CAPÍTULO 20
TODOS OS HOMENS TRAEM
Desta vez era diferente.
O Nagra era meu escudo, o microfone era minha espada, e as palavras rolavam de minha boca com tanta facilidade e fluidez que eu poderia ter feito John Gotti confessar todos os detalhes de como ele e sua gangue queimaram Paul Castellano em frente ao Sparks Steak House.
Sim, pensei, ter a consciência limpa é uma coisa maravilhosa para um delator.
Um delator? Não, não. Eu não era nada disso. Afinal de contas, um delator entrega seus amigos, e eu não tinha nenhum. Eu tinha sido traído por todos: Dave Beall, Elliot Lavigne, minha mulher, pelo amor de Deus, e, se houvesse a chance, pelo Chef de Jersey também.
Então agora era a minha vez.
Era sexta-feira à tarde, um pouco depois das 2 horas, e o Chef e eu tínhamos acabado de chegar ao pequeno e bem equipado escritório que eu mantinha em Plainview, Long Island, a meio caminho entre Manhattan e os Hamptons. Plainview era uma cidade tão chata, mas tão chata, que em toda a história de Long Island nenhuma conversa tinha começado com: “Você não vai acreditar no que aconteceu em Plainview no outro dia…”.
Bem, isso estava prestes a mudar!
Eu estava determinado a empreender, antes que a tarde terminasse, a mais incriminadora conversa consensualmente registrada na história não só de Plainview, mas também de Manhattan, de Nova Jersey, da costa leste dos Estados Unidos e, quem sabe, de todo o mundo.
Mas, antes, a troca de gentilezas. Trocamos abraços e olás enquanto eu levava o Chef para uma pequena área com alguns móveis. Um sofá de couro vermelho escuro e duas poltronas do mesmo jogo se encontravam ao redor de uma mesa de vidro. Ao sentarmos no sofá, o Chef disse:
– Eu nem sabia que você ainda mantinha este lugar.
– Sim – disse, casualmente. – Ainda não tive coragem de me livrar dele. Eu sou sentimental, acho.
Sorri calorosamente para o Chef, que, como de costume, parecia frio como um pepino em seu terno cinza-claro e sua gravata vermelha xadrez. Eu estava vestido de maneira mais informal, com jeans e uma camisa polo branca, ambos fazendo um bom trabalho em esconder minha espada e meu escudo.
O Chef sorriu de volta.
– Bem, é um lugar agradável. Eu sempre gostei daqui.
Assisti com um distanciamento gelado enquanto o Chef passava os olhos em volta. No passado, eu sempre tinha achado tranquilizadora a presença do Chef, pela forma orgulhosa como ele carregava sua calvície, sua mandíbula quadrada, o nariz aquilino, aquele sorriso contagiante… Mas eu tinha achado a Duquesa deliciosa, também, não tinha? E onde ela estava agora? Onde estava Dave Beall agora? Onde estava aquele patife do Elliot Lavigne agora? Todos os homens traem, eu lembrei, e todas as mulheres também. Então, por que me sentir culpado? Não há razão para isso, nenhuma razão mesmo.
– É – disse, sorrindo. – E aí, quais são as novas? Como estão sua esposa, seus filhos, seu golfe…
Passamos os minutos seguintes em conversas amenas e sem muito sentido. Mas, na verdade, até que elas não eram tão sem sentido assim, porque sutilmente eu estava acentuando duas coisas importantes: a primeira é que eu estava de bom humor e me sentindo melhor a cada dia, e a segunda, que uma vez que meus problemas legais estivessem resolvidos, eu esperava um futuro brilhante, que incluía o Chef como meu amigo, confidente e conselheiro. Meu comportamento indicava que eu estava calmo e confiante, um homem que lida com seus problemas com força e honra.
Depois de alguns minutos, casualmente dirigi a conversa para a situação do meu processo judicial.
– É óbvio que minha melhor opção é fazer um acordo, porque, se eu for a julgamento e perder, vou tomar um tombo tão grande que será até ridículo! – dei de ombros. – Cada processo de lavagem de dinheiro conta dez anos, e eu estou enfrentando cinco deles. Mas, por outro lado, se eu fizer esse acordo, será apenas para as fraudes com títulos, o que dá muito menos tempo.
O Chef assentiu.
– Quanto tempo você teria que cumprir?
Eu dei de ombros.
– Seis anos, de acordo com Greg, mas isso é sem as deduções; após bom comportamento, o programa de reabilitação e seis meses em uma casa de recuperação, devo encarar uns três anos, o que, acredite, posso cumprir com um pé nas costas.
– Que bom isso – disse o Chef. – Quem bom mesmo. E o que dizer do Danny?
– O mesmo que eu, tenho certeza. Nossos advogados ainda estão trabalhando juntos, em uma defesa conjunta, mas é apenas por razões cosméticas. Se o escritório da Procuradoria achar que devemos ir a julgamento, vai ficar mais fácil fazer um acordo quando chegar a hora.
– Verdade – disse o Chef. – Essa sempre foi minha filosofia: você luta com unhas e dentes e, depois, badabum!, costura um acordo nas escadarias do tribunal. – Ele fez uma breve pausa e começou assentindo a cabeça de novo. – Bem, isso é bom, muito bom. E qual é a multa que você acha que terá que pagar?
– Eu não tenho certeza – respondi, parecendo despreocupado. Então, parei de falar, olhei ao redor da sala com um ar suspeito e baixei a voz para um sussurro (nenhum problema para o Nagra, é claro), acrescentando: – Eu, pessoalmente, não estou nem aí para isso. Tenho tanto dinheiro socado lá fora que estou tranquilo para sempre. E tenho ele escondido aqui e lá… – balancei a cabeça em direção à porta – … em ambos os lados do Atlântico.
O Chef balançou a cabeça, compreensivo.
– Bom – sussurrou, embora seu tom não fosse tão silencioso quanto o meu. – É sua rede de segurança.
Assenti com a cabeça e sussurrei:
– Você sempre me falou isso, Dennis. Se eu tivesse usado seu pessoal desde o início, talvez não precisasse lidar com toda essa merda agora.
O Chef franziu os lábios e assentiu.
– Isso é verdade – disse ele. – Mas não vale a pena chorar sobre o leite derramado.
– Sim, sim, eu sei disso. Um homem deve aprender com os erros, certo? – pisquei. – Bem, este homem aqui tem aprendido da maneira mais difícil. O único problema é que… – baixei a voz de novo – ainda tenho uma tonelada de dinheiro no exterior. Mais de 10 milhões, e não estou muito confortável com quem está perto dele. Essa grana está a apenas dois passos do Saurel, e ele é o safado que delatou!
O Chef jogou as mãos no ar.
– Entãããão, vamos tirar de lá! Qual é o problema?
– Er… Não há problema – disse, e pensei: Caramba, o Chef tinha acabado de se enterrar mesmo na fita! – É que você é o único em quem confio. Quer dizer, meus dias de imprudência se acabaram, sério!
– É bom mesmo – disse ele, erguendo as sobrancelhas. – Em que país está o dinheiro?
– Na verdade, em dois países: Suíça e Liechtenstein – respondi, e minha mente começou a rodar em duas pistas descontroladamente. Na pista 1, as palavras vinham automaticamente, como se gravadas. – Está distribuído por sete contas diferentes, cinco na Suíça e duas em Liechtenstein – e, enquanto continuava falando, a pista 2 começou a organizar todos os tópicos que eu precisava discutir para ter certeza de que minha fita garantiria uma acusação de lavagem de dinheiro contra o Chef: ele tinha de saber que meu dinheiro era produto de atividade ilegal; ele tinha de saber que eu não tinha intenção de relatar a transação para o governo; a quantidade deveria ser superior a 1 milhão de dólares (para receber a pena máxima) e, numa peculiaridade do caso, eu tinha de descobrir uma maneira de amarrar minha lavagem de dinheiro às atividades do Demônio de Olhos Azuis. – … o que não é um problema – estava dizendo a pista 1 ao Chef. – É o dinheiro dos novos lançamentos que Lavigne mandou para mim, a maior parte vindo de Hong Kong. Então, sei que não há como rastrear.
– O que precisamos fazer – disse o Chef – é criar novas contas lá, e precisamos fazê-lo imediatamente. Conheço alguns bons sujeitos para isso, são as mesmas pessoas que eu usei com Bob – Bingo!, pensei. – O que estou pensando, porém, é que devemos ficar longe da Suíça por um tempo, pelo menos até a poeira baixar.
– Concordo totalmente – disse logo. – Eu não gostaria de ver os federais arrancando meu dinheiro. Eu tive de usar um monte de laranjas para gerar esses 10 milhões em dinheiro.
– Não se preocupe – disse o Chef, confiante. – Eles nunca vão encontrar o dinheiro, não com meu pessoal. Eles são especialistas.
Balancei a cabeça rapidamente, enquanto minha mente corria à frente. O Chef sem dúvida já havia incriminado a si mesmo em lavagem de dinheiro, mas apenas em conspiração. Será que eu poderia pressioná-lo ainda mais? Poderia tentar.
– Deixe-me perguntar uma coisa – disse, baixando a voz, como se ainda estivesse paranoico. – E se eu quisesse passar mais dinheiro ao exterior? Eu ainda tenho 5 milhões que Lavigne chutou de volta para mim. Seria ótimo ter esse dinheiro fora do país.
– Não é um problema – disse o Chef. – Eu sei exatamente quem é o cara que pode fazer isso.
É mesmo?, pensei. Puta merda!
– Ah, é mesmo? Quem? – perguntei, não esperando que ele respondesse.
– O nome dele é James Loo – respondeu o Chef, como se eu tivesse apenas lhe pedido o nome de seu carpinteiro. – Eu acho até que você deve conhecer o sujeito, Bob o apresentou faz algum tempo. Ele é honesto e direto como ninguém.
Assenti ansiosamente, me perguntando o que diabos tinha acontecido com o Chef. Ele era um dos mais astutos homens que eu já conheci, mas por alguma razão inexplicável tinha baixado a guarda. E perguntei:
– Então James Loo tem contatos na Suíça?
O Chef encolheu os ombros.
– Pode apostar! Esse cara tem ligações em todos os lugares! Metade da família dele ainda vive na Ásia! Ele vai levar seu dinheiro até Hong Kong mais rápido do que se você fizesse um depósito no Citibank local. E ele tem as pessoas certas em Cingapura, na Malásia… Escolha um lugar e ele terá pessoas lá.
Balancei a cabeça, compreensivo, quase chocado demais para fazer a próxima pergunta. Mas a fiz, de qualquer maneira.
– Então você está dizendo que eu poderia realmente dar meu dinheiro a James Loo e ele mandaria ao exterior para mim, sem ninguém descobrir?
O Chef balançou a cabeça devagar, deliberadamente, e quase com um sorriso no rosto.
– Sim – disse. – Isso não seria um problema para James Loo.
Eu decidi jogar a bomba:
– Ele já fez isso para Bob?
O Chef assentiu novamente.
– Sim, fez, e sem problemas. Bob deu-lhe o dinheiro, e schhhwiitttt! – o Chef bateu com as mãos, com seu movimento deslizante patenteado, fazendo o braço direito voar na direção que ele provavelmente pensou que era a Ásia.
Joguei uma bomba ainda maior:
– E posso me encontrar com ele?
Dessa vez, o Chef recuou em sua cadeira, como se eu fosse louco mesmo questionar uma coisa como aquela. Eu esperava por isso; afinal, minha pergunta tinha sido altamente inadequada, não? Pelo visto não, porque o Chef disse em seguida:
– É claro que pode! O que acha da próxima semana?
– Na próxima semana é perfeito – respondi.
Sem que eu perguntasse mais nada, o Chef imediatamente mergulhou nas várias maneiras diferentes como eu poderia filtrar meu dinheiro de volta para os Estados Unidos uma vez que ele estivesse enfiado em contas numeradas na Suíça e no Oriente. Na verdade, ele parecia apreciar a oportunidade de explicar isso para mim, como se a coisa toda fosse um jogo gigante de gato e rato, sem consequências graves caso o gato ganhasse.
Depois me encontrei com TOC em um novo estacionamento. Entreguei-lhe a fita e disse:
– Você mesmo tem que ouvir isso, Greg, para acreditar – balancei a cabeça lentamente, ainda incrédulo pela imprudência do Chef. – É espetacular.
– Mas por quê? O que tem nessa fita?
– Tudo – respondi –, incluindo a cabeça de Brennan em uma bandeja.
Dei de ombros, não me sentindo tão satisfeito comigo mesmo, de repente. Respirei fundo e soltei o ar lentamente. Todos os homens traem! Dave Beall! Elliot Lavigne! Minha própria esposa!
– De qualquer forma – continuei –, tenho que ir embora, é meu fim de semana com as crianças e quero fugir do tráfego para os Hamptons.
– Tudo bem, eu ligo para você na segunda e a gente vê o que faz.
– Parece bom – respondi, embora tivesse uma suspeita de que nos falaríamos antes disso.
Na verdade, ele me ligou mais tarde naquela mesma noite, enquanto eu estava deitado na cama acordado com as crianças dormindo a meu lado.
Suas primeiras palavras foram:
– Puta merda! – Então ele disse: – Gaito perdeu a cabeça?
– Foi o que eu lhe disse – respondi, suavemente. – É como se ele tivesse um desejo de morrer ou coisa parecida. Não sei, é fodidamente alucinante. Enfim, o que vem a seguir? Defino uma reunião com James Loo?
– Claro que sim! Na verdade, nós precisamos gravar isso em video! Mas nos falamos na segunda-feira. Eu sei que você está com seus filhos, então não quero prendê-lo. Tenha um bom fim de semana. Você merece.
Sim, pensei, outro fim de semana sem valor, comendo modelos e transando com mulheres por uma noite. Eu mereço. Era tudo tão triste e tão solitário. O que eu realmente precisava era encontrar uma garota legal e me apaixonar de novo. Infelizmente, apenas metade desse meu desejo estava prestes a se tornar realidade.