CAPÍTULO 7
O NASCIMENTO DE UM VENDEDOR
– Quer dizer então que pegou suas coisas e foi embora? – perguntou a Bruxa, mexendo a cabeça para trás e para a frente.
– Sim – respondi casualmente –, foi exatamente isso que eu fiz. E parti com tudo o que eu tinha no mundo, ou seja, uma mala cheia de roupas sujas e a camisa que estava vestindo. E, claro, os 3 mil dólares faturados no leilão. Quando olho para trás e relembro essas coisas, fico espantado com a facilidade que foi juntar minhas coisas e partir de Baltimore. O apartamento onde eu vivia era um daqueles que você paga mês a mês, eu não tinha móveis com os quais me preocupar, e minhas obrigações financeiras eram basicamente inexistentes. O único problema era que eu estaria morando na casa de meus pais novamente, e posso garantir que não era nada fácil. Os dois ainda estavam morando naquele mesmo apartamento de dois dormitórios onde cresci, justamente o mesmo apartamento para onde jurei nunca mais voltar depois que ficasse rico…
Fiz uma pausa e cocei o queixo, pensativo.
– Na verdade, eles ainda estão morando nesse mesmo apartamento, apesar de todo o dinheiro que meu pai ganhou na Stratton – balancei a cabeça com espanto. – Dá pra imaginar isso? Eu até me ofereci para comprar uma casa para eles quando as coisas estavam bem, mas eles não quiseram se mudar de lá. Pode-se dizer que eles são os últimos sobreviventes daquelas antigas criaturas de hábitos…
– E então você deu a notícia a eles… – o Canalha me interrompeu, impaciente.
– Bem, achei que seria mais fácil se eles digerissem as novidades em pequenas doses, de forma que, antes de sair de Baltimore, já tinha avisado a meus pais que iria desistir da faculdade de odontologia; não informei naquele momento que iria trabalhar como vendedor da empresa de carnes e frutos do mar… Soltei a bomba sobre os dois na sala de estar, que era o local onde todas as conversas familiares importantes aconteciam. Meu pai estava sentado em sua cadeira favorita e minha mãe, no sofá, lendo um livro. Por alguma razão, ainda me lembro qual livro era… Sobre a morte e o morrer… – dei de ombros. – Sei lá, minha mãe sempre gostou dessas coisas meio mórbidas… Meu pai, enquanto isso, se distraía assistindo ao último episódio de um seriado policial e fumando, completamente desligado do que acontecia a sua volta. Naquele momento, sentei-me em frente a meu pai e disse: “Preciso conversar com vocês dois um pouquinho”. Meu pai olhou para minha mãe e falou, em um tom de voz um pouco irritado, “Lee, dá pra desligar a TV por um minuto?”; minha mãe colocou o livro de lado e praticamente correu para desligar a antiga Trinitron. Era assim o relacionamento entre meus pais, Mad Max e Santa Leah. Ela passou a melhor parte de sua vida tentando evitar que ele queimasse um fusível emocional.
E continuei:
– Seja como for, eu disse a eles: “Olhem, essa coisa de ser dentista não é para mim. Tentei um semestre inteiro e agora tenho absoluta certeza de que não serei feliz nessa profissão”. Claro que era mentira, mas eu percebi que se contasse a eles que tinha desistido já no primeiro dia, os dois iriam ficar realmente chateados. Seja como for, minha mãe não estava aceitando muito a ideia. “Eu nunca pensei que fosse ser dentista para sempre”, disse ela. “Eu achava que você iria abrir uma rede de clínicas odontológicas um dia, ou então iria descobrir um novo procedimento, não sei. Mas ainda não é tarde demais…” “Não, mãe, já é tarde demais, sim, eu não vou voltar”, e então olhei para meu pai, pedindo seu apoio. Ele, de fato, era melhor nessas situações. Ele adorava uma boa crise; parecia acalmá-lo de algum jeito, e isso acontece até hoje. Eram as pequenas coisas que o deixavam louco da vida. Eu disse a ele: “Ouça, pai, eu não quero ser dentista, quero ser vendedor. É para isso que eu sirvo, para vender coisas e…”. E então minha mãe pulou do sofá e gritou: “Ah, meu Deus, Max! Vendedor, não! Tudo menos isso!”. Então ela se virou para mim e disse: “Olha o que você já me causou”. Depois abaixou a cabeça e apontou para uma pequena mecha de cabelos grisalhos: “Isso foi quando você largou o colégio e ficou fumando maconha o dia inteiro com aquele horrível Richard Kushner!”. Logo apontou para uma ruga na testa e continuou: “E isso é de quando você inventou de plantar maconha no quarto e disse que era um projeto da aula de ciências! E agora você está saindo da faculdade de odontologia para se tornar um vendedor!”.
– Eu estava lentamente perdendo a paciência com ela. Com um pouco de irritação no meu tom de voz, retruquei: “Eu não vou voltar para aquela faculdade, mãe, e isso é definitivo!”. E ela: “Não é definitivo, nada!”. E eu: “É sim”. E ficamos naquela de bater e rebater até que finalmente Mad Max se intrometeu na discussão: “Vocês querem parar com isso?”, gritou ele. “Caramba!” E balançou a cabeça, descrente. Então olhou para minha mãe e disse: “Ele não vai voltar para a faculdade, Leah. Qual é a utilidade?”. Em seguida, olhou para mim e sorriu calorosamente. Com um leve sotaque britânico, perguntou: “Que tipo de vendedor você gostaria de ser, filho? O que você se vê vendendo?”.
– Seu pai é britânico? – perguntou o TOC. – Eu não sabia disso – o tom da voz dele deixava transparecer alguma surpresa, como se alguém tivesse lhe dado algumas informações muito ruins.
– Não, ele não é realmente britânico – respondi. – Ele só fala com sotaque britânico quando está tentando agir e se comportar de forma mais razoável. Essa é a outra persona de meu pai: Sir Max. É seu alter ego amável. Quando Mad Max se transforma em Sir Max, ele franze os lábios e começa a falar com uma pitada de aristocracia britânica. É bastante notável, na verdade, considerando que ele nunca sequer visitou a Inglaterra – curvei os cantos da boca e encolhi os ombros. – Algumas coisas simplesmente desafiam a lógica, e não vale a pena ponderar sobre isso. Mas Sir Max é o melhor. Ele nunca perde a paciência. Ele é totalmente razoável em todas as situações.
– Então, o que você disse a Sir Max? – perguntou o Canalha.
– Bem, de início hesitei e falei de forma meio evasiva, especulando sobre a possibilidade da venda de suprimentos médicos ou dentários, algo que se encaixasse no meu nível, digamos, superior de educação. Mas depois, como uma segunda hipótese, trouxe à baila o assunto de Elliot Loewenstern e a carne e os frutos do mar. Minha mãe, é claro, imediatamente começou a me torturar, usando a típica culpa judaica, que é aquela culpa judaica recorrente e comum mesclada a agressividade e passividade sarcástica. “Meu filho, um vendedor de carne!”, ela começou a murmurar. “Mas que maravilha! Ele larga a faculdade para vender bife. O que uma mãe poderia pedir mais?” Ela começou a proferir mais algumas palavras desse naipe e, em seguida, o telefone tocou. Sir Max se transformou de novo em Mad Max e passou a xingar: “Esse maldito filho da puta, esse pedaço de merda de telefone! Quem diabos tem a ousadia de ligar para essa casa nessa porra de terça-feira à tarde? É um insensível!” Minha mãe pulou do sofá e correu para o telefone como se fosse Jesse Owens, enquanto implorava a meu pai: “Acalme-se, Max! Acalme-se! Já vou atender, já vou atender!”. Mas Mad Max ainda estava murmurando palavrões em voz baixa: “Esse rato desgraçado! Quem é o imbecil que liga para essa casa numa maldita tarde de terça-feira?”.
Com um falso ar de seriedade, expliquei:
– Meu pai realmente detestava quando o telefone tocava! Juro, não havia nada que o deixasse mais maluco.
– Por quê? – perguntou TOC.
Dei de ombros.
– Em grande parte, acredito que tenha a ver com o fato de que ele é resistente a mudanças. Ele odeia mudanças em qualquer tamanho ou forma. Veja, nos últimos 36 anos ele manteve o mesmo endereço, o mesmo número de telefone, a mesma oficina mecânica, até mesmo a mesma lavanderia chinesa! Ele conhece todos os proprietários dessas lojas e desses serviços pelo nome, então ele fala assim: “O Pepe”, se referindo à tinturaria, ou “o Wing”, para a lavanderia, ou “o Jimmy”, do posto de gasolina, entendeu?1 É uma coisa totalmente inacreditável – balancei a cabeça para trás e para a frente, enfatizando esse ponto. – Quando o telefone toca, ele traz um estímulo indesejável a seu ambiente, criando potencial para uma mudança. Não importa se o telefonema traz uma notícia boa ou ruim, isso não faz diferença para ele; Mad Max fica doido da mesma maneira. – Dei de ombros de novo, como se fosse apenas mais um acontecimento esperado no Chez Belfort. Então disse: – Sob circunstâncias normais, a pior coisa que minha mãe pode dizer depois que pega o telefone é: “Max! É para você!”. Mas, uma vez que Mad Max pega o telefone, ele se torna Sir Max novamente, usando seu sotaque britânico: “Em que posso ajudá-lou? Ah, certou! Esplêndidou, amigou!”. E ele fica assim, como Sir Max, até que desliga o telefone e volta imediatamente a Mad Max de novo, amaldiçoando enquanto volta para sua cadeira e acende mais um cigarro. De qualquer forma, quando minha mãe atendeu ao telefone naquele dia, a ligação não era para meu pai. Era para mim e, entre todas as pessoas do mundo, era justo o Pinguim. E então meu pai começou a resmungar: “Essa merda desse telefone! É sempre a mesma coisa. E esse porra desse merda do Pinguim! De que buraco esse filho da puta saiu? É um vagabundo que nem sabe andar direito…”.
A essa altura da história, todos nós estávamos chorando de rir, e o primeiro a se recuperar foi o Canalha:
– Então Mad Max ficou louco com sua história de ser vendedor de carne?
– Nem tanto – respondi. – No momento em que desliguei o telefone, eu lhes disse que tinha conseguido um emprego como vendedor de carne e frutos do mar, o que quase fez Santa Leah desmaiar e possibilitou que Sir Max ressurgisse. – Fiz uma pausa por alguns instantes e depois disse – Meus problemas só começaram mesmo no dia seguinte, quando o Pinguim parou em frente ao meu prédio em seu veículo da empresa, que era uma picape Toyota. “Que porra é essa?”, perguntei. “Não me diga que esse é o veículo da empresa sobre o qual você estava falando!”. E o Pinguim respondeu: “Sim, não é uma beleza?”. E então saiu da picape, vestindo jeans e tênis, e gingou até perto de mim, colocando a mão em meus ombros. Ele olhou para o Toyota e perguntou: “O que você acha?”. “É um belo pedaço de merda!”, rosnei, e depois notei um grande freezer na carroceria da picape. “Que porra é essa, Pinguim? Parece um caixão!” Eu vi um rastro de fumaça de gelo seco cinza elevando-se a partir de um dos cantos do freezer. “E aquela bosta, o que é?”, perguntei, apontando para a coluna de fumaça. Elliot me lançou um sorriso e, levantando o dedo indicador, disse: “Venha, eu vou mostrar!”. Ele foi gingando até o lado do passageiro e abriu a tampa da geladeira. “Dê uma espiada na comida!”, disse orgulhosamente, puxando as caixas, uma a uma, e me mostrando a comida. Cada caixa tinha o tamanho de uma pequena mala e trazia um corte diferente de carne ou um tipo diferente de peixe ou de frutos do mar. Havia de tudo lá dentro: filé-mignon, camarão, lagosta grelhada, cordeiro, costeletas de porco, vitela, filé de linguado, filés de salmão, patas de caranguejo. Ele tinha até comidas já preparadas, como frango kiev e frango cordon bleu. Eu nunca tinha visto nada como aquilo…
– Quando ele acabou de mostrar tudo, estávamos cercados por mais de duas dúzias de caixas, e eu estava mais confuso que nunca. Eu sabia que havia algo me incomodando, mas não conseguia dizer o que era. “Como vamos conseguir que os restaurantes comprem isso de nós?”, perguntei. “Nossos preços são mais baixos, nossa carne é melhor, o que é?” O Pinguim me olhou impassível e disse: “Quem falou sobre venda para restaurantes?”.
Olhei para o Canalha e balancei a cabeça. Com um espasmo que indicava uma risada, disse:
– Naquele instante, achei que já sabia de tudo, e o que veio depois disso foi meramente incidental. Quando eu decidi não correr de volta para casa e refazer minha matrícula na faculdade de odontologia, selei meu destino – encolhi os ombros. – A década seguinte de minha vida, quer dizer, a insanidade da Stratton Oakmont, era então uma conclusão precipitada.
O Canalha se inclinou para a frente em sua cadeira, obviamente intrigado.
– O que o faz dizer isso? – perguntou.
Eu pensei por um momento.
– Bem, vamos apenas dizer que ali, naquele momento, eu sabia muito bem no que estava me envolvendo. Eu sabia que tudo aquilo era um… – eu evitava usar a palavra golpe, não só porque aquele negócio de carne e frutos do mar não era um golpe indiscutível, mas também porque não desejava que meus captores me vissem como um golpista de carteirinha. Era melhor que eles enxergassem a Stratton como uma manchinha na vida de alguém até então semicumpridor da lei – … era um pouco de confusão – continuei, com cuidado. – Ou talvez até mais que um pouco. Mas pensei o seguinte: já que a comida era tão boa, que mal poderia fazer?
Dei de ombros à minha própria racionalização.
– Enfim, eram mais ou menos 20 minutos de viagem até o depósito, e no caminho Elliot me explicou os prós e os contras. Tudo estava sendo vendido de porta em porta, para donas de casa ou empresas, mas nunca a restaurantes. Desse modo, não havia como estabelecer um preço fixo. “Nós vendemos no varejo, não no atacado”, o Pinguim me informou. E, embora ele não tenha dito isso claramente, acredito que sugeriu que nossos preços não eram baixos. “Trata-se da conveniência”, disse ele. “Nós entregamos comida de qualidade de restaurante diretamente na sua casa. E até organizamos seu freezer com elas!”, ele repetia a última parte nomeando-se um empacotador profissional de freezers, como se isso compensasse o fato de estar cobrando um preço exagerado pela comida.
– Bem, quer fosse um preço alto ou não, o fato é que, quando chegamos ao depósito, eu já tinha uma boa ideia do que estava acontecendo na Great American Meat and Seafood: não havia territórios, brochuras, clientes que devessem ser atendidos nem salários de qualquer tipo. Era tudo na base da comissão. “Nós somos máquinas de captação de clientes”, disse o Pinguim assim que entramos no armazém. “É por isso que ganhamos tanto dinheiro.” Minha entrevista de trabalho ocorreu dentro de um escritório desorganizado na parte da frente do armazém. Durou oito segundos e meio, depois dos quais fui contratado. Eu ainda não tinha ouvido falar do teste do espelho na época, então apenas supus que tinha conseguido o trabalho porque era amigo de Elliot. Não sabia até então que eles iriam contratar qualquer um que tivesse batimentos cardíacos comprovados – dei de ombros inocentemente. – E então veio o programa de treinamento, que consistiu em dois dias em uma picape com Elliot. Sentei-me no banco do passageiro, observando, enquanto ele dirigia sem rumo, batendo na porta da casa das pessoas, tentando vender a comida. O discurso que ele usava era o de ser motorista de uma picape e ter um excesso de carga que não podia levar de volta para o freezer, por isso estava disposto a vender tudo a preço de custo, antes que a comida descongelasse e ele perdesse a mercadoria. E, para apoiar sua alegação, cada caixa tinha um preço inflacionado marcado nela. Enquanto estava vendendo, o Pinguim chamava a atenção para os preços e começava a dizer “Eu aceito 15 dólares por essa caixa e 15 dólares por aquela caixa…”. E, em seguida, sorria para o cliente e acrescentava: “Ei, eu prefiro vender a preço de custo a deixar descongelar tudo, certo?”.
– Ele estava mentindo descaradamente na cara de seus clientes! – rosnou a Bruxa.
Eu sorri por dentro.
– Sim, Michele, ele estava mentindo para seus clientes. Quero esclarecer que isso definitivamente me chocou no início. Aquilo que ele estava fazendo me parecia totalmente desprezível. Totalmente viscoso, nojento, sacana. Mas, é claro, o Pinguim tinha uma racionalização para tudo, inclusive para essa atitude. Estávamos em algum lugar da costa sul de Long Island quando abordei o assunto com ele. Elliot estava ao volante, em busca de “território virgem”, que era um termo “pinguinzístico” para um bairro do qual nunca ninguém tinha ouvido falar antes. Era início de tarde, e eu já o tinha visto fazer seu discurso mais ou menos meia dúzia de vezes até então, embora não tivesse vendido nenhuma caixa ainda. Foi quando comecei a falar: “Não consigo acreditar no golpe que é isso aqui, Elliot. Tem certeza de que isso é mesmo legal?”. Elliot olhou para mim como se eu tivesse acabado de cair de um caminhão de nabo e disse: “Olha quem está falando, seu hipócrita do caralho! Você não é o cara que costumava raspar o fundo das geladeiras de isopor para vender mais algumas bolas de sorvete?”. E deixou escapar uma bufada. “Isso aqui não é diferente, amiguinho. Além disso, as pessoas não podem nem mesmo encontrar essas caixas de comida no supermercado.” Eu balancei a cabeça e disse: “Sim, sim, eu entendo que a comida é ótima e estou muito feliz com tudo, mas nada disso muda o fato de que você é um mentiroso de merda!”. Parei por um momento e, em seguida, acrescentei: “E quanto a esse comentário de eu raspar o fundo da geladeira, isso só aconteceu por acidente, foi uma coisa meio automática”. “Claro, claro que foi”, chiou o Pinguim. “Foi tudo um acidente. Não dava para deixar o gelo separado de lado sem misturar, não.” Ele revirou os olhos para mim. “Enfim, o que estou fazendo com os preços é uma coisa que acontece em todos os lugares. Sério. Basta você andar em qualquer loja de joias ou de eletrônicos e conferir. Todo mundo age assim.”
Fiz uma pausa, deixando as palavras de Elliot pairando no ar. Então disse:
– Não há como negar que ele tinha razão em um ponto. Você vê isso em joalherias o tempo todo. Eles aumentam os preços e depois remarcam as etiquetas bem na sua frente, e assim você pensa estar fazendo um grande negócio – fiz nova pausa e continuei. – E esse lance de ter excesso de pedidos na picape não é muito diferente de todas essas lojas que você vê anunciando “queima de estoque”, “fechando a loja” ou coisa parecida. A maioria delas fica anunciando que vai sair do mercado por dez anos, e dez anos depois elas ainda estarão saindo do mercado…
Respirei fundo e continuei:
– De qualquer forma, passamos a maior parte do primeiro dia trabalhando em bairros de classe média, batendo na porta das pessoas e tocando a campainha. A rejeição foi absolutamente impressionante. Portas foram batidas em nossa cara a torto e a direito, com as pessoas basicamente nos dizendo para irmos para o inferno. Por volta das 2 horas da tarde, Elliot estava ficando pessimista. Ele começou a se lamentar para mim: “Ninguém quer comprar comida hoje” – balancei a cabeça e comecei a rir. – Aquilo foi triste de ver. Quer dizer, o pobre coitado estava quase chorando! Na praia, todo mundo nos amava, éramos tratados quase como celebridades por lá. Mas ali nós éramos tratados como leprosos. Ainda assim, de alguma forma o Pinguim conseguiu descarregar 12 caixas naquele dia, e no dia seguinte ele descarregou outras 16 – balancei a cabeça lentamente, ainda muito impressionado com a persistência dele. – Uma coisa que posso dizer sobre o Pinguim é que ele é um cara implacável. Ele se manteve vagando de porta em porta, batendo e tocando campainhas até que os nós dos dedos ficassem quase sangrando, mesmo enquanto engolia as lágrimas. Mas ele estava faturando em média 300 dólares por dia em comissões, portanto aquilo valia algumas lágrimas. Quer dizer, isso era muito dinheiro naquela época, especialmente para um moleque que tinha acabado de cair fora da faculdade de odontologia. Então, foda-se, eu pensei. Apesar de saber que era sacanagem, resolvi que era uma coisa que valia a pena tentar.
Fiz uma pausa e olhei para o TOC.
– Você quer adivinhar o que aconteceu a seguir?
TOC sorriu e balançou a cabeça algumas vezes.
– Nem consigo imaginar…
– Na verdade – retruquei –, de fato você não conseguiria imaginar, porque ninguém naquela empresa conseguiria. Já que o preço parecia ser a maior objeção das pessoas, então porque não tentar vender para os mais ricos? Ou melhor, para as pessoas ricas que eu conhecia? O problema era que eu realmente não conhecia ninguém rico, exceto pelo pai da minha namorada na faculdade, David Russell. Mas era uma situação que podia ser meio complicada, porque ele e sua esposa tinham acabado de se separar e eu não tinha ideia de onde ele estava vivendo. Ela, eu sabia, ainda estava vivendo na mansão em Westchester, mas eu não podia simplesmente bater à porta dela. Ela nunca gostou de mim, embora eu não possa imaginar por que – olhei para a Bruxa e disse: – O que há para não gostar, certo, Michele?
A Bruxa não disse nada nem sorriu; ela simplesmente ergueu a fina sobrancelha esquerda como se questionasse: “Você está brincando comigo, certo?”. Dei de ombros e disse:
– Bem, acho que ela teve suas razões. Mas, deixando isso de lado, tomei a melhor decisão que podia e fui até seu vizinho – balancei a cabeça uma única vez, o que denotava a correção daquela minha decisão. – Sim – contei com orgulho –, eu estacionei minha picape Toyota bem na frente da enorme porta do vizinho e pulei do carro, subindo a escada e batendo na porta. Lembro-me de tudo como se tivesse acontecido ontem. Era uma enorme casa no estilo colonial, com persianas de cor verde-floresta, e a porta da frente era maior que aquela que conduzia à Cidade das Esmeraldas. Era pintada de vermelho escuro e devia ter umas mil mãos de verniz sobre ela. Continuei batendo, até que, finalmente, depois de um minuto, uma senhora de seus 60 anos e aparência gentil, com cabelos grisalhos e óculos de vovó, veio até a porta e me disse: “Posso ajudá-lo, meu jovem?”. Ofereci a ela um sorriso triste e respondi: “Talvez a senhora possa. Meu nome é Jordan e eu entrego carnes e frutos do mar para alguns de seus vizinhos na região. Eu tenho um excesso de produtos na minha picape hoje e não posso levar isso de volta para o freezer. Estou disposto a vender-lhe tudo a preço de custo”. Lancei a ela meus grandes e tristes olhos azuis de cachorrinho e acrescentei: “Tem algum jeito de a senhora me ajudar?”. Ela olhou para mim por alguns segundos e, depois, em um tom maduro e repleto de ceticismo, perguntou: “Quem são esses vizinhos para quem você faz entregas?”. Sem perder o ritmo, respondi: “Para os Russells aqui ao lado”. De repente, me ocorreu que ela podia realmente telefonar para eles, então rapidamente acrescentei: “Na verdade, era para o senhor Russel, David, como ele gostava de ser chamado”, e então apertei os lábios e balancei a cabeça tristemente. “Mas, como sabe, com tudo que vem acontecendo por lá com essa história do divórcio, eles não têm comprado muita coisa de mim ultimamente”.
– A senhorinha de fato ficou comovida com isso, e seu tom imediatamente suavizou. “Eu posso imaginar”, disse ela, com tristeza. “É terrível essa coisa de divórcio!”. De repente, ela se animou e perguntou: “Bem, meu filho, o que você tem no caminhão hoje?”. Eu levantei o dedo indicador e disse: “Espere um minuto e já voltarei!”. Corri para a picape, peguei uma caixa de cada e fui tropeçando pelo caminho com uma dúzia de pacotes. Empilhei todos eles e segurei essa pilha, que ficava quase uma cabeça mais alta que eu. Quando cheguei até a porta da casa, a mulher disse: “Está congelando aí fora, porque não traz isso tudo aqui para o hall?”. Ela fez sinal em direção a um hall de mármore cinza, que era grande o suficiente para pousar um avião. “Humm, obrigado”, agradeci, soltando um par de óbvios grunhidos e gemidos. “Estas caixas são muito pesadas.” Então, enquanto passava à frente da senhora, comentei: “A senhora está certa sobre estar muito frio lá fora. É brutal!”. Então, caí sobre meus joelhos e depositei a pilha de caixas sobre o piso de mármore, deixando que fizessem um ruído exagerado.
Fiz uma pausa e encarei meus captores.
Eles todos pareciam estar mais chocados que aborrecidos com aquela maravilhosa série de mentiras que eu havia contado para a velha senhora. O que eles não tinham ideia, porém, é que as maiores lorotas ainda estavam por vir. É evidente que eu não deveria me aprofundar em todos os detalhes sobre como havia convencido a gentil senhora a comprar todas as 40 caixas de carnes e de frutos do mar que eu trazia em minha picape. Esse não era o tipo de coisa que faria meus captores me respeitarem, mas parece que eu simplesmente não conseguia parar. Estava começando a sentir uma alegria irracional por voltar a explorar o passado, quando eu ainda era um vendedor iniciante. Além disso, enquanto eu estava ocupado falando sobre o passado, ficava sem tempo de me concentrar no presente, ou seja, na dura realidade em que minha vida havia se transformado. Então, segui em frente, com prazer.
– Bem, eu tenho de dizer uma coisa a vocês – voltei a falar, com um pouco de petulância escorregando das minhas palavras –, existem algumas ocasiões na vida de um jovem, momentos decisivos em que alguma coisa tão extraordinária acontece que ele sabe que nada nunca mais será como era – fiz uma pausa para dar mais efeito. – Aquela ocasião foi uma delas. Eu tinha vendido sorvetes na praia antes, mas aquilo não tinha sido de fato vender, tinha mais a ver com o trabalho duro e o desejo de ser bem-sucedido. E mesmo aquele pequeno leilão na faculdade de odontologia não tinha sido de fato uma experiência na arte de vender, embora tivesse sido definitivamente um passo adiante. Mas quando olhei para o rosto sorridente daquela senhora, bem… – adicionei um toque sobrenatural ao meu tom de voz – um estranho sentimento tomou conta de mim, quase mágico, na verdade. Era como se eu soubesse exatamente o que a mulher precisava ouvir, melhor ainda, exatamente o que eu precisava dizer a ela para convencê-la a comprar tudo.
E continuei:
– Eu abri a primeira caixa e fiz um gesto com a palma da mão para os 12 maravilhosos filés-mignons, cada um deles embalado individualmente em plástico transparente. “São de Black Angus”, expliquei com orgulho, “com 4 centímetros de espessura. Eles foram rapidamente congelados e mantidos assim de uma forma próxima à perfeição e podem durar até um ano em seu freezer, minha senhora”. Eu balancei a cabeça orgulhosamente, chocado com a facilidade como toda aquela merda rolava para fora de minha boca. “Os restaurantes grelham esses filés durante 7 minutos de cada lado e depois servem com molho béarnaise.” Então olhei direto nos olhos dela e disse com a máxima convicção: “Essa carne é tão macia que se pode fatiá-la com um garfo!”. Depois coloquei a caixa de lado e fui abrir a seguinte. “Aqui são caudas de lagosta da África do Sul”, expliquei. “Separe cada uma e divida ao meio, espalhe a manteiga com alho e, depois de 20 minutos no forno pode se esbaldar”. E segui em frente, fazendo um pequeno discurso sobre o conteúdo de cada uma das caixas e informando que de uma delas eu tinha mais três na picape e de outra eu tinha mais quatro caixas. Finalmente, quando todas as caixas já estavam abertas e nós dois estávamos rodeados por carnes e peixes e frutos do mar, fiz um gesto apontando os preços e disse: “Posso aceitar 15 dólares por caixa, que é meu custo, e mais nada. Pode acreditar, madame, a senhora não vai encontrar esses produtos nem nos supermercados, de tão bons que eles são!”.
– Depois de alguns momentos, ela me disse: “Bem, eu adoraria ajudar você, meu jovem, porque me parece um rapaz muito bom. Mas é que somos apenas meu marido e eu, e não sei o que faríamos com tanta comida assim”. Ela pensou por alguns segundos antes de continuar: “Além disso, eu dificilmente terei espaço em meu freezer para armazenar tanta coisa”, e deu de ombros tristemente. “Sinto muito.” Eu olhei para ela e balancei a cabeça lentamente. “Eu compreendo totalmente o que a senhora está me dizendo, mas deixe-me, por favor, explicar uma coisa. Acontece que eu sou um embalador profissional de freezers e aposto que consigo dar um jeito de caber e, de repente, até limpar algumas coisas enquanto faço isso. E não apenas irei embalar as coisas para a senhora em seu freezer, mas também estou disposto a passear com o cachorro, esfregar o chão, cortar seu gramado e pintar sua casa”. Levantei as mãos espalmadas em direção à senhora: “Não que sua casa precise disso ou coisa parecida, mas o que estou tentando lhe dizer é que farei qualquer coisa para conseguir vender essas caixas de comida hoje”. Pressionei meus lábios para dar mais efeito. “Veja, se minha comida descongelar, perco meu emprego, não posso permitir que isso aconteça, porque estou tentando entrar na faculdade.” De repente, um pensamento maravilhoso borbulhou em meu cérebro. Mordi o lábio inferior e disse: “A senhora tem netos, por acaso?”. Bem, ela sorriu depois da pergunta. Acho que deixei seu dia melhor, de fato. “Ah, sim!”, respondeu ela com um largo sorriso. “Tenho cinco netos e todos eles são maravilhosos!” Eu sorri em resposta e disse: “Tenho certeza de que são preciosos. Então, por que a senhora não organiza um grande churrasco para eles? Seria uma ótima ocasião para reunir toda a família. E então poderá contar a eles sobre esse jovem rapaz tão educado que apareceu aqui e lhe vendeu toda essa comida maravilhosa! A senhora pode até mesmo dar um pouco para eles levarem para casa”. Ergui as sobrancelhas e assenti ansiosamente: “Na verdade, eu mesmo posso entregar a comida para eles! Apenas me chame de volta, e eu passarei aqui com minha picape!”. Ela refletiu sobre isso por alguns segundos e então disse: “Tudo bem, eu tenho um freezer extra na garagem. Você pode colocar lá”. “Ah, meu Deus”, eu declarei. “Muito obrigado, minha senhora. A senhora salvou minha vida! O que gostaria? Eu tenho todos os tipos de alimentos preparados também, como frango kiev, frango cordon bleu, caranguejo à thermidor, que é especialmente delicioso…”, e que por acaso era o item com maior markup que eu tinha. A mulher sorriu para mim e disse: “Eu acho que vou levar tudo. Quer dizer, não quero que você perca seu emprego, certo?”.
Fiz uma pausa e me recostei na cadeira, olhando para o Canalha.
– E foi simples assim, ela comprou toda a carga que eu trazia na picape de uma tacada só – dei de ombros. – Claro, eu me senti um pouco culpado por mentir para aquela senhora, mas a comida, bem, aquilo era de alto nível, para não mencionar o fato de que eu sozinho a inspirei a organizar uma reunião de família. Então foi tudo bem, certo?
– Sim, foi tudo bem – rosnou o Canalha.
Eu ignorei seu sarcasmo.
– Certo, foi tudo bem. Na verdade, foi tudo tão bem que, na minha primeira semana na empresa, vendi 240 caixas, o que foi mais que o dobro do recorde da empresa. E foi assim que tudo começou. A partir daí, uma cadeia de acontecimentos bizarros me levou para o mercado de ações e, em seguida, para a Stratton. Deixe-me conduzi-los por esse caminho na ordem em que os fatos aconteceram.
O Canalha aquiesceu uma vez com a cabeça.
– Por favor, faça isso.
Respondi com outro aceno.
– Tudo começou com o escritório da Great American. Foi como se toda a força de vendas da empresa subitamente pegasse fogo. A produção de todo mundo praticamente dobrou, de alguns caras até triplicou. Foi como se eu tivesse aberto uma tranca, um novo campo de possibilidades em relação ao dinheiro que podia ser feito se você trabalhasse duro e vendesse os produtos da maneira certa. Depois de uma semana, o gerente veio falar comigo e me perguntou se eu não poderia ajudar no treinamento dos novos vendedores. O nome dele era P. J. Cammarata. Ele disse: “Você bombou este escritório, Jordan, você bombou de um jeito que não se consegue acreditar…” e blá-blá-blá. Ele ficava falando sobre como eu tinha feito bem todas as coisas e tal…
Fiz uma pausa, chocado pela maneira como minhas lembranças desse momento eram bastante límpidas.
– Quando olho para trás e vejo o que aconteceu, penso que aquilo foi a única coisa inteligente que aquele sujeito disse na vida. Vejam, fazer essa pressão é crucial, porque sem ela a força de vendas murcha e morre mais rápido do que você pode imaginar.
– Então você concordou em treinar os vendedores? – perguntou o Canalha.
– Sim, mas por razões egoístas. Eu já estava pensando em começar minha própria empresa, era apenas uma questão de quando iria fazer isso. Pensei em comprar meu próprio caminhão, ir até o mercado de carnes e fazer o atacado também. Era o que eu tinha feito na praia todos aqueles anos e tinha dado muito certo – encolhi os ombros. – Então comecei a treinar os vendedores e rapidamente percebi que tinha um talento especial para isso. Na verdade, eu era tão bom que podia pegar praticamente qualquer moleque na rua e transformá-lo em um vendedor de carnes. Algumas semanas depois, P. J. me perguntou se eu daria uma palestra sobre vendas para o pessoal interno, para aumentar a motivação e a pressão.
Fiz uma pausa, refletindo sobre aqueles acontecimentos por um momento.
– É bastante irônico o fato de que um idiota como P. J., com seus jeans sujos e sua jaqueta de funcionário, tenha instigado um dos momentos definidores da minha vida. Veja, acima de tudo, era minha capacidade de falar diante da multidão, coordenando reuniões de vendas para os strattonitas, que residia no centro do meu sucesso. Foi isso o que manteve a bomba funcionando todos esses anos, apesar de todos os problemas regulatórios que tivemos.
– As reuniões? – o Canalha perguntou, me interrompendo.
– Sim, as reuniões. É o que separa ou, devo dizer, o que separou a Stratton das outras corretoras do país. Duas vezes por dia eu ficava diante de todos na sala de reuniões, pregando para os corretores. Ninguém em Wall Street tinha feito isso antes. Ocasionalmente uma corretora trazia um orador convidado, alguém como um Anthony Robbins da vida, mas foi sempre um negócio de um tiro só, não como parte de um programa regular. E isso é uma completa perda de tempo, quer dizer, fazer isso apenas uma vez. Se você quer resultados, tem de fazê-lo todos os dias; se você realmente quer muitos resultados, você tem de fazê-lo duas vezes por dia, uma de manhã e outra à tarde. Então, os milagres podem acontecer. Mas é claro que eu ainda não sabia de nada disso em meus dias de Great American… Embora eu seja obrigado a lhes dizer que minha primeira reunião foi de fato uma verdadeira revelação. Aconteceu dentro do armazém, em Forest Hills, no Queens. Havia uns 20 vendedores lá, a maioria deles com 20 e tantos anos. Estavam todos vestidos de jeans e tênis, tentando se parecer com motoristas de caminhão. Eles estavam dispostos em um círculo e eu de pé, no centro. No começo, falei devagar, exaltando a qualidade da comida, como ela era excepcional, destacando o fato de que não havia nada parecido no mercado e de como nossos clientes eram sortudos por ter acesso a ela. Em retrospecto, eu estava começando a lançar as bases de um culto, embora na época eu não tivesse consciência disso. E o fato de que…
TOC levantou a mão:
– O que você quer dizer com “lançar as bases de um culto”?
Olhei para ele e respondi:
– Deixe-me colocar desta forma: no coração de qualquer culto, seja ele a Stratton Oakmont, a Great American ou aqueles Davidianos loucos de Waco, no Texas, a crença fundamental é de que não interessa o que o resto do mundo está dizendo, todos são loucos e eles não. E, sem exceção, tudo sempre começa com a crença na justiça de sua causa. Com os extremistas muçulmanos, isso se demonstra em uma interpretação distorcida do Alcorão, com o Ramo Davidiano é uma interpretação distorcida da Bíblia, e na Stratton foi a sala de reuniões em si, o grande equalizador em um mundo que era, de outra forma, injusto. Em outras palavras, não tinha a menor importância se você nascera em uma família sem pedigree, se só tinha estudado até o ensino fundamental ou se seu QI era muito baixo. Uma vez que entrasse na sala de reuniões da Stratton, tudo isso ficava para trás. Você se igualava aos outros e poderia, a partir daí, ganhar tanto dinheiro quanto o mais poderoso CEO do país – dei de ombros, como se isso fizesse parte das coisas mais básicas.
E continuei:
– Todos os cultos sugam seu poder de um conceito como esse, de que eles possuem algum tipo de vantagem em relação ao mundo. No caso da Great American, era o fato de eles venderem um tipo de comida que não se conseguia encontrar nos supermercados; com a Stratton, era a promessa de ficar rico, mesmo que não tivesse completado o ensino fundamental e só merecesse trabalhar como atendente de uma loja de conveniência – dei uma risadinha irônica. – Foi por isso que eu disse antes: “Eu quero os jovens e os pouco instruídos, os jovens e os ingênuos”. Porque eles se tornam os melhores membros dessa seita.
E disse mais:
– Enfim, de volta à primeira reunião, depois de alguns minutos dizendo aos vendedores como aquela comida era boa, as palavras começaram a jorrar em torrentes. Era uma sequência perfeita de pensamentos, derramando-se de minha boca. E, antes mesmo que eu percebesse, estava ali pregando a eles, falando em detalhes íntimos sobre coisas que nunca tinham me ocorrido antes. E, mesmo assim, eu parecia ser o maior especialista do mundo nesses assuntos: coisas como a diferença entre vencedores e perdedores, o poder do pensamento positivo e como ser o mestre de seu próprio destino. Eu me tornei mais técnico e mergulhei na arte de vender, explicando como abrir e fechar uma venda, como modular a velocidade e o tom de sua voz para manter as pessoas interessadas e a importância de ser implacável, de não aceitar um não como resposta e bater nas portas até que os dedos comecem a sangrar. “Você deve isso a si mesmo!”, disse aos vendedores. “Você deve isso a si mesmo, você deve isso à sua família e, mais importante, você deve isso àquelas pessoas em cujas portas está batendo, porque a comida que está vendendo é tão incrível que cada pessoa que a comprar lhe será eternamente grata!”
Parei por um momento, depois continuei.
– Não tenho como estimar quanto fiquei perplexo com minha própria capacidade de falar assim. Foi uma coisa que saiu completamente sem esforço e que me deu uma gratificação instantânea. Eu podia ver nos olhos de cada vendedor. Eles adoraram meu discurso, eles me amavam. E, quanto mais eu falava, mais eles me amavam. Com o tempo, descobri que essas reuniões eram uma atividade que preenchia um buraco dentro de mim. Era simplesmente o sentimento mais incrível que tive, você não pode nem imaginar – sorri tristemente diante daquela lembrança. – Mas, é claro, como tudo o mais, eu me tornei insensível a ela. E com o passar do tempo, lá na Stratton, quando eu estava dando palestras para um campo de futebol cheio de corretores, eu já não sentia esse mesmo influxo. Daí o buraco começou a ficar maior…
Fiz uma nova pausa, deixando que as implicações dessa frase envolvessem os ouvintes. Então, disse:
– Foi por isso que saí em busca de outras coisas, como as drogas, o sexo e a vida no limite. No início dos anos 1990, a fofoca em Wall Street era de que eu tinha uma atração pela morte. Mas eu nunca pensei dessa forma: eu só achava que estava vivendo a vida da forma como ela se apresentava para mim, colocando um pé na frente do outro e andando por um caminho predeterminado. Mas o caminho acabou se tornando a trilha de minha própria destruição, e fui derrubado por minhas próprias ações.
Nenhuma resposta. A sala de interrogatório estava silenciosa agora. De fato, dava para ouvir um alfinete caindo. E então continuei com minha história:
– Eu me lembro do rosto dos vendedores como se fosse ontem. Mas o rosto que fica mais nítido em minha lembrança é o de Elliot. Ele parecia totalmente hipnotizado. Parecia que ia sair correndo do armazém naquele exato instante e esmurrar a primeira porta que encontrasse. Foi desse modo que aquele encontro o afetou, e foi quando afetou nosso relacionamento. Porque antes disso nós nos considerávamos iguais, mas depois da reunião ambos ficamos com a certeza silenciosa de que, a partir de então, eu seria o único a dar as cartas. Foi mais ou menos duas semanas depois, eu me aproximei dele para falar da ideia de abrir nossa própria empresa de carnes e frutos do mar. “Por que a gente tem que pagar a eles 20 dólares a caixa”, eu disse, “se a gente pode ir ao mercado de carnes por nossa conta?”. Mas a lavagem cerebral que tinha sido feita no Pinguim fora tão arraigada que ele retrucou: “Mas e quanto à comida? Onde a gente vai encontrar uma comida tão boa quanto a deles?”.
Ri sozinho com essa lembrança.
– Dá para imaginar uma coisa dessas? Quer dizer, o cara tinha sofrido uma lavagem cerebral tão profunda que ele realmente estava convencido de que a comida vendida pela Great American era tão boa que ele não poderia bater à porta da casa das pessoas sem ela. Era quase risível. Tudo bem, a comida era boa, mas era só boa, não era ótima! Os filés não eram de primeira e o peixe era congelado, não era peixe fresco. Por isso, fui obrigado a desprogramar o Pinguim, retirando-o daquela seita. De certa forma, foi fácil fazer isso. “Mas que porra há de errado com você, Pinguim? Aquela comida é apenas razoável, pelo amor de Deus! Portanto, vê se toma jeito, caralho!” Então eu sorri calorosamente e disse: “Olha, nós vamos encontrar filés ainda melhores que os deles e vamos arrumar peixes mais frescos. E então vamos contratar vendedores nossos, que irão de porta em porta para nós, e ficaremos ricos!”. Foi assim que Elliot e eu entramos no negócio de carnes e frutos do mar. Nós tínhamos o plano perfeito: era quase verão, por isso a gente ia vender sorvetes durante o dia e amarrar todas as pontas soltas de nosso empreendimento à noite. Com o dinheiro da praia, nós iríamos financiar nossa empresa. Nós até trouxemos outro vendedor da praia para fazer parceria conosco, nosso amigo Paul Burton.
Fiz um gesto para minha lista de novo, e continuei, casualmente:
– Ele está aí também. Paul estava vivendo com sua mãe naquela época, em uma grande casa em Douglaston, no Queens, e, por coincidência, a casa tinha um quintal grande, perfeita para uma empresa de carnes e frutos do mar. Pelo menos, era o que achávamos. Mas, apesar de Douglaston ser um bairro muito chique, a casa de Paul era uma bosta. A mãe dele tinha conseguido a casa num divórcio, coisa de 20 anos antes, e não tinha gastado um centavo nela desde então. Era quase como uma casa assombrada, e o quintal não era nem um pouco melhor. Tinha uma garagem independente rodeada apenas por lixo e sujeira, com 2 mil metros quadrados de extensão – sorri nostalgicamente. – Ainda assim, era absolutamente perfeito para nós. Éramos empresários novatos, e começar em uma garagem parecia uma coisa muito romântica. Quer dizer, é assim que Steve Jobs e Michael Dell começaram. Ou talvez tenham começado em seus quartos… Bem, seja como for, foi assim que o Pinguim e eu financiamos a nós mesmos, os Bilionários do Amanhã! Na verdade, nós até fomos ver um contador para ter certeza de que não deixaríamos passar nada!
Dei de ombros inocentemente e continuei:
– E foi aí que os problemas começaram. Ele tinha sido recomendado pelo pai de Elliot, que é um judeu hassídico. O contador também era judeu hassídico e aparentemente tinha tanta experiência com a indústria de carnes e frutos do mar quanto tinha em comer costeletas de porco. Depois que nós explicamos nosso plano de negócios a ele, o homem sorriu e disse: “Bem, parece que vocês dois estão a caminho de fazer uma fortuna juntos. Mazel tov!”. E então acrescentou: “Vocês dois serão dois jovens muito ricos em breve. Muito, muito ricos”. Bem, o que mais havia a dizer sobre isso? Elliot e eu tomamos as palavras dele como quem necessita desesperadamente de deduções de imposto. Então, fomos direto do escritório do contador para o restaurante Palm, onde gastamos 450 dólares em lagosta e champanhe. Depois, alugamos dois carros esportivos: eu aluguei um Porsche e o Pinguim alugou um Lincoln Continental – revirei os olhos ao lembrar a escolha de automóvel do Pinguim. – Compramos um celular para cada um, apesar do fato de que, naquela época, celulares eram tão ridiculamente caros que apenas o CEO de uma empresa listada nas 500 maiores da revista Fortune ousaria ter um. De qualquer maneira, tudo aquilo fazia sentido para nós: éramos empresários, afinal, de forma que, na nossa maneira de pensar, tínhamos direito a algumas coisas. Com todo o dinheiro que estávamos economizando por dar o pontapé inicial da empresa no quintal da casa de Paul, ganhamos o direito de nos presentear com alguns luxos básicos. Então veio o dia da inauguração, 26 de setembro de 1985. Parecia um dia tão bom quanto qualquer outro para abrir uma empresa de carnes e frutos do mar, mas a Mãe Natureza discordava. Pelo menos foi isso que pensei quando o furacão Gloria colidiu com Long Island e o olho do furacão passou direto sobre o quintal da casa de Paul. Na verdade, ele encheu o quintal com quase 1 metro de água, porque ali era a base para onde convergiam quatro colinas. E assim nossa pequena empresa se tornou uma gigantesca poça de lama do caralho – balancei a cabeça espantado. – Nós estávamos fora do negócio antes mesmo de começar.
– Você nunca abriu a empresa? – perguntou o Canalha, ceticamente. – Mas no artigo da Forbes…
A Bruxa o cortou.
– De acordo com a Forbes, você ficou nesse negócio por algum tempo – ela inclinou a cabeça para o lado e olhou para mim de maneira acusadora.
TOC balançou a cabeça.
– Eu não acho que ele quis dizer literalmente, Michele.
– Greg está certo – respondi, tentando não fazer da Bruxa uma inimiga. – E, fazendo um aparte, devo confessar que dar essa entrevista para a Forbes foi um dos maiores erros que cometi na minha vida adulta. Eu estava com apenas 28 anos e era um bocado ingênuo então… – dei de ombros. – De qualquer forma, pensei que ia ter a chance de contar meu lado da história, colocar todos os pingos nos Is. A Stratton só tinha começado a operar dois anos antes, de forma que ninguém tinha ouvido falar de nós. Mas a mulher que me entrevistou atirou uma machadinha em minhas costas, cunhando-me como uma versão distorcida de Robin Hood, que rouba dos ricos e dá a si mesmo e a seu alegre bando de corretores – fiz uma careta com essa recordação. – Aquele artigo foi um pesadelo. Um pesadelo do caralho…
– E você perdeu corretores por causa dele? – perguntou o Canalha.
– Não – respondi rapidamente –, os corretores amavam a imprensa marrom, sobretudo esse artigo. De fato, no dia seguinte à publicação da revista, eles vieram trabalhar vestidos em trajes medievais e ficaram correndo e gritando: “Nós somos seu alegre bando! Nós somos seu bando!” – ri com essa imagem do passado. – O que me incomodou no artigo, no entanto, foi a foto que eles usaram. Era horrível.
TOC sorriu com sarcasmo.
– Você quer dizer aquela com você em pé ao lado do cano enferrujado? – ele soltou uma risada irônica.
O Mórmon acrescentou:
– Sim, aquela em que você aparece com um sorriso malévolo!
Balancei a cabeça, desgostoso.
– Sim, sim, sim – murmurei. – O cano enferrujado, como se a Stratton estivesse indo para o ralo. Eu sei tudo sobre isso. O fotógrafo da Forbes me ferrou nessa; primeiro, ele me levou até o telhado e então, casualmente, me pediu para ficar ao lado do cano da calha de chuva – revirei os olhos. – Não percebi a sacanagem na época, porque estava mais preocupado com meu cabelo enquanto ele batia um milhão de fotos, esperando até me pegar no momento certo, quando eu dei aquele sorriso de merda. Essa foi a imagem que eles usaram – balancei a cabeça, não acreditando em minha própria ingenuidade. – E, é claro, o artigo zombou de meus dias na empresa de carnes e frutos do mar, enfatizando a ideia de que eu não tinha nada que me meter no mundo das altas finanças, já que era um humilde vendedor de bifes e nada mais que isso. Na verdade, o título do artigo era Bifes, ações, qual é a diferença?.
Olhei para a Bruxa e disse:
– Mas acontece que você está certa, Michele. Como o artigo apontou, nós continuamos no negócio por mais algum tempo, embora não se pudesse categorizar aquilo como um negócio. Era mais como correr atrás do próprio rabo ou brincar de pegar a bola – parei para pensar por um momento. – Depois que o furacão se foi, o quintal da casa de Paul ficou submerso sob 1 metro de água. Passamos as duas semanas seguintes tentando nos tirar da lama. E então, do nada, aquele quintal se transformou em um sumidouro e tudo começou a entrar em colapso, a começar pela garagem, depois o pátio e em seguida a própria casa. Nós até chamamos um geólogo para saber se a casa estava sobre uma falha geológica anteriormente desconhecida, mas não estava. Nós tivemos outros problemas também. Compramos um freezer usado muito velho, achando que poderíamos economizar alguns dólares. Mas aquele troço era descontroladamente ineficiente e sugou energia elétrica suficiente para eletrificar Nova Jersey inteira. E, é claro, a fiação na casa de Paul não conseguiu suportar tamanha amperagem – busquei minhas lembranças por algum tempo. – Acho que foi no início de dezembro que quase pusemos fogo na casa dele. Foi quando sua mãe veio marchando pelo quintal, com uma corda amarrada em volta da cintura para que não fosse sugada para o centro da terra, e gritou: “Caiam fora daqui! E levam essas merdas de picapes com vocês!”.
Sorri com a lembrança.
– Mas a mãe de Paul era uma mulher amável e nos deu um mês para encontrar um novo armazém. Aquilo pareceu uma coisa bastante razoável na ocasião, embora fosse mais fácil falar que fazer. Nós não tínhamos histórico de crédito e nosso balanço era um desastre, de forma que todos os proprietários de armazéns e galpões se negaram a fazer qualquer tipo de negócio conosco. Havia seis de nós nesse momento: Elliot, Paul, eu e nossos três funcionários, começando pelo grande Frank Bua, que, com 1,95 metro, era a imagem cuspida de um bebê de comercial, o Gerber Baby, só que com barba; depois havia o pequeno George Barbella, que ficava alguns centímetros acima do status de anão e parecia o próprio diabo; e o intratável pedaço de merda chamado Chucky Jones,2 que se parecia com o deus nórdico Thor. Só que, com 1,60 metro e pouco, era o deus Thor depois de ser esmagado. Não surpreendentemente, cada um de nossos funcionários tinha uma disfunção grave, embora, no caso de Frank, tivesse mais a ver com a esposa dele. Ela sofria de uma doença rara chamada alopecia totalis, que fazia com que todos os seus cabelos caíssem, até mesmo os cílios e as sobrancelhas. A moça parecia uma versão feminina daquele ator, o Yul Brinner. Já George Barbella era completamente obcecado pela nossa comida, ainda mais que Elliot. Ele costumava reclamar que nossos camarões tinham sido vitrificados com água para aumentar o peso deles. “Quando meus clientes cozinharem esses camarões jumbo”, gemia, “eles vão ficar micro!” – dei de ombros inocentemente. – Mas fazer isso com os camarões era um procedimento da indústria, de forma que não era culpa minha. Enfim, ele realmente deveria ter se preocupado com a comida cheirando a querosene.
O Canalha recuou em seu assento.
– A comida cheirava a querosene?
– Às vezes – respondi. – A garagem de Paul não tinha aquecimento e, quando dezembro estava se aproximando, quase congelamos até a morte. Então comprei esse aquecedor gigante a querosene, que parecia um torpedo sobre rodas. Ele fez um bom trabalho ao aquecer o lugar, embora fosse mais quente que o Sol e fizesse mais barulho que um F-15 decolando. De vez em quando ele falhava, expelindo uma espessa fumaça que caía na comida. Ainda assim, era bem melhor que ficar congelando – fiz uma pausa para tomar um gole de água. – E então tinha a disfunção do Chucky, que era, entre tantas outras coisas, abaixar as calças no meio da garagem e injetar testosterona na bunda. Mas, vendo pelo lado bom, ele tinha um senso de humor fantástico e deu a cada um de nós apelidos bem legais: Frank Bua era Gerber Baby, George Barbella era Tattoo, em homenagem ao anão da Ilha da Fantasia, e Paul Burton era o Telão, porque segundo ele, Paul tinha uma testa enorme, tão grande que daria para projetar um filme nela.
Eles já sabiam do apelido de Elliot. Eu estava prestes a falar o meu quando TOC sorriu e disse:
– Elliot era o Pinguim. E o seu, qual era? – ele estreitou os olhos astutamente. – Deixe-me adivinhar: você era Napoleão, certo?
“Que imbecil”, pensei. A Duquesa costumava me chamar de Napoleão quando estava tentando me irritar! Ela até me fez colocar a roupa desse pequeno filho da puta para uma festa de Halloween uma vez. Será que o TOC tinha ouvido falar disso? Ou será que era tão óbvio assim para todo mundo que eu tinha um complexo de Napoleão? Ou ele tinha apenas adivinhado? Bem, isso realmente não tinha importância.
Eu estava prestes a mandar TOC se foder quando o Mórmon me salvou do problema:
– Olha quem está falando! – soltou o Mórmon, e começou a rir, como fizeram também a Bruxa e o Canalha. A mensagem não dita era: o TOC e o Lobo de Wall Street têm complexo de Napoleão!
Mas Magnum, no entanto, não ria, recusando-se a zombar da estatura de outro homem; afinal, ele era do tamanho de dois homens crescidos, e tirar sarro de um menorzinho seria inadequado.
Antes de TOC ter a chance de puxar a arma para o Mórmon, eu respondi:
– Você está parcialmente certo, Greg, pelo menos acerca de Elliot. O apelido dele não era apenas Pinguim, na verdade era Pinguim Suicida. Veja, nós já estávamos à beira da falência, e Elliot estava à beira do suicídio. Assim, Chucky costumava circular pelo escritório com o dedo indicador esticado apontando para a têmpora e o polegar apontando para cima, como se estivesse se preparando para explodir os próprios miolos. “Oi, eu sou o Pinguim Suicida”, ele dizia, “e eu entrego carnes e frutos do mar para os restaurantes da cidade. Estou com uma sobra de pedidos extras na minha picape e não posso levar de volta para meu freezer”, e ele continuava dizendo isso sem parar, enquanto gingava ao redor da garagem agitando os braços como um pinguim. “Ajudem-me! Ajudem-me!”, gritava. “O furacão Gloria mijou em cima de mim e o aquecedor a querosene está me sufocando e a mulher do Gerber Baby parece um alien e a mãe do Telão está mandando fechar nosso cinema e… – comecei a rir. – Ele era realmente uma peça rara, Chucky, e então um dia… PUF! Ele sumiu. Desapareceu como um peido no vento. Acontece que ele estava roubando lojas de bebidas alcoólicas à noite. A última vez que ouvi falar dele foi quando dois detetives vieram até a garagem tentando descobrir seu paradeiro. Ele deve estar provavelmente morto ou fazendo stand up em algum lugar.
– Afinal, qual era seu apelido? – perguntou a Bruxa, comprimindo os lábios finos até desaparecerem.
Eu sorri e disse:
– Fácil, Michele. Chucky me chamava de J. P., que era a abreviatura de J. P. Morgan. Veja, Chucky nunca zombava de mim. Ele acreditava em mim, amava as reuniões que eu fazia. Depois de cada reunião, ele me puxava de lado e dizia: “Que porra você está fazendo nesse negócio? Isso aqui não está à sua altura, você é o cara mais esperto que conheço, J. P.”. Ele me incentivava a desencanar do Telão e do Pinguim. “Eles estão segurando você, cara!”, dizia ele. “Afinal, você é o J. P. Morgan e eles são apenas dois pilantrinhas de merda” – fiz uma pausa, lembrando-me desse conselho. – Ele de fato acertou no alvo em relação a Paul, ele era muito preguiçoso para vender de porta em porta. E também estava certo sobre nossa empresa, ir de porta em porta era uma tarefa de tolos, uma coisa totalmente ridícula. Mas ele estava enganado sobre Elliot. O Pinguim era um vencedor, no verdadeiro sentido da palavra. Ninguém trabalhou mais que ele, e ele era completamente leal a mim. Nós iríamos fazer uma fortuna juntos, embora não no negócio de carne e frutos do mar. Seria em Wall Street. Primeiro, a gente precisava aprender mais algumas lições sobre humildade.
Respirei fundo e disse:
– Foi em algum momento no final de dezembro que finalmente chegamos ao fundo do poço. Nós estávamos literalmente sem um centavo, e a mãe de Paul ameaçava chamar o xerife. Tudo parecia estar perdido; todas as opções haviam se esgotado. E então algo incrível aconteceu, algo totalmente inesperado. Eu tinha acabado de voltar à garagem depois de um dia tortuoso na rua, quando o Pinguim me disse: “Recebi um telefonema estranho hoje de um de nossos fornecedores de carne. Ele me perguntou em que termos a gente queria”. Ele encolheu os ombros, como se estivesse confuso. “Eu não sabia sobre o que eles estavam falando, por isso disse que ia pensar no assunto e depois voltaria a telefonar.” “O que esse negócio de termos quer dizer?”, perguntei. “Nossos termos para a rendição?”. O Pinguim Suicida encolheu os ombros de novo e disse: “Não tenho a mínima ideia, mas que diferença faz? Nosso freezer está vazio, e não temos dinheiro para comprar comida, então… Isso quer dizer que estamos fora do negócio, vamos fechar”.
Fiz uma pausa e sorri diante da lembrança de como éramos pouco sofisticados naquela época. Nós não tínhamos a mínima ideia de que nossos fornecedores estavam dispostos a nos enviar comida a crédito. Parecia estranho que eles estivessem dispostos a fazer isso conosco, mas, como eu estava prestes a aprender, aquilo era um procedimento operacional padrão: todo mundo dava crédito. O jargão no mundo dos negócios foi termos, que é a forma curta para termos de pagamento.
Com uma pitada de malícia em meu tom de voz, eu disse:
– Depois que eu descobri que nossos fornecedores eram burros o suficiente para nos enviar comida a crédito, rapidamente vi que havia uma saída. Era simples: crescer com tudo. Ou seja, assumir tanto crédito quanto fosse possível e empurrar as condições de pagamento para o mais longe possível no futuro. Depois, comprar a maior quantidade possível de picapes, todas elas sem pagamento à vista, coisa que pode ser feita se você estivesse disposto a pagar juros de 24%. Mas eu não estava preocupado com os pagamentos mensais, porque quanto mais picapes eu tivesse na rua, mais comida estaria vendendo e melhor seria meu fluxo de caixa. Em outras palavras, uma vez que meus fornecedores estavam me dando 30 dias para pagar a comida, e meus clientes me pagavam à vista todos os dias, enquanto eu continuasse vendendo mais e mais meu fluxo de caixa continuaria melhorando sempre. Mesmo que eu não estivesse gerando um centavo de lucro em cada venda, ainda estaria gerando caixa, usando os 30 dias de folga.
O Canalha disse rapidamente:
– Mas esse é o ABC da administração.
Ah, claro!, pensei cinicamente. O Canalha obviamente não poderia apreciar a arte negra do malabarismo com o fluxo de caixa! (Ele era muito honesto para isso.) Não sei, talvez ele entendesse a matemática simples desse tipo de coisa, mas havia muitas estratégias diabólicas que eu podia empregar, especialmente na fase final, quando os credores ficavam circulando ao redor e o balanço patrimonial mostrava um sangramento de tinta vermelha que escorria mais rápido que um hemofílico com ferimento à bala. Seria preciso pelo menos um mês para explicar todas as nuances imundas para alguém como o Canalha.
Por outro lado, Elliot e eu rapidamente nos tornamos mestres Jedi nessa arte e, com a mesma rapidez, passamos para o lado escuro, para que fossemos capazes de encontrar todas as maneiras possíveis de fazer malabarismos com o fluxo de caixa. Minha forma favorita era a extorsão financeira inversa, durante a qual você virava o jogo com um fornecedor, explicando-lhe que a única chance de ele receber era aceitar um pequeno pagamento em uma fatura antiga em troca de esticar ainda mais o crédito. Essa funcionava como mágica. E havia o velho truque da assinatura no cheque, quando a gente entregava a um fornecedor um cheque com uma assinatura faltando, a minha ou a de Elliot, o que fazia com que o banco devolvesse o cheque por faltar um endosso, em oposição à insuficiência de fundos. É claro, nós estávamos sempre tomando o cuidado de avisar ao gerente sobre esse cheque, senão ele poderia ficar tentado a autorizar o pagamento e o cheque voltaria saltando como um canguru.
Havia vários outros truques, só que nenhum deles era da conta do Canalha. Então, tudo o que eu disse foi:
– Exatamente, é o ABC da administração, Joel. E, antes que eu percebesse, eu tinha 26 caminhões na rua, um armazém legítimo e um monte de dinheiro no banco. Naturalmente, meu balanço era um desastre total, embora eu me recusasse a me preocupar com esse tipo de coisa. Ao contrário, eu preferia apresentar as reuniões de vendas para 26 panacas, a maioria deles viciados em heroína, crack ou álcool. Ainda assim, pelo menos eu era o orgulhoso proprietário de uma aparentemente bem-sucedida empresa de carnes e frutos do mar. E todos os meus amigos estavam realmente impressionados comigo, todos eles achavam que eu era um empreendedor de primeira linha – encolhi os ombros inocentemente. – Foi quando conheci Kenny Greene. Ele veio trabalhar para mim no negócio de carnes…
– Sério? – perguntou TOC. – Eu não sabia disso.
Aquiesci com a cabeça lentamente, perguntando-me por qual motivo Kenny Green não tinha sido indiciado juntamente com Danny e eu. Ele era o terceiro sócio na Stratton, embora só tivesse se juntado à empresa depois que havíamos resolvido nosso problema com a Comissão de Assuntos Mobiliários, quatro anos antes. Ainda assim, ele tinha sido um sócio com 20% da empresa, do mesmo modo que Danny (eu era dono dos 60% restantes). Ele ganhou dezenas de milhões de dólares e tinha infringido tantas leis quando nós. Parecia altamente ilógico (e também um pouco injusto) que ele tivesse escapado da ira do TOC, a menos, é claro, que ele estivesse cooperando o tempo todo!
Decidi manter esses pensamentos para mim mesmo e disse:
– Ele foi indicado por um de meus amigos da faculdade, um cara chamado Jeff Honigman. Ele e Kenny eram primos de primeiro grau – fiz um gesto para minha lista de vilões, ladrões e vigaristas. – Jeff está aí em algum lugar, também, embora a maioria de suas trapaças tenha ocorrido depois que ele saiu da Stratton, quando trabalhava para Victor Wang, na Duke Valores Mobiliários – uma vez mais, apontei para a lista. – Victor está aí também, em algum lugar bem perto do topo da lista, logo acima do nome de Kenny – disse, e me perguntei se aquela gente tinha alguma ideia do maníaco depravado que era esse Victor Wang. – Para falar a verdade, Victor trabalhou para mim no negócio de carnes e frutos do mar também, embora apenas por cerca de uma hora. Ele era muito orgulhoso e muito preguiçoso para realmente levar um caminhão para a rua e ir de porta em porta. Ele só apareceu para ouvir uma de minhas reuniões de vendas. E, claro, ainda me lembro da primeira vez que eu coloquei os olhos em Victor – comecei a rir com a lembrança.
O Mórmon entrou na conversa:
– Como você poderia se esquecer, certo?
Balancei a cabeça, concordando.
– Certo, como alguém poderia se esquecer? Ele é basicamente o maior chinês que já caminhou sobre o planeta. Tem um peitoral que é do tamanho da Grande Muralha, fendas no lugar dos olhos, a testa marrom como se fosse uma rocha e uma cabeça maior que a de um panda gigante – fiz uma pausa para tomar fôlego. – Quer dizer, não sei se algum de vocês já viu Victor, mas ele é a cara do Oddjob, do filme Goldfinger, de James Bond. Alguém se lembra do Oddjob? Ele é o cara que mata as pessoas atirando o chapéu nelas…
– Qual é o objetivo disso? – perguntou o Canalha, balançando a cabeça.
Eu dei de ombros.
– Nenhum, na verdade, a não ser deixar claro que Kenny e Victor eram amigos de infância, que lidavam com drogas juntos na escola e, posso acrescentar, com a ajuda da mãe de Kenny, Gladys. Mas eu me recuso a dar qualquer informação sobre Gladys. Ela poderia tentar chutar minha bunda – sorri tristemente. – Na verdade, a última vez que alguém se envolveu em problemas com Gladys estava em uma pista de boliche. Acho que ela acabou jogando o cara para fazer um strike. Ou talvez tenha sido em um supermercado, onde ela nocauteou uma mulher na fila do caixa. Seja como for, se algum de vocês já viu Gladys, nada disso que contei seria surpresa – balancei a cabeça três vezes, para dar ênfase. – Não há um pingo de gordura no corpo dela e sua barriga poderia parar uma bala de mosquetão disparada a mais de 20 passos de distância. Conhecem o tipo? – ergui as sobrancelhas.
Nada além de expressões vazias, pontuadas pelo silêncio. Então, continuei:
– Bem, Gladys está nessa lista também, embora eu suponha que não estejam interessados nela, certo? – disse, e cruzei os dedos.
– Certo – o Canalha falou sem qualquer emoção. – Nós não estamos interessados nela. Por que você não volta para o negócio da carne?
Balancei a cabeça, aliviado.
– Tudo bem, mas só para você saber, todo esse triângulo Kenny-Gladys-Victor leva de volta à sua pergunta inicial, sobre de onde veio a primeira leva de strattonitas. Kenny e Victor cresceram em Jericho. Kenny era traficante de maconha e Victor era traficante de cocaína, e Gladys os financiava – fiz uma pausa e acrescentei: – Mas seus motivos eram puros, é claro. Quer dizer, ela estava apenas tentando manter a família depois que o pai de Kenny morreu de câncer. Foi tudo muito triste – encolhi os ombros, esperando que Gladys pudesse ouvir de alguma forma aquilo que eu estava dizendo e não quisesse me bater quando nossos caminhos se cruzassem de novo. – Seja como for, na primeira leva de strattonitas, cerca de metade deles veio de Jericho e Syosset, que são cidades-irmãs, e praticamente todos tinham sido clientes de Kenny e Victor. Foi dessa forma que a Stratton pôde crescer tão rapidamente; mesmo antes de ganharmos a reputação de ser um lugar onde a molecada podia ficar rica depressa, eu tinha dúzias deles fazendo fila na minha porta. E então eles se mudaram para Bayside para participar da seita.
Fiz uma pausa e continuei:
– Mas deixe-me ordenar as ideias. Kenny trabalhou em nossa empresa de carnes e frutos do mar por apenas um dia, até que bateu uma de minhas picapes e nunca mais me telefonou, pelo menos não até que eu tivesse saído do negócio. E Victor, como eu já contei, nunca trabalhou lá; ele apenas apareceu um dia para ouvir uma de minhas palestras e depois nunca mais voltou. Enquanto isso, meu negócio estava à beira de implodir – balancei a cabeça lentamente, me preparando para reviver aquela lembrança tão temida. – Você só consegue brincar com esse negócio de fluxo de caixa até o momento em que ele se volta contra você. No nosso caso, a reversão começou em janeiro de 1987. Foi um inverno feroz, e as vendas despencaram. E o fluxo de caixa, é óbvio, mergulhou atrás delas. Dei reuniões atrás de reuniões, palestras atrás de palestras, desesperadamente tentando motivar os vendedores para sair a campo e vender, mas não adiantou. Era um inverno muito frio, e as vendas chegaram a zerar. E, pela própria natureza do jogo de fluxo de caixa, é num momento como esse que o bumerangue vem voando de volta com tudo. Lembre-se, Joel, é o ABC da administração. Quando você aumenta seu crédito, as contas de hoje são de coisas que você vendeu 30 dias antes ou, em nosso caso, 60 dias antes, porque já estávamos atrasados 30 dias em nossas contas – fiz uma pausa para me corrigir. – Na verdade, estávamos 90 dias atrasados com a maioria de nossas contas e já não fazíamos negócios com essas empresas; eles já haviam nos cortado, de modo que fomos forçados a nos mudar para pastagens mais férteis, ou, em outras palavras, para novos fornecedores que ainda não tinham ouvido falar que éramos maus pagadores.
Fiz uma breve pausa.
– Mas essa parte do jogo já estava terminada. Todo mundo no mercado já sabia que éramos um grande risco de crédito e que ninguém deveria nos entregar mercadorias se não pagássemos em dinheiro e no ato. Enquanto isso, Elliot e eu ainda estávamos tentando manter as coisas à tona. Tínhamos esgotado nossos cartões de crédito e a cada dia afundávamos mais e mais em dívidas. Nós não tínhamos pagado o aluguel de nossas picapes, nossas contas de telefone celular nem o leasing de nossos carros. Nosso novo locador, um canalha sírio, tinha uma ordem de despejo contra nós e nos fazia pagar o aluguel em dobro até que a gente fosse embora – balancei a cabeça lentamente, ainda espantado com a profundidade do buraco financeiro que tínhamos cavado para nós mesmos… – Foi por volta dessa época, no inverno de 1987, que comecei a ouvir rumores sobre um garoto do bairro, chamado Michael Falk. Ele conseguira um emprego em Wall Street logo que saíra da faculdade, mais ou menos na mesma época em que eu estava começando a faculdade de odontologia, e supostamente estava ganhando mais de 1 milhão de dólares por ano.
Fiz uma pausa para conseguir mais efeito.
– No começo, eu não quis acreditar. Quando crescemos juntos, Michael Falk não era dos caras mais espertos. Na verdade, ele era o mané do bairro, aquele sujeito com quem todo mundo zoa porque não toma banho, essas coisas. Ele também não era um sujeito rápido, brilhante ou falante. Quer dizer, era apenas um cara mediano, uma pessoa comum, nada mais. Por isso concluí que tudo aquilo que falavam dele era besteira, que não podia existir nenhuma maneira de que Falk estivesse ganhando todo esse dinheiro. Um dia, por pura coincidência, ele estacionou em frente ao meu prédio, dirigindo uma Ferrari conversível. Felizmente, ele foi condescendente comigo, explicando que todos os rumores eram verdadeiros. Falando do assunto com naturalidade, ele explicou que estava a caminho de faturar mais de 1,5 milhão de dólares naquele ano e que no ano anterior ganhara quase 1 milhão. Nós conversamos por mais alguns minutos, durante os quais menti o tempo todo, ao explicar como estávamos indo bem no negócio de carnes e frutos do mar, apontando para meu pequeno Porsche vermelho como prova desse fato. Ele deu de ombros e mencionou algo sobre o fretamento de um iate de 100 pés para ir às Bahamas com um monte de modelos loiras, uma das quais, ironicamente, se tornaria minha segunda esposa um dia. E então ele foi embora, suavemente, imaculadamente, expelindo uma nuvem de fumaça do caro escapamento italiano bem na minha cara, que naquele instante era uma mistura de admiração e espanto.
Deixei escapar uma risada.
– De qualquer forma, posso lhes dizer que nunca fui tão afetado por um único encontro em toda a minha vida. Eu me lembro de ficar observando a Ferrari ir embora e dizer para mim mesmo: “Se esse cara consegue ganhar 1 milhão por ano, eu vou conseguir ganhar 50 milhões!” – parei e deixei essas palavras submergirem na mente de meus ouvintes. – Essa previsão acabou por ser surpreendente, não acham? Embora tenha falhado em prever a segunda metade da equação: que eu enfrentaria uns 200 de anos de prisão – e travei os olhos nos da Bruxa –, além da condenação eterna de minha alma.
E continuei:
– De qualquer forma, na época eu estava morando com minha primeira esposa, Denise, embora ela ainda não fosse minha esposa de verdade. Nós dois estávamos dividindo um pequeno apartamento em um prédio infestado de yuppies em Bayside, chamado Bay Club. Foi lá que conheci Danny Porush. Ele morava no andar de cima, embora eu ainda não o tivesse encontrado para conversar. Eu já o tinha visto por perto de vez em quando, mas nunca tinha realmente parado para falar. É engraçado, mas eu me lembro de sempre ter pensado nele como um sujeito normal, como se ele fosse o yuppie perfeito. Na verdade, ele e sua esposa, Nancy, eram o retrato de sucesso e felicidade. Os dois até eram parecidos! Mas, claro, eu não sabia na época que os dois eram primos de primeiro grau. E também não tinha ideia de que a única missão na vida de Nancy era torturar Danny, para fazer com que a vida dele fosse tão miserável e tão difícil quanto possível, nem que Danny, apesar de sua aparência normal, era completamente maluco, gastando a maior parte do tempo enfurnado em um antro de crack no Harlem, fumando o dinheiro de seu empreendimento mais recente, uma falência induzida por cocaína. Mas estou avançando um pouco aqui… Eu só conheceria Danny no ano seguinte. Voltando a Michael Falk: foi naquela mesma tarde que eu contei a Denise sobre meu rápido encontro com esse antigo perdedor. Quando terminei de falar, não eram necessárias outras palavras. Denise apenas olhou para mim com seus grandes olhos castanhos e balançou a cabeça lentamente, e foi tudo. Nós dois sabíamos, ali mesmo, que meu destino era Wall Street. Eu era o vendedor mais talentoso do mundo, ambos sabíamos disso. Meu erro era ter escolhido o produto errado para vender.
– Como você conseguiu um emprego como corretor da Bolsa? – perguntou o Canalha. – Sua formação era em biologia e você estava saindo de uma falência. Por que alguém iria contratá-lo?
– Eu bati numa porta com a ajuda de um amigo de meus pais, um homem chamado Bob Cohen. Ele era um gerente de nível médio na LF Rothschild e tinha influência suficiente para me conseguir uma entrevista. A partir daí, eu me venderia. Saí, comprei um terno azul barato e, em seguida, dois dias depois, me encontrava sentado no ônibus expresso a caminho de Manhattan para uma entrevista de emprego. Nesse meio tempo, Denise ficou sentada em casa esperando por um caminhão de reboque para reaver nosso Porsche, coisa que aconteceu na mesma hora em que eu estava sendo contratado como corretor estagiário na LF Rothschild.
Então eu sorri tristemente e disse:
– Depois disso, minha parada seguinte foi na empresa de carne e frutos do mar, onde despejei a bomba em Elliot – parei por um momento, pensando. – Ainda me lembro desse dia como se fosse ontem, do sentimento agridoce que me atravessou, das emoções misturadas que senti. Eu estava tão feliz em relação a meu futuro quanto estava triste por me separar de Elliot. Ele era como um irmão para mim. Nós tínhamos sido parceiros desde a metade de nossa adolescência. Juntos, tínhamos atravessado uma parede de fogo, tirando da lama picapes atoladas e batendo à porta de possíveis clientes até os nós dos dedos sangrarem. E agora estávamos tomando caminhos diferentes. Nosso armazém, claro, era um completo desastre. Estávamos cercados por caminhões quebrados e caixas vazias, e o congelador era uma desgraça total. A porta estava aberta e não havia uma única caixa lá dentro. Espessas camadas de gelo cresciam dentro do freezer, como se fosse fungo. Aquilo servia como um lembrete desagradável de quão mal administrado fora nosso negócio. Lembro-me de minha autoconfiança sendo quebrada. Com o coração pesado, eu disse a Elliot: “Me desculpe, estou saindo fora, isso é algo que tenho de fazer. Eu tenho de tentar Wall Street. O dinheiro que as pessoas estão conseguindo ganhar lá é impressionante, Elliot. Verdadeiramente impressionante”. Ele logo respondeu: “Eu sei disso, mas não consigo me imaginar sentado atrás de uma mesa o dia todo. Tudo é feito por telefone. Você vai ligar para pessoas que nunca viu antes, tentando fazer com que elas enviem dinheiro a você… Não faz sentido para mim…”.
Balancei a cabeça lentamente.
– Sei que isso pode parecer engraçado agora, mas eu me lembro de ter pensado exatamente a mesma coisa, que era inconcebível que alguém que eu nunca tinha visto nem conhecido antes fosse me enviar centenas de milhares de dólares com base em um telefonema. Sem falar que eu estaria telefonando para pessoas de todo o país. Quer dizer, quais eram as chances de um completo estranho do interior do Texas ser insano o suficiente para me enviar meio milhão de dólares de seu suado dinheirinho, sem nunca ter colocado os olhos em mim? Mas eu ainda tinha a imagem de Michael Falk queimando em meu cérebro. O simples fato era que alguns jovens estavam fazendo fortuna em Wall Street. Eu pertencia àquele lugar.
A Bruxa entrou na conversa:
– Então, Elliot não quis ir com você?
Balancei a cabeça.
– Acredite ou não, ele não quis. Ele ficou no negócio de carnes e frutos do mar para mais uma tentativa. Elliot imaginou que poderia ganhar dinheiro como um show de um homem só, mais enxuto e eficiente – pensei por um momento. – Não me levem a mal, não é que eu tenha lhe oferecido um emprego ou algo parecido. Eu não tinha autoridade para isso; mas eu de fato lhe perguntei se não estaria interessado em ir até lá para uma entrevista de emprego se eu a conseguisse. Mas ele disse que não, mais uma vez – dei de ombros. – Cheguei em casa à noite sem carro, sem dinheiro e pessoalmente falido. E quer saber? Eu nem dei bola. Eu ia ser um cara de Wall Street, e isso era tudo que importava. O fato de que meu salário seria de apenas 100 dólares por semana não me incomodava nem um pouco. Eu tinha esperança, a esperança de um futuro, que é a maior esperança de todas.
Fiz uma pausa e passei alguns momentos estudando o rosto de meus captores, perguntando a mim mesmo o que eles estavam pensando, o que eles achavam de mim. E, embora isso fosse impossível de dizer, eu tinha uma leve suspeita de que eles estavam mais confusos que nunca. Não exatamente sobre minha história, mas sobre qual tinha sido a exata motivação para um cara como eu.
Em qualquer caso, aquela manhã tinha sido apenas um aquecimento. O material mais suculento, como as prostitutas, as drogas, a devassa ilegalidade de minha vida, ainda estava a um dia ou dois de distância. Com esse pensamento, olhei para TOC e perguntei:
– Você acha que poderíamos almoçar agora? É quase 1 hora da tarde e estou começando a ficar com fome.
– Claro – disse TOC, calorosamente. – Existem alguns lugares muito bons na Reade Street. É uma caminhada de menos de dois minutos daqui até lá.
O Canalha concordou com a cabeça.
– Foi uma manhã muito produtiva. Você fez por merecer um bom almoço.
– Na verdade – retrucou a Bruxa – devo dizer que você nos proporcionou um raro vislumbre da mente de um criminoso.
Ofereci-lhe um sorriso sem graça em troca.
– Bem, estou feliz que você sinta as coisas dessa forma, Michele, porque estou ansioso para agradar.