CAPÍTULO 16

QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER

Na manhã seguinte, acordei com: Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!… Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!

Eu abri o olho direito e, sem levantar a cabeça nem mesmo um centímetro acima da fronha de seda branca, rolei meu pescoço para a direita e fiz contato visual com o telefone do futuro, uma maravilha tecnológica cromada com duas dezenas de luzes vermelhas piscantes e a campainha mais irritante do mundo, a última das quais soou como um pequeno pardal preso em um fio elétrico. O telefone estava descansando em uma mesa fabulosamente cara, que fazia parte de um conjunto que combinava, é claro.

Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!… Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!

– Caralho – murmurei. Eu estava tão sonolento… Não podia me mover. Minha cabeça parecia pesar mil quilos.

Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!… Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!

Porra! Quem estava ligando àquela hora? Que audácia! Eu me sentei na cama e respirei fundo. O edredom de seda branca estava agora estendido sobre minhas pernas, cobrindo minhas partes íntimas, e, apesar de estar sozinho, minha vaidade me fez olhar para meu torso nu e correr os dedos sobre meus músculos abdominais. Eles pareciam bem, eu estava em uma forma fabulosa. Isso era importante, agora, sobretudo se eu queria atrair outra Duquesa, mas não era tão importante quanto ser rico.

Bem, pelo menos eu ainda teria minha mansão por um tempo. A mansão no estilo shabby chic poderia ser um afrodisíaco muito poderoso. Eu olhei em volta do quarto. O teto ficava 9 metros acima do tapete de 15 mil dólares e minha cama era digna de um rei. As colunas de madeira esculpidas como pinhas se erguiam dos quatro cantos da cama, apoiando um dossel de seda da Indonésia que combinava perfeitamente com o tapete. A Duquesa amava essas merdas de dosséis. E ela amava seda também. A mansão tinha sete quartos, e cada um tinha um maldito dossel de seda!

Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!… Brrruuu! Brrruuu! Brrruuu!

Foda-se! Estendi a mão e peguei o telefone cromado.

– Alô! – murmurei, em um tom excessivamente sonolento que mostra que a ligação foi feita em uma hora imprópria.

A merda é que o que recebi em troca foi a voz vibrante e alegre da minha codependente menos favorita.

– Acorde e levante-se, dorminhoco! – declarou a Duquesa. – São 8h30! Temos um compromisso com o corretor de imóveis em duas horas!

Alegre, jovial, feliz!

Mas que descarada! Eu fiquei sem palavras! Perdi completamente a fala! O que ela diria em seguida, que ia usar meu perfume favorito? Caralho! Se eu não tivesse prometido não explodir o disfarce de Debbie, eu daria um esporro na Duquesa naquele exato momento.

A Duquesa, ainda feliz, continuou:

– Acorde, menino dorminhoco! Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida. Por que você não pede para a Gwynne fazer um café?

– Gwynne só chega às 9h – eu disse, sem emoção. – E não estou a fim de tomar café.

A Duquesa, pegando meu tom, comentou:

– Nossa, alguém parece terrivelmente mal-humorado esta manhã! Por que você não abre as cortinas para deixar entrar um pouco de claridade? Está lindo lá fora!

Cerrei os dentes de raiva e lentamente virei a cabeça para a esquerda, para as fabulosas cortinas. Deviam ter uns 6 metros, aquelas porras de cortinas, e deviam ter custado uma fortuna! Deus, como eu adoraria ter essa grana agora, em dinheiro vivo!

De repente, uma ideia!

– Sabe de uma coisa? – disse alegremente. – Você tem razão, seria bom ter alguma claridade aqui! Espere um segundo, querida – e inclinei-me para a mesa para pegar o controle remoto do futuro, que controlava tudo no quarto, desde as cortinas até as luzes do centro de entretenimento do outro lado da cama, com a TV de alta definição de 40 polegadas e o sistema de som que incluía, entre outras coisas, um CD player para 300 discos. Tudo por 75 mil dólares.

Primeiro, as cortinas: controle na mão, apertei um quadrado marcado CORTINAS e, do nada, elas começaram a se abrir lentamente, revelando um par de portas francesas que davam para um deque de mogno avermelhado com vista para o Atlântico.

– Ah, luz! – eu disse para a traidora. – Espere mais um segundo, querida.

Então apertei um botão marcado CD SEARCH, fazendo um novo menu aparecer. Pressionei as letras B-O-L-T-O-N e um instante depois o álbum Greatest Hits de Michael Bolton surgiu na tela, acompanhado por uma foto bastante irritante dele (com nariz grande, rosto fino e rabo de cavalo ridículo) e uma lista de todas as suas 17 canções de amor ridiculamente melosas, a maioria das quais ele havia roubado de outros artistas mais talentosos, todas feitas para manipular o coração e a mente das fêmeas desavisadas.

Meus dentes ainda estavam cerrados de raiva quando coloquei o dedo indicador sobre a música “When a Man Loves a Woman” [Quando um homem ama uma mulher] e apertei suavemente. Em seguida, mudei o dedo para o botão VOLUME UP e pressionei-o por alguns segundos.

A Duquesa, ainda feliz, perguntou:

– O que você está fazendo aí?

– Nada – respondi, olhando para meu centro de entretenimento no estilo shabby chic e ouvindo alguns cliques e claques enquanto o CD player fazia o que tinha de fazer. – Eu estou apenas colocando algumas músicas para começar o dia.

– Sério? – disse ela, um pouco confusa. – O.k.! Vou para a praia em breve. Imaginei que podíamos passar o dia juntos.

– Bem, antes de entrar no carro, Nadine, eu acho que você deveria saber que estou repensando essa coisa de casa nos Hamptons. Na verdade, acho que você deveria dar um tempo em Old Brookville.

Não tão feliz, ela retrucou:

– Do que você está falando? Pensei que já tivéssemos discutido isso.

Só então eu ouvi as notas de abertura da música. Respirei profundamente, determinado a não revelar nada do que sabia.

– Sim – disse, friamente – mas você já está com tudo arrumado por aí. Entendeu? Suas atividades estão todas organizadas, as aulas de culinária, e eu sei quanto gosta de ter Alex como seu personal trainer. Alex… – parei por um momento, deixando o nome romeno flutuar no ar. – Eu não consigo imaginar Alex gastando uma hora e meia de condução para vir aos Hamptons. Você entende?

– Eu não treino mais com ele – disse ela, nervosa.

– Ah, é mesmo? O que aconteceu?

– Nada. Nós tivemos, uh, um pequeno desentendimento.

Bem, isso é o que acontece quando você trepa com seu personal trainer, pensei. Mas eu não podia simplesmente dizer isso, porque comprometeria Bo. Então retruquei:

– Bem, isso é o que acontece quando você trepa com seu personal trainer! Você tem um desentendimento!

Desculpe, Bo!

– Do que você está falando? – disse ela, na defensiva.

Com veneno, respondi:

– Ah, você vai negar que trepava com aquele merda daquele romeno?

– Eu… Eu não…

– Ora, não gaste suas desculpas, Nadine! Eu sei que aquele porra fedorento estava dormindo em minha cama. Eu sei tudo sobre isso.

Só então eu ouvi a voz repulsiva do desgraçado de rabo de cavalo: “When a man loves a woman, can’t keep his mind on nothin’ else” [“Quando um homem ama uma mulher/Não consegue focar sua mente em nada mais”].

Ergui o telefone para o teto por um segundo, em direção aos 80 watts dos alto-falantes Bose, e então o trouxe de volta ao ouvido, para ouvir a Duquesa dizer:

– E, por favor, desligue essa música!

– Não está tão alto assim – e ergui o aparelho de novo em direção aos alto-falantes. Então eu o coloquei de volta ao ouvido e a ouvi gritar:

– … com você, Jordan! Pare! Por que você está fazendo isso?

– Fazendo o quê? – perguntei inocentemente. – Ouvindo Michael Bolton ou falando sobre o gosmento do romeno? Qual deles?

Em um pânico calmo, ela perguntou:

– Quem está contando tudo isso?

E eu, com um grito:

– Ah, por favor, Nadine! Com quem você acha que está lidando? Sei dessa merda toda há meses!

A Duquesa contra-atacou:

– Ah, é? E quem diabos é você para atirar pedras? Como se estivesse vivendo com um anjo por aí? Você dormiu com aquela garota judia nojenta que fez todos aqueles boquetes! – Um momento de silêncio e, em seguida, a Duquesa continuou: – E eu também sei sobre todas aquelas meninas russas loucas. Você nunca vai mudar! Você é um devasso!

– Sim, você está certa – retruquei –, e você é uma merda de uma codependente, que fode seus colegas codependentes do tipo daquele jogador decadente da Pensilvânia. O que ele lhe ofereceu: aulas de golfe de graça a cada trepada?

A Duquesa, incrédula, acrescentou:

– Eu… Eu não sei do que você está falando…

Com os dentes cerrados, eu disse:

– Eu nunca vou perdoá-la pelo que fez, Nadine. Você me deixou nos degraus do tribunal, sua puta fodida!

De volta para mim:

– E você me chutou escada abaixo, seu drogado do caralho! Eu espero que você morra na cadeia!

– Ah, é? – bati de volta. – Bem, eu espero que você morra de codependência!

E desliguei o telefone. “Vadia de merda!”, murmurei para o telefone do futuro. Respirei fundo e tentei me acalmar. Então o telefone tocou: Brrruuu! Brrruuu! Eu o peguei em um milésimo de segundo.

– Vá se foder! O que quer agora?

– Bem, foda-se você também! – devolveu meu advogado. – O que foi, está tendo uma manhã ruim por aí?

– Ah, ei, Greg! – respondi alegremente. – O que está acontecendo?

– Nada – respondeu ele. – O que está acontecendo com você?

Pensei sobre aquilo por um segundo.

– Ah, nada, na verdade. Só um pouco de bate-boca com minha futura ex-esposa.

– Entendo… – disse Magnum. – Posso perguntar por que você está explodindo os alto-falantes com Michael Bolton às 8h30 da manhã? O cara é uma merda!

– Opa! Espere um segundo – pressionei a pausa no controle remoto. – Desculpe por isso. Eu não sou fã de Michael Bolton, acredite em mim. Na verdade, eu vou atirar a porra desse CD no micro-ondas, assim que eu desligar o telefone.

– E por que isso? – perguntou meu advogado.

– Essa é uma conversa privilegiada entre advogado e cliente?

– Todas as nossas conversas são privilegiadas.

– Sem problema – eu disse. – Bem, acabo de descobrir que a Duquesa estava transando com o Michael Bolton. Você pode imaginar uma coisa dessas?

– Sério? – disse Magnum. – O cara é patético! Ela poderia conseguir coisa melhor.

– Ah, muito obrigado, Greg. Talvez você não esteja entendendo meu ponto aqui: o Michael-filhadaputa-Bolton estava comendo minha esposa!

– Enquanto vocês estavam juntos?

– Não! Não enquanto estávamos casados! Depois!

– Então por que você está tão chateado? Você não ficou exatamente sentado, quietinho, lá fora. Seja como for, você pode vir para a cidade hoje?

– Por quê? Algo de ruim aconteceu?

– Eu não diria ruim – respondeu ele –, mas não é a melhor notícia do mundo. Eu resolvi seu acordo com o Joel.

– Quanto tempo eu posso ficar com as casas? – perguntei rapidamente.

– Bem, é diferente para você e Nadine – respondeu ele, com cautela. – Mas eu prefiro discutir isso pessoalmente. Venha fazer um passeio até a cidade, vamos pedir alguns sanduíches e ter um almoço de trabalho. Gostaria que Nick participasse também.

Eu pensei por um momento, decidindo se deveria ou não pressionar para ter mais detalhes, mas ele logo disse:

– E tenho algumas boas notícias para você também, que dizem respeito a seu amigo Joel. Portanto, mantenha o queixo para cima e o verei daqui algumas horas, tudo bem?

Sorri para o telefone.

– É isso aí! – respondi cordialmente. – Estarei aí ao meio-dia.

Desliguei o telefone do futuro, sabendo que o que Magnum iria me contar só podia significar uma coisa: o Canalha estava saindo da Procuradoria.



MEU IMPONENTE ADVOGADO estava sentado atrás de sua mesa, o rapaz branquelo de Yale estava sentado à minha direita e eu estava sentado em frente a Magnum, no ângulo perfeito para dar algumas olhadelas na foto em que ele aparecia ao lado do juiz Gleeson, tirada quando trabalhavam juntos no Gabinete do Procurador dos Estados Unidos. Enquanto nós três estávamos envolvidos em uma conversa fiada sobre as deficiências em nossas tacadas no golfe, me vi por vezes saindo fora do ar, focando a imagem do juiz Gleeson e rezando para que, quando chegasse a hora, ele se lembrasse de que Magnum e ele eram bons amigos.

– … e isso me faz bater na bola de lado – estava dizendo Magnum. – É por isso que eu mantenho o cotovelo direito perto do quadril. – Ele deu de ombros, intencionalmente. – É a chave para qualquer boa tacada no golfe.

Bela merda, pensei.

– É verdade – retruquei. Podemos voltar ao meu caso, pelo amor de Deus?

O rapaz de Yale entrou na conversa.

– Sim – acrescentou –, mas não é esse seu problema, Greg. É sua aderência. É muito fraca, é por isso que fica batendo fora – ele deu de ombros. – É geometria simples, na verdade. Quando você corta transversalmente…

Ah, Jesus! Salvai-me! Saí do ar novamente. Eu estava em seu escritório havia 15 minutos e, até então, tudo bem. Como eu suspeitava, o Canalha estava planejando deixar a Promotoria. Exatamente quando, Magnum não tinha certeza, embora ele tivesse ouvido de “fonte confiável” que o Canalha já teria ido embora no fim do ano. A boa notícia era que isso significava que alguém diferente escreveria minha carta para o juiz e havia boas chances de que fosse alguém mais benevolente que o Canalha.

A má notícia, no entanto, era que o Canalha queria que minha cooperação fosse tornada pública antes que ele renunciasse. Havia um grande número de razões para isso, Magnum explicou, e uma delas era minha confissão de culpa (e cooperação posterior), já que isso era um grande feito da gestão dele, que ele usaria para assegurar uma parceria em um grande escritório de advocacia. Além disso, verificou-se um componente emocional envolvido, à medida que o Canalha desejava seus 15 minutos de fama, com a chance de realizar uma coletiva de imprensa e dizer: “Eu não só trouxe o Lobo de Wall Street à Justiça, mas também o transformei num dedo-duro de primeira, o que nos permitiu avanços sem precedentes em direção à erradicação das fraudes com pequenos valores de capitalização nos Estados Unidos”.

O que o Canalha não iria dizer, no entanto, era que as fraudes com os pequenos títulos mobiliários eram mais comuns agora que no auge da Stratton. De fato, com a proliferação da internet, as fraudes com ações tinham se elevado a um nível inteiramente novo, e só Deus sabia quantos milhões eram perdidos a cada dia como resultado de e-mails falsos, mensagens fraudulentas e toda aquela mania ponto.com.

Ainda assim, não havia como negar que a saída do Canalha era uma boa notícia para mim, então nós três tínhamos nos dado o direito de passar aqueles últimos minutos parabenizando-nos mutuamente. Meus advogados pareciam colocar aquilo como uma estratégia esperta da parte deles, embora eu estivesse convencido de que tinha mais a ver com meu valor em longo prazo como rato dedo-duro, o que era superior à paciência do Canalha de trabalhar para o governo federal com salários que eram quase escravidão. Qualquer que fosse o caso, essa informação era estritamente confidencial e não poderia ser soprada para ninguém.

O homem de Yale estava dizendo:

– … de dentro para fora, acima de tudo. Esse é meu segredo para manter a bola na grama curta – ele ofereceu a Magnum e a mim um aceno de cabeça, ao qual Magnum acenou de volta, concordando.

Eu sorri e disse:

– Você sabe, meu problema com essa conversa é que nós três somos péssimos no golfe – levantei o queixo em direção a Magnum –, especialmente você, Greg. Então, se você não se importa, eu gostaria que vocês parassem com essa merda de tortura e me dissessem quando eu vou perder minhas casas.

Meu imponente advogado sorriu.

– É claro: sua casa tem que ser entregue em 1o de janeiro, e a de Nadine, no mês de junho.

– Isso é péssimo – eu disse. – O que aconteceu com os quatro anos?

Magnum encolheu os ombros.

– Como eu sempre disse, Joel não é uma pessoa fácil de lidar, principalmente agora, que está se preparando para sair da Procuradoria-Geral. Ele quer extrair o máximo de sangue possível antes de ir embora.

O homem de Yale disse:

– Na verdade, as coisas estavam ainda mais sombrias ontem.

– Isso mesmo – acrescentou Magnum. – Na manhã de ontem, Joel queria que Nadine entregasse a casa na mesma data que você, mas conseguimos convencê-lo a recuar por causa de seus filhos. Então, nesse sentido, de certa forma foi uma vitória.

– Sim – disse eu sarcasticamente –, uma vitória. Uma vitória de merda! – respirei fundo e devagar deixei escapar o ar. – E quanto dinheiro ficará comigo?

– Oitocentos mil dólares – respondeu Magnum –, além de cada um ficar com um carro, os móveis e todos os bens pessoais. E você vai manter as notas promissórias que listou. Alguma delas já é executável?

Levei um tempo para registrar tudo em minha mente. Havia três, a maior das quais com Elliot Lavigne, que me devia 2 milhões de dólares. Naqueles dias, Elliot tinha sido meu principal laranja, me mandando de volta milhões de dólares em dinheiro. Na época, ele era uma lenda no ramo da indústria do vestuário, subindo para a presidência da Perry Ellis quando ainda estava na casa dos 30. Mas ele também era um viciado em drogas da pesada, um jogador degenerado e um devasso compulsivo (por isso nós tínhamos nos dado tão bem), e acabou perdendo tudo, inclusive o emprego. Nós não nos falávamos desde que eu tinha ficado sóbrio, e não havia nenhuma maneira, eu sabia, de ele me pagar de volta. Ele estava completamente falido.

A segunda maior promissória era de Cabana, que era de 250 mil dólares. Infelizmente, Cabana estava ainda mais quebrado que Elliot, e não havia nenhuma chance com ele. E depois havia o doutor David Schlesinger, um oftalmologista de Long Island que tinha se casado com Donna, amiga de infância da Duquesa. David era um cara muito bom, embora Donna fosse, em grande parte, uma cadela. No entanto, ele poderia me pagar de volta, e eu não tinha dúvida de que ele o faria. Afinal, eu tinha emprestado a ele 120 mil dólares para começar seu consultório e agora ele estava fazendo dinheiro com isso.

Ainda assim, a maior vergonha em tudo isso era Elliot Lavigne. Se ele ainda tivesse dinheiro, é claro que iria me pagar! Éramos como irmãos de sangue, nós dois. Eu até tinha salvado a vida dele uma vez, depois que ele quase morreu afogado em minha piscina. Ironicamente, nem TOC, nem o Canalha nunca demonstraram muito interesse em Elliot, apesar das propinas em dinheiro. Mas isso foi bom para mim, já que eles não levantavam o assunto, então eu não precisava falar sobre ele.

Eu disse:

– Sim, acho que uma delas é, mas é só de 120 mil dólares, o resto é inútil. Seja como for, isso de fato não importa. No ritmo em que queimo dinheiro, estarei quebrado em seis meses de qualquer maneira.

– Bem, você tem de cortar despesas – retrucou Magnum. – E você tem de dizer a Nadine para cortar também! Isso não é brincadeira, Jordan. É hora de baixar o padrão.

Eu balancei a cabeça, dizendo não.

– Não vou dizer uma palavra a Nadine sobre isso. Por mais que a odeie, não quero que fique preocupada. De qualquer forma, tenho mais de um ano para descobrir onde ela e as crianças irão viver e, acredite, por bem ou por mal, eu vou garantir que seja em algum lugar bonito.

Magnum apertou os lábios e balançou a cabeça, como se fosse um oncologista prestes a dar um diagnóstico terminal a um paciente.

– Bem, infelizmente você vai ter que deixá-la saber de tudo um pouco mais cedo do que tinha imaginado. Joel quer que ela assine isto.

– Bem, isso é outra merda! – rebati. – Na verdade, tudo que está acontecendo hoje é uma merda – balancei a cabeça, desgostoso. – Quando eu tenho de dizer a ela?

Com o toque de um sorriso, me respondeu:

– Hoje.



QUANDO EU TELEFONEI para a Duquesa e lhe disse que precisava passar lá para falar com ela sobre algo, fiquei chocado que ela não tenha mandado eu me foder. Ela era uma menina do Brooklyn, afinal de contas, e, dada a natureza da nossa última conversa, mandar eu me foder seria o equivalente a dizer “Eu acho que seria melhor se nós nos comunicássemos por nossos advogados por um tempo”. E então, algumas horas mais tarde, quando entrei pela porta da frente um pouco antes das 5 e as crianças vieram correndo para meus braços, gritando “Papai está aqui! O papai está aqui!”, fiquei ainda mais chocado pelo modo como ela parecia genuinamente feliz com o amor de nossos filhos por mim.

Ela era uma mulher complicada e, apesar de todos os meus ressentimentos, havia uma parte de mim que sempre a olharia com admiração. Ela havia se educado sozinha, melhorado e, para o bem ou para o mal, tinha aspirado à perfeição em todos os aspectos de sua vida. Em muitos aspectos, ela era tudo o que eu nunca poderia ser: perfeitamente linda, totalmente autoconfiante e envolta por uma armadura emocional que a protegeu da dor; de outras formas, eu era tudo o que ela nunca poderia ser: inteligente, financeiramente autossuficiente e emocionalmente vulnerável a uma falha.

Talvez, em um tempo e um espaço diferentes, a gente pudesse ter composto belas músicas juntos, porque, no final, não foi a falta de amor que tirou o melhor de nós, mas, sim, tudo o que o destruiu: o dinheiro, as drogas, a vida no jet-set, os falsos amigos. E, claro, a Stratton, a árvore da qual apenas frutas venenosas brotaram, incluindo o fruto de nosso casamento. Apenas as crianças tinham conseguido sair ilesas, um fato pelo qual eu sempre daria graças a Deus.

Nós estávamos sentados na mesa da cozinha e eu tinha acabado de lhe dar todos os detalhes terríveis sobre o que ocorrera, as datas, os valores e tudo o mais.

Sua resposta me chocou.

– Eu realmente sinto muito – disse ela calmamente. – Eu sei quanto essa casa de praia significa para você. Onde você vai viver agora?

Eu olhei para ela, espantado. Ela estava mesmo falando sério? Quer dizer, depois de tudo que eu tinha dito a ela, ela estava preocupada com o lugar onde eu iria viver? Mas e sobre onde ela iria viver? E o que aconteceria com as crianças?

Eu estava prestes a falar isso quando de repente entendi: não era ironia. Ela simplesmente tinha andado pela vida debaixo de chuva por tanto tempo que assumiu que sempre seria assim. Tudo iria acabar bem para ela, ela sabia, e, por mais estranho que parecesse, eu sabia que ela estava certa.

Forcei um sorriso e disse:

– Não se preocupe comigo, Nae, vou ficar bem. E não se preocupe com você e as crianças também – olhei nos olhos dela. – Sempre cuidarei de vocês, não importa o que aconteça.

Ela assentiu com a cabeça, embora o que eu quisesse dizer com aquilo acho que nenhum de nós soubesse. Com a maior sinceridade, ela disse:

– Eu sei que você vai cuidar de nós o melhor que puder. E já sabe quanto tempo ficará… fora?

– Eu ainda não tenho certeza – respondi. – Joel está saindo da Procuradoria, o que é uma coisa boa para mim, mas tenho certeza de que vou pegar alguns poucos anos – dei de ombros, tentando fazer pouco da situação. – Este é o fim da linha, Nae: você vai tocar sua vida e eu vou para a merda da cadeia – sorri e dei uma piscada. – Que tal trocar de lugar comigo?

– Não! – respondeu ela, com alguns acenos exagerados de cabeça. – Mas prometo a você que as crianças sempre vão saber que o pai é um bom homem – ela estendeu a mão e agarrou a minha, como um amigo faria. – Seus filhos sempre irão amá-lo, Jordan, e estarão esperando por você assim que sair da cadeia.

Apertei sua mão delicadamente e então me levantei da cadeira e caminhei até uma janela do chão ao teto, na parte de trás da sala. Apoiei o ombro nela e fiquei um momento ali, para saborear a beleza de minha propriedade. Era linda naquela época do ano. O gramado estava tão verde quanto qualquer floresta tropical, e o lago e a cachoeira pareciam uma pintura. Como as coisas poderiam ter sido diferentes se eu tivesse feito as coisas direito.

Após alguns segundos, a Duquesa se juntou a mim na janela e olhou para fora.

– É lindo – disse ela. – Não é?

– Sim. É difícil de acreditar que outra família vai viver aqui um dia, sabia?

Ela assentiu, mas não disse nada.

De repente, uma lembrança agradável:

– Ei, lembra o que a gente fez quando assinamos o contrato dessa casa?

Ela começou a rir.

– Lembro! A gente escapou pela propriedade e fez sexo na parte dos fundos!

– Exatamente! – disse eu, rindo. – Foram dias engraçados aqueles, não?

– Sim, mas não foram os de que mais gostei.

Eu olhei para ela, surpreso.

– Ah, é mesmo? Quais foram?

– Os primeiros dias – respondeu ela, casualmente. – Naquele minúsculo apartamento na cidade. Eu te amava demais naquela época. Se você soubesse, Jordan… Mas você nunca se permitiu confiar em mim, por ser tão rico quando nos conhecemos. – Ela parou por um instante, como se procurasse as palavras certas. – Eu quero que você saiba que sempre fui fiel enquanto estávamos juntos. Eu nunca traí você uma vez sequer! E, bem, o que aconteceu esta manhã ao telefone… – ela parou e balançou a cabeça rapidamente, como se estivesse desgostosa consigo mesma – … Bem, foi uma exibição ruim da minha parte, e eu sinto muito.

– Eu também – repliquei rapidamente. – Foi uma exibição ruim da minha parte também.

Ela assentiu com a cabeça.

– Quero que você saiba que não estava tentando manipulá-lo com os Hamptons. – Ah, tá bom! – Ou melhor, talvez no final eu estivesse, mas não no início. Quando surgiu a ideia, eu achava que havia uma chance para nós – ela parou por um momento. – Mas, então, ao longo das últimas semanas, bem, eu soube que não tinha. Muito aconteceu: muito machucado, muita dor, muitas lembranças ruins. Eu não vou usar nenhum desses clichês baratos aqui, mas acho que nós definitivamente quebramos o recorde dos relacionamentos insanos, sabe?

Eu sorri tristemente, sabendo que ela estava certa.

– Sim, acho que fizemos isso – disse –, mas foi divertido por um tempo, pelo menos no início – tentei animar o tom da conversa. – Pelo menos temos dois filhos maravilhosos, e eu sempre vou amá-la por isso – ofereci-lhe minha mão, palma para cima, como se fosse realmente uma duquesa. – Então, vamos lá, Duquesa, por que não vamos os dois lá para cima dar um beijo nas crianças? Depois vou embora.

Ela sorriu, depois pegou minha mão e lá fomos nós, saindo da cozinha, pela sala de jantar, atravessando a enorme entrada de mármore e, em seguida, até a suntuosa escada em espiral que levava ao segundo andar da mansão.

Quando chegamos ao topo da escada, eu virei à direita, em direção ao quarto das crianças, e ela virou para a esquerda, em direção ao quarto do casal. Nós ainda estávamos de mãos dadas, de modo que parecíamos dois marinheiros se inclinando para ventos opostos. Eu sorri alegremente.

– O que você está fazendo? – perguntei.

Ela apenas olhou para mim, com os lábios comprimidos, como se fosse uma criança pensando em fazer algo impertinente. Então, apontou com a cabeça na direção do quarto.

– Venha para dentro comigo – disse ela, maliciosamente.

Meus olhos estalaram, abertos como um par de guarda-chuvas.

– O quê? Você quer fazer amor comigo agora, depois que eu acabei de lhe dizer que perdi as casas?

Ela assentiu com a cabeça, ansiosa.

– Sim, é o momento perfeito. Eu nunca estive nesse casamento por causa do dinheiro! É que… – apertei os olhos, desconfiado, e ela voltou atrás. – Tudo bem, não vou negar que o dinheiro definitivamente ajudou, mas eu poderia ter me casado com um monte de caras ricos. Eu escolhi você porque você era bonito. Você ainda é bonito! – piscou. – Então, vamos lá! Vamos fazer uma última vez antes de nos divorciarmos, tudo bem?

– Você vai na frente, eu sigo! – respondi alegremente, e um segundo depois a porta do quarto estava batendo atrás de nós e nós estávamos pulando naquele fabuloso edredom de seda, com seus milhares de pequenas pérolas.

Nós começamos a nos beijar profundamente. Que paixão desenfreada! Que ferocidade sexual! Como nunca antes! A Duquesa cheirava tão bem que parecia quase impossível. Eu queria aquela mulher, para possuí-la por toda a eternidade.

– Eu te amo – gemi.

– Eu também, sempre vou te amar– ela gemeu de volta.

Puta!, pensei.

– Eu também – respondi de maneira amorosa, e começamos arrancando fora nossa roupa, opa, a Duquesa estava sem sutiã! Empurrei meus mamilos nus contra seus mamilos nus e minha barriga nua contra a barriga nua dela. Que suavidade senti! Que calor! A Duquesa era uma chama furiosa! Dominada pela paixão! Eu nem conseguia pensar direito!

De repente, ela interrompeu o beijo, me olhou nervosamente e murmurou:

– Eu espero… – resfolegou – que você não esteja pensando… – resfolegou – que vai passar a noite aqui – resfolegou de novo –, pois nem consigo pensar – resfolegou – em me ver acordando… – resfolegou de novo – com você amanhã de manhã.

Cadela!, pensei.

– Claro que não – resfoleguei. – Eu tenho uma reunião em Southampton – resfoleguei – logo cedo de manhã.

– Ah, bom – murmurou ela. – Agora, faça amor comigo.

E acabaram-se os sufocos. As pernas da Duquesa… Perfeição! Como eram macias, flexíveis! Como nunca antes! Aquelas coxas, os tornozelos finos, aqueles quadris celestiais! Meu sistema nervoso estava numa sobrecarga sensorial, e eu adorei.

– Beije-me suavemente – gemeu a Duquesa. – Do jeito que costumava fazer…

Sim, pensei, vou beijá-la suavemente, do jeito que costumava fazer, e então farei amor com ela, do jeito que eu costumava fazer, comigo em cima e as pernas gostosas dela presas juntas, para ter mais fricção. A Duquesa adorava dessa maneira!

Com grande ternura, coloquei as mãos em seu rosto, os lábios nos lábios dela e beijei-a suavemente, respirando cada molécula dela. Seus lábios estavam totalmente deliciosos, totalmente brincalhões, assim como costumavam ser.

Então, nós ficamos ali, apenas nos beijando, durante o que pareceu um tempo muito longo.

Finalmente eu parei nosso beijo e olhei para minha linda Duquesa, em seus fabulosos olhos azuis, e decidi dar-lhe uma última tentativa.

– Eu ainda te amo – disse baixinho, rezando para que ela devolvesse minhas palavras.

Ela assentiu com a cabeça rapidamente.

– Eu também te amo – disse ela. – Agora venha fazer amor comigo, querido.

Ela ainda me amava!

Em seguida, um choque, quando ela disse:

– Espere um segundo. Deixe-me virar, assim a gente pode fazer por trás.

E mais rapidamente do que parecia possível, a Duquesa escapou por debaixo de mim e agachou-se sobre os joelhos, de costas para mim. Em seguida, ela cruzou os braços sobre seus seios e arqueou as costas, como um gato, empurrando sua bunda para trás. E disse urgentemente:

– Depressa, venha agarrar meus braços e me abraçar por trás!

Cadela!, pensei. Ela aprendeu um novo truque na minha ausência! Não havia insulto maior! Quem tinha lhe ensinado aquilo? Aquele estilo de cachorrinho com os braços cruzados? Fora aquele bastardo de rabo de cavalo? Ou o imbecil do jogador de golfe? Ou, o que seria pior, o romeno de merda?

Só então ela balançou a cabeça loira e me encarou intrigada.

– O que você está esperando? – resfolegou. – Me pegue agora ou me perca para sempre!

Olhei para ela, sem palavras.

Ela sorriu timidamente.

– Ah, vamos lá, bobo! Você vai gostar dessa maneira!

Puta!, pensei. E então sorri.

Acabamos fazendo amor apaixonadamente naquela noite de quinta-feira, e acho que ambos sabíamos que seria pela última vez. Por que isso tinha de acontecer, eu nunca saberia, embora suspeitasse que tivesse algo a ver com um encerramento, de que nós dois desesperadamente precisávamos. Tínhamos descido ao inferno e voltado juntos, e agora era hora de seguir em frente. De alguma forma, eu sabia que nós sempre nos amaríamos.

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