CAPÍTULO 14
UMA CRISE DE CONSCIÊNCIA
De certa forma, David Michael Beall passou a representar tudo o que poderia ter sido justo e puro na Stratton Oakmont. Nascido na cidade ultracaipira de Burtonsville, em Maryland, onde esportes como lançar ferraduras e desviar de bosta de vaca eram os passatempos favoritos da população, ele tinha crescido muito pobre e sem um pai. Ele era do tipo que teve uma infância “faça você mesmo”, em que um corte profundo era costurado pela própria mãe, usando uma agulha aquecida e um fio qualquer.
Intelectualmente, Dave não era nem muito brilhante nem muito burro; estava na média. E não era bem do tipo vendedor, era alguém honesto e franco demais, falando com o tipo de conversa lenta do Sul que não conseguia convencer ninguém a fazer algo que não quisesse, para começo de conversa.
Como a maioria das crianças de Burtonsville, ele não tinha crescido com um ardente desejo de ser rico, algo que viria mais tarde, mas tinha uma compreensão clara de que o mundo tinha poucos chefes e muitos índios, que ele era um dos índios e não havia nada de errado com isso.
Normalmente, um caipira de quase 2 metros de altura como Dave Beall nunca iria para a faculdade, mas acabaria trabalhando numa oficina da cidade, trocando óleo e ajustando motores, e então passaria os finais de semana tentando entrar nos jeans apertados da gostosona local. Mas, como quis o destino, Dave tinha sido abençoado com duas coisas maravilhosas, velocidade e força, que juntas lhe conseguiram uma bolsa de estudos para a Universidade de Maryland, para a equipe de luta livre.
Nesse meio tempo, ele conheceu uma linda judia loira chamada Laurie Elovitch, que tinha a metade do tamanho dele e era seu completo oposto. Laurie era de Long Island, de uma família muito rica e politicamente cheia de contatos; então, depois que ela e Dave se formaram, ambos se transferiram para Long Island a fim de ficar perto deles. Entendia-se que um cara como Dave – que você normalmente encontraria sentado em um fardo de feno, vestindo macacão jeans sem camisa – seria um peixe fora d’água na desumana e implacável Long Island. Todo mundo achou que o pai de Laurie, Larry, ajudaria a encontrar um caminho para Dave, que usaria seus contatos políticos para obter um emprego decente para o genro (talvez no Departamento de Parques ou de Serviços Públicos).
Mas, novamente, o destino iria intervir na vida de Dave Beall, quando, em novembro de 1988, Laurie se deparou com um anúncio de emprego no New York Times e Dave tornou-se um dos primeiros jovens americanos a atender ao chamado da Stratton. Como muitos jovens que vieram depois dele, ele se dirigiu para a entrevista em um carro que não era mais que um pedaço de merda, vestindo um terno que era outro pedaço de merda e estava tão esfarrapado que sua futura sogra teve de usar fita adesiva para impedir que as costuras arrebentassem.
No entanto, ele passou no teste do espelho sem incidentes e, em seguida, passou pelo programa de treinamento e aprendeu a vender – ou, nos termos da Stratton, aprendeu a ser um assassino. Duas vezes por dia, eu ficava de pé na frente da sala de pregão fazendo meu discurso, e ele também passou a acreditar que a ganância era uma coisa boa, que os clientes deviam comprar ou morrer e que uma vida de riqueza e ostentação era o único caminho para a felicidade.
Então – voilà! –, mais ou menos uns seis meses depois, Dave Beall estava dirigindo um Porsche conversível, vestindo-se com ternos de 2 mil dólares e falando com a desenfreada autoconfiança de um corretor de primeira linha.
No entanto, foi através do casamento com Laurie que seu destino acabou sendo selado: Laurie atingiria o grau mais próximo possível de amizade com a Duquesa, empurrando, assim, a mim e a Dave para a mais improvável das amizades… Nós éramos uma dupla estranha, com certeza, mas, enquanto minha dependência em drogas saía do controle, Dave se tornou o companheiro perfeito para mim. Afinal, ele nunca teve muito a dizer, para começo de conversa, e eu estava chapado demais na maior parte do tempo para compreender qualquer coisa. Então nós assistíamos a filmes juntos, os mesmos de sempre, James Bond em sua maioria, e os episódios originais de Star Trek, enquanto nos escondíamos em meu porão, com as cortinas fechadas e as luzes apagadas, e eu consumia drogas em quantidade suficiente para derrubar uma família de ursos-pardos.
Claro que Dave também curtia drogas, mas não tanto. (E quem curtia mais que eu, exceto Keith Richards, dos Rolling Stones?) De qualquer maneira, ele sempre ficou atento o suficiente para manter o olho em mim, por ordem da Duquesa. A paciência dela já se esgotara, então ela engarregara Dave de se certificar que eu não me mataria antes que ela descobrisse um jeito de me levar para a reabilitação.
Por fim, ela conseguiu, mas não antes de eu tentar me matar.
Há dois anos, eu estava um dia na cozinha de Dave, perturbado e desesperado, mastigando uma centena de comprimidos de morfina, então ele me jogou no chão e enfiou os dedos na minha boca, puxando os comprimidos para fora. Aí chamou uma ambulância e salvou minha vida.
Quatro semanas mais tarde, quando saí da reabilitação e cheguei a Southampton, com meu casamento em frangalhos, foram Dave e Laurie que vieram para a praia e fizeram o possível para nos ajudar a nos recompor. Embora eu estivesse bem ciente de que isso era algo que só a Duquesa e eu poderíamos fazer, aquele foi um gesto que eu nunca iria esquecer.
No entanto, foi ainda mais revelador como Dave e Laurie agiram depois de minha intimação: enquanto a maioria de meus amigos correu para se proteger, Dave ficou a meu lado, e enquanto a maioria dos amigos da Duquesa embarcou na onda de “dê o fora em seu marido”, Laurie tentou convencê-la a ficar.
Foi por todas essas razões que, enquanto eu me sentava com Dave no restaurante Caracalla, me sentia o maior piolho do mundo. Eu estava usando uma Levi’s azul-escura, que escondia o diabólico aparelho de TOC, e sob minha blusa de algodão preto estava o microfone ultrassensível do FBI, que subia pelo meu esterno para descansar à direita de meu coração partido.
Embora fossemos só nós dois naquela noite, estávamos em uma mesa para quatro pessoas, com uma toalha imaculadamente branca, pratos de porcelana branca e talheres reluzentes. Dave estava sentado bem à minha esquerda, a menos de meio metro de distância; tão perto, pensei, que o microfone do TOC pegaria o som de sua respiração. Ele usava uma jaqueta esporte sobre uma camiseta branca, a típica roupa de Dave Beall, e em seu rosto bonito e grande estampava a mais inocente das expressões: um cordeiro à espera do abatimento.
Depois de alguns minutos de conversa, ele me entregou uma pilha de papéis.
– Você poderia dar uma olhada nisso? – questionou. – Estou pensando em entrar no negócio de câmbio, as pessoas estão fazendo fortuna com isso.
– Claro – respondi, e pensei: Puta merda, como ia ser terrivelmente simples! O chamado negócio de câmbio era o mais recente golpe na praça e eu não tinha dúvida de que podia fazer Dave se incriminar em menos de um minuto. Ainda assim, aquilo não tinha nada a ver com o que TOC e o Canalha estavam interessados. Ao contrário, eles queriam saber sobre a corretora em que Dave tinha trabalhado depois do fechamento da Stratton. Em todo caso, seria muito fácil fazer Dave falar sobre isso.
Então passei alguns momentos fingindo olhar seus papéis, que tinham palavras como ienes e marcos alemães impressas, enquanto dava rápidas espiadas pelo restaurante com o canto do olho. Caracalla era um lugar pequeno, com talvez 15 ou 20 mesas. Às 8 da noite, numa quarta-feira, apenas algumas delas estavam ocupadas. Eram principalmente casais de meia-idade, nenhum dos quais tinha a menor ideia da trapaça que acontecia a poucos metros de distância. TOC e o Mórmon estavam me esperando no estacionamento de um cinema local, por isso éramos apenas Dave e eu… O homem que salvou minha vida… O único amigo que eu tinha e que me apoiou… Nossos filhos eram amigos… Nossas esposas eram amigas… Nós éramos amigos! Como eu podia fazer aquilo?
Eu não podia.
Sem pensar, coloquei os papéis na mesa, me desculpei e fui ao banheiro. No caminho, parei na área dos garçons e peguei uma caneta. Dentro do banheiro, escondido em uma das baias, peguei uma toalha de papel, apoiei na parede e, em letras grandes, escrevi:
NÃO SE INCRIMINE, ESTOU COM UM MICROFONE!
Olhei para a nota por um segundo, meu coração quase saindo do peito. Se TOC e o Canalha descobrissem sobre aquilo, eu estaria morto. Eles iriam encerrar minha cooperação no ato e eu seria condenado sem a tal da carta da Promotoria. Trinta anos, porra! Eu fiz os cálculos: eu teria 66 anos de idade! Respirei fundo e tentei me reequilibrar. Não havia nenhuma maneira de TOC descobrir. Eu estava certo disso.
Encorajado por esse pensamento, saí do banheiro e voltei para a mesa, meus olhos correndo ao redor do restaurante como se fossem os de um coelho. O caminho estava livre; não havia agentes do governo.
No momento em que cheguei à mesa, coloquei a mão esquerda no ombro de Dave e levei o dedo indicador direito aos lábios, o sinal que diz: “Shhh!”. Na minha mão esquerda estava a nota, dobrada ao meio. Eu tirei a mão de seu ombro, desdobrei a nota com os dedos e então a coloquei sobre a mesa, na frente dele.
Quando me sentei, vi seus olhos azuis quase saindo de seu crânio robusto, como cabides de chapéu, enquanto ele lia a nota para si mesmo. Então ele olhou para mim, perplexo. Eu olhei para trás, com o rosto imóvel. E assenti lentamente. Ele acenou de volta.
– De qualquer forma – eu disse –, se o negócio de câmbio seguir como está, acho que é uma coisa boa, mas você precisa ter cuidado. Há um monte de dinheiro flutuando lá, pelo menos isso foi o que eu ouvi; todos levando propinas. Quer dizer, era uma coisa quando você e eu fizemos isso, mas é diferente quando há estranhos envolvidos – baixei a voz para dar mais efeito. – Deixe-me fazer uma pergunta – sussurrei. – Você nunca depositou qualquer soma do dinheiro que lhe dei, não é?
Ele olhou para mim com os olhos arregalados.
– Eu não sei do que você está falando. Eu estou quebrado agora.
– Eu entendo – sussurrei –, mas não estou falando de agora. Estou falando de dois anos atrás. Estou preocupado com os 250 mil que lhe dei. O que você fez com o dinheiro?
Uma gota de suor começou a escorrer pela testa dele.
– Eu acho que você estava chapado na época, cara. Estou quebrado, totalmente…
E foi assim a noite toda.
Uma hora mais tarde, quando entreguei a fita a TOC, senti uma ligeira pontada de culpa, mas apenas uma leve pontada. Apesar de tudo, se TOC descobrisse aquilo, ele iria entender. Ohhh, ele não teria escolha senão me atirar na cadeia pelos 30 anos seguintes, mas não iria encarar minha traição como algo pessoal. Ele concordaria que um homem poderia se afundar tanto que não seria mais um homem, e naquela noite eu tinha chegado a esse ponto; sim, naquela noite eu tinha agido como um homem.
No caminho de volta para Southampton, percebi que tinha encontrado algo muito importante naquela noite, algo que eu tinha perdido muitos anos antes, no primeiro dia em que entrei na Investors’ Center e vi as opções de compra e venda.
Minha autoestima.