LOUISE


–Temos de o tentar atrair para o prazer – diz lady Arlington. – Se conseguirmos arrancá-lo ao desânimo, o resto seguir-se-á certamente.

A sua voz, com o forte sotaque holandês, propaga-se até à sala onde estou sentada. A voz do marido não penetra tão facilmente – é um ribombar grave do qual apanho apenas algumas palavras.

– Mas o sofrimento é uma espécie de prazer – argumenta lady Arlington. – Pelo menos, uma forma de autocomplacência. Hoje, Carlos está a empanturrar-se de dor; amanhã será outro excesso diferente. Ambos derivam da mesma imoderação de carácter que sempre demonstrou.

Outro ribombar.

– Mas não temos de escolher – diz lady Arlington. – Pelo me­nos por enquanto ela pode ser ambas as coisas. Quanto ao resto… atravessaremos essa ponte quando lá chegarmos.

Ela vem ver-me, toda sorridente.

– Persuadi o Bennet a deixar-nos ir à corte, ver uma peça. Uma representação privada. O rei adora teatro, normalmente, mas desde a morte da irmã tem andado algo distraído. Estamos com esperança de que esta diversão possa despertar novamente o seu interesse.

– Parece maravilhoso – digo, obedientemente. Como hóspede, tenho pouco voto na matéria.

– E vou emprestar-lhe um vestido. Usar os da irmã do rei parece ter-lhe despertado o interesse, mas é melhor não o fazermos duas vezes. – Abre o meu roupeiro e estuda o que eu trouxe comigo. – No entanto, as roupas escuras ficam-lhe bem. Vou arranjar qualquer coisa em cinzento.

A peça, francamente, revela-se enfadonha. Somos apenas uns vinte na assistência e a maioria dos espectadores parece achá-la hilariante, embora, pessoalmente, eu me pergunte se estarão a rir da graça da peça ou na esperança de fazer o rei rir também. É a história de um cortesão que finge ser um plebeu para evitar casar com uma mulher de quem finge não gostar mas que, na realidade, pretende seduzir. Em vez de mostrar uma alegria que não sinto, adopto uma expressão de – espero eu – curiosidade delicada mas neutra.

A única outra pessoa que não se está a rir é o rei. Enquanto os outros soltam risinhos e gargalhadas, ele está silencioso. Após algum tempo olho para ele e vejo que está a olhar para mim. O seu olhar é desconcertante. Sinto-me corar e decido fixar apenas os actores.

No intervalo, são servidos gelos, mas embora lady Arlington os indique ao rei, este manda embora o criado com um aceno. Diz à pessoa ao seu lado, suficientemente alto para eu ouvir:

– O que acha da peça, lorde Clifford?

– Maravilhosamente divertida – garante-lhe lorde Clifford. – A melhor que ele já fez.

– Eu acho-a forçada.

– De facto, senhor. É um pouco forçada.

– No entanto, está a achá-la hilariante.

– Divertida, senhor. Eu disse divertida. É divertida e forçada.

– Ambos os actos foram longos de mais.

– Foram um pouco a dar para o longo – concorda lorde Clifford. – Mas isso não os tornou menos divertidos.

O rei está agora a olhar para mim, não para o seu ministro, e pergunto-me se estará a espicaçar o outro homem para meu benefício.

– É enfadonha e superficial.

– Digamos que compensa uma atenção cuidada…

– As piadas eram ordinárias e as personagens fracas. O que diz, mademoiselle? – De súbito, está a falar comigo.

– Não consegui acompanhar tudo – respondo, cautelosamente. – De qualquer forma, prefiro as tragédias. Aquilo a que Racine chama a sua tristeza majestosa. Se vou ser afectada, prefiro as lágrimas ao cinismo.

A boca dele estende-se num sorriso irónico.

– Nesse caso, veio ao sítio certo, mademoiselle. Pois, em Inglaterra, a tragédia é tudo o que conhecemos. – Dá uma palmadinha na cadeira onde lorde Clifford está sentado. – Venha sentar-se junto de mim. O meu francês sempre é melhor do que o de lorde Arlington. Posso traduzir-lhe as poucas piadas que sejam dignas disso.

Sinto os olhares que cruzam a sala enquanto me levanto e sento na cadeira que lorde Clifford deixou vaga, imediatamente e sem protesto – a indiferença calculada nos rostos de pessoas que não deixam passar nada e estão instantaneamente a tentar adivinhar o que isto poderá significar.

Quando me sento, o rei murmura baixinho:

– Pelo menos, a sua presença tornará este suplício tolerável.

– Bem – diz lorde Arlington nessa noite, ao jantar, terrivelmente satisfeito. – Parece que é um sucesso, mademoiselle. O rei perguntou por si três vezes, esta noite, depois de ter saído. – Prende um guardanapo na gola e pega no garfo. Orgulha-se dos seus modos continentais, embora, para dizer a verdade, eles fossem considerados afectados em França. – Quer saber quando pode visitá-la de novo. Claro que disse a Sua Majestade que ainda está cansada da viagem.

– Foi muito atencioso da sua parte – respondo, educadamente. – No entanto, já me sinto perfeitamente repousada.

– Ainda assim, não há necessidade de apressar as coisas. – Crava o garfo alegremente na coxa gorda de uma galinha.

– Mas diga-me, lorde Arlington – insisto. – Se vou ser dama de companhia da rainha, não devia ser apresentada a Sua Alteza?

– A rainha raramente está na corte – diz lady Arlington. – Desde o seu último aborto, tem estado muito mal de saúde. Passou a maior parte do mês passado na cama e os médicos estão quase a desesperar.

– Lamento muito saber disso. Rezarei pela sua recuperação.

– Neste país, há quem reze precisamente pelo contrário – diz Arlington calmamente. Começa a falar em francês, presumivelmente para que os criados não compreendam o que está a dizer. Já me apercebi de que isto significa uma conversa sobre religião ou política, ambos temas extraordinariamente perigosos por aqui. – Nada agradaria mais ao parlamento do que o rei ficar livre para casar com uma protestante. Escusado será dizer que isso seria um desastre, principalmente para França. Será que… – Lança-me um olhar pensativo.

– O que é, meu querido? – pergunta a mulher.

– Nada – responde ele em inglês. – Apenas um pensamento fugaz.

Загрузка...