CAPÍTULO 24
O DEUS DO DESTINO CONTRA-ATACA
Os sete dias seguintes foram angustiantes.
Depois de desligar o telefone, eu liguei para Pat Mancini, que, não surpreendentemente, tinha acabado de receber um telefonema do Canalha, perguntando se ele tinha me dado autorização para viajar a Atlantic City. Pat, é claro, disse-lhe que não tinha, e o Canalha tinha sugerido que ele informasse ao juiz Gleeson sobre minha violação da fiança.
Pat disse a ele que iria pensar sobre aquilo.
Felizmente, ele me disse que não iria avisar o juiz; na verdade, ele disse que tinha se sentido mal por mim. Sim, eu era definitivamente um idiota por ter pegado um helicóptero para Atlantic City, mas de certa forma aquilo tinha sido armado para a minha queda. “Quando um homem fica tanto tempo em prisão domiciliar, ele acaba fazendo merda”, explicou Pat. “É como o velho ditado: você deixa corda suficiente para o cara se enforcar.”
Antes de desligar, ele disse uma coisa que eu ouviria bastante nas semanas seguintes: “Para um cara inteligente como você, Jordan, você faz algumas coisas bem burras!”. Então ele desligou na minha cara.
Passei o resto do fim de semana em um estado de relativa calma. Em seguida, na manhã de segunda-feira, o mundo desabou.
Tudo começou quando Mancini ligou para Magnum dizendo que tinha recebido uma carta mordaz do Canalha, exigindo que ele escrevesse uma carta para Gleeson informando-o de minha viagem para Atlantic City. E, apenas para melhorar, o Canalha descrevera todos os pontos altos da minha viagem: a garota, o saco de dinheiro, o helicóptero… E que tudo isso deveria constar na carta a Gleeson, para Pat não ser acusado de pintar um quadro enganoso para o juiz.
Magnum deu um telefonema de emergência para Joel, pedindo-lhe que rescindisse a carta para Mancini, mas ouviu somente uma mensagem gravada que era algo como: “Oi, aqui é Joel Cohen, eu não sou mais do escritório da Promotoria e estarei de férias durante as próximas duas semanas…”.
Sim, o Canalha tinha desaparecido, e aquela era sua vingança.
Ele queria ter revogado minha fiança com o incidente de Dave Beall, mas tinha sido vencido. Portanto, aquela era a vingança dele, filho de uma puta! Magnum, no entanto, não estava pronto para desistir sem lutar, então pulou no metrô e desceu à Procuradoria para reunir-se com Alonso, que concordou em chamar Mancini e dizer que ele poderia lidar com isso “em casa”. Minhas restrições seriam apertadas por alguns meses, e depois finalmente Alonso faria uma moção para Gleeson para tirar minha tornozeleira, afastando-me dos olhos de Mancini de uma vez por todas.
Claro, disse Mancini, isso seria maravilhoso. O único problema era que ele tinha acabado de apertar o botão de “enviar” do e-mail, e então, naquele exato momento, o juiz Gleeson provavelmente estaria lendo a carta, que, de fato, incluía todos os detalhes sujos. Quando Magnum me informou disso, deixei cair o telefone, corri para o banheiro e vomitei. Então, corri de volta para o telefone e perguntei a Magnum o que isso queria dizer: minha batata tinha assado de vez?
Ele me disse que não, que ainda havia uma chance de 50% de Gleeson ler a carta e não tomar nenhuma medida. Afinal, a carta não tinha sido acompanhada de um pedido de audiência. Com um pouco de sorte, Gleeson iria apenas sacudir a cabeça, incrédulo, perder um pouco de respeito por mim e depois seguir em frente com seu dia.
Não tive sorte.
Na manhã de quinta-feira, às 8h30 em ponto, ouvi um som muito preocupante: o telefone tocando.
Ah, meu Deus!, pensei. Olhei à minha esquerda, e lá estava KGB. Como sempre, ela estava dormindo profundamente, a cabeça loira soviética aparecendo por debaixo do edredom de seda branca.
Era Magnum. Suas primeiras palavras foram perdidas, mas não suas palavras seguintes:
– Infelizmente, recebi um fax de Gleeson e ele marcou uma audiência.
– Quando? – perguntei, em um estado muito além do pânico.
– Amanhã de manhã às 10 horas.
Roubei um olhar para a KGB. Bem, foi bom conhecê-la!, pensei.
– Acho que agora estou fodido – disse, bem calmo.
– Não necessariamente – respondeu ele. – Eu acho que ainda há uma saída para isso. O fundamental é nos aproximarmos de Gleeson como uma frente unida. Eu já falei com ambos, Mancini e Alonso. Mancini vai estar lá também amanhã e prometeu que vai se colocar a seu lado. Ele vai dizer que foi um mal-entendido e que, na opinião dele, você ainda pode ser confiável para viver de acordo com suas restrições de fiança.
– E Alonso, o que ele vai dizer?
– Como eu lhe disse, quando se trata de promotores, Dan Alonso é o melhor cara possível. Então, apesar de nunca tê-lo visto, disse que ficará a seu lado também. Vou me encontrar com ele mais tarde hoje e nós vamos preparar algo que possa ser vendido a Gleeson. Haverá algumas restrições severas por um tempo, acabar com as viagens, estar em casa às 6 da tarde, nada mais de noitadas na cidade, mas é muito melhor que ir para a cadeia, certo?
– Sim, é – respondi. – E quais são as chances de Gleeson comprar isso?
– Perto de 100% – disse Magnum. – É muito raro que um juiz vá contra a recomendação de um promotor. E o fato de Mancini estar a bordo conosco praticamente fecha o negócio.
Excelente, pensei. Não havia nenhuma razão para me preocupar.
O TRIBUNAL FICAVA no número 225 da Cadman Plaza e parecia envolvido por um desespero irredutível. Ninguém, ao que parecia, realmente queria estar por lá, desde advogados, réus, funcionários, delegados, repórteres, pessoas que varriam o edifício de seis andares largos, até os próprios juízes. Todos pareciam entediados, desesperados ou à beira das lágrimas. Embora se pudesse encontrar o sorriso ocasional de alguém que tinha acabado de ser absolvido de uma acusação criminal, para cada sorriso largo havia uma carranca. Afinal, para cada vencedor, havia um perdedor.
Exceto no meu caso.
Era sexta-feira de manhã, alguns minutos antes das 10, e meus advogados e eu estávamos em um corredor longo e largo fora da sala do tribunal do juiz Gleeson. Tirando alguns bancos de madeira encostados contra as paredes, o corredor estava completamente vazio. Os bancos em volta pareciam tão confortáveis como o chão de linóleo. Entre os bancos havia quatro portas à prova de som, duas de cada lado, e cada uma levava a um tribunal separado.
Só então Magnum olhou por cima da minha cabeça e disse:
– Olhe, Alonso está chegando – e ele apontou para uma figura alta e magra que vinha em nossa direção. À primeira vista, ele parecia mais um astro de cinema que um promotor assistente. Alto, magro, de boa aparência, imaculadamente bem arrumado e com um sorriso surpreendentemente caloroso, era tudo o que o Canalha não era, uma imagem de graça e gentileza. Parecia o ator George Hamilton, sem o bronzeado.
– Então você é Jordan Belfort – disse Dan Alonso, estendendo a mão para um aperto. – Você não parece capaz de causar tanta comoção!
Eu sorri e apertei sua mão calorosamente, me perguntando se ele estava fazendo alguma vaga referência à minha altura. Afinal, ele era muito alto, e a cabeça de Magnum estava quase raspando o teto do corredor. Dei um passo em direção ao homem de Yale, buscando proteção quanto à altura, e disse:
– Bem, a aparência às vezes pode ser enganosa, certo?
Alonso assentiu e apertou minha mão firmemente.
Magnum disse:
– Eu prometo a você, Alonso, este é o fim de toda a comoção. Jordan perdeu seu desejo de voar em helicópteros com sacos de dinheiro. Certo, Jordan?
“Não se esqueça da garota menor de idade”, pensei.
– Para sempre – disse eu, confiante. – Eu nunca mais vou pisar em Atlantic City. Na verdade, não tenho vontade nem de colocar os pés em Nova Jersey de novo!
– E quem tem? – comentou o homem de Yale.
Magnum disse a Alonso:
– Eu acho que seria um bom momento para repassar as informações. Eu já falei para Jordan sobre suas novas restrições e ele está totalmente de acordo com elas. Correto, Jordan?
– Sim – disse eu, sem entusiasmo. – Estou realmente ansioso por elas…
Alonso disse:
– Basta se comportar por alguns meses e a gente pode voltar a falar com Gleeson para fazer uma moção e retirar você da prisão domiciliar. Acho que essa é a aposta mais segura para nós.
Comprimi os lábios e assenti humildemente, mas por dentro estava pensando: Alonso é muito melhor! Que o Canalha queime no mármore do inferno, com um tridente enfiado no rabo!
– Obrigado – respondi humildemente.
– Sem problema – disse, e virou-se para Magnum. – Acho melhor não levantar o assunto Dave Beall hoje. Podemos marcar outra audiência para isso.
Magnum assentiu e depois olhou para mim:
– Dan foi legal o suficiente para reduzir a ação de obstrução de justiça por mentir a um agente federal.
Alonso, sarcasticamente, falou:
– Agradeça a seus advogados por essa. Eles vinham me atormentando tanto nos últimos dias sobre isso, principalmente Nick, que já não suportava mais ouvir a voz deles.
– Só estou fazendo meu trabalho – disse o homem de Yale.
Sorri para Magnum e para o homem de Yale. E disse a Alonso:
– Eu agradeço por tudo isso, mas, acima de tudo, sei que meus filhos também vão agradecer um dia.
Alonso balançou a cabeça, compreensivo.
– Tudo bem, vamos entrar e acabar com isso – ele deu um passo e parou. Virou-se para nós e disse: – Espero sinceramente que Gleeson não faça muitas perguntas hoje, porque, para todos os fins, eu não tenho a menor ideia do que realmente aconteceu aqui. Essa coisa toda foi despejada no meu colo de última hora, e eu detesto ir para o tribunal sem saber todos os detalhes. Quer dizer, para início de conversa, por que diabos iria para Atlantic City? Você estava sob prisão domiciliar, caramba!
Balancei a cabeça, envergonhado.
– Bem, eu acho que foi apenas…
Alonso me cortou com a mão levantada.
– Não, não me diga nada. Eu prefiro não saber. Não há sentido nisso – ele balançou a cabeça. – De qualquer forma, para um cara tão inteligente, você faz algumas coisas bem burras, sabia?
Eu balancei a cabeça, concordando.
– Sim, eu já ouvi isso antes.
– Bem, não estou surpreso. Vamos, vamos entrar.
– ATENÇÃO! – esbravejou uma mulher de meia-idade vestindo um terninho anódino marrom. – A Corte dos Estados Unidos para o Distrito Leste de Nova York está agora em sessão – continuou ela, com uma voz surpreendentemente profunda. – Todos de pé para o honorável juiz John Gleeson.
Como um mágico, o juiz Gleeson, em vestes negras, emergiu por detrás de uma porta com painéis de madeira que ligava seus aposentos ao tribunal. Sem dizer uma palavra, ele caminhou calmamente até um curto lance de escadas e sentou-se atrás de uma mesa grande de madeira que ficava em cima de um palco de madeira, que serviria para o próprio Fantasma da Ópera.
À esquerda do juiz, uma estenógrafa do tribunal tomou seu lugar em antecipação aos processos do dia. Atrás dela, ficou de pé um homem atarracado, que usava uma folgada jaqueta esporte azul, com uma protuberância gigante debaixo da axila esquerda. Ele só estava ali de pé, os braços cruzados sob o peito enorme, esperando alguém começar a foder com o juiz. Então ele atacaria com a velocidade de uma cobra.
O resto de nós, incluindo meu oficial de serviços pré-julgamento, Patrick Mancini, que com seu tamanhão poderia ter jogado na posição de ataque dos Rams, ficamos todos de pé atrás da mesa da defesa. Isso foi um bom sinal, pensei, porque não havia ninguém atrás da mesa do procurador. (Estamos todos do mesmo lado aqui!) Na verdade, mesmo a única pessoa nas cadeiras do público, uma jovem negra de 20 e poucos anos, que calculei ser uma aspirante a advogada ou uma repórter, parecia estar do meu lado. Ela estava sentada segurando um caderno espiral e uma caneta.
Magnum colocou a mão no meu ombro e me empurrou para baixo, para meu lugar. A mulher que tinha anunciado a presença do juiz começou a murmurar alguma coisa para a estenógrafa, algo como todos os Estados Unidos da América estarem contra mim, Jordan Belfort. Eu nunca tinha olhado a coisa realmente sob aquele prisma antes, mesmo em meu julgamento, que ocorreu em segredo, dentro da sala do juiz Gleeson.
O juiz Gleeson parecia bastante agradável, na verdade. Mesmo naquelas balouçantes vestes negras, eu podia dizer que ele tinha um bom coração. Ele olhou para mim como um cara que ia fatiar um peru de Ação de Graças para sua família. Era jovem para um juiz federal, com pouco mais de 45 anos, e tinha reputação de ser brilhante. Torci para que estivesse de bom humor.
De repente, Magnum fez sinal para eu ficar de pé, então me levantei.
– O.k. – disse o juiz Gleeson, suavemente. – Então, o que está acontecendo aqui?
Alonso disse:
– Se a corte permitir, meritíssimo, eu gostaria de falar.
O Juiz Gleeson assentiu.
– Obrigado – disse Alonso. – Bem, meritíssimo, nós chegamos a um acordo com o advogado do réu sobre este assunto, bem como com o senhor Mancini. O acordo consiste em apertar as restrições da prisão domiciliar do réu para termos mais estritos. O réu só será capaz de viajar para o trabalho e deverá estar em casa às 6 horas da tarde, sem exceção. Nos fins de semana, estará com 24 horas de bloqueio.
Alonso assentiu uma vez, satisfeito com minhas novas condições.
– Ah, é? – grunhiu o juiz Gleeson. – Bem, eu tenho perguntas.
E foi isso, a coisa acabou antes de começar.
Gleeson tinha perguntas e Alonso não tinha respostas, porque ele acabara de assumir o caso. Mesmo que ele as tivesse, não importaria de qualquer maneira, porque, como Magnum tinha dito antes, aquilo era o tipo de coisa que elevava a ira de Gleeson, e muito!
De repente, pecebi que Alonso estava balbuciando algo sobre um helicóptero… Um saco de dinheiro… Em seguida, uma fêmea não identificada (e, obviamente, cada uma das almas na sala do tribunal, especialmente Gleeson, sabia exatamente o tipo de mulher que era), e então ele começou dizendo…
– Mas eu realmente não sei de todos os fatos, meritíssimo, porque eu só…
Gleeson o interrompeu com uma voz ameaçadora:
– Você está me dizendo que veio ao meu tribunal despreparado, que você não sabe nada sobre este caso?
Eu lancei uma rápida olhada para Alonso, que parecia que tinha acabado de levar um tiro. Do jeito que eu imaginei as coisas, ele tinha duas opções: a primeira seria jogar toda a culpa sobre o Canalha, e a segunda seria apenas dizer que sentia muito e que não voltaria a acontecer. Alonso disse:
– Sinto muito, meritíssimo, isso não vai acontecer de novo.
Então foi a vez de Mancini.
– Senhor Mancini? – disse o irritado juiz.
Pat se atrapalhou com algumas notas, começou a vomitar fatos de forma aleatória e depois algumas contradições acabou por dizer:
– Mas… Er… Apesar de tudo isso, eu ainda acho que o senhor Belfort pode ser confiável e capaz de viver de acordo com suas novas condições de liberação – ele deu de ombros, como se dissesse: “Mas é apenas a opinião de um homem. Não vá me prender por causa disso”.
Gleeson não mandou prendê-lo. Em vez disso, não dirigiu uma única palavra a ele, apenas ficou lá por alguns segundos, olhando para Mancini, seus olhos emitindo o que parecia ser um incrível raio de encolhimento; assisti fascinado enquanto Mancini, aquele compridão, parecia encolher-se mais e mais, até ficar do tamanho de um anão.
Satisfeito com isso, Gleeson desligou seu raios encolhedores e voltou-se para seu velho colega Magnum, dizendo:
– E a defesa, tem algo a acrescentar?
Magnum ficou de pé em toda a sua estatura e disse, num tom bastante confiante:
– Sim, meritíssimo…
E começou a fazer um relato bastante acurado dos acontecimentos. Suas palavras saíram confiantes e completamente lógicas, o que foi uma porra de desastre para mim, porque não era uma daquelas situações em que a verdade vos libertará, especialmente quando Magnum chegou na parte sobre o mau funcionamento do helicóptero ser a principal causa de eu não ter voltado a tempo para casa. Foi quando Gleeson atacou:
– Então, o que você está dizendo, advogado, é que a desculpa de seu cliente é que ele pensou que poderia se safar disso?
– Er… Não exatamente – disse Magnum, e… porra!, pensei. Como diabos poderia um juiz, que nunca tinha quebrado uma única lei em sua vida inteira, peneirar todas as besteiras tão rapidamente? Quais seriam as chances?
Magnum tentou me defender novamente, expelindo mais meias verdades e algumas previsões bastante ousadas (considerando meu histórico) sobre minha futura conduta sob prisão domiciliar. Mas eu já não podia ouvir mais. Eu sabia onde aquilo ia parar e sabia onde eu estava indo parar. E não seria em casa.
Finalmente, houve alguns momentos de silêncio. Eu lutei contra a vontade de me virar e dar uma espiada na minha espectadora favorita. Ela deve ter pensado que ficaria sentada assistindo a uma audição chata e estava prestes a ver um cara que tinha colocado 10 milhões de dólares em fiança vê-la revogada!
Gleeson se pronunciou, e eu sabia que ele estava falando palavras em inglês, mas por algum motivo eu não conseguia entendê-las. Ele soava como aquele professor abafado dos desenhos do Charlie Brown. Estava me sentindo tonto, quase vomitando. A sala do tribunal parecia revirar lentamente, como se eu estivesse em um carrossel…
Então eu ouvi Gleeson dizer:
– Não… Não… Não gosto disso… Vamos ao fundo disso… Flagrante desrespeito… Helicóptero… Onde… Ele conseguiu dinheiro… – Então, de repente, mais Charlie Brown: “Weep, womp… Womp, weep… Weep, womp…”. E então: – Por este meio, devolvo o réu à prisão.
Depois, a única coisa de que me lembro era de Magnum dizendo:
– Dê-me seu relógio, seu dinheiro e seu cinto também.
Eu tinha apenas alguns segundos de liberdade e minha mente logo saltou para meus filhos. Eu tinha combinado de buscá-los à tarde. Que tristeza… Eu tinha decepcionado meus filhos de novo. Enquanto retirava o relógio de pulso, disse a Magnum com um tom de urgência na voz:
– Você tem de ligar para Nadine e lhe contar o que aconteceu. Diga-lhe que não sei quando serei capaz de telefonar, mas para dar um beijo nas crianças e dizer que eu as amo muito. E que sempre vou amá-las.
– Vou cuidar disso imediatamente – disse ele. – Sinto muito por isso ter acontecido.
– Não tanto quanto eu, garanto – disse, suavemente. – Tem algum jeito de eu me safar dessa encrenca?
Ele negou com a cabeça.
– Não neste momento; a gente precisa deixar Gleeson se acalmar, e isso deve demorar algum tempo… Muito tempo.
– E quanto é esse muito tempo?
– Alguns meses, talvez um pouco mais que isso.
Num piscar de olhos, aquele homem que tinha uma protuberância debaixo do paletó estava parado a meu lado. Gentilmente, ele me disse:
– O senhor se importaria de vir comigo, senhor?
– Eu tenho escolha? – perguntei, com um sorriso nervoso.
– Temo que não, senhor – respondeu ele, colocando a mão musculosa sobre meu ombro e gentilmente me conduzindo em direção a uma porta secreta na parte da frente da sala do tribunal.
Dei alguns poucos passos e então me virei para dizer a Magnum:
– Merda! Você precisa ligar para a Yulia! Ela está no hotel Four Seasons! Eu lhe disse que voltaria em uma hora!
– Pode deixar, eu cuido disso – respondeu ele, calmamente. – Logo depois de falar com Nadine.
– O quarto está em meu nome – gritei por cima do ombro.
E então, fui levado embora, passando por uma porta e saindo em uma área pouco conhecida do número 225 na Cadman Plaza, que consiste em celas, lâmpadas fluorescentes e pessoas desesperadas. A área não tem um nome, mas eu estivera ali uma vez antes e quase tinha morrido congelado. Agora eu estava de volta.
Como de costume, eu não tinha ninguém para culpar além de mim mesmo.