CAPÍTULO 8

FEDORENTOSLOVÁQUIA

Após trinar como um canário por mais de sete horas, o primeiro dia de cantar na Court Street tinha finalmente chegado ao fim. Eu tinha ido bem longe na história do meu primeiro dia como corretor licenciado, que, por pura coincidência, foi no dia 19 de outubro de 1987, o dia do Grande Crash no Mercado de Ações. Meus quatro captores, bem como meu próprio advogado, tinham achado uma grande ironia nisso. Afinal, entre meu primeiro dia na faculdade de odontologia, meu primeiro dia no negócio de carnes e frutos do mar e meu primeiro dia em Wall Street, eu de fato parecia ter o Toque de Midas, só que ao contrário: tudo o que eu tocava se transformava em merda.

No entanto, pelo outro lado da moeda, não havia como negar que eu tinha certa resiliência. Da forma como Magnum colocou, se alguém me enfiasse em um vaso sanitário e apertasse a descarga, eu iria sair do outro lado segurando uma licença de encanador. E embora as palavras de Magnum tivessem sido grandemente apreciadas, eu estava totalmente certo de que não havia nenhuma licença de encanador esperando por mim do outro lado daquela privada…

Eu estava na limusine de novo, à caminho da velha Brookville, onde iria me colocar de volta sob prisão domiciliar, reduzido mais uma vez a um simples prisioneiro dentro da minha própria casa, bem como a uma piñata emocional para que a Duquesa golpeasse. Como sempre, o balbuciante paquistanês estava ao volante, mas ele não havia dito uma só palavra desde que tinha deixado a Sunset Park 30 minutos antes, quando eu tinha ameaçado cortar-lhe a língua fora se ele não parasse de falar.

Nós estávamos na Long Island Expressway, em algum lugar perto da divisa entre o Queens e Long Island. Estávamos na ponta de um dos congestionamentos da cidade, na hora do entardecer, quando as luzes da rua se acendem, mas fazem pouca diferença. À medida que o carro se arrastava ao longo do caminho no ritmo de uma lesma, eu olhei para fora da janela, perdido em meus pensamentos.

A grande crise de 1987 foi o ponto central da minha vida, um excepcional acontecimento a partir do qual todos os outros eventos se desenrolaram. O índice Dow Jones caiu 508 pontos naquela Segunda-Feira Negra em um único pregão, enviando o maior mercado de ações da história moderna a um ponto insustentável.

Na verdade, eu tinha sido nada mais que um observador casual, não apenas da queda da Bolsa, mas também da fabulosa preparação que a precedeu. No verão de 1982, na esteira dos cortes de impostos sobre os rendimentos e da queda nas taxas de juros, a inflação galopante havia sido finalmente domada e a economia de Reagan foi o alvo da raiva de todos. O dinheiro tornou-se barato, fazendo com que o mercado de ações começasse a pegar fogo. Michael Milken tinha acabado de inventar títulos de alto risco, virando a América corporativa de cabeça para baixo. Especuladores hostis como Ronald Perelman e Henry Kravis, que faziam parte de uma nova raça de celebridades financeiras armadas com baús de dinheiro levantados pelos títulos de alto risco de Milken, foram se tornando nomes conhecidos. Um a um, eles estavam fazendo com que as maiores corporações dos Estados Unidos ficassem de joelhos por meio de aquisições hostis. TWA, Revlon, RJR Nabisco… Quem seria o próximo?

Em outubro de 1987, a euforia tinha atingido seu auge, quando o Dow Jones ultrapassou a marca de 2.400. A era dos yuppies estava em pleno andamento, e o final dela não estava à vista. E enquanto os Michael Falks da vida ganhavam milhões, pessoas como Bill Gates e Steve Jobs foram mudando o mundo. Era o início da Era da Informação, que chegou com a força de uma bomba atômica. Computadores mais rápidos que a velocidade da luz estavam aparecendo em todas as mesas, e eles eram poderosos, intuitivos e reduziram o mundo ao tamanho de uma aldeia global.

Para Wall Street, isso abriu vastas possibilidades: computadores mais rápidos renderam enormes aumentos no volume de negociações, assim como produtos financeiros mais atualizados e novíssimas estratégias de negociação. Os produtos financeiros, chamados de derivativos, permitiram às grandes instituições compensar suas carteiras de investimento como nunca puderam fazer antes, e as novas estratégias, a mais emocionante delas chamada de seguro da carteira de investimentos, começaram a alimentar o frenesi de compras.

Em uma farsa financeira de proporções kafkianas, esse seguro de carteira de investimentos provocou avanços no índice Dow Jones para estimular os computadores a cuspir volumosas ordens de compra para derivativos, o que então fez com que o Dow avançasse ainda mais e estimulou aqueles mesmos computadores a cuspir mais ordens de compras de derivativos… E isso foi em frente sem parar. Teoricamente, poderia ter continuado para sempre.

Na verdade, não poderia, porque as duas toupeiras que tinham inventado aquela coisa de seguro na carteira de investimentos programaram um mecanismo à prova de falhas dentro do programa. Em outras palavras, depois de um determinado nível de aumento de preços, os computadores diriam: “Espere um segundo, tem algo de podre no reino da Dinamarca! É melhor vender todas as ações em nossas carteiras, e tão rapidamente quanto nossos cérebros de silicone permitirem!”.

Foi quando os problemas começaram. Em uma versão real de O exterminador do futuro, computadores se conectaram e começaram a expelir ondas intermináveis de ordens de venda à velocidade da luz. De início, o mercado declinou drasticamente, e isso já era ruim. Mas, infelizmente, os computadores continuaram a vender e, por volta do meio-dia, o volume era tão grande que as máquinas no piso da Bolsa de Valores de New York (NYSE) não conseguiram acompanhar. Isso foi trágico, porque do nada a coisa toda chegou a um impasse.

Enquanto isso, os corretores, sendo corretores da Bolsa, pararam de atender aos seus telefones, pensando: qual é a vantagem de ficar escutando a porra de um cliente irado gritar: “Venda, caramba, venda!” quando não há compradores ao redor para vender? Então, em vez de segurar as mãos de seus clientes e dizer que ia ficar tudo bem, eles se recostaram em suas poltronas, colocaram os sapatos de couro de crocodilo sobre as mesas e deixaram os telefones fora do gancho. Por volta das 4 da tarde daquele dia, o Dow Jones tinha despencado 22%, meio trilhão de dólares desapareceu no ar, a confiança dos investidores foi abalada e a era dos yuppies tinha oficialmente chegado ao fim.

Mais de uma década depois, enquanto contava esses eventos para meus captores, eu me sentia estranhamente separado deles, como se o jovem que vivera tudo aquilo, um pobre idiota chamado Jordan Belfort, fosse um completo estranho para mim, alguém cuja história de vida eu estava narrando em primeira pessoa por uma questão de simplicidade. Mais estranho ainda foi o modo como eu tinha convenientemente omitido o impacto pessoal que esses eventos causaram em mim, especialmente quando se tratou de meu casamento com minha primeira esposa, Denise, com quem eu tinha me casado três meses antes do crash da Bolsa. Nós dois estávamos mais falidos do que qualquer outra pessoa. No entanto, sabíamos que o sucesso estava logo ali, ao virar da esquina. Então tínhamos esperança e tivemos fé, até a Segunda-Feira Negra.

E foi nesse ponto que eu parei: Jordan Belfort tinha acabado de deixar a sala de reuniões da LF Rothschild com o desespero no coração e o rabo entre as pernas. Ele era um jovem de 25 anos, quebrado, com uma falência nas costas e uma licença para vender ações que de repente se tornara inútil.

Ironicamente, dentro da sala de interrogatório, eu tinha ficado perturbadoramente confortável com o passar do dia. Perder-me no passado havia permitido que eu bloqueasse a dor do presente, sobretudo minha sensação de perda em relação à Duquesa. E apesar do fato de saber que estava dedurando, toda a informação que eu tinha fornecido era algo estritamente histórico, sobrevoando apenas ligeiramente os traços da ilegalidade e da marginalidade. Aquelas 97 pessoas em minha lista de vilões, ladrões e vigaristas ainda estavam razoavelmente seguras.

Mas então o Canalha estourou minha bolha.

Faltavam alguns minutos para as 5 da tarde quando Joel disse:

– Nós precisamos colocar essa aula de história em espera por um tempo. Nós estamos lutando contra o relógio com sua cooperação…

Então ele passou a explicar que meu papel como traídor poderia ser mantido em segredo por apenas um determinado período. Havia sinais reveladores quando alguém estava cooperando com o FBI, começando pelos registros do tribunal, que no meu caso seria algo visivelmente maçante. Em outras palavras, havia certas moções que deveriam ser encaminhadas quando o réu estava levando um caso para julgamento, moções essas que não seriam efetivadas se esse mesmo réu estivesse cantando na Court Street.

Em termos práticos, explicou o Canalha, haveria dois aspectos distintos para minha cooperação: a delação histórica e a delação proativa. Até então, eu tinha colaborado apenas na primeira modalidade. Agora, no entanto, o Canalha tinha me pedido para fazer uma ligação telefônica gravada a uma das almas que em breve estariam se lamentando em me atender, selecionada de minha lista de vilões, vigaristas e ladrões. E o Canalha tinha escolhido, entre todas as pessoas, meu leal e confiável contador, Dennis Gaito, também conhecido como Chef.

Dennis Gaito era, de fato, um chef, embora não no tradicional sentido da palavra. Era um apelido nascido do amor e do carinho, como resultado de sua natural propensão para “cozinhar” a contabilidade*. Ele era um homem calmo, tranquilo e controlado. Vivia para os melhores campos de golfe, charutos cubanos, bons vinhos, viagens de primeira classe conversas cultas, especialmente quando eram relacionadas a maneiras de foder o Imposto de Renda e a Comissão de Valores Mobiliários, o que parecia ser sua missão mais importante na vida.

Com 50 e poucos anos, o Chef vinha cozinhando os livros desde o começo dos anos 1970, quando eu ainda estava na escola, ganhando experiência sob os olhos atentos de Bob Brennan, um dos maiores supercorretores de ações de todos os tempos. O apelido de Bob era Demônio de Olhos Azuis, uma referência a seus olhos de aço azuis, suas diabólicas estratégias de negociação e o sangue gelado que corria por suas veias, que os boatos diziam ser dois graus mais frios que o nitrogênio líquido.

O Demônio de Olhos Azuis foi o fundador da First Jersey Securities, que no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 tinha sido uma operação de penny stocks** com um alcance e uma escala sem precedentes. O Chef tinha sido contador do Olhos Azuis, assim como seu principal confidente. Como equipe, foram lendários, deixando um rastro de fraudes em ações. E, ao contrário da maioria dos caras que operavam nesse mercado de centavos, o Demônio de Olhos Azuis saiu com todo o dinheiro, quase um quarto de bilhão deles.

Aí residia o problema: o Demônio de Olhos Azuis tinha fugido com o dinheiro. Ele tinha enganado os reguladores a cada passo do caminho, e não havia nada que o Canalha desejasse mais que a cabeça do Olhos Azuis em uma bandeja.

Só então a voz de Monsoir me trouxe de volta ao presente.

Essa trânsito está horrível! – declarou. – Vai ser um milagre se chegarmos a Brookville. Voxê não acha, chefe?

– Monsoir – eu disse suavemente –, acontece que você é um motorista muito bom. Você nunca fica doente, nunca se perde, e, por ser muçulmano e tudo, acho que não pode beber! – balancei a cabeça em admiração. – É por isso que eu tenho três palavras amáveis para você.

– Ah, é, chefe, e quais são?

– Vai se foder!

Depois de grunhir, apertei um botão no console e assisti à cabeça do balbuciante paquistanês desaparecer atrás de uma divisória coberta de feltro. Fiquei olhando para aquele azul profundo por uns bons segundos, e então meus olhos se iluminaram com três letras douradas, um N, um J e um B, que significavam Nadine e Jordan Belfort. As letras tinham sido bordadas no feltro, em fios de ouro 18 quilates, escritas em estilo gótico. “Que palhaçada de merda!”, pensei. Que despesa inútil e imprudente. Que excesso ridículo! Tudo era tão sem sentido agora…

Minha mente foi rugindo de volta para o Demônio de Olhos Azuis e o Chef. Na verdade, eu não tinha realmente me envolvido com ele, então não podia implicá-lo em qualquer crime, pelo menos não diretamente. Com o Chef, no entanto, era uma história diferente. Nós dois tínhamos preparado mil esquemas juntos, tantos que era demais para contar. Ironicamente, eu havia decidido excluí-lo de minhas atividades suíças, com medo, na época, de que seu relacionamento com o Demônio de Olhos Azuis pudesse trazer algum problema para mim.

Infelizmente, quatro anos mais tarde – o que quer dizer, há algumas horas, o Canalha e TOC tinham concluído que essa exclusão era uma coisa difícil de engolir. Ela não fazia sentido, o Canalha tinha argumentado.

– Por que você manteve o Chef fora disso? – perguntou ele, cético. – Você incluiu seu contador em tudo o mais e o deixou fora desse esquema? Isso não bate, a menos, é claro, que você o tenha incluído e esteja apenas tentando protegê-lo!

Com isso, o Canalha tinha retirado uma pilha de registros antigos relativos a uma viagem que eu tinha feito para a Suíça no verão de 1995, e, não por coincidência, à qual o Chef tinha me acompanhado. Ainda mais incriminador foi o fato de que, depois de termos partido da Suíça, em vez de voarmos de volta para os Estados Unidos tínhamos feito uma breve parada atrás da antiga Cortina de Ferro, na Tchecoslováquia. De acordo com registros do Canalha, ficamos lá por menos de 18 horas, literalmente voando para dentro e para fora. Alguma coisa nisso não cheirava bem ao Canalha; afinal, por que razão nós faríamos isso, exceto se fosse para deixar dinheiro, abrir uma conta secreta ou preparar um esquema? Qualquer que fosse o esquema, o Canalha sabia que eu estava escondendo alguma coisa, e queria saber o que era.

Enquanto isso, eu só podia coçar a cabeça. O Canalha estava tão por fora que suas conclusões eram incompreensíveis. Bem, como não tinha nenhuma outra escolha, relatei a excursão em detalhes, começando pela Suíça e explicando que meu único propósito de ir para lá tinha sido fazer um controle de danos. Eu estava tentando descansar da mais recente série de desastres horríveis, a soma dos quais tinha me feito pousar na sala em que eu estava sentado. Esse desastre específico tinha a ver com a morte prematura da encantadora tia da Duquesa, Patricia, a qual, sem o conhecimento de minha esposa, eu tinha recrutado para ser o coração do meu esquema de lavagem de dinheiro.

Eu tinha convencido a tia favorita de minha esposa, uma professora britânica aposentada de 65 anos de idade que nunca tinha desobedecido a uma única lei em toda a sua vida, a desobedecer mais de mil delas em um único movimento, agindo como meu preposto suíço. No momento em que ela concordou, comecei escondendo milhões de dólares em contas numeradas ligadas a seu nome. Então, sem aviso, ela morreu de derrame, levando esses milhões para o limbo.

No começo, pensei que sua morte me causaria grandes problemas, o mais óbvio dos quais seria que meu dinheiro ficaria amarrado no submundo do sistema bancário suíço para toda a eternidade. Mas eu estava errado, porque os suíços eram peritos em tais assuntos. Para eles, a morte de um preposto nomeado era algo muito positivo, uma coisa para a qual se devia abrir uma garrafa de champanhe. Afinal, o melhor preposto é o preposto morto, pelo menos foi isso que disse meu curador suíço, Roland Franks1, um afável gorducho com um apetite voraz por doces e um dom espiritual para a criação de documentos falsos, que apoiariam uma noção de negação plausível. Quando perguntei a meu Mestre Falsificador o porquê daquela afirmação, ele encolheu os ombros gordos e disse:

– Porque os mortos não contam histórias, meu jovem amigo, nem tias mortas!

Ao contar toda essa sordidez aos meus captores, tinha destacado bem o fato de que o Chef e eu não estávamos sozinhos nessa viagem; tínhamos trazido companhia, sob a forma de Danny Porush, meu antigo parceiro no crime, e Andy Greene, meu leal advogado de confiança, que era mais conhecido como Cabana.

Eu tinha admitido livremente que Danny tinha sido meu parceiro naquilo tudo.

– Ele é tão culpado quanto eu – declarei ao Canalha, e depois jurei para ele que Cabana e o Chef não tinham tomado parte no esquema. Eles foram apenas pelo passeio na Tchecoslováquia, eu disse, que era nossa parada seguinte na viagem. Nenhum deles sabia que Danny e eu já tínhamos contrabandeado dinheiro para a Suíça; eles pensavam que nossa visita era apenas para verificar as coisas como futura referência.

Neste ponto, tanto TOC quanto o Canalha pareciam estar comprando toda a história, então mergulhei na etapa seguinte de nossa excursão, a Tchecoslováquia, explicando como nosso empreendimento havia considerado uma tentativa fracassada de dominar o mercado de vouchers tchecos, que o novo governo emitira recentemente aos cidadãos como meio de privatização da economia. No entanto, não consegui me abrir completamente com meus captores. Afinal, o que acabou acontecendo na Tchecoslováquia era algo tão completamente decadente que eles nunca teriam compreendido. Então, em vez disso, eu lhes passei uma versão mais tranquila, mais diluída dos acontecimentos, para que eles não me vissem como um completo desajustado social, que não era digno de receber uma carta da Promotoria. Somente então, duas horas mais tarde, eu pude saborear plenamente a loucura que tinha definido aquele trecho da viagem.

Tudo começou dentro do jato particular, que era um Gulfstream III. Como todos os Gulfstreams, este tinha uma cabine espaçosa revestida em suaves tons de bege. Os assentos eram tão grandes como tronos, e os motores gêmeos Rolls-Royce tinham sido equipados com o mais recente kit de sonorização, o que tornava a viagem muito silenciosa, de forma que tudo o que se podia ouvir era o zumbido suave dos ventiladores quando o vento passava pela fuselagem a 55 nós.

Era início da noite, e nós estávamos bem no alto, voando acima do sul da Polônia, embora eu mesmo estivesse bem mais alto que isso. Mas não tão alto quanto Danny, que estava sentado à minha frente e tinha perdido completamente o poder da fala. Ele estava na segunda metade da fase de babar, quer dizer, ele estava naquele momento num pico no qual não conseguia emitir as palavras sem que um rio de saliva escorresse pelo queixo.

– Ezz ua boa maoooaa! – exclamou, com um grosso jorro de saliva.

Nas duas últimas horas de voo, ele tinha consumido quatro Quaaludes, quase 1 litro de uísque Macallan single malt, 20 miligramas de Valium e 2 gramas de pó da Bolívia, que aspirara com auxílio de uma nota de 100 dólares enrolada como um canudo. Então, cerca de 10 segundos antes, ele tinha dado uma tragada numa espessa bagana de maconha do norte da Califórnia, o que me fez acreditar que ele tinha tentado dizer: “Essa é uma boa maconha!”.

Como sempre, eu achava incompreensível como Danny parecia um cara normal. Aquele cabelo curto e loiro, sua estatura média, dentes branquíssimos, ele exalava um cheiro maravilhosamente WASP, o tipo de cheiro que seria de se esperar de um homem que podia traçar sua genealogia até os porões do Mayflower*. Ele estava vestido informalmente naquela noite, com um par de calças de algodão bege e uma camisa polo de manga curta. Sobre seus pálidos olhos azuis, usava óculos de aro de tartaruga com aspecto bastante conservador, que o faziam parecer um cara mais refinado, mais WASP.

No entanto, apesar do jeitão waspiano, Danny Porush era um judeu de raça pura que podia traçar suas raízes até um kibutz pequeno perto de Tel Aviv. Só que, como tantos judeus antes dele, tentou ser confundido com um WASP de sangue azul, por isso aqueles óculos waspianos de lentes claras.

Ao mesmo tempo, o interior da cabine do avião parecia um armário voador de drogas apreendidas da Divisão de Narcóticos da polícia. Entre Danny e eu, sobre uma mesa desdobrável de mogno, uma bolsa Louis Vuitton transbordava com uma fabulosa mescla de perigosas drogas: 15 gramas de maconha, 60 Quaaludes farmacêuticos, algumas anfetaminas, um saco de papel cheio de cocaína, uma dezena de doses de Ecstasy, e depois o material seguro, que tinha vindo dos médicos: um frasco de Xanax, um frasco de morfina, alguns Valium, Restorils, Somas e Vicodin, e alguns Ambiens, Ativans e Klonopins, bem como metade de uma caixa de Heineken e uma garrafa quase no fim de Macallan, para engolir todas as coisas. Logo, logo, porém, todo aquele material não receitado iria embora, empurrado para dentro de nossos cus coletivamente ou enterrados bem fundo atrás de nossos sacos escrotais, enquanto negociávamos nossa passagem pela alfândega tcheca.

Meu advogado, Cabana, estava sentado à direita de Danny. Ele também estava vestido informalmente, embora, no seu caso, mantivesse sua expressão perpetuamente triste e aquela horrível peruca. Essa peruca tinha cor de lama, uma combinação pobre para sua pele pálida, e tinha a consistência de palha ressecada. Na verdade, a Cortina de Ferro já tinha caído havia quatro anos, mas ainda era uma aposta segura que sua horrível peruca iria atrair alguns olhares atentos dos tchecos.

Seja como for, Cabana também estava doidão, embora, como nosso advogado, tivesse se mantido em um padrão mais elevado. Ele entendeu que não podia aparecer babando até depois de terminar com os tchecos. Então, ele tinha exagerado na cocaína e pegado leve nos Ludes. Foi uma estratégia inspirada, que dava um efeito psicotrópico perfeito. Afinal, tomar um Quaalude era como beber três garrafas de álcool com o estômago vazio, enquanto cheirar cocaína era como consumir 8 mil xícaras de café por via intravenosa. O primeiro deixava você sonolento e desleixado, enquanto a segunda o deixava alto e paranoico. Uma vez que eram nossos negócios que estavam em questão, era mais eficaz você ficar alto e paranoico que sonolento e desleixado. Mas, infelizmente, Cabana tinha sem querer iniciado uma paranoia induzida pela coca.

– Caralho! – murmurou Cabana. – Essa cabine está cheirando a erva! Você não pode colocar essa merda de lado, Danny? Quer dizer… Nós vamos… Vamos… Nós vamos… – fala logo essa merda, Cabana – … acabar numa cadeia tcheca, pelo amor de Deus! – ele fez uma pausa, limpando as gotas de suor que se formaram em sua testa pálida e paranoica. Ele tinha até uma boa aparência, de uma forma masculina, por assim dizer. Tinha estatura média, com estrutura delgada, embora tivesse um pouco de barriga.

– Eu vou ser deportado – resmungava. – Eu sei disso, ahhhhh!

Era um gemido paranoico, por causa das drogas, e assim que ele terminou de gemer segurou a peruca nas mãos e balançou a cabeça em formato de ovo, em desespero.

O Chef estava sentado à minha esquerda, e ele era firme como uma rocha. Na verdade, ele nunca tinha tomado qualquer espécie de droga em toda a vida, sendo um daqueles raros homens que podiam se ver cercados de viciados recorrentes em drogas e ficar totalmente bem com isso. O Chef era um homem bonito e vistoso, como uma versão reduzida de Mr. Clean*. Ele era completamente careca, com uma testa proeminente, uma mandíbula bem quadrada, olhos castanhos penetrantes, nariz aquilino e um sorriso contagioso.

O Chef nascera e crescera em Nova Jersey, mas podia deixar seu sotaque forte na hora que quisesse e quando a situação assim o exigisse, como ele fazia agora:

Qualé, qualé? – dizia ele para Cabana. – tem que se recompor, Andy! Se preocupado com o cheiro, liga os ventiladores de cima, cara! A pressão muito baixa lá fora e isso vai limpar o mau cheiro num segundo!

De fato. O Chef estava absolutamente certo.

– Você deve ouvir o que o Chef diz – falei para Cabana. – Ele tem uma estranha capacidade de raciocínio nessas situações – estendi a mão esquerda e coloquei-a no ombro de Cabana, oferecendo-lhe um sorriso preocupado. – E, cá entre nós, eu recomendo fortemente que você tome um par de Xanax. Você precisa se equilibrar um pouco.

Ele olhou para mim.

– Você parece que foi atropelado por um trem – comentei. – Confie em mim, dois Xanax é exatamente o que o médico me receitou – virei-me para o Chef. – Não é verdade, Chef?

– De fato – o Chef concordou.

Cabana assentiu nervosamente.

– Acho que vou fazer isso – respondeu ele –, mas preciso fazer uma faxina em primeiro lugar.

Ele se levantou da cadeira e começou a caminhar pela cabine, abrindo as saídas de ar. Olhei para Danny, que ainda estava fumando um baseado.

– Apesar de nosso advogado ser um drogado – eu disse –, ele tem um argumento válido. Por que você não se livra disso apenas por segurança?

Danny ergueu aquele baseado de meia polegada e inclinou a cabeça para o lado, como se a inspecioná-lo. Ele virou os cantos de sua boca para baixo, encolheu os ombros e então atirou o cigarro para dentro de sua boca e o engoliu.

– Engolir um desses te deixa fodido! – gaguejou com orgulho.

Só então Cabana sentou-se, o queixo ainda fazendo uma versão latina de um viciado em coca.

– Tome – disse eu, pegando o frasco adequado da bolsa LV. Desenrosquei a tampa e derramei alguns comprimidos. – A dosagem correta é de dois azuis – fiz uma pausa, pensando por um momento, – embora a esta altitude não haja maneira de ter certeza. O corpo pode ser mais suscetível aqui no alto.

Dei de ombros.

Cabana assentiu nervosamente, ainda preso à fase da preocupação. Se eu o cutucasse com a história de como ele tinha perdido o cabelo enquanto ainda estava no colegial e depois de que fora pego trapaceando no vestibular, haveria uma chance maior que 50% de que ele correria loucamente até a saída de emergência e saltaria do avião. Mas tive pena dele e não disse nada.

Virei-me para o Chef e sorri respeitosamente.

– Voltando aos negócios – disse, em voz baixa –, não fiquei muito impressionado com as pessoas que conheci na Suíça, então não pretendo ir em frente com eles, não me pareceram muito confiáveis.

Dei de ombros novamente. Isso foi uma mentira, claro, e, por mais que odiasse mentir para o Chef, eu tinha minhas razões.

Nos Estados Unidos, um obcecado agente do FBI chamado Gregory Coleman estava desesperado atrás de mim, e eu precisava criar pistas falsas para ele seguir e, assim, desviar sua atenção para longe de minhas reais contas suíças. Eu teria o Chef me ajudando com esse fim, ou seja, abrir uma conta na Suíça em que eu nunca realmente teria fundos nem utilizaria, mas cuja existência eu iria vazar para o agente Coleman. E quando Coleman pedisse ao governo suíço para abrir minha conta, eu lutaria com unhas e dentes contra isso, como se realmente tivesse algo a esconder. Isso iria mantê-lo ocupado por uns bons dois anos, pensei, talvez ainda mais que isso. E quando ele finalmente conseguisse seu intento e abrisse a conta, iria descobrir que eu nunca realmente a tinha coberto de fundos.

Em essência, a piada estouraria em Coleman, e meus negócios verdadeiros continuariam imperturbáveis. Com isso em mente, eu disse para o Chef:

– Então vamos fazer as coisas que você falou antes. O que eu tenho que fazer para que as coisas comecem a andar?

– Você não tem que fazer nada – respondeu o Chef de Jersey, utilizando uma dupla negativa para reforçar o pouco que eu tinha que fazer. – Eu já tenho a coisa toda configurada para você, os administradores, os mandatários, e eu posso ser um conselheiro para o fundo. Isso vai manter outra zona de proteção entre você e o dinheiro. E que Deus permita que os caras fiquem fuçando ao redor, então renuncio ao cargo de conselheiro e o dinheiro desaparece em Liechtenstein e, você sabe… Schhhwiitttt! – ele espalmou as mãos e bateu-as, esticando o braço direito em direção ao sul da Romênia – estamos prontos para seguir em frente.

Sorri para o Chef e concordei calorosamente. Ele era um homem de muitos talentos, embora sua mais notável habilidade fosse a capacidade de usar uma intrincada combinação de gestos e sons para reforçar seu ponto de vista. Meu favorito era Schhhwiitttt, que ele fazia ao enrolar a língua em um C reverso e, em seguida, forçando uma rajada de ar para fora. E, enquanto fazia o som, ele batia as mãos espalmadas, jogando o braço direito para longe. O Chef utilizava esse som quando pretendia amarrar as pontas soltas de uma história, como se estivesse sugerindo algo do tipo: “É, e com o último documento falso que criamos, você sabe… Schhhwiitttt!… não há como os federais serem capazes de entender coisa alguma!”.

Olhando para trás e refletindo sobre esse tipo de coisa, sentado no Gulfstream, eu sabia que tinha cometido um erro colossal em não usar uma das muitas fabulosas receitas do Chef para saciar o apetite dos bancos suíços. Mas seu relacionamento com o velho Demônio de Olhos Azuis tinha me assustado. Era do conhecimento geral que eles estavam fazendo negócios na Suíça, e, por mais quente que eu estivesse no momento, o Demônio era ainda mais quente que eu, e eles ainda não tinham sido capazes de pegá-lo! Isso poderia ser um augúrio para minha situação? Bem possível, imaginei. Como o velho Olhos Azuis, eu era um homem cuidadoso, sempre percorrendo grandes distâncias para cobrir minhas pegadas.

Eu me agarrei a esse pensamento feliz quando peguei minha maleta de remédios e abri o frasco de Valium, engolindo três pílulas azuis. Era uma dose para leão, eu sabia, mas, dada a quantidade de cocaína que tinha cheirado, era do que eu precisava para chegar em segurança à Tchecoslováquia.



EM VEZ DE PASSAR pelo terminal principal do aeroporto Ruzyne, em Praga, o Gulfstream foi direcionado para um pequeno terminal privado, que, até pouco tempo antes, havia sido reservado para os dignitários comunistas. Isso me serviu muito bem, dado meu estado de intoxicação, mas quando eles nos levaram para uma sala que parecia o interior de um santuário do Kremlin, algo me incomodou, algo que eu não conseguia definir. Danny estava parado a meu lado, parecendo perturbado.

– Você está sentindo o cheiro de alguma coisa? – perguntei, esfregando o nariz.

Danny franziu o próprio nariz e deu duas fungadas profundas.

– Sim – respondeu ele. – Que porra é essa? Tem cheiro de… Eu não sei, mas não gosto – e deu mais duas fungadas.

Eu me virei para Cabana.

– E você, está sentindo o cheiro de alguma coisa? – sussurrei.

Cabana correu os olhos ao redor da sala como se fosse um animal selvagem.

– É gás venenoso – disse ele nervosamente. – Eu… Eu tenho que pegar meu passaporte de volta. Eu… Por favor… Eu vou perdê-lo! – ele colocou o dedo indicador na boca e começou a morder a unha.

As preocupações, pensei.

Inclinei-me para o Chef.

– Sentiu o cheiro de alguma coisa, Chef?

Ele acenou com a cabeça.

– Sim, cheiro de sovaco, cheiro de catinga! – declarou. – Esses porras desses comunistas de merda não usam desodorante! – ele coçou o queixo, e ficou algum tempo refletindo. – Ou talvez eles não consigam encontrá-los nas lojas. Você ficaria surpreso como os comunistas renunciam aos mais normais dos prazeres.

Foi então que um tcheco de meia-idade, fedido, usando um uniforme azul e cinza da polícia, caminhou até nós. Ele nos olhou com desconfiança por um momento; em seguida, apontou para uma série de poltronas de couro, de encosto alto, que tinham sido colocadas ao redor de uma enorme mesa de mogno. Nada mau, pensei. Sentamos, e um garçom uniformizado apareceu do nada, carregando uma bandeja de aperitivos que colocou diante de nós sem dizer uma só palavra.

Eu olhei para o garçom, que estava suando.

– Desculpe-me – disse eu, humildemente. – Por que é tão quente aqui?

Ele lançou-me o olhar de uma pessoa desinteressada e lobotomizada e depois foi embora sem dizer uma palavra. Quando cheguei mais perto para pegar meu copo, Cabana advertiu:

– Não beba o vinho! – começou a dizer, olhando em volta, nervosamente. – É isso que eles querem – ele olhou para mim de volta, com olhos selvagens. – Você entendeu?

O Chef se inclinou.

– Eu acho que o cara não fala inglês – sussurrou em meu ouvido –, mas quando eu estava saindo do avião o capitão me disse que eles estão tendo a pior onda de calor em cem anos. Acho que hoje foi o dia mais quente na história do país.



DENTRO DO TÁXI, eu respirei pela boca.

– Argh, você já sentiu um cheiro tão ruim assim? – perguntei a Danny.

Danny balançou a cabeça gravemente.

– Nunca. O cara precisa ser mergulhado em ácido sulfúrico.

O Chef concordou com a cabeça, em seguida acrescentou suas pitadas de sabedoria:

– Não se preocupem – disse ele, confiante. – Nós vamos ficar no melhor hotel do país. Tenho certeza de que vai ter ar-condicionado lá. Vocês podem contar com isso.

Dei de ombros, não acreditando muito nele.

– Praga é a maior cidade da Tchecoslováquia? – perguntei ao motorista malcheiroso.

Sem aviso, o motorista do táxi cuspiu um catarro gigante em seu próprio painel.

– Os eslavos são cães – rosnou ele. – Eles não fazem mais parte do país. Estamos na República Tcheca: a Joia do Leste Europeu! – e girou o pescoço para um lado e para o outro, como se estivesse tentando recuperar a compostura.

Eu assenti nervosamente com a cabeça e olhei para fora, tentando absorver um pouco da beleza da Joia do Leste, mas não havia iluminação pública e eu não conseguia enxergar nada. No entanto, ainda estava esperançoso; afinal, depois de tudo, nosso destino era o fabuloso Hotel Ambassador, o único hotel quatro estrelas em Praga. E graças a Deus! Aquela parte da nossa viagem parecia estar amaldiçoada. Um pouco de mimo seria exatamente o que o médico receitaria!



INFELIZMENTE, o Chef não sabia que o Hotel Ambassador tinha acabado de ser classificado como um dos piores hotéis quatro estrelas da Europa. Coisa que descobri no momento em que pisei no lobby do hotel, que estava a uns 100 graus e com uma umidade de 1.000%. Na verdade, era tão sufocante que eu quase desmaiei.

O espaço do lobby era vasto e sombrio, como um abrigo antibombas da época da Guerra Fria. Havia apenas três sofás, que tinham uma perturbadora cor de bosta de cachorro.

Na recepção, sorri para a garota tcheca que fazia o check-in, uma pálida jovem loira com ombros largos, enormes seios tchecos, blusa branca e um crachá onde se lia Lara2.

– Por que não há ar-condicionado? – perguntei à adorável Lara.

Lara sorriu tristemente, expondo alguns dentes tchecos tortos.

– Nós estamos com problemas no ar-condicionado – respondeu, em um inglês com forte sotaque. – Não está funcionando agora…

Com o canto do olho eu vi Danny desabar, mas depois o Chef ofereceu mais palavras de sabedoria.

– Nós vamos ficar bem aqui – disse ele, balançando a cabeça uma única vez. – Eu já vi coisa muito, muito pior.

Eu recuei, descrente.

– É mesmo, Chef? Onde?

Ele sorriu conscientemente.

– Você esquece que eu sou de Nova Jersey.

Tal lógica é brilhante, pensei. O Chef foi um verdadeiro guerreiro!

Encorajado por suas palavras, lancei meu cartão AmEx, sorri para Lara e disse a mim mesmo: Isso não pode ser tão ruim… Quando se está tão cansado e pós-Lude como eu estou, a tendência é só desmaiar de exaustão”.



DUAS HORAS DEPOIS, eu estava deitado na cama, olhando para o teto, totalmente pelado e pensando em suicídio. Meu quarto no hotel devia ser mais quente que a sala da caldeira do Titanic. As janelas tinham sido aparafusadas e não se podia abri-las, e o aquecedor estava ligado. O motivo, ninguém no hotel parecia saber. No entanto, era calor que vinha do aquecedor, nada estava vindo pelo ar-condicionado, e eu teria pago 1 milhão de dólares para alguém soltar um enxame de abelhas que ficassem pairando sobre mim e agitando suas minúsculas asinhas.

Era pouco mais de 2 da manhã, cerca de 8 horas da noite no horário de Nova York. Eu precisava desesperadamente falar com a Duquesa. Eu precisava ouvir algumas palavras gentis da parte dela, ouvi-la dizer que me amava e que tudo ficaria bem. Ela sempre conseguia me fazer sentir melhor, mesmo nos momentos mais complicados. Tentei ligar para ela meia dúzia de vezes e continuei recebendo a mesma porra de gravação do caralho, dizendo que as linhas para o exterior estavam ocupadas.

E então o telefone tocou. Ahhh, a deliciosa Duquesa! Ela sempre sabe! Peguei o telefone. Droga, era Danny.

– Eu não consigo dormir – rosnou. – Precisamos engolir uns Ludes e ir caçar umas putas, não há outro jeito.

Sentei-me na cama.

– Você está brincando! Alguém vem buscar a gente daqui umas poucas horas, Dan! Isso é loucura – respondi, e passei alguns momentos pensando naquilo, chegando à conclusão de que o plano dele era, de fato, insano. – E, seja como for, como vamos encontrar putas a essa hora da noite? É muito complicado.

– Já arranjei tudo com a Lara – respondeu ele, orgulhoso. – Há um lugar que fica a menos de dez minutos daqui, na periferia de Praga. Lara me garantiu que lá vamos encontrar as melhores putas fedidas do país. – Ele fez uma breve pausa. – De qualquer forma, temos de fazer isso, JB. Seria um carma muito ruim deixar as coisas seguirem seu curso atual. Precisamos tomar medidas drásticas. Temo por você, se não consegue ver isso.

– De jeito nenhum – respondi. – Dessa vez eu passo. Se quiser, vá sozinho.

De alguma forma, e ainda não tenho certeza de como, uma hora mais tarde eu tinha engolido três Ludes e tinha uma enorme prostituta tcheca em cima de mim, com cabelos loiros descoloridos e o rosto de um cão pastor, cavalgando como um cavalo de corridas. Quase nenhuma palavra foi trocada, apenas 200 dólares e algo que soava como “Ooo-brrri-gaduuu!” logo depois que eu meti naquela enorme boceta tcheca. Que seja. Boceta era boceta, pensei, e apesar de ela ser grande o suficiente para estacionar um táxi tcheco lá dentro, eu ainda sentia que era meu dever patriótico depositar dentro dela minha carga vermelha, branca e azul, e, se não fosse por qualquer outro motivo, apenas para lembrá-la quem tinha vencido a Guerra Fria.

Uma hora depois eu estava de volta a meu quarto de hotel, suando de novo, planejando minha própria morte e sentindo muita saudade da Duquesa. Mas, acima de todas as coisas, eu estava me perguntando por que tinha acabado de fazer aquilo. Eu amava a Duquesa mais que qualquer coisa, mas não conseguia me controlar. Eu era fraco e estava decadente. O lobo selvagem vivia escondido dentro de mim, logo abaixo da superfície, pronto para se levantar diante da menor provocação e mostrar suas presas viciadas. Eu não tinha a menor ideia de como aquilo iria acabar, mas a fofoca em Wall Street era a de que eu estaria morto dentro de poucos anos. Que seja. Eu já estava morto em mais de uma maneira…

Às 4 da manhã, desabei e ataquei a bolsa Luis Vuitton novamente. Então, 30 minutos mais tarde, eu estava dormindo, com Xanax borbulhando em meu sistema nervoso em quantidade suficiente para derrubar metade de Praga.



ÀS 7H30 DA MANHÃ, apenas três horas mais tarde, o telefone tocou. Era a recepção ligando para me acordar.

Eu pisquei, em seguida vomitei, e então levantei da cama para tomar um banho gelado de chuveiro. Depois, cheirei meio grama de cocaína, engoli um Xanax, para sufocar qualquer paranoia futura, e desci as escadas para o lobby. Senti uma pontada de culpa por estar cocainado na minha primeira reunião de negócios naquele simpático país, mas, depois da escapada da noite anterior para a fossa decadente do bairro da luz vermelha de Praga, não havia outra maneira de começar meu dia.

No térreo, no lobby, Marty Sumichrest, Jr., de 30 anos, nos cumprimentou calorosamente. Ele era alto, magro, de rosto pálido e usava óculos de aros de aço com lentes muito grossas. Ele vivia em algum lugar perto de Washington, DC, mas estava em Praga porque esperava levantar 10 milhões de dólares para sua empresa, a Czech Industries. Àquela altura, a empresa não era nada mais que uma casca vazia e inútil, mas ele nos garantiu que poderia usar o status de seu pai de “herói de guerra” do país para se insinuar nos mais altos escalões da estrutura de poder tcheca.

Nós trocamos as gentilezas da manhã e, em seguida, nos amontoamos em uma limusine horrenda chamada Skoda. Ela era negra, quadradona, toda batida e, é claro, não tinha ar-condicionado. O fedor de odor corporal era tão poderoso que poderia ter incapacitado um pelotão inteiro de fuzileiros navais. Eu olhei para o relógio: ainda eram 8h15 da manhã… Apenas 5 minutos tinham se passado, mas parecia uma hora. Olhei em volta dentro do carro e todos estavam a meio mastro: Danny estava branco como um fantasma; os lábios do Chef estavam retorcidos subversivamente; a peruca de Cabana parecia um animal morto.

Sentado no banco da frente, Marty se virou para nós.

– Praga é uma das únicas cidades da Europa que não foi destruída pelos nazistas – disse ele, orgulhoso. – A maior parte da arquitetura original ainda permanece – ele levantou a palma da mão em direção à janela, fez um gesto de arco da esquerda para a direita, como a dizer: “Eis aqui a maravilha e a beleza!” e então continuou: – Muitos a consideram a mais bela cidade da Europa, a Paris do Leste Europeu, por assim dizer. Praga tem sido o lar de muitos artistas, e de muitos poetas também. Eles vêm aqui para se inspirar, para se…

Santo Deus! Eu estava entediado até a morte, suando até a morte e cheirava a morte, tudo ao mesmo tempo! Como poderia ser? Eu senti desesperadamente muitas saudades de casa, de repente, como um menino que fora obrigado a ir para um acampamento e estava louco para voltar para casa.

– …E os tchecos têm sido sempre empreendedores. Foram os eslavos que deram má reputação a este país – Marty balançou a cabeça em desgosto. – Eles são idiotas, bêbados e preguiçosos com QI um pouco acima do nível de um idiota. Eles foram empurrados para nós pela União Soviética, mas agora estão de volta ao que pertencem: à Eslováquia. Escreva o que eu digo. Daqui a dez anos eles vão ter o menor PIB da Europa Oriental e nós teremos o maior – ele acenou com a cabeça orgulhosamente. – Pode escrever!

– Muito interessante – eu disse casualmente –, mas, se os tchecos são tão inteligentes assim, como é que eles ainda não descobriram o desodorante?

– O que você quer dizer? – perguntou Marty, estreitando os olhos.

– Não importa – respondi. – Eu estava apenas fazendo uma piada, Marty. O cheiro aqui é igual a lavanda…

Ele acenou com a cabeça, parecendo entender.

– Bem – acrescentou –, a primeira empresa que vamos visitar nesta manhã é a Motokov. Eles detêm os direitos de distribuição exclusivos da Skoda – e bateu com a mão no seu encosto de cabeça duas vezes – para que eles possam inundar o mundo com estes meninos maus!

– Hmmm – murmurou o Chef. – Eu aposto que as pessoas em toda a Europa Ocidental vão fazer filas enormes para comprar um Skoda. Na verdade, é melhor que o pessoal da Mercedes fique bem atento, senão logo vão estar mergulhados até os joelhos nas dívidas.

O filho do herói de guerra concordou com a cabeça.

– Como eu disse, a República Tcheca é cheia de oportunidades. Motokov é apenas um exemplo disso.



A SEDE CORPORATIVA da Motokov era um edifício de escritórios cinza, feito de concreto, que se erguia 23 andares acima das ruas de Praga. Infelizmente, a empresa precisava de apenas dois andares para suas operações. Mas os comunistas tinham acreditado fortemente na crença de que “quanto maior, melhor”, enxergando conceitos do tipo lucros e perdas como pequenas trivialidades, ou pelo menos como de importância secundária em relação à criação de empregos inúteis e mal remunerados para aplacar a força de trabalho bêbada da antiga Tchecoslováquia.

Pegamos um elevador revestido com painéis de linóleo até o 20º andar e caminhamos por um corredor longo e silencioso que parecia ter pouco oxigênio. Eu estava prestes a desmaiar quando chegamos a uma grande sala de reuniões, onde nos foram oferecidos assentos ao redor de uma enorme mesa feita de madeira barata e que era grande o suficiente para umas 30 pessoas. Mas apenas três representantes da Motokov estavam na sala; por isso, depois de termos tomado os assentos, ficamos tão distantes uns dos outros que era preciso quase gritar para ser ouvido do outro lado. Ah, esses comunistas, pensei.

Eu estava sentado em uma ponta da mesa, de frente para uma parede de vidro laminado que dava para a cidade de Praga. Àquela hora da manhã, naquele momento do mês de junho, o sol estava brilhando diretamente através da placa de vidro, aquecendo o ambiente com a temperatura do planeta Mercúrio. No chão havia três gerânios em vasos brancos de plástico. Eles estavam mortos.

Depois de alguns momentos dedicados às amenidades de apresentação, o presidente da Motokov tomou o centro do palco e começou a falar em inglês com forte sotaque. A empresa tinha sofrido muito devido à ruptura com a União Soviética, explicou. As leis antimonopólio tinham sido aprovadas, basicamente lançando-os para fora do negócio. Ele parecia ser um sujeito inteligente, um sujeito completamente afável, de fato, mas logo comecei a notar algo muito estranho nele. No início eu não conseguia perceber exatamente do que se tratava, mas então fui atingido pela constatação: ele era um pisca-pisca. Sim, ele era um pisca-pisca de qualidade internacional! A cada palavra que escapava de seus lábios, ele piscava os olhos, às vezes mais de uma vez.

– Então você vê – explicou o Pisca-pisca, com três rápidas piscadas –, sob as novas leis, os monopólios não são mais permitidos, o que nos coloca – pisca, pisca –, nós, da Motokov, em uma posição – pisca, pisca, pisca – difícil – pisca. – De certa forma, temos sido empurrados para muito perto da falência – pisca, pisca, pisca, pisca, pisca, pisca, pisca…

Aquilo parecia uma bela oportunidade, pensei, especialmente se seu objetivo é jogar dinheiro fora em um vaso sanitário tcheco!

Ainda assim, fiz o papel do convidado interessado e balancei a cabeça de modo solidário, ao que o Pisca-pisca piscou.

– Sim, nós estamos à beira da falência – continuou o Pisca-pisca. – Nós temos a sobrecarga da estrutura – pisca, pisca – de uma empresa de bilhões de dólares, mas que já não tem mais a autorização das vendas.

O Pisca-pisca soltou um suspiro profundo. Ele parecia estar na casa dos 40 anos e tinha a pele muito branca. Usava um tipo de camisa xadrez de manga curta e uma gravata de lã azul que o deixavam parecido com um contador de nível médio em um matadouro em Omaha.

Ele então enfiou a mão no bolso da calça, tirou um maço de cigarros e acendeu um. Aparentemente, seus dois subordinados entenderam isso como um sinal para acender seus cigarros também, e antes que eu percebesse a sala estava envolta em uma nuvem ameaçadora de fumaça de tabaco tcheco barato. Com o canto do olho, vislumbrei Danny, cujo cotovelo direito estava apoiado na mesa de reuniões, com o queixo embalando a mão. E ele estava dormindo. Dormindo? Dormindo!

Através da fumaça exalada, o Pisca-pisca prosseguiu:

– É por isso que agora estamos focando nossa atenção em franquias do Kentucky Fried Chicken – disse ele, e eu pensei “Que porra é essa? Kentucky Fried Chicken? Mas do quê…” –, rede que planejamos implantar – pisca, pisca – de forma muito agressiva durante os próximos cinco anos.

O Pisca-pisca assentiu de acordo com seus próprios pensamentos e piscou mais um pouco.

– Sim – continuou, dessa vez com uma rápida piscada dupla. – Vamos concentrar nossos esforços em frango frito e purê de batatas, com a marca Kentucky Fried, é claro, que é delicioso se…

BONC! E a cabeça de Danny foi direto para a mesa de reuniões.

Houve um silêncio absoluto quando todo mundo, incluindo o Pisca-pisca, olhou espantado para Danny. A face direita dele estava pressionada contra a mesa de reuniões e um pequeno rio de baba abria caminho lentamente pelo seu queixo. Então ele começou a emitir um daqueles roncos guturais de drogas que chegam lá do fundo do estômago.

– Não ligue para ele – eu disse para o Pisca-pisca. – Ele só está sofrendo de jet-lag da viagem. Por favor, continue. Estou intrigado com os planos da Motokov para capitalizar o mercado de frango frito mal atendido – dei de ombros. – Eu não estava ciente de que os tchecos gostavam de frango frito.

– Ah, sim – piscou o Pisca-pisca –, é um de nossos alimentos de primeira necessidade.

E então ele começou a piscar novamente, Danny se manteve roncando, o Chef continuou revirando os olhos e a peruca de Cabana foi lentamente se transformando em cola, e cada um de nós, incluindo o próprio Pisca-pisca, estava suando até a morte.



O RESTANTE DO DIA não foi melhor: um monte de tchecos fedorentos, escritórios fervendo, salas cheias de fumaça e Danny babando. O filho do herói de guerra nos arrastou de empresa a empresa, cada qual em situação semelhante à da Motokov. Sem exceção, todas sofriam de sobrecarga de uma estrutura inchada, equipes de gestão inexperientes e uma compreensão limitada dos princípios básicos do capitalismo. O que me espantou, no entanto, foi a enorme esperança compartilhada por todas as pessoas que conhecemos. Todos eles continuavam sempre relembrando que Praga era a “Paris do Leste” e que a República Tcheca fazia realmente parte da Europa Ocidental. A Eslováquia não tinha nada a ver com eles, todos asseguravam. Na verdade, aquelas terras eram habitadas por um bando de macacos retardados.

Eram 6 horas da tarde e nós quatro estávamos sentados no saguão do hotel, nos sofás de tecido marrom cor de bosta de cachorro, necessitando desesperadamente de pílulas de sal. Eu disse para o grupo:

– Não sei quanto mais posso suportar, não há dinheiro que pague esse abuso!

Danny pareceu concordar comigo.

– Por favor! – pediu, esfregando um galo do tamanho de uma bola de golfe que tinha se formado em sua têmpora direita. – Vamos dar o fora dessa merda e ir para a Escócia! – e mordeu o lábio inferior, como se estivesse à beira de um colapso. – Eu estou dizendo a você, a Escócia é linda! É a terra do leite e do mel! – ele acenou com a cabeça ansiosamente. – Aposto que lá deve estar abaixo de zero, sem uma gota de umidade… Podemos jogar golfe durante todo o dia… Fumar charutos… Beber conhaque… E aposto que ainda podemos encontrar jovens prostitutas escocesas que cheiram a sabonete! – disse, jogando as mãos para o ar. – Estou implorando, JB, jogue a toalha agora, por favor, simplesmente jogue a toalha.

– Como seu advogado – acrescentou Cabana –, eu recomendo fortemente que você siga o conselho de Danny. Acho que você deve chamar Janet agora e mandar que ela verifique se o avião está abastecido. Nunca me senti tão péssimo na vida.

Eu olhei para o Chef. Aparentemente, ele não estava pronto para jogar a toalha, ele ainda tinha dúvidas.

– Dá para acreditar naquele filho da puta da Motokov falando e falando sobre Kentucky Fried Chicken? O que há de tão bom no Kentucky Fried Chicken? – ele sacudiu a cabeça, como se ainda estivesse confuso. – Eu pensei que eles comessem principalmente porco nesta parte do mundo.

Eu dei de ombros.

– Eu não tenho certeza – respondi –, mas você conseguiu contar quantas vezes aquele filho da puta piscou? Foi incrível! – balancei a cabeça em reverência. – Ele era como uma máquina de somar humana. Eu nunca tinha visto nada parecido.

– Sim, bem, eu perdi a conta quando chegou a mil – disse o Chef. – Ele deve ter algum tipo de doença, provavelmente que seja peculiar aos tchecos – e encolheu os ombros também. – De qualquer forma, como seu contador, eu tenho que concordar com Cabana: recomendo fortemente que você evite fazer qualquer tipo de investimento neste país até que eles comecem a usar desodorante – o Chef encolheu os ombros novamente. – Mas isso é apenas minha opinião…

Trinta minutos mais tarde, estávamos a caminho do aeroporto. O fato de que 20 tchecos estavam nos esperando para um tradicional jantar tcheco de cinco horas de duração foi meramente incidental. Às 6 horas da manhã seguinte, todos nós estaríamos na terra do leite e do mel, e eu nunca mais veria aqueles tchecos fedorentos de novo. A Escócia era linda, mas sua beleza se perdeu em mim.

Eu tinha passado muito tempo longe da Duquesa. Eu precisava ver aquela mulher, literalmente senti-la em meus braços, precisava fazer amor com ela. Chandler, claro, também estava esperando por mim. Ela estava com quase 1 ano de idade, e quem poderia adivinhar quais as surpreendentes façanhas intelectuais que ela realizara na semana em que eu estivera longe? Sem falar no fato de que os Ludes estavam acabando, o que significava que iríamos começar a usar narcóticos. E então as náuseas e os vômitos iriam se instalar, bem como a intensa prisão de ventre. E não há nada pior que ficar preso em um país estrangeiro com a cabeça debruçada sobre um vaso sanitário, enquanto o cólon descendente está congelado como uma geleira.

Foi por todas essas razões que quase desmaiei nos braços da Duquesa quando entrei pela porta da nossa casa em Westhampton Beach naquela manhã de sexta-feira. Foi um pouco depois das 10, e tudo o que eu queria era ir lá para cima, segurar Chandler por um momento, e então me esgueirar para o quarto e fazer amor com a Duquesa. Então eu iria dormir por um mês.

Mas eu nunca tive essa chance. Eu estava em casa há menos de 30 segundos quando o telefone tocou. Era Gary Deluca, um de meus funcionários, que ostentava uma estranha semelhança com Grover Cleveland, o presidente morto com a barba espessa e expressão perpetuamente sombria.

– Desculpe incomodá-lo – disse Grover severamente –, mas achei que você gostaria de saber que Gary Kaminsky foi indiciado ontem. Ele está na prisão, detido sem fiança.

– Sério? – respondi com naturalidade. Eu estava num estado de extremo cansaço, a ponto de você não entender imediatamente as consequências daquilo que está ouvindo. Então, o fato de que Gary Kaminsky tinha íntimo conhecimento de todos os meus negócios suíços não estava me incomodando, pelo menos ainda não. – Ele está sendo acusado de quê? – perguntei.

– Lavagem de dinheiro. Será que o nome de Jean Jacques Saurel3 lhe diz alguma coisa?

Aquilo me pegou! Acordou-me bem na hora! Saurel era meu banqueiro suíço, o único homem que poderia me ferrar com o agente Coleman.

– Na verdade, não – disse timidamente, tensionando minha bunda. – Talvez eu o tenha encontrado uma vez, não sei… Eu não tenho certeza, por quê?

– Porque ele foi indiciado também – disse Grover. – Ele está na cadeia com Kaminsky neste exato momento.



PARA MINHA SURPRESA, TOC ainda levou mais de três anos para conseguir uma acusação contra mim, apesar de Saruel ter começado a cooperar quase imediatamente. E, embora parte do atraso tivesse a ver com a lealdade de meus strattonitas, muito estava ligado ao fato de que eu havia recrutado o Chef para me ajudar a inventar uma história que me acobertasse. Na verdade, enquanto meu castelo de cartas estava desabando à minha volta, o Chef foi preparar uma de suas lendárias receitas. E essa receita em particular foi tão saborosa e tão deliciosa que manteve TOC coçando a cabeça por mais de três anos completos.

E agora o Chef era um homem procurado. Ele tinha um alvo dos federais plantado nas costas, e não apenas porque ele tinha me ajudado e instigado, ao ajudar a cobrir minha derrocada na lavagem de dinheiro, mas também por causa de seu relacionamento com o Demônio de Olhos Azuis. A gente aperta o Gaito, raciocinou o Canalha, e ele vai entregar o Brennan, que era o verdadeiro alvo.

Na verdade, eu não tinha tanta certeza disso. O Chef era alguém ferozmente leal ao Demônio, tinha vendido a alma a ele, por assim dizer, e era o tipo de cozinheiro endurecido em batalhas, que poderia suportar o calor na cozinha, preferindo, de fato, inventar suas receitas ao lado das chamas. O Chef não apenas amava a ação, ele vivia para a ação, e, depois de todos esses anos de trabalho com o Demônio, tinha se tornado completamente insensível. Coisas como medo, insegurança e autopreservação passaram a ser conceitos estranhos para o Chef. Se você fosse seu amigo, ele se ergueria ao seu lado; se estivesse em apuros, ele iria para a guerra por você; e se estivesse de fato encurralado de costas para a parede, e se a escolha fosse entre você e ele, ele cairia sobre a espada por você.

Talvez tenha sido esse o motivo, naquela mesma tarde, de o Chef ter desafiado a sabedoria convencional e atendido meu telefonema. Afinal, a primeira regra de ouro no meu mundo, ou seja, o mundo dos ladrões, vigaristas e canalhas, era: quando alguém fosse indiciado pelo FBI, você perderia seu número de telefone para sempre. Era como se tornar um leproso, e se um leproso realmente toca você ou não, isso realmente não importa. Basta chegar perto e ele infecta você do mesmo jeito.

Então, o dia seguinte seria o dia D, o plano simples e diabólico do FBI: o Chef viria até minha casa e eu estaria recheado de escutas. Depois de alguns minutos de conversa, eu casualmente traria o passado à baila e faria o Chef se incriminar. Por mais triste e deplorável que fosse essa atitude, que escolha eu tinha? Se eu não cooperasse, eles iriam acusar a Duquesa; se eu não cooperasse, meus filhos iriam crescer sem pai; se eu não cooperasse, correria o risco de me tornar o senhor Gower! Tudo o que eu podia esperar era que o Chef fosse inteligente o suficiente para não se incriminar, que ele dançasse, se quisesse, perto da linha, mas que fosse esperto para não cruzá-la.

Essa era minha única esperança.

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