CAPÍTULO 11
A CRIAÇÃO DE UM LOBO
– Bem, eu sinto muito em ouvir isso – disse o Canalha, solidário, inclinando-se para a frente em sua poltrona preta barata e apoiando os cotovelos ossudos na mesa de reuniões. – É sempre uma pena quando os filhos estão envolvidos.
– Sim – concordei com tristeza. Sim, claro!, pensei. Essa é a razão de sua vida, Canalha! Você adora descascar um homem e retirar dele todas as posses! O que mais poderia fazer valer a pena uma vida de merda como a sua? – É triste para todos nós, Joel, mas agradeço sua preocupação.
Ele assentiu respeitosamente. TOC, no entanto, sacudia a cabeça com desconfiança.
– Eu não sei – disse ele. – Eu realmente achei que vocês dois passariam por isso e ficariam juntos, realmente acreditei nisso.
– Bem – retruquei com tristeza –, eu também achava isso. Mas há água demais passando sob a ponte. Muitas lembranças ruins.
Era um pouco depois das 10 da manhã e eu estava cantando na Court Street novamente, ainda que para um público um pouco menor. A Bruxa, o Mórmon e meu gigantesco advogado, Magnum, estavam todos conspicuamente ausentes. A Bruxa, me disseram, estava ocupada com outro caso, sem dúvida destruindo a vida de algum outro pobre idiota; o Mórmon estava ocupado resolvendo questões pessoais, provavelmente ainda na cama com uma de suas esposas mórmons, tentando conceber uma nova leva de bebês mórmons; Magnum, por outro lado, estava ocupado demais fazendo nada. Na verdade, a única razão pela qual ele não estava lá naquela manhã, no hediondo subsolo do número 26 na Federal Plaza, era porque ele pensou que seria bom se eu passasse algum “tempo a sós” com meus captores. Ao mesmo tempo que suas palavras pareciam ter um pouco de lógica, também pareciam suspeitosamente convenientes, levando-se em conta que eu acabara de preencher um cheque de 1 milhão de dólares uma semana antes. (Por que aparecer por ali mais vezes quando ele poderia sacar o dinheiro e fugir?)
Então, só havia nós três naquela manhã: o Canalha, TOC e eu.
– Você está muito quieto nesta manhã – disse TOC. – Se não quiser falar sobre sua vida pessoal, tudo bem.
Eu dei de ombros.
– O que há para dizer, além de contar que minha esposa devia estar numa crise de sonambulismo quando fizemos os votos de casamento?
– Você acha que ela está tendo um caso?
– Não, Greg! Sem chance – respondi confiante.
É claro que ela está me traindo!, pensei. Ela está transando com aquele idiota do Michael Burrico, do Brooklyn. Uma anta como ele era um alvo fácil para uma Duquesa atrás de ouro.
– Ela definitivamente não está me traindo – continuei. – O que está acontecendo com a gente é muito mais profundo que isso.
Ele sorriu calorosamente.
– Não se ofenda, eu só estou tentando que tudo faça algum sentido, entendeu? Normalmente, quando esse tipo de coisa acontece, há sempre outro homem esperando atrás das cortinas. Mas, ei, o que eu sei sobre as coisas, né?
O Canalha entrou na conversa:
– Assim como Greg, eu também sou solidário à sua situação, mas a única coisa com que você deve se preocupar agora é com sua cooperação. Todo o resto é secundário.
Ah, é? E meus filhos, idiota?
– Joel tem razão – disse TOC. – Provavelmente não seja uma boa hora para se divorciar. Talvez você e Nadine devam esperar um pouco, até que toda essa comoção esfrie.
– Tudo bem – retrucou o Canalha –, então vamos começar a rever o caso. Na última vez que nos falamos, o mercado de ações tinha caído e você estava desempregado. O que aconteceu depois?
Que idiota!, pensei. Respirei fundo e disse:
– Bem, eu não diria que estava realmente sem emprego, porque o que eu tinha na LF Rothschild não era de fato um emprego, em primeiro lugar. Eu era um conector, que é a posição abaixo da posição mais baixa em Wall Street. Tudo o que eu fazia era ficar discando o dia todo e tentando passar pelas secretárias dos empresários ricos. Aquela era uma função que o fazia engolir o orgulho, mas eu não tinha escolha a não ser sorrir e aguentar. A única coisa que me mantinha seguindo em frente era a esperança no futuro.
Fiz uma pausa para manter o efeito.
– E aí veio o crash. Ainda me lembro de como foi voltar para casa naquela noite, no ônibus expresso: dava para ouvir um alfinete caindo. Havia um tipo de medo no ar que eu nunca tinha experimentado antes. Os meios de comunicação estavam fazendo um sensacionalismo das coisas levando à histeria, prevendo a quebra dos bancos, desemprego em massa, pessoas pulando das janelas dos prédios. Aquilo seria o início de uma nova Grande Depressão, segundo eles.
– Uma depressão que nunca veio – acrescentou o Canalha, um estudante com notas A em História, pelo jeito.
– Exatamente – disse eu. – Ela nunca veio, embora ninguém tivesse nenhuma maneira de saber ou de prever isso, naquela época. Lembre-se, a última vez que o mercado tinha caído desse jeito fora em 1929, e a Depressão veio logo em seguida, nos calcanhares das falências e das quebras de bancos. Então, de fato não era nenhum exagero ou alarmismo pensar que poderia acontecer de novo – parei por um momento. – Para as pessoas que cresceram na Grande Depressão, como meus pais, a perspectiva era assustadora, mas para pessoas como eu, que tinha apenas lido sobre isso em livros de História, era algo simplesmente inimaginável. Assim, se você trabalhasse em Wall Street ou na Main Street naquele dia, todos estavam assustados com o que poderia acontecer – dei de ombros. – Todos, exceto Denise, que estava tão fria como um pepino em conserva!
– Isso é muito impressionante – raciocinou o TOC –, considerando que vocês dois estavam totalmente quebrados.
– Sim – disse rapidamente – e isso teria sido até mais impressionante se ela tivesse a mínima ideia de que a Bolsa tinha desabado – sorri tristemente.
O Canalha estreitou os olhos.
– Ela não tinha ouvido a notícia?
Eu balancei a cabeça, negando.
– Denise nunca assistia ao noticiário. Ela era mais uma garota das novelas que uma garota dos noticiários – fiz uma pausa por um momento, e uma onda de profunda tristeza me invadiu.
Denise podia ter seus defeitos, mas ainda era uma grande esposa. Ela era linda, uma daquelas belezas italianas de cabelos escuros que todo moleque adolescente fantasia quando está no colégio. Sabia como usar uma roupa, minissaia de couro preto e blusas de algodão branco, que eram mais macias que bumbum de bebê.
Pensando bem, a forma como nós dois tínhamos nos alojado em nosso minúsculo apartamento de Bayside tinha sido pura magia. Tínhamos jurado amor eterno um para o outro, certos de que nosso amor poderia conquistar tudo. No entanto, de alguma forma, tínhamos conseguido destruir esse amor. Nós permitimos que o sucesso e o dinheiro subissem à nossa cabeça. Nós permitimos que ele nos separasse, que ele nos devorasse. E no final isso a havia transformado em uma viciada em compras das mais compulsivas, e eu em um estrondoso viciado em drogas. E depois veio a Duquesa…
– Ainda com a gente? – perguntou o Canalha. – Você precisa fazer uma pausa por alguns minutos? – Ele me ofereceu seu sorriso sádico de diretor de prisão.
– Não, eu estou bem – respondi. – De qualquer forma, Denise não tinha ideia de que a Bolsa havia desmoronado, de modo que, no momento em que entrei pela porta, ela me abraçou como se eu fosse um herói conquistador. “Ah, meu Deus!”, disse ela. “Você finalmente chegou em casa! Como foi seu primeiro dia como corretor da Bolsa? Bateu o recorde da empresa de mais ações vendidas?”.
TOC e o Canalha começaram a rir.
Eu ri de volta.
– Sim, foi muito engraçado, tudo bem, exceto quando, em meados de novembro, estávamos praticamente a zero, juntando centavos para comprar xampu… Mas foi só depois de um mês da queda da Bolsa que decidi jogar a toalha e abandonar Wall Street. Foi numa manhã de domingo. Denise e eu estávamos sentados na sala de estar, como dois zumbis, procurando alguma coisa na seção de empregos do jornal. Depois de alguns minutos, me deparei com algo que me pareceu estranho. “Veja isso”, eu disse para ela, “há uma empresa anunciando vagas para corretores, mas eles não estão em Wall Street, estão em Long Island…”. Denise leu o anúncio e perguntou: “O que significa PI, MP?”. Respondi: “Período integral e meio período”, e fiquei imaginando que tipo de corretora seria essa, que contratava corretores em meio período. Eu nunca tinha ouvido falar disso antes. Ainda assim, dadas as minhas circunstâncias, parecia uma ideia razoável. Então eu disse a ela: “Trabalhar por meio período não pode ser uma coisa tão ruim. Talvez eu possa ganhar algum dinheiro enquanto procuro outra coisa”. E ela concordou com a cabeça.
Fiz uma pausa e continuei:
– De qualquer forma, nenhum de nós pensou muito sobre isso na época, e assim, quando telefonei para eles na manhã seguinte, eu estava completamente desencanado. Uma rouca voz masculina atendeu ao telefone e disse: “Investors’ Center, como posso ajudar?”, e eu soube na hora que não era um telefonista. O nome da empresa causou arrepios na minha espinha. Eu estava acostumado com nomes como Goldman Sachs e Merrill Lynch, nomes que ressoam como Wall Street. Eu só podia me imaginar dizendo: “Oi, aqui é Jordan Belfort, ligando da Investors’ Center aqui do Cu do Mundo, Long Island. Não estou mais perto de Wall Street do que você, então por que não me envia logo seu suado dinheirinho? Você provavelmente nunca o verá novamente!”.
– Muito profético – retrucou o Canalha.
– Sim – concordei – se bem que o Investors’ Center não ficava no Cu do Mundo, mas em Great Neck, Long Island, que é na verdade uma parte muito boa da cidade. A empresa ficava no 2º andar de um edifício comercial de três andares.
Parei por um momento.
– Lembro-me de estacionar perto do prédio e ficar bem impressionado. Estava dirigindo aquele velho pedaço de merda da Denise, um Datsun caindo aos pedaços, que era o único carro que tínhamos na época, e dizia para mim mesmo: “Ei, até que esse lugar não parece tão ruim!”. Mas, então, no momento em que entrei na sala, meu queixo caiu. O espaço era muito menor do que eu esperava. Tinha talvez uns 20 metros quadrados, e não havia uma única coisa ali que lembrasse Wall Street. Não havia monitores de computador, assistentes de vendas nem corretores andando para a frente e para trás. Não havia nada mais que 20 antigas mesas de madeira, todas elas parecendo bem desgastadas pelo tempo, dispostas a esmo. Apenas cinco das mesas mostravam corretores ali sentados, e nada de agitação, a não ser um murmúrio baixo. Eu tinha colocado terno e gravata para a entrevista, e era o único na sala vestido desse jeito. Todo mundo usava jeans e tênis, com exceção de um cara. O único problema era que seu terno parecia saído de uma caixa do Exército da Salvação. Tenho gravada na memória até hoje a expressão idiota que ele mostrava no rosto. Parecia alguém que tinha sido lobotomizado. O cara estava na casa dos 30 anos e tinha o cabelo preto mais ensebado que se pode imaginar, como se tivesse tomado banho com óleo de motor de carro e…
O Canalha começou acenando com a cabeça de novo, como se dissesse: “Melhor seguir em frente”.
– Enfim – continuei –, o gerente estava sentado em um pequeno escritório na frente dessa sala e parecia alheio a tudo. Ele latia em seu telefone, conversando com a esposa, disso consigo lembrar, falando alguma coisa sobre o cão deles estar doente. Quando ele me viu, levantou o dedo indicador, ao qual aquiesci respeitosamente. Então ele continuou falando. Seu nome, como vim a saber depois, era George Grunfeld, e dois anos antes ele era professor de Estudos Sociais. Tinha por volta de 45 anos de idade e era a cara de Gabe Kaplan, o professor de Welcome Back, Kotter – sorri para TOC. – Você se lembra de Welcome Back, Kotter, Greg?
TOC assentiu.
– Sim, com Travolta – ele olhou para o Canalha. – Você assistia a Welcome Back, Kotter?
O Canalha deu um sorriso morto para TOC.
– Sim, “pode enfiar aí mesmo onde está pensando”* – disse ele, sem emoção.
– Ahá, eu sabia! – disse eu de maneira calorosa. – Isso é exatamente o que Travolta costumava dizer ao senhor Kotter – sorri para meu novo amigo, com a satisfação de finalmente ter encontrado um ponto em comum com ele.
Infelizmente, o Canalha recusou-se a sorrir de volta. Em vez disso, olhou para mim, com cara de pedra. Eu dei de ombros.
– Bem, de qualquer maneira, ele se parecia com aquele sujeito, peludo em todos os lugares, no cabelo, nas sobrancelhas, no bigode, nos dedos. Parecia que alguém tinha colado um punhado de arbustos no cara!
TOC balançou a cabeça, rindo, enquanto o Canalha olhou-me ameaçadoramente.
– Por fim, George desligou o telefone e veio me cumprimentar. “Basta escolher uma mesa livre e iniciar os telefonemas”, disse ele depois de alguns segundos de conversa fiada. “Isso é tudo?”, perguntei surpreso. “Você está me contratando?” “Sim, por que não? Não é como se eu estivesse lhe pagando um salário, certo? Isso não é um problema, é?” Eu estava prestes a dizer-lhe que não era, quando um dos vendedores de repente saiu de sua cadeira e começou a andar para trás e para a frente. George apontou para o cara e disse: “Esse é Chris Knight, nosso melhor vendedor. Ele tem um discurso e tanto, venha ouvir…”. Concordei e foquei a atenção em Chris, que era alto e magro e tinha um rosto mais longo que o de um puro-sangue. Ele não devia ter mais do que 20 anos e estava vestido como se tivesse acabado de sair de uma festa da cerveja. Eu me lembro de ficar chocado com o jeito terrível como ele suava; murmurando, meio que mastigando as palavras, eu dificilmente conseguia compreender o que o cara dizia! Então, do nada, ele começou a gritar em seu telefone, em rajadas curtas e rápidas de um surto de vendas ridículo: “Caralho, Bill, eu garanto isso!”, gritava. “Eu garanto que essas ações vão subir. Você não pode perder, é impossível! Tenho informações que ainda não vieram a público, está me ouvindo? Eu não acho que esteja, porque tenho informações privilegiadas!”. E então ele puxou o telefone para longe da orelha, estendeu-o na frente de seu próprio nariz e olhou para o receptor com desprezo. Então, depois de 5 segundos em que ficou olhando, colocou o telefone de volta no ouvido e começou a gritar novamente. Olhei para George e disse: “O que diabos foi aquilo tudo?”. George acenou com a cabeça conscientemente e disse: “Esse é muito bom, não é?”. Eu só balancei a cabeça, descrente, e não falei nada. Enquanto isso, Chris ainda estava gritando: “Você não entendeu? Não temos como perder aqui, Bill! Eu juro a você! Essa ação vai subir até a Lua! Nada de ‘se’ e ‘mas’, chega! Você tem que comprar agora, agora mesmo!”.
Dei de ombros e continuei:
– Durante meus seis meses de LF Rothschild, eu nunca tinha ouvido nada tão ridículo, e não estou falando apenas de todas as leis de valores mobiliários que ele estava violando, mas também de sua completa falta de profissionalismo. Toda a gritaria e os ridículos refrãos de vendas, era tudo tão Mickey Mouse que ninguém, mesmo com a menor sofisticação financeira, iria dedicar um pouco de seu tempo ao sujeito.
O Canalha levantou a mão.
– Deixe-me ver se entendi – disse ele cético. – Você está dizendo que não é um defensor do exagero verbal nas vendas?
Virei os cantos da boca para baixo e balancei a cabeça.
– Não, eu não sou, na verdade. A venda através de todo esse exagero é uma completa perda de tempo. Em termos militares, é como um bombardeio em massa. É muito alto e ameaçador, mas é apenas parcialmente eficaz. Na Stratton, eu ensinei um estilo diferente de venda, que era o equivalente a deixar cair bombas inteligentes guiadas a laser em alvos de alta prioridade – dei de ombros. – Deixe-me organizar as ideias e você verá exatamente de que eu estou falando.
O Canalha assentiu lentamente.
– Tudo bem – continuei. – Por mais que Chris Knight fosse um vendedor horrível, ou, melhor dizendo, por menos treinado e inexperiente que fosse, foi o que saiu de sua boca que realmente me chocou. “Ah, vamos lá!”, o rapaz gritou para seu cliente. “Essas ações custam apenas 30 centavos de dólar a opção. Pegue um lote de mil ações, isso é tudo que estou pedindo! É só um investimento de 300 dólares, o que pode dar errado nisso?”. Quando ele disse isso, virei-me para George e perguntei: “Ele acaba de mencionar 30 centavos de dólar por ação, é isso mesmo?”. George disse: “Sim. Por quê?”. “Bem, é que eu nunca ouvi falar de ações tão baratas. Eu fui treinado numa empresa que negociava basicamente as ações que estavam na Bolsa de Nova York. E mesmo na NASDAQ, trabalhávamos com coisas na faixa de 15 a 20 dólares”. Enquanto isso, Chris estava ocupado batendo o telefone de raiva. Então ele começou a murmurar: “Aquele filho da puta desligou na minha cara! Que canalha, esse rato!”. Então George olhou para mim e disse: “Não se preocupe, ele vai pegar o próximo. Mas, de qualquer forma, você deve sentar-se ao lado dele por alguns dias, para que ele possa mostrar-lhe as coisas”. Bem, eu estava prestes a cair na gargalhada depois de ouvir isso, mas logo em seguida George acrescentou: “Ele ganhou mais de 10 mil no mês passado. E você, quanto ganhou?”. Olhei para George, incrédulo, imaginando como um idiota como Chris Knight poderia fazer 10 mil dólares em um mês e, depois, algo muito estranho ocorreu. “Espere um segundo”, eu disse a ele. “Como diabos ele fez 10 mil dólares em um mês trabalhando com negociações de 300 dólares?”. Então eu expliquei a George como um negócio de 300 dólares na LF Rothschild renderia uma comissão entre 3 e 6 dólares, dependendo de quão agressivo você quisesse ficar com o cliente. Às vezes as comissões eram ainda menores que isso, acrescentei, especialmente em vendas de meio milhão ou mais. Então George acenou para eu entrar em seu escritório e me ofereceu uma explicação visual de minha pergunta. Ele pegou uma folha de papel de sua mesa e disse: “Estas são as únicas ações que você vai recomendar aqui. Há seis delas”. Ele me entregou a folha de papel e eu levei um momento para estudar o que estava escrito. “Controle de Poluição KBF?”, murmurei para mim mesmo. “Arncliffe National?” Estava prestes a dizer algo como “Nunca ouvi falar de nenhuma dessas ações”, quando George apontou para uma coluna de números e disse: “Estas são as propostas para as ações”, e vi que estavam todos abaixo de 1 dólar. Eu ia dizer “Devem ser uns belos pedaços de merda se estão todos abaixo de 1 dólar” quando ele apontou para outra coluna de números e disse: “E estas são as ofertas. Tudo entre uma coluna e outra é a sua comissão”.
Parei por um momento para que minhas palavras pudessem ser absorvidas. Então, sorri e voltei a falar:
– Você pode achar difícil de acreditar, dada minha atual postura de sofisticação nesse mercado, mas naquela época eu não entendia a diferença entre venda imediata e compra imediata. Quer dizer, eu sabia que você vendia na compra e comprava na venda, mas nunca tinha pensado de fato no que acontecia com o dinheiro nesse meio-tempo. Você vê, com as grandes ações de valor mais alto, a diferença entre os dois é muito pequena, talvez 0,5%, e só ocasionalmente é que os corretores conseguem uma lasca disso, geralmente o valor é engolido pelas firmas. Na verdade, na Rothschild, os corretores ficavam malucos quando um bloco de ações vinha com uma diferença embutida. Eles iriam ligar para seus clientes e insistir porque estariam fazendo uma comissão em dobro. Mas na Investors' Center, eu não podia acreditar no que estava vendo. Os spreads eram enormes, de pelo menos 50% ou mais. Eu disse a George: “Como é que o preço de venda para a Arncliffe National pode ser de 25 centavos e o de compra 50 centavos? Minha comissão não pode realmente ser de um quarto, pode?”. Ele respondeu: “Claro, por que não?”. Eu disse: “Bem, vamos apenas supor que um cliente compre 250 mil dólares da Arncliffe National”, que era uma negociação média na LF Rothschild… “Será que minha comissão vai realmente ser de 125 mil dólares?”, perguntei. “Sim, em teoria”, respondeu ele, “mas realmente não funciona desse jeito, porque ninguém coloca esse tipo de dinheiro em ações que valem centavos”. “Por que não?”, perguntei. “Bem, porque… Bem, hã, nós não telefonamos para pessoas que tenham todo esse dinheiro. Nós ligamos para as pessoas das classes trabalhadoras, entendeu?”
Parei por um instante e continuei:
– “Sério?”, retruquei. “Mas por que ligar para as pessoas que não têm dinheiro para investir no mercado de ações? Parece ilógico”. “Sim, talvez seja”, respondeu ele, “mas as pessoas ricas não compram ações de 1 centavo”. “Por que não?”, perguntei pela segunda vez, e ele começou a resmungar e a mastigar as palavras. Ele não tinha outra coisa a dizer a não ser que eu devia confiar nele, coisa que fiz. Em retrospecto, acho que eu estava abatido demais até para discutir, porque em circunstâncias normais eu teria debatido com ele até perder o fôlego. Em todo caso, decidi tomar suas palavras como verdade e segui o programa. Sentei-me ao lado de Chris Knight e, em seguida, escrevi um script de vendas para uma empresa de cosméticos chamada Arncliffe International.
– Por que você escolheu essa? – perguntou TOC.
Eu dei de ombros.
– Parecia o cão com menos pulgas. Quer dizer, eles não tinham vendas reais sobre as quais pudéssemos falar e havia algo como 50 milhões de ações pendentes. Mas, pelo lado positivo, eles acabavam de desembarcar na Macy’s como fornecedores, o que eu sabia que seria ótimo num discurso de vendas. Isso e o fato de o presidente da empresa ter sido vice-presidente da Revlon, o que eu sabia que seria um bom argumento também. De qualquer forma, quando finalmente terminei o script, lembro de ter ficado muito impressionado com ele. Eu tinha feito a Arncliffe soar como se fosse uma IBM, ou pelo menos próxima da Revlon, e eu não tinha contado tantas mentiras assim. Claro, eu tinha omitido alguns fatos materiais, ou seja, informações que o cliente realmente não precisava saber para tomar sua decisão, mas apesar de tudo eu realmente não tinha violado nenhuma lei de valores mobiliários.
O Canalha balançou a cabeça gravemente.
– Omissões relevantes são violações das leis de valores mobiliários – disparou ele.
– Sim, estou ciente disso agora. Na verdade, eu estava ciente disso naquela época, também, embora soubesse que seria difícil de provar. Veja, o que é material e o que não é material é um pouco subjetivo. Não se iluda, em Wall Street as omissões relevantes são a regra, e não a exceção. Seja nas grandes firmas ou nas pequenas.
Houve alguns momentos de silêncio.
– Em todo caso, mesmo com meu script sobre a Arncliffe sendo tão fabuloso quando era, Chris Knight não tinha compreendido a verdadeira beleza daquilo tudo. “Você está desperdiçando seu tempo com isso”, disse ele, apontando para meu script. “Você não precisa de um script para vender ações. Você tem apenas que jurar para os clientes que as ações estão subindo e eles compram de você.” “Sim, obrigado por compartilhar”, respondi e então eu peguei o telefone e comecei a discar. Eu estava usando os nomes que George tinha me dado, que eram na verdade cartões de pessoas que responderam a um mailing em massa. Na parte da frente dos cartões havia alguns argumentos de venda do tipo Faça uma Fortuna Comprando Ações Baratas e, na parte de trás, havia nomes de pessoas e números de telefone. Não sei, aqueles nomes me pareciam um grande acerto, quer dizer, poderia haver lista melhor do que alguém que tenha preenchido um cartão e jogado na caixa de correio? Por isso, quando consegui falar com meu primeiro cliente em potencial, um amigável sulista chamado Jim Campbell1, tive esperanças razoavelmente altas. Em um tom de voz bem otimista, eu disse “Ei, Jim! Jordan Belfort ligando da Investors’ Center! Como você está hoje?”. “Er… Tô bem”, respondeu ele, “E você, tudo bem?”. “Ah, estou ótimo, obrigado por perguntar. Agora, Jim, se você se lembra, cerca de uma semana atrás, você me enviou um cartão-postal de três por cinco, dizendo que estava interessado em investir em ações de baixo valor. Será que está lembrado?”
Continuei:
– Depois de alguns segundos de silêncio, Jim finalmente disse: “Ah, sim, eu acho que fiz isso. Quer dizer, parece uma coisa que eu faria!”. Eu me lembro de pensar: meu Deus! Ele estava tão ansioso! Tão incrivelmente receptivo! Era incompreensível. Mas mantive a compostura e disse: “Ótimo, Jim. Agora, o motivo da ligação hoje é que chegou uma coisa à minha mesa agora mesmo, e é a melhor coisa que já vi nos últimos seis meses. Se você tiver 60 segundos, eu gostaria de compartilhar a ideia com você. Tem um minuto?”. E Jim disse: “Claro! Manda bala!”. Com isso, eu me levantei da cadeira, já preparado para dar o bote. Lembro-me de um vislumbre de Chris, que estava sentado em sua cadeira, me olhando e bebendo uma garrafa de Evian. Ao telefone, eu disse: “O.k., Jim, veja, o nome da empresa é Arncliffe National, e é uma das empresas de crescimento mais rápido na indústria de cosméticos. É uma indústria de mais de 30 bilhões de dólares, essa de cosméticos, crescendo em torno de 20% ao ano. E é praticamente à prova de recessão, mantendo um crescimento consistente em tempos bons e ruins. Você me entendeu até agora?”. “Opa!”, disse Jim, impressionado. “Eu entendo!” “Ótimo!”, respondi, e fui em frente, passando alguns fatos muito gerais sobre a Arncliffe, como o nome de alguns dos produtos que eles vendiam, onde a empresa tinha sede e então, finalmente, falei do contrato que eles tinham acabado de assinar com a Macy’s. Depois disse: “Mas por melhor que tudo isso pareça, a coisa mais importante em qualquer empresa é a gestão. Você não concorda?”. “Sim”, respondeu Jim, “é claro”. “Bom”, eu disse astutamente, “no caso da Arncliffe National, a administração e a gestão estão nas melhores mãos que podiam existir. O presidente do conselho de administração, um homem chamado Clifford Seales2, é uma das mentes mais astutas da indústria de cosméticos. Ele foi VP da Revlon, um homem-chave por lá. E, com ele no comando, a Arncliffe não pode dar errado… Mas o motivo dessa ligação hoje, Jim, é muito específico: Clifford Seales está prestes a ir até Wall Street para apregoar seu estoque, na esteira de um crescimento de vendas surpreendente e do anúncio de um grande contrato. Estará indo se encontrar com bancos, companhias de seguros, fundos de pensão… os agentes institucionais. E você sabe o que eles dizem, Jim: dinheiro institucional é dinheiro inteligente, e mesmo quando não é, ainda não é o suficiente para abastecer o mercado de qualquer maneira. Você está me acompanhando?”. “Opa!”, disse Jim, “com certeza!”.
– “Muito bem, Jim. Agora, as ações estão sendo negociadas por apenas 50 centavos por ação, o que é ridiculamente barato, considerando-se o futuro da companhia. E a chave para ganhar dinheiro aqui é posicionar-se agora, antes que Seales vá para Wall Street e se reúna com todos os fundos de pensão e bancos, porque, assim que ele fizer isso, será tarde demais”. Fiz uma pausa e deixei as palavras no ar. “Então, o que eu gostaria que você fizesse é o seguinte, Jim: pegue um bloco de 1 milhão de cotas da Arncliffe National”, e ouvi splat!, um monte de água caindo da boca de Chris Knight. Depois ele engasgou e, em seguida, saiu de sua cadeira com a Evian na mão e correu em direção ao escritório de George. Eu balancei a cabeça descrente e prossegui com a venda, notando pela primeira vez que os outros corretores estavam reunidos em torno de mim. “É um desembolso de caixa de apenas meio milhão de dólares”, disse casualmente, “e não é uma questão de ter fundos hoje ou amanhã, Jim, você tem uma semana para pagar essa compra. Mas, acredite em mim”, disse, baixando a voz para um pouco acima do sussurro, “se você se posicionar agora, antes que Seales vá para Wall Street, o único problema que você terá é não ter comprado mais. Parece justo?”.
– Você pediu ao cara meio milhão de dólares? – perguntou TOC, rindo.
– Sim, eu fiz isso. É o que eles costumavam fazer na Rothschild, por isso esse tipo de coisa meio que escapou. Mas enquanto esperava que Jim respondesse ao meu pedido de meio milhão de dólares, George saiu correndo de seu escritório, com Chris Knight a reboque. Ouvi George resmungando: “Alguém tem um gravador de fita? Apresse-se! Quem tem um gravador?”. E então Jim disse: “Ah, me desculpe, Jordan, mas eu acho que você pegou o cara errado. Eu trabalho em uma fábrica de chapéus. Sou um operador de máquina. Só ganho 30 mil por ano…”.
Parei por um momento.
– De qualquer forma, para não insistir nessa questão, acabei fechando 10 mil ações com Jim, o que foi uma transação de 5 mil dólares, um dos maiores negócios da história da Investors’ Center. Eu estava prestes a aprender que essa Investors’ Center não era coisa pequena. Eles empregavam mais de 300 corretores e tinham mais de 30 escritórios, todos eles pequenos e mal administrados como aquele. Mas voltando a Jim Campbell por um segundo, eu tinha convencido o homem a comprar as ações com o dinheiro de sua conta de aposentadoria, que era a única poupança real que ele tinha…
Fiz uma pausa e soltei um suspiro perturbado.
– Se você está se perguntando se eu me sentia culpado por isso, a resposta é sim: eu me senti absolutamente horrível. Desprezível. Eu sabia que ele não deveria investir sua aposentadoria em ações de valor tão pequeno. Era muito arriscado. Mas eu estava tão completamente quebrado no momento que as palavras dinheiro do aluguel, dinheiro do aluguel ficaram piscando dentro de minha cabeça como um disco quebrado. No final, elas afogaram todo o resto, inclusive minha consciência. No momento em que desliguei o telefone, me vi instantaneamente inundado pela admiração de meus colegas, anulando todas as dúvidas residuais. Eu lembro de George me dizer: “Onde você aprendeu a vender desse jeito, Jordan? Eu nunca ouvi nada nem remotamente parecido com isso! Foi incrível!”. Claro, eu não vou negar que apreciava cada gota de sua admiração. E, não surpreendentemente, os demais corretores também estavam tomados de admiração por mim. Eles olhavam para mim com os olhos arregalados, como se eu fosse um deus. Eu me senti um deus naquele momento. Aquela nuvem negra que havia me seguido desde o negócio das carnes e frutos do mar finalmente se evaporara. Eu me senti como um novo homem, ou, melhor ainda, me senti como meu velho eu de novo.
“Bem ali, naquele momento, sabia que meus problemas financeiros estavam finalmente acabando, e sabia que Denise teria finalmente as coisas sobre as quais tínhamos falado e sonhado durante os dias negros. Um mundo de possibilidades infinitas de repente se abriu, um mundo repleto de mil oportunidades. E a partir daí as coisas passaram a acontecer muito rapidamente, começando quando George se aproximou de mim, algumas semanas depois, pedindo-me para treinar os vendedores. Foi quase idêntico ao que tinha acontecido no negócio de carnes, quando o gerente tinha me pedido para treinar os vendedores. E, assim como no negócio de carnes, minhas sessões de formação de vendas rapidamente se transformaram em reuniões motivacionais e a sala começou a lotar. Além disso, reorganizei o escritório, criando um estilo de carteiras de sala de aula e instituindo um código de vestimentas, e coloquei um fim naquele total absurdo de corretores em meio período. O que eu estava tentando fazer, em essência, era que o local se parecesse um pouco como Wall Street, para fazer os corretores se sentirem verdadeiros corretores. E não percebi a resistência de ninguém, todos eles me seguiram cegamente, tanto George quanto os vendedores, e as comissões subiram, sobretudo as minhas. No meu primeiro mês, na verdade, levei para casa um cheque de 42 mil dólares.
Parei por um momento, deixando o número ser absorvido.
– E deixe-me lhes dizer uma coisa: era mais dinheiro do que eu tinha recebido em toda minha vida. Imediatamente, Denise e eu pagamos todas as nossas contas, e depois fomos comprar um novíssimo Jeep, um Wrangler, por 13 mil dólares. Em seguida renovamos todo o guarda-roupa. Comprei para ela seu primeiro relógio de ouro e depois uma pulseira de diamantes. No final do mês, ainda havia 10 mil dólares sobrando! No mês seguinte, faturei 60 mil dólares e fui comprar o carro de meus sonhos: um Jaguar XJS branco pérola, zerinho.
Sorri com a lembrança.
– Era o modelo de duas portas, aquele com 12 cilindros e 300 cavalos de potência. A coisa era uma fera total. E enquanto Denise remodelou nosso apartamento, fui pagar todos os meus antigos credores do negócio de carnes e frutos do mar. E no mês seguinte fiz outros 60 mil, e a coisa seguiu assim; foi quando Denise e eu olhamos um para o outro com admiração. Nós simplesmente não sabíamos o que fazer com todo aquele dinheiro. Tínhamos tudo o que precisávamos e o dinheiro estava entrando mais rápido do que conseguíamos gastar. Lembro-me de um dia em particular, quando estávamos sentados à beira de um cais de madeira em Douglaston, não muito longe de onde ficava o Investors’ Center. Era meio de março, um daqueles dias mais amenos de inverno no qual se pode sentir os primeiros sinais da primavera no ar. Acho que me lembro desse dia tão vividamente porque foi uma das poucas vezes em minha vida em que me senti verdadeiramente feliz e estava verdadeiramente em paz. Era fim de tarde, estávamos sentados em duas cadeiras dobráveis que tínhamos levado e estávamos de mãos dadas, assistindo ao pôr do sol. Lembro-me de pensar que nunca amara uma pessoa tanto quanto amava aquela mulher, que nunca nem mesmo pensara que fosse possível amar alguém de forma tão pura, tão completamente. Eu não tinha um único arrependimento sobre ela, jamais pensara duas vezes a respeito de Denise. Do outro lado da Baía de Little Neck, eu podia ver a margem de Bayside, onde Denise e eu morávamos, onde eu cresci, e logo atrás de mim estava a North Shore de Long Island, para onde estaria me mudando em alguns anos e criando uma família.
Balancei a cabeça tristemente.
– Nunca, nem em um milhão de anos, teria imaginado que meu lar não fosse incluir Denise e que a mãe de meus filhos seria outra mulher. Parecia algo totalmente impossível naquele momento. Mas o que eu não tinha como saber na época era que a insanidade, como eu viria a chamar, estava logo ali, virando a esquina, entrando lentamente em mim sem que eu soubesse – balancei a cabeça uma vez mais. – No final, isso não poupou ninguém. Nem a mim, nem a Denise, nem minha família. Quase todo mundo que eu conhecia e todos com quem cresci viriam a trabalhar para mim ou iam se tornar financeiramente dependentes de mim. Vocês entendem o que eu estou dizendo?
Ambos assentiram, e então o Canalha disse:
– Quanto tempo depois disso você conheceu Danny?
Eu pensei por um momento.
– Não muito tempo, talvez três ou quatro meses. Eu o tinha visto algumas vezes ao redor do prédio onde morávamos, mas nunca trocáramos mais que uma ou duas palavras. Kenny, no entanto, estava prestes a entrar de novo na minha vida quase imediatamente. Foi naquele fim de semana ou no seguinte, não sei direito, que ele me ligou do nada e perguntou se eu podia treiná-lo para ser um corretor da bolsa.
– Como ele sabia que você tinha entrado no mercado? – perguntou TOC.
– Foi seu primo Jeff. Ele era uma das poucas pessoas da faculdade com quem eu ainda mantinha algum contato. Jeff contara a Kenny como eu estava me dando bem. Mas eu estava totalmente desconectado de Kenny quando ele me telefonou da primeira vez. Quer dizer, na última vez que nossos caminhos tinham se cruzado, o cara tinha batido uma de minhas picapes e depois se mandara me deixando uma conta de 300 dólares. As vagas lembranças que tinha dele eram totalmente negativas. Tinha algo meio errado com ele, alguma coisa em que eu não conseguia confiar. Isso foi antes mesmo de eu ter conhecido Victor Wang. Juntos, porém, os dois eram como uma aberração completa, um show de horrores: o Cabeça Quadrada e o Panda Falante – revirei os olhos. – De qualquer forma, vamos apenas dizer que minhas lembranças sobre Kenny não tinham praticamente nada de afetivo. Eu tinha atrelada a ele a ideia de uma pessoa que gostava de falar sobre arregaçar as mangas e trabalhar duro, mas que não tinha a menor ideia do que esse conceito significa.
– Por que você o contratou, então? – perguntou TOC, sorrindo.
Eu sorri de volta.
– Essa é uma pergunta muito boa, Greg… Mas vamos apenas dizer que o Kenny Greene que conheci no negócio de carnes e frutos do mar e o Kenny Greene que encontrei pela segunda vez eram duas pessoas totalmente diferentes. Ele ainda era um palerma e tudo mais, mas então, pelo menos, era um palerma mais humilde. Ele parecia saber seu lugar no mundo. De fato, uma das primeiras coisas que ele disse ao telefone era que queria me encontrar para um café, de forma que pudesse devolver o dinheiro que me devia. O único problema era que eu não precisava mais do dinheiro. Então, me vi tentado a dizer “Foda-se, amigo! Onde estavam você e seu talão de cheques quando precisei de vocês?”. Mas, claro, não fiz isso. A verdade é que havia algo no Cabeça Quadrada de que eu gostava. Quer dizer, até hoje ainda sinto certo carinho por ele, embora não tenha ideia do porquê. Ele é como um cachorrinho gigante que mija e caga na sua casa inteira, mas você sabe que ele não faz isso de propósito, o problema é que não consegue se controlar. Ainda assim, você tem certeza de que todas as manhãs o cachorrinho estará correndo pelo gramado em frente de casa para buscar seu jornal.
“Enfim, nós dois nos encontramos em um pequeno restaurante grego, no fim da rua onde ficava o Investors’ Center, e, no momento em que nos sentamos, Kenny entregou-me um cheque de 300 dólares juntamente com um pedido de desculpas por ter batido minha picape. Então ele me contou como seu primo Jeff estava sempre dizendo a ele que eu era o cara mais esperto de todos e que não havia nada no mundo que ele quisesse mais que trabalhar ao meu lado, como meu braço direito – balancei a cabeça e dei uma risada. – É bastante irônico que Kenny tivesse uma visão mais clara do futuro nesse quesito do que eu. Ele estava convencido de que eu seria o próximo fodão em Wall Street, enquanto eu tinha zero aspiração nessa área. Eu acho que ainda estava chocado demais com o lance da empresa de carnes e frutos do mar e estava tão apaixonado por Denise que não queria que nada mudasse…
TOC estreitou os olhos.
– O que fez Kenny acreditar tanto assim em você? Quer dizer, eu entendo que ele ouviu você em uma reunião de vendas na sua empresa de carnes e coisa e tal, mas ainda parece um pouco demais esse ato de fé da parte dele.
– Verdade – concordei abertamente –, mas o que ocorre é que pulei uma parte importante da história. Veja, eu não tinha certeza se Kenny era um cara talhado para o mercado de ações, por isso, em vez de concordar em treiná-lo imediatamente, pedi que depois de nosso encontro ele fosse até o Investors’ Center para que eu pudesse dar-lhe uma demonstração em primeira mão de como ser um corretor de ações. Foi depois de me ouvir ao telefone com um cliente pela primeira vez que ele jurou lealdade a mim. Isso faz mais sentido?
TOC assentiu. Eu balancei a cabeça para trás e levei um momento para pensar naquela noite. Então comecei a rir.
– O que é tão engraçado? – soltou o Canalha.
Eu balancei a cabeça rapidamente.
– Você não vai querer saber – respondi.
– Na verdade, quero, sim – ele disparou de volta.
– Bem, se você insiste – devolvi com um sorriso e estalei o pescoço lentamente. – Então, em vez de me encontrar no Investors’ Center, Kenny se ofereceu para me pegar no meu apartamento. Quando estacionou em frente ao meu prédio, ele não estava sozinho, tinha trazido sua namorada para o passeio com ele.
Parei por um momento, torcendo os lábios com o pensamento nela.
– Vamos apenas dizer que ela tinha seios do tamanho de bolas de futebol americano e os lábios de um peixinho dourado. Ela não era linda nem maravilhosa, mas era uma das garotas mais sexy em quem eu já tinha posto os olhos. Em todo caso, os dois ficaram sentados na sala enquanto assistiam a meu show pelo telefone e, claro, não pude evitar um desempenho especial para a Peixinho, que estava ocupada me despindo com os olhos enquanto eu me afundava ao telefone. Acabei tendo uma noite bem decente, faturando algo como 3 mil, e me lembro de vê-la sussurrando para Kenny sobre quão molhada ela estava ficando, apenas por me ouvir. Mas foi só no caminho de volta para casa que eu tive minha primeira dose de Peixinho e, além disso, de Kenny Greene. Nós estávamos no Mustang vermelho de Kenny, ele ao volante, eu no assento do passageiro e a Peixinho sentada entre nós dois, no meio do assento, vestindo uma camiseta minúscula e usando um perfume selvagemente sexy. Estávamos na Cross Island Parkway, perto da saída para Bayside, quando Kenny lhe disse: “Vá em frente, querida, diga a ele!”. “Não”, gemeu ela, “estou com vergonha, Kenny!”. Então, Kenny disse: “Tudo bem, eu falo então”. Ele olhou para mim e disse: “Ela ficou superexcitada só de ver você vendendo esta noite, então ela queria fazer um boquete em você. E pode acreditar: a menina consegue sugar todo o cromado de um engate de reboque! Basta olhar para sua boca. Mostre a ele, querida”. Eu olhei para Peixinho atônito, enquanto ela olhava para mim com os fabulosos lábios num bico sensual. Então ela começou a balançar a cabeça timidamente, como se dissesse “Eu realmente quero chupar tudo, senhor!”.
Parei por um momento, procurando as palavras certas.
– Quero que vocês saibam que eu tinha toda a intenção de resistir aos encantos da Peixinho, eu amava Denise com todo o coração e alma e nunca a tinha traído antes. Mas então a Peixinho começou a se esfregar em meus jeans e a enfiar seus peitos de bola de futebol no meu rosto. Enquanto ainda me deixava atônito com isso, ela deslizou para a pequena área onde estavam meus pés e lentamente abriu o zíper de minha calça.
Fiz uma pausa e balancei a cabeça gravemente.
– Bem, não é preciso dizer, ela me dominou, e só fui dar por mim quando ela já estava fazendo um boquete espetacular enquanto cruzávamos a Cross Island Parkway. Enquanto eu gemia em êxtase, Kenny, o Pervertido, mantinha um olho na pista, uma mão no volante, outro olho na boca da Peixinho e a outra mão segurando para trás os cabelos castanhos dela, para que não obstruíssem sua visão. Eu gozei, se bem me lembro, em frente à escola pública 69, a qual frequentei. De qualquer forma, quero que ambos saibam que me senti absolutamente péssimo quando passei pela porta de casa naquela noite. Eu me senti sujo e nojento, e jurei a mim mesmo que nunca trairia Denise novamente. Continuei me sentindo culpado por muito tempo depois, principalmente quando nós quatro saíamos juntos – fiz outra pausa e balancei a cabeça. – Eu acho que essa foi a parte mais difícil de todas, a de Denise e Peixinho terem se tornado boas amigas. Mas esse foi o jeito que as coisas ficaram; Kenny teve seu desejo realizado e se tornou meu braço direito, e nós quatro nos tornamos inseparáveis.
Nesse momento, a porta se abriu e entrou a Bruxa, vestida de preto. Os três olharam para ela, sem trocar palavras. Ela sentou-se ao lado de TOC e disse:
– O que foi que eu perdi?
Nada além de silêncio.
Finalmente TOC disse, com falsa formalidade:
– Bem, Jordan estava apenas nos dando algumas valiosas informações sobre seu relacionamento com Kenny Greene e a Peix…
– E eu acho que este é um bom momento para fazermos uma pausa para o almoço – interveio o Canalha.
– Sim, estou morrendo de fome – concordei.
– Hummm – murmurou a Bruxa. – Você vai ter que explicar as coisas para mim, Joel.
Espero que sim, pensei, e talvez você possa convencê-la a lhe fazer um boquete enquanto isso… Embora, pensando bem, ela pareça mais do tipo mordedor…
Fizemos a pausa para o almoço.