CAPÍTULO 27
A PALAVRA DA MODA É IRONIA
Na manhã seguinte, eu estava deitado na cama assistindo ao Financial News Network quando uma âncora loira falou algo sobre a NASDAQ ter aberto com “forte queda” naquela manhã. Parece que havia um maciço desequilíbrio com um infeliz viés para o lado da venda.
Não é grande coisa, pensei. A loira provavelmente está exagerando e, mesmo se ela não estiver, não importa de qualquer maneira. Afinal, os mercados sobem e descem, e um corretor experiente pode ganhar dinheiro em qualquer mercado.
Meu plano era infalível: com os 250 mil dólares que eu ainda tinha, iria negociar as ações mais altas da NASDAQ com a precisão do Lobo e faria uma pequena fortuna no processo. A NASDAQ tinha mais que duplicado nos últimos 12 meses, e quem melhor que o próprio Lobo para aproveitar a maior bolha especulativa desde 1929? Seria como tirar doce da boca de uma criança.
Infelizmente, o destino tinha planos diferentes.
Por volta das 9h30 da manhã, a NASDAQ tinha caído mais de 4% e, dois dias depois, caiu outros 5%. No Dia da Mentira, tinha perdido mais de 20%, e eu não estava com sorte. A bolha pontocom tinha finalmente estourado e continuaria a esvaziar, a uma taxa imprevisível, por um futuro previsível. E, sim, embora fosse verdade que um profissional experiente poderia ganhar dinheiro em qualquer mercado, ele não poderia fazê-lo com recursos limitados, para não ser eliminado com um único negócio malfeito. Então abandonei meu plano infalível antes de começá-lo.
KGB e eu tínhamos nos dado bem enquanto eu estivera “sentado na cadeia”, como ela havia se expressado, mas agora que estava fora as coisas tinham ficado mais tênues. Naturalmente, o sexo ainda era ótimo, mas nossas conversas eram mínimas. Na terceira semana de abril, eu estava certo de que não tínhamos futuro juntos. Isso era óbvio; na verdade, não tão óbvio, já que no dia 17 de abril, dia do aniversário da KGB, fiquei de joelhos e a pedi em casamento. Com o coração apertado, disse:
– Quer se casar comigo, maya lubimaya, e ser minha terceira esposa legalmente? – o que eu não disse, mas sabia que seria verdade, foi: “Você promete me torturar, me deixar louco e garantir que eu permaneça o homem mais miserável do planeta até que a morte nos separe?”.
Como ela não era capaz de ler meus pensamentos, respondeu depressa:
– Da, maya lubimaya, eu vou ser esposa – e então eu enfiei em seu dedo anelar soviético um diamante amarelo canário de 7 quilates engastado em um anel de platina e fiquei olhando por um momento. Ah, era lindo, tudo bem, e também muito familiar; de fato, era o anel de noivado da Duquesa, que eu tinha conseguido manter comigo durante a divisão das posses.
Seria má sorte?, me perguntei. Quer dizer, não era todo dia que um homem perguntava a uma mulher se ela queria ser sua terceira esposa e então colocava no dedo dela o anel de seu último casamento fracassado como sinal de amor, afeto e compromisso com ela. Ainda assim, eu tinha minhas razões, não sendo a última delas o fato de eu não ter bem certeza do que dar a ela de aniversário (sem mencionar o fato de que um presente de aniversário iria me custar uma bela grana e eu estava tentando ter um bom controle financeiro das coisas).
Mas quando telefonei a George e tentei explicar tudo isso, ele explodiu em cima de mim:
– O que diabos há de errado com você? – gaguejava. – Você poderia ter vendido a coisa por mais de 100 mil, seu imbecil!
Blá-blá-blá, pensei. KGB tinha ficado comigo nos momentos mais tristes, então eu devia a ela pelo menos um casamento, não devia? Além do mais, e sua posição como primeira, última e única Miss União Soviética na história da agora defunta nação? Aquilo devia valer alguma coisa! Então George disse:
– De qualquer forma, ela nem sequer se dá bem com seus filhos, então sei que nunca vai dar certo.
Tudo bem. Se as coisas ficassem ruins, bastaria apenas me divorciar novamente.
Enquanto isso, a Duquesa estava sendo extraordinariamente agradável. Nem bem tinham se passado três semanas desde que meus filhos deixaram Nova York, ela já os mandara para outra visita. Além disso, ela havia concordado em me deixar ficar com eles pelo verão inteiro. O único problema era: como eu poderia mantê-los entretidos em um prédio de apartamentos de Manhattan infestado por lixo europeu enquanto estivesse sob prisão domiciliar com uma noiva emocionalmente desconectada ao meu lado e que não conseguia dizer a palavra “o”? Seria difícil. Sem gramado para correr, piscina para nadar ou praia para construir castelos de areia, eles ficariam entediados até a morte. Sem mencionar que a ilha de Manhattan teria uma temperatura de mais de 30 graus com uma umidade de 1.000%! Como as crianças poderiam sobreviver a isso? Iriam parecer minúsculos girassóis no deserto de Gobi.
A cidade não era lugar para crianças, sobretudo no verão! Todo mundo sabia disso, especialmente eu. Todos os amigos deles estariam nos Hamptons. Como eu poderia decepcioná-los de novo? Eu já os tinha colocado em um inferno suficiente apenas do jeito que as coisas estavam. No entanto, seria obscenamente caro alugar um lugar nos Hamptons, e eu estava tentando conservar meus fundos. Se a NASDAQ pelo menos não tivesse caído!
Mais uma vez, no entanto, George tinha uma solução. Ele me telefonou do celular enquanto estava no meio de um jogo de golfe em Shinnecock e disse:
– Fiquei sabendo de uma propriedade de 60 mil metros quadrados em Southampton. O proprietário é um principe alemão, ou algo assim, que tem um monte de títulos de nobreza e nada de dinheiro, então está vendo se consegue alugar o lugar baratinho.
– E como é o lugar? – perguntou o mendigo exigente.
– Bem, não é Meadow Lane – respondeu ele –, mas ainda é bom. Tem piscina, quadra de tênis, um quintal enorme. É perfeito para as crianças. Tem até veados correndo em seu quintal!
– Quanto é? – perguntei cautelosamente.
– Cento e vinte mil – respondeu ele. – É um roubo, considerando que o lugar parece um pavilhão de caça suíço.
– Eu não posso pagar isso – disse eu rapidamente, ao que George respondeu ainda mais rapidamente:
– Não se preocupe, eu vou pagar a locação para você. Você pode me pagar quando estiver com dinheiro novamente – completou. – Você é como um filho para mim, Jordan, e seria bom dar uma parada agora. Então, aceite isso e lembre-se, de cavalo dado não se olham os dentes.
De início, meu orgulho masculino me pediu para resistir à generosidade de George, mas só por um segundo. O local seria perfeito para meus filhos, e George era, de fato, como um pai para mim. Além do mais, para um homem tão rico quanto ele (tão rico como eu costumava ser), 120 mil não era nada. Nesse nível de riqueza, o dinheiro é apenas uma entrada no balanço financeiro, e você tem mais alegria em ajudar as pessoas com ele do que vê-lo crescer 4% no Bridgehampton National Bank. Tudo o que você quer em troca é amor, respeito e, claro, gratidão, tudo o que eu já sentia por George. Além disso, um dia eu pagaria de volta, depois de me tornar rico novamente.
Então fiz as malas e voltei para os Hamptons. Senti-me como uma porra de uma bola de pingue-pongue! Até que recebi um telefonema surpreendente de Magnum. Era início de junho, e eu atendi a chamada em minha nova sala de estar, que, como George tinha indicado, parecia mesmo um pavilhão de caça.
Magnum disse:
– Achei que você gostaria de saber que Dave Beall foi indiciado hoje por fraude de valores mobiliários. Aconteceu nesta tarde na frente do juiz Gleeson.
Com o coração apertado, me sentei em uma cadeira de couro meio detonada. Acima de mim pendia a cabeça de um alce gigante morto. O alce morto parecia indignado.
– Indiciado... – murmurei. – Como ele poderia ser indiciado, Greg? Eu pensei que ele estivesse cooperando com os federais!
– Aparentemente não – respondeu Magnum, e então começou a explicar como Dave Beall não tinha me delatado; ele havia chegado bêbado como um gambá e, então, tinha contado a um de seus amigos sobre o tal bilhete. O amigo, como se viu, era um dedo-duro no sempre em expansão depósito de dedos-duros do TOC. E o resto, como dizem, é história.
As crianças passaram o verão em Southampton e se divertiram muito; no dia em que partiram, Elliot Lavigne foi indiciado por fraude em títulos. Ele jogou toda a culpa em mim, é claro, o que foi bastante irônico, considerando que um dia eu tinha salvado a vida dele, no que eu agora considerava um lapso momentâneo de julgamento. Na verdade, eu ainda estava contente por ter salvado sua vida, porque durante a semana que se seguiu todo mundo estava me chamando de herói; mas agora, meia década depois, Elliot estava encarando cinco anos, e eu não dava a mínima.
Com o Chef, no entanto, a história foi diferente, e eu dava a mínima.
No que se configura a maior ironia de todas, o Chef tinha decidido desafiar a lógica convencional e levar o caso dele a julgamento. Mas por quê? Com as fitas de vídeo, as fitas de áudio, meu testemunho, o testemunho de Danny, o testemunho de James Loo e o hermético rastro de papel da minha história suíça como álibi, que estava carregado com as impressões digitais do Chef, sem falar das duas espetaculares descrições de seu submarino, o SS Lavador de Dinheiro, ele não tinha absolutamente nenhuma chance de ser absolvido. Ele seria considerado culpado da acusação e ficaria na cadeia por quase uma década.
De minha parte, eu ia sofrer a humilhação pública de ter que testemunhar em tribunal aberto contra um homem que eu havia chamado um dia de amigo. Isso sairia nos jornais, nas revistas, na internet, em todo lugar. E quão irônico seria que o que eu tinha feito com Dave Beall entraria para a história como nada mais que uma nota de rodapé, uma ação mínima para uma dúzia de atos de traição.
Naquele momento, eu estava sentado na sala de interrogatórios com Alonso e TOC, rindo por dentro quando TOC disse:
– Sabe de uma coisa, Alonso? Você tem o pior caso de TOC que eu já vi!
– Do que você está falando? – retrucou Alonso. – Eu não tenho TOC! Eu só quero ter certeza de que as transcrições são precisas.
– Elas são precisas – TOC rebateu, balançando a cabeça, incrédulo. – Quer dizer, você realmente acha que o júri dá a mínima se Gaito disse, “Badabip, badabop, badabup” ou “Badabop, badabip, badabing”? Ambas são a mesma coisa, porra! O júri sabe disso!
Alonso, que estava sentado à minha direita, virou a cabeça para mim um pouco e lançou uma piscadela, como se dissesse: “Você e eu sabemos que isso é importante, por isso não dê importância aos resmungos desse cara do FBI!”.
Então, ele olhou para TOC, que estava sentado do outro lado da mesa, e disse-lhe:
– Bem, Greg, quando você se formar na faculdade de direito e passar no exame da ordem, então poderá ficar no comando do gravador! – e soltou uma risadinha irônica. – Mas, até lá, eu controlo o gravador! – e apertou o botão de retroceder novamente.
Já era perto das 11 da noite, e o julgamento de Gaito estava a menos de um mês. Há seis semanas, desde logo depois do Dia do Trabalho, estivéramos trabalhando desde as primeiras horas da manhã, tentando avaliar cada parte das transcrições. Era um processo árduo, durante o qual nós três nos sentávamos no porão do prédio número 26 do Federal Plaza, ficávamos ouvindo as fitas e fazendo as correções naquilo que estava rapidamente se tornando a transcrição mais precisa de toda a história do Direito.
Alonso era, de fato, um bom homem, e fora tão profundamente ferido que eu estava convencido de que um dia ele iria respirar fundo e simplesmente parar de respirar. Todos o chamavam de Alonso. Não sei por qual motivo, ele era uma daquelas pessoas que nunca são chamadas pelo primeiro nome. Embora nunca tivesse tido o prazer de conhecer os pais dele (que eram ricos aristocratas argentinos, segundo Magnum), eu estava disposto a apostar que eles também o chamavam de Alonso desde o momento em que ele saiu do ventre da mãe.
Alonso apertou o botão de parada e disse:
– Muito bem, agora virem para a página 47 da transcrição 7-B e me digam o que pensam disso.
TOC e eu assentimos cansados, nos inclinamos para a frente e começamos a folhear nossas transcrições de 12 centímetros de espessura, enquanto Alonso fazia a mesma coisa. Finalmente, quando estávamos todos na página 47, Alonso apertou o play.
Tudo o que eu pude ouvir no início foi um zumbido baixo, então um estalo e aí minha própria voz, que sempre soou estranha para mim quando a ouvia em uma fita: “... o risco é de James Loo contrabandear meu dinheiro para fora do país”, dizia minha voz. “E se ele for detido na alfândega?”
Então vinha a voz do Chef: “Bem, e daí? Não se preocupe com isso! Ele sabe como fazer. Tudo que você precisa saber é que o dinheiro vai chegar até lá. Você dá sua grana a ele, ele dá para sua gente e badabip, badabop, badabup... Schhhwiitttt!” – uma palmada aguda do Chef – “e tudo certo! Não há como...”.
Alonso pressionou o botão de pausa e balançou a cabeça lentamente, como se estivesse profundamente perturbado. TOC revirou os olhos, preparando-se para a dor. Eu me preparei também. Finalmente Alonso começou a murmurar:
– Schhhwiitttt, ele continua usando essa palavra – ele soltou mais um de seus profundos suspiros, que eram sua marca registrada. – Eu não entendo.
TOC balançou a cabeça e suspirou.
– Nós já passamos por isso antes, Alonso. Significa apenas “e isso é tudo”. Como, schhhwiitttt! Isso é tudo. – TOC me olhou com desespero nos olhos.
– Certo?
– Sem dúvida – respondi, assentindo.
– Ahh, sem dúvida? – declarou Alonso, levantando o dedo em defesa – Mas nem sempre! Dependendo do contexto, pode significar algo diferente – ele olhou para mim e levantou as sobrancelhas. – Certo?
Eu assenti com a cabeça lentamente, com ar cansado.
– Sim, poderia. Às vezes ele usa isso para amarrar as pontas soltas de uma história construída como álibi. Por exemplo, ele vai usar schhhwiitttt para dizer: “E com esse último documento falso que criamos, o governo nunca vai ser capaz de descobrir as coisas!”. Mas na maior parte do tempo significa o que disse Greg.
Alonso deu de ombros sem se comprometer.
– E o que dizer do som das palmas? Isso afeta o significado da expressão schhhwiitttt?
TOC se dobrou visivelmente, como um animal que tinha acabado de levar um tiro.
– Eu preciso de um tempo – disse ele, e sem dizer uma palavra deixou a sala de interrogatório, fechando a porta suavemente atrás de si, murmurando algo bem baixinho.
Alonso olhou para mim e encolheu os ombros.
– Tempos difíceis – disse ele.
Eu assenti com a cabeça, concordando.
– Sim, especialmente para Gaito. Ainda não acredito que ele está levando isso a julgamento. Não faz nenhum sentido.
– Nem para mim – concordou ele. – Não acho que eu já tenha visto um caso mais amarrado do que este. É suicídio para Gaito. Alguém está dando alguns conselhos muito ruins a ele.
– Sim, como Brennan – disse eu. – Deve ser.
Alonso deu de ombros novamente.
– Ele tem algo a ver, com certeza, mas tem que ser mais que isso. Ron Fischetti é um dos melhores advogados de defesa no ramo, e eu não acredito que ele faria Gaito passar por isso apenas porque Brennan disse isso a ele. Sinto que estou deixando passar alguma coisa aqui. Você entende o que estou dizendo?
Eu assenti lentamente, resistindo à vontade de dizer a ele o que eu realmente pensava – que o Demônio de Olhos Azuis ia tentar subornar um dos jurados. Era tudo de que Gaito precisava: um jurado em quem se apoiar, e depois Gleeson seria forçado a anular o julgamento.
Claro, eu não tinha provas, mas histórias como essa tinham girado em torno do Demônio de Olhos Azuis por anos – desaparecimentos de arquivos, testemunhas fazendo retratação de suas declarações, juízes tomando decisões de surpresa em seu favor, promotores que abandonavam o caso na véspera do julgamento. Mantive os pensamentos para mim e disse:
– Meu palpite é que Fischetti vai tentar se concentrar em mim, não nos fatos. Ou seja, ele vai fazer com que o júri me odeie, ou melhor, me despreze, e então eles vão absolver em princípios gerais. – Dei de ombros. – Então, ele vai tentar me pintar como um viciado em drogas, um devasso, um mentiroso compulsivo, um trapaceiro, ou seja, todas as coisas boas da vida.
Alonso balançou a cabeça.
– Ele não vai ter essa chance, porque eu farei isso primeiro. Não leve para o lado pessoal quando eu o fizer, porque vou bater duro quando estiver depondo lá em cima. Não vou deixar de falar sobre nada, especialmente quando se trata de sua vida pessoal – ele inclinou a cabeça para um lado. – Você sabe do que estou falando?
Assenti, tristemente.
– Sim, o que aconteceu na escada com Nadine.
Ele acenou de volta.
– E o que aconteceu depois, também, com sua filha. Vou trazer tudo, todas as coisas obscuras. E você não pode tentar minimizá-las ou racionalizá-las. Você vai simplesmente dizer “Sim, eu chutei minha esposa escada abaixo” e “Sim, eu lancei meu carro contra uma porta de garagem com minha filha no banco do passageiro, sem o cinto de segurança”, porque, acredite em mim, se você tentar minimizá-las, Fischetti vai rasgá-lo ao meio durante o interrogatório. Ele vai dizer: “Ah, então o que você está dizendo, senhor Belfort, é que você não chutou sua esposa por um lance de escadas, porque ela estava apenas no terceiro degrau. Espere, perdoe-me, senhor Belfort, você realmente não a chutou, você a empurrou, o que é outra história. Assim, resumindo, o que você está dizendo é que tudo bem um homem empurrar sua esposa por três degraus e então arriscar a vida de sua filha jogando-a para o banco do passageiro de sua Mercedes de 90 mil dólares e enfiar o carro numa porta de garagem enquanto estava alterado com cocaína e Quaaludes?” – Alonso sorriu. – Percebeu como vai ser?
– Sim, entendi, mas não quero isso.
– Nenhum de nós quer isso – concordou ele –, mas esses são os fatos aos quais estamos presos.
Assenti com a cabeça, resignado. Alonso continuou:
– Mas o lado bom das coisas é que podemos passar algum tempo conversando sobre como você foi para a reabilitação e ficou sóbrio. E então você também pode levantar o assunto das palestras escolares sobre o perigo das drogas – ele sorriu, tranquilo. – Acredite em mim, desde que você seja honesto, as coisas funcionarão. A dependência em drogas é uma doença, e as pessoas vão perdoá-lo por isso. – Ele deu de ombros. – Agora, se ser mulherengo também fosse uma doença, então estaríamos feitos! – e começou a rir. – Engraçado, né?
– Sim – respondi, com uma porra de um sorriso histérico! Eu teria de admitir, sob juramento, que tinha abatido umas mil prostitutas de todas as formas e tamanhos. A única questão era: se isso acabaria nos jornais. Era exatamente o tipo de fofoca que o New York Post adorava!
Alonso tirou do bolso da calça um maço de Marlboro novinho e um isqueiro Bic barato.
– Veja, eu não tenho o hábito de burlar a lei – disse ele –, mas, apesar de este ser um edifício onde não se pode fumar, vou acender de qualquer maneira – ele fez exatamente isso, dando uma tragada leve, como se dissesse: “Eu não sou um fumante convicto, só faço isso quando estou estressado”.
Eu fiquei em silêncio e deixei que ele fumasse em paz. Entendi que era algo importante, ser capaz de participar de um simples prazer viril sem ser interrompido por conversa fiada. Meu pai, um dos maiores fumantes de todos os tempos, havia explicado isso para mim em numerosas ocasiões. “Filho”, ele dizia, “se eu quero me matar com esses palitos de câncer do caralho, então pelo menos deixe eu me matar em paz, pelo amor de Deus!”.
Alonso sorriu para mim e disse:
– Entãooo... Como você está, Jordan?
Eu inclinei a cabeça para o lado e olhei para ele por um momento.
– Como estou? – perguntei. – Você está sendo sarcástico, Alonso?
Ele virou os cantos da boca para baixo e balançou a cabeça lentamente.
– Não, não mesmo. Eu só quero saber como você está.
Eu dei de ombros.
– Bem, já faz um longo tempo desde a última vez que alguém me fez essa pergunta, então preciso pensar sobre isso por um segundo. – Parei por cerca de um décimo de segundo, então disse: – Ah, uma merda! E você, como vai, Alonso?
Ele ignorou minhas últimas palavras e disse:
– As coisas vão melhorar; você só tem que dar tempo ao tempo. Após o julgamento, nós podemos fazer uma moção para tirar sua tornozeleira. – Uma breve pausa, então: – Tenho certeza de que Gleeson vai aprovar, assim que ele ouvir seu depoimento. Isso vai depender de quanto você demonstrar que está arrependido.
Eu balancei a cabeça.
– Bem, eu estou arrependido. Mais do que você pode imaginar.
Ele acenou com a cabeça.
– Eu sei, venho fazendo isso há bastante tempo para saber quando alguém está cheio de merda e quando não está. Mas, deixando isso de lado, você ainda não respondeu à pergunta.
– Sobre o quê, como estou?
– É. Como você está?
Eu dei de ombros.
– Eu tenho problemas, Alonso. Estou encarando anos de prisão, estou noivo de uma mulher por quem não estou apaixonado, não tenho carreira, meus filhos vivem do outro lado do país, estou usando uma porra de uma tornozeleira, traí meus amigos mais próximos, eles me traíram e, ainda por cima, estou prestes a ficar sem dinheiro e não tenho como ganhá-lo agora.
– Você vai ficar rico novamente – disse ele, conscientemente. – E não acho que alguém em sã consciência apostaria contra isso.
Eu dei de ombros.
– Sim, bem, você provavelmente está certo sobre isso, mas acho que não ficarei rico por um longo tempo. Estou no meio de uma onda de má sorte e, até que ela passe, não há nada que eu possa fazer. Enfim, meu objetivo é morar na Califórnia para ficar perto de meus filhos. É isso aí. Eu fiz um juramento à minha filha de que faria isso e não vou desapontá-la. Eu gostaria de ir para lá antes de ser condenado. Você acha que é realista?
– Sim, acho que é. E vou fazer o que puder para ajudá-lo, mas você tem que ser paciente por um tempo. O próximo ano vai ser agitado, há processos pendentes, os indiciamentos se aproximam, um monte de coisas ainda está no ar. Mas deve haver uma luz no final. De um ponto de vista logístico, porém, não sei se faz sentido você se mudar antes de cumprir sua pena. Quer dizer, o que você vai fazer: alugar uma casa e, em seguida, ir para a cadeia, logo depois de alugá-la?
Eu sorri e pisquei.
– Pode apostar que sim! Antes de eu ir para a cadeia, quero que meus filhos saibam que eu oficialmente me mudei para a Califórnia. Dessa forma, eles saberão que eu voltarei para lá quando sair. E quero passar minha última noite de liberdade com eles em uma casa que seja nossa, e não em um hotel. Todos dormiremos na mesma cama, cada um debaixo de um braço – parei por um momento, saboreando o pensamento. – É assim que eu quero passar minha última noite em liberdade.
Só então a porta se abriu e TOC entrou. Ele deu algumas farejadas no ar, com ar de desconfiança, e depois olhou para o cesto de lixo de metal, onde Alonso tinha jogado o cigarro. Então ele olhou para Alonso e disse:
– Então, até onde vocês foram sem mim? É que está ficando um pouco tarde.
Com grande entusiasmo, Alonso disse:
– Ainda estamos na mesma. É que nos desviamos um pouco...
Alonso comprimiu os lábios, suprimindo uma gargalhada.
Eu suprimi minha gargalhada também quando os últimos vestígios de cor deixaram o rosto de TOC.
DIFERENTEMENTE do seriado Law & Order, onde a emoção é palpitante e a tensão é tão espessa que você pode cortá-la com uma faca, os acontecimentos da vida real em um tribunal federal são completamente o oposto. O juiz Gleeson, por exemplo, fica no alto de sua bancada, às vezes parecendo interessado, às vezes parecendo entediado, ocasionalmente parecendo se divertir, mas sempre em completo controle. Não há explosões, discussões, pessoas que questionam a sabedoria de suas decisões nem qualquer coisa que possa levá-lo a se levantar da cadeira, inclinar-se para a frente sobre sua grande mesa, apontar o dedo e gritar: “Você está se excedendo, advogado! Sente-se ou será detido por desacato!”.
Eu testemunhei durante três dias, três dias indescritíveis, durante os quais pude notar que Fischetti era bastante competente, mas sem exagero. Ah, ele parecia bem bacana em seu terno de seda cinza de 2 mil dólares e sua gravata cinza, mas isso era tudo. Suas linhas de questionamento pareciam chatas e enfadonhas. Se eu estivesse sentado no júri, teria adormecido.
Alonso, no entanto, foi brilhante: organizado, eloquente, persuasivo, minucioso. Ele havia deixado Fischetti sem ter para onde ir, além de andar em círculos, falando e falando, e quanto mais ele falava, mais culpado o cliente parecia. Danny testemunhou também, assim como um punhado de outras pessoas, apesar de eu não ter certeza de quem e quantos. Quanto menos eu soubesse, melhor, explicou Alonso. Eu não estava em julgamento, afinal, era apenas uma testemunha.
Um mês mais tarde, eu estava sentado na minha cabana de caça suíça, debaixo da cabeça do alce indignado, quando recebi a ligação de TOC, bastante indignado.
– O julgamento foi anulado – gaguejou ele. – Eu não posso acreditar nisso! Como aquele júri não o condenou? Não faz sentido.
– Você consultou o júri depois? – perguntei.
Com nojo, ele respondeu:
– Sim, por quê?
– Bem, deixe-me adivinhar, só houve um que negou, certo?
Silêncio mortal no início, em seguida, ele completou:
– Como diabos você sabe disso?
– Apenas um palpite – disse eu. – Quer ouvir meu segundo palpite?
– Sim – respondeu ele, com cautela.
– O voto foi daquele safado na fila da frente, um de bigode, certo?
– Foi, isso mesmo – disse TOC. – Você está apenas supondo?
– Não exatamente – respondi, e contei a ele meus pensamentos, ou seja, embora não tivesse como provar, a anulação tinha as digitais do Demônio de Olhos Azuis por toda a parte.
– Não brinca! Você realmente acha isso?
– Sim, acho. Novamente, eu não tenho nenhuma prova, mas, não sei, você viu Gaito apenas sentado ali, tão calmo, tranquilo, em paz? Parecia um cara convencido, e Gaito pode ser qualquer coisa, mas não é um sujeito convencido, ele é humilde. Talvez eu seja louco, mas toda a cena me pareceu estranha, principalmente aquele jurado; ele parecia desinteressado, como se já tivesse tomado sua decisão de antemão.
TOC concordou, assim como fez Alonso quando compartilhei meus pensamentos com ele alguns minutos mais tarde, por meio de teleconferência. De qualquer maneira, não havia como provar nada, e Alonso se recusou a investigar, pois considerava isso o ato de um mau perdedor. Além disso, ele não tinha realmente perdido, a nulidade do julgamento simplesmente significava que Gaito teria de ser julgado de novo, o que aconteceu exatos seis meses depois.
Durante esses seis meses, de dezembro de 2000 a maio de 2001, queimei a maior parte do dinheiro que tinha me sobrado, assim como o pouco da paciência que ainda me restava com a KGB. Ela, eu tinha certeza, me desprezava no mesmo tanto que eu a ela. Infelizmente, eu nunca tinha sido bom para terminar relacionamentos, e aparentemente a KGB também não. Assim, continuamos noivos, passando nossos dias com sexo raivoso e discussões amargas, estas últimas muito relacionadas a pousos na Lua e coisas afins.
Infelizmente, Gaito foi condenado no segundo julgamento, e o júri chegou a um veredito em um único dia. Eu estava em casa quando recebi a notícia, e naquele momento me senti como o menor verme sobre a face da Terra. Eu tinha traído um amigo, que ficaria na cadeia durante praticamente uma década, porque tinha se recusado a trair um de seus amigos.
Danny, por sua vez, já tinha ido para a cadeia; na verdade, ele nem teve chance de testemunhar no segundo julgamento. Danny tinha sido preso na Flórida, em uma acusação relacionada a fraude de telemarketing ligada a memorabilia de esportes, ou algo assim – Gleeson o condenou no início de abril.
Quando o verão chegou, torrei com as crianças os poucos dólares que ainda tinha. Esse, sim, tinha sido um gasto apropriado, pensei, considerando que elas eram a única coisa boa em minha vida, de qualquer maneira. Quando me despedi delas no Dia do Trabalho, chorei por dentro, porque sabia que não iria vê-las de novo por um longo tempo. Apesar de Alonso manter sua palavra, tirando-me da prisão domicilar e me permitindo viajar sem restrições para a Califórnia, eu já não podia sustentar essas viagens.
Isso, no entanto, estava prestes a mudar.