CAPÍTULO 18
O IMPENSÁVEL
Com os ombros firmes, o queixo erguido e o branquelo do homem de Yale a meu lado, entrei na sala de reuniões (ou de interrogatório?) preparado para o pior. Imediatamente, três coisas me pareceram estranhas, a começar pelo fato de que todos os meus quatro captores tinham vindo para as festividades do dia: o Canalha, o TOC, o Mórmon e, infelizmente, a Bruxa Má do Leste, que eu não via há quase um ano. Os quatro estavam sentados de um lado da mesa, esperando que o homem de Yale e eu tomássemos nossos lugares em frente a eles.
A segunda coisa estranha era que todo mundo estava vestido formalmente, incluindo TOC, que quase nunca fazia isso. Meus captores masculinos estavam com o paletó, a gravata apertada no colarinho. Trajes de tribunal. O homem de Yale e eu também usávamos ternos, assim como a Bruxa, que ostentava um tailleur de poliéster preto que, assim como o resto de seu guarda-roupa, necessitava desesperadamente de algumas alterações.
E a terceira estranheza, a mais perturbadora de todas, foi que notei a ausência das trocas de amabilidades iniciais de abertura. O Canalha apertou minha mão molemente e não disse nada. O Mórmon apertou minha mão com firmeza e disse:
– Como é que vai, cara? – usando aquele tipo de tom sombrio que um treinador da faculdade usaria com um jogador antes de cortá-lo da equipe e revogar sua bolsa de estudos.
O TOC apertou minha mão com força, um pouco forte demais, de fato, como se fosse um general romano gentil enviando um de seus soldados para um poço de gladiador repleto de leões. E a Bruxa nem sequer apertou minha mão.
Então, nos sentamos.
– Tudo bem, vamos tratar dos casos, então – começou o Canalha, calmamente. – Michele… – e ele estendeu a mão em direção a ela, palma para cima.
A Bruxa assentiu com a cabeça e entregou-lhe uma pasta grossa de arquivos legais que estava segurando. Então, colocou suas mãos pequenas na mesa e começou a girar os polegares na velocidade da luz.
Eu senti meu coração pular uma batida.
Com muito cuidado, o Canalha depositou o arquivo na frente dele. E olhou para ele. A pasta estava fechada, mantida assim por um barbante marrom claro, que envolvia a pasta e dava voltas em um fino disco de papelão do tamanho de uma moeda de 10 centavos. O safado só se manteve olhando a pasta.
Olhei para o homem de Yale, confuso. Ele revirou os olhos e deu de ombros, como se dissesse: “É apenas teatro, não significa nada”. Eu assenti com a cabeça e olhei para o Canalha, que ainda estava olhando para o arquivo – teatralmente.
Por fim, fazendo uma imitação quase perfeita do assustador e impenetrável agente Smith, do filme Matrix, o Canalha lentamente começou a desenrolar o barbante marrom, numa velocidade incrível e em círculos perfeitos. Quando acabou, abriu lentamente a pasta com os arquivos e olhou para um documento que estava no topo da pilha.
Ainda olhando para baixo, ele disse, no tom assustador do agente Smith:
– Senhor Belfort, você já se confessou culpado de praticamente todas as fraudes de valores mobiliários para as quais temos leis – verdade, pensei. – Manipulação de ações, violações de 10B5, fraudes em vendas, fraudes com moedas… – ele lentamente olhou para cima – e, claro, lavagem de dinheiro – ele deslizou o documento para meu lado da mesa. – Você está familiarizado com este documento, senhor Belfort?
Olhei para o papel por um momento e ouvi o agente Smith dizer:
– Por que não deixa o senhor De Feis examiná-lo para você, para que não haja nenhum erro?
Ansioso para agradar, o homem de Yale inclinou-se e estudou o documento por um momento.
– É seu acordo judicial – sussurrou em meu ouvido.
Não diga, Sherlock! É o que diz bem em cima!
O homem de Yale veio em meu socorro:
– É o acordo judicial dele, Joel.
– Eu gostaria de ouvir o senhor Belfort dizer isso – rebateu o agente Smith.
– É meu acordo judicial – disse eu, monocordicamente.
O agente Smith assentiu com a cabeça e voltou os olhos para a pasta, olhando fixamente para ela por um momento. Depois de uns bons 10 segundos, ele pegou um segundo documento do topo da pilha e deslizou-o sobre a mesa para mim. Então, ergueu os olhos.
– E você sabe que documento é esse, senhor Belfort?
Estudei-o por um momento.
– É meu acordo de cooperação.
Ele balançou a cabeça.
– É isso mesmo. Na parte inferior da página, você verá uma frase realçada em amarelo. Por favor, leia em voz alta.
– O réu concorda em ser sincero e honesto em todos os momentos.
O homem de Yale parecia estar ficando sem paciência:
– Onde você quer chegar, Joel? Você está dizendo que ele não tem sido sincero e honesto?
O Canalha se recostou na cadeira e sorriu com os lábios finos.
– Talvez, Nick. – Então ele me olhou e disse: – Por que você não nos diz, Jordan? Você foi sincero e honesto?
– Claro que sim! – respondi rapidamente. – Por que eu não seria?
Olhei ao redor da sala e todos os quatro algozes me encaravam, inexpressivos.
A Bruxa começou falando:
– Você está dizendo que nunca tentou nos enganar, nem uma vez sequer…
Eu balancei a cabeça em um “não”, confiante; não havia nenhuma maneira que eles já pudessem ter descoberto sobre Atlantic City. Afinal, tinha acontecido na noite anterior… Tudo bem, duas noites atrás, pensei. Mas, seja como for, eu sempre tinha sido verdadeiro, a menos que… Dave Beall! O bilhete! Não! Não podia ser! Nem em um milhão de anos! Empurrei esse pensamento para longe de minha mente… Não tire conclusões precipitadas. Ele nunca iria me denunciar. Não levaria nenhuma vantagem com isso. E eu o tinha protegido. Salvado. Alertado. Alertado! Alertado!
– Existe alguma coisa que você queira nos contar? – perguntou TOC, cruzando os braços sobre o peito.
– Não! – respondi com segurança. Depois, não tão seguro assim. – Quer dizer, claro que não. Eu só não tinha bem certeza sobre o que vocês queriam que eu dissesse… Er… Sobre honestidade – olhei para meus captores, um por um, até que meus olhos se fixassem sobre o Canalha. – E então, sobre… Hã… Confiabilidade… – senti-me compelido a adicionar isso, embora não tivesse ideia do porquê.
Mas ele parecia sentir o cheiro de sangue.
– Deixe-me ser mais específico, então – disse ele, pacientemente. – Você nunca disse a ninguém que estava cooperando conosco?
Uma faca direta no coração! Era hora de blefar!
– Sim – disse confiante.
– Para quem?
– Meus pais, uma vez. Ou duas, pode-se dizer – sorri da minha piada. – Isso é crime?
O Canalha não sorriu.
– Não, isso não é crime – respondeu. – E para quem mais?
– Hããã… – minha boca estava ficando seca. – Contei à minha mulher, é claro – os lábios pareciam vibrar –, porque eu tinha de contar a ela. Por um monte de motivos. Para começar, ela teve de assinar o confisco – de repente, me veio uma ideia –, e pode ser, não sei, que ela tenha deixado escapar para uma de suas amigas, por acidente…
… como para Laurie Beall, se vocês pegaram minha dica, que em seguida pode ter contado a Dave Beall, e aí tudo virou esse mal-entendido gigantesco.
– Quer dizer, nunca enfatizei que ela devia manter isso em segredo. Talvez devesse… Isso é um problema?
O Canalha sacudiu a cabeça.
– Não, acho que sua esposa é inteligente o suficiente para saber o que está em jogo aqui. Para quem mais?
Mantenha a calma!
– Para George – respondi com confiança.
O Canalha olhou para TOC, que disse:
– É o padrinho dele no AA – então TOC acenou com a cabeça para a frente e para trás, como se dissesse: “George está limpo!”.
Finalmente, o homem de Yale entrou na conversa:
– Acho que a gente pode cortar essa baboseira aqui, certo, Joel? É evidente que você acha que Jordan contou a alguém que estava cooperando, então por que simplesmente você não nos diz quem é essa pessoa? Então a gente pode ir direto ao assunto.
O Canalha deu de ombros, ignorando as palavras do homem de Yale com tal indiferença que parecia que ele não estava mesmo dando-lhe crédito por ter ido para Yale. Em seguida, ele laçou-me um sorriso medonho e disse:
– Você nunca passou um bilhete para ninguém, Jordan?
Deus meu! Meus piores receios foram confirmados! Não consigo pensar. Preciso dar um tempo nesse negócio. E negar.
– Como assim, um bilhete? Se passei um bilhete para alguém, quando? Na escola…? Quando você quer dizer? Na faculdade ou…
– Desde que você começou a cooperar – disse TOC, poupando-me de meu próprio absurdo.
– Não – atirei de volta. – Ou, bem, talvez, na verdade. Quer dizer, eu tenho que pensar sobre isso, porque tem, uh, uma questão importante.
Fiz uma pausa por um momento, desesperado para fugir. Quantos agentes do FBI estavam no edifício? Muitos. Mas podia ser minha única oportunidade! O TOC poderia colocar algemas em mim a qualquer momento, naquela mesma sala. O Canalha iria estalar os dedos e apontar para meus pulsos e o TOC iria fechar as algemas tão rápido que me daria vertigem! Mas eles poderiam fazer isso sem um juiz? Talvez. Provavelmente. Definitivamente! Eu precisava falar com o homem de Yale. Mas, não, se eu pedisse privacidade, eles saberiam que eu era culpado. Má jogada. Melhor blefar. Negar! Negar! Negar.
Voltei a falar asneiras:
– Bem, teve aquela vez em Nova Jersey, quando eu estava com Gaito e Brennan, se isso é o que você quer dizer. Depois que nós jogamos uma partida de golfe, escrevi o nome de uma ação no papel dos resultados e passei a Dennis. Mas isso está na fita, pode checar.
– Isso é um desperdício de tempo – cuspiu a Bruxa. – Sabemos que está mentindo para nós. Nunca poderemos usar você como testemunha.
– O que significa dizer adeus para a carta ao juiz – acrescentou o Canalha.
A Bruxa retomou a palavra:
– De acordo com meus cálculos, você deve pegar mais de 35 anos.
Agora, o Canalha:
– Mas, se jogar limpo com a gente agora mesmo, talvez exista uma chance. Talvez – ele me olhou com o rosto sério. – Eu vou perguntar pela última vez, e só. Você alguma vez passou um bilhete para alguém?
O homem de Yale veio a meu resgate:
– Quero falar com meu cliente em particular antes de prosseguirmos – ele agarrou meu braço. – Venha, vamos lá para fora por um segundo ter uma conversa.
Minha resposta imbecil:
– Não, está tudo bem, Nick – e afastei o braço dele. – Não tenho nada a esconder. Eu não fiz nada de errado. Juro por Deus. Nunca passei para ninguém nenhum bilhete e posso passar pelo detector de mentiras para provar.
Sim, eu poderia passar pelo detector de mentiras… Sharon Stone tinha feito isso em Instinto selvagem, embora ela não estivesse mentindo. Mas, ainda assim… Eles poderiam não saber! Eles poderiam estar apenas jogando um verde! Sem um pingo de prova… Eu tinha pegado o bilhete ou foi Dave que o pegou? Não tinha certeza… Mas não faça um jogo limpo. Fazer jogo limpo aqui é o mesmo que morrer. Além disso, talvez eles nem sequer saibam que é Dave. Se soubessem com certeza, bastaria dizer de primeira e pronto. Eles estavam tentando forçar uma confissão! Não havia dúvidas sobre isso!
As últimas palavras do Canalha:
– Tudo bem, então você nunca passou a ninguém um bilhete. Beleza… – dizendo isso, ele deu de ombros e fechou a pasta de arquivos. E então disse para o homem de Yale: – Sinto muito, Nick. Não podemos usar seu cliente como testemunha; ele não é confiável. Se ele mente para nós aqui, vai mentir na frente do júri.
Na sequência, a Bruxa levantou-se da cadeira, apenas para ser interrompida pelo vozeirão do TOC:
– Tudo isso é besteira! – e olhou furiosamente para a Bruxa. – Sente-se um segundo, Michele! – Então olhou furiosamente para mim. – Ouça bem – disse ele em um tom que nunca tinha usado comigo antes. – Sei exatamente o que aconteceu. Você saiu para jantar com Dave Beall e deslizou-lhe um bilhete dizendo: Não se incrimine! Estou com um microfone! Em seguida, você deixou o restaurante e mentiu na minha cara, dizendo que tinha feito o melhor que podia!
Ele fez uma pausa, mas não foi de desgosto. Ele estava desapontado comigo. Eu era uma estrela entre seus colaboradores e o tinha decepcionado, talvez até mesmo envergonhado.
Houve alguns momentos de silêncio e, em seguida, ele disse:
– Sempre agi corretamente com você, desde o primeiro dia, e estou lhe dizendo agora, sem conversa mole, que, se você não disser a verdade sobre o assunto, Joel vai quebrar seu acordo de cooperação e você irá passar os próximos 30 anos na prisão. E, mesmo jogando limpo, ele ainda poderia romper seu acordo e você envelheceria na cadeia – TOC tomou fôlego e deixou o ar escapar lentamente. – Mas nunca menti antes e não estou mentindo para você agora. Você tem que jogar limpo ou não há nenhuma chance.
O homem de Yale quase saltou da cadeira.
– O.k.! – disse ele, num tom de voz só um pouco mais suave que um grito. – Quero cinco minutos com meu cliente, sozinho! E agora. – Em seguida, ele suavizou seu tom um pouco. – Por favor, todo mundo aguarde no corredor enquanto eu confiro as coisas com meu cliente!
– Claro – disse o Canalha. – Leve o tempo que precisar, Nick.
Na saída, TOC travou os olhos comigo e assentiu com a cabeça lentamente. Faça a coisa certa, disseram seus olhos. E então ele saiu.
– EU SUPONHO que você tenha feito isso – afirmou meu advogado.
Eu olhei ao redor da sala de reuniões, ou de interrogatório, para as paredes nuas e sem janelas, para os móveis baratos do governo, as poltronas negras e o jarro vazio de água colocado de lado, e comecei a me perguntar se a sala estava grampeada.
Olhei para o homem de Yale e disse as palavras:
– Você acha que é seguro falar?
O homem de Yale olhou para mim, incrédulo. Depois de alguns segundos, ele disse:
– Sim, Jordan, é seguro falar. Tudo que dissermos um para o outro é confidencial. Segredo entre cliente e advogado.
– Tá bom… – murmurei. – Acho que você nunca foi ao cinema, esse é o truque mais velho de todos: os tiras saem da sala e esperam por uma confissão. Então, eles correm de volta para dentro e dizem: “Peguei você!”.
O homem de Yale deitou a cabeça um pouco para o lado, da maneira que você faz quando está olhando para alguém que acaba de ficar maluco. Então respondeu:
– Esta sala não tem escutas. Eu trabalhei na Promotoria por muitos anos, fazendo exatamente isso que o Joel faz, então pode confiar em mim. Então, você passou um bilhete para Dave Beall?
Negue! Negue! Negue!
– E se eu fiz isso? – perguntei agressivamente. – Não estou dizendo que fiz, mas já que eles acham que fiz, e daí, e se fiz isso mesmo?
– Então nós temos um problema sério – respondeu. – Joel poderia romper o acordo de cooperação, o que significa que você seria condenado sem ter a tal carta de recomendação em mãos…
Mantenha a calma! É a sua palavra contra a dele!
– Isso é besteira, Nick! Como eles podem provar que passei um bilhete qualquer para Dave Beall? Quer dizer, eu estou dizendo que não passei e eles dizendo que passei. Mesmo que Dave esteja cooperando, quem pode afirmar que não é ele quem está mentindo? Sério, eles não podem segurar minha carta sem ter provas, certo?
O homem de Yale deu de ombros.
– A coisa não é assim tão preto no branco… Se eles acharem que você está mentindo, podem segurar essa carta, embora eu duvide que seja isso que está acontecendo aqui.
– O que você quer dizer?
– Meu palpite é que eles têm uma prova, ou pelo menos pensam ter essa prova. Eles não pegariam tão pesado se não fosse assim – Nick fez uma pausa por um momento, como se perdido em pensamentos. Depois de alguns segundos, ele disse – O.k., vamos apenas supor por um segundo que você tenha de fato passado esse bilhete. Onde supostamente você estava quando fez isso?
Inacreditável! Mesmo ali, num momento de ruína, eu não conseguia deixar de me maravilhar com a natureza distorcida do sistema legal americano. O simples fato de jogar aberto com meu advogado, confessando que tinha de fato passado o bilhete para Dave Beall, faria com que ele não pudesse mais me representar se eu continuasse a mentir. Assim, em vez disso, nós tínhamos que falar em “termos hipotéticos”, então meu advogado poderia tentar descobrir onde eu estava mais vulnerável. Em seguida, ele me ajudaria a moldar a melhor história possível que fosse consistente com os fatos conhecidos.
– Provavelmente em um restaurante – respondi.
– E por que você diria isso?
– Porque foi onde ocorreu o encontro em questão.
Ele assentiu com a cabeça.
– O.k., e qual era o nome do restaurante?
– Caracalla. Fica em Long Island, em Syosset.
– E o restaurante estava lotado?
Eu sabia onde ele queria chegar.
– Não, havia apenas um punhado de pessoas lá e nenhuma delas era agente do FBI. Eu estou certo disso.
O homem de Yale assentiu de acordo.
– Você está certo, provavelmente. Você vem cooperando há bastante tempo, então tenho certeza de que Coleman confia em você.
Ele fez uma pausa por um momento, enquanto suas últimas palavras ficaram pairando no ar como gás mostarda. Sim, eu tinha traído TOC e sua confiança. Ele sempre tinha sido honesto comigo e, em troca, eu fodi com ele! Mas, ainda assim, eu tinha agido como um homem. Eu tinha mantido o respeito próprio. E é isso o que acontece!
O homem de Yale continuou:
– O.k., então, apenas como argumentação, vamos assumir que você de fato passou um bilhete, mas ninguém o viu fazendo isso. Você se lembra de alguma coisa gravada na fita que seja incriminadora, tipo, como Dave Beall teria reagido ao bilhete? Você entende o que estou dizendo?
– Sim, entendo – o que você acha, que eu sou um idiota? Eu não passei o bilhete para ele simplesmente sem avisar! –, mas tenho certeza de que não há nada. Se eu fosse correr esse risco, teria sido muito cuidadoso. Eu olharia em torno do restaurante para me certificar de que ninguém estava vendo e, em seguida, teria enviado um sinal a ele, como talvez colocar meus dedos nos lábios ou algo parecido. Enfim, não há nada fora do comum nessa fita, exceto o fato de que Dave não incriminou a si mesmo. Mas isso não é tão incomum, é? Quer dizer, eu tive quatro ou cinco encontros com Gaito e ele nunca se incriminou! Então é realmente minha palavra contra a de Dave, não?
– Entendo o que está dizendo, Jordan – raciocinou ele –, mas tem alguma coisa faltando aqui – fez uma pausa. – Deixe-me perguntar uma coisa: se você tivesse passado um bilhete para ele, você o teria pegado de volta ou ele o teria guardado como uma espécie de recordação?
Deixei escapar um grande suspiro.
– Não tenho certeza, Nick. Quer dizer, eu provavelmente iria supor que ele jogaria o papel fora, mas não tenho certeza disso.
Fiz uma pausa e balancei a cabeça ironicamente. Aquilo era inacreditável! Eu tinha protegido meu amigo e, como uma maneira de dizer obrigado, ele tinha me dedurado! Magnum estava certo o tempo todo e TOC também. Eu era um tolo e agora estava prestes a perder minha vida por causa disso.
Então, perguntei:
– Preciso lhe perguntar uma coisa, Nick: o que vai acontecer se eu não conseguir uma carta de recomendação da Promotoria? Quer dizer, vou mesmo acabar condenado a 30 anos?
– Sim – disse Nick rapidamente. – Talvez ainda mais. Joel vai atacar você com outras acusações além daquelas em que já se declarou culpado: obstrução da justiça, mentir para um funcionário federal e mais algumas outras. Mas não podemos deixar que isso aconteça. Precisamos fazer tudo o que for possível para impedir que isso vá além desta sala. – Ele colocou a mão em meu ombro, da maneira como um amigo faria. – Eu preciso saber agora, como seu advogado: você passou um bilhete a Dave Beall?
Assenti tristemente:
– Sim, Nick, eu passei. E ele dizia exatamente o que Coleman citou – ri baixinho. – É difícil de acreditar, você se arrisca assim por um amigo e olha o que recebe em troca!
O homem de Yale concordou com a cabeça.
– Posso perguntar por que você fez isso?
Dei de ombros.
– E isso tem importância?
Com surpresa, ele me disse:
– Mas é claro que tem! Se você estivesse tentando proteger Dave Beall porque ele estava segurando dinheiro para você ou se estava em processo de infringir a lei com ele, então isso não vai acabar bem. Mas, se foi simplesmente por uma crise de consciência, sem nada a ganhar senão recuperar uma noção errada de respeito próprio, então pode ser que exista uma forma de sair dessa. Então, como foi? Você está me escondendo mais alguma coisa ou foi só porque ele é seu amigo?
– A segunda – disse eu confiante, sentindo-me como uma criança mentirosa. – Eu juro por Deus, Nick – merda! Eu já tinha feito aquilo naquele dia e, logo em seguida, mentido! – Quer dizer, dessa vez eu realmente juro por Deus! Eu não tinha nada a ganhar a não ser ajudar um amigo. É isso aí. Eu fui para o encontro com toda a intenção de conseguir que Dave falasse, mas então algo aconteceu quando me sentei à mesa. Eu não sei, meio que olhei para ele e vi tudo o que a Stratton poderia ter sido. Para começo de conversa, senti que era minha culpa ter corrompido aquele cara. Tinha acendido sua ganância com as reuniões estúpidas que eu costumava dar e todo esse tipo de merda. E, ao contrário de outras pessoas a quem entreguei nessa colaboração, Dave era um amigo, pelo menos eu pensei que fosse. Agora eu sei que não há nenhum amigo – e que não há nenhuma lealdade – e que é cada um por si! – balancei a cabeça com raiva. – Agora provavelmente vou para a cadeia pelo resto da minha vida de merda por causa disso! – fiz uma pausa por um momento, tentando controlar a raiva. – E o que dizer de meus filhos? – balancei a cabeça, incrédulo. – Chandler e Carter. Ah, Deus, o que foi que eu fiz?
O homem de Yale colocou a mão em meu ombro de novo e bateu levemente algumas vezes.
– O.k. – disse ele. – Agora temos de recolher os cacos. Precisamos limpar essa bagunça.
– E como faremos isso?
– Bem, para começar, você tem que jogar limpo com eles imediatamente. Não podemos deixar essa coisa se arrastar além de hoje.
– Ah, é? Bem, Joel me odeia, Nick. No segundo em que eu admitir isso, ele vai romper meu acordo de cooperação. Eu sei disso – fiz uma pausa, para pensar nas ramificações de curto prazo. – Preciso ver meus filhos novamente. Eu preciso vê-los mais uma vez, antes de tudo desabar. Só para dar um beijo de adeus e dizer que eu os amo.
– Eu entendo – disse ele, solidariamente. – Tenho certeza de que, se eu for lá fora dizer a Joel que você tem algo a contar, ele vai concordar em não tomar qualquer ação imediata; ele vai pelo menos pensar sobre isso durante a noite.
– E, em seguida, o que acontece? O que você faria nessa situação?
Ele riu.
– O que eu faria?
Olhei para ele muito sério.
– Sim, o que você faria? Você romperia meu acordo de cooperação bem na hora ou me daria um tapa na cara?
– Eu não quebraria esse acordo de maneira nenhuma – respondeu ele depressa. – As consequências são muito graves, e diria que 90% dos procuradores e promotores concordariam comigo. Infelizmente, Joel fica fora desses 90%, mas isso não significa que ele vá quebrar o acordo. O que ocorre é que a maior parte dos promotores não é tão cabeça-dura quanto Joel. Mas, para responder à sua pergunta, o que eu provavelmente faria seria dar-lhe uma severa advertência ou, na pior das hipóteses, obrigá-lo a se confessar culpado de outro crime, algo como mentir a um funcionário federal ou talvez obstrução de justiça. Meu objetivo seria ensinar-lhe uma lição e também enviar uma mensagem para o júri, de que você já foi punido pelo que fez.
– Mas qual júri? Eu já confessei que sou culpado!
Nick balançou a cabeça.
– Eu não estou falando sobre seu júri. Eu estou falando sobre o júri em que você acabará depondo. Entenda uma coisa: tudo isso vai passar por uma reinquirição. Por isso está todo mundo puto da vida com você agora! Tenho certeza de que eles sabem que seus motivos não eram maldosos. Você estava apenas tentando ajudar um amigo. Enfim, dê-me permissão e eu vou lá fora agora mesmo dizer-lhes que você está pronto para jogar limpo. Em seguida, Greg e eu vamos arregaçar as mangas e trabalhar por você, avaliando todos os obstáculos. Tenho certeza de que, assim que Greg descobrir o que aconteceu, ele estará de volta; então, a primeira coisa que faremos amanhã será ir ao escritório da Promotoria fazer uma moção no seu caso. E iremos direto ao topo, se for preciso. Temos um excelente relacionamento com o chefe da divisão criminal e, no fim das contas, é com ele que Joel terá de falar para sair. Nesse meio-tempo, sugiro que vá conversar com Coleman e peça a ele que interceda a seu favor. Eu sei que vocês têm um bom relacionamento. Já ouvi mais de uma fonte dizer que ele realmente gosta de você e o respeita.
– Pode ser – respondi gravemente. – Pode ser que tenha sido verdade, mas agora não é mais. Eu traí totalmente o cara – balancei a cabeça, constrangido. – Quer dizer, nem sei como vou olhar para ele novamente – mordi o lábio com o pensamento. – Ele deve me odiar até a morte agora.
– Sem essa – disse o homem de Yale, com um leve sorriso. – Ele não odeia você. Na verdade, tenho certeza de que ele entende exatamente o que aconteceu. Sabe, você não é o primeiro colaborador a fazer esse tipo de coisa. Acontece mais frequentemente do que você pensa. Pelo menos seu coração estava no lugar certo. Quer dizer, Coleman nunca admitiria isso, mas ele provavelmente o respeita ainda mais agora – Nick piscou para mim. – E eu também. Então, isso nos deixa com Joel: temos de fazer tudo o que pudermos para ele não encerrar sua cooperação. E então podemos seguir com nossa vida.
Assenti com a cabeça, sentindo-me muito afortunado por ter escolhido a firma De Feis O’Connell & Rose como meu escritório de advocacia. Eles não eram apenas advogados de primeira linha, eram também amigos, uma mercadoria que estava se esgotando rapidamente no meu estoque. Claro, ainda havia uma chance maior que 50% de que o Canalha rompesse meu acordo de cooperação, ou pelo menos tentasse fazer isso, mas com Nick e Greg ao meu lado – e também TOC, se eu tivesse sorte –, pelo menos ainda havia uma chance de lutar.
Cinco minutos depois, meus captores estavam de volta à sala de interrogatório e eu derramava toda a minha história. Trinta minutos mais tarde, estava terminado. Eu tinha contado tudo.
O Canalha recebeu a história bem, pelo menos era o que parecia. Ele demonstrou pouca emoção, dizendo a Nick que voltaria a entrar em contato depois de alguns dias. A Bruxa, para minha surpresa, ficou de fora, assim como o Mórmon.
Restara TOC, que tinha se mantido extraordinariamente calmo.
De início, aquilo me incomodou… Não, aquilo acabou comigo, porque eu presumi que qualquer clima de boa vontade que tivesse construído com ele fora permanentemente destruído. Afinal, eu tinha traído sua confiança completamente. Tinha olhado nos olhos dele e mentido, não só quando tinha entregado a fita, mas de novo na sala de interrogatórios, quando ele me confrontou. Então, sim, ele tinha todo o direito de esquecer que eu existia e de apagar toda aquela experiência.
Mas eu estava errado; ele estava apenas guardando seus pensamentos para quando nós dois estivéssemos sozinhos. Isso aconteceu cerca de 10 minutos mais tarde, depois de ter me escoltado com o homem de Yale até o elevador de serviço, pelo lobby, com seu infinito mar de rostos escuros e tristes de estrangeiros semi-ilegais, e então para a rua. Foi então que o homem de Yale virou à esquerda e foi para o metrô e TOC e eu viramos à direita, para o estacionamento.
Estávamos em algum lugar da Broadway, com o Federal Plaza número 26 elevando-se atrás de nós e a Broadway à nossa frente, quando TOC parou e me deu um soco no bíceps.
– O que diabos há de errado com você? Você ficou louco, é isso?
Parei também.
– É – respondi timidamente. – Fiquei.
O TOC atacou:
– Bem, agora você está numa bela merda, entendeu? Você tem ideia da batalha difícil que está travando com Joel? Puta merda! Você não entendeu ainda! Você está brincando com sua vida aqui! – Ele apertou os lábios e sacudiu a cabeça. – Não consigo acreditar! Depois da merda que você fez, eu tenho que defender a porra de seu caso com Joel, meu chefe, o chefe do Joel, todo mundo! Você tem alguma ideia de quanta papelada do caralho eu vou ter de preencher por causa dessa merda? – Ele balançou a cabeça com raiva. – Inacreditável! – murmurou. – O que foi que eu disse a você naquela noite, quando estava todo melindrado de ser grampeado e entregar o Beall? Vamos lá, você não é aquele bosta cheio de história da sua memória fotográfica? Então, me diga, gênio: o que eu disse para você?
Com meu rabo entre as pernas, falei:
– Você disse que, em meu lugar, ele faria a mesma coisa contra mim. Você estava certo. Não sei o que dizer. – Fiz uma pausa e perguntei: – Você gostaria de saber por que eu fiz isso?
– Não – respondeu ele, categoricamente. – Não gaste saliva à toa. Eu já sei por que fez isso. É por isso que estou aqui falando com você em vez de você estar sentado na cadeia. – Ele balançou a cabeça mais um pouco. – De qualquer forma, a bagunça é sua, e agora eu tenho que tentar limpá-la. Queria lhe agradecer por isso.
Como não sabia bem o que dizer, arrisquei:
– Bem, é para isso que servem os amigos…
– É… – murmurou TOC. – Você… Meu amigo. Caramba! Quem precisa de inimigos quando se tem colaboradores como você? – mais agitação da cabeça. – Enfim, preste atenção no que vou dizer: não posso prometer a você como isso vai acabar, mas farei tudo ao meu alcance para tentar salvar sua vida. Em troca, quero intensificar sua cooperação para novos níveis. Você fez um bom trabalho até agora, mas apenas bom. Você poderia fazer melhor, muito, muito melhor. Eu sei que você é capaz disso; Joel também sabe. É a melhor coisa que existe para você. Por isso, meu caro, você conhece os alvos. Então quero que vá para casa hoje e use seu cérebro para descobrir um modo de chegarmos a eles. Dessa forma, enquanto eu estiver ocupado articulando com Joel para poupar sua vida, poderei dizer a ele que você está preparado para levar sua cooperação a um novo nível. Você entendeu?
– Sim, claramente – respondi. – Você estava certo o tempo todo: não há nenhuma lealdade neste mundo. Todo mundo dedura.
Com isso, nós apertamos as mãos e fomos para lados opostos.
Foi muito estranho quando me sentei com George naquela mesma noite e pedi-lhe para ligar para Elliot Lavigne e ver se ele podia me enviar um pouco do dinheiro que me devia. George desligou o telefone um minuto depois, espantado.
– De acordo com seu amigo Elliot – disse George –, você não precisará de dinheiro na cadeia. Ele me disse para lhe mandar um abraço e para que eu fosse me foder. Então, desligou na minha cara.
Certo, pensei. Havia algumas poucas pessoas neste mundo com quem eu tinha cometido crimes que achavam que tinham se safado de tudo. Bem, elas estavam prestes a ter uma surpresa.