CAPÍTULO 4

UMA RELAÇÃO DE AMOR E ÓDIO

Mais tarde, naquela mesma noite, alguns minutos antes da meia-noite, eu estava deitado sob meu edredom branco de seda, sozinho com meus pensamentos. Eu me sentia completamente sozinho, como se fosse um homem sem país, um homem sem propósito. Também me sentia como alguém à deriva em um vasto oceano de seda chinesa. Ah, sim, a Duquesa tinha decorado o quarto com esmero; de fato, a casa toda havia sido decorada com esmero, mas especialmente aquele aposento, que era digno de um rei e, como tal, um escárnio ao Lobo caído.

O que eu era agora? Quão fundo eu tinha caído? Estava em prisão domiciliar e sendo abandonado por uma Duquesa garimpando ouro: uma duquesa com cidadania britânica nascida no Brooklyn, que tinha o rosto de um anjo, o temperamento do Vesúvio e a lealdade de uma hiena faminta.

Respirei fundo e tentei me recompor. Porra, eu estava arruinado! Sentei-me na cama e olhei em volta do quarto. Estava completamente nu, totalmente exposto. Cruzei os braços, como se estivesse me sentindo envergonhado. Apertei os olhos. Nossa, estava escuro ali dentro. A única luz vinha da tela de TV de tela plana que estava suspensa na parede, acima da lareira de pedra calcária. O volume tinha sido posto no mudo, de forma que o quarto estava estranhamente silencioso. Eu conseguia ouvir o som de minha própria respiração, assim como o tum, tum, tum de meu coração partido.

E onde estava minha querida esposa que partiu meu coração? Bem, isso ainda era um mistério para mim. Supostamente ela estaria em Manhattan, com as amigas. Pelo menos era isso que dizia seu bilhete, alguma coisa sobre ter de participar da festa de aniversário de 30 anos de sua amiga Gigi, que eu me lembrava claramente de ter sido comemorado há três meses, em junho. Ou talvez eu só estivesse sendo paranoico, e a traidora da Duquesa ainda merecesse confiança.

Eu tinha encontrado o bilhete em cima do balcão da cozinha, debaixo de um pote de cerâmica do Ursinho Puff que custara 1.400 dólares (um item de colecionador de algum tipo, comprado em leilão), com as palavras Querido e Amor conspicuamente ausentes da saudação e do encerramento. Era como se fosse um bilhete trocado entre dois estranhos, um chamado Jordan e o outro Nadine, nenhum dos quais amava ou respeitava o outro. Apenas o fato de ler aquelas palavras tinha colocado meu espírito ainda mais para baixo.

Pensando em um aspecto mais positivo, entretanto, desde que deixara o escritório de Magnum, eu tinha praticamente conseguido chegar a um acordo comigo mesmo em relação a minha cooperação, ou pelo menos já havia racionalizado as coisas até o ponto de deixar tudo um pouco mais palatável. Sim, iria fornecer ao governo todas as informações que eles desejassem, mas iria ser mais esperto quanto a isso, fornecendo informações de uma forma que ajudasse a proteger meus amigos. Quando fosse necessário, fingiria ignorância; quando fosse plausível, fingiria lapsos de memória; e, o mais importante, quando chegasse a uma encruzilhada ou quando me visse em uma bifurcação da estrada, conduziria os homens do governo a um caminho que os levasse para longe de meus amigos. Com um pouco de sorte, as pessoas com as quais eu de fato me importava também iriam cooperar, e eu seria poupado de ter que trair a todos eles.

Enquanto isso, a Duquesa ficaria encantada ao descobrir que eu estava cooperando. Uma de suas principais queixas era a de que eu a tinha colocado em risco, e agora eu poderia lhe dizer que esse risco não era mais uma possibilidade. Naturalmente, eu iria omitir o fato de que realmente a pusera em risco. Eu não era bobo, afinal, então qual seria a vantagem de lhe dar munição fresca contra mim? Seria muito mais produtivo focar nos aspectos positivos de minha cooperação com o governo: a saber, que eu não teria de passar nem mesmo um dia na cadeia e que, mesmo depois de ter pagado minha multa, eu, ou melhor, nós teríamos dinheiro suficiente para nos sustentar pelo resto da vida. Embora a primeira afirmação fosse um pequeno exagero e a última fosse de fato uma tremenda mentira, ainda se passariam muitos anos até que a Duquesa descobrisse. Assim, por enquanto eu não precisava me preocupar com isso.

Nesse momento, escutei o som de cascalho sendo revolvido na entrada de casa. A traidora da Duquesa finalmente voltara, pronta para causar mais dores emocionais em mim. Alguns minutos depois, ouvi a porta da frente bater e alguns passos bastante irritados subindo a suntuosa escadaria em espiral. Os passos não pareciam pertencer à Duquesa loira de 50 e poucos quilos, pareciam mais de um búfalo agitado. Deitei de costas na cama e me preparei para mais torturas.

A porta se abriu completamente e a Duquesa entrou, vestindo um conjunto jeans azul-claro. Puta merda! Apesar de ela ter vindo de limusine para casa, parecia que tinha acabado de descer de uma diligência a caminho do Velho Oeste. A única coisa que lhe faltava era o chapéu de caubói e o cinturão com o Colt de seis tiros. Enquanto ela se mexia, caminhando para seu lado da cama, dediquei alguns momentos a olhá-la. Nadine estava usando uma longa saia jeans com pequenos plissados na bainha inferior e uma fabulosa fenda que corria por toda a frente. Eu não era exatamente um especialista em saias femininas, mas tinha uma leve suspeita de que poucas mulheres do Velho Oeste poderiam ousar com uma daquelas. Ela ainda vestia uma blusa de algodão de manga curta azul-clara, com um decote na frente e bem apertada na cintura, que acentuava as curvas naturais de seu corpo, além de destacar seus seios cirurgicamente aumentados.

Sem dizer uma única palavra, aquela Duquesa do Oeste alcançou o abajur cor de damasco que ficava no criado mudo e acendeu a luz. Rolei para o lado e a encarei. Ela realmente sabia como controlar suas emoções. Isso era uma coisa que eu invejava demais.

Baixei os olhos… Ahhh, aquelas botas de caubói! Eram bem familiares. Bege e branco, com arremates em vermelho-cereja e com a biqueira prateada. Fora eu quem comprara esse par de botas um ano antes, em um ataque de euforia, durante uma viagem ao Texas para um torneio de golfe. Tinha me custado 13 mil dólares, uma verdadeira pechincha, considerei na época. Hoje, me perguntava se tinha sido isso mesmo…

Nesse momento ela inclinou a cabeça para a direita e tirou um brinco de prata, colocando-o na mesa com grande cuidado. Depois, inclinou a cabeça para o lado esquerdo e tirou o brinco esquerdo, pousando-o ao lado do outro. Forcei um sorriso e resisti à vontade de dizer “Oi, querida, como foi a prospecção hoje à noite? Conseguiu encontrar algum metal precioso?”. Mas, com muito amor e ternura na voz, perguntei:

– E aí, como foi a festa da Gigi?

– Tudo bem – disse ela, com uma simpatia surpreendente. – Nada de especial.

Ela se virou para mim e quase perdeu o equilíbrio, de modo que eu percebi que a Duquesa do Oeste tinha bebido naquela noite bem mais do que apenas refrigerante. Na verdade, ela estava bêbada.

– Você está se sentindo bem? – perguntei, segurando um sorriso e me preparando para segurá-la se ela caísse. – Precisa de ajuda, querida?

Ela balançou a cabeça negativamente. Um pouco oscilante, ela se sentou na beirada do colchão. Então, de uma só vez e mais rápido do que percebi, a Duquesa jogou as botas de caubói em cima da cama, rolou de lado, e se estatelou sobre seu cotovelo esquerdo ao meu lado. Ela descansou a bochecha esquerda na palma da sua mão e olhou em meus olhos, sorrindo:

– E como foi com seu advogado hoje?

Muito interessante, pensei, fazendo uma nota mental de agradecer ao gênio mexicano que tinha inventado a tequila, bem como ao barman que tinha sido gentil o suficiente para servir muitas delas à Duquesa naquela noite. Nadine não tinha estado tão próxima de mim na semana quanto naquele momento. E ela estava linda demais sob o brilho do abajur. Seus enormes olhos azuis, agora parecendo um espelho, estavam exuberantes. Respirei profundamente para saborear seu cheiro, que era uma mistura interessante do perfume Angel com tequila dourada. Senti um formigamento agradável, uma onda de fogo em minha virilha! Talvez, pensei, talvez esta noite. Senti uma vontade incontrolável de saltar sobre ela exatamente naquele momento, antes que ela se acalmasse e começasse a me torturar novamente. Mas resisti à vontade e disse:

– Foi muito bem, querida. Para falar a verdade, tenho novidades muito boas para você.

– Ah, é? O quê? – disse ela, esfregando minha bochecha com a palma da mão. Então ela correu os dedos com grande ternura por meus cabelos.

Eu não podia acreditar! A Duquesa tinha finalmente caído em si! Ela iria fazer amor comigo naquele instante, e então tudo ficaria bem novamente. Sempre tinha sido assim com a gente. As coisas poderiam ficar complicadas por algum tempo, mas não muito mais que aquilo. No final, nós sempre fazíamos amor e tudo era esquecido.

“Será que eu devo pular sobre ela agora?”, eu me perguntava. Como ela reagiria? Ela ficaria com raiva de mim ou me respeitaria? Eu era um homem, no fim das contas, e a Duquesa era alguém que entendia esse tipo de coisa. Ela conhecia os meandros do mundo, especialmente quando se tratava dos homens e, mais especialmente ainda, quando se tratava de sua manipulação…

Só que agarrar a Duquesa naquele momento não seria a coisa mais prudente a fazer. Antes, eu precisava tentar uma abordagem diferente, uma abordagem muito diferente, sobre meus problemas jurídicos. Precisava fazer com que ela se sentisse totalmente confiante de que minha mina de ouro estava prestes a abrir outra vez para a extração de minério, sem restrições.

Respirei profundamente, amarrando todas as pontas soltas de minha história fictícia, e fui em frente, sem medo de colocar tudo a perder.

– Em primeiro lugar – disse eu, muito confiante –, quero que saiba que eu sei que você estava preocupada com toda aquela porcaria que o Coleman vomitou em você e que nada daquilo, nem mesmo uma gota daquilo, jamais teve a mínima possibilidade de acontecer – essa era a mentira número um. – Nós dois sabemos que você jamais fez algo de errado – e essa era a mentira número dois, considerando que ela de fato tinha me visto contando dinheiro, do jeito que Joel Cohen tinha alegado – e, é claro, o governo também sabe disso. Coleman só falou aquilo para amedrontar você e deixar as coisas mais difíceis para mim. É isso.

Nadine concordou com a cabeça lentamente.

– Eu sei disso – respondeu a Duquesa. – Quer dizer, isso me incomodou da primeira vez que ele disse, mas de fato nunca acreditei nele.

Você não acreditou? Hummm, tudo bem, então! A ignorância é mesmo uma bênção. Assenti em concordância e segui em frente.

– Claro, eu sei disso. Era tudo um grande monte de merda, Nae – e lá veio a mentira número três –, tudo mentira. Mas, seja como for, tudo isso é bastante discutível agora. Veja, Joel Cohen telefonou para Greg hoje; na verdade, ele telefonou bem na hora em que eu estava lá, sentado à frente dele, e Joel disse a Greg que o que ele de fato queria, o que ele de fato vinha tentando todo esse tempo, é que eu concordasse em cooperar. É isso – dei de ombros. – Aparentemente, eu sei tanta coisa sobre o que anda acontecendo no mercado de ações que eu poderia economizar anos de ataques cardíacos para o pessoal do governo, sem falar os incontáveis milhões de dólares.

Hummm, eu realmente gostei do modo como aquilo tudo estava soando. Aquilo me fazia parecer um cara inteligente, vital, importante, altruísta, um participante necessário na luta contra a ganância e a corrupção em Wall Street, não aquele rato delator desprezível que eu estava prestes a me tornar! Decidi enfeitar um pouco mais essa minha linha de pensamento, porque, afinal, estava valendo a pena.

– De qualquer forma, Joel disse que se eu cooperasse de verdade, se eu estivesse disposto a ajudar o governo a entender tudo o que está acontecendo, provavelmente não terei de passar nem um dia sequer na cadeia. Isso mostra que as coisas que eu sei são muito valiosas – assenti com a cabeça uma vez e me perguntei se eu tinha dado um tiro no pé ao usar provavelmente na frase, por isso acrescentei: – O que eu quero dizer é que já passei três dias na prisão, o que é suficiente, você não acha? – e sorri de maneira inocente.

Ela concordou com a cabeça lentamente, mas permaneceu em silêncio. Percebi que uma lágrima descia por seu rosto. Enxuguei-a com as costas de minha mão. Isso era um bom sinal, pensei. Enxugar as lágrimas de uma mulher me levava a dar mais um passo em direção ao coração dela e àquilo que me interessava naquele momento: mais perto de seu quadril. Era um fenômeno biológico. Quando um homem forte enxuga as lágrimas de uma mulher, ela não consegue mais lhe recusar nada.

Encorajado pelas lágrimas da Duquesa, continuei meu discurso com prazer:

– Mas a coisa não para aí, fica ainda melhor, Nae. Veja, se eu cooperar, não serei sentenciado antes de quatro ou cinco anos, e caso eu tenha, veja bem, caso eu tenha de pagar uma multa, ela não será cobrada até lá. O que eu quero dizer, e por favor não me entenda mal, é que será uma multa bem pesada, mas nada que possa acabar com todas as nossas reservas… Ainda seremos bem ricos quando tudo isso terminar – e lá se foi a maior mentira de todas, a de número quatro.

A verdade era que, se o governo deixasse para a gente alguma coisa como 1 milhão de dólares, como tinha indicado Magnum, a Duquesa e eu estaríamos falidos em três meses. Mas eu havia racionalizado isso também, por isso continuei:

– Mas, independente da quantidade de dinheiro que eles nos deixem – enfatizei o nos –, não é como se eu fosse me aposentar ou coisa assim. Ou seja, assim que toda essa comoção terminar, daqui alguns meses, voltarei a negociar ações de novo – fiz uma pausa, não gostando muito de como isso estava soando. – Quer dizer, voltarei de forma honesta, é óbvio. Estou falando de ações de grandes empresas, não de pequenas empresas. Não estou a fim de voltar para todas aquelas loucuras e tudo o mais – e me encontrei desesperadamente à procura de uma rampa de saída. – Seja como for, eu serei capaz de ganhar entre 5 milhões e 10 milhões de dólares por ano apenas negociando ações por conta própria, de forma totalmente legítima, sem qualquer risco.

Estudei o rosto da Duquesa por alguns instantes. Ela parecia estar um pouco mais sóbria. Hummm… Eu não sabia se isso era um bom ou um mau sinal, mas senti que uma janela de oportunidade estava se fechando. Já era hora de parar de tentar vender o futuro e partir para uma coisa mais próxima. Disse, confiante:

– Então é isso, Nae. Essa é toda a história. Sei que pode parecer bom demais para ser verdade, mas é assim. Acho que eu devia apenas agradecer à minha estrelinha da sorte pelo fato de o governo estar tão desesperado para conhecer as informações que eu tenho – fiz uma pausa nessa altura e balancei a cabeça gravemente. – Na verdade, a única coisa que realmente me deixou chateado foi que eu teria que passar a eles informações sobre meus amigos. – Sorri e dei de ombros, como se estivesse dizendo “Há uma fresta de esperança aqui”, e depois disse: – Mas, de acordo com Greg, todos os meus amigos também irão cooperar, quer dizer, no fim, isso não será também um fator de preocupação.

Cheguei mais perto dela e comecei a passar meus dedos por seus cabelos.

Ela sorriu e disse:

– Bem, isso é realmente uma boa notícia, querido. Estou muito feliz por você.

Você? Ela havia acabado de dizer você? Que merda, isso era ruim… Ela devia estar feliz por nós dois, e não apenas por mim! Estava me preparando para corrigi-la quando ela continuou:

– Eu não ficaria assim tão preocupada em relação a seus amigos. Todos eles, exceto Alan Lipsky, entregariam você em dois segundos quando fossem pressionados. Não existe lealdade em Wall Street. Foi isso que você sempre me disse, certo?

Concordei com a cabeça, mas não disse uma palavra. Na verdade, eu já tinha ouvido demais e falado demais. Mais uma vez, a Duquesa e eu estávamos em sintonia, o que significava que era hora de atacar. Estiquei o braço e a segurei pela cintura, puxando-a para mais perto de mim. Então peguei sua linda gravatinha de caubói e puxei a cabeça dela em minha direção.

E dei um beijo nela.

Foi um beijo lento, molhado e ao mesmo tempo completamente apaixonado, que acabou mais cedo do que eu esperava, quando a Duquesa se afastou e disse:

– Pode parar! Ainda estou brava com você!

Era hora de assumir o comando.

– Eu preciso de você – gemi, atirando minha mão na fenda de seu vestido e procurando a Terra Prometida. Na hora em que alcancei o topo de sua coxa, o calor era tão fantástico que eu quase gozei nos lençóis.

Então eu a ataquei, jogando todo meu peso em cima dela. Comecei a beijá-la ferozmente. Ela tentou se mexer para se libertar, mas não era páreo para mim.

– Pare! – ela gemia, com um toque que pensei que fosse uma risadinha. – Pare com isso!

Acreditando que fosse uma risadinha, ergui sua saia de brim, revelando sua linda e rosada vulva, com sua minúscula penugem loira. Ahh, eu sempre tinha ficado maravilhado com aquela fantástica vagina que a Duquesa tinha! Era a vagina mais deliciosa que eu já provara, e, considerando que eu tinha dormido com quase mil prostitutas, bem, minha opinião valia alguma coisa. Mas toda essa coisa de putaria era passado. O que eu queria naquele momento era a Duquesa, ali e para sempre!

Diminuí um pouco o ritmo, olhando nos olhos dela e dizendo:

– Eu te amo, Nae. Eu te amo muito – meus olhos começaram a ficar úmidos com as lágrimas. – Eu sempre te amei, desde a primeira vez que a vi – e sorri calorosamente para ela. – Senti tanto sua falta essa semana, nem sei como lhe dizer como me senti vazio sem você… Faça amor comigo, querida. Faça amor comigo agora, devagar… – disse e puxei os cabelos dela para trás com a mão, chegando mais perto.

– Vá se foder! – cuspiu ela. – Eu odeio você! Você quer me comer? Tudo bem, então vá em frente e me foda! E me foda muito, porque eu odeio você! Eu odeio você inteiro, seu idiotinha egoísta! Você não dá a mínima pelo que eu estou sentindo. Tudo o que importa é você e nada mais – ela começou a se mexer com desprezo, mantendo-se propositalmente fora do ritmo. Era como se estivesse tentando me mostrar que, apesar de eu estar dentro dela, a Duquesa não era de fato minha.

Fiquei chocado. E totalmente arrasado. Mas, acima de tudo, fiquei chateado por ela ter usado “inho” para se referir a mim… Idiotinha egoísta, para ser mais exato. A Duquesa sabia que eu era muito sensível sobre minha altura!

Mas eu me recusei a ficar com raiva. Em vez disso, peguei seu rosto com as duas mãos e a beijei, mantendo meus lábios sobre os dela e tentando desesperadamente conseguir algum ritmo. Mas foi difícil. Ela estava mexendo a cabeça loira de um lado para o outro, como se fosse uma criança recusando uma colher de óleo de rícino, e ficava desviando os quadris em um exagerado movimento circular.

Com um pouco da minha raiva já transbordando, reclamei:

– Fique quieta, Nadine! O que há de errado com você?

Sua resposta venenosa foi:

– Foda-se! Eu odeio você, eu odeio você! – disse e agarrou meu rosto, completando: – Olhe em meus olhos, Jordan. Olhe em meus olhos agora.

Eu olhei. Ela continuou:

– Nunca se esqueça do que se passou com este casamento, nunca se esqueça dessa porra. – Seus olhos azuis eram como raios da morte vítreos. – Esta é a última vez que você vai me foder. É isso, você pode guardar minhas palavras. Você nunca mais vai transar comigo novamente, então é melhor aproveitar enquanto dura. – E ela começou a se esfregar em mim com estocadas profundas, rítmicas, como se ela estivesse tentando me fazer gozar bem ali, naquele exato momento e pronto.

Caralho!, pensei. Ela realmente tinha exagerado em seu pileque de tequila. Ela não estava mesmo querendo dizer tudo aquilo que acabara de expressar em palavras, estava? Como um rosto tão bonito como aquele podia despejar tanto veneno? Não fazia sentido… Eu sabia que a coisa certa a fazer era pular para fora dela, para não lhe dar a satisfação de me fazer gozar enquanto me dizia que me odiava… Mas ela estava absolutamente linda sob aquela luz cor de damasco do abajur. Então, foda-se!, pensei. Era impossível compreender as mulheres, e se ela estava de fato falando a verdade sobre ser minha última vez, então seria melhor que eu fizesse valer a pena ou que pelo menos eu gozasse rapidamente, antes que ela mudasse de ideia e dissesse que a última vez… Tinha sido a última vez… Então, com uma estocada profunda, tentei ao máximo chegar na base do colo do útero e… Bang! Assim, do nada, eu gozei dentro dela.

– Eu te amo, Nae…

Ela gritou em resposta:

– Eu odeio você, seu idiota!

Então eu saí de cima dela.

Lá ficamos os dois, deitados, pelo que pareceu um longo período, que na verdade não passou de 5 segundos, no que ela me empurrou e começou a chorar histericamente. Seu corpo tremia vulcanicamente, enquanto falava entre soluços terríveis e angustiantes:

– Ah, meu Deus! O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz?

Ela continuou repetindo essas mesmas palavras enquanto fiquei ali, deitado ao lado dela, congelado de horror.

Tentei passar o braço ao redor dela, mas Nadine o afastou.

E então vieram mais soluços, e ela me disse uma coisa que jamais irei esquecer, pelo resto de minha vida:

– Era dinheiro manchado de sangue! – soluçou ela. – Era tudo manchado de sangue! – Ela mal conseguia pronunciar as palavras em meio a todos aqueles soluços. – Eu sabia disso o tempo todo e não fiz nada. As pessoas perderam seu dinheiro e eu gastei tudo. Ah, Deus, o que foi que eu fiz?

De repente, eu me descobri ficando intensamente raivoso. Foi a referência ao dinheiro manchado de sangue, o pensamento de que tudo aquilo que compartilhamos, incluindo meu próprio sucesso, estava de alguma forma maculado por isso. Foi como se nosso casamento inteiro tivesse sido uma farsa, como se nada daquilo que existia a minha volta fosse real e genuíno. Eu era um homem feito de partes, e a soma delas não era igual a um todo. Eu estava cercado por riqueza, beleza e ostentação, mas ainda assim me sentia pobre, feio e irremediavelmente sem graça. Eu ansiava por dias mais simples. Eu ansiava por uma vida mais simples. Eu ansiava por uma mulher mais simples.

Sem fazer nenhum esforço para esconder meu desagrado, inclinei-me rapidamente sobre ela.

– Dinheiro manchado de sangue! – esbravejei. – Ah, dá um tempo, Nadine, porra! Eu trabalho em Wall Street, não sou um filho da puta de um mafioso – balancei a cabeça em desgosto. – Tudo bem, eu tomei alguns atalhos, do mesmo jeito que todo mundo faz, então controle-se, caralho!

Em meio a soluços terríveis, vindos diretamente da boca do estômago, ela continuou:

– Ah, Deus, você corrompeu todo mundo, até minha própria mãe! E eu… Eu… Só fiquei lá… Assistindo… E… E torrando… Esse di… nheiro… man… chado de sangue! – ela estava soluçando tão descontroladamente que suas palavras saíam entrecortadas.

– Sua mãe? – gritei. – Você sabe quão bem tratei sua mãe? Quando eu a conheci ela estava sendo despejada da merda do apartamento por não ter pagado a porra do aluguel! E eu tomei conta do idiota do seu irmão e do idiota do filho da puta do seu pai, e da sua irmã e de você e de todo mundo, caralho! E é isso que eu recebo de volta? – fiz uma pausa, tentando me controlar. Eu também estava chorando agora, mas a raiva era tanta que não havia lágrimas. – Eu não posso acreditar nessa porra! – gritei. – Não posso acreditar nessa porra! Como você pode fazer isso agora? Você é minha mulher, Nadine. Como consegue fazer isso agora, porra?

– Desculpe, desculpe – disse ela, chorando. – Desculpe, eu não tive a intenção de te machucar – ela estava tremendo como uma folha. – Eu não tive intenção… Eu não tive intenção.

E então ela saiu da cama, enrolando-se numa posição fetal sobre o tapete Edward Fields de 120 mil dólares e continuou a chorar incontrolavelmente.

E isso foi tudo.

Eu soube naquele momento que tinha perdido minha esposa para sempre. Qualquer que tivesse sido o vínculo que a Duquesa e eu tínhamos compartilhado um dia, já tinha sido gravemente partido. Se eu iria ou não fazer amor com ela de novo era apenas uma questão semântica, e, na verdade, eu já não me importava tanto com isso. Afinal, eu estava enfrentando problemas muito maiores do que onde ou quando dar uma trepada.

De fato, no final do corredor estavam nossos dois filhos pequenos, vítimas inocentes daquilo tudo, que estavam prestes a acordar para uma das mais cruéis realidades da vida: nada dura para sempre.

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