CAPÍTULO 17

A ARTE DA AUTODESTRUIÇÃO

Três meses depois

Estávamos em algum lugar ao longo de Staten Island, perto da divisa com Nova Jersey, quando percebi que não conseguiria voltar a Southampton naquela noite para meu toque de recolher. Eu me lembro de descer a mão para minha perna esquerda e levantar a bainha da calça de gabardine, para dizer algo como:

– Er… Eu não fui totalmente honesto com você, Kiley. Essa coisa no meu tornozelo não é realmente um bipe – e de repente eu ouvi o som lamentoso e horrível, e os pilotos na frente estavam apontando nervosamente para as luzes laranja do painel de instrumentos do helicóptero Sikorsky S-76, que estava girando para o oeste a 140 nós com vento de cauda de Atlantic City.

E então, os lamentos cessaram. Kiley estava sentada à minha esquerda, presa pelo cinto a um dos suntuosos assentos de couro do Sikorsky, e parecia à beira das lágrimas.

– Eu… Eu nunca estive em um helicóptero antes – murmurou Kiley, que usava um minivestido de seda vermelho de 2 mil dólares que eu tinha acabado de comprar em uma loja da moda em Southampton. – Está certo ele fazer esses ruídos todos?

– Sim – respondi casualmente –, isso acontece o tempo todo.

Eu tinha conhecido Kiley algumas horas antes, então eu não sabia quase nada sobre ela, a não ser que tinha 22 anos de idade, fora criada em Vancouver, na Colúmbia Britânica, e tinha chegado a Nova York para tentar a carreira de modelo, mas a interrompera por um transtorno alimentar que fez com que seu peso aumentasse e diminuísse 15 quilos em questão de dias. Agora ela pesava em torno de 60 quilos, o que a tornava um pouco carnuda demais para uma modelo de 1,72 metro, e por isso Kiley estava com dificuldades para encontrar trabalho. No entanto, ela era linda, com características perfeitamente cinzeladas, pele cor de mel, lábios carnudos, maçãs do rosto elevadas e olhos castanhos amendoados.

De repente, o helicóptero começou a executar uma curva fechada para a direita e entrou em um mergulho íngreme. Os olhos puxados de Kiley se arregalaram.

– Ah, meu Deus! – gritou ela. – O que há de errado agora? Por que estamos indo para baixo?

Eu agarrei sua mão de forma tranquilizadora.

– Não sei – disse calmamente, mas o que eu não disse foi: “Coisas como essa só tendem a acontecer comigo. Você sabe, coisas que você costuma ver nos filmes, como aviões caindo, carros batendo, iates afundando, cozinhas explodindo, helicópteros que precisam ser empurrados para o oceano para abrir espaço para o resgate… Mas não tenha medo, Kiley, porque eu sempre consigo escapar com vida!”.

Foi então que o copiloto se virou em sua cadeira e deslizou para trás uma divisória fina que separava a cabine do piloto da cabine de passageiros. Com um sorriso confiante, ele enfiou seu nariz na ranhura e afirmou:

– Estamos com algum problema mecânico, por isso precisamos fazer um pouso de emergência em Teterboro. – Ele piscou para Kiley. – Não se preocupe, senhora. Teterboro fica apenas a alguns quilômetros de distância. Nós ficaremos muito bem.

Então ele deslizou a divisória e a fechou, virou-se em seu assento e começou a dizer algo ao piloto. Eu olhei para Kiley, que até então estivera bastante radiante, mas até a última gota de cor tinha desaparecido de sua fabulosa pele. Então coloquei a mão sobre o ombro dela e disse:

– Relaxe, Kiley. Eu já passei por isso antes e sempre acaba tudo bem – apertei a mão dela novamente. – Além disso, você tem apenas 22 anos, e isso não é idade para uma jovem morrer!

Ela balançou a cabeça tristemente.

– Eu menti para você! Tenho apenas 17 anos!

Foi quando eu soube que estava fodido.



EU TINHA CERTEZA de que a idade para estupro diferia de Estado para Estado; assim, enquanto o Sikorsky fazia sua descida no Aeroporto de Teterboro, me vi tentando descobrir qual Estado teria jurisdição sobre mim se eu decidisse comer Kiley: Nova York ou Nova Jersey? Na verdade, nós havíamos decolado de Southampton, que era em Nova York, e a idade legal lá era 17 anos, mas agora estávamos indo para Atlantic City, que fica em Nova Jersey, onde a idade legal era… Eu não tinha bem certeza… E esse era o problema, porque era lá, em uma chamativa suíte do Trump Castle Casino, onde eu estava planejando consumar o ato. Então qual era a idade legal de Jersey?, perguntei-me.

Obviamente, não era o tipo de pergunta que eu poderia fazer aos pilotos pela janelinha, especialmente com Kiley junto de mim. Após uma inspeção mais minuciosa, Kiley realmente parecia estar nas últimas fases da puberdade. Na verdade, aquela fina camada de gordura que eu tinha anteriormente atribuído a um distúrbio alimentar estava agora desprendendo o preocupante cheiro de gordura de bebê, pertencente a uma adolescente ainda em florescimento.

Ainda assim, nada daquilo era culpa minha, porque quando eu coloquei os olhos em Kiley ela estava nua em um de meus chuveiros e tinha cabelo em todos os lugares certos, bem como um par de alegres peitinhos que pareciam ter idade suficiente para votar. E ela nem mesmo estava sozinha! Em pé ao lado dela havia outra menina nua – uma garota loira de olhos azuis chamada Lisa que, como Kiley, também parecia ter idade suficiente para votar –; e as duas estavam envolvidas em um apaixonado beijo, saboreando os momentos finais de um frenesi de Ecstasy.

Mesmo essa cena não era tão estranha quanto parecia, duas jovens modelos que eu nunca tinha visto antes se esgueirando em minha casa para tomar um banho de chuveiro juntas, porque, desde meados de julho, era de conhecimento comum que nos Hamptons havia essa fabulosa casa em Meadow Lane onde qualquer jovem modelo podia aparecer, dar um sorriso lascivo e ficar por quanto tempo desejasse. E mesmo eu sendo o primeiro a admitir que esse tipo de comportamento de devorador compulsivo de modelos era totalmente detestável, percebi que, com minha vida à beira da implosão, eu poderia também encerrá-la com chave de ouro!

Por isso, foi assim que decidi passar meu último verão em Meadow Lane: faturando modelos enquanto a Duquesa e eu dividíamos as crianças, alternando os fins de semana.

Chandler, sendo a garota do papai, adorava o movimento, embora gostasse mais de torturar as jovens modelos que seu papai tinha faturado, assegurando que elas não significavam absolutamente nada para ele e que qualquer restaurante a que ele as levasse ou qualquer butique onde lhes comprasse um vestido seria o mesmo restaurante ou butique onde ele havia levado uma dúzia de outras garotas exatamente iguais a elas. O ponto de vista de Chandler era: você é uma puta inútil e alguém mais jovem e mais bonita que você vai substitui-la na próxima semana.

Carter, por outro lado, não dava a mínima. Ele estava muito ocupado na piscina ao ar livre, o que, na língua de Carter, era uma piscinaolivre. Quando ele não estava lá, podia ser encontrado na sala de TV, assistindo a vídeos dos Power Rangers, enquanto modelos seminuas se sentavam ao lado dele e esfregavam sua barriguinha, garantindo que fariam o que ele quisesse se ele emprestasse seus cílios para uma foto. Um dia, eu tinha certeza, Carter iria ficar muito emputecido quando descobrisse que havia afastado todas aquelas jovens belezas só porque tinham atrapalhado seus filmes dos amados Power Rangers.

Numa observação à parte, foi em algum momento no final de julho que ouvi falar de alguém chamado John. Chandler tinha trazido o nome em primeiro lugar, descrevendo-o como “o novo amigo californiano de mamãe”. John. John. No começo não dei muita importância àquilo, embora uma vozinha dentro de minha cabeça insistisse em dizer: “Esse cara pode ser problema”. Não era o fato de a Duquesa ter um namorado, eu estava bem com isso. O que eu não aprovava muito era ele morar do outro lado do país. Afinal, se ela se apaixonasse por ele, poderia querer se mudar para lá.

Eu não sabia muito sobre o cara, apenas que ele era um pouco mais velho que eu, que era muito rico (puxa, que surpresa) e que era dono de uma enorme indústria de roupas infantis em Los Angeles. Eu tinha resistido ao impulso de chamar Bo para fazer sua parte, decidindo, em vez disso, deixar as coisas quietas. Da forma como eu via as coisas, a Duquesa estava fazendo a parte dela, namorar nas férias, de forma que as chances de ela se apaixonar por John eram mínimas.

A única coisa que vinha me incomodando de verdade – além do fato de que eu estava queimando dinheiro mais rápido que um país da América Latina – era o modo obstinado como TOC estava perseguindo o Chef. Na verdade, eu tinha estado em Nova Jersey duas vezes nas últimas quatro semanas, tentando fazer o Chef discutir nossos antigos negócios para gravar em fita. Mas em ambas as vezes ele se recusou. Ainda assim, TOC estava certo de que em algum momento ele o faria. Ele era um bandido nato, raciocinou TOC, e não seria capaz de resistir à tentação para sempre.

Ironicamente, fora por causa dessas duas viagens recentes a Nova Jersey que eu tinha aceitado a ideia de Kiley de ir a Atlantic City. Eram cerca de 11 horas da manhã e eu estava na cozinha fazendo o café da manhã para ela e Lisa quando Kiley teve a ideia:

– Você me levaria um dia para Atlantic City para me ensinar a jogar?

O que de fato complicou as coisas foi eu achar Kiley atraente, não apenas na aparência, mas em personalidade também. Ela era vibrante e vivaz – exalando uma certa inocência infantil que, na época, atribuí ao fato de ela ter sido criada no Canadá, e não de ela ser realmente uma criança.

– Então você nunca foi Atlantic City antes? – perguntei a ela.

– Nãoooo – respondeu ela inocentemente. – Você me levaria até lá?

Hoje eu me lembro de pensar que seu tom era o de uma criança perguntando ao avô se ele estaria disposto a levá-la ao zoológico, um dia. Quando perguntei a Kiley quantos anos tinha e ela disse “22; e você?”, eu estava inclinado a acreditar nisso. Foi quando comecei a calcular os riscos de fazer uma viagem não autorizada de helicóptero para Atlantic City, enquanto ainda estava em prisão domiciliar.

No final, acabei reduzindo as coisas para dois riscos distintos: primeiro, deixar o Estado de Nova York sem aprovação prévia e, segundo, a possibilidade de ficar preso em Atlantic City por ter violado meu toque de recolher à meia-noite. Quanto ao jogo, eu não estava tão preocupado, porque não era ilegal. Eu também não estava muito preocupado em ter de levar 50 mil dólares em dinheiro para convencer Donald Trump a despachar um helicóptero. Afinal, eu tinha duas vezes esse valor no cofre do meu quarto, que, por mera coincidência, era o tanto de dinheiro que eu supostamente teria de entregar ao governo como parte do meu confisco de bens (eles simplesmente não tinham aparecido para pegá-lo ainda). Então, qual seria o mal, concluí, se eu só pegasse emprestado alguns dólares deles?

Nenhum, pensei. Então liguei para o cassino, pedi o helicóptero, levei Kiley para comprar roupas, tomei um empréstimo de curto prazo do governo federal e me dirigi para o heliporto.

Agora, no entanto, seis horas depois, eu estava preso em Teterboro, em um hangar dilapidado, com uma menina menor de idade e prestes a quebrar o toque de recolher. Estar em Jersey, percebi, era o menor de meus crimes.

– Isso significa que não vamos? – lamentou Kiley.

Olhei para meu relógio e balancei a cabeça gravemente.

– Eu não sei, Kiley. Já são 9 horas e eu preciso estar em casa por volta da meia-noite.

Com um bico, ela disse:

– É triste.

– Sim, é – concordei com um aceno de simpatia e, em seguida, concentrei-me no fato de que meu toque de recolher não era realmente um toque de recolher… Ou era? Bem, tecnicamente era, mas na prática não era, sobretudo em uma noite de domingo onde uma violação inofensiva (como aquela) provavelmente iria escorrer através das rachaduras. Sim, talvez a empresa de monitoramento fizesse uma chamada para Patrick Mancini, meu agente da pré-condicional, e ele poderia apenas supor que minha tornozeleira estivesse com problema de funcionamento. Por que, afinal, aquela coisa podia ter um problema de vez em quando, não é? Sim, isso certamente acontecia e, além disso, Pat sabia que eu não era um cara que apresentasse risco de fuga, certo? Claro, eu tinha quase certeza disso, e ele estava bem ciente de que eu era uma testemunha que colaborava com o governo federal (do lado da retidão do problema).

Nesse momento o piloto veio sorrindo:

– A boa notícia é que foi apenas um indicador de combustível – disse ele alegremente. – E estará consertado dentro de 20 minutos.

Kiley pegou minha mão e começou a agitá-la para cima e para baixo, como a dizer “Ebaaa! Ebaaa! Agora podemos ir para Atlantic City!”.

– E qual é a má notícia? – perguntei.

O piloto deu de ombros.

– Bem, o que ocorre é que eu e o copiloto estamos fora de nosso horário de serviço. Vocês vão ter que esperar dois novos pilotos, que estarão aqui em cerca de uma hora…

Kiley olhou para mim, confusa.

– O que isso significa? – perguntou tristemente.

Minha vontade era dizer: “Significa que isso é o que acontece quando você viaja com o antigo Lobo de Wall Street. Qualquer coisa que pode dar errado, vai dar errado!”. Mas em vez disso eu disse:

– Significa que estamos presos aqui por um tempo.

Outro bico amuado:

– Então não vamos agora?

Olhei para Kiley e dei de ombros.

– Deixe-me pensar por um segundo.

Percorri a situação novamente em minha mente. Bem, óbvio que eu não poderia dormir com Kiley; ela era muito jovem. Mas, por outro lado, eu era um jogador muito bom, então talvez eu pudesse ganhar alguma grana!

– Há um telefone por aqui? – perguntei ao piloto.

Ele apontou o dedo na direção de um telefone de parede.

– Obrigado – disse, e um segundo depois eu deixei uma mensagem no correio de voz de Pat Mancini, explicando que eu estava preso na “cidade”, sem dizer em qual cidade, e que estaria de volta bem tarde naquela noite ou na manhã seguinte. Então desliguei o telefone e fiquei olhando para ele por um segundo, me perguntando se eu tinha acabado de cometer um grande erro. Não, pensei. Patrick tinha as mãos cheias de assassinos e estupradores e eu já tinha tomado a decisão de não ter relações sexuais com Kiley. Com esse pensamento, caminhei de volta para Kiley e lhe ofereci um sorriso paternal.

– Tudo bem, querida, nós vamos!

– Ebaaaaaa! – ela gritou. E foi isso.



NÃO HAVIA COMO NEGAR que Donald Trump ostentava o pior penteado deste lado da Cortina de Ferro, mas o safado sabia como ganhar dinheiro! Em Atlantic City, ele possuía três cassinos: Trump Plaza, Taj Mahal e Trump Castle. Eu preferi o Castle porque tinha um heliporto no telhado, o que permitia entradas e saídas rápidas. Isso é importante numa cidade como Atlantic City, onde a decadência pode lançar um jogador em uma pirueta emocional quando ele já está prestes a saltar de uma janela.

Mas algo estava me incomodando.

Desatei meu cinto de segurança e deslizei a divisória, abrindo-a:

– Com licença – disse ao novo copiloto, apontando para o telhado do Castle, que se aproximava. – Por que não vamos pousar no telhado hoje à noite?

O piloto deu de ombros.

– Não sei – respondeu ele. – Fomos informados para desembarcar no cais. Isso é tudo que eu sei.

– Hummm – murmurei. – Talvez o telhado esteja fechado para reparos.

– Não que eu saiba – respondeu o copiloto.

Poucos minutos mais tarde, Kiley e eu estávamos sentados na parte traseira de um carro de golfe elétrico, com um motorista do Trump Plaza atrás do volante. Sentado ao lado do motorista estava um funcionário elegantemente vestido, também do Trump Plaza. Ele tinha um horrível amontoado de cabelos grisalhos e uma atitude escorregadia.

– Eu não entendi: quando liguei para a seção informações hoje à tarde, pedi especificamente pelo número do Trump Castle.

Ele soltou um largo sorriso:

– Bem, eles devem ter cometido um erro. Isso acontece o tempo todo. Enfim, somos todos parte da família Trump, certo?

– Está tudo bem? – perguntou Kiley. – Você parece chateado.

Peguei a mão dela e segurei-a.

– Não, está tudo bem, querida. É só uma pequena confusão, isso faz parte do pacote quando se viaja comigo.

Kiley riu como uma colegial.

– Aproveitando o ensejo – disse o funcionário desprezível do cassino –, vi seu velho amigo Elliot Lavigne lá em baixo. Ele estava detonando nas mesas…

– Você quer dizer, ele estava jogando? – perguntei incrédulo.

– Sim, por que você está surpreso? Ele é um jogador compulsivo, não é?

Eu assenti lentamente.

– Sim, claro… Mas a última coisa que ouvi dele é que estava quebrado.

O anfitrião balançou a cabeça e sorriu.

– Não mais – disse conscientemente. – Ele está fazendo milhões de novo. Ele tem uma linha de roupas e agasalhos de hip-hop que se chama… Hã… Fat Farm… ou Fubu, não sei bem…

Kiley, como uma estilista, falou:

– Ah, eu conheço a Phat Farm!

Olhei para Kiley e não resisti.

– Por que, você foi para uma clínica de engorda?*

Ela soltou minha mão e me deu um tapa no ombro.

– Não é esse tipo de fat farm, espertinho! Esse é soletrado P-H-A-T. E é uma gíria, quer dizer legal ou boa aparência. Você sabe, como se diz, “essa menina é phat” ou “esse cassino é phat!”.

– Acho que ela está certa – disse o anfitrião do cassino.

– Eu também penso assim – concordei e sorri para Kiley, que estava radiante.

Então ela disse:

– Quem é Elliot Lavigne?

O anfitrião do cassino e eu trocamos um olhar.

– Ah, ele é apenas um velho amigo meu – respondi casualmente, que por acaso me deve 2 milhões de dólares, os quais agora posso pegar de volta! – Ele é um cara pitoresco.

– Ah – disse uma Kiley sem noção de nada. – Parece um cara legal.

Com isso, o anfitirão e eu trocamos outro olhar. Cinco minutos mais tarde, Kiley e eu estávamos caminhando pelo cassino de braços dados, como dois jovens amantes. Ela olhava para lá e para cá, observando todas as mesas de jogos e as máquinas caça-níqueis e os espelhos e as luzes estroboscópicas com o tipo de expressão impressionada que você veria normalmente em uma menina de 5 anos de Dubuque, Iowa, que estivesse passeando na Times Square pela primeira vez.

Com passos confiantes, conduzi-a para uma mesa de jogo de dados.

Havia seis pessoas em torno dela, todas exibindo a mesma expressão degenerada de jogadores de dados.

– Veja isso – disse a Kiley e, com um sorriso diabólico e uma piscadela, abri minha bolsa de ginástica azul da Nike e despejei 50 mil dólares em dinheiro sobre a mesa de dados. Em seguida, olhei para o caixa, um sujeito de 1,95 metro com um bigodão que parecia desafiar a gravidade, e disse:

– Fichas, por favor.

Houve um momento de silêncio, enquanto o resto da mesa olhava espantado. Ah, sim! O Lobo estava de volta! E espere até vê-lo jogando! Ohhhh… Eu era o bonzão, claro! Como o porra do James Bond!

O homem alto do caixa sorriu e disse:

– Vinte mil dólares para o senhor Belfort jogar enquanto contamos.

E assim eu recebi 20 mil em fichas.

Kiley parecia impressionada.

– Como eles conhecem você? – sussurrou ela.

Ah, por favor!, eu pensei. Todo mundo me conhece por essas bandas! Eu costumava ser o Lobo de Wall Street, pelo amor de Deus!

– Isso não é nada – disse com confiança. – Observe enquanto limpo todos esses filhos da puta!

E rapidamente comecei a jogar.

Cinco minutos depois, a maioria de minhas fichas tinha ido embora e Kiley perguntava:

– Por que eles continuam pegando suas fichas e levando embora?

Balancei a cabeça tristemente, enquanto olhava para os 18 mil dólares do dinheiro do governo sendo empilhados do lado errado da mesa de dados.

– Estou numa maré de azar – resmunguei. – Preciso dar um jeito de ainda ficar com os outros 30.

Foi então que o altão do caixa veio até mim segurando uma prancheta.

– Assine aqui, senhor B – e me entregou a prancheta e uma caneta.

Com o coração apertado, assinei um recibo que parecia um cheque de banco. Então, com um profundo suspiro, devolvi a ele. O homem assentiu com a cabeça uma única vez e disse:

– Eu só preciso de uma cópia da sua carteira de motorista – acrescentou, – e você estará pronto para ir.

– Nenhum problema – respondi, mas fui procurar em meu bolso de trás e… – Que merda! – murmurei. – Esqueci a maldita carteira – olhei para o homem e sorri. – Tenho certeza de que vocês têm uma cópia no arquivo, certo?

Ele balançou a cabeça.

– Na verdade, nós não temos, senhor B. O senhor nunca jogou aqui antes.

– Hummm – resmunguei. – Acho que você está certo. Deixe-me pensar… Que tal ligar para o Castle e pedir que eles lhes mandem um fax da minha carteira? Isso deve resolver, certo?

Olhei para Kiley e pisquei. O Lobo de Wall Street era um mestre em resolver problemas!

Infelizmente, o homem-caixa começou a balançar a cabeça novamente.

– Não é assim que as coisas funcionam, senhor. Uma vez que você mostra 10 mil em dinheiro, é preciso consultar a identidade. A lei é assim.

Inclinei a cabeça de lado e disse:

– Então deixe-me entender direito as coisas: vocês pegam 50 mil do meu dinheiro, contam, me dão 20 mil em fichas para jogar e perder, e agora você não vai me dar uma chance de ganhar meu dinheiro de volta?

O homem-caixa deu de ombros.

– É mais ou menos assim, senhor B.

Senhor B? Senhor B! Mas era uma piada do caralho! Se a cara dele não tivesse duas vezes meu tamanho, eu daria um soco de direita naquela porra detestável de bigode! Respirei fundo e disse:

– Tudo bem, posso falar com seu chefe, por favor? Tem de haver alguma forma de resolver isso.

– Claro! – disse o homem-caixa, feliz em passar o abacaxi adiante.

Cinco minutos depois, não só o chefe dele estava lá, mas havia cinco ternos o acompanhando, e todos pareciam pertencer à família Corleone… Os ternos se mostraram, porém, todos muito bons, muito pacientes, mas depois de coçar os queixos, o Terno de todos os Ternos, quer dizer, o gerente do turno, finalmente me disse:

– Desculpe, senhor B, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser enviar algumas garrafas de champanhe até sua suíte para que o senhor e a linda moça desfrutem – e piscou para ela.

– Tudo bem. Vou pegar minhas fichas e trocar agora – olhei para Kiley. – Venha, querida, está na hora de irmos embora.

– Certo – disse ela, alheia. – E vamos para onde?

Com um sorriso demente, respondi:

– Primeiro nós vamos sacar o dinheiro e então voaremos para casa – olhei para o gerente. – Pode fazer o favor de chamar o helicóptero para nós?

– Está muito tarde, senhor – respondeu ele, parecendo lutar contra o desejo de sorrir. – O helicóptero já está no caminho de volta para Long Island. Mas não se preocupe, nós temos uma bela suíte para vocês e vamos enviar-lhe algumas garrafas de Dom Pérignon e um pouco de caviar.

– Que ótimo! – chilreou Kiley. – Eu amo caviar!

Olhei para ela, sem palavras.

– Então, está bem – disse o gerente de turno, sentindo minha dor. – Vamos até os caixas de forma que possa trocar suas fichas.

Sim, pensei, é hora de colocar um fim nesse pesadelo.



– MAS QUE PORRA você está me dizendo? – quase gritei para a bruxa velha do outro lado do vidro à prova de balas. – Como você não pode me dar meu dinheiro de volta?

– Lamento muito – a resposta veio firme, através de uma fenda em uma estrutura de alumínio brilhante. – Eu não posso lhe dar o dinheiro a menos que me mostre sua identidade. É a lei.

Eu estava perplexo. Chocado. Em descrença absoluta.

Lá estava eu, de pé dentro “da gaiola”, que era do tamanho de um banheiro no Denny’s, acompanhado por uma garota menor de idade, um gerente de turno que era provavelmente um chamariz da máfia e uma pilha de multicoloridas fichas de cassino no valor de 32 mil dólares, com as quais estava agora encalhado porque a bruxa velha do outro lado do vidro à prova de balas era uma defensora dos detalhes. Aquilo era bizarro!

Virei-me para o chefe de turno e disse:

– Você tem de fazer alguma coisa, isso não está certo – e então apertei os dentes e balancei a cabeça lentamente, como se dissesse: “Alguém vai pagar por isso, no fim!”.

O chefe de turno ergueu as palmas das mãos no ar e deu de ombros.

– O que posso fazer? – disse inocentemente. – A lei é a lei.

Com frustração no coração, olhei para Kiley e disse:

– Você sabe por que essa merda acontece só comigo e com mais ninguém?

Ela abanou a cabeça nervosamente.

– Porque eu atraio essa merda pra cima de mim! Eu sou um porra de um maníaco por castigos, é por isso! – e voltei a olhar para o vidro à prova de balas, encarando desconfiado a bruxa velha. Então rodei o pescoço, como um homem à beira de um ataque. – Ouça – disse, com um tom de lógica na voz, apoiando os cotovelos na bancada de fórmica preta do meu lado do vidro. – Em geral, eu sou um cara sensato, então me deixe apenas dar-lhe um resumo dos acontecimentos da noite e, em seguida, você me diz se mereço ter meu dinheiro de volta, o.k.?

A bruxa deu de ombros.

– Bem – disse eu –, vou tomar isso como um “sim”.

E então comecei a lhe contar minha história de aflições, iniciando pelo mau funcionamento do helicóptero e terminando com o fiasco da carteira de motorista esquecida, enquanto cuidadosamente omitia todas as referências à tornozeleira, a meu espúrio telefonema para Patrick Mancini, ao problema da idade de Kiley, a meu empréstimo sem juros do dinheiro do governo federal e por último (mas não menos importante…) ao fato de que eu estava sob condicional e não fora autorizado a pisar em Atlantic City, para começo de conversa. E disse:

– Acho que é bastante óbvio que eu sou quem digo que sou. Então por que você não troca as fichas e me deixa ir embora em paz, certo? – lancei meu sorriso mais razoável para a bruxa. – É pedir demais?

A bruxa velha ficou me olhando por alguns segundos a mais do que as boas maneiras recomendam. Depois veio sua resposta firme, através das fendas:

– Me desculpe. Eu não posso trocar suas fichas a menos que você mostre sua identidade. É a lei.

– Tudo bem… – respondi. – Achei que seria isso mesmo que você responderia.

Essas foram as últimas palavras que eu disse para a bruxa velha naquela noite. Na verdade, foram as últimas palavras que eu disse a qualquer pessoa naquela noite, com exceção de Kiley, que acabou por ser uma excelente companhia numa viagem tão azarada quanto aquela. Claro, jamais coloquei um dedo nela, mas, olhando para aquele dia hoje, sei que teve menos a ver com as leis de estupro e mais com meu próprio senso de certo e errado. Afinal, a maneira que eu tinha escolhido para passar meu último verão em Meadow Lane era uma vergonha. Eu sabia disso melhor que ninguém, mas simplesmente não conseguia me controlar. Era como se eu estivesse determinado a me autodestruir… Não, era como se eu precisasse me autodestruir.

Talvez estivesse pensando que, se realmente me destruísse, queimando todos os bens que possuía, tanto físicos quanto emocionais, então de alguma forma eu poderia fazer o relógio voltar no tempo, para uma época antes da Stratton, antes que a árvore envenenada brotasse. Talvez. Ou talvez eu tivesse apenas ficado maluco…

De qualquer maneira, havia certas linhas que eu mesmo não poderia atravessar: uma delas tinha sido Dave Beall e a outra tinha sido Kiley. Ao mesmo tempo que os dois não tinham nenhuma relação, cada um à sua maneira permitiu que eu me aferrasse a meus últimos vestígios de respeito próprio.

Quando cheguei em Southampton na manhã seguinte, pedi um táxi para Kiley, dei-lhe um beijo na bochecha e mandei-a seguir seu caminho. Eu sabia que um dia acabaria me encontrando com ela de novo, e provavelmente me daria um chute na bunda por não ter me aproveitado dela naquela noite de domingo. Afinal, você não se depara com meninas como Kiley todos os dias, sobretudo no mundo real e sobretudo se você é um cara como eu, com um pé no xadrez e outro no asilo.

Então eu estava sentado em uma cadeira na minha sala de estar, olhando para o oceano Atlântico e tentando fazer com que tudo tivesse um sentido. Era quase meio-dia e Patrick Mancini não tinha ligado ainda, o que significava que ele nunca o faria. Em suma: eu tinha escapado!

Então, o telefone tocou.

Ai, meu Deus!, pensei. Me pegaram! Tão rápido como um relâmpago, comecei a fabricar em meu cérebro um álibi para tudo aquilo. Tinha de haver uma explicação… Eu tinha ido visitar meu irmão em Montclair, Nova Jersey, e me perdido no caminho… Estava procurando novos lugares para meu próximo encontro com o Chef… Sim!

O telefone se manteve tocando.

Eu peguei o sem fio.

– Sim? – disse, num tom resignado e sombrio.

– Aqui é seu advogado – disse meu advogado. – Você está sozinho?

Com voz superdireita, afirmei:

– Eu juro por Deus, eu nunca toquei nessa menina, Greg! Você mesmo pode ligar para ela e perguntar! – de repente, percebi que eu não tinha o número de telefone de Kiley. Na verdade, eu não sabia nem mesmo seu sobrenome. Ela era Kiley, a criança.

– Do que você está falando? – perguntou Magnum. – Que menina?

– Esqueça – murmurei. – Eu estava apenas divagando… O que está acontecendo?

– Recebi um telefonema muito perturbador de Joel Cohen hoje pela manhã.

Minha boca imediatamente ficou seca.

– Sobre o quê?

– Ele diz que você pode ter violado o acordo de cooperação. Ele quer encontrá-lo no primeiro horário amanhã de manhã.

Eu senti uma onda de pânico subindo por minha coluna vertebral, acompanhada de desespero. Se eu não estivesse sentado, teria caído. Permaneça calmo, pensei. Você não fez nada. Nada!

– Isso é impossível! – respondi com confiança. – Ele disse como?

– Não especificamente, mas tenho a impressão de que ele pensa que você pode ter alertado alguém sobre sua cooperação. Alguma ideia do que ele está falando?

Alertado. Que palavra estranha para se usar. O que isso queria dizer no contexto? Alertar, deixar alguém saber que eu estava cooperando? Sim, minha cooperação deveria ser algo secreto, mas havia algumas pessoas que tinham de saber, como minha esposa, por um lado, e meus pais… E George… Mais ninguém; nem mesmo Bo tinha sido alertado – alertado! Eu tinha dito isso a alguns de meus amigos? Não, a nenhum. Para a Rainha do Boquete? Não. Para alguma das Natashas impertinentes? Ninguém, não. Eu não tinha dito isso para uma única alma, na verdade. Então, eu estava limpo.

Sentindo-me muito confiante, disse:

– Não, Greg. Eu não alertei ninguém. Juro. Joel está completamente enganado.

– Isso é bom – respondeu ele calmamente. – Você não tem nada com que se preocupar, então. Tenho certeza de que é apenas um engano. Nós vamos esclarecer tudo isso logo na primeira hora de amanhã.

– Sem dúvida – disse rapidamente. – Onde ele quer se reunir?

– No centro, na sede do FBI. Eu não estarei lá, tenho que viajar para um depoimento. Mas não se preocupe, Nick estará com você.

– Isso é bom – disse. – Nick é um bom homem.

E além disso, pensei, quando você não tem nada a esconder, não tem nada a temer.

Graças a Deus.

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