PRÓLOGO
LÁGRIMAS DE CROCODILO
2 de setembro de 1998
Qualquer um poderia pensar que uma pessoa que estivesse encarando 30 anos de prisão e uma multa de 100 milhões de dólares estaria pronta para se aquietar e fazer as coisas direito depois disso. Mas não, eu devo ser algum tipo de obcecado por castigos, ou talvez eu seja apenas meu pior inimigo.
Seja como for, o fato é que eu sou o Lobo de Wall Street, lembra-se de mim? O banqueiro de investimentos que dava festas como se fosse uma estrela do rock, aquele sujeito cuja vida era pura loucura? O cara que tinha o rosto de um coroinha, um sorriso inocente e o hábito de usar drogas em quantidade que poderia sedar a Guatemala? Acho que você se lembra. Eu queria ser jovem e rico, então entrei na Long Island Railroad e fui parar em Wall Street em busca de fortuna… Até que tive uma brilhante ideia que me inspirou a trazer minha própria versão de Wall Street para Long Island.
E que ideia brilhante! No meu 27º aniversário, eu tinha construído um dos maiores escritórios de corretagem dos Estados Unidos. Aquele era um lugar para onde os jovens e os pouco instruídos iriam para ficar muito mais ricos do que poderiam imaginar.
O nome da minha empresa era Stratton Oakmont, mas quando olho para trás, depois de todos esses anos, penso que ela deveria ter sido batizada de Sodoma e Gomorra. Porque, de fato, não era toda empresa que tinha prostitutas no porão, traficantes de drogas no estacionamento, animais exóticos na sala de reuniões da diretoria e competições de arremesso de anões às sextas-feiras.
Aos meus 30 e poucos anos, eu já ostentava todos os sinais da riqueza extrema de Wall Street: mansões, iates, jatinhos particulares, helicópteros, limusines, seguranças armados, uma multidão de empregados domésticos, contato de traficantes de drogas na memória do celular, prostitutas que aceitavam cartões de crédito, policiais que recebiam propina, políticos na folha de pagamento, carros exóticos em quantidade suficiente para abrir minha própria revendedora… E uma leal e amorosa segunda esposa loira chamada Nadine.
Na verdade, talvez você tenha visto Nadine na TV nos anos 1990; ela era aquela loira absurdamente sexy que tentava lhe vender a cerveja Miller Lite durante o Monday Night Football. A garota tinha o rosto de um anjo, embora suas pernas e sua bunda é que tivessem lhe conseguido o trabalho; bem, isso e seus jovens peitinhos empertigados, que ela havia aumentado de tamanho logo após dar à luz o segundo de nossos filhos, um menino!
Nadine e eu estávamos vivendo o que eu tinha imaginado ser O Estilo de Vida dos Ricos e Malucos, uma versão superagitada, superdrogada e superapimentada do sonho americano. Nós dois estávamos descendo a estrada a 200 por hora, com um dedo segurando o volante, sem nunca dar o sinal de pisca-alerta ao fazer as curvas e sem olhar o retrovisor. (E quem se importava com isso?) Os destroços do passado eram surpreendentes. Era doloroso demais olhar para trás; porque era muito mais fácil apenas mergulhar para a frente e continuar acelerando na estrada, rezando para que o passado não nos alcançasse. Mas é claro que ele alcançou…
Na verdade, eu estava à beira do desastre depois que um pequeno exército de agentes do FBI invadiu minha propriedade em Long Island e me levou embora algemado. Isso aconteceu em uma noite quente de terça-feira, na semana que antecedia o Dia do Trabalho, e menos de dois meses depois de meu aniversário de 36 anos. O agente que me prendeu falou:
– Jordan Belfort, você foi indiciado em 22 acusações de fraude de valores mobiliários, manipulação de ações, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça…
Bem, a essa altura, eu já tinha me desligado. Afinal, de que adiantava eu ficar ali ouvindo a lista de todos os crimes que eu sabia que tinha cometido? Era como cheirar um recipiente de leite rotulado como “leite estragado”…
Por isso eu telefonei para meu advogado e me resignei a passar a noite na cadeia. E enquanto me levavam algemado para o carro, meu único consolo foi dar um último adeus para minha amada segunda esposa. Ela estava parada na porta da casa, com lágrimas nos olhos e vestindo um shortinho jeans. Estava linda como sempre, mesmo na noite da minha prisão.
Enquanto eles me acompanhavam e eu passava por ela, fiz uma cara de confiante e sussurrei:
– Não se preocupe, querida. Tudo vai ficar bem…
Ela assentiu com a cabeça e sussurrou de volta:
– Eu sei, querido… Seja forte por mim e pelas crianças. A gente ama você.
Ela soprou um beijo carinhoso para mim e enxugou uma lágrima.
E, então, fui embora.