de Loo e mais o valor de 50 mil dólares –, e ele então vai fazer com que uma de suas pessoas leve esse dinheiro para o exterior, para sua cunhada, Sheila Wong1, em Cingapura – fiz outra caixa do outro lado da folha, com o nome de Sheila, e desenhei uma longa linha conectando as duas caixas –, e depois Sheila vai usar esse dinheiro para abrir contas em Hong Kong e nas Channel Islands e Gurnsey… – e antes de eu terminar de falar sobre o papel de Sheila em nosso esquema, o Chef arrancou a caneta de minha mão e começou a desenhar um diagrama que se assemelhava bastante com os planos para um submarino nuclear. Enquanto ele narrava seu plano, com uma mistura de orgulho e satisfação, o gravador funcionava, registrando cada uma de suas palavras.

Quando o Chef terminou, ele disse:

– Isso é um verdadeiro Picasso, mas é melhor jogá-lo no lixo!

Amassei o bilhete em uma pequena bola e fiz exatamente isso.

– Melhor prevenir que remediar – eu disse, casualmente.

Nós trocamos um abraço no estilo mafioso e então confirmei nossos planos de encontrar James Loo na segunda-feira. Eu sugeri o Hotel Plaza Athénée, em Manhattan, onde, por pura coincidência, expliquei, eu iria ficar por alguns dias com minha nova namorada. Mas não era por acaso, é claro. Muito antes de Loo e o Chef chegarem lá, TOC e sua equipe de tecnologia teriam grampeado todo o quarto com som e imagem.

Quando me encontrei com TOC depois, brinquei que estava fazendo meu velho truque de novo, passando notas e tal, embora dessa vez tivesse guardado aquela para a posteridade.

Com isso, lhe entreguei um envelope lacrado, com a fita e o papel todo amassado dentro.

– É melhor você parar na Macy’s e comprar um ferro a vapor – eu disse, brincando. – Você vai precisar.

Então entrei no carro e voltei para os Hamptons.

Mas, infelizmente, ao longo dos dias seguintes, comecei a me sentir culpado de novo.

Naquele domingo à noite, o pensamento de entregar o Chef se tornou deprimente. Aparentemente, o fato de me apaixonar pela KGB tinha suavizado a picada dos recentes acontecimentos, aquelas terríveis traições que tinham acendido chamas de vingança na maneira como eu enxergava os amigos como inimigos e os inimigos como amigos. Agora, no entanto, eu não estava mais tão certo.

Foi um pouco antes das 9 horas. KGB e eu estávamos desfrutando de nosso pequeno ritual noturno, sentados sobre o cobertor de algodão branco perto da água, com uma pequena fogueira queimando próxima, lutando contra os primeiros arrepios do outono. Logo acima do horizonte, uma lua cheia alaranjada estava dependurada no céu noturno, com as águas escuras do Atlântico logo abaixo dela.

– Ela parece perto o suficiente para ser tocada, não acha?

Da! – respondeu ela – Parecem um queijo suíço.

Parece – disse eu, corrigindo-a. – Ela parece um queijo suíço.

– O que você quer dizer? – perguntou.

Eu peguei a mão dela e apertei-a com amor.

– Quero dizer que você tem o hábito de misturar os verbos e os nomes. Como quando disse ela parecem em vez de ela parece. Não é grande coisa, na verdade, é apenas uma questão de singular ou plural. Veja só, quando se tem uma coisa só, como uma lua, é parece. Mas quando se tem mais de uma coisa, como as estrelas, se diz parecem. Novamente, não é grande coisa, só que é engraçado, meio que dói nos ouvidos.

– O que você quis dizer dói ouvidos? – perguntou ela, soltando minha mão.

Nos ouvidos – respondi calmamente, embora um pouco de frustração tivesse me invadido –, e esse é um bom exemplo do que acabei de dizer. – Respirei fundo e disse: – Você “engole” o artigo, Yulia, sempre! E o artigo é a coisa mais utilizada quando falamos! Ele dá certo ritmo para as coisas, um determinado fluxo, e quando você não diz, como acabou de falar “dói ouvidos”, ou quando diz “quero ir shopping”, soa engraçado. Quer dizer, parece que você é ignorante ou algo assim, e eu sei que você não é – dei de ombros novamente, não querendo fazer daquilo um grande problema, embora não pudesse evitar.

Nós estávamos passando todo o tempo juntos, e sua deficiência no idioma estava começando a me incomodar. Além disso, estava apaixonado por ela, então sentia que era minha obrigação ensiná-la ou treiná-la, por assim dizer, e conduzi-la suavemente pelo caminho para uma pequena aldeia chamada “Assimilação”.

– De qualquer forma – continuei –, se você realmente quer melhorar seu conhecimento de nossa língua, gostaria de começar com essas duas coisas: o uso do artigo e saber quando é plural e quando é singular– sorri e agarrei a mão dela. – A partir daí, todas as coisas boas virão – pisquei para ela. – E, se você quiser, eu poderia até ser seu professor! Cada erro que fizer eu… Ai! O que você… Aiiiii! Pare, isso dói… Aiii! Aii! Aiiiiiiiiiiiii! – gritei. – Solte meus dedos, você vai quebrar meus… Pare!

– Seu putinho! – murmurou, enquanto dobrava meus dedos para trás num apertão KGB. – Você e seu inglês idiota, rá! Os Estados Unidos pensa que é dona do mundo! Bleaha muha! Porcos capitalistas!

Pensam que são donos do mundo”, pensei, e então gritei:

– Solte! Ai! Solte meus dedos! Por favor, você vai quebrá-los!

Ela soltou meus dedos, então virou as costas para mim e começou a murmurar:

– Americano idiota… Isso ridículo!

– Puta merda! – gaguejei. – Qual é seu problema? – comecei a sacudir os dedos no ar, tentando aliviar a dor. – Você poderia ter quebrado meus dedos com aquele aperto de morte da porra da KGB! – balancei a cabeça com raiva. – E quem é você para me chamar de putinho, hein? Agora você acha que eu sou um puto? Cinco minutos atrás você estava dizendo quanto me amava e agora está me falando palavrões… – balancei a cabeça, triste, como se estivesse muito desapontado com ela. E me preparei para um sexo que seria uma maravilha depois daquela discussão.

Depois de alguns segundos, ela se virou para mim, pronta para fazer as pazes novamente.

Praste minya – disse ela, suavemente, e eu presumi que significava obrigado, e então ela começou a balbuciar algo em russo. Seu tom era bastante doce, na verdade, de forma que supus que ela tentara quebrar meus dedos por amor.

Então, ela disse:

– Venha aqui, musek-pusek; deixe-me beijar seu palcheke – e agarrou meus dedos e começou a beijá-los muito suavemente, o que me levou a acreditar que palcheke eram dedos.

Sentindo-me vingado, inclinei-me para trás sobre o cobertor e me preparei para minha recompensa (ou seja, ela beijar meu pênis ereto), e apenas um segundo depois ela estava deitada a meu lado e nós estávamos nos beijando. Foi um beijo lento e suave, um beijo russo, que parecia durar uma eternidade. Em seguida, ela descansou a cabeça no meu ombro, e nós dois, amantes mais uma vez, ficamos olhando para o céu, contemplando a extensão impressionante do universo, a lua alaranjada, as estrelas brilhantes, a difusa banda branca da Via Láctea.

– Sinto muito por antes – disse eu, mentindo através dos dentes. – Não vou mais corrigi-la, se não quiser. Quer dizer, não me importo se a lua parece um queijo suíço ou parecem um queijo suíço, enquanto estiver olhando para você.

Dizendo isso, beijei-a no topo da cabeça loira e puxei-a para mais perto de mim.

Ela respondeu, colocando a perna longa e nua sobre a minha e se apertando contra mim, como se estivéssemos tentando nos tornar uma só pessoa.

Ya lublu tibea – disse ela, suavemente.

– Eu também te amo – respondi no mesmo tom.

Respirei fundo e olhei para a lua, me perguntando se eu já tinha sido mais feliz do que era agora. Aquela menina era realmente especial – Miss União Soviética, porra! – a conquista do século e, mais importante, o antídoto perfeito para a traição da Duquesa.

Com uma boa dose de nostalgia na voz, eu disse:

– Sabe, eu me lembro de olhar para a lua quando era criança e ficar totalmente abismado com ela. O que quero dizer é que sabia que pessoas já tinham estado lá em cima e caminhado sobre ela, entendeu? Em 1969, você só tinha 1 ano de idade, de modo que era nova demais para se lembrar daquele dia, mas eu me lembro como se fosse ontem. Meus pais tinham uma TV preto e branco na cozinha e todos nós estávamos lá, aglomerados em torno dela, observando Neil Armstrong descer a escada. Quando ele deu seus primeiros passos na Lua e começou a saltar – balancei a cabeça, assombrado – decidi que queria ser um astronauta – deixei escapar alguns risos envergonhados. – Sonhos de menino. Que de alguma forma me levaram a Wall Street. Eu nunca teria imaginado isso naquela época.

A KGB riu de volta, embora seus risos tivessem um quê irônico:

– Esse é grande piada americana – disse ela, confiante. – Você sabe disso, certo?

– O que… Que todo menino queria ser astronauta?

Nyet– respondeu ela rapidamente. – Eu falo sobre lua – a lua, pelo amor de deus, o que tem de tão difícil nessa merda? – Tem uma palavra inglês para coisa de lua de vocês… Esse… Hã… Como se diz… falcefekaceja… Ah! Você faz embuste!

– Nós fazemos um embuste! Você está tentando dizer que o pouso na Lua foi uma farsa?

Da – exclamou alegremente e ficou de pé olhando para mim. – Isso fraude contra o povo soviético! Todo mundo sabem disso.

Sabe – respondi, com os dentes cerrados. – Todo mundo sabe disso… Você não está realmente olhando para mim com essa cara impassível e dizendo que acha que os Estados Unidos forjaram os pousos na Lua para constranger a Mãe Rússia! Por favor, não me diga isso! – olhei para ela, incrédulo.

Ela apertou os lábios e balançou a cabeça lentamente.

– Este pouso você fala é filmado em estúdio de cinema. Todos no resto do mundo sabe disso. Só aqui as pessoas acreditam. Como você acha que América voar para a Lua, quando a União Soviética não pôde? Tivemos cosmonauta feminina no espaço enquanto vocês estava voando macaco! E de repente você bater-nos na corrida para Lua? Ah, por favor, isso é brincadeira! Olhe para fotos. Você vê bandeira ondeando na lua, mas não há atmosfera. Assim, como pode ondear bandeira? E o dia é noite, quando a noite deve ser o dia e planeta Terra sobe, quando se deve cair. E há cinturão de radiação… – e assim por diante, a KGB foi explicando como o pouso na Lua era nada mais que um embuste gigantesco filmado em um estúdio de cinema de Hollywood, com o único propósito de constranger sua amada União Soviética. – Vamos conversar sobre isso com Igor quando vocês se encontrarem, e depois você vai ver a verdade. Igor é famoso cientista. Ele domar o fogo.

Eu balancei a cabeça, descrente, sem saber ao certo como reagir àquilo.

– Bem – disse, lutando contra a vontade de dizer a ela que sua amada ex-União Soviética, incluindo o extinto programa espacial, tinha se tornado nada mais que uma piada –, todo ser humano tem direito à opinião, embora eu deva lhe dizer que, para montar uma conspiração assim, você precisaria de mil pessoas, cada uma delas jurando manter esse segredo monumental, e neste país, eu garanto a você, se mais de duas pessoas sabem de alguma coisa, isso não fica em segredo por muito tempo. E não quero nem mencionar o fato de que houve, na verdade, três pousos na Lua, e não apenas um. Então vamos apenas supor que, para fins de discussão, o governo de fato tenha forjado o primeiro pouso lunar e tido a sorte de se safar. Por que ele iria arriscar de novo? Seria como dizer: “Ei, escapei uma vez, senhor Brezhnev! Agora quero que você observe muito de perto como vou fazer isso de novo e veja se você pode me pegar dessa vez!”. Mas, ei, o que eu sei sobre as coisas? Quer dizer, talvez os alienígenas tenham mesmo caído em Roswell e você estivesse certa quando disse ontem que “os Estados Unidos nunca lutaram na Segunda Guerra Mundial” – pérola de sabedoria que KGB tinha compartilhado comigo na quadra de tênis, depois de eu vencê-la em dois sets em 11 minutos e meio, quando então lutamos na grama e a luta acabou comigo gritando: “Solte-me, pare! Você está me machucando!” – e que “os americanos roubaram os planos para a primeira bomba atômica da Rússia, não o contrário”.

Essa última tinha saído dos lábios comunistas e vermelhos de KGB enquanto assistíamos a um documentário do History Channel que discutia as armas de guerra. KGB me informou que o povo russo, o que significa dizer os soviéticos, foi responsável por praticamente todas as invenções significativas, desde a bomba atômica até a máquina de raio-X, da literatura de qualidade até a goma de mascar.

– Na verdade, Yulia, e digo isso por amor, como em ya lublu tibea, o que de fato me interessa é a cura pelo fogo descoberta por Igor. Conte-me tudo, porque isso, sim, é o que eu acho mais fascinante!

Ela me olhou por um momento, sacudindo a cabeça com ironia.

– Você não gostaria de sabe…

– Sim – respondi –, claro que eu gostaria de sabe! Então, por que você não me conta?

Ela me olhou com os olhos semicerrados. Então fez um gesto com seu delicado queixo em direção à nossa pequena e perfeita fogueira de praia, na base da qual repousava uma Duraflame.

– Você vê chama?

Eu balancei a cabeça.

– Sim, o que têm as chamas?

KBG estalou os dedos longos e finos e fez pop! no ar.

– Assim, desse jeito – disse ela, com orgulho –, Igor pode fazer chama ir embora.

– E como é que ele faz isso? – perguntei, cético.

– Ele controlar atmosfera – respondeu ela, com indiferença, como se controlar a atmosfera não fosse mais difícil que o ajuste de um termostato.

Olhei para ela por um momento, admirado e tentando calcular quanto dinheiro eu poderia ter feito com um cientista russo maluco disposto a afirmar que controlava a atmosfera. Ele era exatamente o tipo de coisa que os strattonitas teriam engolido. Eu colocaria Igor na frente da sala de pregões vestido num traje de mágico, como o professor Dumbledore de Harry Potter, e diria ao microfone: “Eis o Professor Igor e sua cura pelo fogo!”. Os strattonitas teriam aplaudido feito loucos e colocado fogo em Lake Success, e então Igor poderia exibir seu material.

Eu disse à KGB:

– Ahh, agora entendi! Eu acho que realmente vi isso nos filmes. Foi em Austin Powers. Dr. Evil havia descoberto uma maneira de controlar o tempo e queria manter o mundo como refém. Pensando bem, talvez fosse James Bond. Ou foi o Superman? – dei de ombros. – Eu não tenho certeza.

Ela encolheu os ombros para trás.

– Ri tudo o que você quiser, espertinho, mas eu não brincando. Igor pode curar fogo, e eu sou acionista da empresa. Um dia ele vai…

KGB continuou falando, mas eu parei de escutar. Acho que ela realmente acreditava no que estava dizendo, não apenas no absurdo do professor Igor, mas em tudo. Ela havia crescido com um conjunto diferente de livros de história, assistindo à TV soviética, na qual nós éramos o Império do Mal determinado a dominar o mundo. Dei uma olhadinha no meu relógio: eram 9h30 da noite. Eu tinha que estar no Plaza Athénée por volta das 9 horas da manhã no dia seguinte, o que significava que eu tinha que sair dos Hamptons às 6 e meia.

Já era hora de encerrar aquela noite, coisa que não podia fazer até depois de ter transado com KGB em frente ao fogo. Aquele era nosso ritual, afinal, algo que os dois ansiavam fazer todos os dias. Então agora eu tinha de concordar com ela. Sim, diria: “Apesar de meu ceticismo anterior, agora estou convencido de que a cura de Igor pelo fogo deve mudar o mundo. Então, seja uma boa namorada, KGB, e venha fazer amor comigo. Eu não me importo que seja uma comunista empedernida. Eu te amo assim mesmo!”.

E foi exatamente isso que aconteceu.



NA MANHÃ SEGUINTE, precisamente às 11 horas, o Chef e James Loo entraram no quarto 1104 do Hotel Plaza Athénée. Era uma suíte de um quarto e dois banheiros, e o Chef e James Loo pareciam dois cordeiros se encaminhando para um matadouro.

Cumprimentei-os na porta da frente, abraçando primeiro o Chef e depois trocando um aperto de mão caloroso com James Loo, que era um sujeito baixo, um pouco calvo, usando um terno caro sem gravata.

Conduzi os dois para a sala principal, bem ao lado da entrada da varanda. O quarto ficava do lado oposto da suíte e a porta estava bem trancada, por uma boa razão. Dentro daquele quarto, usando fones de ouvido, revólveres e expressões sérias no rosto, estavam quatro agentes do FBI, TOC, Mórmon e mais dois caras da técnica, ambos na casa dos 30 anos e com cara de quem conserta computadores.

Tínhamos passado as últimas duas horas analisando a sala de estar e checando os vários ângulos das câmeras e os lugares onde poderíamos esconder os microfones. Era um espaço pequeno, com talvez 4 metros por 6. Três janelas altas que davam para a rua 64 deixavam entrar uma boa quantidade de luz, tanta luz que os caras da técnica fecharam as cortinas vermelhas de bordel para reduzir o brilho.

Ofereci o sofá a meus convidados e me sentei em uma das poltronas. Eu já tinha combinado as coisas com os meninos no quarto. Naquele exato momento, eles estavam assistindo a tudo no monitor de 12 polegadas do circuito interno de TV que recebia imagens de uma câmera escondida dentro de um relógio digital. O relógio estava em uma das mesas laterais, colocado lá pelo pessoal de tecnologia. Ironicamente, eu não tinha sido grampeado hoje, apenas o quarto, de acordo com uma ordem judicial. A única coisa que eu escondia no bolso da minha jaqueta esporte era um envelope muito gordo com 50 mil dólares dentro, os quais entregaria a Loo no momento apropriado.

Depois de alguns minutos de conversa, eu disse:

– Quero que você saiba, James, que Dennis avalizou você em 100%. E isso significa muito para mim.

James assentiu respeitosamente.

– E digo o mesmo – disse ele. – Dennis também o recomendou bastante, então eu estou muito confortável.

– Isso é muito bom – disse o Chef, que tinha pouca capacidade para essas bajulações. – E agora que já está resolvido, vamos passar para as coisas boas!

– Claro – concordei. – Quanto mais cedo eu tiver meu dinheiro no exterior, melhor. A propósito, James, quero que você saiba que o fato de ter feito um monte de negócios com Bob me deixa muito mais confortável – balancei a cabeça, respeitosamente. – É como receber um endosso do papa, sabe?

Na verdade, era mais como um endosso de Darth Vader, pensei.

James assentiu.

– Sim, temos uma história muito boa juntos. E também é uma história muito engraçada sobre como nos conhecemos.

– Ah, é mesmo? – disse eu. – Gostaria de ouvi-la.

– Bem – ele disse, com orgulho –, eu era o que você chama de “CEO de emergência” numa das subscrições de Bob.

– Sim, veja só isso! – retrucou o Chef. – Bob faz um acordo, ganha 10 milhões, mas o CEO chuta o balde no dia em que a coisa vai a público. Então, precisávamos de alguém, devo dizer, qualquer um para entrar em cena. – O Chef olhou para o amigo chinês. – Sem ofensa, James.

– Tudo bem – respondeu ele.

– Mas, então – continuou o Chef –, James estava no conselho da empresa naquele momento e concordou em entrar como CEO. Lógico, ele fez a coisa certa depois, e é por isso que estamos todos sentados aqui hoje.

Eu balancei a cabeça lentamente, pensando em uma maneira de aprofundar como James tinha “feito a coisa certa depois”, o que em termos de Chef (e em termos de Lobo) significava que James tinha continuado a emitir ações baratas para o Demônio de Olhos Azuis, depois que tinha vindo a público.

– E como a companhia se saiu? – perguntei casualmente. – Ela foi para algum lugar?

– Lutou por um tempo – disse James –, mas nos saímos bem.

O Chef disse:

– A coisa mais importante é que James é confiável. A empresa teve seus altos e baixos, mas James foi sempre sólido como uma rocha. E é assim que ele vai estar com você nisso: sólido como uma rocha.

Percebendo uma abertura, perguntei:

– Então, você ajudou Bob da mesma maneira que vai me ajudar? Você sabe, como… – e pisquei – … As coisas lá no Oriente?

James deu de ombros.

– Eu faço muitas coisas para Bob, mas não gosto de discuti-las. Vai ser a mesma coisa com você. O que fazemos é apenas entre nós e, claro, Dennis.

Eu precisava sair daquele tópico rapidamente, então sorri para James, como se o testasse para ver se era fofoqueiro.

– Isso é exatamente o que eu queria ouvir, James. Exatamente! Veja, o mais importante para mim é que ninguém fora desta sala descubra sobre isso. Isso é crucial.

– Eles não vão descobrir – disse James, confiante. – Afinal, isso seria tão ruim para mim quanto para você.

– Totalmente verdade – acrescentou o Chef, com um aceno de cabeça. – Então, tudo o que tem de acontecer agora é você e James entrarem num acordo. Eu vou fazer o que tenho de fazer, e você vai fazer o que você tem de fazer, e então James vai fazer o que ele tem de fazer, e badabip, badabop, badabup-schwiiiitttt! O dinheiro estará lá, nós estaremos aqui e todos poderemos dormir tranquilos à noite.

– Estamos todos entendidos aqui – disse eu, confiante – e, se estiver tudo bem para você, James, gostaria de seguir em frente rapidamente. Eu tenho 2 milhões em dinheiro que desejo tirar dos Estados Unidos o mais rápido possível, porque… Hã… – olhei ao redor do quarto e baixei a voz – é um dinheiro das propinas, entendeu? Dos clientes a quem dei unidades para que fizessem a coisa certa e depois me devolvessem parte do dinheiro – levantei a voz lentamente ao normal. – Enfim, então tenho mais 10 milhões de dólares já na Suíça, que eu gostaria de transferir para sua irmã, logo que tivermos todas as contas configuradas.

– Não é nenhum problema – disse James. – Ela é muito organizada e muito confiável.

O Chef disse:

– Eu posso cuidar de toda a papelada ou de qualquer outra coisa que você precise que seja feita. Quando se tratar de fazer investimentos, eu vou trabalhar como um conselheiro para mantê-lo um passo afastado até que seus problemas acabem.

Eu balancei a cabeça, compreensivo, perguntando-me se ainda havia algum motivo para ficar naquela sala um segundo a mais. Tanto o Chef quanto James Loo já tinham se enterrado mil vezes, e ainda havia a fita do Chef que eu havia gravado no outro dia, com aquele diagrama de submarino nuclear dele.

Mas, de acordo com TOC, não havia nada mais poderoso diante de um júri que uma fita de vídeo, por isso, se possível, eu deveria tentar que o Chef explicasse todo o esquema de lavagem de dinheiro de novo. Obviamente, da maneira como as coisas estavam indo, eu sabia que ele faria isso, mas eu estava tão entediado com a coisa toda àquela altura que não podia mais suportar. Eu já era especialista em lavagem de dinheiro antes de tudo aquilo começar e estava de saco cheio de bancar o idiota.

No entanto, eu tinha um trabalho a fazer, então respirei fundo e disse:

– Tudo parece ótimo, mas ainda estou um pouco confuso. Só para evitar desentendimentos no futuro, podemos passar o negócio inteiro mais uma vez?

O Chef balançou a cabeça rapidamente, como se eu estivesse um pouco obtuso, e disse:

– Claro que sim, pegue aquela caneta e aquele papel ali, e vamos em frente…

E foi isso. Dez minutos mais tarde, eu tinha outro submarino nuclear, dessa vez ainda mais detalhado. Depois de tudo, o primeiro tinha sido apenas um protótipo, este já era de segunda geração. Tudo o que eu tinha de fazer era passar o envelope a James. Então eu teria terminado.

Dei um tapinha do lado de fora de minha jaqueta esporte, bem ao lado esquerdo do bolso.

– Imagino que Dennis tenha mencionado que eu lhe daria um pouco de dinheiro hoje, para começar as coisas.

James assentiu.

– Sim, o que seria excelente.

– Tudo bem, então – disse o Chef –, acho que não precisam mais de mim, por isso vou andando. – Ele se levantou do sofá. – Tudo bem pra você, James?

James deu de ombros.

– Sim, não há problema.

O Chef olhou para mim.

– Está tudo bem pra você?

Não, pensei, tenho de verificar primeiro com os caras no quarto.

– Claro – disse rapidamente –, está tudo bem.

O Chef apertou a mão de James Loo e foi para a porta.

Foi então que caiu a ficha: eu nunca mais veria o Chef de novo. Não tinha nenhuma dúvida de que, assim que o Canalha visse o vídeo, iria indiciar o Chef imediatamente e, na sequência, anunciar minha cooperação. O fim estava se aproximando rapidamente, e era hora de me despedir do homem a quem, um dia, eu tinha confiado meus segredos mais sujos, um homem que eu havia chamado uma vez de amigo.

O Chef fora esse tipo de homem, e não havia mais ninguém como ele. Era o tipo de Chef que poderia se manter no calor da cozinha, o tipo de homem que eu gostaria de ter a meu lado numa guerra. Quantas vezes eu tinha dito isso a mim mesmo ao longo dos anos? Quantas vezes eu o tinha procurado por respostas, por sua sabedoria, seus conselhos e suas palavras de coragem? E era assim que tudo iria acabar.

Quando o Chef abriu a porta do quarto de hotel, eu disse:

– Ei, Chef!

– Yo! – disse ele, sorrindo. – O que foi?

Eu sorri de volta, tristemente.

– Eu só queria agradecê-lo por tudo que fez por mim. Estamos num negócio fodido demais, e você sempre foi um amigo para mim. Não pense que eu não reconheço isso.

– Sim – disse ele –, são em momentos como esses que você descobre quem são seus verdadeiros amigos. Agora você sabe.

Aquelas foram suas últimas palavras antes de ele me dar uma piscadela e sair pela porta.

James Loo, ao contrário, nunca passaria por aquela porta.

Por instruções de TOC, eu iria lhe passar o envelope e, em seguida, dizer-lhe que precisava descer por um minuto para pegar alguma coisa com o porteiro. Na sequência, eles iriam prendê-lo. Claro que o Chef nunca iria descobrir, porque James Loo também faria parte da equipe dos Estados Unidos, assim como em algum momento ele mesmo faria, eu esperava, quando chegasse a hora dele. Afinal, eles não estavam atrás dele, e sim do Demônio de Olhos Azuis…

O Chef era apenas um degrau para chegarem até lá.

Em meu caminho de volta para Southampton, me segurei a esse pensamento pelo que ele valia: o Chef iria cair em cima do Demônio e eu seria poupado da culpa de ter dedurado meu velho amigo. E, quando não estava mais pensando nisso, fiquei lembrando que todos os homens traem… Todos os homens traem… Todos os homens traem…

Mas eu estava errado sobre isso.

Alguns não traem.

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