CAPÍTULO 25

O INEVITÁVEL

O Centro de Detenção Metropolitano se eleva por nove andares acima do miolo sombrio do Brooklyn, um lugar agourento para o qual os motoristas que estão passando apontam e depois se encolhem. A mais ou menos 3 quilômetros e meio do prédio do Tribunal, o edifício, com sua imponente cerca de arame farpado e holofotes que varrem seu perímetro, ocupa um quarteirão inteiro da cidade, sugando a força vital do ar circundante.

Os policiais tinham gastado um bom tempo transportando-me para lá; de cela para cela, de corredor de concreto para corredor de concreto, da van da prisão para o desembarque da prisão, eu tinha sido conduzido, algemado e acorrentado como gado, e, o tempo todo, seja por desígnio, seja por acaso, a temperatura média ambiente nunca excedeu a temperatura da superfície de Plutão.

Mas o pior já tinha passado.

Despojado de minha roupa e de minha dignidade, tinha sido obrigado a erguer meu saco, me curvar e tossir, e tinha chegado com estilo, quer dizer, estava agora num quarto sem janelas, sem divisórias, sem esperança e conhecido como Cela 7N, que ficava no 7o andar no lado norte do edifício. Eu estava agora sentado na borda do meu colchão da espessura de uma navalha, entretido numa conversa com meu novo colega, Ming, que estava sentado a meu lado. Sobre Ming: apesar de ser um chinês de 30 anos de idade, ele parecia um velho fantasma de 60 anos.

– Então, deixe-me ver se entendi – disse eu, cético. – Faz seis anos que você não vê o sol? Acho que é um pouco difícil de acreditar, Ming.

Ming encolheu os ombros estreitos, que estavam conectados a uma série de partes do corpo igualmente estreitas. Ele disse, em forte sotaque:

– Não seis anos, seis anos e meio. Juiz diz eu risco de fugir, então não fiança.

– Isso é uma merda, hein? – murmurei. – Quer dizer que nós nunca vamos lá para fora?

Ming balançou a cabeça negativamente.

– Só nesta cela. Fazer tudo aqui.

Caramba, parecia lógico que, uma vez que uma planta precisa de luz solar para sobreviver, um ser humano também precisa, não é? Aparentemente, não. Com o coração apertado, levei um momento para avaliar a cela. Era um espaço grande, talvez 12 por 25 metros, totalmente lotado com 106 reclusos, ou detentos, como chamavam, todos vivendo como em barracas, fazendo tudo, desde comer até dormir e mijar e cagar e tomar banho e escovar os dentes debaixo daquele mar de luzes fluorescentes zumbindo. Sem uma única divisória à vista, eu podia ver de um lado até o outro daquele espaço.

Não que houvesse muito para ver, simplesmente um vasto mar de beliches de metal e cadeiras de plástico, limitado ao fundo por seis horríveis banheiros e três chuveiros carregados de germes. No centro do salão estavam duas dezenas de mesas de aço inoxidável para piquenique, um mesa de pingue-pongue caindo aos pedaços, um forno de micro-ondas que um dia deve ter funcionado, uma antiga torradeira e três televisores em cores suspensos no teto. Em vez de serem usadas para comer, as mesas eram utilizadas para assistir à TV (com fones de ouvido) ou para jogar xadrez, damas, cartas ou, se você fosse dominicano, uma versão prisional do dominó, que requeria que você esmagasse as peças em cima da mesa enquanto murmurava uma série de xingamentos em espanhol.

Isso era tudo que a Cela 7N tinha a oferecer, a menos que se incluíssem os três telefones públicos afixados na parede acima da estação do guarda, onde um único agente penitenciário estava sentado atrás de uma mesa de madeira barata, com o dedo sobre um botão de pânico. Os telefones eram o grande destaque da cela, um lugar onde os detentos, a maioria deles negros ou hispânicos (menos de 10% eram brancos ou asiáticos), tentavam vagamente conectar-se com o mundo exterior. De manhã até a noite, em fila, eles esperavam para falar com seus entes queridos, que, em sua maioria, os amavam menos a cada dia que passava. Meu beliche estava localizado perto dos telefones públicos.

Então lá estava eu, sentado com Ming, tentando ver sentido em tudo aquilo.

Ele tinha sido abençoado com um sorriso generoso, um sorriso totalmente gentil. Era difícil de imaginá-lo um traficante de heroína da máfia chinesa, um executor baixinho que uma vez tacou fogo em um concorrente e depois usou o carvão de sua carcaça ardente para assar algumas costelinhas.

– E aí, como é a história desses telefones? – perguntei a Ming, o Impiedoso.

– Chamadas a cobrar só – respondeu ele.

Foi nesse momento que três detentos vieram apressados, em fila única. Eles estavam mexendo seus quadris desajeitadamente e balançando os braços de uma forma exagerada. Praticantes de marcha atlética, pensei. Como todos os demais, eles usavam calças de moletom cinza, camiseta branca, tênis de lona branca e fones de ouvido. Ming e eu nos inclinamos e os observamos diminuírem a distância. Fiz um gesto para os apressados:

– O que eles estão fazendo?

Ming deu de ombros.

– Eles exercitam. Caminham em círculos durante todo o dia. Passar o tempo.

Interessante, pensei.

De fato, apesar de chegar à 7N apenas cinco minutos antes, eu já tinha chegado à conclusão de que meu principal inimigo não eram os outros detentos, mas o tédio intenso de ficar preso ali. Afinal, ao contrário de uma prisão federal, onde as atividades são abundantes e a violência é galopante, um centro de detenção federal é desprovido de qualquer atividade e de violência. Eles simplesmente o aborrecem até a morte...

– Quer dizer então que nunca há brigas por aqui? – perguntei a Ming.

Ele balançou a cabeça estreita, negando.

– Todo mundo com muito medo. Você enfrenta 10 anos, briga, agora você enfrenta 20 anos. Entendeu?

Assenti com a cabeça. Noventa por cento dos detidos estavam aguardando sua sentença, assim, se entrassem numa briga ou fizessem alguma merda, a supervisão das prisões federais poderia alertar o juiz e ele então iria condená-los com o máximo rigor da lei.

– Eu preciso usar o telefone – disse, sem emoção, levantando-me da borda do colchão.

Ming colocou a mão em meu braço.

– Ei, você cara rico, certo?

Eu olhei para ele e dei de ombros.

– Por quê?

Ele sorriu.

– Porque Ming fazer tudo para você: cozinhar, limpar, lavar a roupa, fazer a cama, cortar o cabelo. Eu ser como escravo.

Eu olhei para ele por um momento, incrédulo.

– Quanto é?

– Vinte dólares por semana. Você paga em selos da intendência. Dê-me 10 dólares extras, eu roubar comida da cozinha. Nós comemos como reis. Eu faço melhor frango com laranja deste lado de Chinatown!

Eu ri.

– Claro – murmurei, – por que não?

E fui para o fim da fila.



MINHA PRIMEIRA LIGAÇÃO foi para a casa de Magnum que, infelizmente, era um número que eu sabia de cor. A notícia não foi boa. Alonso estava em pé de guerra: não tanto porque ele estava com raiva de mim, mas porque estava bravo com a situação como um todo e, acima de tudo, estava bravo com ele mesmo. Tinha entrado despreparado num tribunal e pagara o preço por isso. Em consequência, iriam se passar muitos meses antes que ele voltasse a falar em meu favor. Além disso tudo, ficaria a nosso cargo fazer a investigação – conseguir depoimentos dos caras das mesas e dos gerentes dos cassinos e dos pilotos do helicóptero, bem como de Kiley, se eu pudesse encontrá-la para provar, sem sombra de dúvida, que minha viagem a Atlantic City não tivera nada a ver com lavagem de dinheiro.

Magnum já convocara Bo, que estava falando com seus contatos em Atlantic City. Coleman concordou em ajudar também, embora Magnum achasse melhor que nós fizéssemos nossa própria investigação e, em seguida, apresentássemos os fatos para Gleeson sob a forma de depoimentos, pois assim o juiz saberia que era sério.

Antes de desligar o telefone, encontrei-me fazendo o que todos os detentos fazem: implorando ao advogado que não desistisse de mim.

– Não importa o que aconteça – disse a Magnum com a mão em concha sobre o bocal –, não pare de tentar me tirar daqui. Não me importa quanto tempo leve e quanto vai custar.

– Eu não pararia por qualquer cliente – disse ele, calorosamente – e especialmente não com você. Apenas aguente firme aí durante alguns meses. Eu vou tirar você daí, cara.

Dei um suspiro de alívio.

– Você conseguiu entrar em contato com Nadine?

– Sim, ela está bem. Talvez bem demais, se você entende o que quero dizer.

– Sim, eu sei... – respondi, sério. – Ela estava rezando para isso acontecer. É a desculpa de que ela precisava para fugir para a Califórnia. Ela perguntou quanto tempo ficarei preso?

– Não, e eu também não levantei o assunto, exatamente por essa razão. Mas eu pedi a ela que aceitasse ligações a cobrar de você, e ela prometeu que faria isso.

Bem, isso é o mínimo que ela podia fazer, porra!

– E Yulia? – perguntei com um sorriso. – Ela provavelmente voltou com o ex-namorado, a essa altura.

– Duvido muito – respondeu Magnum.

– Ah, é? Por quê?

– Eu acho que ela deve estar é no consultório do psiquiatra, isso sim.

– Do que você está falando? O que aconteceu com ela?

– O que aconteceu é que ela entrou em pânico, foi isso! Eu a chamei no hotel, como você pediu, e quando lhe contei que você fora detido, levado para a cadeia, porque ela não sabia o que significava, bem, ela ficou completamente perdida. Começou a chorar histericamente no telefone dizendo “Ah, meus Deus! Ah, meus Deus!”; devo admitir que achei um pouco engraçado, ela usar o plural em meus...

– Sim – respondi, orgulhoso –, ela tem uma tendência a fazer isso – de repente, comecei a achar que as deficiências de linguagem da KGB eram bastante reconfortantes. – O que mais ela disse?

– Eu não tenho certeza, porque ela começou a falar em russo, a coisa de 100 quilômetros por hora. Enfim, ela é uma garota muito bonita. Eu posso entender porque foi escolhida Miss União Soviética.

– Espere um segundo: você a viu?

– Sim, ela apareceu no meu escritório sem avisar, acho que ela deve ter pedido informação. Enfim, ela estava tremendo incontrolavelmente. Foi muito assustador, na verdade. Nick estava prestes a chamar um médico, mas depois um cara chamado Igor apareceu e levou-a embora. Você sabe quem é esse Igor?

Um choque!

– Você conheceu o Igor? – senti uma pontada de ciúme.

Por que Magnum conheceu Igor antes de mim? Que seja. A curiosidade dominou o ciúme e eu perguntei:

– Como ele é?

– Bem comum – respondeu ele. – Alto, magro, cabelo grisalho, deve ter uns 50 anos, por aí. Ele tem uma aparência suspeita, como uma raposa. E excelente postura.

– O que quer dizer com excelente postura?

– Que ele tem uma excelente postura! O cara é empertigado como uma vareta. Ele provavelmente esteve no serviço militar – disse e depois de uma breve pausa: – Ele provavelmente ainda está, se você me entende.

Houve alguns momentos de silêncio, enquanto a obviedade das palavras de Magnum pairava no ar. Então ele disse:

– De qualquer forma, o sujeito deixou uma mensagem muito enigmática para você, algo sobre você estar sob proteção dele agora. Eu não tenho a menor ideia do que ele quis dizer com isso. Você tem?

Eu, sob a proteção de Igor? Do que o russo maluco estava falando?

– Não tenho ideia – respondi – A menor ideia. Eu nunca me encontrei com ele!

– Interessante – disse Magnum. – Bem, Yulia deixou uma mensagem para você, também, embora a dela tenha sido um pouco menos enigmática.

Fiquei mais animado.

– Ah, é mesmo? O que ela disse?

Com uma risada, me contou:

– Ela diz que ela amo você e que vai esperar por você quanto tempo demora, mesmo que demora para sempre – mais risadas da gramática da KGB. – Ela me pareceu sincera.

Nós trocamos um caloroso adeus, então eu desliguei o telefone e fui até o fim da fila. Havia umas quatro pessoas na minha frente, de forma que eu teria alguns minutos para pensar. Acima de tudo, ficara surpreso com a lealdade da KGB. Eu nunca tinha imaginado isso, especialmente depois de minha experiência com a Duquesa. Eu tinha acabado de assumir que KGB teria fugido da gaiola, porque era o que a Duquesa tinha feito. Mas, agora que estava pensando sobre isso, a atitude de KGB não foi tão surpreendente.

Poucas mulheres abandonariam o marido na escadaria do tribunal. O que a Duquesa tinha feito fora inconcebível. Eu sabia que pensaria assim para sempre. Mas agora já não dava tanta importância, porque estava apaixonado por outra pessoa. Naquele lugar onde antes me sentia traído e de coração partido, eu agora sentia raiva e apatia. E, na verdade, nem raiva de fato estava sentindo. Eu só queria que meus filhos ficassem a leste do Mississippi.

A fila se moveu rapidamente e minha conversa com a Duquesa foi ainda mais rápida. Magnum já tinha dado os fatos a ela, eu preenchi os espaços em branco. Curiosamente, Magnum tinha deixado de fora o papel do helicóptero no desastre, concentrando-se no que tinha acontecido com Dave Beall e em como aquilo tinha preparado o palco para a vingança do Canalha. Fiz uma nota mental para agradecer a Magnum por aquilo.

De todo modo, assegurei à Duquesa que logo estaria em casa, uns dois meses no máximo, e, embora não tivesse dito isso, meu tom de voz alertava: “Então, nem pense em se mudar para a Califórnia em breve, minha senhora!”.

De sua parte, nem suas palavras nem sua voz traíram qualquer coisa. Ela apenas disse que “realmente sentia muito” que eu tivesse sido jogado na cadeia, embora não parecesse nem mais nem menos chateada do que se eu tivesse dito a ela que tinha acabado de perder as chaves de casa e sido obrigado a chamar um chaveiro.

Isso posto de lado, decidimos que não havia nenhuma razão para que disséssemos alguma coisa para as crianças. Com as idades de 6 e 4 anos, seria melhor enganar os dois – enganar no sentido de proteger. Além do mais, para que preocupá-los se logo eu estaria em casa de novo? Era por isso que eu rezava a toda hora.

A Duquesa prometeu aceitar todas as minhas chamadas a cobrar e não falar mal de mim para meus filhos, e eu acreditei na palavra dela em ambos os casos, não porque eu achasse que ela sentia um grão de compaixão por mim, mas porque eu sabia que ela sentia pelas crianças. E fiquei bem; quando você está em uma posição como a minha, é melhor aceitar suas vitórias sem questionar os motivos. E agradecer.

Quando falei com as crianças, mantive a conversa curta e doce. Disse a eles que estava viajando a negócios, coisa que eles acharam muito emocionante. Nenhum deles perguntou quando eu voltaria para casa, simplesmente porque eles assumiram que seria em breve. Na idade de Carter, o conceito de tempo não significava muito. Ele media as coisas em meias horas, que era o tempo médio de um desenho animado; qualquer coisa além disso já era considerado “muito tempo”.

Chandler, no entanto, foi outra história. Ela estava no primeiro grau e sabia ler (não muito bem, graças a Deus!), de modo que ela não poderia ser tapeada por muito tempo. Eventualmente, dentro de um mês, talvez, ela começaria a farejar uma tapeação, e então seu bem merecido apelido de CIA deixaria as coisas complicadas. Ela começaria a investigar, a fazer perguntas difíceis, a checar as omissões, mentiras e contradições. Em essência, ela se tornaria a menina intrometida de 6 anos por excelência, uma garotinha preocupada que sentia falta do papai e não iria parar de cavoucar até que chegasse ao cerne das coisas.

Com isso em mente, antes de desligar, eu disse a ela que minhas viagens me levariam a lugares fantásticos e distantes, exatamente como os dois franceses bobos, Phileas Fogg e Passepartout, do filme A volta ao mundo em 80 dias. Nós tínhamos assistido ao filme juntos muitas vezes e ela sempre o achara fascinante, especialmente as diferentes formas como eles tinham viajado.

– Vai ser ótimo! – eu disse a ela. – Você pode assistir ao vídeo com Gwynnie e ver todos os lugares enquanto papai vai visitá-los. Na verdade, vai ser como se a gente estivesse visitando-os juntos!

– Você vai a todos os mesmos lugares que Passepartout? – perguntou ela, maravilhada.

– Mas é claro que sim, baixinha! Acho até que posso levar o mesmo tempo que eles!

– Oitenta dias? – exclamou ela. – Mas por que você levaria 80 dias? Eles montaram em um elefante, papai! Você não pode pegar um avião?

Que diabinha! Ela era muito inteligente! Eu tive de cortar a conversa:

– Bem, acho que eu poderia, mas isso ia tirar toda a diversão, né? De qualquer forma, basta ver o vídeo com Gwynnie e depois vamos conversar sobre ele, o.k.?

– Tudo bem – disse ela, alegremente. – Eu amo você, papai.

Então ela explodiu um grande beijo no telefone.

– Eu também amo você – disse, calorosamente, e mandei-lhe um beijo de volta.

Depois, desliguei o telefone, lutei contra as lágrimas e voltei ao fim da fila de novo, esperando minha vez. Dez minutos depois, eu estava discando para Southampton.

Primeiro eu ouvi a voz da KGB:

Alloa?

Então a voz gravada da telefonista: “Esta é uma chamada a cobrar a partir de uma prisão federal. Se você deseja aceitar, por favor, pressione 5 agora, se você não quiser aceitar, pressione 9 ou desligue o telefone, se você deseja bloquear as chamadas deste número de forma permanente, pressione 7-7 agora”.

E então houve um silêncio.

Ah, meu Deus!, pensei. KGB não conseguia entender as instruções! Eu gritei para o telefone:

– Yulia! Não pressione 7-7! Senão nunca vou poder ligar para você de volta! Não pressione 7-7!

Olhei em volta procurando um rosto amigo. Um homem negro muito alto era o próximo da fila. Ele estava olhando para mim, com uma expressão divertida. Balancei a cabeça e disse:

– Minha namorada é estrangeira. Ela não entende a mensagem...

Ele sorriu de maneira cordial, expondo uma notável ausência dos dentes incisivos.

– Acontece o tempo todo, xará. É melhor desligar antes que ela aperte o 7-7. Se ela fizer isso – o telefone fez bip-bip –, você está fodido.

Nesse momento escutei um clic alto. Com o coração apertado, levantei o fone e olhei para ele com curiosidade. Então me virei para o imponente homem negro e disse:

– Eu acho que ela pressionou 7-7.

Ele balançou a cabeça e deu de ombros.

– Então, você está ferrado.

Eu estava prestes a desligar quando ele disse:

– Você tem outro número em casa?

Eu assenti com a cabeça.

– Sim, por quê?

Ele apontou para o telefone.

– Então ligue para ele. Eles não bloqueiam a casa inteira, só aquela linha.

– Mas você não se importa? – perguntei nervosamente. – Pensei que só fosse uma ligação de cada vez.

Ele deu de ombros.

– Vamos, ligue para sua garota. O que não me falta aqui é tempo.

– Obrigado!

Mas que cara fantástico! Primeiro Ming, o Impiedoso, e então esse negro da altura de uma torre. Essas pessoas não eram tão más assim, eram? Principalmente esse cara. Ele era um verdadeiro cavalheiro. Mais tarde descobri que ele estava enfrentando 20 anos por causa de extorsão.

Virei-me, disquei o número novamente e então ela atendeu. Suas primeiras palavras foram:

– Ah, meus Deus! Maya lubimaya! Ya lublu tibea!

– Eu também te amo – respondi suavemente. – E aí, está aguentando bem?

– Aguentando o quê? – perguntou ela, com uma fungada confusa.

Caramba, pensei. Apesar de tudo, era o suficiente para deixar qualquer um louco.

– Eu quero saber se você está bem.

Da... – disse ela, com tristeza. – Eu... Bem... – e depois – Ah, Ah... meus Deus... Eu... Ah, meus Deus – e começou a chorar incontrolavelmente.

Por mais que eu tentasse, não conseguia deixar de pensar que eu encontrava conforto em seus soluços. Era como se cada soluço, cada lágrima, cada fungada fosse uma forma de ela reafirmar seu amor por mim. Fiz uma nota mental de contar cada “Eu te amos” que ela falasse por dia. Quando eles começassem a diminuir, eu saberia que o fim estava próximo.

Naquele dia, definitivamente, o fim não estava nem um pouco à vista. No momento em que parou de soluçar, ela disse:

– Eu não me importo quanto tempo demorar, eu espero por você para sempre. Eu não vou sair de casa até que você esteja casa.

Fiel à sua palavra, foi exatamente o que ela fez.

Quando minha primeira semana atrás das grades estava chegando ao fim, ela estava lá a cada vez que eu ligava para Southampton. Segundo as regras da cela, você podia falar pelo tempo que quisesse em cada chamada, e algumas vezes nós falávamos por horas a fio. Isso era bastante irônico, pensei, considerando que nunca tínhamos conversado muito quando eu estava do lado de fora. Nosso relacionamento se baseara principalmente em sexo e, quando não estávamos fazendo amor, a gente estava comendo, dormindo ou discutindo sobre qual livro de história era mais preciso.

Agora, no entanto, nós não tínhamos essas discussões. A gente parecia concordar em tudo, muito porque evitávamos falar de assuntos que fossem vagamente relacionados com história, política, economia, religião, gramática e, claro, a Lua. Em vez disso, falávamos de coisas simples, como todos os jantares maravilhosos que tínhamos compartilhado juntos... Todas aquelas pequenas fogueiras na praia... E como tínhamos feito amor a noite inteira. Mas, acima de tudo, a gente falava sobre o futuro, nosso futuro, e como, assim que tudo aquilo tivesse acabado, iríamos nos casar e viver felizes para sempre.

Quando não estava conversando com a KGB, eu estava lendo livro após livro, tentando me atualizar depois de anos me entretendo com sexo, drogas e rock and roll. Por mais tempo do que poderia me lembrar, eu havia desprezado a leitura, associando-a a tédio e chateação em vez de a admiração e prazer. Eu vi a mim mesmo como o produto de um equivocado sistema de ensino que enfatizara que nós deveríamos ler os “clássicos”, os quais, em sua maioria, eram chatos e ultrapassados. Talvez se eu tivesse sido forçado a ler Tubarão e O poderoso chefão, em vez de Moby Dick e Ulysses, as coisas tivessem sido diferentes. (Sempre buscando colocar a culpa em outro lugar.)

Então, estava tentando recuperar o tempo perdido, com a média de quase um livro por dia, e também escrevendo três cartas, uma para KGB e as outras duas para cada um de meus filhos. É claro, eu telefonava para as crianças todos os dias para dizer que os amava e que estaria em casa de volta em breve. Embora detestasse mentir para elas, eu sabia que era a coisa certa a fazer.

Como esperado, Carter foi fácil de enganar. Nós conversávamos sobre qualquer filme da Disney com o qual ele estivesse obcecado no momento e depois trocávamos alguns “eu te amo”. Nossas conversas não duravam mais que um minuto, e depois ele voltava para a feliz ignorância da infância.

Chandler, no entanto, já era outra história. Nossa conversa durava em média 15 minutos e, se no dia ela estivesse especialmente falante, podia se estender para quase uma hora. Eu não sabia exatamente sobre o que a gente falava durante todo esse tempo, mas, enquanto as semanas se arrastavam, notei que ela estava ficando cada vez mais obcecada com Passepartout. Em essência, ela estava usando o filme para manter controle do meu progresso, da forma como um adulto riscaria os dias em um calendário.

Ela ficava dizendo coisas como: “Passepartout fez isso, papai, e fez aquilo, papai”, como se eu pudesse de alguma forma aprender com os erros dele e acelerar minha viagem ao redor do mundo. Com a ajuda de Gwynne, ela tinha indexado o dia 10 de janeiro como o dia de minha chegada aos Estados Unidos, vindo de Yokohama, exatamente como Passepartout. No entanto, se ela pudesse me ajudar a descobrir uma maneira de viajar mais rápido ou simplesmente evitar um acidente, então talvez eu pudesse estar em casa para o Natal.

Então, quando eu lhe disse que estava em Paris, ela disse “Tenha cuidado quando você decolar em seu balão de ar quente, papai! Passepartout teve que subir no balão, e ele quase caiu!”. Tive de prometer que tomaria cuidado.

E quando eu disse a ela que estava indo para a Índia, ela disse “Tenha cuidado quando você montar em seu elefante, papai, porque Passepartout foi capturado por caçadores e teve que ser resgatado!”. E a partir daí o assunto se tornaria algo completamente inócuo, tipo seus novos amigos na escola, algo que ela tinha visto na TV, os brinquedos que ela queria para o Natal. Nunca, nem uma vez, ela trouxe à baila o nome de John Macaluso ou o de sua mãe. Se isso foi por acidente ou premeditado, eu não tinha certeza, mas eu podia sentir que Chandler tentava proteger meus sentimentos.

Em meados de novembro, Alonso finalmente concordou em fazer uma nova tentativa diante de Gleeson. O único problema era que ele precisava obter autorização do novo chefe da divisão criminal, um homem chamado Ken Breen (Ron White havia mudado de lado, tornando-se um advogado de defesa). Breen estava em julgamento e não poderia ser perturbado.

Isso não fazia sentido para mim; afinal, Magnum não iria levar mais que 15 minutos para fazer uma apresentação para Ken Breen. Bo havia assegurado todos os depoimentos necessários e estava muito claro que a única coisa da qual eu deveria ser acusado era burrice. Eu disse a Magnum:

– Não me interessa o quanto ele está ocupado, eles sempre têm 15 minutos de sobra para algo importante.

Magnum explicou que era uma questão de protocolo. Quando um promotor vai a julgamento, é como um lutador entrando no ringue, e entre os assaltos ele não fala com seu melhor amigo. Tudo com que ele se preocupa é em derrubar o outro boxeador.

Assim, a possibilidade de eu estar em casa no dia de Ação de Graças desapareceu como um peido no vento. Por sorte, eu não tinha realmente esperado que isso acontecesse, então não me decepcionei muito. Sim, teria sido bom, claro, mas tinha sido uma perspectiva tão distante que eu não fora tolo o suficiente para alimentar minhas esperanças.

Como eu descobri rapidamente, as expectativas podem ser tanto seu melhor amigo como seu pior pesadelo quando você está atrás das grades. Um homem encarando 20 anos de prisão se apoia na esperança de ganhar uma redução da pena; quando ele perde essa apelação, ele se apoia na esperança da liberdade condicional; e quando ele perde isso também, e sua vida parece totalmente inútil e não vale mais a pena viver, ele encontra Jesus.

Eu caí em uma categoria única de quem ficaria ali por um tempo ultracurto, um detento cuja presença seria medida por questão de meses. No pior dos casos, Magnum assegurou-me, Gleeson me deixaria sair na primavera, simplesmente por misericórdia. No entanto, se a gente colocasse nossa moção para um pouco antes do Natal, ele não conseguia imaginar que John pudesse negar isso. Ele era um homem misericordioso, garantiu Magnum, e estaria disposto a me dar uma segunda chance.

Que assim seja, pensei. Eu teria de passar o dia de Ação de Graças na prisão. Disquei para Old Brookville na manhã de terça-feira da semana de Ação de Graças. A data era 23 de novembro. Como sempre, disquei os números com um sorriso no rosto, ansioso, mais que tudo, por ouvir a voz de meus filhos. Infelizmente, no segundo toque, eu ouvi: “Sinto muito, o número que foi chamado foi desconectado. Se você chegou a esta gravação por engano, por favor, desligue o telefone e tente novamente. Não existe mais nenhuma informação disponível”.

No começo, não desliguei o telefone. Fiquei com ele pressionado em meu ouvido. Eu estava simplesmente surpreso demais para me mexer. Enquanto meu cérebro procurava desesperadamente por respostas, meus instintos não precisavam fazer isso: meus filhos tinham se mudado para a Califórnia.

Dois dias depois, não foi nenhuma surpresa quando a Duquesa ligou para meus pais e deixou as novas informações de contato na secretária eletrônica deles, e tanto o código de área quanto o código postal pertenciam a Beverly Hills.

Sem perder a calma, anotei ambos. Então desliguei o telefone e fui para o fim da fila. Como havia sete pessoas na minha frente, eu tinha tempo para pensar, descobrir a sequência precisa de palavrões a pronunciar, as ameaças apropriadas a fazer e qualquer outra coisa que um homem na minha posição poderia dizer, quer dizer, um homem que não tinha poder sobre coisa alguma nem sobre ninguém, incluindo ele mesmo.

Eu iria chamá-la de puta e acusá-la de querer dar o golpe do baú e... Mas a quem eu estava enganando? Se eu a chamasse de qualquer dessas coisas, ela digitaria o 7-7 e cortaria todas as comunicações por telefone! Sem mencionar que poderia arrancar minhas cartas da caixa de correspondência e cortar toda a comunicação escrita também. Minha completa falta de poder estava começando a me irritar! Contudo, o que mais me enfureceu foi que, no fundo, eu sabia que ela estava certa.

Quer dizer, o que ela poderia fazer? Eu estava na cadeia e o dinheiro estava acabando. A Duquesa tinha contas a pagar, filhos para criar e o teto sobre a cabeça dela estava prestes a ser confiscado. E lá estava John Macaluso na ponte, como um cavaleiro de armadura brilhante. O cara tinha dinheiro, uma mansão e, por coincidência, era um sujeito pra lá de legal. Ele iria apoiá-la, cuidar dela e amá-la.

E ele iria cuidar das crianças.

Falando nisso, e elas? O que seria melhor para elas? Deveriam crescer em Long Island, sob a sombra escura de meu legado? Ou seria melhor para elas ter um novo começo na Califórnia? Claro, o lugar de meus filhos era perto de mim. Disso eu tinha certeza. Mas a que lugar eu pertencia? O que era melhor para mim?

Tendo tão pouca escolha, fiz o que eu não tinha dúvida de que muitos homens com a infelicidade de ser um prisioneiro na Cela 7N fizeram antes de mim: voltei para a cama e puxei as cobertas sobre a cabeça.

E então eu chorei.

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