CAPÍTULO 23

REVIRAVOLTAS DO DESTINO

O único jornal que a KGB tinha lido em sua vida fora o Pravda, o mais respeitado jornal da antiga União Soviética. Em russo, a palavra pravda quer dizer verdade, o que de certa forma era irônico, considerando que, enquanto a União Soviética existia, o Pravda nunca publicou nada que fosse remotamente próximo da verdade. O Pravda atual era substancialmente mais preciso que o Pravda de então, e tudo o que me importava naquele 21 de setembro, dia em que minha cooperação seria anunciada, era que aquele jornal não dedicasse nem um mísero caractere em cirílico ao assunto mais quente da atualidade nos Estados Unidos: o Lobo de Wall Street tinha secretamente se declarado culpado meses antes e desde então tinha cooperado com os federais, por mais de um ano.

Assim, enquanto 99% dos americanos estavam lendo seus jornais da manhã e dizendo “Isso é ótimo! Eles finalmente pegaram aquele sacana!” e o outro 1% estava lendo seus jornais da manhã e dizendo “Isso é péssimo! Aquele desgraçado agora vai nos entregar!”, a KGB estava lendo o Pravda e xingando os rebeldes chechenos, que, em sua mente, eram inúteis cães muçulmanos que mereciam receber uma bomba atômica na cabeça.

Era isso o que eu mais amava na KGB: não o fato de ela arder de desejo de transformar os chechenos em pó radioativo (eu me opunha a isso), mas ao fato de que ela estava completamente alheia ao que vinha acontecendo em minha vida. Melhor ela continuar focada nos cães chechenos, pensei, que saber que vivia com um rato.

Naquele momento específico, ela estava sentada com Carter no sofá da sala de TV, olhando para uma tela de 40 polegadas de alta definição. Até a última gota de sua energia mental estava concentrada em um corajoso e geneticamente melhorado marsupial chamado Crash Bandicoot, que estava fazendo o que ele sempre fazia: correndo para sobreviver.

– O que vocês estão fazendo? – perguntei aos dois videoólicos.

KGB me ignorou; ela estava muito ocupada com os controles do PlayStation, seus polegares se movendo para cima e para baixo em um ritmo frenético. Carter, no entanto, estava apenas observando, embora estivesse tão extasiado que também me ignorou. Seus olhos eram grandes como os de uma coruja, os cotovelos apoiados em suas coxas com o queixo pequeno em suas mãos.

Cheguei perto de Carter e perguntei:

– O que está fazendo, filho?

Ele levantou os olhos e balançou a cabeça em reverência.

– A Yuya é inclível, pai… Ela… Ela… Ela… – Carter não conseguia fazer as palavras saírem – … ela está numa fase nova. Ela está lutando com monstros que eu nunca vi antes. Ninguém jamais viu!

– Olha aqui – murmurou a KGB para Carter, enquanto ajudava o personagem em sua fuga. – Se eu capturar máscara dourada me tornar invencível!

Carter olhou para a tela da TV, boquiaberto. Após alguns segundos, ele sussurrou:

– Invencível!

Sentei-me ao lado de meu filho e coloquei o braço em volta dele.

– Ela é muito boa, hein?

– Use o ataque de salto! – gritou ele para a KGB.

– Não – respondeu ela. – Para derrotar esse monstro devo usar ataque de rotação!

– Ohhhh… – disse ele, suavemente.

O ataque de rotação, pensei. É só dizer o artigo, porra! Ainda assim, não havia como negar que KGB era a mais habilidosa das jogadoras de videogame de toda a porra do planeta – Pac-Man, Super Mario, Asteroids, Donkey Kong, Hércules e, claro, sua mais recente obsessão, Crash Bandicoot, o marsupial geneticamente melhorado da ilha Wumpa, no oeste da Austrália. Ela havia vencido todos eles, alcançando níveis com que meros mortais, como Carter, nunca ousaram sonhar.

Enquanto assistia a Yulia dobrar seu glorioso corpo daquele jeito e meu filho Carter inclinar seu corpinho do mesmo jeito, me vi perguntando a mim mesmo o que é que fazia Yulia Sukhanova funcionar. Ela jogava videogames não menos que oito horas por dia, gastando o resto do tempo na leitura de livros russos, balbuciando no telefone em russo ou sussurrando doces besteiras russas em meu ouvido enquanto fazíamos amor. Ela residia nos Estados Unidos, sim, mas só no sentido físico. Seu coração e sua alma ainda estavam na Rússia, presos em um túnel do tempo geopolítico no ano de 1989, mesmo ano em que ela foi coroada Miss União Soviética.

Intelectualmente, ela era brilhante. Ela se destacava em xadrez, damas, gamão, Gin Rummy e, para falar a verdade, em todos os jogos de azar, que jogava com um ar de traficante, e odiava perder mais que qualquer coisa. Seus pais estavam ambos mortos; o pai tinha sucumbido a um ataque cardíaco quando ela tinha apenas 9 anos. Yulia e o pai eram próximos, e sua morte a traumatizou. Ele tinha sido um homem importante na União Soviética, um cientista de foguetes com o grau de segurança mais alto, e mesmo após sua morte a família sempre recebera cuidados. Ela nunca precisou pedir nada. Filas do pão, prateleiras vazias no supermercado, roupas sem graça, coisas como essas estavam tão longe da infância de Yulia como tinham sido da minha. Sua vida tinha sido encantada e, pelos padrões soviéticos, houvera riqueza.

Sua graça e beleza tinham vindo da mãe. Eu já tinha visto fotos, era uma loira de tirar o fôlego, de olhos azuis e com o mais quente dos sorrisos. Em sua época, de acordo com Yulia, sua mãe fora ainda mais bonita que ela e tinha uma posição muito importante no mundo artístico. Em consequência, Yulia havia crescido em um apartamento chique de Moscou, onde um desfile interminável de famosos artistas soviéticos – atores, pintores, escultores, cantores e dançarinos de balé – festejavam nas primeiras horas da noite, bebendo vodca Stolichnaya e cantando canções russas.

Sua mãe não tinha morrido de causas naturais: fora assassinada, morta a facadas em seu apartamento, e é aí que a história tinha se tornado sombria. Sua morte tinha acontecido pouco depois de Yulia ter sido coroada Miss União Soviética e, literalmente, coincidiu com uma disputa sobre quem tinha “direitos” sobre o trem da alegria que Yulia Sukhanova havia se tornado. Muitos eram suspeitos do assassinato, mas ninguém jamais foi acusado. Então, quem a matou? Foi a KGB? Ou a máfia russa? Um empresário falido tentando extorquir Yulia por seus ganhos como modelo? Ou fora simplesmente um ato aleatório de violência?

Qualquer que fosse a resposta, aquela era a garota por quem eu havia me apaixonado, uma garota que amava seu país, mas estava relutante em voltar para lá até mesmo como visitante. Na verdade, ela nem mesmo voara de volta para o funeral de sua mãe, e, embora ela não dissesse isso, eu sabia que era por medo. Igor, que ela ainda teimava em dizer que era seu cunhado, casado com a irmã mais velha, Larissa, não tinha ido também, embora em seu caso, ela admitiu, ele pudesse ter ido se quisesse. Ele era um homem procurado em seu país, mas não pela lei. Havia “outros”, disse ela, em cujos dedos Igor tinha pisado, e tinha algo a ver com ela. E foi isso. Por mais que tentasse, ela se recusou a ir mais longe com a história.

À medida que minhas circunstâncias entravam em jogo, eu estava certo de que ela sabia mais do que deixava entrever. No dia em que minha colaboração foi anunciada, eu ofereci-lhe uma breve explicação do que estava acontecendo, destacando o incidente com Dave Beall e como, apesar de ele voltar a me perseguir, eu ainda sentia que tinha feito a coisa certa. Tinha mantido minha autoestima, disse a ela, e ela agarrou minha mão e apertou-a de modo tranquilizador. Quando o Chef foi indiciado, duas semanas depois, contei a ela sobre isso também, como ele havia sido meu contador, um amigo leal, que parecia sentir uma alegria irracional em montar “conspirações”, o que, em última instância, o levara à sua ruína – ao que ela disse que não existem amigos nos negócios e que, se eu não tinha aprendido a lição com Dave Beall, então eu nunca o faria.

Ela passou boa parte do tempo me contando sobre a grande alma russa, a Velikaya Russkaya Dusha, e como nenhum americano poderia realmente entendê-la. Honestidade, integridade, sensibilidade, compaixão, imaginação, culpa, necessidade de sofrer em silêncio. Essas foram apenas algumas das palavras que ela usou para descrevê-la, manuseando-as com auxílio de seu dicionário russo-inglês.

No entanto, na minha perspectiva, não era sua grande alma russa que eu achava impressionante, mas sua lealdade. Nós nos conhecíamos havia menos de dois meses e tinha ficado óbvio para ela que eu não era o homem que ela pensava que fosse. Estava sobrecarregado com problemas, meu futuro era incerto. Eu era um homem cuja estrela financeira estava em queda, não em ascensão. Ainda assim, nada disso parecia incomodá-la.

Quando lhe contei que teria de me livrar da casa de praia, ela encolheu os ombros e disse que não dava importância a Meadow Lane. Melhor vivermos em Manhattan, ela acrescentou, e quem precisava de uma casa tão grande, afinal? Quando eu disse a ela que o dinheiro poderia ficar apertado por um tempo, Yulia me assegurou que qualquer homem que tivesse ganhado tanto quanto eu ainda tão jovem poderia descobrir uma maneira de fazê-lo novamente.

Encorajado por suas palavras, concordei com a cabeça e depois tomei a decisão de começar a negociar ações de novo, ainda que legitimamente.

A NASDAQ estava voando com a mania das empresas pontocom, e, com o dinheiro que o governo tinha me deixado, eu poderia fazer alguns milhões por ano só dormindo. Eu não entendia por que não tinha pensado nisso antes, embora soubesse que tinha alguma coisa a ver com o fato de KGB acreditar em mim.

Nesse sentido, ela era tudo o que a Duquesa não era. Estava disposta a apostar em mim, não naquilo que me cercava. No entanto, em defesa da Duquesa, Yulia não tinha dois filhos com quem se preocupar nem uma “história” comigo.

Seja como for, a Duquesa era meu passado e a KGB, meu futuro, e lá estava ela, prestes a atingir o nível 25 no Crash Bandicoot. Tudo o que precisava fazer era derrotar o Dr. Neo Cortex, o nêmesis de Crash, e então o herói se uniria a sua namorada, Tawna, mais um bandicoot geneticamente melhorado, que, no mundo dos marsupiais, era tão sexy quanto Jessica Rabbit.

De repente, KGB começou a gritar:

– Blyad! Blyad! Nyet! Nyet!

– Volte! – gritou Carter. – Ele está jogando bolas de fogo!

– Eu não posso! – gritou KGB. – Eu perdi energia!

– Não! – gritou Carter. – Use um cristal de poder…

Eu fiquei olhando a tela totalmente fascinado quando um macaco musculoso chamado Koala Kong pegou uma bola de fogo e tacou na cabeça de Crash, fazendo-o explodir em chamas. Neste ponto, Crash gritou em agonia, saltou no ar, fez uma pirueta, e depois pousou sobre sua pequena bunda bandicoot e queimou até a morte. Em seguida, a TV fez um som parecido com “Wa, wa, wa, wa, wa… bum!”. E foi isso: a tela ficou preta.

No começo, KGB e Carter apenas se entreolharam, congelados. Então ela balançou a cabeça e disse:

– Chto ty nashu stranu obsirayesh!

Carter comprimiu os lábios e acenou com a pequena cabeça de acordo, sem ter ideia do que KGB tinha dito: “Eu só cago toda esta jogo estúpido!”. Então Carter disse:

– De novo, Yuya!

KGB assentiu resignada, respirou fundo e apertou um botão no controle, trazendo Crash de volta à vida, ainda que na parte inferior do castelo de Neo Cortex.

Enquanto os dois se perdiam no jogo, fiquei imaginando que tipo de mãe KGB seria para meus filhos, se um desastre um dia acontecesse. Por mais improvável que parecesse, era algo que eu deveria considerar, a hipótese de a Duquesa faltar e as crianças se tornarem uma responsabilidade exclusiva minha.

KGB e Carter tinham uma estreita ligação com base em seu amor pelos videogames; fora isso, eu não tinha tanta certeza. Havia certa desconexão entre eles, à medida que, quando não estavam sentados em frente à tela da televisão, conversavam muito pouco. Claro, ela sempre se mostrava agradável, sem hesitação, mas havia certa falta de calor, certa apatia que não se esperaria encontrar, dada a natureza da grande alma russa.

Chandler, no entanto, não jogava esse jogos. Ela brincava com suas Barbies, de casinha e de trocar de roupa e gostava de assistir à TV americana, por isso ela e KGB tinham muito pouco em comum. Isso era algo que me incomodava, porque nunca tinha visto KGB procurar por Chandler. De fato, assim como com Carter, ela sempre era agradável e oferecia um sorriso caloroso, mas também existia aquela desconexão.

Na minha mente, era simples: KGB era adulta, e Chandler e Carter duas crianças, por isso a bola estava no campo dela, não no deles. Ou eu estava esperando demais? Ela não era a mãe de meus filhos, então talvez não fosse razoável esperar que ela se comportasse como uma segunda mãe para eles. Talvez certa indiferença casual fosse saudável, talvez fosse normal, e talvez eu devesse agradecer às minhas estrelas da sorte que KGB fosse gentil. Não, pensei, gentileza não era suficiente. A apatia é a própria forma da crueldade, e as crianças podem detectá-la a uma milha de distância.

Por outro lado, na outra extremidade do espectro, vinha John Macaluso, namorado da Duquesa. Na semana anterior ele tinha me ligado do nada e sugerido que nós nos encontrássemos para tomar um café. Ele estava passando muito tempo com meus filhos, afirmou calorosamente, e queria me assegurar de que ele tentaria sempre seu melhor para ser uma influência positiva na vida deles. Foi uma jogada de classe, para dizer o mínimo, e quando nos encontramos, alguns dias depois, no Old Brookville Diner, nos demos bem imediatamente.

Ele era da minha altura, magro e rijo, e transpirava energia. Era bonito, com o cabelo grisalho e proeminentes características italianas e era carismático, mais que qualquer coisa. Nós passamos uma hora trocando histórias de guerra – tomando o cuidado de evitar o assunto de meu casamento fracassado com a Duquesa ou seu relacionamento atual com ela, e eu resisti à vontade de perguntar a ele se ela gemia “Venha para mim, meu pequeno príncipe!” enquanto estavam fazendo sexo. No entanto, apesar de todos os risos e sorrisos, havia um problema que pairava sobre nossa reunião como uma nuvem escura.

Finalmente, ele o trouxe à tona.

– Você sabe, é realmente uma merda que eu more na Califórnia e Nadine more em Nova York – disse ele, cansado. – Quem poderia imaginar que eu fosse me apaixonar por uma mulher que vive a quase 5 mil quilômetros de distância!

E lá estava: o gato tinha subido no telhado.

Havia um grande problema, ele sabia disso e eu também sabia. E o problema não iria desaparecer por conta própria. Ele teria de se mudar para cá ou ela teria de se mudar para lá. Conhecendo o advogado da Duquesa, aquele gordo cretino do Dominic Barbara, com sua notória boca gorda e a propensão de colocar sua bunda ainda mais gorda no centro das atenções, ele usaria minha situação jurídica como alavanca.

John não era tolo; ao ver minha reação, ele logo acrescentou que Nadine nunca faria nada pelas minhas costas. Ela sabia quanto eu era ligado às crianças e sempre dizia que eu era um bom pai. Com isso, deixamos de falar do assunto, embora eu ache que ambos soubéssemos que, em algum momento, a questão iria ressurgir.

E a bela KGB, onde ela ficava nisso tudo?

Ao olhar a loira russa com Carter, unidos pelo amor a um bandicoot geneticamente melhorado, senti esperança sobre tudo que ela poderia ser. Talvez ela pudesse aprender a amar meus filhos, e talvez eu pudesse aprender a amá-la da mesma maneira que havia amado a Duquesa e do jeito que eu havia amado Denise… Embora, na verdade, eu me sentisse bastante desconectado na minha própria relação com ela, assim como sentia haver uma desconexão entre ela e meus filhos.

Talvez, com o tempo, o abismo entre nossas culturas pudesse se tornar nossa maior força. Os norte-americanos, afinal, tinham sua própria grande alma, não é verdade? De acordo com Dostoiévski, a essência da grande alma russa era sua sempre presente e insaciável necessidade de sofrer e, de acordo com essa verdade, a essência da alma americana era: por que a gente deve sofrer, se nossos pais e avós já sofreram tanto por nós? Então, juntos, será que a KGB e eu não poderíamos nos unir em uma alma perfeita? Ela seria meu otimismo americano misturado com o fatalismo russo, a soma dos quais resultaria em perfeição.

Enfim, teríamos alguns anos para atravessar esse fosso. O novo milênio estava ali, na esquina, a apenas 80 dias de distância, e ainda se passariam três ou quatro anos até que eu recebesse minha sentença.

E então o telefone tocou.

Blyad! – reclamou a KGB. – Por favor, pegar telefone! Ele perturbar meu jogar.

Carter virou-se para mim e acenou com a cabeça.

– Ele perturbar seu jogo.

Perturba – disse a Carter, temendo a influência da KGB sobre sua fluência no idioma.

Estendi a mão para o telefone sobre a mesa lateral e o atendi.

– Alô?

– É seu advogado – disse Magnum, em uma oitava de dó menor – Como você está?

– Estou bem – respondi automaticamente, e depois percebi que eu estava realmente bem. Sim, pensei, pela primeira vez em muito tempo eu estava perto de encontrar a felicidade. – O que está acontecendo? – perguntei.

– Houve uma enxurrada de atividades hoje na Procuradoria.

Senti o coração acelerar.

– Sério? E tinham a ver com o quê?

– Você conhece um promotor assistente chamado Dan Alonso?

– Não – respondi rapidamente. – O que tem ele?

– Bem, ele é seu novo promotor – respondeu Magnum. – Ele telefonou hoje cedo para mim e para Nick para nos dar uma atualização. Joel está saindo do escritório da Promotoria na semana que vem e Alonso foi designado para seu caso.

Cruzei os dedos.

– E então, como ele é? É um cara legal ou um saco de merda?

– Beeemmm… – disse Magnum. – Numa escala de 1 a 10, com babaca sendo 1 e cara legal sendo 10, diria que Alonso cai em algum lugar entre 10 e 11.

– Você deve estar brincando!

– Shhhhh! – reclamou a KGB. – Não poder concentrar!

Carter olhou para cima e colocou o dedo indicador nos lábios. Então ele olhou para a tela. Eu ri e disse ao telefone:

– Quer dizer que ele é legal assim?

– Sim – respondeu Magnum –, ele é, sim. Ele é duro, justo, muito inteligente, um excelente litigante e, acima de tudo, tem um grande coração. Já abordei com ele o assunto de reduzir sua acusação de obstrução, e ele disse que está disposto a sentar e conversar sobre isso. Ele quer conhecê-lo primeiro e, então, vai nos deixar defender nossa causa. Acho que estamos em uma posição muito boa.

Senti uma onda de alívio percorrer meu corpo.

– Bem, é uma ótima notícia, Greg, realmente ótima.

– Sim – concordou ele. – Mas, num aparte, recebi um telefonema muito estranho de Joel Cohen nesta manhã. Ele estava dizendo algo sobre você estar em Atlantic City há alguns meses e ter se recusado a se identificar. Ele deu a entender que você estava tentando fazer uma lavagem de dinheiro ou algo assim. Eu sei que não é verdade, certo?

Minha boca ficou seca imediatamente, meus intestinos se enrolaram depressa e chegaram a conclusões mais depressa que minha mente.

– Claro que não! – respondi. – Isso é besteira total! Eu não estava tentando lavar dinheiro coisa nenhuma! Foi apenas um mal-entendido!

– Mas então você esteve lá, mesmo? – Magnum pareceu extremamente surpreso.

Eu já sabia onde aquilo iria terminar.

No final, eu conseguiria provar que não tinha tentado lavar dinheiro, mas não poderia provar que não tinha violado as restrições de minha fiança. Eu tinha saído de Nova York sem permissão.

– Sim, eu estava lá – disse, com calma. – Espere um segundo, deixe-me mudar de quarto.

Quando estava saindo da sala de TV, gastei um momento observando o rosto inocente de meu filho. Ele tinha passado por um começo difícil, mas vinha crescendo forte. Uma onda terrível de tristeza tomou conta de mim. Era como se eu o tivesse decepcionado.

Dentro do quarto principal, peguei o telefone do futuro, sentei-me na beira da cama e contei todos os detalhes de minha história para meu advogado, começando pela deliciosa menor de idade, Kiley, e terminando com a bruxa de rosto de pedra dentro da gaiola do caixa que tinha se recusado a devolver meu dinheiro. Então, eu disse:

– Eles não vão interromper minha cooperação por causa disso, certo?

– Não – ele respondeu rapidamente –, não se o que você está me dizendo for verdade.

Tentando manter o controle, respirei fundo e deixei o ar escapar lentamente. Depois, comecei a cuspir pregos em meu advogado, jurando por todos os lados que eu estava dizendo a verdade. Primeiro jurei por meus olhos, depois jurei pelos olhos de meus filhos, então jurei pelos olhos de meus filhos ainda não nascidos e depois jurei pelos olhos dos filhos de Magnum também.

Finalmente, ele disse:

– Tudo bem, tudo bem! Eu acredito em você, acredito, juro! Pode parar de tentar me convencer agora. Porra! Você sabe que, de qualquer forma, ainda temos um grave controle de danos a fazer. Que tipo de relacionamento você tem com seu oficial de pré-julgamento?

– Pat Mancini? – respondi, sentindo um fino raio de esperança. – Ele é ótimo! – optei por não relatar meu telefonema enganoso para Pat, com a vaga referência a ficar preso na cidade, sem dizer em qual cidade. – Por que a pergunta?

– Porque ele é o único que pode apagar suas luzes aqui. Se ele escrever uma carta ao juiz relatando seu passeio de helicóptero para Atlantic City, acompanhado de uma menor de idade e levando um saco de dinheiro do governo federal para jogar, poderia ser um problema. Jordan, isso não se parece com o comportamento de um homem arrependido. Entendeu?

E foi aí que eu percebi: a audácia de minhas ações! Não se tratava tanto do fato de eu ter violado as condições de minha liberação (que já era ruim o suficiente por si só), mas a forma como eu tinha feito isso.

Se eu tivesse ido a Atlantic City em uma perua, levando minha mãe de 70 anos de idade e um punhado de moedas de 25 centavos enrolados numa meia, então o juiz Gleeson provavelmente ia dizer: “Ah, é apenas o caso de um bom filho querendo passar um tempo com sua mamãe idosa”, e então ele me deixaria sair sem nem mesmo uma advertência. Mas eu tinha roubado 100 milhões de dólares e estava tendo uma segunda chance, mas como eu demonstrava meu agradecimento? Fazendo uma viagem secreta de helicóptero para a Sodoma e Gomorra de Nova Jersey com uma modelo menor de idade. E, para financiar meu passeio, tinha pegado um empréstimo sem juros do governo federal!

Com o coração apertado, perguntei:

– E agora, o que vem a seguir?

Depois de alguns momentos de silêncio, ouvi:

– Espero que nada… Vou ligar para Joel, contar a ele seu lado da história e direi que tratarei disso com Alonso, apesar de não ser exatamente a melhor maneira de começar um relacionamento com ele. – Magnum parou por um momento. Em seguida: – Mas o que se há de fazer, certo?

– Sim, claro – respondi, sem emoção. – O que se há de fazer?

Passamos mais alguns minutos pensando em estratégias, mas não havia realmente muito que pudéssemos fazer. A coisa mais importante, nós concordamos, era garantir que a história jamais aparecesse diante do juiz Gleeson. Ele era um homem conservador, disse Magnum, um homem completamente racional, que vivia conforme as regras. Isso era o tipo de coisa que só faria aumentar sua ira.

Depois que desliguei o telefone, fiquei sentado na beira da cama por um momento, estupefato. Devo ter dito milhares de vezes, em tom de brincadeira, que eu era meu pior inimigo, mas daquela vez não foi engraçado. Mais uma vez, eu tinha colocado minha liberdade em perigo, e por quê? Em retrospecto, minha decisão parecia totalmente incompreensível. Eu estava realmente sendo autodestrutivo? Não pensava assim, mas, olhando de fora, era exatamente o que eu aparentava ser. Que tipo de mau funcionamento eu possuía que me levava a fazer esse tipo de coisas, que me levava a assumir esses riscos descontrolados, mesmo quando não haveria nenhuma vantagem?

Respirei fundo e lutei contra a vontade de me censurar ainda mais. O que foi feito, foi feito. Se o juiz Gleeson descobrisse isso, iria me jogar na prisão na hora, eu perderia Yulia, as crianças ficariam de coração partido, a Duquesa iria se mudar para a Califórnia, Meadow Lane seria confiscada na minha ausência, meus móveis e roupas seriam leiloados por alguns centavos de dólar e meu plano de negociar ações seria frustrado. Mas minhas despesas com a Duquesa e as crianças continuariam. Então, quando eu finalmente fosse condenado, dali a três anos, e saísse da cadeia alguns anos depois, estaria nu, sem dinheiro, sem casa e meus filhos estariam morando a 5 mil quilômetros de distância e chamando John Macaluso de papai!

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