CAPÍTULO 26
UMA NOVA MISSÃO
Finalmente, a liberdade!
Ar fresco! Ar livre! O céu azul sobre mim! A bola alaranjada do sol! As fases gloriosas da lua! O doce perfume das flores frescas! E o perfume ainda mais doce da perereca soviética! E pensar que eu não dava o devido valor a essas coisas! Como eu era tolo! Os simples prazeres da vida sempre foram os mais importantes, não é mesmo? Eu tinha sido enviado para o inferno e sobrevivido.
Foi assim que saí do Centro de Detenção Metropolitano, numa manhã fria de segunda-feira, com um sorriso no rosto e um sobressalto no coração – e com todos os aspectos de minha vida totalmente em frangalhos.
Muita coisa pode mudar em quatro meses e, em meu caso, era isso que tinha acontecido: meus filhos estavam morando na Califórnia; Meadow Lane estava nas mãos do governo, meus móveis, num depósito, meu dinheiro, se esgotando e, para piorar tudo, eu usava uma tornozeleira com restrições tão draconianas que eu não podia nem mesmo sair de casa, a não ser para ir ao médico.
Eu tinha alugado um apartamento duplex que se espalhava pelo 52o e 53o andares do Edifício Galleria, uma ultraluxuosa torre de vidro e concreto que se erguia na Park Avenue com a Rua 57, em Manhattan (Por que não ficar preso com estilo?, pensei).
O edifício era um refúgio de luxo para o lixo da Europa, das duas variedades, oriental e ocidental. Do Oeste, eles vinham de lugares como Roma, Genebra e da Gay Parrrris; e do Leste, vinham dos países que formavam o antigo bloco soviético, a maioria mafiosos, que também mantinham casas em Moscou ou São Petersburgo quando não estavam em fuga. Não surpreendentemente, KGB encaixou-se perfeitamente ali, e um de seus amigos russos tinha sido gentil o suficiente para nos alugar o fabuloso apartamento.
Foi no começo de dezembro que Magnum me perguntou para qual endereço eu queria ser liberado assim que Gleeson tivesse aprovado a aplicação da fiança. Meadow Lane não servia mais, ele explicou, porque seu confisco seria executado no final daquele ano.
Dada a atual situação, minhas opções eram poucas: comprar uma casa seria ridículo, ficar em Southampton seria ainda mais ridículo. Com as crianças vivendo em Beverly Hills e o coração da KGB pertencendo a Manhattan, não havia nenhum sentido em morar no meio do nada. Além disso, eu precisava ficar perto do escritório da Procuradoria, porque, para minha decepção, o Chef tinha se recusado a cooperar e estava ameaçando levar seu caso a julgamento; se ele realmente fizesse isso, eu iria passar muitas noites queimando as pestanas me preparando no Gabinete do Procurador.
No entanto, por mais problemática que fosse a decisão do Chef, ela parecia um distante segundo violino se comparada a meus problemas com Chandler, que desde meados de fevereiro tinha estado fora de si pela emoção. Os 80 dias haviam se passado e eu ainda não tinha acabado de dar minha volta ao mundo. Ela sabia que havia algo errado, e minhas desculpas tinham se esgotado semanas antes.
– Onde você está? – ela continuava choramingando. – Por que você não vem para casa? Eu não entendo! Você prometeu! Você não me ama mais...
Foi então que a Duquesa e eu fizemos as pazes um com o outro. Nós mal tínhamos trocado dez palavras desde aquela terrível manhã de quarta-feira e então eu não tinha mais escolha. O sofrimento de nossa filha eclipsava o desprezo mútuo que sentíamos.
A Duquesa me disse que Chandler estava chateada assim havia meses, não deixando transparecer as emoções ao telefone apenas para meu benefício. Ela chorou no Dia de Ação de Graças e não tinha parado de chorar desde então. Algo tinha que ser feito, disse a Duquesa. Nossa estratégia de proteção tinha saído pela culatra. Sugeri que ela telefonasse para Magnum e contasse a ele o que estava acontecendo, e foi o que ela fez; Magnum foi até o gabinete da Procuradoria implorando que fizessem alguma coisa. Chega de atrasos!, suplicou. Não se tratava mais de Jordan Belfort, era sobre uma criança, uma criança que estava sofrendo.
E foi assim que aconteceu: moções foram feitas, audiências foram realizadas, detalhes foram trabalhados e, na última sexta-feira de fevereiro, o juiz Gleeson assinou uma ordem para minha libertação. A partir daí, Magnum imediatamente avisou a Duquesa, que ligou imediatamente para Gwynne, que imediatamente pegou um avião para a Califórnia. Ela pousou em um sábado, passou duas noites na nova mansão da Duquesa em Beverly Hills e, em seguida, embarcou em um voo de manhã cedo, de volta para Nova York, com as crianças a tiracolo. Ela iria pousar às 5 da tarde, exatamente dali a três horas e meia.
Com esse pensamento, respirei de maneira profunda e ansiosa, e bati na porta brilhante do apartamento 52 C. Eu já tinha estado ali uma vez, e por dentro era absolutamente lindo. Um grande hall de mármore negro levava a uma sala de estar com painéis de mogno e com telas afixadas nas paredes. O teto ficava 6 metros acima do piso de mármore italiano. No entanto, por mais bonito que fosse o lugar, ele era também um dos mais tristes apartamentos de toda Manhattan, porque fora ali, naquele mesmo apartamento, onde o filho de Eric Clapton, de 4 anos de idade, havia acidentalmente caído da janela do quarto. Eu tinha ficado relutante em alugá-lo por causa disso, mas KGB me garantiu que o apartamento tinha sido abençoado por um padre e um rabino.
Então a porta se abriu, mas apenas um pouco. Um momento depois, eu vi aparecer a familiar cabeça loira soviética por entre a fresta. Sorri para minha comunista preferida e disse, com sotaque russo:
– Abrir a porta!
Ela puxou a porta e a abriu totalmente, mas em vez de jogar os braços a meu redor e me regar com beijos, ela só ficou lá com os braços cruzados sob os seios. Ela estava usando um par de calças jeans muito apertados. O brim fora ferozmente pré-lavado e os joelhos e coxas tinham o número apropriado de rasgos e furos neles. Eu não era um especialista em jeans femininos, mas sabia que aqueles custavam uma fortuna. Ela usava uma camiseta branca simples que parecia sedosa como vison. Seus pés estavam descalços e ela estava batendo o pé direito no chão de mármore, como se estivesse se debatendo se ainda me amava ou não.
Fingindo estar insultado, disse:
– Bem, você não vai me dar um beijo? Fiquei preso por quatro meses!
Ela encolheu os ombros.
– Vir pegar se quiser.
– Tudo bem, vou pegar você, sua atrevida!
De repente saí correndo atrás dela, como um touro enfurecido pelos hormônios. Ela desistiu de sua pose e saiu correndo.
– Socorro! – gritou. – Estou sendo perseguida por capitalista! Socorro, polizia!
Uma escada de mogno curva no centro da sala erguia-se para o andar de cima, e ela subiu os três primeiros degraus como uma corredora olímpica. Eu estava uns bons 4 metros atrás dela, distraído pela pura opulência do lugar. A parede traseira era toda de vidro, mostrando a mais impressionante vista de Manhattan que eu já tinha visto. Excitado como estava, ainda assim eu não podia deixar de admirá-la.
No momento em que cheguei à escada, ela estava sentada lá no alto, as longas pernas escancaradas em completa indiferença. KGB estava recostada casualmente, com as palmas das mãos apoiadas no piso de madeira. Ela não estava nem um pouco sem fôlego. Quando alcancei o degrau logo abaixo dela, caí de joelhos, bufando e resfolegando. Por ter ficado preso durante tanto tempo, estava em más condições físicas. Corri meus dedos pelos cabelos dela, descansando um pouco para recuperar o fôlego.
– Obrigado por esperar – finalmente disse. – Quatro meses é muito tempo.
Ela encolheu os ombros.
– Eu sou menina russa. Quando nosso homem senta-se na prisão ter que esperar – ela se inclinou e me beijou na boca, suavemente, ternamente. E eu ataquei!
– Preciso fazer amor com você agora! – rosnei. – Aqui mesmo, no chão – e antes que ela percebesse o que tinha acontecido, já estava deitada e eu por cima dela, esfregando meus jeans em seus jeans, pelve contra pelve. Beijei-a profundamente, apaixonado!
De repente, ela virou a cabeça para o lado e eu estava beijando seu rosto.
– Nyet! – choramingou. – Aqui não! Eu tenho surpresa para você!
Uma surpresa, pensei. Por que ela não podia simplesmente aprender de uma vez a usar os artigos? Ela estava tão perto da perfeição! Quem sabe existisse algum curso que ela pudesse fazer, um livro que pudesse ler...
– Que tipo de surpresa? – perguntei, ainda sem fôlego.
Ela começou a se contorcer por baixo de mim.
– Venha – disse ela. – Eu vou mostrar, está em quarto.
Ela pegou minha mão e começou a me puxar para cima.
O quarto principal ficava a menos de 3 metros da escada. Quando eu o vi, fiquei sem palavras. Dezenas de velas acesas estavam espalhadas por todo o aposento, no carpete escuro... Dos quatro lados da plataforma de laca preta da cama... Na cabeceira de laca preta da cama, com seu suave acabamento curvo com bordas douradas... E depois alinhadas de ponta a ponta no peitoril de quase 6 metros da janela, na parede mais distante. As cortinas vermelhas bloqueavam até a última nesga de luz solar. As luzes estavam apagadas, e as chamas das velas tremeluziam suavemente.
Na cama king-size havia um edredom de seda italiana azul royal estofado com tantas penas de ganso que parecia macio como uma nuvem. Nós mergulhamos nele com uma risadinha e eu manobrei rapidamente para ficar por cima dela. Em menos de 5 segundos estávamos fora de nossos jeans e gemendo apaixonadamente.
Uma hora depois, ainda estávamos gemendo.
PRECISAMENTE ÀS 5 HORAS o porteiro ligou e disse que eu tinha três visitantes no térreo. O adulto estava esperando pacientemente, ele disse com uma risada, mas as crianças não. O menino tinha corrido, passando por ele para apertar o botão do elevador, e ainda o estava apertando naquele exato minuto. A menina, no entanto, não tinha feito isso; ela estava de pé olhando para ele com suspeita. E, pelo som da voz do porteiro, ela parecia deixá-lo nervoso.
– Pode deixar subir – eu disse, alegremente.
Desliguei o telefone, agarrei a mão da KGB e desci as escadas até o andar de baixo, abrindo a porta da frente. Alguns momentos depois, ouvi a porta do elevador se abrir. E depois, a voz familiar de uma menina:
– Papai! Onde está você, papai?
– Eu estou aqui! Siga a minha voz – disse em voz alta, e um momento depois eles viraram a esquina e vieram correndo em minha direção.
– A casa do papai! – gritou Carter. – A casa do papai!
Agachei-me e eles correram a toda a velocidade para meus braços.
Pelo que pareceu uma eternidade, nenhum de nós disse nem uma palavra sequer. Nós apenas ficamos ali nos beijando e nos abraçando e nos apertando uns aos outros por todo o tempo, enquanto KGB e Gwynne nos olhavam em silêncio.
– Eu senti muita falta de vocês, crianças! – disse eu, finalmente. – Não posso acreditar quanto tempo faz! – e comecei a enfiar meu nariz no pescoço deles, farejando os dois. – Preciso cheirar vocês dois para ter certeza de que são mesmo vocês. O nariz nunca mente, como vocês sabem.
– É a gente – insistiu Chandler.
– Sim – acrescentou Carter. – É nós!
Segurei-os pelos braços.
– Então deixem-me dar uma olhada nos dois. Vocês não têm nada a esconder, certo?
Fingi que estava estudando os dois. Chandler estava linda como sempre. Seu cabelo tinha crescido bastante desde o verão e estava na altura dos ombros agora. Ela estava usando um vestido de veludo vermelho com duas alças finas. Por baixo, usava uma blusa branca de algodão e meia-calça de balé. Era uma menininha perfeita de linda. Eu a abracei e disse:
– Tudo bem, agora estou convencido de que é você mesmo.
Ela revirou os olhos e balançou a cabeça.
– Eu não disse?
– Ei, e eu? – disse Carter. – Ainda sou eu?
Com isso, ele girou a cabeça de um lado para o outro, oferecendo-me os dois lados de seu perfil.
Como sempre, ele era todo cílios. Seu cabelo era uma exuberância de ondas loiro-platinadas. Estava usando jeans, tênis e uma camisa de flanela vermelha. Era difícil imaginar que quase o tínhamos perdido quando bebê. Ele era o retrato da saúde agora, um filho que era motivo de orgulho.
– É ele? – Chandler perguntou nervosamente. – Ou ele é um robô?
– Não, é ele, tudo bem – eles correram de volta para meus braços e começaram a me beijar novamente.
Depois de alguns segundos, eu disse:
– Ei, vocês não vão dar um beijo em Yulia? Ela também sentiu falta de vocês.
– Não! – responderam os dois em uníssono. – Só você!
Bem, isso não era bom! Eu sabia que a KGB era sensível a tais coisas. Tinha algo a ver com a grande alma russa, embora, exatamente como, eu não tivesse a menor ideia.
– Ah, vamos lá – eu disse, em um tom de liderança. – Ela merece um beijo também, certo?
– Nãããooooooo! – rosnaram eles. – Só o papai!
Gwynne, então, entrou na conversa.
– É que eles sentiram tanto a sua falta que não se cansam. Não são tão fofinhos?
Eu olhei para KGB. Ela parecia ter sido insultada. Pensei em falar com ela só mexendo a boca, sem emitir sons: É só porque estavam com muitas saudades! Mas eu sabia que ela não ia conseguir fazer leitura labial (já que mal falava a porra do idioma!).
– Está tudo bem! – disse ela, friamente. – Vou levar malas para cima.
No andar de cima, andamos por um longo corredor estreito, no final do qual havia dois quartos pequenos. Um tinha sido convertido em biblioteca, o outro estava mobiliado com duas camas de solteiro. Enquanto KGB e Gwynne desfaziam as malas, nós três ficamos sentados no chão sobre o tapete marrom, tentando compensar o tempo perdido. Havia muitas sugestões de Meadow Lane naquele quarto, como dezenas das bonecas favoritas de Chandler ao lado do trenzinho de madeira de Carter que serpenteava pelo tapete, o edredom azul com Thomas, o Tank, estampado numa cama e o edredom rosa e branco de Laura Ashley na outra. Chandler já estava ocupada organizando suas bonecas em um círculo perfeito em torno de nós, enquanto Carter inspecionava seus trenzinhos para ver se tinha acontecido algum dano durante a mudança. De vez em quando, KGB olhava para nós e sorria com frieza.
– O.k. – disse eu, tentando quebrar o gelo –, aqui está o que Yulia e eu preparamos para vocês nesta semana. Já que perdemos um monte de feriados juntos, eu achei que... Aliás, a gente achou que podia compensar isso celebrando todos eles agora! – fiz uma pausa e inclinei a cabeça para o lado, em uma atitude que implicava lógica. – Antes tarde do que nunca, certo, pessoal?
Carter disse:
– Isso significa que a gente vai ganhar mais presentes de Natal?
Assenti com a cabeça.
– Mas é claro que sim! – respondi rapidamente. – E como perdemos o Halloween, amanhã à noite a gente se fantasia e sai por aí procurando travessuras ou gostosuras!
Com exceção de mim, evidente. Eu fingiria uma dor nas costas, na noite seguinte, para que não precisasse colocar o pé para fora do apartamento e me visse na Cela 7N no dia seguinte.
Chandler disse:
– E as pessoas vão nos dar doces agora?
– Lógico! – disse eu; que não!, pensei.
Naquele prédio você teria mais chance de se encontrar com Deus do que ganhar doces. O Galleria era o tipo de esnobemínio no qual você poderia viajar para cima e para baixo nos elevadores durante mil vezes e nunca ver uma única criança. Na verdade, em toda a história do edifício, nunca tinha acontecido de duas jovens mães se encontrarem no elevador e dizerem algo do tipo: “Nossa! Como é bom ver você! Vamos marcar um dia para nossos filhos brincarem juntos?”.
Mudando de assunto, falei:
– A gente também perdeu o Dia de Ação de Graças e o Hanukkah, certo?
Chandler me cortou:
– Nós vamos ganhar mais presentes do Hanukkah, não vamos?
Assenti com a cabeça e sorri:
– Sim, espertinha, vão! E nós também não passamos o Natal juntos... – e Carter me lançou um olhar de dúvida – o que significa, conforme Carter disse antes, que irão ganhar mais presentes – Carter assentiu uma vez com a cabeça e voltou a seus trens – e então, por último, temos o Ano Novo. Nós vamos festejar todos eles.
Na noite de terça-feira, todo mundo estava vestindo suas fantasias, até mesmo KGB, que, para minha completa surpresa, usava sua faixa de Miss União Soviética e sua tiara de strass, enquanto Carter e Chandler a olhavam, espantados. Minha roupa de caubói, com um chapéu, um coldre e um par de revólveres de brinquedo quase realistas era bem menos inspiradora e muito menos sexy. As crianças estavam com suas fantasias de costume: Carter de Power Ranger azul e Chandler vestida de Branca de Neve. Felizmente, nosso vizinho de baixo foi legal o suficiente para brincar junto e dar doces para as crianças.
Na noite de quarta-feira, eu fiz peru recheado. Meu antigo eu o teria assado como se fosse couro de sapato, mas o mais recente já sabia usar o forno. O restante dos pratos e acompanhamentos, como o molho de cranberry, a torta de abóbora e um toque russo na forma de caviar beluga (a 150 dólares cada, que fez meu talão de cheques se esvaziar rapidamente), veio de um supermercado gourmet nas proximidades, dando um novo significado a esfolar os preços.
Na noite de quinta-feira, meus pais vieram. Acendemos uma menorá para minha mãe, e Chandler e Carter receberam seus presentes de Hanukkah (mais dinheiro saindo da conta). Na sexta, nós fomos – aliás, melhor dizendo, eles foram – à Macy’s comprar uma árvore de Natal artificial, e depois passamos o resto do dia ouvindo músicas natalinas e decorando a árvore. E, claro, as crianças ganharam mais presentes.
Na noite de sábado, que era nossa última noite juntos, comemoramos o Ano Novo, o que acabou sendo de fato engraçado, porque foi quando conheci Igor. Magnum tinha sido muito feliz em sua descrição, começando pelo cabelo cor de prata, que mais parecia uma fina camada de pólvora brilhante, e ainda mais feliz quanto à postura, que no meu modo de ver só poderia ser o resultado de uma de duas coisas: ou ele havia passado incontáveis anos em posição de sentido em um campo de treinamento secreto da KGB ou alguém tinha lhe enfiado um bastão pelo rabo.
Qualquer que fosse o caso, Igor gostava de beber, embora, de acordo com ele, estivesse simplesmente limpando seu fígado da forma russa, ou seja, com vodca.
Sim, não havia como negar que Igor fosse inteligente, bem como muito ambicioso. Mais que qualquer outra coisa, tive a nítida impressão de que o que ele realmente desejava era possuir a arma do juízo final, para que o mundo todo fosse seu refém. E por qual motivo? Não por dinheiro ou poder, nem mesmo pelo sexo! Tudo o que Igor queria é que todo mundo calasse a boca e concordasse com ele.
Era um pouco depois das 8 da noite e decidimos celebrar o Ano Novo na longa mesa de jantar de 6 metros que, como o resto dos móveis, era grande, solene e revestida de laca preta italiana. A sala de jantar era grudada à sala de estar e as duas tinham a mesma vista espetacular de Manhattan. Àquela hora da noite, as luzes da cidade se elevavam para nós em uma deslumbrante exibição.
Apesar de eu ser teoricamente o dono da casa, Igor parecia determinado a ser o centro das atenções naquela noite, enquanto Chandler, Carter e eu – todos usando chapéus iluminados de Ano Novo no formato de chapéu de burro da escola – fingíamos ouvi-lo. KGB usava um deles também, mas ela estava se dependurando em cada palavra dita por Igor. Era repugnante.
Do outro lado da mesa de jantar, Igor disse-me:
– En-ten-da! Eu, com um estalar de dedos – e ele estalou o dedo, enquanto Chandler e Carter olhavam confusos –, posso fazer fogo impossível.
KGB entrou na conversa.
– Ele pode, eu já vi isso.
Foi a vez de Chandler:
– Você devia chamar Smokey, o urso.
E depois, a minha vez:
– Ela está certa, Igor. O urso Smokey iria cair matando em cima de você se soubesse que pode fazer o fogo impossível.
Carter disse:
– Por que seu nome é Igor? É nome de monstro.
KGB, que tinha feito uma espécie de conexão com Carter por causa do Crash Bandicoot, disse:
– Igor é como Gary. É nome russo.
Carter deu de ombros, sem se impressionar.
Igor perguntou a Chandler:
– Quem é esse urso Smokey de quem você fala?
– Ele é um urso que luta para acabar com os incêndios florestais – respondeu ela, alegremente. – Passa na TV.
Igor balançou a cabeça, compreensivo. Em seguida, levantou uma taça de conhaque Baccarat de 250 dólares, encheu até o topo de vodca Stolichnaya e bebeu como se fosse água. Então colocou a taça de boca para baixo com um baque.
– Vocês têm que entender! – declarou. – O fogo não pode existir sem oxigênio. Então, aquele que controlar o oxigênio controla o fogo.
Depois de alguns instantes de silêncio, Chandler pegou um apito, prendeu-o na boca, olhou para Igor e soprou tão forte quanto pôde. Igor apertou a mandíbula e cerrou os dentes. Então ele se serviu de outra dose de vodca e bebeu.
Mais tarde, antes de ir embora, Igor prometeu me dar uma demonstração de suas habilidades de controle de fogo, mas não naquele momento. Primeiro ele precisava me conhecer melhor, depois ele provaria o que estava dizendo. E foi assim que a noite de Ano Novo terminou.
NA MANHÃ SEGUINTE, os problemas começaram quando chegou a hora de dizer adeus. Na verdade, eu tinha planejado ter uma conversa em particular com cada um de meus filhos antes que eles fossem embora, mas eu simplesmente não conseguia encontrar as palavras. Carter, pensei, seria o mais fácil, sua idade, seu sexo, sua composição genética... Não sei por qual razão, mas as coisas pareciam deslizar para longe de seus ombros sem efeitos nocivos.
Chandler, naturalmente, era o oposto. Ela era uma garotinha complicada, bastante esperta para sua idade. Eu sabia que me despedir dela seria muito difícil e que lágrimas seriam derramadas. O que eu não contara, porém, fora a quantidade.
Eu a encontrei lá em cima, em seu quarto, sozinha. Ela estava deitada de bruços na cama, seu nariz pressionado profundamente contra o edredom rosa. Ao contrário de quando chegou, quando ela tinha se vestido toda caprichada para o papai, estava agora com uma roupa mais prática, com um moletom com capuz rosa.
Com o coração apertado, sentei-me na beira da cama, estiquei a mão para debaixo de sua camiseta e comecei a acariciar suas costas suavemente.
– O que há de errado, gatinha? Gwynnie me disse que você não está se sentindo bem.
Ela assentiu com a cabeça sem falar, o rosto ainda pressionado no edredom.
Eu continuei esfregando suas costas.
– Você está muito doente para viajar de avião?
Ela assentiu com a cabeça da mesma maneira, com um pouco mais de força.
– Ah, entendi – disse, com ar sério. – Você está com febre?
Ela encolheu os ombros.
– Posso sentir sua testa?
Ela encolheu os ombros novamente.
Parei de esfregar suas costas e coloquei a palma da mão contra sua testa. Ela estava fria.
– Bem, parece normal, gatinha. Tem alguma coisa doendo?
– Minha barriga – murmurou ela, no tom de um enfermo.
Eu sorri por dentro.
– Ohhhh, sua barriga. Entendi. Bem, por que não se vira para que eu possa fazer uma massagem, hein?
Ela balançou a cabeça negativamente.
Eu coloquei as mãos em seus ombros e, com muito cuidado, virei-a suavemente.
– Venha aqui, querida, deixe-me dar uma olhada em você – coloquei seus cabelos para trás e fiquei um momento olhando para ela.
O que eu vi, jamais irei esquecer: o rosto totalmente angustiado de minha filha, os olhos vermelhos e inchados, o lábio inferior ainda tremendo. Ela estava chorando em seu travesseiro porque não queria que eu visse.
Lutando contra minhas próprias lágrimas, sussurrei:
– Ah, Channy, está tudo bem. Por favor, não chore, meu amor. Papai te ama e sempre vai amar.
Ela apertou os lábios em uma linha firme e balançou a cabeça rapidamente, tentando lutar contra as lágrimas. Mas foi inútil. Pequenos fios de lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Foi quando perdi o controle.
– Ah, Deus – disse eu, suavemente. – Eu sinto muito, Channy.
Eu a agarrei com força e segurei-a perto de mim.
– Eu sinto muito, muito. Você não tem nenhuma ideia, a culpa é toda minha. Por favor, não chore, querida.
Desabei totalmente, incapaz de dizer mais uma palavra. Depois de alguns segundos, ouvi a vozinha dela:
– Não chore, papai, eu ainda te amo. Desculpe por fazer você chorar – e então ela rompeu o choro, tremendo incontrolavelmente em meus braços.
Nós dois choramos deitados sobre o edredom, pai e filha, agarrados um nos braços do outro. Eu me senti como o maior perdedor do mundo, a advertência final do que pode acontecer na vida de um homem. Eu nasci com todos os dons, todas as vantagens. Eu poderia ter tido o que quisesse, mas destruí tudo. Minha própria ganância e meus excessos tinham tirado tudo de mim.
Depois de alguns minutos, eu estava finalmente apto a me recompor. E disse:
– Ouça-me, Chandler. Precisamos ser fortes um para o outro. Nós podemos passar por isso, prometo a você! Um dia ficaremos juntos de novo o tempo todo. Eu lhe prometo isso, Channy, do fundo de meu coração!
Com minúsculos soluços, ela respondeu:
– Volte para a Califórnia comigo, papai, por favor, volte. Eu vou morar com você lá.
Balancei a cabeça, triste.
– Não posso, querida. Por mais que eu queira, não posso.
Ela começou a soluçar de novo.
– Por que não? Eu queria que fosse como era antes!
Abracei-a gentilmente, rangendo os dentes e balançando a cabeça com raiva. Eu tinha que fazer isso certo de alguma forma. Não havia nenhuma maneira de eu permitir que meus filhos crescessem sem mim. Eu ia descobrir um jeito de me mudar para a Califórnia. Essa seria minha única missão na vida, nada mais.
Respirei fundo e me fortaleci.
– Ouça, Chandler, eu quero dizer uma coisa.
Ela olhou para cima.
Limpei as lágrimas de suas bochechas com as costas de minha mão.
– Tudo bem, querida, muito do que vou dizer talvez não faça sentido para você agora, mas um dia vai fazer, quando você crescer mais um pouco. – Fiz uma pausa e balancei a cabeça, perguntando-me se não seria melhor que ela nunca soubesse o vigarista que eu tinha sido. – Muito tempo atrás, fiz algumas coisas erradas na minha empresa, que foram muito ruins, e por causa disso as pessoas perderam dinheiro. Foi onde eu estava nos últimos meses: estava ocupado pagando a elas. Você entendeu?
– Sim – respondeu ela, suavemente. – Mas por que você não pode se mudar para a Califórnia agora?
– Porque ainda não acabei de pagar. Ainda vai levar algum tempo, querida, porque foi muita gente que perdeu dinheiro.
– Eu tenho 12 dólares em meu cofrinho. Isso ajuda?
Eu sorri e a acariciei.
– Guarde esse dinheiro. Eu vou pagar as pessoas com meu próprio dinheiro. Mas ouça uma coisa, Channy, porque vou lhe fazer uma grande promessa agora. Você está pronta?
– Sim – murmurou.
– Tudo bem: eu prometo a você que, não importa o que aconteça, não importa o que eu tenha de fazer, mesmo se eu tiver que andar até lá... Eu vou me mudar para a Califórnia. Você tem a minha palavra.
Seu sorriso iluminou o quarto.
– E quando vai ser isso?
Sorri em resposta.
– Assim que eu puder, gatinha. Mas você vai precisar de um pouco de paciência. Mas prometo que vou para lá.
Ela sorriu e acenou com a cabeça ansiosamente.
– Tudo bem, papai.
– E não precisa mais chorar, hein? – acrescentei com um sorriso.
– Tudo bem – disse ela, me abraçando. – Eu te amo, papai.
– Eu também te amo – respondi rapidamente, e, por mais estranho que parecesse, apesar de todas as chances se empilharem tão fortemente contra mim, eu sabia que ia concretizar meu objetivo.