CAPÍTULO 19

O GRANDE DEDO-DURO

Era um daqueles sufocantes dias de verão do início de agosto, uma terça-feira, e a ilha de Manhattan estava sendo asfixiada por uma massa de ar tão pesada e grudenta que, por volta das 10 da manhã, você podia literalmente sentir a atmosfera em sua pele. Mas dentro dos escritórios da firma de advocacia De Feis O’Connell & Rose, perfeição! O ar-condicionado do prédio estava fazendo hora extra enquanto nós três discutíamos os acontecimentos dos últimos sete dias.

Ao contrário de meus advogados, eu estava vestido de acordo com o clima, de camisa polo branca, calças de golfe e mocassins de couro. Claro, eu também usava meias, que escondiam minha tornozeleira do olhar casual de algum intrometido. Agora Magnum tinha o centro das atenções e explicava o resultado de suas negociações com meu bom amigo, o Canalha.

– Obstrução da justiça – declarou orgulhosamente, enquanto se recostava em sua cadeira de couro de encosto alto. – Você se declara culpado e soma mais 30 meses na cadeia. Mas… – e manteve seu dedo indicador no ar – ainda consegue sua carta de recomendação e evita o Armagedom! – ele assentiu com a cabeça uma vez. – É um resultado fantástico, Jordan, especialmente se considerarmos a natureza da pessoa com quem estamos lidando.

– Sim – concordei –, especialmente quando você considera a magnitude da minha idiotice – e balancei a cabeça, espantado. – Vou dizer uma coisa, isso deve ser anotado como a coisa mais idiota que já fiz em toda a minha vida – balancei a cabeça de novo. – E não há nada em segundo lugar… – virei-me para o homem de Yale e ofereci-lhe um sorriso sincero.

Disse a ele:

– Olhe, se não fosse por você, Nick, acho que não teria me safado naquele dia. Você foi incrível, do começo ao fim.

O homem de Yale levantou as sobrancelhas.

– É muito bom ouvir isso de você, mas está preparado para jurar por Deus sobre isso? – perguntou, e começou a rir. – Ou está disposto a fazer um teste no detector de mentiras?

– Foda-se, Nick! Isso é o que todos os culpados dizem quando você os encurrala contra a parede. É um reflexo biológico, não é diferente de uma água-viva que queima os nadadores que passam por perto – dei de ombros. – Ela não pode ser responsabilizada.

– Quem? – Magnum perguntou. – A água-viva?

– Sim, nem a água-viva nem eu, no caso. Eu fiz o que qualquer homem inteligente em minha posição faria: menti o tempo todo, até não ter outra escolha a não ser confessar, e depois implorei perdão – dei de ombros novamente. – Não havia outra maneira.

– Talvez – disse o homem de Yale –, mas Joel sabe disso também.

– Sabe o quê?

– Que todos os culpados juram por Deus.

– Ahhh… Mas não são todos os culpados que se oferecem para passar pelo detector de mentiras – dei uma piscadela para ele. – Você vê? Eu sou diferente, Nick!

Nada além de silêncio.

– Enfim, o que posso dizer? Vocês são os melhores! E você, Nick… Bem, estou tão endividado com você que me disponho a esquecer seu último insulto e seguir em frente com essa relação. – Olhei para Magnum. – Então, diga-me, Greg, quando preciso me declarar culpado deste meu último crime?

– Em algum momento no outono – respondeu ele –, embora a gente vá arrastar isso pelo máximo de tempo que conseguir. Mas, lembre-se, a acusação de obstrução da justiça não vai entrar em sua carta de recomendação da Promotoria, de forma que Gleeson será duro com você.

Mas eu tinha agido como homem!

– Bem, dois anos não é um preço assim tão alto a pagar por meu respeito próprio. Na verdade, talvez um dia eu possa explicar tudo para Carter e ele vai se orgulhar de mim – olhares estranhos vindos de meus advogados – ou talvez não. Enfim, na verdade prefiro acabar logo com tudo isso que ficar adiando. Você entende o que estou dizendo?

Magnum olhou para mim com os lábios franzidos. Olhei para o homem de Yale e ele me olhava da mesma maneira.

– Tudo bem – eu disse –, o que estou deixando de entender aqui?

– Beeemmm… – disse o tenor –, deixe-me começar a explicar como as coisas aconteceram na Procuradoria ontem. Havia cinco de nós na reunião. Nick, eu e Joel, claro, além de Coleman e alguém chamado Ron White, que acaba de ser nomeado chefe da divisão criminal.

Eu me animei.

– Sim, conheço esse Ron White! Ele uma vez me interrogou sobre outro caso. Ele é um cara muito legal. Pena que não é meu promotor em vez desse Joel.

Magnum assentiu, de acordo.

– Sim, isso seria bom, mas, infelizmente, ele não é. Por isso, é com Joel que devemos lidar e, da mesma forma, é Joel quem tem de lidar com você. Assim, por mais legal que Ron White seja, ele ainda tem de dar passagem ao Joel no seu caso.

– Pensei que Joel estivesse saindo da Promotoria.

– E está – disse Magnum –, e é por isso que não estamos correndo com sua petição. Veja, se a gente adiar até depois que ele vá embora, então poderemos tentar renegociar com o próximo promotor, que esperamos que seja – e Magnum piscou – mais solidário à nossa causa.

– Isso é brilhante! – exclamei.

Que sistema de justiça mais louco, pensei. Se eu fosse pobre ou mesmo da classe média, estaria na cadeia, congelando minha bunda e perdendo a melhor parte de meus 30 anos.

O homem de Yale disse:

– Nosso primeiro objetivo será tentar reduzir a obstrução da Justiça por mentir a um oficial federal, que é de longe menos grave.

– E não tem um tempo obrigatório na prisão – Magnum acrescentou com uma piscadela.

– Correto – disse o homem de Yale, com um encolher de ombros. – É claro que seria ainda melhor se pudéssemos convencê-los a deixar a coisa toda de lado, embora não ache que seja muito realista. Joel já soltou o gênio da garrafa, então iria parecer que a Procuradoria estava indecisa se revogassem tudo.

Fazendo o papel do advogado do diabo, eu disse:

– O que vocês estão dizendo parece lógico, mas e se o próximo promotor for ainda pior que Joel? Eles podem recusar todos os acordos vigentes?

– Duas boas perguntas – respondeu Magnum. – Sob nenhuma circunstância sua posição pode ficar pior. Obstrução da Justiça é muito duro e tenho certeza de que Ron White concordaria comigo nisso. Quase ninguém seria pior que Joel Cohen, exceto Michele Adelman. Mas ela não vai assumir este caso, porque já está com as mãos amarradas aterrorizando Victor Wang. A maioria dos promotores deixaria você sair com uma severa advertência, mas, por alguma razão, Joel armou essa para você.

O homem de Yale interveio:

– Acho que Joel está bastante envolvido emocionalmente em seu caso.

E também ele é um imbecil de merda!, pensei.

– Em outras palavras – continuou Nick –, ele perseguiu você por tanto tempo que não consegue evitar de olhá-lo como “o bandido que costumava ser”, por falta de termo melhor, em vez de “o cidadão honrado que é agora”, que seria uma definição mais correta.

Magnum entrou na conversa:

– Nick acertou na mosca com essa explicação, e é por isso que é tão importante esperar as coisas acontecerem. O próximo promotor não terá nenhuma ligação com você; a única pessoa que ele vai conhecer é o Jordan Belfort que faz parte da equipe Estados Unidos.

– E Coleman? – perguntei. – Ele me perseguiu por mais tempo que todos os outros juntos.

Nick disse:

– As coisas são diferentes para um agente do FBI, especialmente em um caso como o seu, onde não houve nenhuma violência. Você tinha a reputação de ser um cara brilhante, então Coleman respeita você. Você nunca foi apenas um mané qualquer que violou a lei.

– Para sua informação – acrescentou Magnum –, é por causa de Coleman, principalmente, que Joel não rompeu seu acordo. Ele se posicionou a seu lado de maneira muito impressionante ontem. Ele defendeu a posição de que, com exceção do bilhete para Dave Beall, você tinha sido um cooperador de primeira classe. Ele também disse que vocês estão trabalhando em um caso muito grande agora. Você sabe do que ele estava falando?

Acenei com a cabeça.

– Sim, Gaito e Brennan. Não tivemos muita sorte até agora, mas acho que isso logo deve mudar. Na verdade, tenho um encontro com Coleman logo depois daqui e vou dar um pequeno presente para ele.

– O que é? – perguntou Magnum.

Cerrei os dentes, irritado com a recente série de traições por parte de homens que tinham tido a audácia de se denominarem meus amigos.

– Uma pequena receita sobre como cozinhar um Chef – respondi friamente, porque, no meu lugar, ele faria a mesma porra contra mim.



PARECIA BASTANTE APROPRIADO que nós estivéssemos em Brooklyn Heights quando finalmente eu contasse a TOC a história de como eu e a Duquesa nos conhecemos e como ela roubou meu coração, levando-o para longe de Denise. Afinal, fora ali, naquele valorizado bairro, a algumas quadras da Procuradoria e a poucos quarteirões do Palácio da Justiça Federal, que eu tinha buscado a Duquesa em nosso primeiro encontro.

Naquela época, ela alugava um apartamento de um quarto em um prédio baixo na rua Joralemon, que ficava a apenas um quarteirão do restaurante chinês onde TOC e eu estávamos almoçando agora. Obviamente o tema principal do almoço não era a sordidez de minha vida pessoal, mas eu senti que, depois de tudo o que TOC tinha feito para mim, devia isso a ele. Afinal, nenhum americano de sangue vermelho, nem mesmo um dedicado agente do FBI, poderia resistir a uma história como aquela, em que os principais ingredientes eram sexo, drogas, ganância, luxúria, divórcio, traição e loiras. Eu já estava explicando como nossos caminhos tinham se cruzado pela primeira vez.

– … e eu organizava essas festas malucas na minha casa de praia e a política era de portas abertas total. Tudo o que você tinha de fazer era aparecer, sorrir e estava dentro. Foi o melhor método de recrutamento de todos os tempos.

Fiz uma pausa e dei uma mordida numa panqueca de carne de porco mu shu que eu tinha acabado de enrolar como se fosse uma articulação, enquanto TOC experimentava uma garfada de seu prato favorito, frango chow mein.

Depois de alguns segundos, eu disse:

– Você estava certo, a comida é realmente muito boa por aqui.

TOC assentiu com a cabeça.

– Os preços são baixos também. Para dizer a verdade, eu não sei como esse lugar continua aberto. O aluguel não deve ser barato por aqui.

Dei de ombros.

– De repente estão pagando 6 centavos a hora para os garçons e ameaçando matar seus parentes na China se reclamarem.

– Provavelmente – disse o agente do FBI. – Mas, se isso é o necessário para se cobrar 5,95 dólares por um prato de frango chow mein, o que se pode fazer, certo?

Depois de colocar o garfo de volta na comida e suspendê-lo no ar, ele disse:

– Então, você estava dizendo…?

Assenti e coloquei minha panqueca de volta no prato.

– No começo, as festas eram relativamente pequenas, talvez com algumas centenas de pessoas no máximo, mas, ao longo do tempo, elas chegaram aos milhares. E, como tudo relacionado a Stratton, cada festa tinha de ser mais radical que a última.

TOC depositou seu garfo no prato.

– Por que isso?

Dei de ombros.

– Dessensibilização, principalmente; você sabe, o que parecia muito louco em 1989 não parecia tão selvagem em 1991. Era isso e também o fato de que a Stratton foi uma sociedade autocontida. Nós éramos como a antiga Roma, de certa forma, mantidos juntos pela sede de sangue para testemunhar atos de depravação. Em Roma eles costumavam alimentar os leões atirando-lhes escravos; na Stratton, costumávamos arremessar anões em um alvo de velcro.

Fiz uma pausa e dei outra mordida na panqueca.

– Enfim, as primeiras festas foram relativamente inofensivas. Havia DJs com seus discos, pessoas dançando, tínhamos um open bar, alguns aperitivos, talvez um pouco de drogas, mas isso era tudo. Avançando alguns anos, já era a mais completa e absoluta insanidade. Havia milhares de pessoas na minha casa, literalmente vazando pela rua e pela praia, e no deque dos fundos havia tanta gente que parecia que ia desabar. A Dune Road ficava totalmente obstruída, lotada de strattonitas, e tudo isso era supervisionado pelos policiais de Westhampton, para que a festa continuasse, apesar das reclamações dos vizinhos. Enquanto isso, uma banda tocava ao vivo, malabaristas faziam malabarismos, dançarinos dançavam, prostitutas se prostituíam, strippers se desnudavam, acrobatas faziam cambalhotas e um anão andava por lá vestido de macacão, simplesmente por uma questão de diversão. Na praia, eram servidos enormes peixes-porcos e lagostas, que giravam num espeto ao lado de um leitão recheado com uma maçã na boca. Para ter certeza de que ninguém ficaria com sede, duas dúzias de garçonetes seminuas andavam por ali, carregando bandejas de prata com copos de Dom Pérignon.

– Caramba – murmurou TOC, e comeu outra garfada de chow mein.

– Enfim, conheci Nadine no final de semana de 4 de julho de 1990, e ainda era relativamente cedo, de forma que ela ainda não estava totalmente ensandecida quando passou pela porta. Eu estava na minha sala de estar na ocasião, jogando sinuca com Elliot Lavigne – que pensamento maravilhoso! –, que, por acaso, está ganhando rios de dinheiro mais uma vez.

– Sério? – disse TOC, colocando o garfo no prato. – Eu pensei que ele estivesse quebrado.

Eu balancei a cabeça.

– Não mais, ouvi dizer que ele está voando alto outra vez – disse, mas como e onde tinha ouvido a conversa, optei por manter segredo. – Está mexendo com roupas e confecções, mas não sei de todos os detalhes, embora a fofoca seja de que ele está faturando milhões.

– É incrível – disse TOC –, considerando que o cara é um completo degenerado.

– Sim – concordei. – E, conhecendo Elliot, ele provavelmente ainda deve estar contrabandeando dinheiro para Hong Kong. – Dei de ombros. – O que me surpreende é o fato de você e Joel nunca terem ido atrás dele. Quer dizer, esse cara me trouxe mais dinheiro que todos os outros somados.

TOC deu de ombros.

– É um caso difícil. Nós intimamos os registros bancários dele há algum tempo, mas havia muito pouco dinheiro entrando e saindo para encontrarmos um padrão. Nesse sentido, ele foi uma boa escolha para um laranja.

– É mesmo? – rebati. – Bem, eu me lembro de uma vez em que a secretária dele encheu uma sacola de ginástica com 700 mil dólares em dinheiro e, em seguida, entregou a meu antigo motorista, George, para que a trouxesse. Tenho certeza de que todo aquele dinheiro foi sacado do Bank of New York no mesmo dia e enviado diretamente do banco para a secretária, depois para George e então para mim.

TOC torceu os lábios.

– E como você sabe disso?

– Porque a secretária me ligou e disse que tinha acabado de sacar o dinheiro, para que eu mandasse George ir apanhá-lo antes que Elliot o pegasse e torrasse tudo no jogo. E quando George trouxe o dinheiro para mim, estava suando em bicas e me lançando olhares estranhos. Ele nunca me disse nada diretamente, mas comentou algo com Janet e então ela me contou. Aparentemente, George ficou curioso, abriu a sacola e quase capotou – dei de ombros. – Enfim, tudo que você tem a fazer é mandar uma intimação para George, Janet e a secretária de Elliot, depois investigar os registros do banco, e o resto é história.

TOC olhou para mim por um segundo. Então ele deu outra garfada no chow mein e começou a mastigar. A mensagem implícita era: “Vou verificar isso. Volte para sua história”.

Eu respirei fundo e disse:

– Enfim, Elliot e eu estávamos jogando sinuca quando o Cabeça Quadrada veio correndo sem fôlego, dizendo: “Vocês têm que ver essa menina saindo da Ferrari, ela não existe!”, e, claro, como se tratava do Cabeça Quadrada falando, considerei aquilo um exagero. Mas, em seguida, ele literalmente me arrastou para a porta da frente. Foi quando eu vi Nadine pela primeira vez – sorri com a lembrança. – Eu me senti como Michael Corleone em O poderoso chefão, quando ele vê Apolônia pela primeira vez; ela estava andando pelos campos de oliveiras na Sicília, e quando Michael a vê é atingido por aquele raio. Fiquei totalmente encantado por ela – fiz uma pausa e olhei para minha panqueca, considerando se dava ou não uma mordida. Levantei os olhos, percebendo que tinha perdido o apetite. – O que mais me lembro são das pernas dela. Sempre amei as pernas da Duquesa, e a bunda também. É mais redondinha que a de uma porto-riquenha, no caso de você já ter percebido – e pisquei.

TOC começou a rir.

– Enfim, trocamos apenas algumas palavras, porque ela apareceu acompanhada, e então os strattonitas começaram a torturá-la – continuei.

– Como assim? – perguntou TOC.

Dei de ombros.

– Eles ignoraram o fato de ela ter vindo com o sujeito e começaram a dar em cima dela como se ele não existisse. E a coisa toda se complicou quando fomos apresentados. A gente estava perto da mesa da piscina e ela disse alguma coisa do tipo “Essa casa é muito bonita” e eu respondi “Obrigado”, mas aí ela ficou de cara no chão. Eu me virei e vi Mark Hanna, que era um dos meus corretores na época. Ele estava de pé poucos metros atrás de mim olhando fixamente para ela e batendo uma punheta.

TOC se encolheu no lugar:

– Mas… como assim?

Dei de ombros.

– Ele abaixou as calças até os joelhos e estava dando trabalho ao seu cacete. E então a mulher dele, Fran, veio correndo e gritando: “Mas que porra há de errado com você, Mark? Levante essas calças!”. Ele levantou as calças e Fran começou a esmurrá-lo. Nesse momento, virei-me para Nadine, esperando ver um olhar de espanto no rosto dela ou talvez mesmo medo, mas, em vez disso, eu vi a raiva naquele rosto gelado. Ela estava com os olhos estreitos e os punhos cerrados de raiva e se inclinava para a frente como se estivesse se preparando para dar uma porrada em Mark. Claro que eu naquela época não sabia que ela era uma menina do Brooklyn; ela parecia ser da Austrália, da Escandinávia ou de algum lugar como esses. Enfim, de repente, Denise entrou em cena e sentiu o perigo de uma forma que só uma mulher pode fazer, e então eu ouvi o namorado de Nadine dizer: “Muito bem, está na hora de irmos embora”. Nadine e eu estávamos dizendo “Não, não, ainda não”, mas Denise começou a apressar os dois porta afora. Enquanto tudo isso acontecia, a festa estava no auge, com a música detonando e o champanhe fluindo. No instante em que estava saindo, Nadine se virou e lançou-me um sorriso travesso e, em seguida, um segundo depois, o namorado dela a arrancou da porta como se fosse uma boneca de pano. Fiquei olhando aqueles longos cabelos loiros flutuando atrás dela, e então ela foi embora. Foi como nos filmes.

Fiz uma pausa e fiquei um momento estudando TOC. Ele parecia gostar imensamente da minha história. Ainda continuava desfrutando de sua comida, mas tinha aquele olhar de expectativa selvagem no rosto. Sim, eu pensei, apesar do crachá e da arma, era um homem como qualquer outro. Ele disse:

– Entãããããão… – e girou seu garfo em pequenos círculos.

Assenti com a cabeça:

– Bom, para encurtar a história, no segundo em que Nadine foi embora, comecei a perguntar a todo mundo quem era ela, e depois passei o restante do verão tentando cruzar com ela de novo, o que conseguia de vez em quando, mas nessas ocasiões eu estava sempre com Denise. E Denise sempre dizia algo como: “Ah, olhe! Lá está aquela menina loira bonita da festa, lembra-se dela?”. E eu dizia: “Ah, sim, deve ser ela…”, mas meu tom estava mais para: “Que bela merda”. Para me dar crédito – revirei os olhos –, suportei até o Dia de Ação de Graças, quando finalmente desisti e paguei alguém para marcar um encontro com ela.

Os olhos de TOC saltaram:

– Você fez o quê?

Dei de ombros timidamente.

– Sim, eu sei que isso parece meio ridículo, mas é assim que as coisas são. A gente não tinha de fato muitos amigos em comum, exceto essa menina chamada Ginger, que era uma completa mercenária. Então ela veio com essa merda para cima de mim, dizendo “Pô, Jordan, você é um cara casado, não quero me meter nisso”, e eu disse: “Tudo bem, Ginger, e se eu lhe der 10 mil em dinheiro, isso vai acalmar sua consciência?”. Lógico que no dia seguinte eu tinha o telefone de Nadine na minha mão e Ginger já tinha dito maravilhas a meu respeito.

– Cara – disse TOC –, mas que tipo é essa Ginger, hein? – ele balançou a cabeça, espantado. – E o que Nadine disse sobre você ser casado?

Dei de ombros inocentemente.

– Bem, essa foi a primeira coisa que ela perguntou quando telefonei, então fiz a única coisa que poderia fazer um homem casado: falei “Estou no meio do processo de divórcio”.

Os olhos de TOC se arregalaram de novo.

– Você não pensou que poderia ser pego mentindo para ela?

Balancei a cabeça rapidamente.

– Não, não foi exatamente desse jeito. Quer dizer, não foi como se eu dissesse sem rodeios: “Estou me divorciando amanhã”. Eu meio que pintei um retrato de que as coisas não estavam indo muito bem em meu casamento. Você sabe, que estávamos avaliando se íamos nos divorciar ou não.

TOC começou a rir.

– Sim, estou falando sério! Isso foi exatamente o que eu disse a ela. Isso é o que todo cara casado diz quando começa um caso – ergui as sobrancelhas. – É o que você chamaria de procedimento operacional padrão. De qualquer forma, não deixava de existir um pouco de verdade em minhas palavras; não que eu estivesse avaliando a ideia de me divorciar, mas meu casamento com Denise estava de fato sentindo os efeitos da Stratton. Nós dois nunca estávamos sozinhos e já tínhamos conhecido Elliot e Ellen. E se você acha que Elliot anda meio fora de órbita, precisa conhecer a descontrolada da Ellen, esposa dele. Enfim, eu não quero colocar a culpa em Elliot e Ellen, mas o pouco da magia que ainda existia entre mim e Denise foi esmagado quando nós quatro começamos a sair juntos. Antes disso, a gente praticamente não fazia uso de drogas e Denise era uma garota linda, até Ellen enfiar as garras nela. Antes que eu me desse conta, Denise estava usando roupas Chanel e relógios Bulgari e tomando Quaaludes durante o dia. Não me entenda mal, eu não estava chateado com Denise por ela gastar dinheiro nessas coisas. Meu dinheiro era dela e eu estava ganhando tanto e tão rápido que não fazia nenhuma diferença. Só que aquela não era mais a Denise, entende? O que a fazia maravilhosa era a pureza dela, o fato de ela sair para jantar usando camiseta e jeans e ainda assim parecer fabulosa. Essa era Denise, não aquela perua usando roupas e joias caras. Ela era boa demais para isso. Enfim, quando conheci Nadine, Denise e eu estávamos passando mais tempo separados que juntos, e eu estava dormindo com as putas Blue Chips, tipo a 1 centavo a dúzia. – Dei de ombros e balancei a cabeça, triste. – Quando Nadine e eu saímos pela primeira vez, recebi muito mais do que esperava, ou seja, uma loira burra que eu poderia encher de presentes em troca de algumas atracações.

TOC inclinou a cabeça para o lado.

– Atracações?

– Sim – respondi –, atracações: como se meu pau fosse o barco e a boceta dela o atracadouro. – Dei de ombros inocentemente. – Enfim, Nadine, como se viu, não era uma loira burra, e no final da noite eu estava totalmente cativado por ela. Quando nós estacionamos o carro na frente de seu apartamento, eu estava tentando descobrir uma maneira de seduzir a garota, mas nunca tive a chance, porque ela saiu direto com um “Você quer subir para uma xícara de café?”. Quando percebi, eu já estava em seu minúsculo apartamento, dizendo: “Nossa, Nae, este apartamento é muito legal”, mas o que realmente estava pensando era: como vou fazer para levar essa garota para a cama? Mas aí ela disse: “Por que você não acende a lareira? Eu preciso ir ao banheiro por um segundo”. Então eu disse: “Lógico!”, mas me lembro de ter ficado um pouco chocado de uma garota tão linda como aquela ter que ir ao banheiro! Quer dizer, ela parecia perfeita demais para cagar, entende o que eu quero dizer?

TOC começou a rir.

– Você é demente, sabia disso?

– Claro – respondi, orgulhoso –, mas isso não vem ao caso. Bem, enfim, lá estava eu, agachado na frente da lareira, buscando em minha cabeça demente a frase certa que a levasse para a cama, e então escutei: “Olá, voltei!”. E quando me virei, lá estava ela peladinha, da maneira como veio ao mundo.

O queixo de TOC caiu.

– Você está brincando comigo!

– Não mesmo… Acabei dormindo lá naquela noite e disse a Denise que tinha ficado preso em Atlantic City, e as coisas rapidamente entraram numa espiral fora de controle. No início, a gente só se via uma vez por semana, às terças à noite. Nem nos falávamos nesse intervalo. Depois, começamos a nos falar todos os dias por telefone, apenas por alguns minutos, para saber como estávamos passando o dia. Mas isso logo se transformou em algumas horas por dia, embora eu não saiba direito quantas. Então eu percebi que precisava passar alguns dias sozinho com ela, você sabe, para resolver tudo de uma vez. Então falei para Denise que precisava ir para a Califórnia a negócios. E esse foi o fim: Nadine e eu ficamos loucamente apaixonados e começamos a falar pelo telefone sem parar e a nos encontrar durante as tardes para liberar nossos hormônios acumulados! Foi em algum momento no final de janeiro que eu finalmente disse a Denise que precisava de espaço e me mudei para a cidade, para Olympic Towers. Ironicamente, Denise ainda não fazia ideia de que eu estava tendo um caso. Eu tinha sido muito cuidadoso com as coisas, pelo menos no início, mas depois que me mudei para a cidade isso mudou muito. Em meados de fevereiro, Nadine e eu estávamos dançando em boates e de mãos dadas numa mesa no Canastel, que era um dos restaurantes mais quentes de Manhattan naquela época. Todo mundo me conhecia lá e alguém, eu acho, telefonou a Denise uma noite para lhe dar a notícia de que eu estava jantando com Nadine. Algumas horas mais tarde, quando minha limusine estacionou em frente ao Olympic Towers, a porta de entrada do prédio se abriu e, em vez do porteiro, quem estava lá era Denise. E, para deixar as coisas ainda piores, eu estava abraçando Nadine naquele momento, envolvido em um apaixonado beijo e dizendo-lhe como a amava. “Você fica dentro dessa porra desse carro!”, gritou Denise para Nadine. “E você saia dessa porra desse carro!”, ela gritou para mim. Então ela deu uma boa olhada no rosto de Nadine e seu queixo caiu: “Você é a menina da festa…”. De repente, as duas estavam chorando ao mesmo tempo.

Fiz uma pausa e balancei a cabeça, tristemente.

– Então me virei para Nadine, que estava branca como um fantasma, e apertei sua mão de forma tranquilizadora. “Eu preciso cuidar disso”, disse suavemente. “Por que não vai para casa e eu ligo mais tarde, tudo bem?” “Sinto muito…”, disse ela, entre lágrimas, “Eu não quis que isso acontecesse, me sinto péssima!”. Era verdade, claro. Nenhum de nós queria que aquilo acontecesse e estávamos nos sentindo mal. Mas tinha acontecido, e o fato de nos sentirmos mal não ia facilitar as coisas para Denise…

Balancei a cabeça lentamente, tentando fazer com que as coisas tivessem mais sentido.

– De certa forma, você não escolhe por quem vai se apaixonar, não é? Apenas acontece. E quando você realmente se apaixona, essa paixão que o consome, um amor sensual, em que duas pessoas vivem e respiram o outro 24 horas por dia, o que você faz? – encolhi os ombros e respondi à minha própria pergunta. – Não há nada que se possa fazer. Não dá para ficar sem a outra pessoa por mais que algumas horas sem enlouquecer. Era esse tipo de amor que Nadine e eu tínhamos. A gente passava cada momento possível juntos. Mesmo quando eu ia para o trabalho, que era raramente, ela dirigia até Long Island comigo e arranjava com que se ocupar até a hora do almoço. E quando tinha seus compromissos de modelo, eu a deixava no local e ficava esperando até que terminasse. Ficamos obcecados um com o outro.

Fiz uma pausa e continuei:

– Enfim, a limusine foi embora e ficamos apenas Denise e eu. O porteiro correu para dentro do prédio quando ouviu Denise gritando comigo. Ela estava berrando a plenos pulmões: “Como pôde fazer isso comigo? Eu me casei com você quando não tinha nada! Fiquei a seu lado segurando as pontas na miséria! Quando estava quebrado, fiz comida para você! Fiz amor com você! Fui uma boa esposa! E é desse jeito que você me retribui? Como pôde fazer isso?”. No começo, tentei justificar, mais pelo instinto mesmo, porque na verdade não havia o que dizer. Ela estava totalmente certa e nós dois sabíamos disso. Então, fiquei lá, parado, pedindo perdão a ela e me desculpando, dizendo que não queria que tivesse acontecido. Até que, por fim, ela disse: “A única coisa que quero saber é: diga-me que não está apaixonado por ela”. Ela me agarrou pelos ombros e olhou em meus olhos; havia lágrimas escorrendo por seu rosto. Ela disse: “Olhe-me nos olhos e diga-me que não está apaixonado por ela, Jordan. Por favor. Se você não estiver apaixonado por ela, a gente pode resolver isto!”. Mas, depois de alguns segundos, balancei a cabeça e disse: “Desculpe, mas estou apaixonado por ela, sim. Eu não quis que isso acontecesse”. E comecei a chorar. “Vou cuidar sempre de você, você nunca vai passar necessidade.” Mas não adiantou. Ela irrompeu em lágrimas e começou a tremer em meus braços.

Balancei a cabeça, triste.

– Posso lhe dizer que me senti o maior sacana do mundo naquele momento. Denise continuou chorando incontrolavelmente, bem ali na rua. Mas aí, do nada, sua amiga Lisa emergiu das sombras, agarrou Denise e abraçou-a. Lisa me disse: “Está tudo bem, Jordan. Eu vou cuidar dela agora. Ela vai ficar bem”. Piscou para mim e levou Denise embora. Fiquei surpreso com aquilo. Quer dizer, eu esperava que Lisa me olhasse com sangue nos olhos, mas não foi assim. O que eu não sabia na época é que Lisa estava no meio de seu próprio enrosco, que veio à tona alguns meses depois, quando foi apanhada traindo o marido com um playboy de Long Island. Depois ela se divorciou também – olhei para TOC e dei de ombros. – E é isso, Greg. Esse era o Estilo de Vida dos Ricos e Malucos na costa norte de Long Island. E não é uma imagem bonita.

Passamos depois alguns minutos falando sobre o que aconteceu em seguida, meu casamento com Nadine, o nascimento de meus filhos, meu crescente vício em drogas e, finalmente, entramos no assunto do Chef.

– O problema – disse eu – é que pessoas como Dennis e eu ficamos tão presos a nossos falsos álibis que, quando falamos sobre o passado, nos referimos mais às mentiras que à história real. Não tem nada a ver com ele achar que estou grampeado. Porque, se fosse assim, ele nem retornaria minhas ligações. Na verdade, mais que qualquer outra coisa, tem a ver com certo protocolo: quando você fala sobre o passado, comece mencionando a história que lhe serviu de álibi. É por isso que, quando se ouve a fita, Dennis sempre começa dizendo coisas do tipo: “Sempre existem duas versões das coisas, a nossa versão e a versão deles”. Daí ele começa a falar sobre júris e dúvida razoável, e por aí vai.

TOC assentiu com a cabeça.

– É um ponto válido, e, claro, estou ciente disso. Ao longo do tempo, as pessoas tendem a ficar desleixadas. Então podemos esperar que ele baixe a guarda.

Neguei com a cabeça.

– Isso não vai acontecer com o Chef. O álibi que ele criou é, para ele, mais verdadeiro que a realidade. É por isso que nós temos de tomar um rumo diferente.

– E qual seria?

– Bem – disse, confiante –, acho que é hora de deixar o passado para trás e olhar para o futuro.

E, com isso, contei meu plano a TOC.

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