LOUISE


Ele dança comigo e sinto a urgência do seu desejo. Beija-me durante a dança, como os outros pares, e os seus lábios demoram-se um pouco mais do que deviam.

Quando tem de me soltar a mão para eu poder rodar para outro parceiro, sinto a sua relutância, os meus dedos a deslizarem entre os seus até que, com um suspiro, se vira.

No entanto, mantém a sua promessa. Nunca tenta fazer-me sentir como se não tivesse escolha.

Isso, mal ele o sabe, está a ser feito por terceiros. Colbert re­corda-me quase diariamente que estou a abusar da paciência não de um, mas de dois reis. Lady Arlington diz-me que tenho de agir, antes que Carlos se interesse por outra. Lorde Rochester fita-me com olhos cínicos e embriagados e declara que estou a jogar um jogo de astúcia.

– Não sabia que as cadelas francesas eram cães de caça tão espertos – diz.

E Carlos trata-me com tanta cortesia que só quando estou com ele é que não me sinto cercada.

Contudo, esta agitação por causa do seu filho deu-lhe algo novo com que se preocupar. Tal como me deu a mim, talvez, uma nova maneira de cair nas suas boas graças.

*

Trata-se de lorde Monmouth – o seu filho mais velho, ilegítimo, claro: fruto de uma união com uma mulher chamada Lucy Walters, durante os primeiros anos do seu exílio. Agora o rapaz tem vinte anos e é um estouvado.

No parlamento, recentemente, houve um debate sobre a angariação de dinheiro – há sempre debates sobre a angariação de dinheiro, para pagar as dívidas do rei. Alguém propôs que se podiam lançar impostos sobre os teatros. Um membro do partido da corte observou que os teatros davam muito prazer a Sua Majestade e deviam, portanto, estar isentos. A isto, um membro da facção parlamentar, um tal de John Coventry, respondeu com ar pensativo se seriam os teatros que davam grande prazer a Sua Majestade, ou aqueles que neles representavam – numa clara alusão à preferência do rei por actrizes.

O silêncio que se seguiu a esta observação persuadiu-o de que era altura de se sentar, mas o mal estava feito: ao fim do dia, o seu gracejo estava a ser repetido em todas as tabernas e cafés de Londres.

Estava também a ser falado em Whitehall, onde um dos mais escandalizados com a impertinência de John Coventry era Jemmy Monmouth. Declarando que o pai fora insultado, interceptou Coventry no caminho para casa e cortou-lhe o nariz com uma espada.

Em resposta, o parlamento aprovou uma lei que declarava ser crime para qualquer pessoa tocar ou atacar um membro dessa assembleia. Não podiam acusar Monmouth, claro, uma vez que o ataque tivera lugar antes da aprovação da lei; mas estavam a dizer que, no futuro, teriam o direito de o fazer.

Isto, por sua vez, causou mais ultraje – a ideia de que as leis feitas no parlamento podiam ser aplicadas a pessoas de sangue real. Em vez de manter a discrição, lorde Monmouth e os amigos decidiram fazer uma exibição pública da sua desobediência. Depois de uma noite de copos foram à procura de diversão, que encontraram na pessoa de uma menina de dez anos que ia com o avô. A menina era bonita e decidiram abusar dela. O avô protestou e eles atiraram-no ao chão. Apareceu um bedel nocturno que também protestou; tanto pela juventude da menina, como pelo facto de a quererem tomar à força e pelo tratamento dispensado ao avô. Então eles mataram o bedel ao pontapé.

Aqueles que defendiam Monmouth até aqui deram por si numa posição complicada. Pois se ele podia cortar o nariz a um homem sem se submeter à lei, certamente que seria a mesma coisa agora que tentara violar uma criança e assassinara um funcionário público de idade avançada?

Os ministros do rei estão divididos. Aqueles que dizem que Monmouth deve ser castigado temem que o povo se revolte caso lhe permitam sair impune. Os que dizem que o parlamento não tem de ser aplacado afirmam que os motins podem sempre ser controlados com balas.

Carlos está relutante em usar o exército. Ninguém sabe melhor do que ele que os motins facilmente se transformam em revoluções.

– Uma coisa é manter a coroa sobre a cabeça – diz. – Outra, completamente diferente, é manter a cabeça sobre os ombros.

Começo a ver aqui uma oportunidade.

A questão é subtil. Monmouth, por mais que acredite estar ligado à facção do pai, é o aliado natural dos parlamentares. Como protestante e filho reconhecido do rei, podia ser a escolha popular para o trono se Carlos se convertesse ao catolicismo.

Assim, quanto menos popular Jemmy Monmouth for, melhor para os interesses de França.

E – mais importante ainda – se eu conseguir demonstrar a minha influência sobre Carlos numa questão menor como esta, talvez consiga conquistar alguma liberdade.

*

Por fim, Carlos encontra-se num impasse. Entre os conselheiros que dizem que tem de lidar com Monmouth e os que defendem que é preciso enfrentar o parlamento, está preso num pânico de indecisão.

Enquanto caminho com ele nos seus jardins privados, digo, calmamente:

– Parece-me que o seu dilema é não conseguir decidir se deve castigar o Jemmy ou perdoá-lo.

– Sim – diz ele, com um suspiro. – É precisamente isso.

– Então porque não fazer ambas as coisas? – sugiro. – Perdoar-lhe primeiro, para que não seja preso pelos tribunais, mas depois castigá-lo de outra forma qualquer, para que todos possam ver que o rei não está disposto a tolerar este tipo de comportamento.

Ele pensa no que eu disse.

– Mas como o castigaria?

– Podia ser banido. Afinal de contas, ele é pouco mais do que um adorno da sua corte. E, assim, deixaria bem claro ao povo que o rei é uma autoridade superior à lei. – Hesito. – Na verdade, Carlos, sairia disto com a sua posição reforçada.

– Louise, é um excelente conselho! – exclama ele. – Porque é que os meus ministros não se lembraram disso?

Encolho os ombros.

– Às vezes, quem está de fora tem mais facilidade em dar conselhos. Diga-me, é verdade que o Grammont inventou uma dança nova e engraçada?

No dia seguinte, os meus aposentos estão cheios. Ministros que mal conheço aparecem para me cortejar. lorde Arlington exibe-me, correndo de um lado para o outro e mandando trazer mais cadeiras. Os jovens libertinos vêm namoriscar com as minhas damas de companhia; os mais velhos vêm tirar-me as medidas.

Sirvo-lhes gelos em taças de vidro minúsculas. Discuto teatro com o senhor Dryden e teologia com o bispo de Chester.

É a isto, penso, que sabe a influência.

Em breve será altura de falar novamente de guerra com Carlos. Porém, desta vez, não o farei directamente. Aprendi a lição. Tenho de ser mais subtil, de usar uma abordagem indirecta.

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