CAPÍTULO 28

SAINDO DAS CINZAS

Foi cerca de uma semana depois do 11 de setembro, quando o país se preparava para a guerra, que minha onda de azar finalmente terminou. Eu estava colado à TV quando um velho amigo telefonou do nada e começou a me pedir conselhos sobre algo a que ele continuava se referindo como o boom do refinanciamento.

As taxas de financiamento de hipotecas tinham caído para mínimos históricos e os americanos faziam refinanciamentos em massa.

– Você pode me fazer um rápido favor? – perguntou ele.

– Sim – respondi. – Do que se trata?

– Eu queria que você em escrevesse um script para chamadas telefônicas de captação. Há uma fortuna que pode ser feita via telemarketing com esse negócio de refinanciamento.

Interessante, pensei, mas foi tudo que me passou pela cabeça. Eu estava tão deprimido com minha vida que as palavras dele passaram por mim como uma rajada de vento.

– Tudo bem – eu disse. – Fale um pouco sobre seu negócio e eu escrevo um script nesta tarde.

E ele passou a explicar os prós e os contras do refinanciamento para mim.

Era uma coisa elegantemente simples. Quase todos os proprietários de imóveis na época tinham uma hipoteca com taxas entre 8% e 10%, ao passo que as taxas atualizadas pairavam próximas de 6%. Então, tudo que o corretor de hipotecas teria de fazer era assegurar um novo empréstimo (com a taxa de juros mais baixa) para quitar o empréstimo anterior, e o custo mensal da nova hipoteca para a pessoa iria despencar. Embora houvesse alguns custos menores envolvidos, os chamados custos de fechamento, era possível juntá-los à nova hipoteca, tornando-a um pouco maior que a antiga, mas sem representar um custo para o mutuário. Melhor ainda, os custos de fechamento eram uma ninharia em comparação à poupança de longo prazo, que poderia ser de centenas de milhares de dólares, dependendo do tamanho do empréstimo.

– Hummm – murmurei –, parece bem básico. Você tem contatos para ligar?

– Sim, comprei uma lista de proprietários de imóveis que estão pagando 8% ou mais. Estou lhe dizendo, vai ser como tirar doce da boca de uma criança!

– Tudo bem – respondi. – Dê-me algumas horas e enviarei um script por e-mail. – Então, como um adendo: – Por que você não me envia alguns contatos enquanto isso, para testar o script e ter certeza de que ele funciona?

Foi assim que tudo começou.

Ele me passou os nomes, eu escrevi o script e, no meio do meu primeiro contato de vendas, uma mulher haitiana muito animada me cortou no meio da frase, dizendo:

– Isso parece bom demais para ser verdade! Quando você pode vir até aqui para fazer a papelada?

Neste mesmo segundo!, pensei. Mas, não querendo parecer um vendedor desesperado, eu respondi:

– Bem, acontece que amanhã estarei em sua região – olhei para o endereço dela e notei que ela morava em Bushwick, no Brooklyn, um lugar bem perigoso. Por que eu estaria naquela área? Que explicação seria plausível? – fazendo o refinanciamento de um de seus vizinhos – rapidamente acrescentei. – Posso passar aí por volta do meio-dia. Está bom para a senhora?

– Perfeito! – respondeu ela. – Vou preparar um lanchinho para nós.

No dia seguinte, eu me vi dirigindo através da zona de guerra do leste do Brooklyn, maravilhado pelo modo como a falta de dinheiro pode tornar um homem corajoso. A casa da mulher era um prédio de dois andares em uma rua suja de duas mãos. Do lado de fora, parecia um antro de crack. No interior, cheirava a peixe cozido e bolor. Havia pelo menos 12 haitianos morando lá.

Ela me ofereceu um lugar em sua mesa de cozinha de fórmica verde-bosta, onde imediatamente começou a me servir feijão, arroz e peixe cozido, recusando-se a falar sobre a hipoteca até que eu limpasse meu prato. Enquanto isso, eu continuava a ouvir um grito vindo de um dos quartos no andar de cima. Parecia uma criança pequena.

– Está tudo bem lá em cima? – perguntei, forçando um sorriso.

Ela balançou a cabeça devagar, conscientemente, como se dissesse: “Tudo está do jeito que deveria ser”. Então ela comentou:

– É meu neto, que está com a febre.

A febre? O que ela quis dizer com aquilo? Pelo tom de voz, ela parecia dar a entender que algum jogo sujo, na forma de alguma força sobrenatural, estava envolvido.

– Bem, sinto muito por isso – disse eu. – Você chamou um médico?

Ela balançou a cabeça negativamente.

– Eu sou tudo de que ele precisa em termos de medicina.

Senti um arrepio na espinha. Obviamente, a mulher não tinha frequentado uma faculdade de medicina; ela era uma feiticeira, ou moomba, como se dizia. Seja como for, quando eu e Moomba finalmente começamos a tratar de negócios, consegui faturar 7 mil dólares de comissão em menos de 30 minutos e ajudei-a a economizar 300 dólares por mês em prestações. Pelo menos foi isso que eu tentei fazer. O que acabou acontecendo foi ligeiramente diferente.

Moomba lançou-me um sorriso, que expôs um incisivo central de ouro, e disse:

– Eu não dou a mínima sobre baixar minha hipoteca e meus pagamentos, Jordan. Eu só quero conseguir algum dinheiro com a minha casa – ela deu uma piscada. – Sabe como é, um pouco de dinheiro vivo? Você nunca sentiu vontade de torrar algum dinheiro?

Seu nome era Thelma. Eu sorri e devolvi:

– Bem, Thelma, houve uma vez em que eu estava tão doido com Quaaludes que decidi esticar meu iate para fazer caber meu hidroavião. – Então, completei: – De quanto dinheiro você gostaria, Thelma?

Como eu descobriria logo, a resposta de Thelma foi típica de muitos proprietários de imóveis americanos, a maioria dos quais atrasaria seus pagamentos de hipoteca e acabaria no arresto jurídico.

Ela respondeu:

– Ouça, Jordan, consiga para mim o máximo de dinheiro que puder, eu não dou a mínima se a taxa for exatamente a mesma de agora. Eu só quero redecorar minha casa, viajar para lugares exóticos, comprar uma nova máquina de costura, uma televisão de tela plana e uma lancha de dois motores e, então, quero pagar o saldo em meus cartões de crédito para que possa acabar com tudo em 6 meses e refinanciar mais uma vez! E, a propósito, Jordan, se você conseguir descobrir uma maneira de me aprovar numa dessas novas hipotecas de taxa ajustável, em que o pagamento é superbaixo nos primeiros anos e depois explode a um nível que não vou, possivelmente, ser capaz de suportar, então isso é o que eu quero também. Vou me preocupar com os pagamentos quando estiver vivendo em um abrigo para sem-teto!

Ahhhh, o boom do refinanciamento! Era mesmo igual ao que meu amigo havia me dito. Um dia, claro, seria um inferno pagar por todas essas hipotecas com taxas reajustáveis, um produto que permitiu que qualquer pessoa que estivesse respirando e tivesse um número do Seguro Social (independentemente de crédito e de avaliação de renda) pudesse emprestar 110% do valor de sua casa e só se preocupar em ser capaz de suportar o pagamento mensal em algum ponto obscuro no caminho. Mas, ainda assim, naquele momento era maravilhoso, e todos os proprietários, construtores, banqueiros, corretores de hipoteca, corretores e avaliadores das imobiliárias, varejistas de artigos de luxo e, claro, gestores de fundos de hedge de Wall Street que estavam comprando essas hipotecas malucas para colocar em lucro presumido – que eles poderiam depois propagandear aos investidores para apoiar a noção de que ainda mantinham o domínio do universo –, toda essa gente não poderia estar mais feliz. Eu, claro, era o mais feliz de todos.

Depois de uma semana eu tinha arrecadado 50 mil dólares em comissões, e na semana seguinte esse dinheiro tinha duplicado. E assim, do nada, meus problemas de dinheiro acabaram. A nuvem negra que havia me seguido desde aquele dia horrível nos degraus do tribunal tinha finalmente se evaporado.

No começo, KGB não percebeu nada. Não foi nenhum choque; afinal, ela passava a maior parte dos dias jogando Crash Bandicoot III (Crash Super Smash, como ela chamava) e as poucas palavras que trocávamos eram na forma de grunhidos e gemidos, durante o sexo.

No entanto, ela era minha noiva, então eu achei que era direito contar-lhe a boa notícia: que dali a um mês, quando os contratos de empréstimos fossem fechados, eu estaria rolando na grana de novo. Então nós poderíamos retomar a aparência de uma vida normal.

– Que bom – foi tudo o que ela disse. – Então você pode me levar para shopping novamente.

Nos 18 meses em que nós vivemos juntos, a garota tinha proferido os artigos “a” e “o” apenas uma vez, e tinha sido na hora errada. Esse importante acontecimento se deu enquanto ainda estávamos vivendo na cidade e eu estava sob prisão domiciliar. Que momentos felizes eram aqueles! Ela me disse:

– Belo dia lá fora. Vou ao Central Park agora dar uma caminhada.

KGB e eu estávamos morando juntos por tempo demais, e nós dois sabiamos disso. Na verdade, não fiquei nem um pouco surpreso quando, depois de meu primeiro empréstimo fechado, reservei um voo para a Califórnia e ela não ficou ofendida quando não a convidei para ir junto. Na verdade, ela parecera até aliviada...

E que viagem! Eu não conseguia me lembrar de alguma vez ter sido mais feliz. Por 79 dólares a noite, aluguei um quarto minúsculo no Manhattan Beach Hilton e, por um adicional de 29 dólares na diária, aluguei o carro mais barato que a Hertz tinha para oferecer. E como eu tinha voado? Na classe econômica! E também tinha feito escala em Boston, para economizar alguns dólares extras. O novo eu!

E as crianças? Bem, aparentemente, a Duquesa havia dito a eles que eu estava com problemas de dinheiro, pois quando fui comprar brinquedos eles se recusaram a comprar qualquer coisa que não fossem uns docinhos. No começo, me senti arrasado – não, pior, envergonhado. Eu sempre tentei ser o máximo para meus filhos, um pai que podia comprar tudo que eles quisessem e podia levá-los a qualquer lugar. Afinal de contas, era função do papai mostrar aos filhos apenas o melhor da vida, não?

Aparentemente não, porque, ao longo daquela semana, percebi algo muito importante, algo que minha vida anterior de riqueza e fartura tinha camuflado totalmente: meus filhos não davam a menor importância para toda a pompa. Tudo o que eles queriam era o pai. Tudo o que eles queriam saber era que ele os amava incondicionalmente e que sempre os amaria. Aquelas eram verdades simples, mas que tinham sido para mim as mais difíceis de entender.

Quando passei a conhecer seus novos amiguinhos, comer em seus restaurantes favoritos e brincar em seus parques prediletos, encontrei uma nova paz na vida. Comecei a pensar que esse poderia ter sido o plano de Deus o tempo todo: minha ascensão e queda em proporções bíblicas, apenas para ressuscitar com uma nova capacidade de apreciar as coisas.

Antes de voar de volta para casa, prometi às crianças que voltaria em duas semanas e que iria fazer isso a cada duas semanas, até que finalmente me mudasse para lá de vez. Então nos despedimos, com risos e sorrisos em vez de lágrimas. Sem dizer nada, todos sabíamos que papai estava de volta.

Quando cheguei a Nova York, fui direto para o trabalho e descobri que o boom de refinanciamentos estava acelerando a uma taxa exponencial. Em 2000, os americanos tinham se envolvido com as pontocom até morrer e, em 2001, estavam hipotecando até morrer. A bolha imobiliária estava se formando diante de meus olhos. Quando iria estourar? Era como se cada pessoa com quem eu conversasse quisesse refinanciar ou tivesse acabado de fazer isso. Consegui fe char 30 empréstimos em duas semanas e pulei de volta num avião para a Califórnia.

Obviamente, com todos aqueles contratos de empréstimos, fazia sentido ficar em um quarto um pouco maior no Hilton (uma suíte, na verdade) e alugar um carro um pouco melhor na Hertz (um Lincoln, na verdade). Na terceira viagem, os empréstimos foram fechados tão rápido que decidi voar de primeira classe do JFK. Quer dizer, que mal tinha? Eu estava ganhando meu dinheiro de forma legítima e, naquela velocidade, ficaria milionário num piscar de olhos!

Quando cheguei a Los Angeles, o motorista da minha limusine (sim, para economizar tempo, eu tinha uma limusine me esperando) disse que estava surpreso que um homem com dinheiro escolhesse ficar no Hilton. “Por que não fica na Beach House?”, perguntou ele calmamente. “Fica a poucos passos da areia, e cada quarto tem uma linda vista para o Pacífico. Quer dizer, o lugar não é barato, mas é sem dúvida o melhor!”

– Bem, que diabos você está esperando? – respondi ao motorista. – Leve-me para esse lugar, pelo amor de Deus!

Assim encontrei minha nova casa longe de casa: o Beach House. Era pitoresco, lindo e ficava a menos de 4 quilômetros de meus filhos. Em nossa terceira estadia, Chandler e Carter já eram como pequenas celebridades por lá. Todo mundo nos conhecia e nós conhecíamos todo mundo.

A vida parecia maravilhosa.



SÓ EXISTIAM DUAS COISAS me corroendo.

A primeira era minha amada noiva, KGB.

Nós nos odiávamos. Por que ainda continuávamos vivendo juntos, acho que nenhum de nós saberia responder. Talvez tivesse algo a ver com a inércia. Suas roupas estavam em meus armários, suas calcinhas estavam em minhas gavetas, seus lençóis estavam na minha cama, e ninguém, nem mesmo Mary Poppins, gosta de fazer as malas. Mas, infelizmente, à medida que o ano de 2001 chegava ao fim, o sexo começou a desvanecer, o que significava que não havia mais razão para viver no mesmo código postal.

Era o Valentine’s Day de 2002, um dia tão bom quanto qualquer outro para romper o noivado mais mal concebido desde Johnny Depp e Winona Ryder. Na verdade, por que não acabar com aquilo ali mesmo, no jantar? Nós estávamos sentados em uma mesa para dois no Hotel American em Sag Harbor. Era um estabelecimento elegante e, o mais importante, era o tipo de estabelecimento onde alguém tão refinada quanto KGB iria pensar duas vezes antes de derramar um copo de Louis Jadot Montrachet safra 1992 sobre minha cabeça. O sommelier, vestido com um impecável smoking preto e sapatos de couro preto, acabara de tirar a rolha da garrafa, que tinha o módico preço de 350 dólares.

Os fabulosos olhos azuis da KGB estavam olhando para mim com desprezo à distância de uma minúscula mesa apenas. Ela estava ligada a cada uma de minhas palavras, desgostosa com cada uma delas – já! –, apenas 15 minutos depois de nos sentarmos. Mas eu estava só começando, não deveria me apressar. Aquilo tinha de ser mais que uma de nossas brigas típicas para instigar a soviética a fazer as malas. De seus lábios vermelho-comunistas, deliciosos como sempre, vieram as palavras:

On polny mudak! – seu testículo de merda! – Você acha que vocês ganha Guerra Fria? Ah, por favor! É só o dinheiro com a América! Dinheiro, dinheiro, dinheiro! – o desprezo pingava de cada palavra que ela dizia. – Vocês fazer meu país à falência! Seu Ronald Reagan nos chama Império do Mal e fazer Star Wars! E quem salvar vocês na Segunda Guerra Mundial? Nós salvar! Perdemos 20 milhões de pessoas para derrotar o nazismo. Quanto vocês perder... Dez pessoas? Inacreditável! Foda-se América... Pizda mudak! Suas bichas do caralho!

Dei de ombros, pouco impressionado com seu mais recente discurso antiamericano.

– Bem, se você odeia tanto este país, Yulia, então por que não – comecei a levantar a voz – dá o fora daqui e volta para a porra de seu próprio país ou para o que sobrou daquela merda? – Outros casais começaram a olhar. – Mas antes de ir embora – peguei uma baguete do prato de pães e ofereci a ela –, tome, leve um pedaço de pão com você, assim não vai precisar ficar na fila quando chegar em casa – balancei a cabeça desdenhosamente. – Bela merda, essa Rússia! Um escárnio! Certa vez uma superpotência, e agora, olhe só o que sobrou... Vocês não conseguem sequer derrotar a Chechênia, eles estão jogando as porras das pedras em vocês!

Blyad! Quem você pensa que é? Você nunca conseguir garota como eu de novo! Olhe para você e olhe para mim. Você se arrepender.

Infelizmente, Yulia tinha razão. Ela sem dúvida tinha me derrotado no departamento das aparências. Era o momento de melhorar sua disposição. Olhei diretamente em seu rosto e soprei-lhe um beijo carinhoso.

Ela franziu o nariz pequeno de modelo e murmurou:

Mudilo! – seu saco encolhido! – Idi na khui! – Vá chupar seu próprio pinto!

– Bem, Yulia, a aparência não é tudo – enviei-lhe um sarcástico sorriso. – E quero agradecer a você por me ensinar isso. Veja, meu problema é que eu tive sorte com minhas duas primeiras esposas, então assumi que beleza e personalidade vinham juntas, como num pacote. – Dei de ombros inocentemente. – Agora eu sei que não é bem assim.

– Ah! – rosnou a KGB. – Volte para a ex-mulher que deixou você escadaria do tribunal. Bela mulher esse!

Apesar de tudo, eu ainda sentia necessidade de defender a Duquesa.

Eu disse:

– Meu casamento com Nadine terminou muito antes de eu ser indiciado, mas isso não interessa. O que importa é o que está acontecendo conosco, com nosso relacionamento. Ele não está funcionando.

Blyad! Você não tem que me dizer isso. Você ser pesadelo para viver. Tudo o que você falar é de crianças e hipotecas, nada mais. Você grande chateação.

Com isso, ela desviou o olhar, murmurando mais maldições em russo.

Eu respirei fundo e disse:

– Ouça, Yulia, eu realmente não quero mais brigar. Você foi muito boa para mim num momento em que eu precisava que alguém fosse bom para mim – dei de ombros com tristeza. – Mas nós somos pessoas diferentes, você e eu. Somos de mundos diferentes, com diferentes livros de história. Não é nossa culpa que não vejamos as coisas da mesma forma. Nem poderíamos, mesmo que quiséssemos. – Dei de ombros novamente. – Além disso, meu coração está na Califórnia, que é onde eu preciso estar, perto de meus filhos. Não há outro caminho para mim – balancei a cabeça e deixei escapar algumas risadas. – Confie em mim, você vai ficar melhor sem mim. Eu ainda vou para a cadeia um dia, e não tenho ideia de quanto isso vai demorar. Seja como for, acho que você deveria se mudar nesta semana. Vou para a Califórnia amanhã e não estarei de volta até domingo.

Com grande orgulho, ela acrescentou:

– Já fazer planos para isso. Igor virá amanhã e arrumar minhas coisas. Você nunca vai me ver de novo.

Balancei a cabeça, triste. O que ela disse era verdade: eu nunca mais iria vê-la de novo. Nosso relacionamento, afinal, não era do tipo que se transformaria em amizade (não tínhamos sido amigos nem quando ficamos juntos). Ela mergulharia de volta para a “cena” e eu me mudaria para Califórnia tão logo fosse possível para construir uma nova vida lá. Alugaria uma casa na praia, assim como tinha jurado a Alonso, e veria meus filhos todos os dias, tentando compensar o tempo perdido.

Vislumbrei o anel de noivado da KGB, aquele que tinha sido da Duquesa. Olhei para ele por um momento, uma enxurrada de lembranças se despejando em cima de mim. Aquele anel era uma de minhas únicas posses que restaram dos velhos tempos. Tudo o mais se fora. A maioria de meus móveis tinha sido roubada do depósito, e eu tinha empenhado todos os meus relógios de ouro antes de tropeçar no boom dos refinanciamentos. De fato, além de alguns poucos ternos Gilberto, a única coisa que eu ainda possuía era minha Mercedes preta de quatro portas. Todo o resto tinha sido comprado com o dinheiro das hipotecas, quer dizer, com o dinheiro que eu ganhei de maneira honesta.

Aparentemente KGB me viu olhando para o anel, porque ela disse:

– Ohhh, então você quer anel de volta agora?

Virei os cantos da boca para baixo e balancei a cabeça lentamente.

– Não. Você pode ficar com ele, vender, guardar, usar, não dou a mínima para o que fará com ele. Esse anel é amaldiçoado, pelo menos no que me diz respeito. Pode ser que ele traga mais sorte para você do que trouxe para mim.

Fizemos com que o jantar fosse curto, e 10 minutos depois estávamos de volta ao carro, em direção ao apartamento. Estávamos cruzando a Noyack Road, uma estrada longa, escura e sinuosa que leva de Sag Harbor até Southampton. Estava frio e úmido; as estradas estavam escorregadias. Eu dirigia a menos de 60 por hora.

KGB estava olhando para fora, pelo parabrisa. Ela usava um casaco russo comprido e um chapéu combinando, e este último tinha uma aba larga e uma cauda fofa dependurada na parte de trás. Era o tipo de conjunto de pele que só mesmo uma mulher russa rica e que tinha sido eleita Miss União Soviética poderia usar sem parecer completamente ridícula. O anel de noivado estava voltado para dentro, com a pedra descansando na palma da mão, o pulso fechado com força.

Aparentemente ela não teria desistido dele sem luta, de qualquer maneira.

Inclinei-me para a frente, liguei o rádio e apertei o botão de pesquisa. Uma canção de amor. Cupido de merda! Por que ninguém atira na bunda desse cretino com uma de suas próprias flechas? Apertei o botão de pesquisa de novo, outra canção de amor.

– Cuidado! – gritou KGB. – Animais na estrada!

Eu olhei para a frente. Porra! Cervos, três deles, a apenas 20 metros de distância e chegando perto rapidamente. Uma onda de adrenalina... Apertei o freio antitravamento e gritei:

– Segure-se!

Girei o volante para a direita, tentando levar o carro para dentro da floresta, mas a Mercedes começou a derrapar... Não!... Vamos, seus alemães de merda! Enfiei a mão na buzina, mas o cervo apenas olhou para o carro, confuso. Pisquei o farol alto em desespero. O cervo estava a menos de 10 metros. Buzinei de novo, nenhum efeito. Então, girei o volante com força para a esquerda... Mais rabeadas... Pisei no freio com ainda mais força... Senti o mecanismo de antitravamento das rodas entrar em ação... Esses boches! Vamos, seus boches... Meu coração estava batendo a mil por hora... Eu segurava minha respiração... Não... Tarde demais... Vai bater... Os focinhos indefesos dos cervos... Que desperdício terrível... Cruzei os braços e me preparei para o impacto.

– Segure-se! – gritei. – Nós vamos bater!

De repente, como por magia, o carro parou completamente a menos de um metro de um dos cervos. KGB e eu ficamos lá sentados, sem dizer uma palavra, a boca aberta, olhando para o cervo que ainda estava congelado pelos faróis do carro. Ao fundo, o cupido ainda estava me torturando com um dueto entre Lionel Richie e Diana Ross: And I’ll give it all to you, my love, my love, my love, my endless love.

– Caralho... – murmurei finalmente, ainda olhando para o veado. Balancei a cabeça devagar, enquanto os cervos olhavam para trás. Eles pareciam incomodados. Desliguei o rádio e olhei para KGB. Belo chapéu!, pensei. – Meu Deus, essa passou perto! Não posso acreditar!

SMASH!

O impacto do quarto cervo foi tão profundo que a Mercedes alemã de 1 tonelada pareceu voar alguns metros no ar e depois caiu ao solo em câmera lenta. Mesmo sem olhar, eu sabia que todo o lado traseiro do passageiro estava completamente destruído. E o cervo, é claro, estava morto. Eu me virei para KGB e seu chapéu.

– Você está bem? – perguntei.

Ela assentiu com a cabeça lentamente, com ar sonhador. Ela estava muito atônita para falar. Com o canto do olho, eu vi os três cervos se dispersarem pela floresta. Naquele momento, compreendi que eles eram uma família pequena, provavelmente à procura de comida. E eu tive a certeza de ter matado a mãe. Que triste! Disse à KGB para esperar no carro.

Fora, era uma carnificina pura. Um cervo muito grande de expressão gentil estava deitado sobre seu lado direito, imóvel. Senti um arrepio correr pela espinha. Levantei a gola de meu casaco esportivo para me proteger do frio e fiquei um tempo avaliando o veado. Que estranho, ele ainda estava lindo. Não havia danos externos. Seus olhos estavam abertos e sem vida. Seu corpo, completamente imóvel. Devia ter quebrado o pescoço.

Olhei para a Mercedes. Estava completamente destruída. Desde a porta traseira até a roda, todo o lado direito havia sido detonado. Parecia improvável que fosse possível tirá-la dali. Tudo bem, pensei. Era meu último bem contaminado. No dia seguinte eu faria com que fosse levado para o ferro-velho, junto com a KGB.

Virei-me para o veado, para dar uma olhada de perto. Estava morto? Ele não parecia morto. E, de uma só vez, um medo terrível veio subindo pela minha coluna. Um animal morto era portador de más notícias, um sinal que vinha lá das profundezas. Com o coração apertado, me agachei e coloquei a mão na garganta do cervo. Verifiquei a pulsação e, subitamente, os olhos do veado piscaram! Pulei para trás, espantado.

Lentamente, muito lentamente, o veado ficou em pé nas quatro patas e começou a balançar a cabeça para trás e para a frente, como se estivesse tentando se livrar de teias de aranha. Então começou a se distanciar mancando. Depois de alguns passos, ele começou a trotar, de volta para a floresta, para se reunir com sua família. Soltei um grande suspiro de alívio.

Havia apenas uma última coisa me corroendo.

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